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Futebol, sociedade e política: influência da política na formação e desenvolvimento do futebol no Brasil

O presente trabalho tem como objetivo realizar uma análise histórica dos fatores políticos que afetaram o futebol e a sociedade, e se há ainda alguma relação direta do Estado com o desempenho da Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Para isso foram relatados todos os períodos políticos que marcaram o governo brasileiro desde meados do século XIX até o momento atual com algumas perspectivas futuras, uma vez que a globalização infere de forma cada vez mais direta na representação do esporte, principalmente o futebol.

O Estado observando a forte cultura do futebol que se espalhava em todas as classes sociais utilizou-se deste meio como divulgação de sua política a fim de se associar aos resultados futebolísticos, agindo com certa influência no comando do futebol nacional, nas suas políticas públicas e controlando-o diretamente conforme as características do governo.

Assim, o futebol foi obrigado a se adaptar à incontrolável profissionalização dos atletas, a introdução do negro na sociedade – como ferramenta de valorização do futebol e necessidade de um maior mercado consumidor, as diferentes funções da modalidade nos regimes ditatoriais desde a Era Vargas até o Regime Militar, e na sua democratização no final do século XX – mais recentemente – com a abertura do futebol também ao mercado externo, como consequência da política do neoliberalismo, globalizando jogadores, clubes e até seleções.

No contexto da globalização, há em especial no caso do Brasil, as diversas disputas políticas que envolvem a realização da Copa do Mundo FIFA 2014 e dos Jogos Olímpicos de Verão no Rio de Janeiro em 2016, além da modernização do futebol brasileiro como um todo na tentativa de diminuir a condição de país exportador de jovens jogadores para Europa e Ásia e adquirir uma melhoria geral para o torcedor na sua condição de consumidor do futebol.

Introdução

A razão da análise entre o futebol brasileiro e suas diretas e indiretas relações políticas que o envolviam e organizavam se dá pelos diferentes períodos políticos que o Estado governou a partir de meados do século XIX, que impulsionaram o esporte e principalmente o futebol, conforme seus interesses e necessidades.

Ao retratar os quadros sociais existentes nas épocas ditatoriais brasileiras devemos relatar especialmente dois importantes períodos: a República Velha (1889 à 1930) e a Ditadura Getulista, ou Era Vargas, (de 1930 à 1945) (FAUSTO, 2002) Posteriormente a este período houve a República Nova (1945 à 1964), o Regime Militar (1964 à 1985) e a Nova República (1985-presente).

O futebol nestes primeiros períodos já ganhou naturalmente alguma “popularidade? entre quase todas as classes, mesmo sendo originalmente um esporte para nobres e britânicos (FRANCO, 2007). Sendo este esporte uma maneira, principalmente o homem brasileiro, que encontrou para se expressar. Uma maneira do cidadão nacional de extravasar suas paixões, vontades, alegrias, tristezas, felicidades, fidelidades, etc. (DAMATTA, 2006).

Muitos relatos de antropólogos, sociólogos e historiadores tentam entender a massificação do futebol no Brasil, dentre esse questionamentos surge um outro problema mas este já de caráter mundial, que é o porque se aderir à um clube, visto que não é por conquista de títulos ou presença de grandes craques mas algo parecido com uma entidade mitificada anos após anos, no qual agrega homens e mulheres, jovens e velhos, pessoas de todas as raças ou escalão social. Sendo para muitos um clube, uma pequena pátria (NOGUEIRA, 2006).

A utilização do futebol com outros propósitos já era utilizada no início do século XX, quando em uma de suas confidências, ainda na década de 30, Getúlio já percebia a grande ferramenta que tinha em mãos, percebendo que o jogo monopolizava as atenções do povo. Relatando tal conclusão após a perda do team brasileiro para o italiano que causou grande decepção e tristeza no espírito público, como se tratasse de uma desgraça nacional (VARGAS, 19951 apud AGOSTINO, 2002).

Porém havia mais conflitos internos dentro da própria organização do futebol brasileiro do que parecia, a rivalidade entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, e as confederações amadoras além das que buscavam a profissionalização do futebolista no Brasil dificultavam a formação de uma seleção realmente forte, com os melhores atletas que representassem a nação sem nenhuma disseminação, ou caráter xenófobo (AGOSTINO, 2002; SOTER, 2008).

Como forma de atrair mais a população para o esporte, foram construídos os dois principais estádios municipais nos mais importantes centro futebolísticos da época, o Pacaembu em 1940, onde Vargas o utilizava para grandes manifestações de massa organizadas ao longo do Estado Novo, e o Maracanã (1950), acordado ainda em 1938 quando já especulava uma próxima copa do mundo no Brasil e a construção de um estádio com o tamanho compatível com o futebol nacional (TOLEDO, L. H. 2000; FERREIRA, J. F. 2008)

Consequentemente a população aceitou o futebol como lazer e posteriormente como profissão, agregando o esporte a sua cultura e representação nacional.

Para ler o conteúdo na íntegra, clique aqui.

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A ação do treinador: dos gritos à descoberta guiada

“Para mim liderar não é mandar, para mim liderar é guiar”
José Mourinho

 

“Ser treinador de futebol não é nada fácil…”: essa frase muitas vezes remete à instabilidade do cargo, mas nesta coluna tal afirmação serve muito bem para ilustrar a complexidade da ação desse profissional dentro do processo de treino.

