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A sobrecarga no treinamento através de jogos

Recentemente, apresentei em um evento alguns treinos pautados nas teorias da complexidade, com exercícios de treino subordinados ao jogar pretendido pelas equipes (integrando questões táticas, físicas, técnicas e psicológicas)

Foi muito interessante a repercussão da minha explanação. Para cada exercício, diversos detalhes, algumas filmagens e ?scouts? em diversas dimensões do jogo.

Como estavam presentes muitos preparadores físicos, o que mais chamou a atenção do público foi a quantificação ?física? das atividades de treino.

Trago então para nossa coluna deste sábado um dos exercícios de uma sessão de treino da quarta semana, do mês número quatro da programação de treinos, já em um nível de complexidade maior, com regras mais elaboradas e exigentes.

Dentro do jogar da equipe, uma das propostas estava na realização de ?pressing? em profundidade, com jogo zonal e recuperação da bola em linhas mais adiantadas.

Esse exercício foi realizado respeitando uma sequência lógica definida, tanto na sessão de treino, quanto na semana, mês e ano de trabalho.


Durante a atividade, conforme podemos observar, cada jogador percorreu em média 2010 metros (com quase 100 mudanças de direção e oscilações abruptas de velocidade), sendo que um percentual considerável dessa distância foi percorrido em altíssima intensidade.

Não caberão nesse espaço, as curvas de frequência cardíaca e de velocidades a cada metro percorrido.

O fato é que projetando a movimentação dos jogadores dentro do campo de jogo, e comparando tal movimentação com a do jogo formal, notaremos que esse ?exercício? (jogo) proporcionou sobrecarga ?física? para o treinamento dos jogadores ? e não ?só? física, porque propiciou maior número de ações com bola, e exposição a conflitos do jogo de acordo com uma das características do modelo de jogo da equipe que treinava (e acima de tudo, levou o jogador ao estado de jogo).

Existem muitas outras informações e dados a respeito dessa atividade, da sessão de treino e de todo o ano de trabalho. Todas elas mostram que é possível, pautando-se nas teorias da complexidade, e subordinando a preparação do jogador de futebol ao jogo, não só construir atividades mais específicas à realidade competitiva, como também alcançar mais rapidamente melhores resultados na performance do jogador em jogo.

Obviamente, não adianta expor jogadores e equipes a atividades como a descrita, fora de um processo. Toda atividade, toda sessão de treino, devem estar pautadas em um processo definido, em que se sabe o tempo todo onde se está e onde se quer chegar, respeitando uma lógica didático-pedagógica que interaja o tempo todo com o calendário competitivo e as ambições da equipe.

Caso isso não fique claro, a mesma atividade para um grupo de jogadores pode se configurar em sobrecarga em demasia, ou mesmo de extrema insignificância ? o que acabaria por reforçar os desentendidos que confundem isso que estou apresentando, com o clássico treinamento em ?jogo-reduzido?.

Acho que é isso…

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Pontos corridos x Mata-mata

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Um dos pontos polêmicos do modelo de organização das competições nacionais (i.e., campeonato brasileiro) é a formatação do torneio, atualmente realizado em pontos corridos.

O nosso país teve grande tradição e história em campeonatos na forma de mata-mata, isto é, após uma (ou mais) fase(s) classificatória(s), as equipes melhores colocadas passavam a disputar jogos eliminatórios, até a tão esperada disputa final.

Esse modelo de mata-mata, entretanto, do ponto de vista estritamente legal e regulatório, propicia distorções na verificação da justiça dentro das quatro linhas, principalmente, se comparado com a forma de pontos corridos (em que todas as equipes jogam entre si, vencendo aquela que obtiver a melhor campanha).

Assim, de uns anos para cá, a forma de mata-mata do campeonato brasileiro deu lugar aos pontos corridos, à semelhança do que acontece, por exemplo, nas ligas europeias de futebol profissional.

A forma de pontos corridos, de fato, premia a equipe mais regular durante toda a temporada. Vence aquela que mais pontos obtiver. No mata-mata, por vezes, é campeão o time que está em melhor momento na fase eliminatória, podendo vencer tendo somado um número menor de pontos em comparação a outras equipes.

É interessante apontar que a regularidade premiada na disputa de pontos corridos sugere maior segurança jurídica de todos os envolvidos. Em outras palavras, uma equipe regular tende a manter em vigor o contrato de seus jogadores, de sua equipe técnica, etc, ao longo da temporada. Ou seja, a regularidade dentro de campo pode estar diretamente relacionada com a estabilidade contratual dos profissionais do clube.

