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Sobre a abertura de um mundo mais longe do gol

Papu Gómez, da Atalanta: recuando metros, se aproximou do gol. (Foto: Reprodução/Diario AS)

 
Na última semana, logo na manhã que precedeu a enorme vitória da Atalanta sobre o Valencia, pela ida das oitavas-de-final da UEFA Champions League, começou a rodar internet afora esta entrevista do argentino Papu Gómez, um dos destaques da excelente equipe de Bérgamo. É uma leitura absolutamente indispensável, que indico desde já aos amigos e amigas.
No texto de hoje, gostaria de comentar algumas das respostas dadas por ele, uma vez que elas realmente ampliam algumas das nossas fronteiras sobre o jogo jogado. Transcrevo perguntas e respostas pontuais (sempre com traduções livres) e faço comentários logo na sequência.

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1- Gasperini diz que na Itália existe uma obsessão pela simetria na ocupação regular do campo, e que isso é bom para a ordem defensiva, mas ruim para atacar. Como se incentiva a ousadia?

  1. Ele até quer que os defensores arrisquem um passe interno, para filtrar as linhas. E, é claro, nos dá toda a liberdade no ataque. Mas isso está em mim: eu sei que tenho que arriscar. A gambeta [prefiro não traduzir] é minha coisa. E eu sei que, ao fazer isso, quebramos as linhas. Se eu tirar um cara, um mundo se abre. E mais na Itália, onde os jogos são muito táticos, todos eles balançam, com duas linhas de quatro, com oito caras defendendo. Se você não quebrar, pode ficar jogando a vida inteira, mas não quebrará nenhum esquema.

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Aqui, tanto a pergunta quanto a resposta são maravilhosamente importantes. Este tema da simetria me interessa muito, e talvez vocês se lembrem que escrevi largamente sobre isso no ano passado, mais precisamente aqui. Em linhas gerais, está cada vez mais normalizada a ideia de que o bom ataque, ou melhor, o ataque ‘organizado’, só pode acontecer se for simétrico, se houver ocupações racionais do espaço e etc. São todas ideias que, a meu ver, carecem de questionamento, como propus nas colunas acima.
O ponto principal (embora não pretenda aqui) está na ideia de ordem. Como já conversamos em diversos outros momentos, é preciso ter algum cuidado ao pensarmos a ordem no jogo de futebol, porque sendo sistema aberto, as ordens no jogo estão profundamente vinculadas ao caos (dentro daquilo que o querido Alcides Scaglia chama de padrão organizacional sistêmico). Às vezes, é de fato preciso mais ‘ordem’ na defesa, mas mais ‘caos’ no ataque. Daí que não apenas seja necessário repensar o que entendemos por ordem no jogo de futebol, como também o que percebemos como ordem na vida vivida – lembrando o futebol como prática da vida.

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1- Então, qual é o esquema da Atalanta?

  1. A ideia é jogar com uma linha de cinco defesas, mas os esquemas são mentirosos. Podemos dizer que jogamos com uma linha de três zagueiros, mas, afinal, acabamos jogando com dois, mano a mano atrás. Porque o zagueiro que sai com a bola sempre acaba atacando em busca de uma superioridade numérica. Na fase defensiva, podemos dizer que defendemos com cinco, mas se um lateral-meia sobe, o outro cobre e ainda restam quatro.

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“Esquemas são mentirosos” é outra ótima frase, mas que precisa ser percebida dentro de um contexto. Recentemente, na coletiva de apresentação no Palmeiras, Vanderlei Luxemburgo disse algo muito parecido, mas que não foi muito bem interpretado (talvez intencionalmente), porque é óbvio que quando se diz que os esquemas são ‘mentirosos’ ou ‘não existem’, não está se dizendo literalmente.
O que está sendo dito é que os esquemas vão se dissolvendo ao longo do jogo, a cada instante, e que o que chamamos de 4-4-2 ou 4-3-3 ou qualquer outra coisa são, basicamente, referências posicionais que precedem a tomada de decisão, mas que dependem dos movimentos da bola, dos companheiros, dos adversários, depende do espaço, do estado humano de cada atleta, etc. Num jogo como o futebol, os esquemas não são alguma coisa, eles estão alguma coisa. Por isso, neste mesmo espaço, escrevi certa vez sobre a fluidez das estruturas táticas.