Em um processo de treino pautado na complexidade, a ação do treinador interfere diretamente na dinâmica de toda a atividade, modificando os objetivos e as ações dos jogadores dentro do treino.

No estudo de Rampinini e outros autores (Factors influencing physiological responses to small-sided soccer games), podemos observar como a intervenção do treinador modifica diretamente os parâmetros físicos das atividades.

Nesse estudo, os autores submetem os jogadores a jogos reduzidos com e sem a intervenção verbal dos treinadores. A frequência cardíaca, concentração de lactato sanguíneo e na percepção subjetiva de esforço foram mesurados e analisados em cada atividade.

Os dados mostram que quando há a intervenção ativa com estímulo verbal do treinador, há um incremento em todos os parâmetros observados; já quando não há a intervenção do treinador, esses dados sofrem uma queda significativa. Sendo assim, podemos concluir que a ação do treinador interfere diretamente no estímulo físico dentro dos jogos reduzidos.

Contudo, não basta incentivar verbalmente os jogadores para que eles corram mais, ou gritar se eles cometerem algum erro dentro da atividade: é preciso saber guiar todo o processo!

Guiar todo o processo significa orientar os jogadores para aquilo que se espera dentro do jogo. Na base, essa orientação vai além do jogo e se foca (pelo menos deveria) no desenvolvimento de jogadores inteligentes e como visão crítica sobre o jogo, e não simplesmente obedientes taticamente.

O treinador precisa traçar os objetivos e guiar os jogadores ao longo do caminho. Nesse âmbito, a dura ou a repreensão pode e deve ser utilizada em momentos pertinentes, pois formar muitas vezes requer esse tipo de intervenção (claro que com toda a ação pedagógica embutida).

Para José Mourinho, os jogadores precisam ser estimulados a discutir, questionar, experimentar. Tudo com a supervisão e orientação de toda a comissão, que não deve deixar que isso se torne em uma grande discussão, na qual qualquer raciocino é permitido.

A discussão precisa ter um norte, que evolui a cada treino e não deixa que os jogadores se acomodem em questões antigas. Nesse processo, denominado de “descoberta guiada” pelo treinador português, não há estagnação e as discussões evoluem a cada treino e a cada jogo.

Sabemos que cada atividade tem seu objetivo e nosso papel como professor em sua essência deve ser de levar os atletas a entender e avaliar a eficiência de suas ações jogo a jogo, treino a treino.

Em suma, precisamos guiar o processo e não trazer respostas prontas com conteúdo vazio de significado para os atletas.

Lembre-se que esse guiar passa pelos aspectos físicos, técnicos e mentais do jogo, e não apenas pela tática.

Até a próxima.

Para interagir com o autor: bruno@universidadedofutebol.com.br 


Referências
:

Rampinini E, Impellizzeri FM, Castagna C, Abt G, Chamari K, Sassi A, Marcora SM. Factors influencing physiological responses to small-sided soccer games. J Sports Sci. 2007;25(6):659-66.

Lourenço, L, Mourinho: a descoberta guiada. São Paulo: Almedina, 2010

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Como marcar o Barcelona?

Quem é o melhor time do mundo atualmente? A resposta para essa pergunta é comum para a maioria dos amantes do futebol: o Barcelona.

Com um toque de bola envolvente, movimentações intensas, muitas jogadas de habilidade e muitos títulos, o time catalão é hoje o modelo a ser seguido por muitos treinadores e atletas. Mas ao mesmo tempo que muitos o dissipam, poucos conseguem desvendar: como marcar essa equipe?

Para mim, assim como para a maioria dos amantes do futebol, o Barcelona é sem dúvidas a melhor equipe do futebol mundial por principalmente dois fatores: a posse de bola e a intensidade de sua movimentação. Então, para marcá-lo, obviamente é necessário neutralizar em especial esses dois quesitos com ações táticas inteligentes.

Acredito em duas ações táticas interessantes que poderiam parar o Barcelona.

Em recente palestra de Carlos Alberto Parreira realizada na Federação Paulista de Futebol em conjunto com a Universidade do Futebol, um dos participantes levantou a possibilidade de pressioná-los nas laterais do campo, pois por ali o campo diminui e é mais difícil de manter a posse de bola quando se recebe pressão.

Outra ação interessante seria tentar inutilizar a impressionante posse de bola do Barcelona, tentando fazer com que a mesma se torne apenas uma “posse de bola de manutenção”, quando a equipe tem o controle, porém sem conseguir progredir em direção ao gol adversário ou criar jogadas de perigo.

Seria feita uma marcação setorial ou plantada, não deixando o Barça penetrar ou movimentar-se com tranquilidade.

Para dar resultado, porém, é preciso ressaltar que as ações precisam ser executadas com maestria e que nenhuma das possibilidades acima é verdade absoluta, mas, para mim, são as situações mais coerentes para marcar o Barcelona.

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O treinamento em futebol e os níveis neurológicos

Aproxima-se o fim de inúmeras competições pelo Brasil. Tanto nos campeonatos das categorias de base como nas competições profissionais, as próximas semanas serão de jogos decisivos. E estes jogos, físicos-técnicos-táticos-emocionais ao mesmo tempo, para todos os jogadores, durante os minutos que correspondem a cada partida, pedem treinamentos que contemplem as mesmas características do jogo, certo? Pelo que temos visto, errado!

