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Qual é o melhor caminho para ser treinador no Brasil?

O futebol brasileiro está muito atrasado taticamente. Essa afirmação vem se tornando cada vez mais frequente em qualquer conversa ou discussão quando se fala da evidente grande crise que nosso futebol vem enfrentando nos últimos tempos.

Muito desse atraso apresentado no nosso jogo está sempre relacionado ao treinador de futebol e à necessidade de renovação e atualização dos profissionais para que nossa forma de jogar se modernize.

Treinador de futebol no Brasil: a renovação é fundamental

Essa renovação dos nossos técnicos é saudável e que muitas vezes se mostra necessária. No entanto, quando esta é defendida, pouco se discute uma questão muito importante: como se formam os treinadores no Brasil?

Apesar de existirem bons cursos de treinadores de futebol a serem feitos por quem tem interesse (a própria Universidade do Futebol disponibiliza vários deles) e uma regulação para se tornar treinador profissional, ainda não há um “caminho único”.

Atualmente, para se tornar treinador de futebol profissional no Brasil, é necessário se formar em Educação Física – exceto para quem já foi jogador profissional – e realizar o curso ofertado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Nele, existem quatro módulos de formação: licenças A, B, C e Pro.

Como ser um treinador de futebol: a importância da formação

Então se realmente temos a intenção de evoluir e voltar a ser o melhor futebol do mundo, com toda a certeza um dos passos mais fundamentais é o exercício de programas robustos de capacitação para quem quiser ser treinador de futebol no país, com módulos bem desenvolvidos e gerando um padrão obrigatório de formação.

É importante ressaltar, porém, que isso não significa que a faculdade de educação física deveria ser obrigatória para o cargo, pois o futebol exige que quem trabalhe com ele tenha uma formação específica para isso, de acordo com suas particularidades, algo que a formação em educação física talvez não abrange totalmente.

Como ouvimos frequentemente, apesar de existirem algumas exigências, a formação do treinador de futebol no Brasil ainda é algo novo. 

Existem inúmeros países que realizam a formação dos treinadores de maneira ainda mais profissional e servem de exemplo para nos inspirarmos para que, por meio de debates e ações, possamos desenvolver urgentemente nosso próprio padrão de formação de técnicos e, assim, avançarmos rumo à recuperação do nosso futebol.

Enquanto essa necessidade não vira realidade, fica a pergunta: qual é o melhor caminho para ser treinador de futebol no Brasil? Capacitação!

Você sabia que a Universidade do Futebol oferece o Programa de Capacitação para Treinador de Futebol?

No curso, os alunos são apresentados a todos os aspectos do jogo, sendo ideal para as pessoas que desejam se tornar treinadores de futebol ou que já atuam na área e visam aprofundar ainda mais os seus conhecimentos.

Entre em contato conosco agora mesmo e saiba mais informações.

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Tipos de marcação no futebol: quais são as possibilidades?

Há muito tempo o futebol chama a atenção pela grande variedade de modelos, estratégia, táticas, plataformas e sistemas que o constroem. Na Itália, na Inglaterra, Espanha, Portugal, França, Argentina, México, Brasil muitas características fazem do mesmo jogo (o jogo de futebol) uma infinidade de possibilidades. Ataque, defesa, transição; muitas e ímpares são as discussões. Uma delas gira em torno do Sistema Defensivo, mais especificamente do sub-sistema “marcação” desse Sistema. Vejamos resumidamente pequenos detalhes de um grande contexto desse sub-sistema (chamemos esse sub-sistema de Sistema para facilitar o entendimento) .

Didaticamente, no jogo de futebol, podemos dividir o Sistema de Marcação em quatro formas predominantes de aplicação:

1 – Marcação Individual
2 – Marcação em Zona
3 – Marcação Mista
4 – Marcação Híbrida

A Marcação Individual tem como premissa a busca constante pelo “jogador a ser marcado” – o jogador “B” deve marcar o jogador “A” em todos os seus deslocamentos ofensivos; podendo ter como referencial não somente o jogador, mas também a “posição” do jogador (em outras palavras a marcação individual pode ser do tipo “homem a homem”, mas também pode ser do tipo “lateral pega lateral”, “volante pega meia” etc.).

A Marcação em Zona tem como premissa a otimização da ocupação dos espaços, impondo controle posicional regional e buscando obter vantagem numérica nos diversos setores do campo de jogo.

A Marcação Mista é aquela que tem como premissa a utilização da Marcação Individual e da Marcação Zona em situações diferentes e específicas do jogo, alternando-as de acordo com essas situações.

A Marcação Híbrida apresenta características da Marcação Individual e em Zona ao mesmo tempo, tendo como premissa a utilização da Marcação Individual e a Marcação Zona de acordo com estratégias bem definidas para a recuperação da posse da bola.

Para qualquer uma dessas marcações há ainda, de acordo com a forma de recuperação da posse da bola, a marcação ativa, a passiva e a mista; e para cada uma delas cinco linhas regionais (FIGURA 1) de referência para o início propriamente dito da estratégia de recuperação da bola.

A marcação ativa é aquela que busca “atacar” a bola na tentativa de recuperá-la mais rapidamente. A marcação passiva é aquela que busca “forçar” o adversário ao erro quando ele está de posse da bola.

Então dentro dessas subdivisões (meramente didáticas) poderíamos encontrar 60 combinações possíveis de modelos de marcação (Ex: Marcação Individual ativa na linha 1;Marcação Individual ativa na linha 2;Marcação Individual ativa na linha 3; Marcação Individual ativa na linha 4;Marcação Individual passiva na linha 1; Marcação Mista ativa linha 3; Marcação Híbrida passiva linha 4; etc.).

Para cada um desses modelos é possível que se defina diversas estratégias que, de acordo com sua lógica, podem modificar totalmente as dinâmicas do jogo.

