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Transformações para o futebol brasileiro

Estamos próximos do encerramento de mais uma temporada. Já conhecemos, antecipadamente, o campeão da Série A, dias atrás foi conhecido o campeão da Copa do Brasil e, neste ano, assim como na Copa Libertadores, não teremos nenhum representante brasileiro na final da Copa Sul-americana.

Na perspectiva dos resultados, valorizado e priorizado a qualquer custo em nossa cultura, os alcançados este ano nos torneios internacionais (considerando também a Copa do Mundo) deveriam, no mínimo, proporcionar reflexões profundas na maneira como pensamos e gerimos o nosso futebol.

Sustentabilidade, categorias de base, calendário, evolução sistêmica do jogo, planejamentos de curto, médio e longo prazo, torcida, iniciação esportiva e fair-play financeiro são apenas alguns dos temas que precisaremos avançar nos próximos anos se um dia pretendemos retomar a hegemonia do futebol mundial.

Porém, como o momento da temporada é, para muitos profissionais, de recesso, ou então, de início de pré-temporada dos estaduais 2015, deixaremos estas discussões mais amplas para outra oportunidade. Será proposta, então, uma reflexão no âmbito da nossa atuação profissional e o quanto ela impacta positiva ou negativamente no todo em que estamos inseridos e, é claro, em nós mesmos.

Abaixo, alguns questionamentos:

Você foi proativo ao longo da temporada?

Você defendeu os interesses da instituição em que você trabalha?

Você agiu com ética profissional?

Você contribuiu na construção de um ambiente de trabalho enriquecedor?

Você aprendeu com os profissionais que estão ao seu redor?

Você ouviu os profissionais que estão inseridos no seu contexto profissional?

Você assumiu as responsabilidades que lhe são devidas ou você é adepto da máxima: “Eu venci, nós empatamos e vocês perderam”?

E, por fim, você compartilhou conhecimento ou preferiu “esconder” informações importantes para o desenvolvimento do trabalho de modo a utilizá-las num momento mais favorável a você?

Muitas pessoas podem classificar estas perguntas como de cunho pessoal, logo, impertinentes no contexto de atuação profissional. É preciso ter ciência, no entanto, que o relacionamento humano é a chave de processos essenciais de um clube de futebol.

Alguns exemplos podem evidenciar como os itens supracitados refletem com grande magnitude no dia-a-dia dos clubes. Na sequência, serão apresentados cenários hipotéticos:

Um preparador físico com baixa pró-atividade pode desperdiçar minutos importantes da sessão de treino ao deixar de explorar diversos conceitos de jogo desde o aquecimento.

Um treinador de resultados pode buscar a vitória a qualquer custo e ir na contramão dos objetivos de um clube-formador.

Um auxiliar técnico sem ética, pode denegrir a imagem do treinador “queimando-o” perante outros profissionais.

Os grupos de estudos podem alavancar o alinhamento conceitual dos profissionais do clube.

Um técnico de uma categoria pode se reunir formalmente com o técnico de outra e “dissecarem” o Modelo de Jogo de suas equipes e onde estão as suas principais dificuldades.

Num momento de derrota, um treinador traz a responsabilidade para si, “protege” o grupo e cria uma reflexão coletiva sobre os motivos do fracasso.

E, para terminar, aquele auxiliar que, com um olhar de fora, mais privilegiado e menos pressionado, “esconde” informações que seriam muito úteis para o sucesso do trabalho, pois, na verdade, o que ele quer ver é o fracasso.

Ao longo de minha ainda curta trajetória profissional tem ficado cada vez mais evidente que se pretendemos mudar o futebol brasileiro, precisamos, primeiramente, mudar a nós mesmos. Muitas vezes, agimos a partir de nossos interesses, sem preocupações com o todo e com transcendência de nossos objetivos pessoais.

Quem sabe um dia, com o predomínio de atuações profissionais éticas, sérias, proativas, conscientes, ouvintes e coletivas, invariavelmente, transformaremos o nosso futebol?

Certa vez, ouvi de um professor que somos permanentemente avaliados. Com o tempo aprendi, no entanto, que mais importante do que a avaliação dos outros é a minha própria. Então, a partir do que foi discutido hoje, como você se avalia?

Abraços e até a próxima coluna. 

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Apelo afetivo das marcas de clubes de futebol e o consumo de produtos licenciados: estudo de caso dos torcedores de Vasco e Flamengo em vitórias

1 Introdução

O futebol é uma forma de expressão social e, portanto, está sujeito às tendências e paradigmas sociais. O jogo, que chegou ao Brasil como atividade elitista, ao longo do século XX se popularizou (GURGEL, 2006; FRANCO JÚNIOR, 2007) e se transformou no esporte com mais adeptos pelo país (BDO Brasil, 2011). Desde meados da década de 1980 na Europa e final da década de 1990 no Brasil, o futebol se transformou em algo que vai além do jogo e tornou-se uma preocupação econômica (GURGEL, 2006).

Durante o processo de popularização e espetacularização do futebol, a mídia teve papel decisivo em transformar o jogo em produto de consumo de massa (GURGEL, 2006). No meio dessa investida econômica das entidades esportivas, a publicidade e a propaganda têm fundamental importância na criação de imagens que sejam absorvidas pelo público e tenham retorno econômico (CAPRARO et al., 2011).

Através do licenciamento de suas marcas para uso em produtos, as agremiações esportivas conseguem expandir sua área de atuação comercial e transformar torcedores em consumidores (AMORIM, 2010).

Observando os exemplos citados por Leoncini e Silva (2005), o licenciamento de marcas na indústria do futebol é utilizado não apenas para a fabricação de produtos, mas também para o gerenciamento de divisões administrativas dos clubes do futebol. No entanto, o foco deste trabalho é a atividade de licenciamento de marca onde a empresa licenciada produz e/ou comercializa produtos com a marca dos clubes de futebol estampada. Sendo assim, o presente trabalho aborda a estratégia de licenciamento de
marca de clubes de futebol apenas no que se refere a produtos – tais como uniformes, camisas promocionais, acessórios e brindes – que contenham a marca ou alguma outra referência a tais clubes.

O objetivo principal deste trabalho é analisar o apelo afetivo contido nas marcas dos maiores clubes de futebol do país e que atrai seus torcedores para tornarem-se consumidores dos produtos que contém aquela marca. Em um primeiro momento, é realizada uma revisão teórica sobre os assuntos pertinentes ao tema para o levantamento de hipóteses e, após isso, é realizada uma pesquisa exploratória qualitativa como forma de testar as hipóteses levantadas anteriormente e na tentativa de elucidar outras questões ligadas ao consumo de produtos com marcas de clubes de futebol. Para isso, este trabalho se propõe antes a analisar (1) o significado que o futebol adquire social e economicamente; (2) a função e importância das marcas para a venda de produtos; e (3) o comportamento de consumo com bases nas teorias de grupos de referência e apelo afetivo.