Declarações, observações, leituras, imagens e reportagens variadas ilustram um cenário que precisa ser alterado mais rapidamente.

Trações, circuito com saltos e acelerações, corridas com mudanças de direção, finalizações descontextualizadas, saltos com pneu, táticos-sombra ou quaisquer outros treinamentos que privilegiem fragmentos do jogo (e não fractais), podem significar perdas de minutos preciosos em momentos, conforme mencionados, tão decisivos. Para estes momentos, leia-se a luta contra o rebaixamento, o acesso, o título, as vagas em competições importantes e, inclusive, a manutenção do emprego.

O dinamismo do mundo atual permite o acesso à informação, ao que é novo ou tendência, num intervalo de tempo consideravelmente pequeno. No futebol, o novo é treinar conforme se quer jogar. Barcelona, José Mourinho, Júlio Garganta, Porto, Claude Bayer, Rodrigo Leitão, Universidade do Porto, Vítor Frade, Ajax, Alcides Scaglia, André Villas-Boas são exemplos de pessoas e instituições que têm privilegiado e divulgado o que é atual.

Porém, por que mesmo com tanta informação disponível, a transformação está aquém da ideal?
Cada indivíduo interpreta a realidade de forma distinta. Diferentes experiências, aprendizagens, vivências e reflexões formam a visão de mundo de cada ser humano, que pode ter maior ou menor capacidade de mudança.

Alguns estudiosos do comportamento humano afirmam que gerimos a mudança (e todos os nossos pensamentos) a partir de seis níveis neurológicos: ambiente, comportamento, competências, crenças/ valores, identidade e espiritualidade.

A interpretação da realidade considerada neste texto será a do treinamento em futebol que, de acordo com todo o material científico que se tem conhecimento, pode ser desenvolvido a partir de um viés tecnicista, integrado ou atual (sistêmico).

O ambiente significa o local em que cada indivíduo atua. Traduzindo para o treinamento em futebol, corresponde a cada clube, formado por um determinado grupo de pessoas.

O comportamento compreende as atitudes efetivas de cada pessoa em um determinado ambiente. Em relação ao treinamento, tais atitudes se referem à maneira que é operacionalizado o processo de desenvolvimento de uma equipe.

Já as competências significam o conjunto de habilidades que cada indivíduo possui e que refletem o modo como o mesmo aplica seus conhecimentos. Para o exemplo deste texto, traduz o que o indivíduo sabe e o quanto se capacita.

E, por último (afinal não será abordada a identidade e espiritualidade para não parecer demasiadamente utópico), o treinamento em futebol segundo as crenças e valores. Neste nível neurológico, a interpretação da realidade se dá de acordo com o que a pessoa acredita, com seus princípios e com suas verdades.

Posto isso, é possível afirmar que a transformação está aquém da ideal, porque pouquíssimos indivíduos que atuam com o futebol conseguem gerar mudanças efetivas no nível neurológico das crenças e valores.

Toda informação disponível tardará para ser, de fato, uma transformação do futebol brasileiro, enquanto as intervenções ocorrerem somente nos três primeiros níveis neurológicos.

Diversos ambientes não permitem uma troca harmoniosa de conhecimento entre os seus integrantes e enquanto treinadores acreditarem que vencerão seus jogos simplesmente porque estão há muito tempo na bola e conhecem o meio, a transformação será atrasada.

O comportamento predominante do treino em futebol não converge para todas as sessões diretamente relacionadas com a ideia de jogo do treinador e assim permanecerá enquanto os preparadores físicos crerem que são necessárias sessões exclusivas para o desenvolvimento de potência, capacidade aeróbia ou resistência específica.

Leituras sobre periodização tática, complexidade, teoria dos jogos, ensino dos JDC e princípios táticos do futebol não irão para a prática, ou irão menos do que poderiam, enquanto forem verdades absolutas para as comissões técnicas, as experiências adquiridas tanto de caráter empírico ou científico.

Mas, se cada indivíduo, não só para o treinamento em futebol, mas para a vida, decidir ampliar sua reflexão, discussão e busca de conhecimento (e autoconhecimento), as mudanças emergenciais serão mais rápidas.

Transformar crenças e valores não é fácil! Os mesmos estudiosos do comportamento humano afirmam que quanto mais alto o nível neurológico, mais difícil é a mudança. O certo é que não há mudança de crença sem tentativa, sem risco, sem acertos, sem erros, sem novas experiências e disponibilidade para novas oportunidades.

Caso haja mudança de crenças e valores em cada indivíduo, consequentemente serão re-significados os três níveis neurológicos inferiores.

Quando a interpretação da realidade para o treino de futebol estiver fundamentada numa perspectiva sistêmica, a sede pela aquisição constante de novas habilidades transferirá todo o conhecimento teórico já existente para a realidade prática.

Com novas competências, derivadas de crenças e valores transformados, novos comportamentos serão observados, pois os anteriores perderão o sentido.

Finalmente, novos comportamentos refletem em mudanças de ambiente, ou seja, do grupo de pessoas que formam cada um dos clubes do futebol brasileiro.