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1- Dribladores naturais como você, aqui na Europa são geralmente aventureiros individualistas. Sua tarefa é mais unir do que quebrar?

  1. A palavra que vem à mente é italiano: convolgere. Envolver! Quando você envolve toda a equipe, quando você faz todos participarem … eu sei que sou importante pelo jeito que jogo como Ilicic, que talvez drible um e então tudo se abre; mas sei que os laterais também são muito importantes aqui, que um faz o cruzamento e o outro chega ao gol na mesma jogada [nota: foi exatamente assim que saiu o primeiro gol da Atalanta contra o Valencia, no dia da publicação dessa entrevista]. Como os dois meio-campistas, um para chegar ao arremate e o outro para dar equilíbrio. Até os zagueiros chegam ao gol. Toloi, o zagueiro direito, tem quatro assistências. Porque ele chega com a bola dominada perto da área rival e procura o passe interno.

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Aqui, está muito clara uma outra noção, sobre a qual escrevi mês passado, muito próxima disso que podemos chamar de flexibilidade. Ou seja, defensores cheios de obrigações ofensivas, atacantes cheios de obrigações defensivas. As fronteiras que separavam algumas funções das outras estão se dissolvendo sempre mais, e ser um especialista, restringir-se a apenas uma função (e isso serve tanto para os jogadores quanto para os profissionais do futebol em geral) talvez não baste. Daí que seja tão importante essa ideia do envolvimento, do convolgere, da unidade da equipe nos momentos ofensivos e defensivos, além da consciência dos próprios atletas do seu papel neste processo. Para não falar de uma questão de valores, de solidariedade, alteridade, empatia e etc, especialmente importantes no processo formativo.
Papu Gómez talvez tenha sido criado como um jogador muito mais de ataque, muito mais vocacionado ao gol (como ele mesmo diz mais adiante na entrevista). Mas talvez, com o tempo, tenha descoberto que às vezes o gol fica mais perto quando nos afastamos dele.
 

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Demissões rápidas e burras

Trocar de treinador não é algo proibido. Todo contrato tem cláusulas que preveem a quebra por qualquer uma das partes. Até por isso, a minha questão aqui não é nem a parte legal do negócio- hoje em dia, inclusive, a maioria dos técnicos que são demitidos acaba recebendo todos os valores acordados. O que me deixa perplexo, porém, é a falta de conhecimento e paciência de dirigentes que ávidos por darem ‘respostas a torcida’ cometem barbaridades ao contratar e demitir.
Na primeira divisão do futebol brasileiro estão os melhores clubes do pais – pelo menos no momento atual. Imagina-se que por esse status eles saibam o que estão fazendo e onde querem chegar. Como explicar, então, de maneira lógica e racional que quatro dos vinte clubes da Série A do Brasileiro de 2020 já demitiram o treinador com apenas um mês de temporada? Eu não consigo compreender…
Falta entendimento processual de formação de equipe para quem está no comando diretivo. Vou repetir: não sou contra demitir técnico! Mas desde que haja minimamente uma base concreta para avaliação de que o trabalho está sendo mal feito. Para começar, dirigentes verdadeiramente preparados buscam inúmeras informações antes de contratar. Ainda mais para um cargo tão estratégico como o de treinador. Ideias de jogo, metodologia de treinamento, relação com jogadores, gestão do ambiente, tudo isso entra – ou deveria entrar – em requisitos pesquisados por um dirigente antes de assinar um contrato com um técnico. E, a não ser que haja um fato negativo muito fora da curva, não há como fazer uma avaliação real e justa de um trabalho tão complexo com apenas um mês.
No mercado corporativo há um lema que diz: demore para contratar e seja rápido para demitir. Ou seja, pesquise muito antes de contratar alguém e tenha perspicácia para avaliar rapidamente se as coisas estão fluindo e se não estiverem troque rapidamente. Trazendo esse pensamento para o futebol, temos um círculo vicioso só de rapidez tanto para contratar como para demitir. O problema é que a rapidez para demissões não se justifica por perspicácia e sim por analfabetismo de quem está com a caneta nas mãos.
 

