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O processo santista com Jesualdo

O trabalho de um treinador de futebol é um processo. É uma construção. Composto por várias etapas. Alguns resultados aparecem no início disso tudo. Claro, com o dedo do treinador – nada é por acaso. Mas também muito por conta do caos que é o jogo de futebol. Algumas mudanças surtem efeito rápido e são capazes de ganhar jogos. Só que para ganhar campeonatos insisto na questão do processo. Longo, construído, trabalhado e com métodos.
O português Jesualdo Ferreira chegou agora no Santos. Tem pouquíssimo tempo não só de trabalho de campo, mas também de convivência. Sim, a convivência é parte fundamental no processo de construção de qualquer equipe, afinal, estamos falando de seres humanos e não de máquinas. Por isso é impossível, e até injusto, fazer qualquer avaliação do trabalho dele até aqui.
É claro que Jesualdo já expôs suas ideias ao grupo. Os jogadores já sabem como se comportar com e sem a bola, em fase ofensiva, defensiva, nas transições e até nas bolas paradas. Entretanto, não houve tempo hábil para que os comportamentos estejam presentes no inconsciente deles.
Nas partidas iniciais do Paulistão, já pudemos constatar nesse Santos que a saída de bola é feita sempre por três jogadores (os dois zagueiros mais um volante), os outros volantes/meias vem buscar essa bola para a construção ser mais sustentada, quem abre o campo são os laterais e não os extremos, no terço final a ideia é ter uma concentração maior no setor da bola e não guardar tanto uma posição fixa. Em fase defensiva, há um bloco médio, às vezes baixo e consequentemente o goleiro é pouco acionado para fazer coberturas. E nas bolas paradas ora o time marca por zona, ora individualmente.
Mas tudo isso é muito embrionário. Faltam ajustes, os mecanismos não estão sincronizados. Requer tempo. E, claro, a gestão do ambiente vai ser fundamental para que as coisas aconteçam dentro de campo. Lidar com a imprensa, torcida e até mesmo os dirigentes santistas será um grande desafio para o comandante português. Em muitos momentos até mais complicado do que as coisas dentro das quatro linhas. Faz parte do processo.
 

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Onde está o futebol moderno? – Parte II

Franz Beckenbauer: onde termina o defensor e começa o atacante? (Foto: Reprodução/Site Oficial FC Bayern)

 
Não faz muito tempo, começamos aqui uma conversa sobre isso que se chama de ‘futebol moderno’. Na primeira parte deste texto, falamos que algo que é ‘moderno’ é geralmente próprio de um tempo (do tempo presente, no caso) e que falar de ‘futebol moderno’ pode ser, antes de tudo, falar de um jogo que se joga pelas ideias e pelas palavras. Ou seja, há determinados termos que são ‘modernos’, em substituição aos termos ‘antigos’ mas, na ponta do lápis, esses termos não necessariamente falarão de coisas ‘novas’ – podem ser apenas sinônimos.
Nesta segunda parte, gostaria de falar de uma outra característica que me parece central: vamos chamá-la de flexibilidade.

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Outro dia, perguntei numa dessas redes sociais o que os colegas identificavam como sendo traços inconfundíveis disso que se chama ‘futebol moderno’. Do ponto de vista do campo, recebi contribuições realmente interessantes. De alguma forma, vou agrupá-las (sem tomar partido, ou seja, não significa que eu concorde com elas) nos tópicos abaixo:

  • maior participação dos goleiros na fase ofensiva;
  • um caráter mais ativo da fase defensiva, pressionando o adversário desde o começo da construção;
  • um certo aumento no ritmo do jogo jogado, tanto do ponto de vista físico quanto tático (com espaços mais curtos, maior pressão ao portador da bola e etc)
  • uma certa substituição da ideia de posição, pelas funções no campo;
  • grandes responsabilidades defensivas dos jogadores mais ofensivos e grandes responsabilidades ofensivas dos jogadores mais defensivos;

Acho que essas cinco características são mais do que suficientes por ora. Muito bem, vamos olhar para elas com mais atenção. Há algumas coisas aqui que me interessam bastante.