Primeiramente, a revisão acerca das funções social e econômica que o futebol adquiriu e mantêm na sociedade se baseou, sobretudo, nos estudos de Leoncini e Silva (2005); Gurgel (2006); Franco Júnior (2007); Faria (2007) e Ferraz (2011); Para a análise seguinte, acerca das funções, importância e utilização da marca na venda de produtos e serviços, foram consultados em grande escala os autores Pitts e Stotlar (2002); Sampaio (2002); Perez (2004); Lopes (2009); Brasil (acesso em 02 de dez. 2013) e Kotler e Keller (2012). As bases da análise sobre o comportamento de consumo se concentraram sobre os autores Gade (1998); Blackwell, Miniard e Engel (2005); Peter e Olson (2009) e Hoyer e MacInnis (2011). A metodologia da pesquisa exploratória se baseou principalmente nos autores Gil (2002), Malhotra (2006) e Bardin (2000).

Para ler o artigo completo, basta clicar aqui

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O bloqueio da renda do 1º jogo da final da Copa do Brasil

Um dos problemas que assola os clubes brasileiros é a crescente dívida com impostos federais. Inclusive, está em tramitação Projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal que tem por objetivo promover uma reestruturação nos passivos fiscais dos clubes, permitindo que sejam efetivamente pagos.

Enquanto esta lei não é aprovada, os clubes têm a opção de entrar em programas de refinanciamento das dívidas fiscais, que são conhecidos como Programa de Refinanciamento de Dívidas Fiscais (Refis).

Assim, em meados de outubro foi publicada no Diário Oficial a aceitação, por parte da União, da inclusão das dívidas do Atlético Mineiro no Refis.

Apesar disso, dias antes do primeiro jogo da final da Copa do Brasil, o clube alvinegro foi surpreendido com a ordem judicial de bloqueio (arresto) dos valores arrecadados com a venda de ingressos.

De um lado há, a autorização do credor (União) para a realização de acordo judicial, e de outro, o pedido realizado pelo próprio credor de bloqueio da renda dentro do processo de execução.

No caso em questão, o juiz da causa entendeu que, diante da existência de outras demandas e da ausência de bens penhoráveis, deveria prevalecer o pedido de bloqueio da renda.

Doutro giro, o Atlético entende que, tendo sido publicado no Diário Oficial ato da União aceitando a realização de acordo (Refis), qualquer medida judicial de bloqueio de bens não teria objeto, já que as partes voluntariamente realizaram acordo, e que seria ônus da Fazenda Nacional (responsável pela cobrança) informar aos juízes das execuções.

Sob o ponto de vista legal, o Atlético tem razão, pois, segundo o artigo 151 do Código Tributário Nacional, o parcelamento suspende a exigibilidade do crédito tributário.

Apesar disso, contra o clube há o entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de que a suspensão da exigibilidade do crédito tributário superior a quinhentos mil reais para opção pelo Refis pressupõe a homologação expressa do comitê gestor e a constituição de garantia por meio do arrolamento de bens.

Diante de todo o exposto, percebe-se a clara e urgente necessidade de se resolver legislativamente, de forma clara a precisa, a questão do endividamento tributário dos clubes, a fim de que a União possa receber seus créditos e que o clube possa ter garantida sua manutenção e não esteja sujeito às medidas que restrinjam o acesso ao seu patrimônio. 

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Mudanças no futebol brasileiro

Identificar necessidades de mudanças e conseguir propor uma ou mais soluções são as partes mais fáceis de se pensar em mudar alguma coisa. A cada problema, ou conjunto de problemas, uma ou mais soluções podem ser encontradas e chegar até aqui não tem sido problema pois os especialistas no tema onde se deseja mudanças conseguirão, via de regra, desenvolver propostas factíveis. A maior dificuldade tem sido colocar a mudança em marcha e para isto é preciso um planejamento cuidadoso, um método estruturado que possa guiar as ações na direção do objetivo pretendido e a gestão atenta em todo o processo, incluindo a avaliação da efetiva assimilação após as mudanças implantadas.

Estruturando uma mudança
O planejamento cuidadoso acima referido constitui o detalhamento de todo o plano de mudanças com suas várias etapas, prazos, responsáveis, resultados esperados, indicadores, ações corretivas, alternativas de desvio e outros ingredientes que podem variar de acordo com o perfil da empreitada. O método estruturado em um processo de mudança é o elemento guia que vai auxiliar os gestores que vão conduzi-la e atingir os objetivos. A gestão atenta é a atuação ostensiva sobre todas as ações planejadas, bem como a identificação de atrasos, descumprimento de etapas ou qualquer intercorrência que possa impactar as ações. Atuar na manutenção do rumo e na otimização de tudo que se pretende é o eixo central da gestão. Gestão em resumo, é assegurar o uso do método selecionado, cumprir o planejamento e tomar as medidas necessárias para correção dos desvios. Antes porém de iniciar o planejamento é preciso entender o perfil de mudança e classificá-la dentre três perspectivas: Pessoas, Processos e Tecnologia. Esta classificação é norteada pela ênfase que a mudança trará à tona.

Se a necessidade disser respeito à, por exemplo, um redesenho da estrutura de cargos e salários de uma empresa, o perfil estará caracterizado por aspectos de ordem pessoal e emocional de grandes dimensões. Uma alteração desta natureza mexe com a remuneração das pessoas, com a estrutura de poder da organização, relações hierárquicas e outras consequências de ordem econômica, financeira e de estabilidade das pessoas no emprego, caracterizando seu perfil pela perspectiva Pessoas.

No caso de uma mudança tecnológica em uma empresa de Engenharia, até poderá haver impacto para as pessoas que, eventualmente precisarão aprender uma nova forma de trabalhar, mas terá um impacto muito mais forte no que tange a infra-estrutura da organização, reforçando a perspectiva de Tecnologia do projeto em questão. Já a perspectiva Processos caracteriza-se pela mudança na forma de gerir a organização, envolvendo suas rotinas, suas práticas, seu fluxo das operações e sua dinâmica de funcionamento. É claro que uma transformação de processos também envolverá as pessoas na organização porém o foco e, portanto sua perspectiva, estará nos processos face ao meio onde será necessária a mudança.

Com o perfil definido será mais fácil estruturar a equipe que vai gerenciar o processo e definir os Gestores que a conduzirão pois do perfil da mudança depende a formação da equipe que vai fazer acontecer. Isto aumenta as chances de sucesso. Cada gestor tem seu papel bem definido de acordo com o referido perfil.