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Natural e sintético

Esta coluna há um bom tempo reproduz a ideia de que a indústria do futebol faz parte da indústria do entretenimento. Manter uma equipe de rendimento é caro e demanda por recintos cada vez mais especializados a fim de potencializar o rendimento esportivo e financeiro dos clubes. No cenário brasileiro, imaginar que só a atividade do futebol será capaz de manter um moderno estádio que atende às expectativas dos colaboradores e torcedores, é ingenuidade.
É preciso buscar por mais maneiras de arrecadação de recursos. Nesse sentido os estádios modernos tornaram-se lugar ideal para a realização de grandes concertos musicais ou outros espetáculos. Haja vista a deterioração do gramado natural por conta destas outras atividades extra-esportivas do estádio, os custos com a sua manutenção aumentaram exponencialmente. Qualquer falha  deste “tapete verde” pode levar à lesão de um atleta e afetar o rendimento da equipe, ou seja, interferir nos resultados esportivos e, consequentemente, financeiros. Fora o fato de, em função da preferência dada para o estádio em receber um concerto musical, a equipe terá que atuar em outro recinto esportivo, o que também pode afetar o resultado de um jogo. Afinal, joga-se em um lugar que não é a sua “casa” de costume.
Ademais, estudos apontam que os gramados sintéticos reduzem os riscos de lesão e, à prazo, reduzem os custos de manutenção. Há ainda os que dizem que eles favorecem o andamento de uma partida, o que leva à valorização do jogo e, assim sendo, o torna mais atraente ao público. Dessa maneira o marketing e a comunicação do futebol podem trabalhar com variáveis menos incertas e uma agenda menos sujeita a mudanças, de maneira a aproveitar os bons produtos que um clube ou torneio possuem: o jogo, os atletas e as instalações esportivas.

Allianz Parque a receber a instalação de gramado artificial (Foto: Edu Garcia/R7)

 
Com tudo isso, acostumem-se ou não, vai ser cada mais mais comum a “artificialização” dos gramados de futebol destes modernos estádios do Brasil. Existem outras soluções, bastante usadas em outros países para a conservação dos gramados naturais. Mas aqui, especificamente, só o futebol não é capaz de manter os custos das operações de um estádio.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

Se grama artificial fosse boa, a vaca comeria”.
Dunga, Capitão da seleção brasileira tetracampeã mundial

 

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Hegemonia flamenguista?!

O trabalho dentro e fora de campo que o Flamengo faz deve ser exaltado. Copiado. Servir de exemplo para os demais. A reestruturação administrativa e financeira feita no clube é o alicerce para as taças que estão sendo erguidas. Reconheço o processo e aplaudo os merecidos frutos. Mas levanto a questão e coloco dúvidas sobre prever uma hegemonia flamenguista no futebol brasileiro e sul-americano para os próximos anos. Além de ser impossível saber o que vai acontecer lá na frente, não podemos nos esquecer jamais que o cerne de tudo é o que acontece dentro das quatro linhas; e alí, já estamos cansados de saber, que nem sempre a lógica é o elemento mais presente.
O dinheiro que o Flamengo gera faz com que o time seja sempre forte, com bons jogadores. Porém, isso não é garantia de títulos. No atual cenário, invariavelmente vamos apontá-lo como favoritos em todos os campeonatos. Porém, insisto: isso não quer dizer que vá ganhar sempre. Uma equipe de futebol vitoriosa se constrói com vários elementos e há alguns que o dinheiro não compra. Hoje, está tudo bem com o elenco rubro negro. Entretanto, amanhã pode aparecer uma crise de relacionamento, algum jogador chave pode se machucar, a guerra nos bastidores pode descer da sala de reuniões e interferir no gramado, enfim, eu poderia trazer inúmeras situações que são corriqueiras no mundo da bola para defender a tese de que a solidez do Flamengo, sim, ajuda, mas não garante que a bola entre toda hora.
Há alguns anos vimos o Palmeiras indicar que teria uma hegemonia por aqui. Arena nova, projeto de sócios robusto, contratações bombásticas, enfim, o palmeirense se valia de vários itens, que eram reais e verdadeiros, para prever que teria uma sequência de anos vitoriosa. A temporada 2019 foi nula de troféus e vimos uma mudança brusca na gestão do clube. O próprio São Paulo na década passada, com quatro anos mágicos conquistando Libertadores, Mundial e três Brasileiros, se autoproclamou soberano e hoje vive uma seca de títulos.
Não quero nesse espaço ser ‘estraga prazer’ da maior torcida do país. Apenas me valho de alguns pontos e exemplos para não cair na tentação de cravar que o atual momento consagrado do Flamengo irá perdurar por anos e mais anos. O futebol é apaixonante porque a lógica na gestão, na administração e nas finanças é algo indispensável, mas ao mesmo tempo não garante nada. Já pensou que chato seria saber o resultado dentro de campo com base no que acontece fora dele? Os clubes mais bem administrados estarão sempre no topo. Mas para ser o primeiro deles é necessário mais do que contas em dia. E que bom que é assim!
 