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Em primeiro lugar, acho importante que todas essas coisas que citei acima não sejam lidas de maneira literal. Vamos olhar para as entrelinhas: por exemplo, o fato de jogadores de ataque se ocuparem de atribuições defensivas não deve ser visto como uma novidade (está longe de sê-lo) mas parece que não é disso que falamos aqui. A impressão é que, agora, o peso das atribuições defensivas para um jogador de ataque (e vice-versa) é praticamente o mesmo peso que se dá à sua capacidade de atacar, de modo que um jogador de ataque pode sim ser escalado não mais pela sua capacidade de atacar, mas de defender, percebem? Partindo deste ponto, vocês concordam comigo que estamos falando de um outro tipo de jogador e que, portanto, precisamos exatamente formar um outro tipo de jogador. Pense na formação de goleiros, por exemplo. Goleiros devem, cada vez mais, ser bons atacantes, atacantes devem ser bons defensores, a defesa vai se fazendo no ataque, o ataque vai se fazendo na defesa… a linha que separa defesa e ataque parece cada vez mais fina, assim como as linhas que separam as coisas supostamente contrárias vão se desfazendo.
Daí que uma característica realmente importante desses nossos dias é que as fronteiras dentro do jogo jogado estão se dissolvendo tão rapidamente, mas tão rapidamente, que às vezes não sabemos mais identificá-las. Isso já seria um fenômeno significativo nele mesmo, mas é mais ainda quando percebemos que a mesmíssima coisa, sem tirar nem por, ocorre na vida vivida. Não é preciso termos lido o Zygmunt Bauman para sentirmos que as fronteiras do tempo e do espaço estão reduzidas a quase zero (pela internet), que os smartphones e seus aplicativos reduziram as nossas fronteiras de comunicação e de ação, que as pessoas todas estejam tão próximas, independentemente do lugar, ao mesmo tempo em que a solidão também parece uma epidemia. Tudo o que é sólido desmancha no ar, disse o Marshall Berman, e este mundo em que vivemos e o futebol em que vivemos, não são mais sólidos, em que as coisas estão claramente separadas, mas estão de fato líquidos, em que o trabalho é fluido, as nossas atribuições são fluidas, os relacionamentos são como água, as coisas escorrem, sem que seja possível pegá-las, ou mesmo parar por um instante, e com o futebol não é diferente, as atribuições de cada jogador estão aumentando, as fases do jogo se distinguem cada vez menos, os profissionais têm que saber cada vez mais coisas (e conectá-las), temos que transitar por mais áreas, tudo passa muito rápido. E quando alguém não se adapta, nunca é problema das coisas – o problema sempre é outro.
Não sei se fica claro, mas o que quero dizer é que essa flexibilidade, da qual estou falando, é um espelho do que se passa na vida vivida, embora use uma roupa muito própria no futebol, uma roupa do todo, uma roupa de fato sistêmica. Ao jogador, não basta ter o domínio de uma determinada posição do campo mas, na verdade, é preciso saber desempenhar funções mais elaboradas, eventualmente desconfortáveis (especialmente entre a iniciação e a especialização esportiva), mas que eventualmente serão úteis à equipe e ao próprio atleta, no presente e no futuro. Aos profissionais, nos é e nos será exigida a mesma habilidade, nas mais diversas áreas, pois não basta mais saber das posições, talvez não baste ter apenas um ofício (treinador, preparador físico, analista, gestor…), mas é preciso ter algum conhecimento do processo como um todo, é preciso conversar com as diferentes áreas, é preciso ter um certo domínio do campo e do jogo que possa ter efeitos específicos, em detalhes bastante específicos, como também possa ter efeitos gerais, inclusive do ponto de vista mais geral de todos, que é o humano. As fronteiras estão de fato dissolvidas, e parece que o que nos resta, como profissionais, é desenvolver uma certa flexibilidade – ou teremos problemas.

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Mas há uma outra questão, amigas e amigos, da qual não podemos fugir. É uma questão silenciosa, mas quase que namorada disso que se chama de ‘futebol moderno’: a ideia de que o moderno é necessariamente ‘melhor’, ou ‘superior’, ou um ‘avanço’ ou um ‘progresso’ em comparação ao ‘antigo’. É como se fosse, ao mesmo tempo, uma noção bastante ingênua da história, em que ela é vista como uma grande linha, desde que, no fim da linha, exista uma espécie de paraíso (ou seja, quanto mais próximo do fim da linha, ‘melhor’). Da mesma forma, também parece haver um certo tipo de negação coletiva da história, em que fica subentendido que o que passou, o que foi, pode ter sido um grande equívoco e deva, por isso, ser descartado.
Por isso, acho preciso ter um cuidado enorme com este termo ‘moderno’. Não sei se vocês concordam, mas ele está tão banalizado que corre o risco de começar a cheirar um pouco mal, de começar a caducar e, por mais curioso que pareça, de ficar atrasado nele mesmo, porque parte exatamente deste ponto equivocado: o ‘moderno’ seria, necessariamente, uma evolução do ‘antigo’. Daí, não admira que passemos a procurar modernidade onde não existe (no 2-3-5, por exemplo, que já havia há muitíssimo tempo, sendo apenas adaptado ao momento atual, especialmente via Pep Guardiola) ou mesmo, o que é mais grave, que passemos a rotular doentiamente os profissionais do futebol como ‘antigos’ e ‘modernos’, às vezes baseados apenas nas palavras, como dissemos no último texto desta série, mas com uma crítica que não tem exatamente fins pedagógicos ou de elevação do jogo jogado, mas sim fins de extinção: tudo aquilo que não for ‘moderno’, ou tudo aquilo que não parecer ‘moderno’, ou tudo aquilo que não for de um determinado gosto, não apenas é questionado ou refletido, mas é apresentado como se devesse ser extinto.
Não sei como vocês recebem este tipo de coisa, mas a mim me parece um problema muito grave. E que também faz parte disso que se chama de futebol ‘moderno’.