Por exemplo, podemos ter uma Marcação Zona Passiva na linha 4 do tipo “Triângulo”, uma do tipo “Duas Linhas de Quatro” ou em “Cinco Faixas” (dentre tantas outras). Podemos ter, por exemplo, uma Marcação Individual Ativa na linha 1 do tipo “Pressão no Homem da Bola”, “Pressão Relativa” ou “Pressão Total” (dentre tantas outras). O mesmo vale para as Marcações Mistas ou Híbridas.

Com maior ou menor intensidade todas elas tem vantagens e desvantagens, exigindo mais ou menos intensidade de concentração; porém todas elas para não se tornarem reféns dos seus próprios problemas precisam ser discutidas, entendidas e bem estruturadas. É necessário porém de se destacar que a complexidade de uma Marcação Zona é maior do que a Individual; a Mista maior do que a Zona e a Híbrida maior que a Mista. A complexidade envolve todas as variáveis que interferem e/ou sofrem interferência do tipo de marcação adotada.

Infelizmente nossos atletas (no Brasil) são pouco estimulados a compreender as variações e implicações que surgem para cada tipo de sub-sistema de marcação que pode ser empregado em um modelo de jogo (e isso tem que começar com urgência nas categorias de base). Felizmente a inteligência dos nossos jogadores (seres humanos que são) dá a eles ferramentas para se adaptarem as novas situações estratégico-táticas quando vão para a Europa e quase na “marra” precisam apreender novas formas para o “jogar” (e felizmente para nós brasileiros, é possível que esse aprendizado fora do Brasil esteja colaborando e muito para nosso desempenho nas Copas do Mundo Fifa de Futebol).

Exemplos de exercícios para treinamentos específicos de marcação (devo lembrar que os exercícios que não representam momentos de um processo, de nada servirão se trabalhados isoladamente em um momento qualquer)

EXERCÍCIO: Protegendo a “zona de acesso” (prof. Rodrigo Leitão)

Exemplo de exercício de treinamento para um tipo de Marcação em Zona para linhas 3 e 4 que pode ser usada independente da Plataforma de Jogo utilizada. É uma marcação do tipo “Fechar o Meio” onde o objetivo principal é marcar a todo custo a faixa defensiva central do campo, levando o adversário para as laterais.

Versão 1.0:

Equipes jogam (7+Goleiro)x(7+Goleiro) (em posição). Marca ponto a equipe que conseguir receber a bola ou entrar conduzindo na região demarcada.

(se houver mais de duas equipes: sugestão = a cada 5 minutos sai a equipe que perdeu o jogo). Os goleiros defendem a “Zona de Acesso” dentro da grande área com as mãos. Quando a equipe conseguir marcar ponto, a bola recomeça com o goleiro.

Versão 2.0:

Mesmo jogo. Mas agora marcam pontos também ao fazer gols. Quando marcarem pontos, não mais o jogo recomeça com o goleiro. Agora segue normal.

Versão 3.0:

Mesmo jogo da v2.0, mas agora vale ponto também qualquer finalização da região delimitada.

Versão 4.0:

Agora a “Zona de Acesso” virou “Continente de Acesso”. Ela compreende a região demarcada + a grande área toda. Praticar primeiro com as regras da v1.0, depois v2.0 e por fim v3.0.

Para cada versão à sugestão processual : iniciar 7×7 (+goleiros); depois 8×7 (+goleiros); depois 8×8 (+goleiros); depois 10×10 (+goleiros) e por fim 10×9 (+goleiros).

Exercício: Passando a bola no campo inimigo – com pontuação e eliminação (prof. Rodrigo Leitão)

Exemplo de exercício para treinamento de Marcação Individual a partir da Linha 3.
Jogo em campo com dimensões normais. Equipe vermelha versus equipe amarela. Jogo normal onde se marcam pontos de duas formas:

Se uma equipe fizer gol marcará 1 ponto;

Se uma equipe conseguir dar 10 passes no campo de defesa do adversário também marcará 1 ponto.

Cada jogador de cada equipe deverá ter como tarefa marcar um atleta correspondente da equipe adversária (lateral direito marca o lateral esquerdo, zagueiro marca atacante, etc). Se um jogador permitir que o seu correspondente a ser marcado receba a bola no seu campo de defesa (da equipe que marca) por três vezes (na mesma seqüência de ataque)estará eliminado do jogo por “n” minutos.

O jogo deve ser realizado em 11 contra 11.

Cada jogador que for temporariamente “eliminado” deverá ser substituído por um atleta que estará de fora (fora do jogo) esperando (da mesma posição ou não).

Uma variação possível:

Ao invés de ter um jogador eliminado, o jogador que conseguir receber a bola três vezes no campo defensivo do adversário (na mesma seqüência de ataque) marcará ponto para a sua equipe.

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Modelo de jogo: saiba o que é, como funciona e conheça os 4 momentos da partida

O tempo em que o futebol era definido somente pelo talento individual passou faz muitos anos.

Basta olharmos para trás para ver muitos jogos considerados “fáceis” que acabaram por dar “zebra” – que na verdade não é o animal em si, e sim um estudo complexo do jogar futebol.

Toda equipe de futebol pode ser ofensiva, se for bem treinada. Tudo o que acontece dentro de campo não pode ser obra do destino, tem que ser trabalhado exaustivamente. Daí surge o modelo de jogo.

O que é o modelo de jogo?

O nome já se explica, mas damos uma força: o modelo de jogo nada mais é do que treinar exatamente o que vai fazer no dia do jogo, como a equipe vai se comportar nos diferentes momentos da partida. Planejamento é tudo, meu amigo.

“Se você quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro do tempo amolando o machado.” – Provérbio chinês

“Mas que diabos é esse tal de modelo de jogo?”, alguém pode perguntar.

Nada mais é do que “como” a sua equipe vai jogar. Troca de passes estilo Barcelona? Ou lançamentos longos para a frente no estilo do time da minha rua? Marcação pressão no homem da bola ou marcação a partir do meio de campo? Com qual esquema vou jogar: 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3 ou 6-4-0?

Enfim, ao responder a essas perguntas, você já está criando um modelo de jogo para seu time. Afinal de contas, todo brasileiro é técnico de futebol. Sempre temos nosso time ideal em mente.