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O que faz um bom jogador? – Parte II

Ronaldo Nazário, então na Internazionale: atribuir sentido às lesões o fizeram mais forte. (Foto: Reprodução/IG Esportes)

 
Não faz muito tempo, começamos aqui uma conversa sobre o que faz um bom jogador. Citei o exemplo do Alexander-Arnold, na semi-final do Mundial de Clubes, e como um espaço que ninguém viu só é possível com uma certa indisciplina do pensamento, por alguém que pensa e age fora das normas, fora da curva.
As duas características que citei no outro texto foram (e são) uma certa indisciplina do pensamento e uma certa negação, uma sensação de que é possível fazer mais e melhor no jogo jogado. Vocês podem ler melhor no texto.
Hoje, gostaria de dar continuidade à essa ideia, a partir de uma outra variável – e de uma rápida observação. Vejamos.

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Além das características que já citei, sinto que outra dessas coisas que faz um bom jogador, não sei se vocês concordam, é uma capacidade de atribuição de sentido. Deixem-me explicar melhor: há algumas semanas, fiz uma citação do Aristóteles que, como sabemos, nos separou dos animais exatamente pela capacidade de pensar. Só que pensar, neste caso, não significa apenas usar a razão, mas usar a razão e as palavras (animais não têm palavras) justamente para atribuirmos sentido às coisas que nos acontecem. As coisas nos acontecem na vida vivida e, com o tempo, damos a elas significados, atribuímos valores, fazemos algo com as coisas que nos fazem. Daí que a questão não esteja nas coisas em si, mas sim no que nós fazemos com elas.
Muito bem, quando penso no bom jogador (em qualquer modalidade), penso bastante naquele jogador que faz sentidos (ou seja, cria sentidos) de pelo menos duas formas diferentes: dentro do jogo e fora do jogo. Penso no jogador que não se intimida quando recebe uma bola sem espaço, que se sente motivado (e não restringido) nos maiores problemas do jogo, que procura os espaços que ninguém viu (portanto, que sabe ler nas entrelinhas), que entende o valor do fracasso, da pressão, do próprio medo, das limitações tático-técnicas que possa vir a ter, enfim… penso que tudo isso faz um bom jogador. Mas (e aqui está o pulo do gato), sinto que o bom jogador também é aquele capaz de atribuir sentido às coisas que lhe acontecem na vida vivida, fora do jogo jogado. Mais do que isso, é aquele que consegue levar o que lhe passa na vida vivida (exatamente pela superação da frustração, pelo cultivo da disciplina, pelo entendimento do tédio, pelo cuidado de si) para o jogo jogado. E isso, vejam bem, também faz parte das responsabilidades que cabem a nós, treinadores e treinadoras, que devemos sim cultivar nos nossos atletas essa capacidade de atribuir sentido às coisas que lhes acontecem, de dar sentido ao jogo que jogam (porque o jogo não tem um sentido determinado a priori), dar sentido ao jogo que são capazes de jogar (ou seja, que está por ser inventado) e, portanto, de dar sentido à vida que vivem e à vida que podem viver. Quando escrevo, como já fiz por diversas outras vezes, sobre o processo de humanização do treino/jogo, também é um pouco disso que quero dizer.