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Para terminar, permitam-me só fazer uma provocação: jogar sem posições fixas, jogar o jogo todo, saber o que fazer em cada momento do jogo e demorar-se a se especializar em apenas uma posição/função, não era exatamente o que fazíamos no futebol de rua?
Pense nisso.
Continuamos em breve.
 

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Os donos do negócio

É inegável que o futebol seja capaz de gerar bastante conteúdo. Faz não apenas parte do dia a dia das pessoas, mas da história de um bairro, de uma cidade, capaz de se confundir com a de um país. Identidade, pertencimento, grandes jogos e ídolos são apenas alguns poucos temas que podem ser abordados por uma mídia especializada na modalidade.
Já é, e muito bem feita, inclusive, por inúmeros veículos de comunicação e uma imprensa independente cada vez mais ativa, com enorme poder de alcance e que conquista cada vez mais audiência. Entretanto, engatinha entre os “donos do negócio”, de quem faz a gestão do futebol: as entidades de prática esportiva (clubes) e de administração do esporte (federações e ligas).
Haja vista o poder institucional e mobilizador – em termos de história, representatividade, significado, relevância para a sociedade -, clubes e federações podem trabalhar ainda mais a geração de conteúdo através do futebol em termos de mídia e otimizar suas receitas. Não apenas com negociação de direitos de televisão, mas cientes de que são os donos de um produto ímpar na indústria do entretenimento.
Isso mesmo, entretenimento.
Entretenimento que concorre com inúmeras opções de lazer. No entanto, a resgatar o que foi escrito acima -, futebol é identidade, vínculo, pertencimento, história e cotidiano. Além disso, clubes e federações podem criar um canal de comunicação importantíssimo para a transparência, democracia e princípio de equidade na instituição, elementos fundamentais para a governança. A prazo, a reputação da organização melhora diante da opinião pública e isso é capaz de atrair cada vez mais investimentos, por exemplo, em forma de patrocínio.

Foto: Reprodução/Divulgação

 
Tudo isso é apenas uma pequena parte do que pode ser feito. Marketing e comunicação capazes de trabalhar de um modo mais eficiente e efetivo, um produto inserido em indústria cada vez mais exigente. Ademais, colaborar para a governança da organização em questão.
Portanto, a partir do momento em que fizerem ideia do tamanho do mercado em que ligas, clubes e federações fazem parte e trabalharem para aumentar as receitas, isso naturalmente levará para um ambiente mais profissional e, consequentemente mais transparente em que todas as partes interessadas possuem um papel na tomada de decisão.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Não tenho nada em comum com pessoas preguiçosas que culpam os outros por sua falta de sucesso. Grandes coisas vêm do trabalho duro e perseverança. Sem desculpas”.

Kobe Bryant
(1978-2020)

 

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Hegemonia flamenguista?!

Time ganha jogo, elenco ganha campeonato. Clichê, velha máxima do futebol, mas que traz algumas verdades. E o Flamengo que já era forte em 2019 virá ainda melhor para 2020. No futebol nada é garantido. Títulos são conquistados por diversos fatores. Porém, o caminho da vitória passa por um elenco robusto. E a diretoria flamenguista tem reforçado de maneira pontual o seu já qualificado elenco.
Todos conheciam de cor e salteado os onze titulares do técnico Jorge Jesus. O time que perdeu do Liverpool na final do Mundial de Clubes tinha os preferidos e escolhidos do português. Alguns reservas entravam sempre, como Diego e Vitinho. Mas ao olhar para o elenco rubro-negro eu ainda sentia falta de algumas outras peças. Repito, para deixar claro: com o time que terminou o ano passado, o Flamengo seria favorito a tudo neste ano. Só que com as peças contratadas na janela deste ano as probabilidades de sucesso aumentam ainda mais.
Michael e Pedro Rocha vão dar opções ofensivas que o time de 2019 não tinha. Thiago Maia será muito mais útil do que foi Piris da Motta – apesar das características de ambos não serem exatamente as mesmas. Gustavo Henrique é mais jogador do que Rodolpho – vou além, é questão de tempo para o ex-zagueiro do Santos ser titular no lugar de Pablo Marí.
Detesto falar em hegemonia no futebol brasileiro, porque sei do cunho político que todo clube carrega. Basta olharmos para como o diretor Paulo Pelaipe saiu do Flamengo para notarmos que o atual campeão brasileiro não foge a regra. Alguns palmeirenses nessa mesma época do ano passado acharam que o clube teria essa tal hegemonia por aqui e deu no que deu…discordo até mesmo da linha flamenguista de vender jovens jogadores da base para repatriar veteranos…
Mas mesmo com todo esse cuidado que tenho para projetar o futuro dos clubes brasileiros  é inegável que hoje o Flamengo é a referência e o time a ser batido e seguido (no sentido de deixar lições) não só no Brasil, mas em toda a América do Sul.
 