Mudanças no futebol brasileiro
No âmbito esportivo, mais precisamente no futebol, ao que parece, existem soluções já visualizadas e formuladas que podem transformar para muito melhor, efetivamente, toda a dinâmica do seu gerenciamento a partir de regras de base que alterarão a forma como hoje este esporte é gerenciado no Brasil.

Resta então saltar de um lado para o outro do abismo representado pela situação atual e o futuro desejado, ou seja, já se sabe “o que fazer” e falta agora saber “como fazer”. Utilizando a classificação Pessoas, Processos e Tecnologia, mencionada anteriormente, é fácil perceber que a transformação proposta para o futebol brasileiro classifica-se como Processo pois é o processo de gestão deste esporte que precisa ser redesenhado. Assumindo agora que o perfil está definido, segue-se a definição dos gestores que irão compor a equipe de gestão de mudanças.

Montando a Equipe de Mudanças
Liderados por um Gestor de Mudanças Organizacionais – GMO, como o mercado chama, será importante que esta equipe possua um Gestor de Comunicação que vai se encarregar de manter todo o público interno e externo, informado o que está acontecendo. Junto a este gestor deve trabalhar o Gestor de Informação que deve registrar informações sobre o projeto de mudança, as ocorrências, as realizações sobre o seu andamento, como também sobre tudo que for veiculado externamente sobre o projeto. Em alguns projetos como este as gestões de comunicação e de informação são exercidas por uma única pessoa sem prejuízo da distinção das duas funções.

Considerando a efervescência provocada pelos múltiplos interesses envolvidos no futebol e o sistema de poder vigente, é natural que existam resistências às mudanças propostas além de conflitos de opinião, de ideias e sobretudo com relação à forma com que se pretende implantar uma nova maneira de gerir. Nestes casos, um Gestor de Resistências e um Gestor de Conflitos devem ser instituídos. O primeiro deve agir preventivamente, procurando antever situações, grupos de pessoas, autoridades e outros atores que irão resistir ao todo ou à alguma parte do projeto de mudança. A segunda, embora também possa trabalhar preventivamente, terá que atuar em muitas situações onde o conflito já está instalado, devendo observar até que ponto ele pode afetar os caminhos para chegar ao objetivo pretendido. Embora resistência e conflitos sejam eventos diferentes e é sempre bom discernir um do outro, em alguns projetos de mudança, as duas gestões podem estar sob a responsabilidade de um único gestor.

Um outro aspecto importante destes projetos é acompanhar e avaliar prazos, compromissos, resultados e suas consequências, cuidando para que todo planejamento seja cumprido ou mesmo, se ajustado, por alguma necessidade justificável, esteja assegurado o alcance dos objetivos. Para esta função, um Gestor de Qualidade deve ser instituído.

E, por último, mas não menos importante, um Gestor de Processos deve também ser criado para monitorar todo o projeto de mudança, de forma macro e assegurar que todos os processos necessários à boa consecução venham a acontecer de forma efetiva, eficiente e eficaz. Este gestor deve registrar de forma detalhada, como os processos que ocorrem na instituiç&atilde
;o passarão a operar. A exemplo de outras gestões, em alguns casos é possível fundir a Gestão de Qualidade com a de Processos, sem prejuízos para as duas funções e seus efeitos.

Outras gestões poderão ser utilizadas a partir de uma análise minuciosa e específica de cada caso. Da mesma forma, ao longo da execução da mudança, há casos onde gestões novas podem ser inseridas ou descontinuadas em função de necessidade ocasional. A flexibilidade na condução de um processo de mudança é importante, especialmente, em eventos de médio e longo prazo.

Elaborando o planejamento da mudança
Com a Equipe de Mudanças criada segue-se a elaboração do planejamento com a descrição das ações a serem empreendidas, o cronograma, os responsáveis, equipes envolvidas em cada ação, custos, planos alternativos e revisões de cronogramas. Concluído o planejamento, revisá-lo nunca será demais.

Executando a mudança
Equipe de Mudanças criada, planejamento elaborado e revisado e objetivos totalmente entendidos e assimilados, é hora de colocar a mudança em marcha, comunicando às partes interessadas a estrutura criada com a Equipe de Mudanças e o planejamento a ser seguido.

Avaliando a mudança
A avaliação do planejado deve ser permanente, com o Líder da Equipe de Mudanças, ou seja, o Gestor de Mudança Organizacional – GMO coordenando os demais gestores mencionados neste texto, para avaliar o andamento e após a última etapa, realizar uma avaliação global. Neste ponto, chegou-se ao ponto crucial que é carimbar a efetiva concretização da mudança a partir da comparação dos objetivos planejados com os resultados obtidos. Dentro de resultados é preciso confirmar se tudo o que foi projetado foi implantado e assimilado e a nova forma de operar, sugerida inicialmente no projeto de mudanças, está internalizada.

Mensagem final
Este texto procura resumir um movimento de mudança cuja complexidade, em geral, exige um detalhamento mais rigoroso. Maiores detalhes sobre projetos de mudanças podem ser conhecidos no livro” Gestão de Mudança na teoria e na prática e o Método das Gestões”, deste mesmo autor.

Finalizando, para os que pensam que é possível fazer mudanças sem método, a tentativa será um caminho árduo e desconexo, desgastante e confuso, hesitante e turbulento. A escolha será sempre daqueles que têm o poder constituído para tomar decisões, porém o sofrimento e o desgaste serão de todos os que estiverem no caminho da mudança pretendida.

 

* Professor e Consultor em Gestão Empresarial; Especialista em Gestão de Mudanças, Gestão do Conhecimento, Estratégia e Inteligência Empresarial ; Autor do livro “Gestão de Mudanças na teoria e na prática e o Método das Gestões” 

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Clubes de visão ou clubes em desespero?

Neste ano uma novidade pôde ser notada no cenário do futebol brasileiro: a adoção frequente de algumas estratégias utilizadas nas empresas.

Conforme matéria do UOL, no mês passado, alguns clubes iniciaram a utilização de algumas estratégias utilizadas no mundo corporativo, para alcançar suas metas. Dentre elas podemos citar o coaching profissional, a hipnose, as palestras de psicólogos e de outros tipos de profissionais. Ainda, de acordo com a citada matéria, compartilho exemplos do que foi adotado em alguns clubes dentro do futebol.

• O Campeão da temporada, o Cruzeiro, contou com a visita frequente de ex-jogadores como Piazza, Dirceu Lopes e Raul Plassmann, ao centro de treinamento e aos jogos, com objetivo de realizarem conversas com os jogadores.

• O seu rival mineiro Atlético-MG, também contratou palestras do ex-oficial do Bope Paulo Storani.

• O Flamengo, o assunto fica a cargo do próprio técnico Vanderlei Luxemburgo, que já dividiu as tarefas do tipo com uma psicóloga.