Características do jogo de futebol: os 4 momentos da partida

Você sabia também que uma partida de futebol se divide em quatro momentos? São eles:

1. Organização ofensiva

A organização ofensiva ocorre quando o time está com a posse da bola. Refere-se à maneira com que a equipe vai atacar, a movimentação dos jogadores, o estilo de passe que será dado nesse momento, o tipo de finalização etc.

2. Transição defensiva

É quando se perde a bola. Não fomos eficientes no ataque e a defesa adversária a roubou.

O que fazer? Quem marcar? Ou seja, essa transição defensiva é um momento rápido de reação do time que estava com a bola.

Perdemos a bola? Então, vamos pressionar o homem da bola o mais rápido possível para não deixá-lo virar o jogo. Esse foi um exemplo.

3. Organização defensiva

Não deu certo a nossa pressão. Não roubamos a bola rapidamente. Eles estão trocando passes e vindo pra cima da gente. O que vamos fazer? Como vamos marcar? Essa é a organização defensiva – a maneira como nosso time vai se posicionar para marcar o adversário enquanto ele estiver com a bola.

Todos atrás da linha da bola? Manter o esquema tático? Duas linhas de quatro? Enfim, isso vai de cada técnico.

4. Transição ofensiva

Roubamos a bola! É agora! Vamos pra cima! Nosso zagueiro roubou a bola e agora vamos atacar. Também é um momento rápido para nos organizarmos ofensivamente. Roubamos a bola, e agora? Pra onde ela vai? E assim começa a transição ofensiva no futebol.

Repararam o que é um ciclo? Todo jogo é assim. Momentos. As equipes treinam como vão atuar dentro desses quatro momentos. Isso é modelo de jogo.

Quer se aprofundar mais nos fundamentos e nas técnicas de modelo de jogo?

Confira o curso Modelo de Jogo: áreas técnicas e performance da Universidade do Futebol. Nele, são abordados os principais conceitos para que você se aprofunde na forma com que os treinadores desenvolvem e distribuem as suas equipes.

Entre as vantagens do curso estão:

  • conteúdo exclusivo
  • flexibilidade e autonomia
  • metodologia diferenciada
  • certificação da Universidade do Futebol

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Concepções sobre o futebol a partir do materialismo dialético

Crédito imagem – Diogo Reis/AGIF/Site CBF

Algumas pessoas dizem que o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes existentes no mundo; já outras afirmam que o futebol não é um dos temas mais importantes do mundo: ele é precisamente o mais importante! Ainda que considerando estes flertes teóricos com o senso comum que emerge da sabedoria popular, procuramos nesse texto realizar uma abordagem acerca do futebol enquanto dimensão da vida que, ao perpassar os contextos do lazer, da cultura, da política e da economia, se encontra na posição de objeto de análise da ciência.

Uma questão deve ser inicialmente colocada: de que ciência falamos? Qual o paradigma epistemológico – de produção do conhecimento – que pode se constituir em método de análise a respeito do tema futebol? Precisamos retroceder à natureza da vida do homem primitivo para buscar respostas à pergunta formulada. No tempo das cavernas os homens se encantavam e também se amedrontavam diante de fenômenos da natureza como os raios, relâmpagos, trovões e tempestades. Para o homo sapiens dos primórdios as intempéries do tempo seriam mitos e mensagens dos deuses que habitavam o seu imaginário, uma vez que inexistiam possibilidades de elucidação de tais vozes e imagens dos céus. O obscurantismo permaneceu entre nós até a fundação do positivismo por Auguste Comte, no século XIX, que representou o início das concepções científicas sobre o homem e a natureza.

A ciência positivista, no entanto, recorre a avaliações dos objetos a partir da métrica, do cálculo e dos postulados das “ciências duras”, como a matemática, a física e a química. As características de imutabilidade (ou não permeabilidade) destas áreas do conhecimento resulta na captação imediata e palpável das propriedades dos fenômenos investigados. A realização de projetos de engenharia e a descoberta de vacinas e medicamentos decorrem, em grande e majoritária proporção, da produção de conhecimentos pelo viés positivista. Outra questão também se coloca: o futebol pode ser analisado pela lente do positivismo?

De acordo com Adorno e Horkheimer (1985), na Dialética do Esclarecimento, o positivismo, ao elucidar os mitos que atormentavam os homens na pré-história, se converteu em nova espécie de mito ao se configurar como veículo único para acessar a verdade absoluta a respeito dos fatos. Os cientistas positivistas estariam superando a antiga mitologia e afirmando uma ciência incapaz de apreender as contradições históricas que determinam notadamente os fatos sociais. O positivismo, enfim, pode analisar o futebol a partir de dados como médias de gols em diferentes copas do mundo, tempo de posse de bola das equipes que disputam o campeonato brasileiro ou diferenças de movimentação financeira entre a Premier League inglesa e a Bundesliga alemã. No entanto, pretendemos interpretar o futebol à luz de uma epistemologia que não se fundamente no dado estatístico e nos modelos matemáticos, mas que se sustenta por compreender nosso objeto de estudo a partir de seus nexos constitutivos históricos, sociais e culturais. Recorremos, então, ao materialismo dialético como meio de produção do conhecimento.

Embates entre gigantes da filosofia proporcionaram a criação do materialismo dialético. Georg Hegel defendia que as concepções do indivíduo (o idealismo do sujeito) seriam responsáveis pela construção do mundo palpável, que também exerceria suas influências sobre a subjetividade. Tratava-se da dialética hegeliana, invertida por Karl Marx de forma radical ao depositar nas condições materiais da existência o ponto de partida de sua dialética. Surgiu assim o materialismo dialético, como pensamento científico marxista apoiado na existência de pares dialéticos capazes de apreender as contradições características dos fatos sociais. Esses pares são: aparência / essência, exclusão / inclusão, parte / todo, processo / produto e racionalidades instrumental / emancipatória.

