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Aos americanos bicampeões – méritos incontestáveis

Nunca tive a pretensão de fazer deste espaço um tributo exclusivo aos treinadores e jogadores de futebol. Mas ao abordar questões táticas e outras nuances que acabam interferindo nas ações do campo, me vejo forçado a dar nome aos “pais das crianças” que impreterivelmente acabam sendo os treinadores e seus comandados.
Preciso me apressar em falar de dois campeões brasileiros que se juntaram para ser bicampeões com louvor. O América Mineiro, que teve a felicidade de encontrar outro mineiro, o treinador Enderson Moreira, num trabalho de alta performance no futebol. Em 2017 foram bicampeões brasileiros da Série B.
O América já levantara o troféu em 1997 e o Enderson em 2012 pelo Goiás.
Sou testemunha de tudo o que aconteceu e continua acontecendo no América desde o segundo semestre de 2016 e gostaria de dividir com o leitor pontos importantes do jogo de qualidade forjado pelo Enderson Moreira, seus jogadores e comissão técnica. Fiquei verdadeiramente impressionado com o alto nível de abordagem tática que frutifica no ambiente vivido hoje no América Mineiro.
Sei que é meio óbvio elogiar campeões! Não quero vulgarizar o conteúdo deste post passando mais um pouco do mesmo neste assunto. Quem me conhece mais de perto sabe o quanto defendo a causa de um “jogo brasileiro” bem jogado e acompanhando a modernidade do futebol. Estou assistindo de palanque esta transformação no jogo americano que segue as ideias de um treinador que demonstra ser um grande construtor de jogo moderno. Acompanho o Enderson Moreira há pelo menos trinta anos e sei o que estou falando!
Analisando à distância outras equipes, tenho sempre a dificuldade em conhecer detalhes da construção do jogo, métodos de treinos, perfil de liderança, conhecimento do jogo, qualidade da comunicação, dentre outros pontos importantes na competência dos treinadores. Fico somente com o jogo para fazer as conjecturas e projeções das análises. É sempre injusto julgar o comportamento tático das equipes e a qualidade dos seus treinadores e jogadores somente com o que vemos nos jogos. Ainda mais no Brasil onde seus treinadores quase nunca têm boas condições de trabalho para concretizarem suas ideias.
Sobre a conquista do América Mineiro em 2017 fico mais à vontade, pois estou lá todos os dias.
Poucas vezes vi no América um time tão consistente em termos táticos como em 2017. E podem acreditar, pois sou mineiro de BH e estou em minha quarta passagem pelo “Coelho das Gerais”. Os números americanos falariam por si só, mas a exemplo do que vi no Corinthians-2017, o América Mineiro foi muito inteligente e organizado em sua forma de jogar. Praticou o jogo moderno a exemplo do seu comandante que aplica concepção de jogo e métodos de treinos de ponta. Além disso, desenvolveu processos de comunicação muito interessantes para vender suas ideias: vídeos, treinos, verbal, etc.
Um dirigente americano revelou-me o comentário de um torcedor americano que corrobora com a reflexão que proponho neste espaço: o América joga da mesma forma contra um time fraco e um time forte! As palavras do torcedor podem não ter sido exatamente estas. Mas, o que quis dizer não deixa dúvidas! Ele falou com “todas as letras”, ainda que inconscientemente: o América tem uma ideia de jogo!!
Bingo!!! Pois é justamente isso o que acontece com todas as grandes e modernas equipes do mundo! Jogam um jogo construído sob orientação de conceitos táticos bem consolidados e varia em detalhes para o confronto de cada partida.
O treinador americano tem ideia de jogo, sabe o que quer dele, consegue ler e interferir na sua dinâmica com maestria. Sem isso, dificilmente teremos um jogo construído com qualidade. Tenho dito no ambiente de meu convívio diário que o professor Enderson Moreira é um dos melhores treinadores do Brasil e não me sentirei justo e confortável se não externar isso publicamente. As respostas que o futebol brasileiro está procurando para o seu jogo são justamente estas: valorizar treinadores que possuam o discernimento e a arte para construir o jogo moderno. Claro, em um ambiente futebolístico que permita o desenvolvimento destes construtores e suas obras.
Num país onde o treinador de futebol é uma figura tão maltratada, é preciso estar sempre decifrando os segredos desta profissão para, pelo menos, contribuir com parte do entendimento da sua importância.
Em quase todas as reflexões que faço neste espaço e interações com a mídia esportiva ao longo da minha carreira, enalteço os jogadores brasileiros como protagonistas de altíssimos níveis para o futebol mundial. Aos jogadores do América Mineiro que fizeram e ainda fazem parte do projeto atual digo que foram e continuam sendo “peças-chave” na construção deste momento. O treinador Enderson Moreira é quem o diz: – é o clube onde consigo melhor traduzir minhas ideias táticas do futebol graças, principalmente, aos jogadores que temos! Portanto, não se considerem menos valorizados porque falei um pouco mais do treinador neste espaço! Sem vocês as dificuldades seriam imensas.
Além do mais, não sou daqueles que procura dar mais ou menos importância a treinadores ou jogadores na construção de jogos moderno e de qualidade no futebol. Os dois são importantes em igual proporção nesta tarefa. Sempre foi assim e continuará sendo nos esportes coletivos em geral!
Será que estou atrasado na publicação deste post? Acho que não, pois uma das razões que me motivam escrever é divulgar minhas ideias a tempo e hora que me convier. Nunca estaremos fora do tempo esportivo quando reforçamos conceitos que só fazem solidificar um jogo de qualidade para o futebol brasileiro, hoje e sempre. Além do mais, estou com o meu tempo muito ocupado em alguns novos projetos literários e não quero, nem preciso ter pressa. Portanto, professor Enderson, jogadores e colaboradores americanos, também campeões brasileiros com todos os méritos, não considerem descaso e ou demora a publicação destas palavras. Foi apenas uma questão de organização das ideias e do tempo!
Abraço! Até a próxima!!