Existem diferentes maneiras de cada ser humano modificar suas crenças: pode ser procurando ajuda, se conhecendo, estudando, conversando, ou de qualquer outra forma que permita um exercício frequente de reflexão.

Para você que já crê no que é atual em relação ao treinamento em futebol, faça sua parte com as competências e comportamentos adequados nos ambientes em que você atua. Já para aqueles que não crêem, não esperem o ambiente e o comportamento dos outros mudarem para você fazer o mesmo, pois isto pode não resolver se suas crenças permanecerem imutáveis.

Enfim, para todos os casos, a mudança só depende de você! Em que nível neurológico você está em relação ao treinamento em futebol?

Às vezes, para falar de futebol é preciso falar de pessoas…

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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A culpa é de quem?

Saudações a todos!

Essa pergunta sempre surge quando um clube de futebol não vai bem, quando um casal se separa, quando uma empresa não alcança os resultados planejados ou quando o filho não vai bem na escola.

A pergunta é necessária, pois as pessoas precisam encontrar um “culpado” e puni-lo. Parece que assim o problema está resolvido. E fazem isso da maneira mais fácil para elas: olham apenas um lado dos fatos, normalmente o que lhes convém, e determinam quem é o culpado e a punição a ser aplicada.

No futebol, em 99% das vezes, o culpado é o treinador; então, é só demiti-lo e tudo volta às mil maravilhas.

No casamento, o culpado para a esposa e seus familiares e amigos é o marido, e para o marido e seus familiares e amigos, a culpada é a esposa.

Nas empresas, não pensem que é diferente: sempre acham um ou uns culpados para os insucessos e mandam embora, e novamente fica tudo certo.

Quando um filho vai mal na escola a culpa é… claro, da professora, do ambiente, das más companhias, etc., então é só trocar de escola, ou pedir a demissão da professora ou mudar de sala e está tudo resolvido.

Se vocês fizerem uma rápida reflexão e pegarem fatos do seu cotidiano, e se questionarem, verão que em nenhuma das situações apenas encontrar o culpado foi a melhor forma de resolver um problema.

Por exemplo, no fim de um casamento, se é que existe culpa, não existe um culpado, com certeza houve um desgaste, um descontentamento mútuo. E como é uma relação bilateral, as duas partes poderiam ter feito algo para o bem da união. Se você já passou por isso e se casou de novo, tenho certeza de que aproveitou as lições, fez uma reflexão de suas ações e está mais equilibrado. Se não passou, aproveite as experiências dos mais próximos e seja mais feliz agora mesmo.

Nas empresas, se a meta não foi atingida, com certeza houve uma conjunção de acontecimentos – planejamento inadequado, falta de gestão, falta de acompanhamento, mudanças de cenários, etc., que culminaram com os resultados abaixo do esperado. Portanto, culpar e demitir Paulo, Carlos ou Carolina de longe não irá solucionar nada. Mais do que isso, o fundamental é que a gestão da empresa se reúna, veja onde foram as falhas, quais as correções necessárias e em seguida se apliquem as medidas cabíveis.

Se um filho não vai bem na escola, antes de culpar a professora, o ambiente, as más companhias ou o método de ensino, os pais precisam verificar se o filho de fato é dedicado, se estuda no dia a dia, se presta atenção nas aulas, se estuda mais focado na época de provas, etc.. Tenho certeza de que se esta reflexão for feita, e os pontos fora de conformidade forem corrigidos, a troca de escola acontecerá somente em casos extremos.

No futebol, apesar do o treinador ser taxado como o maior culpado e consequentemente ser demitido, na maioria dos casos o problema não se resolve aí. Com certeza porque o “culpado” não é o treinador, ou não é somente o treinador.

Vejam o exemplo do São Paulo, que em menos de três anos demitiu:

Muricy Ramalho – que, em seguida, foi Campeão Brasileiro com o Fluminense e da Copa Libertadores da América com o Santos;

Ricardo Gomes – que foi campeão da Copa do Brasil pelo Vasco;

Paulo César Carpegiani – que fazia um ótimo trabalho pelo
Atlético-PR;

Além de Adilson Batista e de ter rebaixado Sergio Baresi para as categorias de base novamente.

Vocês realmente acreditam que os culpados pelo mau desempenho do São Paulo eram os treinadores? A direção do clube, pelos fatos recentes, acredita que sim e jura que esta fazendo “tudo certo”.

Já dizia sabiamente o “filósofo” Bruce Willis em um de seus filmes: “quem não faz parte da solução… faz parte do problema!”. Vale a reflexão para a diretoria do São Paulo.

É certo de que eu não conheço os bastidores do clube, mas tenho certeza de que se o presidente e seus asseclas fizerem uma reflexão mais cuidadosa e detalhada, identificarão outros pontos impactantes nos resultados pouco expressivos do clube e saberão, se é que já não sabem, que apenas trocar de treinadores “aliviará a pressão”, mas não levará o clube a ter títulos.

O técnico Emerson Leão chegou para buscar o glamour perdido do clube e dos admiradores do futebol. Torcemos para que a direção entenda que ela faz parte do problema e que não “mate” mais um técnico.