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Por fim, reparem apenas que esse negócio de ‘faz um bom jogador’, que coloquei no título, tem um duplo sentido. E isso é proposital: podemos falar tanto daquilo que o próprio jogador faz para ser bom como daquilo que a vida faz com o jogador e o torna bom, percebem? Se você preferir, de um lado o jogador como ponto de partida, do outro como ponto de chegada. Acho importante fazer essa distinção porque vocês sabem, tanto quanto eu, que é justamente do que falamos quando falamos do processo de treino – especialmente se pensarmos na superação do tecnicismo. Quando pensamos em educação (e é disso que estamos falando aqui, educação de jogadores, nos mais diversos níveis), pensamos em uma relação, em um componente de troca, no qual deixamos algumas coisas para o mundo, mas também recebemos coisas em troca, agimos sobre o mundo na mesma medida em que ele age sobre nós. E aqui, não posso deixar de perguntar: será mesmo que o nosso peso sobre o mundo é maior do que o peso do mundo sobre nós?
É justamente por isso que devemos ser tão rigorosos (no melhor sentido) no nosso trabalho como treinadores e profissionais do futebol em geral, porque nós também ‘fazemos’, de alguma forma, o bom jogador. Ele é fruto de si mesmo, da sua história, dos seus afetos, do seu pensamento, das suas ideias e das suas ações, mas também do peso do mundo, das coisas, das pessoas, da vida vivida.
A percepção desse processo de troca, e dos sentidos que o sucedem, é absolutamente fundamental para avançarmos no sentido de debates e práticas mais refinadas.
 

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Tempos de intolerância

Infelizmente, observa-se um mundo cada vez mais intolerante. Racismo, xenofobia, questões de gênero. Tudo isso acontece semanalmente. Uns casos têm mais repercussão, outros nem tanto. No entanto, acontecem com frequência. O de domingo, dia 16 de fevereiro, na primeira liga portuguesa, com o atleta malinês do Porto, Marega, trouxe à tona novamente o tema. Em pleno século 21, quer seja na ciência e na tecnologia, o ser humano avança. Nas relações humanas, retrocede.
Alguns estudiosos dizem que tudo isso acontece por conta do aumento do fluxo migratório, do detrimento dos vínculos de trabalho formal, do anonimato que as redes sociais e do convívio que os grandes grupos conferem. Da ameaça à rotina, às instituições, aos ritos e tradições. Da perda da identidade que o “outro” pode colocar em risco.
O que se sabe é que é impossível justificar tais atitudes. Não há motivo para isso. O futebol desde o seu início foi feito por todos e é para todos. Estas situações devem ser amplamente debatidas e as soluções postas em prática. Combater e punir quaisquer atos racistas, xenófobos e que envolvam o gênero. É medíocre e inaceitável a falta de consideração com o próximo.

(Foto: Reprodução/Divulgação)

 
Todos falam em “futuro melhor” e “mundo melhor”. Mas isso não será alcançado se não houver o respeito. O futebol, pelo alcance que possui e a capacidade de formar opinião, está repleto de exemplos negativos dentro e fora de campo. Por que não tratá-lo para difundir bons valores, valores humanos – comuns a todas as religiões – de respeito e harmonia? Futebol de rendimento é competitivo e o foco está no desempenho, sim. No entanto, não a todo o custo. Para isso não é preciso se olvidar dos valores: o jogo limpo.
Portanto, é preciso pensar em como queremos o mundo para as próximas gerações. Confuso, com pessoas próximas ao seu círculo sendo vítimas de intolerância? Ou mais leve, com respeito e iguais oportunidades para todos, independente da origem? O futebol tem sido capaz de transformar tanta coisa. Pode transformar o mundo.
Em tempo: o amigo leitor pode se questionar de esta coluna nada se referir nesta semana ao Marketing Esportivo. Vamos pensar que a comunicação de um clube, uma liga e uma federação no combate à intolerância é no mínimo um começo para uma grande transformação.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

Esforce-se não para ser de sucesso, mas sim para ser de valor”.
Albert Einstein

 

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O treino para o futebol brasileiro