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Marketing e comunicação do futebol eletrônico

Outrora passatempo de gerações, os jogos eletrônicos (vídeo-games) comunicam-se com centenas de milhares de torcedores, praticantes e simpatizantes, com poder aquisitivo de médio para alto. Um nicho de mercado bastante interessante para as marcas do futebol se comunicarem. De um lado, as empresas que produzem esses jogos querem torná-los mais reais. Do outro, clubes, seleções, atletas, ligas, estádios, narradores, comentaristas e emissoras de TV que querem comunicar seus produtos, a fim de potencializar suas marcas e atrair mais torcedores/consumidores.
É isto que este trigésimo texto da coluna trata. A tecnologia está cada vez mais presente nas vidas das pessoas. O crescimento das grandes cidades, a especulação imobiliária e a consequente redução dos espaços para lazer – infelizmente -, somado ao avanço das telecomunicações, levou a um aumento pelo consumo destes telejogos. E isso não tem volta. Só tem a crescer. É uma oportunidade para que todos façam parte do universo do futebol, independentemente das suas habilidades práticas. Em um primeiro momento, a falta de intimidade com o console não compromete a autoestima de um jovem do que a falta de intimidade, de fato, com a bola.

À direita, Guilherme Fonseca, o “GuiFera”, jogador do Santos FC no eletrônico PES (Pro Evolution Soccer) do e-Brasileirão (organizado pela CBF)| Foto: Santos Futebol Clube

 
Vê-se um movimento interessante – porém tardio – do futebol do Brasil em trabalhar com este nicho. Alguns clubes já envolveram algumas referências neste mercado eletrônico, como o Flamengo e o Santos. Para além disso, é uma oportunidade para os pequenos clubes brasileiros estarem mais em evidência. Atualmente, é inegável que o futebol de rendimento envolve recursos financeiros bastante inacessíveis para instituições sem tantas condições de tê-los. E os jogos eletrônicos, em comparação, não são tão caros assim. Ademais, há uma igualdade de gêneros maior do que no esporte de rendimento.
Com tudo isso, mesmo esta coluna ter demorado para tratar deste tema, ele é importantíssimo. Inclusive o Comitê Olímpico Internacional tem tratado de inseri-lo nos Jogos Olímpicos. Os jogos eletrônicos têm se mostrado cada vez mais ao alcance de todos, ou seja, universal, que por si só já é um dos princípios do esporte. Um tema polêmico e que vai render discussões, mas que não têm volta.

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A história das luvas

O futebol evoluiu muito ao decorrer de sua história e com ele, os materiais e acessórios que os atletas utilizam também evoluíram consideravelmente, a ponto de fazerem parte de uma grande indústria de negócios milionários no mundo todo.
As primeiras luvas, foram produzidas para determinadas atividades profissionais, tanto comerciais como industriais, que requerem o uso recomendável ou obrigatório delas. Em muitas situações, as luvas desempenham o papel de equipamento de proteção individual. Cada tipo de luva possui diversas opções de tamanho, material, design, cor, tipo de punho, tipo de corte, molde, pigmentação, assim como tipos de reforços na palma, costuras e dedos, conforme seu uso e finalidade.
Você vai ver nesse e-book, que o goleiro requer alguns cuidados específicos de segurança no trabalho e que vários acessórios e equipamentos de proteção já foram usados ao longo da história tais como caneleiras, joelheiras, cotoveleiras, protetor bucal e até mesmo uma espécie de capacete para proteger a cabeça de choques e pancadas.
Mas tem um assessório que além de segurança no trabalho, proporciona um maior desempenho no trabalho e um estilo diferenciado. Estamos falando da LUVA de goleiro de futebol. Ela evoluiu lentamente durante a sua história, e hoje é um dos equipamentos de trabalho mais utilizados pelos goleiros, proporcionando sua comercialização por grandes empresas de material esportivo.
Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

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Para muito além dos episódios