Assim, entendemos que, do ponto de vista legal, a disputa por pontos corridos é mais coerente e mais justa do que a disputa pelo sistema do mata-mata.

Sob outro prisma, temos a questão comercial. É comum que decisões dessa natureza (escolha da forma da competição) estejam atreladas a uma maior capacidade de geração de receitas.

Esse, entretanto, é um aspecto que foge do escopo da discussão jurídica. Números já foram levantados, existem defensores de uma e de outra forma de disputa. Uns dizem que o mata-mata torna o campeonato mais interessante, com maior arrecadação, principalmente, nas fases eliminatórias. Outros defendem que a disputa por pontos corridos propicia maior número de jogos importantes, com a possibilidade de clubes de baixo da tabela participarem de partidas decisivas no final do campeonato.

A discussão, digamos, mais comercial possui um aspecto jurídico importante a ser ressaltado. Até que ponto a maior geração de receitas pode ser buscada, deixando-se de lado o aspecto da justiça desportiva? Até que ponto pode-se abrir mão de uma forma mais justa de disputa para se obter mais receita?

Acima de tudo, e ainda que se adote uma ou outra forma de disputa no futuro, é preciso ficar atento a discussões dessa natureza para não deixar que os princípios básicos do esporte se percam entre uma e outra cifra.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Sinestesia esportiva

Muitas pessoas acreditam que a sinestesia é uma doença, mas não é. É um fenômeno sensorial que ocorre por meio da memória e pelo excesso da criatividade.

É o que acontece conosco quando vamos a um evento esportivo efervescente, como uma partida de futebol com estádio lotado.

Sentimos coisas que nos confundem a racionalidade, a lógica entre causa e conseqüência.

Passamos por diversas situações emocionais, aspiracionais, cujo espectro vai do mais positivo ao mais negativo.

As crianças imaginam-se no lugar dos craques dentro de campo. Os adultos imaginam o que fariam, fora do campo, se fossem os craques.

Vitória, derrota, empate, cantos e coreografias da torcida. Tudo tem seu significado particular e provocativo no torcedor que freqüenta os estádios.

Percepções sensoriais que reforçam a tendência do marketing de experiência. Nada mais impactante que o esporte como catalisador para esta vertente de negócios.

Os clubes brasileiros ainda exploram pouco este segmento, mormente na gestão da hospitalidade corporativa, onde as empresas utilizam camarotes e áreas VIP, como relacionamento com sua cadeia de negócios.

Seguramente, o leque de possibilidades é maior, com programas de viagens, competições desportivas que envolvam ídolos do passado e do presente, promoções de acesso às instalações desportivas, jantares, leilões, sessões de autógrafos.

De forma descontrolada, a sinestesia se manifesta a qualquer momento, como, por exemplo, ler uma determinada palavra e sentir o gosto de um doce, ou escrever uma letra e relacioná-la com a cor verde.

A maioria dos sinestésicos é canhota e tem problemas em distinguir o lado direito do lado esquerdo.

O maior desafio dos gestores esportivos é, justamente, desenvolver essa capacidade de distinção, organização e viabilidade de execução de idéias, quando o valor intangível extrapola o planejamento racional.

E tem muita coisa nessa mistura cerebral com poder de geração de receitas para os clubes.

Agora, não confundir sinestesia esportiva com sinestesia administrativa é fundamental.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Mais do mesmo

O fim de semana com uma série de relatos de violência por todo país ofereceu, mais uma vez, evidências de um problema que o governo, em conjunto com outros órgãos do futebol, se recusa a enxergar: a violência no futebol, hoje, não é dentro dos estádios. A briga acontece fora dele, disseminada por toda área urbana das grandes cidades.

O confronto entre torcedores do São Paulo e Corinthians foi um exemplo. Não havia jogo entre as duas equipes e a briga foi longe de qualquer estádio. Em Porto Alegre, um ônibus com torcedores do Internacional foi baleado na Serra Gaúcha.

Em Curitiba, o jornal Gazeta do Povo fez um levantamento que demonstrou pelo menos quinze diferentes pontos de brigas relacionadas ao clássico entre Atlético-PR e Coritiba, no último domingo. Nenhum desses pontos foi minimamente perto do estádio Couto Pereira, palco do jogo. Um torcedor atleticano está em coma profundo depois de ter sido atropelado por um torcedor do Coritiba, próximo ao estádio do Atlético-PR. Outros torcedores chegaram a invadir um ônibus na periferia e ordenar que todos os passageiros descessem para que o motorista os levassem até o estádio.