Esses casos são apenas exemplos do que acontece no nosso cotidiano. Existem vários outros. O importante é que quando estiverem envolvidos em situações semelhantes, ao invés de achar “um culpado”, reflitam e vejam como podem contribuir para encontrar soluções e, claro, serem parte da solução.

É isso, pessoal! Agora, intervalo, vamos aos vestiários e nos vemos na próxima semana.

Abraços a todos!

Para interagir com o autor: ctegon@universidadedofutebol.com.br  

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Treinamento de força aplicado ao futebol

No futebol moderno, além da resistência cardiorrespiratória já valorizada desde a década de 60/70, a força e a velocidade ganham cada vez mais importância.

Um estudo recente realizado com a primeira divisão do futebol italiano demonstrou que embora a maioria do jogo seja realizada em baixa intensidade, os momentos decisivos são realizados em períodos muito curtos (5s), mas com intensidades muito altas (acima de 17km.h-1) (Castelano et. al. 2011).

Antes de pensarmos em um programa de treinamento ideal para desenvolvimento de força e/ou velocidade, é necessário saber quais estruturas e propriedades musculares permitirão esse desenvolvimento.

Em primeiro lugar devemos considerar a arquitetura do músculo esquelético em questão. Um músculo produzirá mais força quanto maior for sua secção transversa e quanto maior for a quantidade de sarcômeros em paralelo nessa área. A distribuição penada das fibras musculares será capaz de produzir mais força do que a distribuição longitudinal por acumular mais sarcômeros numa mesma região do que os músculos que possuem distribuição longitudinal das fibras. Por outro lado, o músculo com distribuição longitudinal será capaz de produzir mais velocidade, já que a transmissão da força nos sarcômeros distribuidos em pararelo será mais rápida e mais eficiente do que a distribuição penada.

Outro aspecto importante é a natureza das unidades motoras que inervam as fibras musculares. Unidades motoras do tipo F possuem ativação elétrica mais potente e mais rápida do que as unidades motoras tipo S que pelo fato de possuírem potencial de disparo mais fraco e mais lento, geram menor grau de tensão e menos velocidade.

O tipo de fibra também é uma variável importante na determinação de força e velocidade. Fibras tipo IIx, (também denominadas de IIb, rápidas ou brancas), são mais rápidas do que as fibras tipo l (também denominadas de lentas ou vermelhas), pelo fato de o retículo sarcoplasmático, o metabolismo de Ca2+ e as enzimas responsáveis pela produção de energia serem mais eficientes.

A questão hormonal também parece ser importante para maior produção de força, pois quanto mais hipertrofiado for um músculo, maior será sua capacidade de geração de força, já que o conteúdo de sarcômeros em paralelo estará aumentado. Embora isso não seja consenso na literatura, hormônios anabólicos como hormônio do crescimento (GH) e testosterona parecem contribuir sobremaneira para o processo hipertrófico, enquanto hormônios catabólicos, como cortisol, por exemplo, parecem interferir negativamente nesse processo.

A maturação sexual também é um fator crucial na maquinaria de produção de força e velocidade. As atividades de unidades motoras tipo F (rápidas) e das enzimas que participam do fornecimento mais rápido de energia dependem de fatores maturacionais. Isso explica porque atletas mais maduros apresentam maiores níveis de força e velocidade do que atletas ainda não maduros.

Como o músculo é composto basicamente por proteínas, o aspecto nutricional também é determinante para o aumento da força. Embora não exista consenso na literatura sobre o horário ideal de ingestão dessas proteínas (pré, durante ou pós treino), um balanço nitrogenado negativo (ingesta deficitária de proteína) acarretará numa hipertrofia aquém do esperado, enquanto um balanço nitrogenado positivo (ingesta ideal de proteína) acarretará num grau de hipertrofia ótimo. A literatura aponta a necessidade de ingestão protéica na ordem de 0,8 a 1,2g de proteína para cada kg de peso corporal, podendo esses valores alterarem com a idade e com o tipo de treino que se realiza.

A força e a velocidade também são dependentes do tipo da ação muscular realizada. Nesse sentido, ações concêntricas tendem a produzir menos força e menos velocidade do que as ações excêntricas, pelo fato de as primeiras iniciarem o movimento com as unidades motoras tipo S e depois ativarem as unidades motoras tipo F (princípio do tamanho, do recrutamento ordenado, da somação espacial e da somação temporal). Já as ações excêntricas têm capacidade de ativar as unidades motoras tipo F primeiro e por não respeitarem o princípio do tamanho, produzem força mais rapidamente.

A rigidez muscular (stifness) é mais um fator determinante de força e velocidade, pois além do componente contrátil, as fibras musculares também possuem componentes elásticos (tendões, epimísio, perimísio, endomísio e titina) que auxiliam na restituição mais rápida de energia elástica, fazendo com que o músculo consiga ter uma contração “passiva”, especialmente nas ações excêntricas. Desse modo, quanto mais rápida for a restituição de energia, melhor será a produção de velocidade.

Melhora do “retardo eletromecânico” também é um efeito do treinamento de força e velocidade, pois quanto mais rápida for a transferência do estímulo neural para o músculo, mas rápido este produzirá força e maior será sua velocidade.