Muito se viu e se falou dos episódios lamentáveis ocorridos no clássico BAVI, jogado no Estádio Manoel Barradas, no dia 18.02.2018. Não quero aqui abordar questões que foram ou estão sendo debatidas alhures, nem tampouco registrar a minha incredulidade com a transformação do campo de jogo em fajuto ringue de MMA e, depois disso, o inacreditável encerramento da partida antes do tempo regulamentar por deficiência numérica de atletas. Não! As imagens falam por si! Quero abordar, em particular, algo que precisa ser contextualizado e que vai além do episódio: ausência de PROFISSIONALISMO.
O futebol é hoje, sem sombra de dúvidas, um negócio extremamente rentável e que é movido pela paixão. Vai muito além da paixão ou do chamado clubismo. Basta uma pesquisa simplória na internet para ver os números relacionados com a movimentação financeira do esporte, tanto em solo brasileiro quanto no resto do mundo. Só em 2016 os Clubes arrecadaram 5 bilhões de reais[1]. É “negócio” atrativo; todavia, depende de múltiplos fatores para ser tornar mais rentável e autossustentável em seus mais diversos campeonatos, a ponto de transformar o entretenimento em algo que atinja fins extraordinários, inclusive na esfera social. Evidentemente que isso transborda aspectos meramente econômicos, já que impacta em pessoas, torcedores e sócios; investidores; patrocinadores e profissionais de inúmeras searas, desde o baleiro e vendedores de picolé a jogadores, treinadores e  imprensa em geral, por exemplo.
A palavra PROFISSIONALISMO nunca mereceu tanto destaque (por isso utilizo em letras garrafais). Tem faltado vontade e visão para dar a esse segmento espetacular maior credibilidade e, assim, expandi-lo de modo adequado para que atinja, inclusive, efeitos sociais, entre eles empregos – diretos e indiretos – além de distribuição de renda.
Com todo respeito às opiniões contrárias – e elas devem sempre existir, apesar do momento de intolerância às divergências, porque não se constrói nada positivo sem contrapontos e debates de ideias – falta muito PROFISSIONALISMO no futebol brasileiro. Ele só permanece rentável por força da paixão pelo esporte e da sua exploração nas transmissões esportivas que atraem milhões de telespectadores. A sua rentabilidade não decorre do desenvolvimento de estratégias eficientes daqueles que participam da administração do desporto, desde Federações e Confederação Brasileira a Clubes e os próprios atores do espetáculo que são os atletas, técnicos e membros de comissão técnica.
As Federações e a CBF são organismos importantíssimos; existem para atender aos interesses dos seus filiados e, consequentemente, dos atletas, técnicos e equipes de arbitragem. Quando se mira a estrutura atual dessas entidades é assombroso como se comportam mal e alheias aos principais problemas enfrentados por seus filiados. Comportam-se como se estivessem num pedestal e tivessem aos seus pés quem efetivamente lhes dá e garante sobrevivência! Por isso e só para exemplificar, a CBF alegou ser muito caro o investimento no VAR (Árbitro de Vídeo), mesmo tendo lucro suficiente para bancá-lo e mesmo sabendo que o emprego dessa tecnologia ajudaria (embora sem perfeição) trazer para o campo de jogo resultados mais limpos e com menor margem de erros. O argumento financeiro utilizado soa ridículo, para dizer o mínimo; e o é exatamente porque, quanto mais séria for a competição, inclusive em termos da credibilidade dos seus resultados, mais atrativa ela será, inclusive financeiramente, a ponto do investimento no VAR, no futuro, se transformar num nada frente a otimização dos lucros, com aumento do interesse pelas competições, investidores e patrocinadores.
Os Clubes, por sua vez, têm resistido implementar modernização administrativa. Só aceitaram, boa parte deles, inclusive quanto ao fair play financeiro, porque lhes foi imposto, seja pelo regulamento da CBF, seja pela Lei 13.155/15. A quantidade de dirigentes atrasados ou despreparados é uma festa de encher o circuito barra-ondina do carnaval. As Agremiações Esportivas são, regra geral, narcisistas e defendem, com seus discursos enfadonhos, a tese da “farinha pouca, meu pirão primeiro”, como se o futebol não fosse um esporte coletivo e não dependesse de adversários e quanto mais competitivo se revelar, mais rentável será – para todos! As Agremiações que ousam mudar o viés administrativo e buscar essa PROFISSIONALIZAÇÃO, geralmente, são vistas nas Federações ou CBF com desconfiança e seu relacionamento com outros Clubes que mantém a política administrativa do século passado não é lá muito animador…
É exatamente por isso que, ao invés de terem como lastro a competitividade sadia, com respeito às regras, independentemente de saírem ou não vitoriosos, miram, no mais das vezes, os seus lucros individuais, para montagens de elencos e satisfação da torcida, mesmo que dependam da ruína financeira de outros Clubes. Na esfera da prática desportiva em si, apenas o resultado do jogo ou da competição é o que importa. Nada mais.
Os Atletas e Treinadores não ficam atrás; também revelam, em muitos casos, essa lógica perversa. Parte deles são malformados; malconduzidos empresarialmente; iniciam a profissão sem sequer se preocupar em conhecer regras, principalmente de disciplina e ética desportiva e, dentro do contexto da hiper competitividade, deixam bastante a desejar quando se trata de controle emocional e responsabilidade profissional, não apenas com o Clube que o contratou, mas com o esporte que pratica.
O BAVI expôs uma ferida aberta, decorrente de uma enfermidade velha e não tratada e, por isso, não cansa de sangrar. É estancada, apenas momentaneamente, com paliativos, porém, continua latente, diante da ausência de interesse no tratamento com objetivo da cura, só encontrada no PROFISSIONALISMO irrestrito e alheio às paixões; no trabalho, inclusive sob perspectiva ética, para funcionamento perfeito de toda uma engrenagem e não apenas de parte dela, vista como peças individuais. É preciso que os atores sociais que integram essa “indústria” do entretenimento parem e pensem que nada funcionará adequadamente se todas as peças dessa “máquina” não estiverem sadias.
Bahia e Vitória, seus atletas e membros de comissão técnica, integram um mesmo contexto junto com a FBF e, na prática, não são adversários, senão apenas no campo de jogo, exatamente porque a atividade depende dele. O mesmo ocorre entre os atletas, vistos como colegas de trabalho. Quando se veem de outra forma, trabalham juntos pela falência múltipla da essência da modalidade. É uma equação absolutamente notória, mas de difícil manuseio, exatamente pela incapacidade de pensar e racionar as coisas foram do quadrado de cada um; de pensar e racionar as coisas mirando o bem comum.
Enquanto isso não acontecer, infelizmente, assistiremos a outros espetáculos lamentáveis no futebol. E a coisa é tão séria e importante que os demais Clubes da Bahia, que não têm nada a ver diretamente com o episódio, deveriam ficar igualmente preocupados com o seu desfecho. A maioria deles depende dessa competição que se encontra desmoralizada! Se a credibilidade for para o espaço, o que sobrará para eles?
Assim é preciso muito mais que retórica. Bahia e Vitória, assim como a Federação Bahiana de Futebol, precisam parar de olhar para o próprio umbigo e interesses e utilizarem esse episódio como trunfo, agora que ele infelizmente ocorreu. Seria uma excelente oportunidade de transformar algo negativo em outro que traga mudanças espetaculares para o futuro da prática desse esporte no Estado, a médio e longo prazo.
Seria mágico transformar um episódio de triste lembrança que decorrem das cenas lastimáveis do BAVI do último domingo, no divisor de águas para uma mudança estrutural de conceitos e de atitudes no desporto regional e nacional; colocar interesses coletivos à frente dos individuais e o profissionalismo a frente da paixão clubística cegueta.
O profissionalismo também deve ser paixão. Profissionalismo sem paixão empobrece o trabalho. O que não pode acontecer é fazer com que a paixão seja desculpa para que o mal caratismo e mentiras prevaleçam em episódios como esse.
Thomas Edison dizia que aprendeu muito mais com seus erros do que com seus acertos. Essa é uma lição importante; todavia, é preciso inicialmente reconhecer os erros, porque só assim conduzirão aos acertos.
[1] http://epoca.globo.com/esporte/epoca-esporte-clube/noticia/2017/05/r-5-bilhoes-em-faturamento-por-que-o-futebol-brasileiro-arrecadou-tanto-em-2016.html

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Entre o direito, o sócio, e o torcedor