Um dia o ex-craque Pedrinho, hoje comentarista de futebol do Sportv, me perguntou:
 Se já treinamos há tempos com os mesmos tipos de treinos que os europeus, porquê não jogamos taticamente como eles?
Ainda não cheguei a conclusões que encerram verdades claras para responder a isso, mas passei a ser mais observador na montagem e aplicação das minhas tarefas e de outros profissionais que tive oportunidade de acompanhar de perto.
Como lidamos com o treino? O quê, conscientemente, acreditamos estar transferindo do treino para o jogo? O quanto valorizamos o treino enquanto ferramenta transformadora do jogo?
Em um bate-papo sobre treinamento, um amigo do futebol me disse certa vez: – você acredita muito no treino, mas não é só isso que ganha jogo! Tem muita “sacanagem” à volta do futebol que a gente precisa estar atento!
Eu esperava que ele fosse me dizer algo sobre metodologia de treino, perfil de atleta, cultura de jogo, etc., mas veio com mais essa “preciosidade”!
Desde que estou no futebol escuto que o treino deve ser praticado com alegria. O ambiente do treino deve ser descontraído, dentre outras coisas.
O esporte é sinônimo de alegria em várias circunstâncias. Mas no alto nível, sob a pressão que sofrem seus protagonistas, não se pode considerar o treino dos seus fundamentos um palco para diversões.
Um parêntese que corrobora com a nossa reflexão: Leonardo, atualmente dirigente esportivo de clubes europeus, disse certa vez:
– O jogador médio europeu é melhor treinado que o jogador médio brasileiro!
Qual seria o alcance dessa fala?
Quando o Leonardo diz “jogador médio”, não dá maiores referências sobre o que isso significa. Acredito que jogadores médios são quase a totalidade daqueles que vemos praticando o futebol profissional pelo mundo. Exclui-se os “diferenciados”, que estão em dois ou três níveis na parte superior da pirâmide e os “medíocres” que nem chegam a competir profissionalmente. Os que vemos competindo por todos os clubes do Brasil e do mundo são os “jogadores médios”.
É claro que entre os médios poderíamos distinguir níveis qualitativos diferentes, e acho até que é neste ponto que podemos encontrar a reflexão do Leonardo. O desenvolvimento do talento esportivo, assim como em outra área qualquer da performance humana, depende fundamentalmente do treino e nos parece que o jogador europeu está mais consciente e melhor adaptado a isso.
– Como os times brasileiros encaram o treinamento em suas semanas de trabalho?
Geralmente com alegria além da conta. Se, após uma sessão de treinos, perguntarmos aos jogadores brasileiros o que treinaram, poderemos nos assustar com algumas respostas. Há jogadores que não saberiam dizer o que fizeram.
Tá tudo relacionado ao nível de concentração que levam para o treino e também à cultura do que consideramos treinamento e sua importância no futebol. Costumamos ir a campo “brincar ao invés de treinar”, pois interpretamos mal o conceito de alegria no treino. Podemos ir alegres para todas as sessões de treinos da semana, pois estamos “fazendo o que gostamos”, mas precisamos estar “sérios e concentrados” para usufruir da riqueza instrutiva que cada uma delas nos traz.
Como podemos cobrar na fase adulta um nível de jogador diferente do que os que encontramos no futebol brasileiro?
As respostas a esta e outras perguntas podem estar na qualidade e/ou seriedade dos treinos que praticamos.
Isso é muito abrangente! Não me refiro a fazer um treino bonito e moderno como fazem os melhores treinadores e/ou equipes do mundo. Isso já fazemos, como bem disse o Pedrinho. Muito menos, que jogadores e equipe estejam sérios e tensos para treinar.
O quê estamos treinando? O quê os jogadores e as equipes estão absorvendo dos treinos? O quê isso tudo que treinamos tem a ver com o jogo que queremos construir? Será que os treinadores saberiam responder a essas perguntas com a consciência investigativa que precisa ter?
O treinamento para alta performance deve começar sério já nas primeiras idades de descobrimento e desenvolvimento dos talentos.
E o mais contraditório nisso tudo e que talvez venha perturbando o nosso entendimento do que seria a alegria no treino, é que na pequena idade “o talento se desenvolve brincando” e precisa “treinar brincando”, mas TREINAR brincando!!
Quer coisa mais séria que a garotada jogando uma “pelada de rua”, ou de futsal, ou num jogo de várzea?…
Alegria e ousadia é o que queremos dos nossos jogadores e jogo. Mas, se não treinarmos seriamente os fundamentos que desenvolvem o talento e o jogo nunca mais seremos alegres e ousados em nossa maneira de jogar. Principalmente neste perfil de jogo que hoje é praticado!
O futebol do passado era técnico e o moderno é tático. A mente dos nossos jogadores têm de estar presente em treinos e jogos para “a coisa funcionar”. Esse é o ponto!
Antes de um treino, após mencionar palavras do Van Gaal sobre a “importância de se treinar o cérebro e não somente as pernas dos jogadores”, perguntei a um dos meus comandados o quê o treinador holandês queria dizer com essa frase?!
– Ahm?! O quê?! Desculpe, professor! Eu não prestei atenção no que você estava falando!!!
Onde estava “a cabeça desse jogador” para iniciar uma sessão de treino, com vários itens do nosso jogo a serem desenvolvidos? E o mais sério é que se tratava de uma equipe adulta!
Este jogador e muitos outros vão aos treinos à espera que a bola comece a rolar para que possam “brincar”! Foi isso que aprenderam desde criança e está na cultura do nosso futebol. Aí, as coisas mudam no mundo e não conseguimos acompanhar, ou queremos que elas voltem a ser como antes.
É tudo muito sutil, mas importante também!
Será que devemos imputar à cultura do futebol brasileiro todas as responsabilidades dos nossos erros? Cultura se quebra e se reconstrói! É fácil? Nada nunca foi fácil, mas o homem sempre fez, quando quis!
As palavras do Leonardo batem fundo em nossas mentes e são realidade absoluta quando assistimos a qualidade do jogo que ainda jogamos: muitos erros nas tomadas de decisões táticas, na execução dos gestos técnicos e na organização do jogo.
Este é um dos temas que mais aguçam as minhas reflexões!
Não fique triste futebol brasileiro! Tem coisas boas acontecendo pra mudar isso e para melhor!
Abraço!
 