Por fim devemos lembrar que o maior determinante da produção de força e da velocidade será a carga externa aplicada contra o aparelho locomotor. Cargas altíssimas ou muito próximas da máxima tendem a aumentar a produção de força, porém diminuem a velocidade. Ao contrário, cargas muito leves tendem a proporcionar maior velocidade, mas diminuem sobremaneira a produção de força. Nesse aspecto, para cada grupo muscular que se deseja melhorar força e velocidade, é importante encontrar uma carga ideal que permita maior produção de força com a máxima velocidade possível.

No futebol, pelo fato de a maioria das ações do jogo serem realizadas contra o próprio peso corporal, cargas entre 30 e 60% da força máxima parecem permitir o desenvolvimento de força na máxima velocidade possível e contribuem positivamente tanto para força quanto para velocidade.

Para interagir com o autor: cavinato@universidadedofutebol.com.br

Para saber mais

American Dietetic Association; Dietitians of Canada; American College of Sports Medicine, Rodriguez NR, Di Marco NM, Langley S. American College of Sports Medicine position stand. Nutrition and athletic performance. Med Sci Sports Exerc. 2009 Mar;41(3):709-31.

Castellano J, Blanco-Villaseñor A, Alvarez D. Contextual variables and time-motion analysis in soccer. Int J Sports Med. 2011 Jun;32(6):415-21.

Crewther B, Keogh J, Cronin J, Cook C. Possible stimuli for strength and power adaptation: acute hormonal responses. Sports Med. 2006;36(3):215-38.

Faigenbaum AD, Kraemer WJ, Blimkie CJ, Jeffreys I, Micheli LJ, Nitka M, Rowland TW. Youth resistance training: updated position statement paper from the national strength and conditioning association. J Strength Cond Res. 2009 Aug;23(5 Suppl):S60-79.

Guilhem G, Cornu C, Guével A. Muscle architecture and EMG activity changes during isotonic and isokinetic eccentric exercises. Eur J Appl Physiol. 2011 Nov;111(11):2723-33.

Selvanayagam VS, Riek S, Carroll TJ. Early neural responses to strength training. J Appl Physiol. 2011 Aug;111(2):367-75.

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Leis Antidoping – Comentários, Convenção da UNESCO, Código Mundial, Lista Proibida

PREFÁCIO

O presente estudo é produto da reflexão profícua sobre um dos temas mais momentosos e empolgantes acerca do esporte da atualidade: o doping.

Aliás, se o espírito desportivo, que a todos contagia, celebra a superação do corpo e a higidez da mente humana [condensados na máxima latina do “mens sana, in corpore sano”], a dopagem, seguramente, tal uma pífia iniciativa, perverte a imagem do esporte como uma escola onde os princípios e as regras devem [sempre] ser respeitadas.

A luta contra o doping, em verdade, volta-se à preservação dos valores intrínsecos ao desporto, os quais constituem a essência do Olimpismo e estão por enaltecer, em cada competidor, a ética e a honestidade, a saúde e a coragem, a excelência no rendimento, o divertimento e a satisfação, o trabalho de equipe, o respeito às regras e às leis, o respeito por si próprio e pelos outros participantes, não havendo sociedade, nesse mundo civilizado, que possa abstrair desses conceitos, ou simplesmente ignorá-los, sem pagar caro o preço da desesperança num mundo melhor, mais justo, fraterno e solidário.

Lembra Serrano Neves que o doping, comprometendo um fim social viola o sentimento comum de cultura, de recreação e de civismo das sociedades modernas, havendo quem nele o veja como um crime contra a sociedade, pois o desporto é uma conquista social. Porém, muito maior do que a própria discussão sobre a sua criminalização, certo é que o modo como o doping agride os princípios mais significativos e inerentes à prática esportiva, como o são a equidade e igualdade nas disputas, que resumem o que se aceita como a verdade das competições, faz nascer como um autêntico e legítimo direito fundamental a prática do esporte livre do doping [e assim foi reconhecido pelo Código Mundial Antidoping], de todo a particularizá-lo como manifestação individual ou coletiva odiável e que deve ser perseguida severamente.

Poucas obras se dispuseram a, tão fundo, pesquisar os fundamentos legais e discorrer as causas do doping. E é nesse particular, justamente, que reside a importância do legado que ALBERTO PUGA oferece para a literatura jusdesportiva nacional, fazendo-o em linguagem eclética, segura e com a aptidão e idoneidade de alcançar a compreensão de todos os atores que interagem com a cena desportiva, mormente porque concilia seus conhecimentos jurídicos e técnicos com os da ciência médica, a revelar uma formação multidisciplinar propicia e em condições de manejar o tema com adequados enfoques e perspectivas.

As Leis Antidoping apresentam-se ao leitor interessado com fartas citações e rica bibliografia, desnudando a zelosa pesquisa que o autor efetuou. E cada um dos seus capítulos aborda vertentes de indiscutível interesse, sinalizando a completude da obra pelas variegadas matizes enfrentadas com o cuidado de entrelaçar os conceitos e a ideologia que se acham por detrás do tema, a revelar a profundidade de conhecimento do assunto obtido por vários anos de estudo.