Bem-vindos a mais uma sexta-feira aqui no “Entre o Direito e o Esporte”. Hoje vamos continuar a falar sobre a festa das arquibancadas e a torcida nos estádios. Nesse mês de fevereiro a gente já conversou sobre o torcedor no estádio e sobre a torcida organizada no estádio, certo? E para fechar o mês do carnaval hoje vamos tratar daquele que é sócio e torcedor, e que de vez em quando parece que não é nem um nem outro.
Hoje vamos falar sobre o sócio-torcedor.
Para deixar um pouco mais organizado, vamos falar um pouco sobre como o Estatuto de Defesa do Torcedor deu essa abertura aos clubes, para entrar no que a gente encontra geralmente nesses planos, para então comparar o torcedor, a torcida organizada, e o sócio-torcedor em como tudo isso afeta o seu clube – pelo menos para o direito desportivo.
Fechou?
Começando pelo começo… o Estatuto de Defesa do Torcedor (EDT) surgiu lá em 2003 para deixar ainda mais claro o que é óbvio para quem vai aos estádios: o torcedor é um consumidor. Um consumidor do futebol. Um consumidor que tem seus direitos – e também seus deveres, né?
Pelo Estatuto os clubes têm que publicar um documento que tenha as informações básicas do seu relacionamento com os torcedores. E lá deve falar para o torcedor desde como é a entrada no estádio, até como é a comunicação com o torcedor. E, foi justamente ao falar da comunicação que veio a ideia do sócio-torcedor quando EDT reconhece (juridicamente) a existência de programas desse tipo – e que os sócios-torcedores poderiam ter direitos mais restritos que os demais sócios dos clubes (leia-se: sem direito a voto para a maioria quando das eleições presidenciais).
Mas, vamos lá, o que é um programa de sócio-torcedor para começar? Tudo bem, você é um e já sabe. Mesmo assim, te convido para continuar aqui comigo que tenho certeza que alguma coisa vai ser útil – mesmo que seja para reclamar com o seu clube que algum outro tem alguma ideia que você queria que o seu também tivesse.
Resumindo: o programa de sócio-torcedor é um programa de fidelização do consumidor. Ou seja, esse programa busca manter o torcedor cada vez mais próximo do seu clube – e, de preferência, cobrando um valor a mais por mês.
Sabe quando você vai naquela sorveteria tomar uma casquinha no fim de semana? Então, certeza que te dão um cartãozinho que depois de um número de casquinhas você ganha uma de graça. Esse é a base de um programa de fidelização, e o sócio-torcedor é uma versão bem mais cheia de opções do que esse “cartãozinho do sorvete”.
Como exemplo, em troca da mensalidade num programa de sócio-torcedor você vai achar descontos nos setores do estádio, clube de vantagens, pré-venda exclusiva de ingressos para partidas e shows, desconto em rede de parceiros – ufa, cansei. Vários acessórios para garantir que você torcedor continue torcendo e gastando com o seu clube.
E em troca você ainda ganha revistas, acesso a experiências (como dias de treino, conversa com jogadores, e por aí vai), e o tal do rating ou ranking. Falando a verdade, como sócio-torcedor eu adoro tudo isso (e aquele tal do Movimento por um Futebol Melhor), só que o que é bom mesmo é essa história de comprar o ingresso antes e me garantir. Né?
Só que como a gente sabe, não é bem assim que funciona já que tem a “prioridade relativa à frequência”. E os clubes restringindo certos direitos a certos torcedores podem dar preferência para quem paga mais – tipo aquela história do fim da neutralidade da internet para quem tem visto essas coisas de computador, sabe? Assim, tem torcedor que mesmo sendo sócio-torcedor continua “chupando o dedo” quando seu time vai para a Libertadores e só pode assistir de casa o jogo. E o EDT diz que isso é (juridicamente) legal, então segue o jogo!
Agora, o sócio-torcedor é tão diferente assim dos outros torcedores? Sim, é.
E, para muitos, acaba sendo até melhor assim. O torcedor mais presente fica feliz com os ingressos antecipados, o clube fica feliz com o dinheirinho extra no fim do mês, e os parceiros do clube ficam felizes com a exposição (né, Crefisa?). O torcedor comum continua indo ao estádio quando pode, a torcida organizada continua na sua (com o seu cartão da paz se você for de São Paulo). E todo mundo responde se fizer besteira no estádio – e o seu clube também, então se comporte mesmo quando os jogadores do seu time não ajudam!
Só que… a gente não está esquecendo de ninguém? Afinal, qual a diferença entre o sócio e o torcedor?! Aí sim tem uma bela diferença! O sócio-torcedor pode até ser torcedor, mas muitas vezes não é sócio de nada (fora do clube de vantagens). O torcedor não faz parte da vida política do clube e não faz parte da vida do clube social – salvo raríssimas exceções.
Assim, o sócio-torcedor não pode votar em eleições – para o bem (as decisões do seu clube podem te afetar sem você ter voz) ou para o mal (o seu voto não interfere na vida do clube social que o sócio-torcedor não faz parte). Em alguns casos, os sócios dos clubes sociais são também sócios-torcedores. O que deixa bem clara a diferença entre esses dois tipos na vida dos clubes brasileiros – e as vezes bem complicada na cabeça de quem é de fora do esporte ou não vai nos estádios.
É, meu amigo… torcer não é fácil, não (e é mais difícil ainda se você torce para o meu time). E é por isso que é importante a gente saber quando que a gente é um torcedor, um sócio-torcedor, ou se a gente faz parte de uma torcida (organizada ou não). É assim que a gente deixa a nossa festa nos estádios ainda mais bonita – e com paz e tranquilidade sempre, por favor!
Espero que tenham gostado de mais um “Entre o Direito e o Esporte”, nosso mês sobre os torcedores fica por aqui e em março vamos conversar sobre um novo tema que a gente adora comentar: o contrato de trabalho do seu ídolo no seu time. Que tal?
Por hoje é isso! Aproveitem essa sexta-feira de calor em quase todo o Brasil… um bom final de semana a todos! Como de costume, a porta de casa está aberta e deixo meu convite para falarem comigo aqui, pelo meu LinkedIn (só achar meu nome lá), ou pelo Twitter (@RBarracco). Até semana que vem e valeu pela companhia de todas as semanas!