As condições materiais do mundo contemporâneo estão organizadas segundo formas específicas de racionalidade, ou modo de organização da razão: temos então a racionalidade instrumental (ADORNO e HORKHEIMER, 1985) e a racionalidade tecnológica (MARCUSE, 1979). A primeira compreende que os fenômenos sociais e culturais, dentre os quais incluímos o futebol, são instrumentalizados pelo sistema capitalista de produção em favor do lucro, da produtividade, do pragmatismo e do utilitarismo; a segunda entende que a razão fundamentada na tecnologia pressupõe a supremacia dos aparatos técnicos sobre os mais nobres ideais humanos. Se compreendermos que o progresso científico e tecnológico resultou na bomba atômica lançada pelos americanos sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial, mas não foi capaz de erradicar a fome e a violência do planeta, identificamos a barbárie exposta pela razão em que o capital e a técnica relegam o ser humano a um segundo plano.

O futebol é um fenômeno de lazer, quando compreendemos este último como uma dimensão lúdica da experiência humana, associada à cultura e dependente das relações de tempo e espaço (GOMES, 2011). Quando jogado na rua, nas praias e nos campinhos de várzea, o futebol se encontra com suas raízes lúdicas e se move em direção à emancipação do sujeito, existente na criatividade, na modificação e na adaptação das regras e na prioridade do processo (o jogo em si) em relação ao produto (o resultado numérico do jogo). Por outro lado, quando o futebol se torna business as determinações que sobre ele incidem são originárias do modo de produção capitalista, ávido por lucros e pelas vitórias acima do fair play. É nesse contexto pragmático que o futebol deixa de lado a arte, a singularidade de cada futebolista, e cede espaço aos clubes, treinadores e atletas convertidos em mercadorias.

Na aparência, o futebol de alto rendimento promove valores como a educação, o respeito às regras, a ascensão social e o espírito “olimpicamente” ético. Por outro lado, verificamos no futebol “espetáculo” uma essência construída historicamente a partir de alguns pilares menos nobres: a exclusão dos menos aptos, a conversão dos atletas em mercadorias, a busca pela vitória a qualquer preço e a falsa propagação de valores disseminados por uma Indústria Cultural (Adorno e Horkheimer, 1985) que fabrica necessidades artificiais de consumo como se genuinamente humanas fossem, afinal os pacotes de pay per view das redes de TVs por assinatura precisam ser comercializados.

Ora, o futebol não é uma instituição revestida por uma redoma de vidro, impermeável às contradições e desigualdades sociais e culturais de nosso tempo. Pelo contrário, o futebol é um microcosmo da realidade mais ampla com todas as suas mazelas e virtudes, dos pontos de vista ético e financeiro. Trata-se da relação existente entre a parte (o futebol) e o todo (o sistema do capital, notadamente no mundo ocidental). O todo constitui a parte, o que confere ao futebol o poder de exprimir a realidade do planeta, tanto na exclusão quanto em eventuais inclusões, tanto na violência quanto na fraternidade.

A seleção brasileira nos serve como um referencial das modificações pelas quais o Brasil e o mundo passaram desde os tempos da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética até os dias de hoje. A derrota para o Uruguai, na Copa de 1950, fez com que a nossa seleção simbolizasse o complexo de vira-latas, uma expressão criada por Nelson Rodrigues para evidenciar uma suposta falta de autoestima do povo brasileiro diante de outras nações. A derrota para os húngaros na Copa de 1954 agravou esse tipo de preconceito, definitivamente superado com a conquista do nosso primeiro título mundial, na Copa de 1958, na Suécia. Algumas circunstâncias de outros mundiais apontam para conexões entre a política e o futebol, como no caso do tricampeonato mundial brasileiro em 1970, quando a ditadura militar, através do governo Médici, procurou capitalizar os ganhos esportivos em prol do regime nacional de exceção. É interessante ressaltar que fato semelhante ocorreu na Copa de 1978, disputada na Argentina, quando a conquista do mundial pelo país sede obteve repercussão favorável à ditadura portenha do General Videla. Mais recentemente, podemos observar nas seleções latino-americanas e africanas, em diversas copas do mundo, um grande número de atletas atuando no futebol da Europa. Trata-se da nova colonização, que expropria o país dominado em favor da metrópole: não nos referimos à extração de pau-brasil ou de ouro, mas à contratação dos atletas brasileiros, argentinos, marfinenses ou camaroneses pelos grandes clubes da Inglaterra, da Espanha, de Portugal, da França, da Itália e da Alemanha. O futebol, nesse contexto, não representa a globalização: ele é a globalização das relações econômicas que implicam relações de poder.

A dicotomia entre processo e produto é uma outra perspectiva da compreensão do futebol pela via do materialismo dialético, ainda considerando a seleção brasileira como referencial. A paixão e o saudosismo nacionais estão voltados mais para a nossa seleção da Copa de 1982, que encantou o mundo, do que para o Brasil tetracampeão em 1994. Essas constatações partem do pressuposto que a estética e a arte podem superar o pragmatismo na consciência coletiva de uma nação, uma vez que os lances maravilhosos de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo e Júnior, na Espanha (1982), representam a nostalgia em relação a um modo de jogar futebol que não venceu, mas convenceu a todos que apreciam o esporte em sua essência lúdica e artística. Ainda que contasse com a arte de Romário e Bebeto, o futebol pragmático apresentado pelo Brasil em 1994 traduz um traço de comportamento social que destaca o resultado final, o título e o produto, em detrimento do processo. Para os poetas e sonhadores, afinal, a travessia não conduz a um determinado fim: a travessia é o caminho. Assim, quem ousaria afirmar que o produto teria hegemonia sobre o processo? A resposta pode estar na fantástica seleção brasileira dirigida por Telê Santana, em 1982.