• O Fluminense lança mão da psicologia aplicada ao futebol, da base ao profissional, com constante estimulação.

• No Botafogo, a comissão técnica divide a função de gestão com o psicólogo Eduardo Cillo.

• O Palmeiras, na luta contra o descenso, contratou Lulinha Tavares como coach. O trabalho de motivação é feito a partir de metas, produtividade e tem como objetivo aumentar a performance de cada jogador em um trabalho individualizado.

• Já a Portuguesa contratou o hipnólogo Olimar Tesser para trabalhar com o técnico Vagner Benazzi.

• O pernambucano Sport, contratou as palestras do ex-oficial do BOPE Paulo Storani.

Olhando os clubes que foram citados na matéria refleti e te convido a fazer o mesmo, se repararmos o desempenho dos clubes que adotaram as ferramentas do universo corporativo podemos perceber que temos alguns com performance de campo muito baixa, outros com performance mediana e um outro grupo de clubes com performance elevadíssima. O que os diferencia? Será que foram os métodos de desenvolvimento humano o ponto de desequilíbrio desses grupos de clubes?

Amigo leitor, na minha opinião a resposta é não! Acredito que de nada vale lançar mão de estratégias do mundo corporativo para promover o desenvolvimento humano, se a mentalidade dos nossos gestores ainda for antiquada. Estas ações mencionadas nada possuem de magia ou recurso milagroso que solucione todo e qualquer problema de imediato! Para mim é muito claro que o melhor dos ensinamentos que as grandes organizações podem oferecer, nossos gestores esportivos ainda não assimilaram, pois como coloquei,todas as estratégias acima citadas são formas de promover o desenvolvimento humano e mudar comportamentos, que é um trabalho de médio e longo prazo, uma vez que não se muda atitude de maneira sustentável da noite para o dia.

Sendo assim penso ser mais do que fundamental que os clubes tenham um ótimo planejamento estratégico, bem como uma excelente gestão da execução deste planejamento. Isto pensando sempre nas próximas temporadas e no longo prazo e não apenas para uma próxima temporada ou para a própria temporada que já esteja em andamento. Saber exatamente aonde se deseja chegar, alcançando diversos objetivos esportivos intermediários ao longo de alguns anos é o caminho; caso contrário o clube pode amargar alternâncias de temporadas boas e outras ruins, levando inclusive ao rebaixamento ocasional como decorrência de uma temporada ruim.

Planejando e executando um plano sólido e viável, de médio e longo prazo, o clube poderá crescer naturalmente e aí sim terá maturidade para adotar as estratégias muito valiosas para o desenvolvimento do seu material humano, que somado auma estratégia viável possa sustentar seu crescimento, contribuindo para se criar um novo patamar de gestão esportiva e consequentemente obter resultados acima da média.

Resumindo, para aqueles clubes possuem, acreditam e executam um plano viável e sustentável, a adoção de estratégias de desenvolvimento humano podem representar uma visão madura e apropriada do benefício que estas podem promover no seu material humano, mas em contrapartida para aqueles que não possuem este plano viável e sustentável, a adoção destas mesmas estratégias transmite muito mais a sensação de desespero e não de crença que elas realmente os ajudarão a obterem seus melhores resultados dentro de campo.

Até a próxima. 

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A quebra de paradigmas no futebol

Como sabemos, o futebol surgiu a partir de práticas populares e que foram sendo organizadas e modificadas ao passar dos anos. Essa prática competitiva recebe a denominação de esporte porque possui um conjunto de regras sociais que se tornam universais pelo mundo, rompendo fronteiras geográficas, sociais, linguísticas, etc.

Ainda, sabemos que o futebol moderno foi pensado por ingleses, e que foi voltado para um público com características definidas: classe social alta, praticantes do sexo masculino, etnias oriundas da Europa e, também, os chamados “normais”, ou seja, pessoas sem nenhum tipo de deficiência. Porém a evolução do esporte foi acontecendo e com isso essas barreiras que impediam a participação de todo e qualquer cidadão foram sendo rompidas.

A seleção e a restrição de participantes, além da padronização de gestos técnicos que o esporte de rendimento ocasiona fez com que surgissem outras duas manifestações esportivas que buscam principalmente a inclusão de todos, onde qualquer pessoa pode ter acesso a essa prática: o esporte de participação e o esporte educacional.

O esporte de participação é menos regrado, praticado sem compromisso com a superação. Não existe padronização na duração e periodicidade, e o envolvimento de seus participantes acontece visando a socialização através da prática de uma atividade física. Já o esporte educacional tem princípios particulares e que não devem ser confundidos com as outras manifestações. Ele se torna diferente porque preza pela formação integral do praticante, instigando a reflexão crítica de situações-problema além de não desprezar o gesto motor do aluno visando criar condições para que todos tenham acesso à prática.

Os princípios do esporte educacional elaborados e desenvolvidos pelo Instituto Esporte e Educação de acordo com Rossetto Junior, Costa e D’Angelo (2012 p.11) são os seguintes: 1) Inclusão de todos: os mais habilidosos, os menos habilidosos, os mais altos, os mais baixos, homens e mulheres, pessoas com deficiência, etc, todos são incluídos nas atividades. 2) Construção coletiva: se dá a partir da construção dos jogos e suas regras feitos não só por uma pessoa, mas sim considerando a opinião de todos os participantes. Onde todos sejam igualmente protagonistas dessa elaboração. 3) Respeito à diversidade: acontece quando o esporte/atividade é ensinada a todos, não havendo seleções em mais ou menos habilidosos, separando os meninos das meninas, os altos dos baixos ou ainda exclusão dos deficientes. Todas as diferenças são respeitadas para que sejam superados todo e qualquer tipo de preconceito. 4) Educação Integral: o objetivo é despertar interesse não só pelo gesto motor, mas também por questões cognitivas, sociais e afetivas. Além disso, pode-se incorporar na atividade outro temas transversais que de certa forma estão ligados ao futebol. 5) Autonomia: os participantes se tornam protagonistas de suas próprias ações, trabalhando a criatividade e na solução de situações-problema.

Tratando especificamente de futebol, em todas as regiões do Brasil existem campeonatos profissionais, campeonatos amadores, a prática do futebol nas escolas, nos projetos sociais e ainda como diz Damo (2007, p.51): “Além, dos estádios, tidos como os espaços consagrados ao futebol espetáculo, e das formas de sociabilidades e simbolismos que lhe são peculiares, existem muitas outras formas de futebóis”, portanto, percebemos que os locais inúmeros e os indivíduos que estão envolvidos têm características muito diferentes como diz Filgueira; Schwartz (2007, p.246): “No Brasil, o futebol é um fenômeno cultural que cativa e impressiona pela sua grandeza, cuja prática tem crescido rapidamente, envolvendo um número significativo de participantes, desde a infância até a idade adulta”.
Cada indivíduo joga futebol por um motivo, seja na escola, seja na rua, para se divertir ou para buscar uma chance na carreira futebolística como um atleta profissional.