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O que faz um bom jogador? – Parte I

Trent Alexander-Arnold: um pouco de indisciplina para fugir à norma. (Foto: Reprodução/futebolstats.com.br)

 
Na segunda quinzena de dezembro, não me lembro ao certo a data, assistia às semi-finais do Mundial de Clubes da FIFA, Liverpool e Monterrey. Vocês se lembram que apenas por volta dos 30 minutos do segundo tempo, Jurgen Klopp colocou em campo este exímio lateral que é Trent Alexander-Arnold, que estava no banco até então (provavelmente por resguardo físico). Cinco minutos depois, Arnold deu uma assistência obscena para o gol de Roberto Firmino (você pode ver aqui, a partir de 1:35), que garantiria a classificação dos ingleses à final.
Naquele mesmo dia, lembro de ter escrito em algum lugar que uma assistência daquela só pode vir de um jogador indisciplinado. Mas vejam bem, não digo indisciplinado de um ponto de vista negativo. Digo indisciplinado do ponto de vista do pensamento. Um sujeito que pensa de maneira demasiado disciplinar, organizada, linear, jamais veria o espaço nem tomaria a decisão que o Arnold tomou naquele lance. É preciso um grau de subversão muito grande para dar asas à criatividade.
Neste texto, que divido em duas partes, gostaria de conversar um pouco melhor sobre isso, e trabalhar com vocês algumas dessas características que nos dizem o que faz um bom jogador. Não pretendo falar das coisas que já sabemos (técnica, tática e etc), mas de outras coisas, que talvez estejam antes delas. Vejamos.

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Como escrevi naquele dia, acho que de fato uma das características centrais do bom jogador (e pense neste bom jogador em todos os níveis, desde a iniciação até o rendimento) seja exatamente uma certa indisciplina, uma indisciplina do pensamento. O bom jogador é aquele que é tão treinado na arte de pensar e sentir o jogo, na arte de fazer agir por si mesmo, tão autônomo na sua ação, que acaba criando soluções que talvez os outros não vejam, soluções que estão para muito além da média, da capacidade de percepção média. Como eu li outro dia, num desses livros do Jorge Larrosa (Nietzsche & a Educação, Editora Autêntica), é preciso uma certa disciplina da indisciplina – neste caso, uma certa regularidade na arte de pensar fora da curva.
Só que isso presume, da mesma forma, que haja um certo grau de liberdade, concordam? E quando falo em liberdade, neste sentido, me refiro especialmente ao processo de treino. Nós vivemos um tempo em que nos é vendida, de maneira explícita ou não, uma certa ilusão de controle (principalmente para nós, que nos aventuramos como treinadores e treinadoras), uma terrível ilusão de controle sobre o jogo, como se fosse possível e/ou desejável amarrar uma coleira ao jogo jogado e dominá-lo como bem quiséssemos. Aliás, sinto que isso ocorre, dentre outros motivos, por uma interpretação ligeiramente equivocada do jogo de posição espanhol (posso retomar este tema num outro momento). O fato é que, na tentativa de controlar a posição, de exigir dos atletas que guardem determinadas localizações no campo, inclusive na iniciação esportiva (onde o foco principal deveria ser deixar as crianças jogarem), podemos acabar ferindo, às vezes com violência, justamente a criatividade dos nossos artistas (em potencial), podemos tirar deles a capacidade de inventarem novas soluções por si, e desenvolvendo atletas muito dependentes das instruções do treinador, não fazemos muita coisa além de alimentar nosso próprio ego, enquanto matamos exatamente a indisciplina do pensamento, que poderia fazer com que eles fossem ainda mais do que já são.

***

Da mesma forma, sinto que o bom jogador tem um certo grau de negação. Deixem-me explicar melhor. Lembro daquela frase do enorme filósofo que foi o Albert Camus, que dizia que ‘o homem é o único ser que se nega a ser o que é’. De fato, nós nunca estamos satisfeitos, como se estivéssemos em uma busca constante de ser mais e melhores do que já somos. O que talvez não fique tão claro, mesmo que sutilmente, é que talvez só seja possível fazer mais e melhor se negarmos, de alguma forma, o que existe. Mas não é uma negação rancorosa e frustrada, é uma negação que deseja, basicamente, afirmar o mundo de outra maneira. Daí que o bom jogador aceite o presente, mas não se conforma inteiramente, ele quer mais, ele deseja ser mais e melhor, como se fosse um daqueles animais famintos, à procura do instante do bote.
Por isso este traço de negação, este certo traço de negatividade, não deve ser visto como algo necessariamente ruim e, digo mais, ele pode ser estimulado justamente pelo processo de treino. Em uma outra oportunidade, citei aqui este ótimo intelectual que é o Byung-Chul Han, que tem alertado para a nossa vertigem pela positividade, as nossas ferozes tentativas de fugir do negativo e do incômodo da vida, em nome de uma alegria às vezes tão infértil, ou uma alegria um tanto quanto aparente, que pode servir apenas como maquiagem. Mas o treino, não sei se vocês concordam, é precisamente o espaço no qual também apresentamos, à nossa forma, o papel do negativo, do erro, do desconforto, das possibilidades que surgem exatamente pelo desconforto – e não apesar dele -, as possibilidades de superar-se a si mesmo.
E este tipo de negação, essa tentativa de negar para afirmar, de negar o normal em nome do original (como fez o Arnold naquele lance), também parece uma característica que distingue o bom jogador.