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Tiago Nunes e seus dilemas corintianos

A dificuldade e a complexidade do trabalho de Tiago Nunes neste início de ano no Corinthians não são novidades. Tenho certeza que o dilema na mente dele começou ainda no ano passado, quando foi contratado. Ele foi o escolhido para substituir Fábio Carille para romper com uma ideia de jogo. Mas como fazer com que os jogadores assimilem e somatizem novos comportamentos rapidamente a ponto de darem resultados em um curtíssimo prazo?! Missão das mais desafiadoras…
Dos clubes grandes paulistas o Corinthians é o que tem a menor margem de erro. Ao passo que Palmeiras, São Paulo e Santos já estão na fase de grupos da Libertadores, a equipe de Tiago Nunes tem todo o planejamento do ano dependente dos confrontos iniciais e imprevisíveis da competição. Ilusão ainda acharmos que um Guarani do Paraguai ou um San José da Bolívia, ou o time que for em uma competição como essa, sejam presas fáceis porque não tem a “tradição” de um Corinthians. E, por mais que o departamento de inteligência do Timão seja um dos mais capacitados do país alguns ingredientes são aleatórios e da própria natureza do jogo.
Um mapa da preparação inicial do Corinthians já indicava as dificuldades atuais. Viagem desgastante para a Flórida Cup, jogadores saindo, jogadores chegando e, o principal, a necessária mudança nos conceitos com e sem a bola. Futebol não tem fórmula. Mas tem tendências. E romper com uma forma de um clube jogar demanda tempo. E é justamente tempo que Tiago Nunes não tem. O misto entre aproveitar algumas ideias já no inconsciente da equipe com algumas pitadas de ousadia com coisas novas pode ser a chave para Tiago Nunes sobreviver neste início. E falo em sobrevivência não levantando nenhuma questão de demissão. Mas sim em sobreviver nesse caos que é o futebol brasileiro da necessidade de mudar aliado, muitas vezes incoerentemente, com a necessidade resultado pra ontem.
 

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Princípios de governança para a credibilidade

Foi finalmente lançado em português do Brasil o livro “Cartão Vermelho”, de Kim Basinger, sobre o escândalo de corrupção na entidade máxima do futebol mundial, a FIFA. A operação do FBI (Escritório Federal de Investigação, sigla para Federal Bureau of Investigation) em hotel suíço, que levou à prisão vários conhecidos dirigentes completará 5 anos no próximo mês de maio.

Desde então percebe-se um movimento tímido, mas cada vez mais comum, em relação aos cuidados com princípios de governança nas entidades de prática (clubes) e de administração do esporte (federações e confederações). Apesar de serem pessoas de direito privado, trabalham com manifestações de interesse público. Afinal, o futebol é um fato social total, a modalidade representa diversos setores da sociedade. Através dos seus clubes e seleções nacionais as pessoas se identificam. Promove-se o sentido de unidade e pertencimento, estabelecem-se ritos e tradições, além de atributos intangíveis, fundamentais para o ser humano.