UM LOCAL ESPECÍFICO: CENTRO DE REFERÊNCIA ESPORTIVA RIO GRANDE – RS

Um local específico onde ocorre a prática do futebol é o Centro de Referência Esportiva Rio Grande, projeto social este desenvolvido pela Fundação Sócio-Cultural Esportiva do Rio Grande – FUNSERG – e patrocinado pela Petrobras e que segue a metodologia da manifestação do esporte educacional, cujo objetivo maior é educar para a cidadania, porém não desprezando o gesto esportivo.

No Centro de Referência Esportiva Rio Grande – RS são desenvolvidas 6 modalidades esportivas: basquete, boxe, futebol, natação, taekwondo e vôlei, e é voltado para atingir 600 crianças e adolescentes de escolas públicas com idades entre 7 e 17 anos de idade. As aulas são realizadas 2 vezes na semana no contra-turno escolar e em dois diferentes espaços: dependências do Sport Club Rio Grande (boxe, futebol, natação e taekwondo) e ginásio do Clube de Regatas do Rio Grande (basquete e vôlei). Além disso, possui a Rede de Parceiros Multiplicados de Esporte Educacional que conta com a participação de aproximadamente 140 professores de 9 cidades da região sul do estado e atinge em torno de 8 mil alunos da rede pública.

O mesmo teve seu início no começo do ano de 2013 e conta com profissionais de diversas áreas afim de atender melhorar as necessidades de cada indivíduos. A equipe de trabalho é composta por coordenador geral, coordenador técnico e de formação, professores de educação física, assistente social, psicóloga, pedagoga, dentre outros.

Ainda são realizados saídas de campo, festivais e eventos esportivos visando a integração e socialização entre os alunos de cada modalidade e entre os alunos do projeto em geral.

UM PERÍODO ESPECÍFICO: NOVEMBRO E DEZEMBRO 2013

Nos meses de novembro e dezembro do ano de 2013, a unidade didática da modalidade futebol foi elaborada e aplicada objetivando que os alunos conhecessem, vivenciassem e valorizassem as diversas profissões do meio futebolístico.

A expectativa de aprendizagem da dimensão conceitual (processo cognitivo) foi de que as crianças e adolescentes identificassem as diversas profissões envolvidas numa partida de futebol, dentro e fora de campo, além de distinguir essas profissões e também de relembrar as normas de convivência da modalidade. Na expectativa de aprendizagem na dimensão procedimental (processo motor) o objetivo era de que os alunos aprendessem a atuar nessas profissões e que criassem novas normas de convivência. E por fim, na expectativa de aprendizagem da dimensão atitudinal (processo sócio-afetivo), foi de que os alunos valorizassem e respeitassem as profissões trabalhadas em aulas e também as normas de convivência do futebol.

C
om o intuito de atingir essas expectativas, foram usadas as seguintes estratégias/atividades: os alunos deveriam fazer uma listagem das profissões do meio futebolístico, a partir disso, deveriam construir um painel com as profissões e suas funções, e ainda listarem as normas de convivência da modalidade. Outras estratégias utilizadas foram que os alunos vivenciassem as profissões do meio futebolístico, desempenhado as diversas funções, a partir da organização das aulas por parte deles mesmos utilizando o auto-gerenciamento e a construção coletiva, trabalhando em pequenos e médios grupos para planejamento das atividades.

Após a aplicação dessa Unidade Didática, os resultados nos apontaram que os alunos listaram 34 profissões (jogador, técnico, auxiliar técnico, preparador físico, preparador de goleiro, massagista, médico, enfermeiro, fisioterapeuta, fisiologista, nutricionista, assessor de imprensa, gerente de futebol, gerente de marketing, roupeiro, presidente, administrador financeiro, fotógrafo, repórter, câmera-man, jornalista, narrador, comentarista esportivo, gandula, vendedor de ingresso, vendedor do bar, segurança, motorista do ônibus, maqueiro, torcedor, administrador do campo, mesário, cozinheira e advogado) ligadas ao meio futebolístico que eles conheciam, sendo que sete delas foram bastante vivenciadas, além de ter discussões sobre o papel desempenhado por cada uma delas: jogador, árbitro, técnico, comentarista, fotógrafo, gerente de futebol e repórter.

Durante esses meses os alunos foram bastante dispostos a atuarem nessas profissões. Todos se mostravam sempre muito atentos, dispostos a aprender características e funções de cada uma delas e, além disso, se mostraram participativos nos momentos de atuação se esforçando ao máximo para incorporar o papel que lhes era incumbido.

Nos momentos de planejamento e aplicação das atividades gerenciadas pelos alunos também houve muito empenho e dedicação. A grande maioria dos participantes deu opiniões para melhora ou adaptação em alguma atividade a ser desenvolvida.

Além disso, foram relembradas sete normas de convivência da modalidade trabalhadas/conversadas em meses anteriores: 1) Cumprimento do horário de chegada. 2) Uso da camiseta do projeto. 3) Respeito com professores e colegas. 4) Não falar palavrão. 5) Não brigar, empurrar ou chutar os colegas. 6) Fazer silêncio no momento da explicação. 7) Respeitar as regras do jogo e imposto pelos alunos que as mesmas deveriam ser aplicadas por eles mesmo no período que elas não fossem tema da Unidade Didática.

CONSIDERAÇÕES

Como percebemos, as atividades desenvolvidas nesse período nos mostram que pode acontecer o envolvimento de todo e qualquer cidadão no meio esportivo, especificamente no futebol. Para isso, enquanto educadores, devemos ter em mente estratégias que possamos aplicar a fim de atingir o maior número de pessoas nessa tarefa.

Havendo essa inclusão de todos, respeitando as diversidades, estaremos quebrando muitos paradigmas impostos pela sociedade que muitas vezes remetem a ideia que no meio esportivo só é possível a participação se o indivíduo tiver excelência nas habilidades técnicas (gesto motor) do jogo, não considerando o envolvimento do mesmo numa outra profissão, desempenhando alguma outra função que não seja propriamente a de jogador.

Além disso, essas práticas podem ser construídas coletivamente, onde todos os envolvidos tenham suas opiniões respeitadas e valorizadas junto ao grupo, diferentemente de algumas outras situações do esporte onde o que vale é somente a opinião do técnico.

BIBLIOGRAFIA

DAMO, Arlei Sander. A rua e o futebol in STIGGER, Marcos Paulo et al. O Esporte na Cidade: Estudos Etnográficos sobre Sociabilidades Esportivas em Espaços Urbanos. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007.