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Até agora, portanto, falamos de um certo grau de indisciplina e um certo grau de negação. Fiquem à vontade para dizer o que pensam nos comentários.
Continuamos em breve.
 

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Um novo cenário para os treinadores brasileiros

O sucesso obtido pelo português Jorge Jesus no Flamengo, em um curto espaço de tempo, vem provocando debates acalorados e declarações públicas de relevantes treinadores brasileiros, seja sobre o papel do treinador estrangeiro no Brasil, seja sobre o espaço que o estrangeiro vem ocupando em território brasileiro.
Abel Braga, Argel, Jair Ventura, Levir Culpi, Luxemburgo, Mano Menezes, Renato Portaluppi, Zé Mário, dentre outros nomes, fazem parte do rol de treinadores que, de algum modo, fizeram críticas ao trabalho dos treinadores estrangeiros.
Levir Culpi limitou-se a criticar o argentino Jorge Sampaoli pelas suas tatuagens, mas não abordou questões conceituais de jogo do treinador do Santos.
O presidente da Federação Brasileira de Treinadores de Futebol, Zé Mário, criticou o excesso de elogios dedicados ao treinador estrangeiro, resumindo o atual sucesso pela qualidade de elenco.
Jair Ventura sustentou que os profissionais estrangeiros estão tirando o espaço de treinadores brasileiros mais novos.
Para Renato Portaluppi, se fosse dirigente, jamais contrataria um treinador estrangeiro. Na época da declaração, Sampaoli e Jesus não tinham conquistado títulos, portanto, não poderiam servir como parâmetro de sucesso. Em relação ao estudo contínuo e a qualificação dos nossos treinadores, Renato afirmou: “Quem precisa aprender vai a Europa estudar e quem não precisa vai à praia”.
A postura mais ponderada a respeito dos estrangeiros em terras brasileiras foi de Muricy Ramalho, o qual prefere olhar para a qualidade do treinador e não para o seu local de nascimento.
O português Jorge Jesus, após o bombardeio de críticas, resolveu se defender: “Além de Felipão, teve Autuori, Abel Braga, Dunga, Carlos Alberto, René Simões, Paulo Autuori. E nós treinadores portugueses, quando eles tiveram lá, tentávamos aprender e tirar alguma coisa positiva e nunca foi esta agressividade verbal que os treinadores brasileiros têm sobre mim. Não entendo essas mentes fechadas. Espero que olhem para mim como colega de profissão”.
 
Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.
 

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Material Escolar

É tradição as compras de material escolar acontecerem em janeiro, já que o ano letivo começa no mês seguinte. É comum cadernos, pastas e mochilas terem fotos e desenhos de vários temas, dentre eles, os esportivos: surfe, skate e basquete. Dentro desta gama nesta última modalidade há artigos ainda mais específicos, de franquias da mundialmente conhecida liga da NBA.
De uns anos para cá o futebol tem ocupado espaço nas papelarias, com os mesmos produtos supracitados, no entanto são os grandes clubes europeus que disputam as prateleiras. Paris, Real Madrid, AC Milan e Manchester United são alguns. Esgotam-se rapidamente. Clubes brasileiros, nenhum. Causa estranheza. Afinal, são as crianças brasileiras que se interessam pelo futebol de clubes de fora ou são os clubes de fora que se interessam pela criançada daqui?
A coluna fica com a segunda opção. É a “avalanche” de artigos e conteúdo de mídia à disposição, somada a outros fatores como ídolos e qualidade do jogo – a elencar apenas alguns -, que fazem as mães comprarem cada vez mais produtos alusivos às instituições das principais ligas da Europa. Quer seja o que fazem ou não fazem os departamentos de marketing dos clubes daqui, acabam por se esquecer por uma parcela do mercado consumidor que tem grande poder de decisão na hora de consumir.
Artigos escolares são relativamente baratos e de uma difusão sem igual. É o caderno que carrega as lembranças dos alunos, as anotações. A mochila que o estudante ostentará com orgulho e se sentirá parte de algo maior. Este algo maior pode significar um vínculo para toda a vida e passar de geração para geração.

Estojo do Paris Saint-Germain. (Foto: Reprodução/Divulgação)

 
Diante disso, imagina-se que os clubes brasileiros queiram ganhar muito nos acordos com as empresas de artigos escolares, como se fossem lobos famintos por…migalhas! Quem vem de fora, não pensa assim. É mais que na hora que neste ano de 2020 essa ambição desmedida seja posta de lado e acordos comerciais aconteçam, para que no ano seguinte as mães comprem mais material escolar que carreguem símbolos e referências alusivas aos clubes de futebol do Brasil.
Precisa-se disso (também)!