O materialismo dialético, através de seus pares, não realiza o diagnóstico de momento, como faz um exame de ressonância magnética. Essa vertente de produção do conhecimento não deposita a verdade absoluta em compartimentos rígidos, a partir de testes de controle, placebos, variáveis e hipóteses. O materialismo dialético encontra respaldo na teoria de Marx, que possivelmente nunca chutou uma bola, mas que sabia que a verdade depende de condições concretas postas e de contradições que caracterizam os fenômenos da sociedade, da cultura, da política, da economia, da razão enfim. O futebol é o produto (e fundamentalmente o processo) de construção de verdades que podem ser provisórias. O futebol é composto por razão e emoção, leis e suas transgressões, relações viscerais entre torcedores e clubes, arte e pragmatismo, ídolos genuínos e outros fabricados, afirmativas transitórias e contradições permanentes, e por tudo isso não podemos encarcerá-lo em conceitos definitivos. Os parágrafos acima escritos não totalizam uma conceituação, que na verdade é infinita e não pode ser realizada pelas pretensões de qualquer autor.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

GOMES,  Christianne  L.  Estudos  do Lazer  e  geopolítica  do conhecimento. Revista Licere. Belo Horizonte, V.14, N.3, p.1-25, set./2011.

MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.

Guillermo de Ávila Gonçalves é Doutor em Educação (UFG), Mestre em Ciências do Esporte (UFMG), docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG) e treinador de futebol com licenças A (em andamento) e B da CBF.

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O impacto das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro – possíveis caminhos

A partir de uma reflexão crítica sobre a alta rotatividade de treinadores no futebol brasileiro, nosso estudo investigou as principais causas e consequências das mudanças de comando técnico no Brasileirão por meio de uma avaliação econométrica compreensiva, cujos dados contemplam 16 temporadas (2003 a 2018). Respeitando regras, parâmetros e testes estatísticos estabelecidos pela metodologia científica que já reconhecemos na literatura de administração e economia do esporte (reunindo estudos similares em 15 países), chegamos a evidências contextualizadas à realidade do Brasil.

Durante o período da nossa amostra o Brasileirão apresentou taxas de mudança de comando técnico muito superiores a outras importantes ligas da Europa e América do Sul (conforme ilustrado na PARTE 1). Além dos números absolutos e relativos de trocas ao longo das 16 temporadas sob observação, também chamou a nossa atenção a incidência de treinadores repetidos em cada ano (22,7% em média), bem como a consistência de oportunidades a novos entrantes em cada edição da liga nacional (34,6% em média). Mesmo antes dos cálculos estatísticos, já foi possível perceber o alto nível de insegurança e volatilidade que os treinadores de futebol vivenciam no território nacional.

Ao avaliar as causas (PARTE 2), identificamos que o rendimento esportivo da equipe numa janela de 4 jogos sequenciais representa um sério indicador que afeta a permanência do treinador no cargo, evidenciando uma mentalidade de curtíssimo prazo por parte de dirigentes no Brasil. Já as expectativas por resultados positivos não apenas aparentam ser superestimadas pelos clubes, como também reforçam a miopia e a atitude especulativa na tomada de decisão sobre a continuidade do treinador na função. E de forma surpreendente, o desempenho em competições paralelas destacou-se como o fator de maior influência ao determinar mudanças de comando técnico no Brasil, já que uma eliminação da Copa Libertadores basicamente se traduz em uma rescisão contratual durante a liga nacional (muito embora as competições tenham formatos de disputa distintos sob um viés de alto rendimento no esporte).

Considerando o real impacto da rotatividade de treinadores e as consequências sobre o rendimento esportivo (PARTE 3), somente um sinal de influência mínima foi identificado após as trocas, porém é necessário aguardar 7 jogos até que uma coleta de pontos possa ser parcialmente assinalada como consequência da mudança de líderes na equipe (sem evidências adicionais que sustentem esse mínimo efeito após o sétimo jogo). Embasados pelos resultados estatísticos e pela literatura acadêmica, concluímos que o treinador de futebol no Brasil sofre com o ritual do bode expiatório (uma teoria reconhecida e estudada pela gestão do esporte mundialdesde a década de 1960). Na prática, as mudanças de treinadores respondem a outros interesses, sem associação à melhoria efetivado rendimento esportivo. Entre os resultados da nossa análise ao longo das 16 temporadas sob observação, fatores como o mando de campo e a diferença de pontos em comparação ao adversário (antes do jogo) revelam consequências maiores sobre o rendimento das equipes, com prognósticos superiores ao impacto de novos nomes assumindo o cargo. Aliás, o processo de recrutamento para a escolha do treinador deve ser conduzido de forma cuidadosa, uma vez que nossas estatísticas demonstram um efeito negativo
sobre a coleta de pontos quando o líder da equipe é estrangeiro ou preenche a função apenas como treinador interino.

Visando fornecer informações assertivas e com base científica para melhores decisões adiante, despertamos uma série de implicações práticas que podem apoiar a carreira dos treinadores, o trabalho dos dirigentes e o acompanhamento dos torcedores de clubes brasileiros.

Implicações práticas para os treinadores

Para os treinadores, o principal ponto crítico de reflexão extrapola a profissão. Isto porque, além de evidenciarmos a instabilidade crônica da sua função no país, também percebemos sinais de frustração, ansiedade e estresse reportados publicamente pelos profissionais brasileiros ao longo desta pesquisa acadêmica. Ou seja, a insegurança na carreira profissional carrega indícios prejudiciais à saúde mental e física dos treinadores, que sofrem com oscilações de temperamento, sono desregulado e até mesmo disfunções cardiovasculares em casos extremos. Consequentemente, não seria incomum o treinador testemunhar reações agressivas ou transtornos de impaciência na sua relação com jornalistas, com membros do próprio clube, ou até com familiares em situações mais agudas. Priorizando a sua condição humana com um cuidado maior à sua saúde pessoal, o treinador pode tentar amenizar a pressão recorrente no seu ambiente profissional.