FILGUEIRA, Fabrício M; SCHWARTZ, Gisele M. Torcida Familiar: a complexidade das inter-relações na iniciação esportiva ao futebol. Revista Portuguesa de Ciência do Desporto, Rio Claro, v. 7, n. 1, p. 245-253, 2007.

ROSSETO JUNIOR, Adriano José. COSTA, Caio Martins. D’ANGELO, Fabio Luiz. Práticas Pedagógicas Reflexivas em Esporte Educacional:unidade didática como instrumento de ensino e aprendizagem.2ª Ed.rev. São Paulo:Phorte,2012.

 

* Professor especialista em Educação Física Escolar e Professor da modalidade futebol no Centro de Referência Esportiva Rio Grande – RS. 

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Intervenções e suas perigosas armadilhas

A resistência sobre a criação de modelos de negócios voltados para a construção e o desenvolvimento do futebol brasileiro não aparecem somente nos sistemas políticos de clubes e de entidades de administração do esporte, tal e qual costumamos abordar ou debater em ambientes qualificados.

É cada vez mais preocupante a forma como os diferentes meios tratam qualquer tentativa de se trabalhar a indústria do futebol dentro de uma plataforma de negócios. No episódio mais recente, a intervenção do Estado do Ceará sobre a operação da Arena Castelão é um flagrante desvirtuamento sobre os ciclos de aprendizagem que um equipamento esportivo novo e moderno precisa passar – estamos falando de pouco menos de 1 ano de operação, com rupturas evidentes (Copa das Confederações 2013 e Copa do Mundo 2014). Ou seja, o primeiro ano efetivo de operação ainda não existiu.

Não são raros os casos de entes públicos tentando assumir um papel que não deveria ser dele. Desvirtuou-se completamente a relação de investimentos e regulação do mercado, que seria o ambiente mais adequado para os organismos públicos atuarem.

A angústia por resultados rápidos ou a tentativa de dar respostas políticas a demandas que deveriam ser de competência esportiva ou de mercado é o que mais assusta. O impacto negativo sobre o desenvolvimento de projetos sustentáveis no ambiente do futebol brasileiro é enorme. Coloca em dúvida a livre iniciativa e a expectativa por melhores investimentos privados no presente e no futuro.

O que o mundo do esporte precisa aprender é que é preciso desenvolver novas e diferentes especialidades para atuar efetivamente sobre atividades complexas que se desenham nesta indústria. Fazendo uma analogia, é mais ou menos o que a ótima (e recente) propaganda do HSBC quis dizer neste vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=k0zFJUpHO8s&list=UU6Nq_TluKxyQemTmYXFIW9Q

“Tudo mundo acha que tem uma solução para tudo mas, na verdade, só quem conhece da realidade do mercado são os especialistas em (…)” 

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Eurico Miranda e a falta de Bom Senso

Ao reassumir a presidência do Club de Regatas Vasco da Gama, Eurico Miranda proferiu a seguinte declaração:

"O Bom Senso é uma piada. Criar uma espécie de associação de jogadores privilegiados, com salários que ofendem a maioria do povo brasileiro, é uma vergonha. Eles recebem um salário que um operário levaria 100 anos para receber. O Brasil tem mais de 150 mil jogadores registrados, por qual motivo não defendem a atividade desses jogadores? Nunca vi uma pessoa ganhar R$ 500 mil e achar que está trabalhando pouco. Que bom senso é esse? É um mau senso".

Como consultor de conteúdo do Bom Senso Futebol Clube, posso afirmar: ou o cartola ignora nossas propostas, ou finge não conhecê-las.

De forma alguma nós, do Bom Senso Futebol Clube, defendemos a elite dos jogadores de futebol. Somos um movimento que busca engajar a comunidade do futebol em torno de mudanças estruturais e necessárias. Isso envolve todos os jogadores de futebol, sejam de elite ou não. E não só os jogadores, mas também torcedores, patrocinadores, emissoras de televisão, veículos de comunicação em geral e, inclusive, clubes e seus dirigentes.

Somos um movimento democrático e pluralista, e o cartola parece não estar acostumado com ideias desse tipo.

Soa absurda a ideia de que privilegiamos jogadores de elite. Toda nossa pregação é pela valorização, principalmente, dos jogadores menos favorecidos. Alguns exemplos são:

– Tanto na proposta de calendário elaborada pelo grupo, apresentada à comunidade do futebol em 17 de março de 2014 (da qual participei ativamente), quanto na obra de minha autoria intitulada “Um Calendário de Bom Senso para o Futebol Brasileiro”, prestigiada pelo movimento, buscamos conceber um calendário que propicie atividades durante toda a temporada anual para mais de 15 mil jogadores profissionais. Uma realidade bem distinta da atual, onde mais de 12 mil jogadores não chegam a ter clube nem por quatro meses, em uma temporada anual.

– Quando propomos que a lei da responsabilidade fiscal para os clubes de futebol seja aperfeiçoada, exigindo contrapartidas para os clubes financiarem suas dívidas fiscais, pensamos, principalmente, no fato de que os jogadores devem atuar em clubes que tenham melhor saúde financeira, para que honrem seus compromissos com os jogadores. Isso não apenas ao nível dos grandes clubes, mas em relação aos clubes em geral, beneficiando os jogadores de todas as agremiações.

– Em encontro recente com a presidente Dilma Rousseff, o movimento levou à presença da mandatária do país o jogador Ruy “Cabeção”. Ele, que já jogou em grandes clubes e atualmente atua em pequenos clubes, retratou a realidade, nua e crua, da vida do jogador de futebol de clube pequeno, deixando a chefe de Estado e de Governo perplexa com a triste realidade. Se não nos interessássemos pela causa dos jogadores com vínculo com clubes de menor expressão, por que nos preocuparíamos em mostra à presidente tal realidade?

Dr. Eurico Miranda esteve longe do futebol por seis anos. Deve estar desinformado. Pelo bem do futebol brasileiro, uma reciclagem lhe é útil.

*Luis Filipe Chateaubriand é Membro do Bom Senso Futebol Clube
 

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Um 6 a 1 que mudou tudo. Ou não.

E se o Galo tivesse rebaixado o Cruzeiro no último jogo do BR-11?

Na Arena do Jacaré, a Raposa dirigida por Vagner Mancini precisava vencer para não ser rebaixada. O Galo de Cuca (que dirigira o rival nos primeiros cinco jogos sem vitórias no BR-11) tinha a faca e o pão de queijo nos pés para rebaixar o Cruzeiro pela primeira vez para a Segunda Divisão, no último jogo dos 19 anos de Zezé Perrella no comando do clube.

Era para entrar mordendo o Galo, ainda que sem Neto Berola. Era para o Cruzeiro ter sentido a ausência dos suspensos Montillo e Fábio, os melhores celestes, e o tático Marquinhos Paraná.