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Em tempo: o autor desta coluna possui um carinho com o Olympique de Marselha (OM) por conta de uma camisa desta equipe comprada pelo pai dele em 1990. Não sabendo do que se tratava, o pai só a levou para o filho porque estava, segundo ele, absurdamente barata. A loja a havia adquirido e as vendas não foram tão boas, afinal naqueles tempos pouco se sabia sobre o futebol internacional de clubes. O garoto foi atrás de informações e pegou gosto do “OM”, mantido até hoje.
Em tempo ainda, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Habilidade é o que você é capaz de fazer. A motivação determina o que você faz. A atitude determina o quão bem você vai fazer isso”.
Lou Holtz, treinador de futebol americano

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Quanto vale o “produto futebol brasileiro”?

O time do Liverpool, treinador e jogadores, ainda não sabia nada sobre o Flamengo. Isso há poucos dias do Mundial de Clubes no Catar.
Quer dizer que o rubro-negro carioca é pequeno e/ou de pouca significância no mundo?
– Não! Mas algumas considerações podemos fazer a cerca disso.
Quanto vale o produto futebol brasileiro aos olhos do mundo? O quê estamos fazendo com o nosso jogo e nossas competições para ganhar ou resgatar prestígio internacional?
Por questões óbvias, Portugal sempre foi o país europeu que dispensou mais atenção às coisas brasileiras. Hoje, no futebol, os portugueses estão mais atentos ainda, porque Jorge Jesus está aqui.
Um amigo português, Rui Souza, ex-analista de desempenho do América-MG, me disse que o futebol brasileiro nunca teve tanta visibilidade em Portugal como agora. Logicamente porquê estão cobrindo a trajetória competente e surpreendente do seu conterrâneo.
A elite européia do futebol só tem olhos, assim como sempre foi, para o “produto jogador brasileiro”. Os nossos talentos, apesar de tudo e de todos, continuam sendo grandes sonhos de consumo dos clubes europeus!
Por isso também foi frustrante ver e ouvir o treinador e os jogadores do Liverpool respondendo ao repórter brasileiro da ESPN sobre o time e o jogo do Flamengo. Não sabiam nada e até se constrangiam ao ter que falar “sobre algo tão distante e desconhecido”.
– Eu sei que o Ronaldinho “Gaúcho” já jogou lá! Disse um jogador.
Isso não é de hoje que acontece. Guardiola, quando treinador do Barcelona, ao ser entrevistado no Japão sobre o Mundial de Clubes de 2011 em que venceram o Santos de Neymar e Robinho, dizia que estavam chegando ao Oriente para se divertir também e aprender sobre a nova cultura. Mal falavam do jogo.
Luiz Henrique, também quando treinador do Barça, desdenhou do Santos quando perguntado sobre o embrolho da transferência do Neymar Jr.:
– Quem disse isso?! O Presidente de qual clube?! Do Santos?! Ah, bem!!
Numa nítida demonstração de desrespeito para com o gigante brasileiro, o Santos!
Não por acaso, somos vistos desta forma, ou mesmo nem vistos, no primeiro mundo do futebol!
Aceitar isso e querer melhorar já seria um ótimo gatilho para repensarmos nosso presente e futuro. O futebol brasileiro, no dia a dia que vivemos e conhecemos há décadas, nos apresenta problemas estruturais passíveis de resoluções, mas persistentemente continuam nos atormentando. No entanto, sem “arregaçarmos as mangas” não avançaremos!
Na maioria das vezes não damos conta de cumprir com o óbvio na gestão do nosso esporte. Paulo Assis, superintendente de futebol do América Mineiro,  em uma das grandes e instrutivas resenhas que tivemos, disse: – muitas vezes não conseguimos fazer o óbvio!
Acho que Pep Guardiola e Jurgen Klopp, quando diminuem o valor do mundial de clubes em favor dos campeonatos nacionais que disputam nos dão mais uma lição. A importância dos nossos campeonatos nacionais devem ser assumidas primeiramente por nós mesmos. Não apenas com escalações de times mais titulares e etc., mas começando pela reestruturação do nosso calendário e da grade de competições que temos.
Só pra ficarmos em uma das muitas incoerências do nosso futebol, acabamos de disputar os regionais ao final de abril de cada ano e uma semana depois já temos o início dos campeonatos brasileiros .Nossos melhores clubes, via de regra, sempre chegam às finais dos seus respectivos campeonatos regionais e são obrigados a começarem as competições mais importantes do país com equipes desgastadas emocional e fisicamente e consequentemente perdendo pontos preciosos nas primeiras rodadas dos nacionais. Sem falar nos muitos treinadores que caem por não terem sido campeões regionais, o que faz tudo começar do zero em seus clubes! Impensável tecnicamente!
Que não levemos para o coração a mágoa de sermos desdenhados pelos europeus. As coisas são como são, já dizia o filósofo!
Vamos aproveitar a deixa das lições aqui apresentadas e fazer dos “Campeonatos Brasileiros” um produto de excelência, a altura dos talentos e muitas possibilidades que temos.
Que o mundo queira ver o jogo brasileiro também e não somente os nossos craques! Flamengo, Athletico Paranaense, Santos, Grêmio, Bahia e outros poucos, mas importantes clubes brasileiros mostraram coisas muito boas em campo em 2019. Deram mostras claras da revolução que podemos fazer com o que temos em potencial.
Somos um Brasil que pode ser bem melhor no futebol e em outros segmentos! Isso dependerá obrigatoriamente dos brasileiros!
Até a próxima!!