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Uma estratégia para treinadores

Os autores do livro Agôn – Homo Sportivus: Estratégia & Estratagemas (Edições Afrontamento, Porto, 2017) são dois dos estudiosos, mais destacados e ativos, do Desporto, em língua portuguesa. Refiro-me ao Doutor Gustavo Pires e ao Dr. António Cunha.  Acerca do Doutor Gustavo Pires, posso adiantar, sem receio, que a qualidade e a diversidade das universidades onde lecionou e das tribunas onde subiu e dos livros e trabalhos científicos que produziu, dão-nos a medida da seriedade e da especialidade dos temas versados. Não cultiva a flor da simpatia; não sabe organizar, como tantos outros, a publicidade do seu indiscutível valor; manifesta um desdém olímpico por algumas imbecilidades que, na direção e gestão do desporto, se consideram “príncipes perfeitos”; não esconde a irresponsabilidade, a inconsciência, a alienação à mentira – nem sinuoso, nem insinuante, é, no meu entender, um dos universitários mais cultos que, ao longo da minha vida (que já não é curta) eu conheci.
Para mim, a cultura é a aliança do saber e da vida, precisamente o que Gustavo Pires manifesta, quando fala ou escreve sobre desporto. O Dr. António Cunha foi um exímio praticante de andebol, tanto como jogador, como conceituado treinador, chegando mesmo a treinar, durante vários anos, a seleção nacional desta modalidade e ainda, com inesquecíveis êxitos, o F.C.Porto, o S.L.Benfica e o Sporting C.P. Foi membro efetivo do Comité Técnico de Alta Competição da Federação Portuguesa de Andebol. Também regeu a disciplina de Metodologia e Treino do Andebol, na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Mais havia, para salientar, no seu brilhante currículo desportivo, no que ao andebol diz respeito. Quedo-me agora, por aqui, não deixando de salientar que, neste livro, a síntese teoria-prática é de uma tal perfeição que tudo, nele, parece um pretexto para, em tom de conversa culta, manifestar um grande amor pelo desporto.
Venho dizendo, há muitos anos já, que “o desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo”. Portanto, o desporto não é tática e técnica e fisiologia tão-só. Porque as relações teoria-práxis estão ganhando uma importância crescente, ao longo da História das Ciências e da História da Filosofia, pode escrever-se, hoje, que da resolução deste problema depende a legitimidade de um tema de que se ocupem tanto o filósofo como o cientista. Na resolução das relações entre a tecnociência e a ação, tem de resultar um conhecimento onde o homem todo e todos os homens possam rever-se. Com o racionalismo, a razão pura, teórica absorveu, por completo, o ato de conhecer. Se, por exemplo, a filosofia se divorcia, por completo, do mundo da tecnociência, no meu modesto entender, torna-se dispensável.
Por outro lado, se a tecnociência manifesta uma incompatibilidade insanável, na relação com a filosofia, o conhecimento científico descamba normalmente numa especialização, incapaz de abranger as exigências da complexidade humana. Encontram-se historicamente esgotadas as cogitações dos que proclamam o divórcio filosofia-ciências: é que, sem as ciências, a filosofia é mera retórica e, sem a filosofia, a ciência desconhece os valores que a humanizam, isto é, que des-ocultam os seus objetivos primeiros. Hoje, nem a ciência pode tornar-se numa filosofia de substituição, nem a filosofia uma “doutrina de segurança”, com respostas fáceis para perguntas difíceis. Não é este o lugar para invocar o nome de Habermas, Adorno, Horkheimer e Marcuse. Mas é a altura de dizer que uma teoria do conhecimento deverá transformar-se numa “teoria crítica” que saiba encontrar a prática fundante e a teoria norteadora, tanto nas ciências humanas como nas ciências da natureza.
Gustavo Pires e António Cunha sabem tudo isto que venho de escrever e, daí, a sua afirmação: “Na realidade, o pensamento estratégico, no abstrato da oposição das partes, na agonística do jogo e na dialética das vontades, abre um vasto campo de reflexão que deve suportar o processo de tomada de decisão nas suas dimensões política e técnica, no âmbito do desporto em geral e, muito especialmente, do futebol, onde, todas as semanas, estão em jogo muitos milhões de euros (…). Assim sendo, a arte do treinador, que se traduz na sua atitude estratégica relativamente à preparação de cada jogo em particular e do campeonato em geral, está transformada numa questão fundamental, na organização da vitória que determina a vida das equipas, dos clubes, das regiões e dos próprios países” (op. cit., pp. 9 e 11). Investigam, depois, os autores “o pensamento de um conjunto de estrategas militares que, de alguma maneira, podem ajudar a estruturar o pensamento estratégico dos treinadores.
Abordaremos também o pensamento de alguns estrategistas que, muito embora não se enquadrem perfeitamente, na dinâmica do encontro direto que caracteriza a ação do treinador, não é por isso que deles não podem decorrer úteis ensinamentos para a condução da equipa e a organização da vitória” (p. 13). Desde T’ai Kung (séc. XI a. C.), Sun Tzu (2300 a. C.), Tucídides (460 a.C. – 400 a. C.) e Aníbal (247 a. C. – 183 a. C.), passando por Maquiavel (1469-1527), Joly de Maizeroy (1719-1780), Napoleão Bonaparte (1769-1821), Antoine-Henry Jomini (1779-1869), Carl von Clausewitz (1780-1831), até Georges Clemenceau (1841-1929), André Beaufre (1902-1975), LIdell Hart (1895-1970), Henry Mintzberg, Michael Porter e mais alguns – Gustavo Pires e António Cunha apresentam-nos uma portentosa coleção de livros e de conceitos, de densa especulação e de contacto diuturno com os grandes estrategas e estrategistas, que a história nos aponta. Agôn – Homo Sportivus: Estratégia & Estratagemas preceitua uma pedagogia concreta, uma inteligência clara e segura e uma argúcia tão viva, que não há por aí treinador desportivo que o não deva meditar e sociólogo que o não deva ler. Demais, uma obra para integrar a biblioteca de Institutos Superiores e Faculdades dos mais diversos saberes.
“Um país jamais será economicamente competitivo, se não for culturalmente competitivo. E só será culturalmente competitivo, se tiver uma forte educação competitiva. E a educação competitiva começa no ensino do desporto, a partir da conceção da superestrutura dos programas da disciplina de Educação Física dos ensinos Básico e Secundário que, em termos de desenvolvimento, devem articular a jusante com a rede de clubes desportivos da estrutura desportiva federada. Nesta conformidade, as várias modalidades desportivas, através das respectivas federações, devem ser sujeitos ativos, numa futura curricular dos programas de Educação Física, de maneira que a disciplina possa contribuir para a melhoria do Nível Desportivo do País” (p. 67). É evidente que se trata de uma competição entre seres humanos e, portanto, com valores a ter em conta. E assim a estratégia, neste caso, é um saber para um diálogo com uma filosofia prévia a toda a ciência que, noutros saberes e aqui, torna o conhecimento científico válido e humanizante. Na página 142 desta obra (que nos oferece um mosaico rico sobre os diversos aspectos como a estratégia pode estudar-se) pode ler-se: “A estratégia é um fenómeno ação/reação em que todo e qualquer movimento de um dos protagonistas deverá suscitar uma resposta do outro; um ato de reflexão criativa, num ambiente agónico que questiona a própria sobrevivência da equipa; um processo de reflexão, que deve anteceder o planeamento estratégico, que se limita a estabelecer o processo metodológico, que visa atingir determinados objetivos, mais ou menos integrados”.  Insisto no que já escrevi: este é um livro que nenhum treinador deve deixar de meditar e nenhum sociólogo deve deixar de ler. Pela primeira vez, em língua portuguesa, surge um livro, com verdadeiro valor científico, para a explicação e a compreensão do fenómeno “estratégia, na competição desportiva”.
A razão limitante dos que pretendem fazer da Educação Física e do Desporto, subsidiários e satélites “atentos, veneradores e obrigados” da biologia, como se ela pudesse exaurir ou preencher a complexidade humana; o economicismo interesseiro de outros que dão prioridade gnosiológica e axiológica ao lucro e à compra e venda de jogadores; as imbecilidades palatinas que, aqui e além, descobrimos no governo dos clubes desportivos – talvez não entendam, em toda a sua magnitude, o valor inestimável deste livro, que não tem par, no âmbito da “estratégia, na competição desportiva”, em língua portuguesa. Urge dizer ainda que tem vigorado realmente, mesmo entre as elites clássicas (políticos, intelectuais, escritores, artistas, etc.) um pronunciado esquecimento e, nalguns casos, até desprezo pelo desporto como prática socialmente organizada.
Eu sei que as expressões “Atividade Física”, “Educação Física”, “Preparação Física”, de acentuado pendor cartesiano, muito concorrem à indiferença e ao desinteresse de muitos. No entanto, embora estas expressões não retratem fielmente a prática profissional dos “professores de Educação Física”, que tem em vista a complexidade humana, não há razões plausíveis para desconhecer que as aulas de Educação Física, designadamente nos ensinos Básico e Secundário, completam, com a sua singularidade e intransmissível novidade, o que as demais disciplinas do currículo não podem, ou não sabem dar. O livro Agôn – Homo Sportivus: Estratégias & Estratagemas é da autoria de dois “professores de educação física” que pretendem estudar a “estratégia”, como facto e como valor, bem longe das taras cartesiana, positivista, empirista. E fazem-no com um brilho tal e com tamanho rigor, na interação ciência-filosofia, que podem repetir, sem receio, as palavras de Heraclito de Éfeso a um grupo de presumidos curiosos: “Aqui, também moram os deuses”.