Ainda assim, o governo tenta emplacar o inaplicável cadastro nacional de torcedores como solução mágica para a violência relacionada ao futebol no país.

Pode-se dizer, também, que houve briga dentro de estádio sim, no clássico Botafogo e Flamengo, no Engenhão, entre a própria torcida do Flamengo. De fato, houve. E a polícia interveio. E tudo foi filmado. E nem por isso você viu algum policial pedir qualquer identificação para qualquer um dos envolvidos no problema. Não pediu a carteira de identidade, não pedirá também a carteira de torcedor.

Ademais, como um cadastro nacional de torcedor pode impedir que duas torcidas rivais briguem em um determinado ponto da cidade, a quilômetros do estádio? Não vai. E é aí que está a questão. Não tem como. O problema é maior que o futebol. O problema é social. O problema é cultural. Tudo indica que gastar dinheiro com carteirinha e leitores biométricos seja populista e arbitrário.

O confronto entre as torcidas do Flamengo é também mais uma evidência de como o problema não é a violência do futebol em si, mas sim de um aparato maior que encontra no futebol um canal de expressão, mas não de mobilização, tampouco de sobrevivência.

O futebol serve apenas para que indivíduos propensos a brigar arranjem um motivo. Que poderia ser qualquer outro. Se a educação no Brasil fosse melhor, talvez essas brigas tivessem cunho político e ideológico. Se fosse pior, talvez tivessem cunho religioso.

Infelizmente, não há nada que um clube sozinho possa fazer para solucionar o problema. Ele precisa da colaboração dos outros clubes e das autoridades públicas para cruzarem informações, dados e inteligência. Para que seja possível prevenir ao máximo e punir de maneira efetiva quando for preciso.

Mas, para isso, é preciso ter uma unidade mais forte entre os clubes, coisa que quase não existe. Também é necessário ter uma polícia específica para esse tipo de problema, coisa que também é rara. E, acima de tudo, é importante ter um governo que consiga enxergar e reconhecer o problema de maneira efetiva, consistente e racional, o que existe menos ainda.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Análise estatística do desempenho técnico em partidas do Campeonato Paranaense de 2009

INTRODUÇÃO

O futebol está em um constante processo de desenvolvimento e modernidade. Existem inúmeras atividades e/ou tarefas para analisar e avaliar o nível do desempenho de um atleta e consequentemente de uma equipe. Uma comissão técnica é formada por profissionais responsáveis pela fisiologia, preparação física, preparação técnica/tática, preparação de goleiros, entre outras ciências aplicadas. Sabemos que o scout técnico auxilia muito na detecção de erros e acertos individuais e coletivos. Sendo assim, justifica-se a realização deste estudo com base em planilhas específicas para coleta de fundamentos técnicos realizados durante as partidas de determinada equipe de futebol do estado do Paraná.

OBJETIVO

Analisar quantitativamente e qualitativamente os fundamentos técnicos da equipe do Paraná Clube em partidas do time durante o Campeonato Paranaense de 2009.

METODOLOGIA

A pesquisa é do tipo descritivo, tendo como população e amostra uma equipe de futebol profissional do estado do Paraná sendo composta por atletas de futebol do sexo masculino entre 18 e 33 anos de idade. O estudo teve como procedimento o acompanhamento in loco em 12 (doze) partidas, sendo 02 (duas) fora de casa, ou seja, com mando de jogo no campo do adversário e 10 (dez) partidas no estádio Durival Brito e Silva (Vila Capanema), de propriedade do Paraná Clube. Foram coletados 17 (dezessete) fundamentos técnicos durante as partidas.

RESULTADOS

CONCLUSÃO

Não há na literatura nacional estudos com referência de valores absolutos em relação aos estudos de scouts técnicos realizados no futebol brasileiro. Sabemos que o desempenho técnico é dependente de muitas variáveis, como dimensão de campo, estado de preservação do campo, clima, condição física do elenco, sistema tático aplicado, resultado da partida, entre outros. Mas estimulamos as constantes pesquisas na área específica de scout em outros estados além do Paraná. Acredita-se que o futebol ainda carece de estudos que aguçam a curiosidade de profissionais envolvidos no mercado de trabalho.

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A cultura lúdica e o estilo do futebol brasileiro: uma hipótese inquietante

Pieter Brueghel (1525-1567), festejado pintor holandês, deixou-nos gravado em uma de suas obras-primas (Jogos de crianças, 1560) um verdadeiro estudo antropológico sobre as brincadeiras pertencentes ao universo da cultura lúdica infantil do século XVI.