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O estilo Corinthians

Clubes são identificados por diversos fatores ao redor do mundo: sabemos diferenciar bem, por exemplo, o Real Madri do Barcelona, o Boca Juniors do River Plate, por aqui o Corinthians do Palmeiras, que é diferente do São Paulo e por aí vai…diversos elementos criam uma faceta para determinado clube: a história, o jeito de jogar, a maneira com que as maiores conquistas foram alcançadas…enfim, um pouco de cada ingrediente faz com que tenhamos o chamado DNA de um clube de futebol.
O Corinthians foi extremamente vitorioso após cair para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro em 2007 com uma cultura de jogo bem definida. A torcida aceitava e diretamente validava uma ideia que, de maneira geral, tinha um bloco de marcação médio, linhas bem compactas, marcação zonal muito bem definida, transições defensivas e ofensivas rápidas e poucas ações para chegar ao gol adversário. Os três técnicos expoentes desse modelo – Mano Manezes, Tite e Fábio Carille – ganharam tudo e mais um pouco. Quando a direção corintiana tentou mudar o rumo trazendo técnicos com outras ideias, não funcionou. É claro que a tática é apenas uma das vertentes do jogo de futebol. E as próprias competências de Oswaldo de Oliveira, Cristovão Borges e Osmar Loss estavam um patamar abaixo do que era exigido hoje para a função. Porém, romper drasticamente com uma fórmula que comprovadamente foi vitoriosa é algo desafiador, além de perigoso, e exige muita habilidade de todos os envolvidos.
Eis, então, o desafio de Tiago Nunes, novo técnico do Corinthians. Ele foi contratado para ser o contraponto de um modelo que foi vitorioso. Até porque o final de Fábio Carille no clube já mostrou algo desgastado e previsível. Tiago deverá ser extremamente hábil para construir novos comportamentos de jogo, mas preservando o DNA corintiano. Tenho dúvidas, por exemplo, se uma equipe que toque demais a bola, com passes predominantemente para o lado e para trás, agradaria a torcida. Ou então uma equipe muito exposta e que não coloque pressão e intensidade nos movimentos defensivos…
O corintiano, como todo torcedor, quer ganhar. É claro que a conquista de um troféu age sempre como uma borracha para apagar as coisas ruins e como um pincel para colorir o que funcionou. Sem um modelo dá para ganhar uma vez. Já para ganhar sempre, para construir uma era vencedora, para deixar um legado é preciso fincar bases bem mais sólidas. Tiago Nunes terá que tirar vantagem do que está arraigado no clube e melhorar isso, criar variações, aumentar o repertório da equipe com e sem a bola. Se ele quiser mudar tudo de uma vez, alterar da água pro vinho, creio que não será algo nem muito inteligente e nem muito eficaz. A torcida tem que saber o padrão que será apresentado, o menino das categorias de base que vai subir tem que saber o perfil do time profissional…tudo isso, o Corinthians teve nos últimos anos. A palavra agora, então, deve ser aprimorar. E não mudar.
 

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Entre a razão e as intuições ofensivas

Romário: um gênio da razão ou da intuição na ocupação do espaço? (Foto: Reprodução/Trivela)

 
Não são poucas as vezes em que esbarro, em uma leitura ou outra, especialmente na literatura do início do século pra cá (já sob o efeito do furacão que foi José Mourinho), com a ideia que dá título à conversa que gostaria de propor hoje: que é preciso, especialmente no ataque, ocupar os espaços de forma ‘racional’, que é preciso ‘racionalizar os espaços’, que quanto mais os espaços ofensivos forem ‘racionalizados’, melhor será a qualidade dos ataques.
Sendo bastante honesto, este termo não me agrada muito. Na verdade, acho que traz consequências negativas em potencial, não apenas do ponto de vista das ideias, como especialmente do ponto de vista do treino. Por isso, vou deixar algumas impressões que me ocorrem abaixo. Seguimos a conversa nos comentários.