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Análise contextualizada

A tecnologia mudou o mundo e por tabela mudou o futebol. O número de informações que se gera de um jogador, de uma partida e de uma equipe é estratosférico. Se antes o empirismo, o achismo ou o chamado ‘olho clínico’ imperavam, hoje não se pode mais analisar um jogo ou até mesmo o mercado da bola sem informações fidedignas.
Posto isso, vem o mais importante: o conhecimento de quem analisa essas informações geradas e a sensibilidade para contextualizar os números em um contexto mais amplo, formam a parte mais importante e valiosa de todo esse processo.
Pegando, por exemplo, a análise de mercado: quando o Palmeiras contratou por cifras milionárias o atacante Borja no ano passado criou-se uma expectativa gigantesca em função dos números. Uma passada de olhos nos gols marcados por ele no segundo semestre de 2016 garantia que cada centavo gasto havia sido bem pago. Mas em algum momento se analisou qual o modelo de jogo que privilegiava as características de Borja fazendo com que ele fosse a rede tantas vezes? O Palmeiras teria esse mesmo modelo? Observação: o verdão teve três treinadores no passado (Eduardo Baptista, Cuca e Alberto Valentim). Cada um com uma ideia de jogo. Sem falar no aspecto emocional e comportamental.
Fizeram essa análise? Borja tinha ido para o futebol italiano, mas voltou rapidamente para a Colômbia por não se adaptar. Como foi a adaptação dele no ano passado com a cultura, clima e idioma aqui no Brasil? Isso pode explicar muito o desempenho de um atleta dentro de campo.
Contratar os melhores nomes do mercado não garantem a formação de um grande time. São inúmeros aspectos a serem analisados em cada contratação, permanência de jogador e até transição de quem está chegando da base. Os números frios não vão responder as perguntas certas que devem ser feitas. Não é só o técnico, nem só o tático, nem o físico e nem o emocional. O todo é maior que a soma das partes. O valor maior não está na informação. E sim no conhecimento para avaliar o que é mais adequado ao momento.

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Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?