Pieter Brueghel – “Jogos de crianças” (Jeux D’Enfants) – 1560

Ao vislumbrarmos o quadro, logo identificamos inúmeros jogos (brinquedos e brincadeiras): pega-pega, balanço, cinco Marias (5 pedrinhas, ou saquinhos, ou ainda ossinhos), pião, plantar bananeira, cata-vento, perna de pau, pula cela (um na mula, anamula), balança caixão, arco, cadeirinha, bonecas, bafo, brincar na água, construir castelo na areia, birosca (bolinha de gude), trenzinho, passa anel, cabra cega (cobra cega), cavalo de pau, cavalo de barril, cambalhota, rolar, equilibrar a vassoura no dedo, brigar, poponeta, subir na árvore, batuque, cirandas, fita, dança da cadeira, tiro ao alvo, cavalo de guerra, trepa-trepa …

Inúmeros outros jogos e brinquedos (objetos extremos; suportes das brincadeiras) podemos supor, tornam-se impossíveis de ser identificados, pelos menos por nós. Conseguimos facilmente identificar os jogos que fazem parte da nossa cultura lúdica, sendo assim, somente Brueghel poderia precisar quais foram os jogos que ele buscou retratar em sua tela.

Como dissemos anteriormente, o quadro foi pintado em 1560, logicamente, todas as brincadeiras faziam parte do universo cultural da sociedade da época, e da cultura lúdica do consagrado pintor, em particular, que, obviamente, fora adquirida e co-construída ao longo de sua existência (nasceu em 1525), e mais provavelmente, com maior intensidade durante a sua infância.

Desse modo, podemos dizer que estas brincadeiras, em simbiose com a cultura lúdica, delineavam (moldavam) o corpo das crianças da época. Nas palavras do consagrado antropólogo Marcel Mauss, suas técnicas corporais – compreendendo técnica corporal como “as maneiras pelas quais os homens, de sociedade a sociedade, de uma forma tradicional, sabem servir-se de seu corpo”.

Por meio das exigências impostas pelas brincadeiras as crianças se serviam de seus corpos, desenvolvendo e ampliando assim suas técnicas corporais.

As brincadeiras, muitas delas para não dizer todas, são representações simbólicas e ou imitações prestigiosas, para usar outro termo de Mauss em seu livro “Sociologia e Antropologia”, em que as crianças imitavam simbolicamente as atividades dos adultos, como, por exemplo, brincar de andar de cavalo de pau.

Primeiro se aprendia a fazer o cavalo de pau, ou se dispor de algum objeto que representasse simbolicamente o cavalo, para depois aprender a andar de cavalo de pau, e nele cavalgar por muitos anos, como um bravo cavaleiro, salvando princesas indefesas e acordando belas adormecidas, para só depois galopar nos alazões, como confirma os Irmãos Grimm e Perrault em seus contos infantis.

O ato de cavalgar um cavalo de pau ou barril era eficaz para que um dia se aprendesse a montar um animal de verdade, isto não quer dizer que a técnica corporal fosse eficiente e transferível do cavalo de pau ao de cela, mas que a eficácia simbólica concretizada no ato de brincar com o cavalo, num gesto de imitação prestigiosa, coloca o infanto cavaleiro de pau na condição de pretenso cavaleiro real.

Como relata Philippe Ariès, no livro “História social da criança e da família”, sobre as crianças que foram proibidas de assistir e participar dos famosos torneios entre cavaleiros: “As crianças logo começaram a imitar os torneios proibidos: o cavaleiro do breviário de Grimani mostra-nos torneios grotescos de crianças, entre as quais alguns pensaram reconhecer o futuro Carlos V: as crianças cavalgam barris em vez de cavalos”.

Outro fato deflagrado à primeira vista do quadro e depois à data, é que as mesmas brincadeiras da Europa do século XVI, retratadas pela hábil mão pintor holandês, atravessaram séculos, e com elas a cultura lúdica (transmitida, ressignificada e re-co-construída) e as técnicas corporais.

Philippe Ariès, vem novamente confirmar e detalhar o processo de transmissão e transformação pela qual passou os jogos e brincadeiras pertencentes à cultura lúdica que atravessou os tempos, mais pontualmente quando descreve o diário do médico do, então, príncipe Luís XIII no século XVIII. 