Contando a obra com a ordenação lógica dos tópicos analisados e uma boa estruturação, o autor, no Capítulo 1, preocupado em lançar as bases do doping, foca como oportuno ponto de partida a trajetória legislativa do controle do doping no Brasil, apresentando mais de perto o que se sentiu no atletismo e no futebol até a chegada do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). No Capítulo 2, o desejo foi o de divulgar e comentar os principais tópicos da Convenção Internacional da UNESCO em matéria de doping, demonstrando que tais regras foram validamente incorporadas ao universo jurídico nacional, ensaiando, com a autoridade de poucos que conseguem transitar no meio acadêmico e profissional com estilo próprio, as relações entre direito-esporte; legislação-justiça-esporte; atividade física. No Capítulo 3, o autor desvenda a Agência Mundial Antidoping e sua importância no combate ao doping, autêntica questão de Estado, analisando pela primeira vez e à luz do método interpretativo-sistemático o Código Mundial Antidoping e as revisões, mais emendas, que a ele se sucederam. Por fim, no Capítulo 4, uma lista atualizada das substâncias e métodos proibidos pela legislação nacional, em perfeita harmonia com a legislação internacional que rege a matéria apresentada.

Por todos esses aspectos e nuances, agora é o leitor que terá, com a obra, que certamente se transformará em útil ferramenta, a feliz oportunidade de conhecer um tema relevante e pouco explorado, a que Leis Antidoping se afiguram como uma importantíssima contribuição à literatura jusdesportiva nacional, seja pela importância do assunto discorrido, seja pelo trabalho sistemático, abrangente e bem ordenado oferecido.

Ao autor, os meus parabéns, pela trajetória e feliz escolha do tema discorrido, que para além de atual foi bem cuidado, notadamente porque não se limitou a uma exposição pura e simples dos problemas dele derivados, antes fomentando a reflexão e soluções para seu correto entendimento e compreensão.

Prof. Dr. Eduardo Henrique De Rose
Presidente da Comissão de Combate ao Doping
Conselho Nacional do Esporte – Ministério do Esporte

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Doping e Direito Penal

Tendo em vista que os dois maiores eventos esportivos internacionais da atualidade – a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos – serão em breve realizados em solo brasileiro, é de prever-se que a possibilidade de fazer uso do direito penal para combater o doping em breve seja colocada na ordem do dia da política.

Tomando como base principalmente, mas não apenas, a teoria do bem jurídico, os autores deste livro refletem sobre a legitimidade de uma criminalização específica do doping, em especial do comportamento do atleta que faça uso de substância dopante. Nesta obra constam dois trabalhos, recém-publicados na Alemanha, que são traduzidos e apresentados ao público brasileiro por Alaor Leite, que em seu estudo introdutório cuida da problemática também de uma perspectiva de “lege lata”.

Alaor Leite introduz o leitor na problemática. Após esboçar um panorama da regulação do doping no direito comparado, em países como a Espanha, Itália e Portugal, expor os detalhes do direito positivo brasileiro, que ainda não contém um tipo penal específico, cuida o autor, em especial, da problemática conceitual e político-criminal de uma eventual criminalização.

Claus Roxin critica o direito positivo alemão, que tipifica o doping numa tentativa de proteger o bem jurídico da integridade física do atleta, e propõe que se entenda o doping como um delito de concorrência desleal.

Luís Greco tenta levar adiante essa concepção, em especial explicitando em que medida o doping se diferencia de outras violações de regra que, à primeira vista, também geram vantagens concorrenciais.

O tratamento jurídico-penal do doping é uma realidade já presente em alguns países. Como o objetivo do livro é antecipar-se ao legislador brasileiro, nada mais natural do que buscar aprender com a experiência jurídica estrangeira. Analisar como a Espanha, Portugal, Itália e Alemanha vêm tratando o problema do doping por meio de proibições penais responde à necessidade de debatermos como aquelas que são as fontes literárias e legislativas que mais influenciaram o Direito Penal brasileiro.

A obra terá importância fundamental para toda a futura discussão sobre o direito penal e o problema do doping. Pano de fundo da análise é a pergunta sobre o bem jurídico tutelado pela proibição penal do doping: pode o Direito Penal oferecer, em alguma medida, a solução?

Obra de relevante interesse para pessoas e profissionais envolvidos nos negócios esportivos, como advogados, executivos, empresários, dirigentes de clubes, atletas e desportistas de modo geral.

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Arbitragem de Futebol – Questões Atuais e Polêmicas

PREFÁCIO

O Direito Desportivo aguardava ansiosamente produção doutrinária destinada a uma das atividades mais controvertidas no mundo da bola, a arbitragem de Futebol. E o conhecimento técnico e jurídico de Ademar Pedro Scheffler, aliado à ousadia nesse terreno movediço, culminou com um livro de cabeceira aos amantes da boa ciência em matéria de desporto.

O autor se faz presente nos principais eventos de Direito Desportivo do País nos últimos anos, sempre apresentando trabalhos e teses, insistindo, até, no debate sobre a atuação do árbitro na modalidade paixão nacional.

A presente obra traz com maestria retrospecto histórico na atividade da arbitragem das partidas de futebol e informações essenciais que permitem constatar o desequilíbrio econômico na gestão de varias funções e entidades ligadas à modalidade em comparação com os responsáveis em mediar o espetáculo desportivo mais rentável do planeta.