Olá, caro leitor.
Dê uma boa olhada na imagem.
Que sentimentos vem à tona ao observá-la?
Num final de semana onde passeava com minha esposa por São Paulo, ao me deparar com esse grafite em um dos muros do “beco do Batman”, fiquei por alguns minutos o observando, perplexo e com muita agonia.
Este grafite retrata algo que, infelizmente, é muito comum na vida da maioria de nós: estarmos em situações nas quais, claramente, não nos encaixamos, mas que, ainda assim, somos forçados a nos enquadrar. Obviamente, não é possível levar a vida saciando todas as nossas vontades, uma sociedade repleta de pessoas assim seria insustentável, todos, de alguma maneira, precisamos ceder um pouco.
Mas, um pouco, e não por completo! Não devemos, ou não deveríamos, negligenciar aquele desejo interior em expor aquilo que sentimos, que desejamos, só porque isso pode ir contra, ou ser diferente daquilo que a maioria (ou um grupo “dominante”) faz ou pensa.
E o futebol? O futebol é expressão humana! Aflora e traduz sentimentos! E sendo assim, está sujeito a também ser, de alguma forma, oprimido.
Convido a se remeter a seus tempos de criança, de adolescência, relembre os momentos de prazer, de alegria ao jogar bola… Estes momentos ocorreram em situações onde você jogava livremente, ou onde seguia tudo aquilo que um treinador/professor ditava fora de campo?
A cultura de futebol em nosso país é um tanto quanto conservadora e imediatista. O que, desde cedo, acaba ceifando a criatividade de jogadores e treinadores. Muitos destes jogadores que no futuro serão também treinadores e irão apenas reproduzir o que com eles foi feito, dando então continuidade a um ciclo vicioso.
No Brasil, ao se ler e ouvir análises sobre jogos, jogadores e treinadores, tudo soa muito igual! Muitas destas análises retratam cenários bem distintos do que na realidade são. Quando Guardiola trocou o Barcelona pelo Bayer, e posteriormente indo para o Manchester City, muitos insistem em falar que o treinador busca reproduzir o “Tiki-Taka” (abominado por Pep) em seus novos clubes, quando cada uma destas equipes que ele dirigiu, possui uma identidade própria, algumas semelhanças sim, mas bem longe de serem iguais, de serem tão-somente cópias.
Parece-me que estão sempre querendo fazer como na imagem, encaixar uma equipe ou jogador, num padrão que não lhes cabe. São comuns as improcedentes comparações de equipes europeias com as brasileiras, tentando-as colocar na mesma moldura, ou então, de jogadores que possuem destaque nacional, são alçados ao posto de craques, de revelações do futebol mundial, mas que não conseguem obter sucesso no extremamente competitivo e qualificado futebol dos grandes centros europeus, e assim cada vez mais cedo retornam ao Brasil ou migram para mercados de menor expressão e nível competitivo.
Ao se assumir uma equipe, o que se busca primeiramente?
Convido o leitor a assistir este fragmento do documentário “Quando sinto que já sei”, um documentário extremamente interessante (e pertinente) a todo aquele que se dedica a transmitir qualquer tipo de conhecimento.

 
Será que nossos atletas são folhas em branco?
E nossas equipes, nosso grupo de jogadores, estamos tentando lhes enfiar um modelo “goela abaixo”?
Como são nossos treinos? Meras reproduções daquilo que foi feito conosco quando éramos mais jovens? Um ambiente fechado, sem espaço para o novo, para a criatividade? Estamos simplesmente tentando encaixar cada jogador encerrado numa série de regras para cada posição?
O quanto estamos permitindo que nossos atletas criem? O quanto estamos nos permitindo criar?
Não é porque o modo de jogar “y” deu certo com a equipe “x”, que naturalmente eu deva reproduzir isso. O conservadorismo e imediatismo de nosso país pode acabar nos induzindo a ir por uma via mais fácil, que de forma sedutora transmite a falsa ideia de maior segurança. Na busca por aceitação, acaba-se fazendo aquilo que a maioria faz e espera que também o façamos, limitando a possibilidade de se criar algo novo, de arriscar fazer diferente. E não estou dizendo aqui em desprezar o que já feito, mas sim, de o usar como modelo e não como molde.
Cada jogador é único, traz algo em si e tem muito a oferecer, uma equipe é composta de vários destes seres únicos, e ela não é algo fechado, assim como os seres estão em constante mutação, a equipe situa-se na mesma condição, sempre sujeita à novas possibilidades, novos comportamentos, novas formas de jogar. Ela não se encaixa em somente um padrão, mas pode caber em vários! Atletas e consequentemente equipes, tudo será fruto dos estímulos ao qual são expostos, sejam eles castradores ou instigadores.
Agonia! Agonia ao ver que muito do potencial de tantos meninos e meninas se esvai pelo ralo da opressão. Que tantos treinadores se reprimem em função do meio e não buscam alimentar a criatividade que possuem dentro de si. Acredito que seja preciso um basta para essa realidade! Há espaço e possibilidade de inovar mais, ousar mais, permitir que cada um expresse mais aquilo que é, sem forçar que todos se encaixem em um espaço onde não cabem.

“A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer”

Trecho da Música “Comida” da Banda Titãs.

 
Link para o documentário completo:

 

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O futebol nos tempos do cólera e de Copa do Mundo

O país e a sociedade brasileira enfrentam grave crise institucional e de princípios. Desde a irresponsabilidade no trânsito, de jogar lixo na rua até o crime organizado. A injustiça social, conservadorismo e intolerância. O futebol é reflexo disso tudo: a ausência – em grande parte – de profissionalismo em sua gestão, do tráfico de influência de alguns dirigentes, dos clássicos com torcida única e batalhas campais (entre os próprios atletas). O Brasil está doente. Muito doente.
Estamos em ano de Copa do Mundo – a pouco menos de quatro meses – e não se percebe a euforia nas ruas em torno do evento em comparação com os outros anos. Apesar de o treinador da seleção brasileira ser uma das poucas unanimidades deste país e da impecável campanha nas eliminatórias, o clima de Copa do Mundo não passa de uma leve brisa. Vai sim tomar forma com a aproximação do torneio. E a torcida pelo Brasil vai ser muito grande.
Isso porque, historicamente, não há nada que eleve tanto a autoestima quanto a seleção brasileira de futebol. Um dos maiores – senão o principal – produtos deste país. Desde a Copa de 1938 com uma equipe de diferentes origens étnicas e sociais, aliada ao sucesso da obra de Gilberto Freyre “Casa Grande & Senzala”, passando pelo fim do complexo de “vira-latas” (Nelson Rodrigues), aos noventa milhões em ação de 1970, pelo Plano Real de 1994, até o otimismo do início do século XXI, a camisa amarela da seleção de futebol é importante fator para a autoestima do povo brasileiro.