Essas brincadeiras com suas tradicionais e eficazes técnicas corporais foram passando de geração em geração de forma oral e por meio de vivências lúdicas, como nos relata o professor Jocimar Daolio: “Qualquer técnica corporal pode ser transmitida por meio do recurso oral. Pode ser contada, descrita, relatada. Mas pode também ser transmitida pelo movimento em si, como expressão simbólica de valores aceitos na sociedade. Quem transmite acredita e pratica aquele gesto. Quem recebe a transmissão aceita, aprende e passa a imitar aquele movimento. Enfim, é um gesto eficaz”.

Mas, infelizmente, notamos que algo abalou as estruturas simbólicas desta transmissão cultural que, desde então, avançava num ritmo contínuo até por volta de meados do século XX.

Cada vez mais crianças identificam menos brincadeiras ao descansar os olhos no quadro de Brueghel, não são mais as mesmas brincadeiras que alimentam o imaginário das crianças, não são mais os mesmos símbolos representados, logo não são mais as mesmas técnicas corporais delineadas que extravasam ao uso dos corpos infantis.

De 1560 até meados do século XX o mundo passou por incontáveis avanços e transformações, porém as brincadeiras sobreviveram a todas possíveis intempéries culturais.

Entretanto, no final do século XX, talvez se possa dizer, correndo o risco de sermos demasiados precipitados, de que os jogos e a cultura lúdica sofreram intensas ressignificações, reestruturações e modificações, principalmente devido ao intenso avanço tecnológico e profundas mudanças nos hábitos sociais, notadamente, nos grandes centros urbanos. Vivemos uma nova era, com novos jogos e uma nova cultura lúdica, logo o corpo mudou.

Com esta reflexão final, chegamos ao futebol.  Ou melhor, poderíamos por meio desta ponderação histórica compreender o processo de co-construção do universo da cultura lúdica das brincadeiras de bola com os pés do brasileiro.

Cultura esta, que segundo a tese da Pedagogia da Rua defendida pelo Professor João Batista Freire, possibilitou a construção de um estilo peculiar do brasileiro jogar futebol, denominado futebol arte.

Contudo, o que especulamos com este projeto de ensaio é inferir sobre a possibilidade de nossa cultura lúdica estar sofrendo significativas mudanças, as quais acarretam alterações nas técnicas corporais, que por sua vez afetam a influência sobre a formação do jovem jogador de futebol.

Portanto, este jogador antes se formava na rua, brincando de determinado modo, a partir de certas brincadeiras, o que gerava uma técnica corporal e suas conseqüências, porém de uns tempos para cá, estas brincadeiras estão mudando, logo podemos vislumbrar e explicar o motivo pelo qual o Brasil vem perdendo suas idiossincrasias ludopédicas.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

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A tática – o Código Da Vinci (!?)

O futebol tem regras que o caracterizam como jogo. Jogado em qualquer lugar do mundo, respeitando-se oficialmente estas regras, ele traz à tona problemas para serem resolvidos.

Ainda que muitos desses problemas (que vou chamar de problemas primários) tenham em seus cernes as mesmas origens, as soluções para eles, em culturas de jogo diferentes, têm sido também diferentes.

Isso quer dizer, em outras palavras, que, em “centros futebolísticos” específicos (por exemplo, América Central, América do Sul, Europa Ocidental, Europa Oriental, Ásia, África, etc. e também alguns “países polarizadores” dentro desses “centros”) as dinâmicas do jogo de futebol evoluíram de maneiras distintas.

Essa evolução trouxe à tona o que vou chamar de “problemas secundários” do jogo. Não são secundários porque são menos importantes; são secundários, porque surgiram das diferentes dinâmicas que foram nascendo e se desenvolvendo (com suas particularidades) nos diferentes “centros futebolísticos”, a partir dos problemas primários.

Então, enquanto os “problemas primários” surgiram das regras formais do jogo, os “problemas secundários” surgiram das dinâmicas de jogo das equipes para solucionar os problemas primários.

Os “problemas secundários” deveriam servir ao jogo (e sua lógica!), assim como servem os “problemas primários”.

Isso quer dizer, que quando uma solução a um problema secundário, não consegue dar conta de resolvê-lo, dever-se-ia buscar uma resposta associada ao problema primário, e não a ajustes que solucionem o problema secundário.