Embora os resultados estatísticos do nosso estudo revelem alguns ângulos que podem estender a sobrevivência dos treinadores no cargo através de decisões estratégicas ao aceitar ou declinar propostas de emprego, ao evitar saídas voluntárias quando já empregados, e também ao exercer prioridades na disputa de competições paralelas ou dentro de uma sequência curta de jogos, não devemos restringir a interpretação final somente ao reflexo dos números. Coletivamente, o treinador tem menos espaço prático para o desenvolvimento do seu potencial no futebol brasileiro, dificultando sua projeção de carreira devido a decisões limitadas ao curto prazo no local onde o seu trabalho é julgado. Com isso, reivindicar avaliações objetivas por parte dos seus empregadores poderia ser uma defesa coletiva dos treinadores em todo o território nacional. Ainda assim, a união profissional somente fortalece a classe quando os indivíduos passam a defender a mesma teoria, executando-a de forma conjunta (e consistente) na prática.

Implicações práticas aos dirigentes

Para os dirigentes (leia-se diretores, conselheiros e presidentes dos clubes), os principais pontos críticos de reflexão são a racionalidade e a responsabilidade nas tomadas de decisão. Com números alarmantes em absolutamente todos os 41 clubes participantes do Brasileirão ao longo de 16 temporadas, não há mais como negar (ou tentar esconder) a parcela de (ir)responsabilidade que os dirigentes detêm na situação atual e histórica de seus clubes, cujas decisões irracionais atrasam o progresso qualitativo do futebol brasileiro.

Felizmente, medidas profissionais podem ajudar a modificar tal postura crônica, como a implementação de um recrutamento cuidadoso e criterioso na seleção dos treinadores, aliado a produção de conteúdo estratégico com o departamento de comunicação do clube (apoiando o treinador com iniciativas que transmitam uma visão construtiva do líder técnico aos seus torcedores), além do investimento primordial em ciência e tecnologia como mecanismos que potencializem o trabalho do treinador e sua comissão técnica, beneficiando o rendimento esportivo do clube em longo prazo.

Contudo, vale ressaltar que mudanças estruturais não reproduzem diferenças práticas se o comportamento cultural dos dirigentes permanecer o mesmo (independente da estrutura organizacional, seja em um clube-associativo ou clube-empresa, os resultados tendem a ser semelhantes até que a postura do dirigente se altere a parâmetros racionais). Em um sistema político como o futebol brasileiro, onde ainda prevalece a disputa pelo poder, mérito e atenção, decisões impulsivas, emotivas e com interesses desassociados ao aprimoramento profissional do clube são comuns e recorrentes.

Com os resultados da nossa avaliação econométrica em mente, torna-se nítida a necessidade por uma melhor administração das expectativas, bem como de critérios profissionais em detrimento a julgamentos subjetivos ao avaliar os treinadores no Brasil. Além disso, reagir de forma exagerada ou impulsiva após eliminações de competições paralelas (em especial na Copa Libertadores) não apenas escancara a falta de planejamento estratégico, como tende a comprometer objetivos mais realistas de longo prazo numa temporada (afinal, o Brasileirão não é disputado em formato eliminatório). Aceitar, assumir e dividir responsabilidades em momentos desfavoráveis pode ser o caminho profissional que avance e modifique o comportamento entre os dirigentes brasileiros, a fim de compartilhar publicamente a complexidade e a dinâmica de um esporte coletivo de alto rendimento sem realocar toda a pressão (interna e externa) ao treinador empregado no momento adverso.

Implicações práticas aos torcedores

Para os torcedores, o principal ponto crítico de reflexão volta-se à demanda por maior transparência de seus clubes de coração (e consumo). Após identificarmos que 264 indivíduos vivenciaram 594 mudanças de comando técnico sem carregar efeitos positivos sobre o rendimento esportivo no panorama completo com todos os 41 clubes participantes do Brasileirão entre 2003 a 2018, o sinal de alerta (ou insatisfação) dos torcedores deveria ser redirecionado aos responsáveis pelas decisões, em vez de aceitarem a narrativa crônica de que a solução sempre vem com a troca dos treinadores. Afinal, nenhum clube passou ileso, tampouco nenhum treinador passou imune ao comportamento dos dirigentes (independente da idade, nacionalidade ou experiência como jogador profissional).

Conforme revelamos entre os resultados, fatores como o mando de campo e as expectativas pré-jogo carregam prognósticos de grande influência na nossa análise estatística. Em ambos os casos, há o envolvimento dos torcedores como peças integrantes desses dois fatores, que ajudam a manifestar o peso da opinião pública sobre os clubes de futebol no Brasil. Aliado ao fato do torcedor ser essencialmente quem subsidia o sistema (ou financia as contas), seja de forma direta com a aquisição de ingressos e produtos oficiais, ou de forma indireta com o consumo de canais esportivos que detêm os direitos de transmissão das competições, exigir transparência significa monitorar tanto a alocação de recursos, como os objetivos e as decisões conduzidas dentro do clube. Afinal, baixos níveis de transparência prejudicam a sustentabilidade da organização e do esporte em todo o país.

Com preferência a opiniões arbitrárias e argumentos subjetivos em detrimento a teorias acadêmicas e embasamento científico, a cultura de relações sociais que rodeia o ambiente político de dirigentes no Brasil ainda desvaloriza o seu compromisso profissional perante os torcedores, manipulando a opinião pública de acordo com interesses temporários. Especificamente no tema do nosso estudo, quando um clube modifica rotas de liderança técnica na mesma temporada, não apenas o treinador permanece por tempo insuficiente para desenvolver o seu potencial, como a organização também se torna refém do curto prazo, apressando (ou negligenciando) o processo de recrutamento dos substitutos. Ou seja, enquanto o treinador tem poucas semanas para comprovar sua escolha, o clube tem ainda menos tempo para atualizar suas especulações, fomentando alternâncias cíclicas que não atraem melhoria efetiva ao rendimento esportivo. Acima de tudo, rescisões contratuais frequentes geram dívidas trabalhistas exponenciais, que nem sempre são honradas pelos empregadores, acumulando despesas financeiras com treinadores, advogados e demais credores envolvidos em cada um dos processos, os quais consequentemente afundam a organização esportiva enquanto a atenção pública se volta ao treinador (o protagonista no ritual do bode expiatório).