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Vejam bem, a primeira coisa que fica subentendida nessa racionalização dos espaços é que o espaço, no jogo de futebol, pode ser usado, o espaço pode ser utilizado como uma coisa, e pode ser um meio para alguma outra coisa. Não acho que seja uma ideia de todo errada (posso tratar disso num outro momento), mas acho importante traçarmos uma linha aqui: uma coisa é o tipo de espaço que gostaríamos de ocupar em condições ideais, mas outra coisa, completamente diferente, são os espaços que ocupamos no jogo real, no jogo que se joga, de fato. Se levarmos em conta uma premissa básica do jogo, que é a imprevisibilidade (Johan Huizinga, Roger Caillois), podemos dizer que é até possível imaginarmos que a probabilidade de ocorrência de uma dada situação existe (vide o trabalho dos amigos analistas de desempenho), mas não sabemos quando vai ocorrer, não sabemos ao certo onde estarão nossos companheiros, onde estarão os adversários, onde estará a bola… sabemos bem menos do que gostaríamos de saber. Ou seja, de alguma forma, a decisão que tomamos no jogo jogado, assim como a decisão que nossos atletas tomam no jogo jogado, é uma decisão reativa – mas não reativa do ponto de vista do adversário, mas reativa do ponto de vista do jogo. Nós passamos geralmente mais tempo respondendo aos problemas colocados pelo jogo, e não o jogo respondendo a problemas colocados por nós. Uma vez que o jogo não pode ser previsto (pre-visto, visto em antecipação) e sabendo que os problemas do jogo exigem respostas imediatas, como podemos dizer que as melhores resposta serão exatamente ‘racionais’? Percebem o problema?
Em segundo lugar, também fica subentendido que o uso racional do espaço, exatamente por ser racional, é um uso melhor. Este é um problema sério – que talvez nem os nossos colegas da neurociência consigam responder com segurança. Veja bem, é como se houvesse usos irracionais do espaço (das equipes mais ‘anárquicas’, digamos assim) e, de outro lado, usos mais racionais do espaço (supostamente o uso das equipes chamadas de organizadas). Daí que as equipes que usam o espaço de maneira ‘racional’ são aquelas que supostamente pensaram mais e melhor o jogo, pensaram o jogo com antecedência, criaram cenários e mais cenários (especialmente durante o processo de treino) de modo que essa suposta racionalização fique mais clara. De novo, não acho que seja um entendimento de todo equivocado, porque no processo de treino de fato tentamos nos preparar em antecipação aos problemas que já ocorreram e aos problemas que podem vir a ocorrer no jogo jogado. Mas também gostaria de colocar um contraponto importante.
Pense um exemplo comigo: as pessoas racionais são e serão necessariamente melhores do que as pessoas emotivas? É claro que há graus e graus de sujeitos racionais, mas se partirmos daquela premissa, que escrevi ali em cima, quando apresentei o que parece subentendido na racionalização dos espaços, que quanto mais racional, melhor, então poderíamos concluir que o mesmo vale para os sujeitos que jogam o jogo e que vivem a vida vivida, que quanto mais racionais elas forem, melhores serão. Muito bem, isso se sustenta do ponto de vista humano? Porque há sujeitos que exercitam demasiado a razão, que exercitam tanto a ponto de esconderem as emoções, ou mesmo a ponto de negá-las. Será que esses sujeitos, que eventualmente se tornam obsessivos, controladores, manipuladores, eventualmente narcisistas (sendo narcisista o sujeito que precisamente ameniza ou nega as emoções), será que esses sujeitos realmente serão melhores, do ponto de vista humano? Pois se não, se o caminho estiver no meio, numa tentativa de equilíbrio e harmonia entre razão e as paixões, de exercício da razão e do pensamento ao mesmo tempo em que nos damos o direito de sentir, de nos abrirmos ao mundo, de deixarmos que o mundo nos toque, que a vida nos passe na mesma medida em que passamos por ela, se este for o caminho então vocês haverão de convir comigo que a racionalização tem limites, que ser ou estar mais racional pode deixar de ser saudável e passar a ser patológico e que isso pode valer tanto em nível individual quanto para uma equipe de futebol, por exemplo. Percebem como as fronteiras entre o jogo jogado e a vida vivida são menores do que se supõe?
Não me surpreende, portanto, que vez por outra fiquemos entediados assistindo um jogo ou outro de futebol, porque às vezes há uma tentativa tão grande de ‘racionalizar os espaços’, há uma obsessão tão grande e incontornável pelo controle do espaço e do jogo, que as vias intuitivas, o pensamento rápido (que, nos disse Daniel Kahnemann, é o pensamento intuitivo) vai ficando murcho, vai se tornando flácido, e aí não admira que nosso futebol também fique flácido, que perca potência, que nossa conduta seja tão paranoica e pretensiosa que agora só nos resta olharmos para nós mesmos, esgotados e frustrados, porque o jogo escorre pelas nossas mãos, contra a nossa vontade.
Tudo isso é importante por um motivo, em particular: como já escrevi em outros momentos, defendo um olhar humanizado do jogo de futebol. Por olhar humanizado, vamos entender aqui um olhar realista, que entenda as potencialidades do humano, mas também entende que ela tem limites, limites esses que escapam da própria razão.

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Embora pareça apenas uma questão semântica (lembre-se da conversa que tivemos semana passada, sobre o jogo de palavras), sinto que este é um problema que ultrapassa a linguagem e vai exatamente para o campo – e por isso me interessa tanto. Alguns dos melhores jogadores e das melhores equipes que conheci fazem e fizeram exatamente o contrário, não era tanto uma racionalização, mas uma intuição do espaço, uma intuição que não é sinônimo de anarquia, mas é aceitação das paixões, um saber que não se sabia de onde vinha, mas que era exatamente o que fazia daquelas equipes e jogadores inteligentes como eram e, ao mesmo tempo, que os faziam precisamente humanos.
O coração, como nos disse o Pascal, tem razões que a própria razão desconhece. E talvez possamos tratar mais disso no jogo jogado.