Em outras palavras, em “centros futebolísticos” distintos, com diferentes evoluções do jogar, qualquer dinâmica de jogo pode ser boa para resolver problemas. Porém, quando se busca a solução para problemas que não estão sendo resolvidos nas próprias dinâmicas do jogo das equipes, é possível que mesmo encontrando as respostas,  estas sirvam mais para a manutenção de uma forma de jogar das equipes, do que para resolver questões do jogo – apesar de muitas vezes resolvê-las (?!).

Isso se torna um problema muito grave e evidente, quando equipes de culturas de jogo diferentes entram em confronto.

Infelizmente, com tantos jogadores “selecionáveis”, de distintas nacionalidades concentrados especialmente no futebol europeu, as Copas do Mundo de Futebol não têm mais evidenciado esses problemas. Em competições como a Champions League, Copa da Uefa (que mudou de nome), Taça Libertadores da América e Mundial Interclubes isso é mais aflorado – e talvez explique porque alguns treinadores tem mais sucesso do que outros nessas competições.

O fato, é que os problemas secundários, tendo como “pais” as dinâmicas das equipes e não o jogo, acabam por gerar, quase que espontaneamente, respostas que muitas vezes distanciam a solução da essência do jogo.

E aí, o de sempre: equipes ganham e perdem sem saber por quê.

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Scout técnico – cruzamentos e finalizações

Introdução

O futebol é o esporte mais conhecido e mais praticado em todo o mundo, está sempre em evolução e aperfeiçoamento com o objetivo de melhor performance da equipe. As partidas de futebol estão cada vez mais disputadas e, por muitas vezes, são decididas em detalhes que, durante uma competição, podem fazer grande diferença.

Com toda essa evolução, é de suma importância que o treinador, junto com sua comissão técnica, busque sempre algo a mais para que obtenha sucesso com sua equipe.

Portanto, justifica-se realizar o scout técnico, analisando os cruzamentos e finalizações, certos, errados e convertidos em gol das duas equipes, durante uma partida, para que o treinador possa corrigir os possíveis erros e acertar o seu time no intervalo e após o jogo, durante a semana de trabalho.

Objetivo

Analisar o número total de cruzamentos e finalizações, certos, errados e convertidos em gol.

Metodologia

O scout técnico de cruzamentos e finalizações é realizado por observação direta durante as partidas. São marcados os cruzamentos da direita e da esquerda, certos e errados. As finalizações são diferenciadas como: certas, erradas e convertidas em gols.

Essas marcações são feitas em um campo dividido por zonas, exatamente onde acontecem os cruzamentos e as finalizações, o destino que a bola toma é tracejado, e cada item é designado com uma cor diferente.

Ao término do primeiro tempo, soma-se cada item e o departamento de scout entrega ao treinador no intervalo da partida, e na volta aos treinos, após a mesma.

Resultados e discussões

As tabelas 01 e 02, abaixo, mostram os resultados gerais do campeonato Paranaense e Brasileiro série B, de 2009, respectivamente.

Para estudar o comportamento dos dados foi utilizada uma análise descritiva (mínimo, máximo, média e desvio padrão).

Tabela 01: resultados gerais  do Campeonato Paranaense de 2009

Cruzamentos Finalização Gols
  Direita Esquerda Certa Errada  
Mínimo 3 2 1 7 0
Média 8,58 8,33 4,25 13,33 1,67
Máximo 16 15 9 17 4
Desvio padrão 4,08 3,8 2,49 3,26 1,23

Conforme a tabela 01, verifica-se que os cruzamento
s da direita apresentaram uma média de 8,58, com um desvio padrão de 4,08. Os cruzamentos da esquerda apresentaram uma média de 8,33, com um desvio padrão de 3,80. Finalização certa apresenta uma média de 4,25, com um desvio padrão de 2,49. Já na finalização errada, podemos verificar que a média foi de 13,33, com um desvio padrão de 3,26. O último e mais importante, os gols apresentam uma média de 1,67, com um desvio padrão de 1,23.

Tabela 02: resultados gerais do Campeonato Brasileiro de 2009 – Série B (primeiro turno)

Cruzamentos Finalização Gols
  Direita Esquerda Certa Errada  
Mínimo 4 5 3 5 0
Média 8,5 8,13 5,38 9,25 1,75
Máximo 20 13 8 12 4
Desvio padrão 5,1 2,53 2,13 3,01 1,49

Conforme a tabela 02, verifica-se que os cruzamentos da direita apresentaram uma média de 8,50, com um desvio padrão de 5,10. Os cruzamentos da esquerda apresentaram uma média de 8,13, com um desvio padrão de 2,53. Finalização certa apresenta uma média de 5,38, com um desvio padrão de 2,13. Já na finalização errada, podemos verificar que a média foi de 9,25, com um desvio padrão de 3,01. O último e mais importante, os gols apresentam uma média de 1,75, com um desvio padrão de 1,49.