Limitações do estudo

Apesar de expandirmos a avaliação das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro a níveis mais criteriosos por meio deste estudo científico, ainda reconhecemos algumas lacunas que merecem consideração em pesquisas acadêmicas posteriores.

Primeiro, não examinamos a influência de eleições (presidenciais e de conselho deliberativo) que acontecem a cada 2 ou 3 anos nos clubes do Brasil, afetando as decisões políticas que sustentam o julgamento de dirigentes em trocas contínuas de treinadores.

Segundo, infelizmente não foi possível mensurar o efeito das posições na tabela ao longo do período, pois o calendário de jogos do Brasileirão sofreu com disparidades na sua programação original em 15 dos 16 anos sob análise na nossa amostra (conforme adiantado na introdução do estudo) e, portanto, qualquer comparação histórica com as posições na tabela seria ilusória.

Terceiro, não estudamos a composição dos elencos dos clubes participantes, cujo entendimento certamente ajudaria a explicar tanto as mudanças de comando quanto os prognósticos de rendimento esportivo devido a diferenças em qualidade e quantidade de recursos humanos à disposição do treinador.

Quarto, não encontramos fontes confiáveis para coletar dados sobre os torcedores presentes nos estádios (em números absolutos e relativos) em todos os jogos da nossa amostra, que nos beneficiaria a compreender como o estímulo da torcida pode influenciar resultados ou decisões no Brasil.

E quinto, teríamos um grande diferencial se pudéssemos examinar as oscilações na narrativa, eloquência e retórica praticadas pela imprensa esportiva brasileira em fases de trocas de treinadores, a fim de verificar o efeito de reportagens, opiniões e cobertura editorial na construção ou manutenção da pressão externa, que evidentemente é repassada com maior intensidade ao treinador.

Conclusão

Esta investigação científica tem como objetivo revelar uma referência acadêmica valiosa para o melhor entendimento de treinadores, dirigentes e torcedores de futebol do Brasil sobre o que efetivamente influencia as mudanças de comando técnico no Brasileirão, além do real impacto das trocas de treinadores e as consequências sobre o rendimento esportivo de seus respectivos clubes.

Ao aplicar teoria na prática, a administração baseada em evidência já colaborou para dissolver julgamentos e suposições arbitrárias em outros ângulos no esporte, como por exemplo ao divulgar ineficiências na análise de desempenho de atletas no beisebol (Moneyball: O homem que mudou o jogo) ou reivindicar a implementação de novas políticas de saúde após constatações sobre riscos letais na prática do futebol americano (Concussion: Um homem entre gigantes). Tais cenários, embora não relacionados diretamente ao futebol brasileiro, costumavam ser tratados como assuntos de mero acúmulo de experiência prática até que a econometria, a ciência e a inteligência acadêmica romperam os argumentos subjetivos de gestores, dirigentes e políticos rumo a uma nova mentalidade no esporte profissional.

Portanto, ao fortalecer o pensamento crítico sobre avaliações objetivas no cenário do futebol brasileiro, o estudo em questão avança o processo de conhecimento e discussão teórica em um território que ainda carece de evidências científicas (contextualizadas à sua realidade) para contradizer alegações irracionais na gestão da modalidade esportiva que levou o Brasil a se tornar uma referência global há anos (ou décadas atrás). Mas, ainda hoje, insiste em queimar suas próprias cartas.

“Eu fico envergonhado quando vejo algum jogador meu errar um fundamento, porque na verdade a culpa não é dele. Sendo treinador, é minha obrigação ensiná-lo a como aprimorar sua técnica, mesmo que isso leve mais tempo do que o esperado. É para isso que eu trabalho”Telê Santana, 1992

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O impacto das mudanças de comando técnico no futebol brasileiro – Por que os clubes demitem?

Conforme antecipado na PARTE 1, para avaliar efetivamente os treinadores de futebol no Brasil, torna-se imperativo considerar a realidade contextual que rodeia o seu trabalho, além de aplicar cálculos matemáticos avançados antes de qualquer tentativa de comparação de resultados. Assim, é necessário mensurar critérios objetivos que possam traduzir o comportamento de dirigentes, as expectativas de torcedores e as condições disponíveis em torno do profissional que executa a função como treinador. Sobretudo em um sistema político sustentado por suposições arbitrárias, cujas opiniões subjetivas e julgamentos simplistas tendem a responsabilizar exclusivamente o treinador em momentos desfavoráveis, apresentar um método de avaliação racional pode beneficiar a cadeia produtiva do esporte no país (seja a partir de um clube isolado até o eventual desdobramento em toda a estrutura nacional).

Vale reforçar que o foco deste estudo é a relação das trocas de treinadores durante o Brasileirão. Portanto, mudanças realizadas antes do primeiro jogo e após o término do último jogo da liga nacional (entre uma temporada e outra do Brasileirão) não foram computadas na nossa amostra. Isto porque quando a liga nacional não está em atividade, há um contexto diferente rodeando as tomadas de decisão nos clubes brasileiros (considerando resultados da temporada anterior, movimentos na janela de transferência no início do ano, reestruturação de elenco, incidência de campeonatos estaduais, ou inclusive o efeito de novos presidentes e conselheiros assumindo a direção política do clube).

Independente se o treinador deixou o cargo de forma voluntária (se demitiu) ou involuntária (foi demitido), a mudança de comando foi computada da mesma forma na nossa amostra, pois representa uma troca efetiva de líderes no comando de um grupo específico de jogadores. Em situações quando o treinador foi suspenso ou não compareceu fisicamente ao jogo por qualquer motivo (ainda empregado no cargo), ele permaneceu como o líder responsável pela sua equipe na partida mesmo estando ausente do banco de reservas no dia. A única exceção refere-se aos treinadores interinos, tratados como figuras temporárias na liderança do grupo durante a transição (num período máximo de 15 dias) entre a saída de um treinador efetivo e a chegada do seu substituto, conforme explicado na PARTE 1.