Seleção Brasileira de Futebol campeã do mundo em 1958. Foto: Divulgação

 
As chances de este enredo voltar a acontecer em 2018 são grandes. E não temos bons exemplos sobre a utilização – na maioria das vezes como instrumento político – deste produto esportivo que é o futebol do Brasil e, especificamente, a sua seleção. Entretanto, ao mesmo tempo, é inegável que ela possui um enorme papel social. E é este que pode ser o ponto de partida, diferente das outras vezes, a de que a seleção brasileira de futebol seja exemplo público de compromisso, trabalho sério, respeito, diálogo e planejamento. Princípios que estão escassos nestes tempos.
Uma vez um antigo treinador da seleção, durante uma Copa, disse que “a CBF era o Brasil que deu certo”. Preferível dizer que a seleção brasileira é o Brasil que pode dar certo. A conquista da Copa do Mundo não vai resolver os problemas do Brasil. E atualmente esta máxima também é unânime. Com tudo isso, este produto esportivo, que é a seleção, ao romper com o retrógrado e quebrar velhos paradigmas, pode servir exemplo para mudança que este país precisa.

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Amadurecimento

Robinho tinha 21 anos em 2005, quando trocou o Santos pelo Real Madrid. Àquela altura, já havia sido protagonista em dois títulos de Campeonato Brasileiro e frequentava listas de convocados da seleção. Uma história ilustra bem a expectativa que o circundava: na caixa postal de seu celular, o atacante pedia que as pessoas deixassem recados para “o melhor do mundo do ano que vem”. O “ano que vem”, como se sabe, nunca veio para ele.
É curioso acompanhar o que acontece com quem vivencia uma trajetória tão irregular quanto a de um jogador de futebol. Em poucos anos, alguns deles saltam das privações para a vida de luxo; do descaso advindo da pobreza para a fama e o desenvolvimento de um séquito de aduladores. Muitas vezes são cobrados para que mantenham em campo a leveza de quando eram meninos praticando o esporte, mas ao mesmo tempo viram esteios precoces para familiares, amigos e profissionais que os acompanham.
Esse entourage contribui sobremaneira para que algumas pessoas se descolem um pouco da realidade. Vi uma vez um caso de um menino que havia sido aprovado em uma peneira para defender o time sub-11 de um clube do interior de São Paulo. Ele não tinha garantia sequer de alcançar o profissionalismo, mas o pai deixou de trabalhar porque precisava “administrar a carreira do filho”. Aquele garoto, que podia não querer nem um futuro como jogador, de repente tinha virado a única aposta de futuro para a família toda.
Jogadores convivem desde muito cedo com um paradoxo extremamente cruel para o ego: são bajulados e possuem ao redor um enorme grupo de pessoas que inflam suas qualidades e fecham os olhos para defeito ou contexto; paralelamente, são cobrados desde muito cedo como se fossem adultos prontos, infalíveis e totalmente maduros.
Foi assim com Vinicius Junior, 17, atacante do Flamengo. Após ter feito o gol que selou vitória rubro-negra por 3 a 1 sobre o Botafogo em semifinal da Taça Guanabara, ele celebrou com um gestual que imitava um choro, provocação recorrente aos torcedores da equipe da estrela solitária. A comemoração fomentou polêmica a ponto de abalar um acordo que havia entre os clubes para uso do estádio Nilton Santos. E é claro, o ápice do “pode ou não pode” aconteceu em redes sociais.
Juninho Pernambucano, ex-jogador e atual comentarista da Globo, criticou a atitude de Vinicius. Enxergou na comemoração um tom provocativo e desnecessário para aquele momento. Novamente em redes sociais, recebeu respostas nada afáveis, foi ofendido e lembrado de uma imagem de quando defendia o Vasco e mostrou os dedos do meio para a torcida do Flamengo. Acabou levando o caso à delegacia de crimes virtuais e pediu para não trabalhar no fim de semana.
Todos esses casos mostram que o amadurecimento de jogadores de futebol nem sempre é simples ou acompanha o relógio biológico. Existe um ambiente de pressão em torno desses atletas, que têm atitudes vigiadas durante todo o tempo e precisam dar respostas não apenas para o público, mas para os que são sustentados por seu talento.
Em poucos atletas, contudo, a discussão sobre amadurecimento foi tão necessária quanto o que acontece atualmente com Neymar, 26. O atacante do Paris Saint-Germain  não é mais um garoto: vive fora do país há cinco anos, tem um salário astronômico, convive com patrocinadores de ponta e protagonizou a maior transferência da história do futebol quando trocou o Barcelona pela Cidade Luz.
Neymar também ocupa há pelo menos cinco anos o posto de grande (ou talvez único) protagonista da seleção brasileira. É a esperança de quem ainda torce pelo uniforme canarinho ou pelos petrodólares despejados no PSG.
Entretanto, as atitudes de Neymar não condizem com esse status. O atacante vive, dentro e fora de campo, entre arroubos de molecagem. A picardia contida no drible virou uma marca que ele tenta sustentar em todos os momentos.
Só que falta autenticidade nesse processo. Ele não consegue transmitir, em campo ou fora, a felicidade e a vivacidade que Ronaldinho Gaúcho mostrava, por exemplo. O ex-melhor do mundo também era “irresponsável”, mas fazia isso de um jeito cativante – e esse é apenas um bom exemplo de atleta que soube fazer da brincadeira uma marca positiva.
Neymar também não se encaixa entre os “marrentos”. Não tem a autossuficiência de um Romário ou a autoconfiança de um Eric Cantona, para citar dois outros exemplos.
A impressão que Neymar passa é a de alguém em busca de autoafirmação. Alguém que vive o tempo todo tentando mostrar que aprova os caminhos que escolheu. Mesmo se os caminhos não tiverem sido escolhidos por ele.
O estafe de Neymar tem pessoas extremamente capacitadas para planejar todas as interações do jogador. Existe um trabalho em diferentes níveis, e disso eu não duvido. A questão é que o subproduto dessas ações tem sido um garoto sem confiança no que está fazendo, em busca de aprovação sabe-se lá de quem, com uma dificuldade enorme de evoluir – e evolução aqui não tem nada a ver com o jogo ou com o status profissional.
Neymar não é mais um menino. Tem 26 anos, passou por muita coisa e já suportou a pressão de ser o camisa 10 e principal líder da seleção brasileira em uma Copa do Mundo disputada no país. Não é uma questão de vivencias ou do que ele representa. Neymar precisa é deixar a casca e ser mais verdadeiro consigo. Mesmo que isso signifique mostrar lados que não façam tão bem assim para seus planos comerciais.