Conclusão

Baseado nos resultados podemos concluir que não houve uma diferença significativa do Campeonato Paranaense para o Campeonato Brasileiro, principalmente no scout técnico dos gols onde os resultados foram muito semelhantes, e que, para o futebol, é o item mais importante.

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O conceito de clube-empresa pelo mundo

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Devido ao grande interesse por parte dos nossos leitores no tema do Clube-empresa no futebol, voltamos a escrever a respeito.

O clube-empresa é uma forma de organização das entidades de prática desportiva (clubes) na forma de sociedades empresárias com finalidade lucrativa. Historicamente, os clubes se organizaram em associações ou sociedades civis sem fins lucrativos. Isto porque o esporte era, no passado, amador, em que, de fato, não se almejava lucro.

Na verdade, isso aconteceu na maioria dos países. Na Inglaterra, não. Desde o início do século passado, os clubes já eram organizados como empresas, ou as chamadas limited companies.

Atualmente, com a realidade do futebol moderno, surgiu a possibilidade de converterem-se clubes associativos em empresas. Esse modelo é bem visto pelos órgãos públicos, já que uma empresa é mais fácil de ser fiscalizada do que uma associação. O modelo também favorece clubes que pretendem trazer investidores para o seu capital social (nenhum investidor consegue comprar participação em associações. Mas conseguem comprar quotas de clube-empresas, que, via de regra, se organizam no Brasil na forma de sociedade limitada).

Porém, é importante mencionar que o sucesso do clube não está relacionado, necessariamente, com a sua conversão em empresa. Na Espanha, por exemplo, o modelo associativo é muito utilizado pelos grandes clubes (Barcelona e Real Madrid, por exemplo), e, mesmo assim, tais clubes conseguem ter sucesso (financeiro e desportivo), além de terem administrações muito modernas.

Na Inglaterra, por outro lado, os clubes adotam a forma de empresas, já que é bastante comum (e até parte da sua cultura), a aquisição de clubes por investidores nacionais ou estrangeiros, e também a abertura de capital de alguns clubes. Nesse ambiente, somente cabe a forma de empresa.

Existem ainda sistemas híbridos de clube-empresa. Em Portugal, por exemplo, foi criado o conceito de SADs (sociedades anônimas desportivas). Nesse modelo, os clubes permanecem como associações, mas cria-se uma nova empresa que administra o futebol profissional e essa nova empresa é detida, em parte, pelo antigo clube, e, em parte, por investidores (eventualmente levando-se ações à bolsa de valores).

No Brasil, apesar de a Lei Pelé tentar regular a matéria, por conta das diversas alterações desordenadas que foram nela promovidas, não temos um ambiente seguro para os clubes se transformarem em empresas. A redação da lei acabou por ficar confusa, a as entidades que governam o futebol ficam igualmente confusas, com toda a razão, quando recebem uma solicitação de conversão de clubes associativos em empresas.

O mais importante de tudo é ratificar que a modernidade da administração e o sucesso do clube não estão atrelados à conversão do clube em empresa. Na verdade, o sucesso está no comprometimento de seus administradores, e da transparência e acesso nas suas gestões, e também no sucesso dentro de campo. E isso se pode conseguir com ou sem a forma de clube-empresa.

A opção pela conversão em clube-empresa deve ocorrer quando, dependendo da situação de cada clube, e de suas pretensões futuras, a forma de clube-empresa seja a maneira viável (por exemplo, quando se pretende trazer investidores para o seu quadro).

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Seleção brasileira: a evolução do modelo de jogo

São incontestáveis os resultados obtidos pela seleção brasileira no ano de 2009, principalmente nas competições oficiais em que conquistou o título da Copa das Confederações e a classificação antecipada para a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, com uma vitória em Rosário sobre a Argentina.

Após um ano de 2008 em que o Brasil não marcou um gol sequer jogando em casa pelas Eliminatórias Sul-Americanas, a equipe vem apresentando uma evolução considerável e desde a goleada por 6 a 2 contra Portugal (jogo amistoso ainda em 2008) tem ganhado partidas de adversários tradicionais por placares destacados como por exemplo a vitória contra o Uruguai em Montevidéu por 4 a 0 e o 3 a 0 diante da Itália, pela Copa das Confederações.