Era para ter sido o jogo para o Atlético mandar o Cruzeiro para o inferno que purgara em 2006.

Não foi.

Acabou sendo a maior goleada do Cruzeiro no clássico mineiro que, então, estava empatado na estatística do Brasileirão. Eram 18 vitórias para cada lado.

Mas só um time a buscou em 4 de dezembro de 2011.

Com 8 minutos, as supersticiosas camisas brancas do Cruzeiro abriram o placar. Anselmo Ramon fez inusitada bela jogada pela direita e deu no pé de Roger Flores.

Sete minutos depois, o Bahia abriu o placar contra o Ceará, outro resultado ótimo para o time azul. Diferente da derrota no clássico para o Galo, que perdia assim um lugar até na Copa Sul-Americana. Um excelente preparativo para a Libertadores…

Mas o Galo fazia feio. Teve duas chances, se tanto, até levar o segundo gol, aos 28. Roger bateu no segundo pau, Serginho não subiu, e Leandro Guerreiro fez de cabeça.

Guerreiro que na véspera perdera um filho abortado pela mulher. Guerreiro que foi o espírito do Cruzeiro contra um Galo amuado.

Batia cabeça o Atletico e ninguém batia legal o coração alvinegro. Cuca colocou Magno Alves como homem para encostar em André. Carlos César passou para a lateral, aos 32.

Não deu 42 segundos e o Cruzeiro ampliou. Réver bobeou e foi ultrapassado fácil por Welington Paulista, que armou o lance para Anselmo Ramon virar como quis sobre Leo Silva e fazer fácil o terceiro gol, enfiando a bola entre as pernas de Renan Ribeiro.

Lance juvenil de Réver e Leo Silva. Dois colossos campeões da América um ano e meio depois da goleada em Sete Lagoas.

O 3 a 0 celeste rebaixava Ceará, Atlético Paranaense, América Mineiro e Avaí.

O Galo até tentava. Agora pela direita, o promissor Bernard fazia fumaça. Mas foi no contragolpe pela esquerda que Fabrício partiu, foi levando, passou como quis por Richarlyson, e bateu de fora da área a bola que bateu em Carlos César e tirou o goleiro.

Quatro a zero aos 45 minutos. Nem deu a saída. Acabou ali o primeiro tempo. E o sofrimento azul.

Quando reiniciou a partida, com menos de 25 segundos, a China Azul, dona daquele mando de jogo com torcida única (sempre um absurdo) começou a gritar olé. Merecido pela bola que o Cruzeiro estava jogando e há muito não jogava, e por tudo aquilo que o Galo deixou jogar. De modo deplorável.

Aos 11, o lance que melhor representa o que se viu em campo. Roger passou duas vezes por dois. Ou quatro vezes. Arrancada sensacional pela direita que terminou no toquinho para a cabeçada de Wellington. A bola nem precisou bater na rede.

5 a 0. Roger, que acabou com o jogo, deu o gol ao artilheiro, que fez sinal de que tudo teria acabado.

Show celeste. Xô, Galo!

O jogo para rebaixar o rival. E o Atlético se rebaixou.

Ainda diminuiu, em lance de Leo Silva para Rever. 1 x 5. 15 minutos. De zagueiro para zagueiro como se fossem atacantes. Como seriam também isso em 2013.

Mas ainda era pouco. Tanto que a torcida celeste gritou o nome de “Cuca”, agradecendo a goleada sofrida. Mas, também, no fundo, o ótimo trabalho que havia feito na Libertadores daquele ano.

O jogo seguiu morno. Mesmo com os vermelhos dados a Werley e Wellington Paulista. Mas do banco vinha o crédito. Ortigoza foi ao fundo e deu o sexto gol a Everton. A bola entrou e, como no primeiro tempo, o jogo nem recomeçou.

6 a 1.

O Cruzeiro que só tinha um ponto de diferença contra os rivais na luta pelo rebaixamento abriu cinco gols de vantagem contra o maior rival. Galo que tinha o mesmo patrocinador do Cruzeiro. E não teve mais nada em comum além do BMG no peito.

“A vitória do milênio” para o Galo virou uma goleada eterna.

– isso não é perder um jogo. É pisar no nosso coração.

Falou e disse Alexandre Kalil, presidente do Galo.

Mas…

E se o Cruzeiro tivesse perdido?

Teria sido campeão brasileiro em 2013 depois de ter vindo da série B em 2012?

Nunca aconteceu.

O Galo teria conquistado tudo que venceu desde 2013?

Certamente. Mas aquela derrota serviu para muita gente saber na Cidade do Galo que é preciso estar atento até os últimos lances. Como time e torcida tanto acreditaram na Libertadores-13 e, agora, na Copa do Brasil-14.

Mas…

E se fosse diferente?

Responde Leonardo Bertozzi, que comigo e com Mario Marra escreveu “Nós Acreditamos”, o livro campeão da Libertadores de 2013, editado pela BB.

Bertozzi, e se o Galo tivesse vencido em 4 de dezembro de 2011? Ele responde como se fosse fato consumado:

– Aqueles jogadores do Galo viraram heróis para a torcida, que nunca mais precisaria ouvir gozações sobre segunda divisão. Parecia um título. E acabou sendo a coisa mais próxima de um titulo desde então. Acomodação tomou conta do Galo em 2012, e o melhor resultado desde então foi um sétimo lugar no Brasileiro. Contratações desesperadas, trocas de técnico e as frustrações de sempre. O Cruzeiro subiu sem sustos e voltou a montar times competitivos, mas os 11 anos sem um título de expressão incomodam cada vez mais”

É a projeção de Bertozzi.

Anderson Olivieri, autor de “20 Jogos Eternos do Cruzeiro” (Maquinária Editora), conjectura o que seria se a Raposa tivesse perdido em Sete Lagoas o jogo que encerra o seu livro.

– Virou lugar-comum dizer que o 6 a 1 de 2011 foi bom para os dois clubes. Ao Cruzeiro, óbvio, porque não caiu e ainda aplicou a maior goleada da história no rival. Ao Atlético, pois teria sido um divisor de águas na gestão do clube. Não vejo assim. Acho que as duas equipes despontaram porque foram eficientes no trabalho pelos anos seguintes. Ainda que o Atlético tivesse rebaixado o Cruzeiro naquela oportunidade, acredito que haveria bonança aos mineiros, como houve, em 2013 e 14. Mas deixemos o “se” de lado. A história, como escrita, está suficientemente heroica e imortal.

É isso.

O Cruzeiro teria tudo para fazer mais história, sendo “tri” nacional, com o título da B em 2012 e o bi-tetra da A.

O Atlético teria tudo para ter feito o que de lindo conquistou em 2013.

E, agora, pode fazer mais uma história inédita em 2014.