Foto: Reprodução/Divulgação

 

Desta maneira as pessoas cobram pelo bom tratamento, gestão e condução deste “bem público”. Querem títulos, é verdade, mas ao mesmo tempo não gostam que grupos de interesse façam dele um trampolim para a projeção pessoal, enriquecimento ilícito ou manutenção do status quo (tráfico de influência). 

Princípios de governança sugerem, em resumo, que os interesses coletivos e os da organização esportiva sejam colocados em primeiro e único lugar, em detrimento dos individuais ou dos pequenos grupos, com base em um planejamento estratégico e de acordo com a sua origem, quando estabelecidas a missão, a visão e os seus valores.

Com tudo isso, a aplicação de políticas de governança com o tempo contribuem para a transparência e capacidade de comunicação da organização esportiva, melhora o relacionamento com as partes interessadas (torcedores, investidores, comunidade) e colabora para a imagem institucional. A longo prazo essas ações serão fundamentais para a sua sustentabilidade e existência em um ambiente cada vez mais competitivo e com consumidores cada vez mais exigentes, que não querem ver as suas contribuições financeiras mensais sustentarem  estes determinados grupos de interesse. 

Em tempo: a coluna recomenda a leitura deste livro, mais o “O Delator”, de Átila Abreu.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

Sempre leio primeiro a página de esportes, que registra os triunfos das pessoas. A primeira página não me diz nada além dos fracassos do homem”.
Earl Warren, político e ex-chefe da Justiça dos Estados Unidos

 

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A mágica dos jogos iniciais

Nossa cultura pede resultados para ontem. Na maioria das vezes, os torcedores querem ganhar a qualquer custo. E é esse “a qualquer custo” que vai pouco a pouco definhando o nosso futebol. A partir do momento que o importante é o resultado, fatores como qualidade, desempenho e um jogo elaborado, ficam em segundo plano. Porque o que vale é ganhar. Não importa como…
Esse início de temporada tem escancarado falsas verdades absolutas. Eu juro que não consigo analisar o trabalho de um treinador e nem detectar o grau de evolução de um time assistindo apenas quatro ou cinco jogos. E veja, estudo tática como um leão…mas sinceramente talvez me falte a habilidade de cravar que uma equipe está fadada ou ao sucesso ou ao fracasso acompanhando alguns minutos dela, sendo que no atual momento do ano os técnicos estão completando um mês de trabalho (!) (e não de jogos)!!!
Como já apontar que Fernando Diniz não vai conseguir fazer o ataque do São Paulo funcionar em 2020? Ou que Vanderlei Luxemburgo não terá condições de fazer o elenco palmeirense aliar eficácia com solidez? Ou ainda já detonar o português Jesualdo Ferreira por não conseguir criar em um mês um jogo ‘intenso’ que Sampaoli demorou um ano para apresentar? Talvez o caso mais emblemático do futebol paulista seja o de Tiago Nunes no Corinthians: ele veio para romper com uma ideia de jogo, mas tem decisões pela Libertadores logo no início do trabalho. Mas mesmo se o Corinthians for eliminado pelo Club Guarani, do Paraguai, não acharei coerente tirar conclusões sobre o patamar da equipe.
Minha intenção não é ficar em cima do muro, pedindo tempo e paciência para você, torcedor. Quero apenas traçar uma linha de pensamento que acredita que o bom desempenho é consequência de um processo gradual de construção técnica, tática, física e mental de um time. Comportamentos com e sem a bola, relações e sinergias entre os setores da equipe e os próprios atletas dentro e fora de campo, além de uma mentalidade vencedora não brotam da noite para o dia. A cultura imediatista, do resultado pra ontem, desfavorece projetos pautados na complexidade, na visão sistêmica que dita que um todo (time) campeão vai muito além da soma de partes igualmente campeãs. Sei que o futebol é um jogo, uma competição, e que tudo deve ser feito pautado em ganhar. A minha crítica é a “como” ganhar. Para mim, importa como, sim. E desculpe minha falha, mas não consigo enxergar processo nem vitorioso e nem perdedor com apenas alguns dias de temporada.