O “abnegado ser humano que se dedica a dirigir partidas de Futebol”, nas palavras do autor, é alvo fácil da mídia, dirigentes e do cidadão comum. Todos entendem das regras no País do Futebol, e a ameaça tecnológica para o controle do poder do árbitro é tema sempre recorrente e caminha na direção do processo de desumanização do desporto. Mas poucos conhecem, como o autor expõe nessa obra, o que cerca o tema da profissionalização da atividade no Brasil e exterior, os vínculos desportivos, sistema remuneratório, pagamentos da taxas, custeio de despesas, tributação, em síntese, direitos e deveres que incidem sobre a função de arbitro de Futebol.

Apenas com essa instigante temática já teríamos um tratado consistente na área, entretanto o autor foi muito além. Enfrentou assuntos importantes como o impacto da ação do apito nos aspectos disciplinares da partida, ou seja, o que, na esfera da Justiça Desportiva, a codificação reservou àqueles que violam a ética e a disciplina, inclusive aos próprios árbitros. Tratou de enumerar um a um todos os dispositivos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva que têm relação com a atividade do árbitro de Futebol. A presunção relativa e a forma de preenchimento da súmula e do relatório do árbitro, anteriormente tidos como “rainha das provas”, ganhou destaque e análise minudente em face da legislação desportiva.

O erro de fato e o erro de direito na escorreita perspectiva da inobservância das regras da modalidade, anulação de partidas e das impugnações de seus resultados, a partir do quase inexistente equívoco do árbitro capaz de comprometer juridicamente uma partida de Futebol.

Como se não bastasse toda a proposta de denso conteúdo já descrito, o autor surpreenderá os leitores com a sua visão sobre a teoria da responsabilização, civil e criminal, em um labor efervescente e propício para tanto, sempre bem recheado de jurisprudência.

Além disso, como não poderia deixar de ser, ao nos defrontar e apontar a caótica realidade de retribuição econômica, Ademar defende uma fonte de receita à atividade no sentido de estender o “direito de arena” aos árbitros de futebol, na sua visão tão protagonistas do espetáculo desportivo, muitas vezes, quanto os atletas.

Enfim, o leitor encontrará uma obra compromissada com a cientificidade em uma área por vezes impregnada do empirismo.

Foi uma honra participar na apresentação dessa obra séria, de autoria de quem domina e quem demonstra inequívoca autoridade sobre o tema e, principalmente, de alguém que se importa com o desenvolvimento de um desporto livre, democrático, gerido de modo profissional e ao mesmo tempo dotado de preceitos ético e morais.

Paulo Marcos Schmitt
Advogado, Procurador Geral do STJD do Futebol, Vice-Presidente da comissão de Direito Desportivo da OAB Federal e Membro da Comissão de Estudos Jurídicos do Ministério do Esporte.

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Na dúvida, pergunte ao roupeiro

Estava querendo evitar tocar mais uma vez neste assunto, que é a da demissão e contratação de treinadores sem critérios nos clubes do futebol brasileiro. Contudo, um fato ocorrido nesta semana causou consternação de boa parte da opinião pública, que foi a recontratação de Emerson Leão, seis ou sete anos depois, pelo São Paulo.

Embora os resultados de Leão tenham sido razoavelmente bons dentro de campo, somando um título estadual e uma classificação para a Libertadores no ano anterior, é de conhecimento geral que o mesmo deixou o clube de maneira tumultuada em apenas seis ou sete meses de trabalho, causando mal estar entre jogadores e dirigentes.

O impressionante disso tudo é a insistência no erro e a baixa adesão dos clubes a ciclos de aprendizagem, fruto do amadorismo, que imaginávamos, já não pertencia mais ao clube do Morumbi. A lógica passa por avaliar constantemente o que ocorreu no passado dentro da própria instituição, analisar o comportamento das pessoas (que se pretende contratar) em outras empresas e a evolução e a busca de novos conhecimentos deste.

Já que profissionalizar e manter um registro ativo e contínuo do perfil dos recursos humanos em um banco de dados é tão difícil, que façamos aquilo que o nosso título de hoje sugere: “na dúvida, pergunte ao roupeiro”.

Apesar do seu conhecimento puramente empírico, o roupeiro é um profissional que, em linhas gerais, costuma ficar bastante tempo dentro dos clubes e, por conta disto, deve registrar e acompanhar tudo que acontece, do vestiário ao campo de treinamento, podendo fazer um relato completo do comportamento de cada cidadão que lá esteve.

Óbvio que esta é uma solução esdrúxula. Mesmo assim, me parece mais factível do que a repetição insana e sistemática de erros praticada pelos nossos dirigentes, em que prevalece o método pautado na tentativa-erro.

Por fim, é bom que se diga: resultados esportivos pontuais não refletem organização, planejamento e gestão – ocorrem, em grande parte das vezes, pela incapacidade dos adversários em detrimento da competência momentânea do grupo de jogadores. Mas quando os resultados surgem de maneira duradoura e linear, tenham certeza de que tais premissas tendem a ser verdadeira.

Portanto, pelo referido método tentativa-erro, estamos diante de uma loteria e, como em qualquer jogo de azar, a sorte pode vir por um turbilhão de moedas ao mexer a manivela da máquina caça níquel (ou pela perda total de suas apostas).

Sabidamente, o futebol não é um jogo de azar.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br