 

*Texto publicado originalmen
te no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

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A hora da festa

Foi bonita a festa, pá. O Cruzeiro conquistou no último domingo (23), com duas rodadas de antecedência, um justo e merecido bicampeonato brasileiro. Foi um dia especial para a porção azul de Minas Gerais. No entanto, também foi uma demonstração inequívoca de um problema recorrente de comunicação no esporte nacional. O Brasil, esse povo tão acostumado a fazer festa por qualquer coisa, ainda precisa aprender a comemorar.

Ah, mas é difícil imaginar uma comemoração efusiva em um campeonato disputado no sistema de pontos corridos. Ainda mais numa temporada em que a conquista do Cruzeiro já era dada como certa havia muitas rodadas. Ainda mais três dias antes da decisão da Copa do Brasil contra o Atlético-MG, maior rival celeste, que venceu o primeiro duelo por 2 a 0. Sim, há vários atenuantes. E nem assim a festa do bicampeonato brasileiro foi adequada.

Qual é o momento marcante da festa do Cruzeiro? Que imagem foi artisticamente planejada para as emissoras que exibiram a comemoração? Aliás, que contrato exigiu que as parceiras de transmissão do Campeonato Brasileiro mostrassem o pós-título?

Comemoração adequada não é necessariamente um sinônimo de comemoração por longas horas, prejudicando o descanso e o planejamento da sequência da temporada. Tampouco é necessariamente um sinônimo de comemoração visceral, tipo mais comum em conquistas mais emocionantes ou inesperadas. Festa também pode (e deve) ser planejada.

Pense agora nas festas mais marcantes da sua vida. Seu casamento, seu aniversário de 15 anos, sua formatura ou algo do gênero. Tente lembrar quanta preparação ou quanto esforço elas demandaram. Independentemente do dinheiro despendido, o ponto aqui é: momentos assim são feitos para que pessoas compartilhem emoções. E isso não é possível sem apreço por detalhes – o local, a música, a iluminação e tantos outras coisas que podem mudar radicalmente a experiência de quem vai a um evento desses.

Esforço e apreço por detalhes não são características apenas de festas com alto preço ou longa duração. É possível criar momentos especiais em diferentes formatos. O presente mais legal nem sempre é o mais caro.

Emissoras de TV que transmitem o Campeonato Alemão pelo mundo recebem antes de cada rodada uma programação sobre os jogos. Não apenas com as partidas que serão exibidas na rodada, mas com todos os detalhes sobre os eventos.

Em rodadas que podem definir o campeão, a programação enviada às emissoras de TV inclui detalhes como tempo para montagem do palco, tempo para distribuição de medalhas, tempo para o show pós-título (e o nome do artista que vai se apresentar) e tempo para premiações individuais. Tudo é planejado com antecedência (e com redundância, se houver mais de um time brigando pela taça).

Aliás, a taça é outro aspecto relevante. Se houver mais de um time com chance de ficar com o título, a federação alemã de futebol (DFB, na sigla em alemão) envia réplicas do troféu para os estádios em que os candidatos forem jogar. O campeão brasileiro só recebe a taça na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em cerimônia fechada e sem graça.

Já citei esse exemplo anteriormente, mas o New York Giants, time que disputa a liga profissional de futebol americano (NFL), fez um planejamento especial para a disputa do título em 2011. Instantes depois da vitória no Super Bowl XLV, as lojas do estádio em Arlington (Texas) tinham mais de 200 produtos alusivos ao feito. Eram lembranças com diferentes estilos e diferentes preços, e todas as pessoas que saíam passavam necessariamente pelas vitrines.

Que torcedor, segundos depois de acompanhar in loco a conquista de um título, passa por uma loja com 200 opções de produtos alusivos ao feito e não compra pelo menos uma recordação? Planejar a festa também é cuidar das lembrancinhas e pensar em maneiras para eternizar a emoção daquele momento.

No Brasil, houve na década passada uma moda de camisetas comemorativas. A cada título, times vestiam modelos que eram lançados instantaneamente em pré-venda. O momento da premiação era usado para divulgar esses produtos. E aí, no momento mais nobre, na foto que se transformava em pôster e ia parar no baú de memórias do torcedor, os patrocinadores das equipes ficavam totalmente escondidos.

Lançar produtos alusivos a uma conquista é um acerto indiscutível. Contudo, também é necessário planejar para saber como fazer isso. É lícito aproveitar a emoção da festa, mas é fundamental pensar também em quem paga as contas.

Aí entra uma questão cultural: no Brasil, planejamento muitas vezes é sinônimo de arrogância ou de certeza. Não estamos acostumados a pensar em todas as hipóteses (coisas boas e coisas ruins podem acontecer em qualquer evento). Isso vale para qualquer segmento.

Se um time brasileiro compra bebidas ou contrata um show para uma festa de título, a leitura que muitos fazem é de menosprezo ao adversário ou de certeza de conquista. Já passou da hora de superarmos clichês do tipo.

Planejar não é vergonha e não atrapalha. Aliás, ao contrário. Não é por acaso que todos estão tão ansiosos pela decisão do goleiro Rogério Ceni, maior ídolo da história recente do São Paulo. Ele tem contrato com o clube até o fim do ano e deve se aposentar depois disso, mas reluta em confirmar o término da carreira.

Na semana passada, a Penalty, fornecedora de material esportivo do São Paulo, enviou e-mail a jornalistas convidando para uma entrevista coletiva de lançamento da “última camisa” de Rogério Ceni. No evento, segundo a empresa, o goleiro oficializaria a aposentadoria.

O convite dizia que a entrevista seria nesta terça-feira (25), mas o São Paulo desmentiu. Rogério Ceni foi ainda mais enfático e criticou a Penalty. “Ninguém pode dizer quando eu vou parar”, disse o goleiro.

O São Paulo já marcou um jogo comemorativo para fevereiro de 2015 (contra o Liverpool, time que os paulistas bateram na decisão do Mundial da Fifa de 2005). Além disso, o clube começou a preparar a festa do adeus de Ceni. Para a Penalty, porém, esse não é apenas o ocaso de um ídolo. Trata-se de uma chance contundente de turbinar o faturamento de Natal, e isso não é pouco para uma fabricante de material esportivo.

O principal erro nesse caso foi a falta de ajuste de expectativas. É natural que a empresa tenha interesse de divulgar um produto e é natural que o clube tenha interesse de preservar seu principal ídolo – Rogério pode postergar a aposentadoria ou simplesmente adiar o anúncio para depois do término da temporada. Tudo isso tinha de ser esclarecido para evitar ruídos &
ndash; a Penalty responsabilizou a empresa que fazia assessoria de imprensa para a marca, que foi dispensada.

Fazer festa dá trabalho, e o exemplo de Ceni mostra que o trabalho já começa no convite.