Do ponto de vista da dominante tática, pode-se perceber que Dunga abriu mão da rigidez de realizar a recuperação da bola através de uma única plataforma tática e prepara a equipe para organizar-se espacialmente de acordo com a linha da bola, aumentando a flexibilidade posicional e a capacidade de adequação às situações-problema do jogo. Com essas alterações, em muitas ocasiões do duelo, um problema do Brasil (recuperar a bola) tem se tornado um problema para o adversário (não perder a bola), o que muda essencialmente o jogo e a tomada de decisão do mesmo (o adversário).


Figura 1 – As variantes da Plataforma Tática Matriz

Em um momento inicial e pelas características dos jogadores, a plataforma tática que se configura é a 1-4-3-1-2 (figura 1 – A), que funciona como uma matriz para o aparecimento de novas configurações para as situações do jogo que vão se delineando. E como a partir das situações do jogo novas plataformas vão se apresentando com regularidade, constata-se que realmente vão além de adequações posicionais da matriz para emergirem como alternativas a fim de resolver as necessidades da equipe, principalmente quando se está sem a bola.

No momento em que o adversário inicia a circulação da bola no campo defensivo, o Brasil adianta a primeira linha de marcação até a intermediária ofensiva (figura 1 – B). Robinho e Elano adiantam-se nas faixas laterais e Luís Fabiano na faixa central, com Kaká também centralizado, porém um pouco mais atrás, formando um grande losango.

Duas tarefas parecem balizar esse quarteto: manter a bola em circulação pela linha defensiva pelo maior tempo possível (aumentando as chances de um erro ser cometido pelos rivais e fazendo com que os mesmos tomem decisões precipitadas) e, se o adversário quiser aprofundar o jogo, direcioná-lo para o centro do losango, onde sofrerá pressão imediata.

Caso a bola entre nesse espaço e não seja imediatamente recuperada, Elano e Robinho recuam até a linha de Kaká, dando origem à plataforma 1-4-2-3-1 (figura 1 – C). Com essa formação, a referência é direcionar o adversário para as laterais, onde ele será pressionado.


Figura 2 – O Brasil no campo de defesa e o Balanço Defensivo

Mesmo quando o adversário progride rapidamente, o Brasil consegue defender-se com pelo menos oito jogadores (goleiro + sete) atrás da linha da bola. Caso o ataque rápido ou contra-ataque do adversário seja desacelerado e ele comece a circular a bola na busca de espaços para finalizar (ataque posicional), Robinho recua um pouco mais e mantém o equilíbrio horizontal da equipe assegurado (figura 2 – A), apontando para uma outra plataforma, o 1-4-4-1-1, com nove (goleiro + oito) jogadores atrás da linha da bola.

A organização defensiva brasileira enfrenta os seus maiores problemas quando tem que se defender muito próximo a seu gol. E isso não acontece simplesmente pela proximidade que o adversário está da sua meta, mas também porque nessa zona do campo a equipe nacional ainda demonstra uma considerável confusão em relação às referências para a marcação.

Alguns jogadores mantêm as estruturas com referências no espaço, outros acompanham o adversário direto, com pouca coordenação entre esses movimentos. Esse fato leva o Brasil a desorganizar-se e a recuperar a bola (com certa dificuldade e em zonas que não favorecem a manutenção ou a progressão) muito próximo do gol que defende, tendo interferência direta na transição ofensiva que fica prejudicada. Nesses momentos do jogo, a seleção fica em sua maioria na intermediária defensiva, sofrendo alguns ataques consecutivos (figura 2 – E).

O Brasil tem obtido muito êxito em ataques rápidos e contra-ataques, porém quando o adversário consegue construir situações que o induzem a circular com certa frequência (ataque posicional), alguns problemas são apresentados. O principal deles é no balanço defensivo, que pode ser observado quando a seleção enfrenta equipes que têm como princípio recuperar a bola e sair rápido para o campo de ataque.

Os locais onde o risco é mais evidente nas últimas partidas são as faixas laterais (figura 2 – F), porque jogando contra equipes compactas, o Brasil busca penetrações por essa região na tentativa de dar melhor amplitude ao ataque.

Com três anos de trabalho sob o comando do técnico Dunga, fica evidente a evolução que a seleção brasileira teve desde que ele assumiu. Com menos de um ano para a Copa do Mundo, alguns detalhes ainda podem (e devem) ser acertados. Independentemente disso, o treinador chegará ao Mundial da África merecendo a credibilidade (que ele conquistou com bons resultados) de todos.