Enfim, respondendo à primeira pergunta do estudo (Quais são os fatores determinantes para as trocas de comando técnico no Brasil?) por meio de uma avaliação econométrica compreensiva, nosso modelo de análise de regressão foi capaz de classificar 95,5% dos casos corretamente. E a fim de facilitar a compreensão do artigo científico (que ainda traz uma série de variáveis de controle e percentuais relevantes para a interpretação prática), reunimos os principais resultados estatísticos em um agrupamento de 3 núcleos, dispostos a seguir:

A) Rendimento esportivo numa janela de 4 jogos sequenciais (curtíssimo prazo)

B) Expectativas (superestimadas)

C) Desempenho em competições paralelas (torneios eliminatórios)

Em suma, a econometria se baseia em uma análise estatística avançada com um volume elevado de dados sob observação. Devido à complexidade dos cálculos matemáticos, bem como os parâmetros estatísticos que devem ser respeitados como parte da metodologia científica, a leitura dos dados pode parecer confusa em um primeiro momento. Por isso, buscamos ilustrar os resultados estatísticos por meio de percentuais que traduzem um aumento ou diminuição na probabilidade de mudança de comando técnico.

A) Rendimento esportivo numa janela de 4 jogos sequenciais (curtíssimo prazo)

Muito embora a extensão da nossa análise de rendimento esportivo (considerando os pontos coletados por jogo e a diferença de gols por jogo) tenha se prolongado a até 5 jogos antes das mudanças de comando técnico, o quinto jogo que antecede a saída do treinador não apresentou resultado estatisticamente significativo (ou seja, sem uma constatação científica suficientemente forte para ajudar a explicar a decisão da troca). Por outro lado, para cada ponto coletado dentro de uma janela de 4 jogos sequenciais, a probabilidade de sobrevivência do treinador mostrou índices de aumento entre 15,2% a 33,1% (por ponto, variando de acordo com a ordem dos jogos – vide tabela abaixo). O mesmo raciocínio é válido para o efeito contrário: a cada ponto não coletado numa faixa de 4 jogos, reduz-se entre 15,2% a 33,1%, por ponto, a probabilidade do treinador seguir no comando da equipe.

Já com relação a diferença de gols no jogo, chegamos a resultados estatisticamente significativos dentro de uma janela de apenas 3 jogos sequenciais (tornando os placares da quarta e da quinta partida anteriores à mudança de técnicos como insignificantes pelo viés científico). Ou seja, para cada gol marcado a mais do que o adversário na partida, o treinador aumenta entre 11,9% a 25,6% sua chance de permanência. Logo, em caso de goleada com um saldo bem superior ao adversário, esse percentual é cumulativo, com os valores variando de acordo com a ordem do jogo (vide tabela abaixo). Entretanto, vale reforçar que esse raciocínio prevalece somente numa janela imediata de 3 jogos sequenciais (o que diminui o impacto de uma goleada ou saldo positivo no placar do quarto ou quinto jogo que já passou).

Transportando a evidência científica ao entendimento prático, o treinador de futebol no Brasil pode testemunhar um cenário favorável para permanecer no comando técnico caso sua equipe não desperdice pontos ou saldo de gols frente aos adversários numa janela de 3 a 4 jogos sequenciais. Caso contrário, a probabilidade de ser substituído aumenta devido a uma sequência não-positiva, especialmente se a equipe do treinador sofrer com derrotas sucessivas numa faixa de 4 partidas. Tal efeito ilustra como reações imediatistas são recorrentes no comportamento passional e emotivo de dirigentes em clubes de futebol no Brasil, que optam (com frequência desproporcional) por uma alteração de rotas em um prazo curtíssimo de tempo. Validando cientificamente o jargão popular do futebol brasileiro (“Perdeu três, está fora!”), nosso estudo atualiza a frase, corrigindo o número de 3 para 4 partidas, pois sem coletar pontos ou saldo positivo de gols em 4 jogos sequenciais, o treinador dificilmente sobrevive no Brasileirão.

B) Expectativas (superestimadas)

A fim de medir o efeito das expectativas pré-jogo (resgatando a realidade do momento que antecedeu cada partida da nossa amostra), implementamos em nosso estudo uma variável de mensuração de probabilidades de resultados (leia-se, expectativa de vitória ou expectativa mínima de empate) baseada em algoritmos históricos de apostas profissionais e que replica técnicas de estudos recentes com a Bundesliga alemã. Essa medida é reconhecida como uma métrica confiável na literatura acadêmica por não ser suscetível a manipulações, já que os algoritmos reúnem o máximo de informações públicas e estatísticas de rendimento esportivo disponíveis para gerar previsões realistas antes de cada jogo de futebol.

Fortalecendo o pensamento de curto prazo nas decisões de mudanças repentinas (e frequentes) no Brasileirão, as expectativas por resultados positivos aparentam ser superestimadas entre os dirigentes dos clubes participantes. Isto porque o simples fato de um clube ter previsão mínima de um empate dentro de uma janela de 3 jogos sequenciais pode prejudicar a manutenção do treinador no cargo da equipe, aumentando a probabilidade de mudança entre 38,1% a 61,6% (vide tabela abaixo).

Antes mesmo da equipe entrar em campo dentro de uma sequência de 3 jogos imediatos, se a expectativa do antepenúltimo jogo fora de pelo menos um empate, o risco de mudança já aumentara em 38,1%. No penúltimo jogo, se a previsão externa fora de vitória, o treinador sofrera um aumento de 36,2% sobre o risco de deixar o comando. E por fim, imediatamente antes do último jogo nessa faixa de 3 confrontos sequenciais, se a expectativa de resultado indicara o mínimo de um ponto (empate), as chances de se testemunhar uma mudança de comando técnico aumentaram para 61,6%. É importante reforçar também que, embora estatisticamente não-significativos, as expectativas de rendimento sobre o quarto e quinto jogos que já passaram traduzem como a memória na tomada de decisão dentro da organização se mantém viva apenas para o momento atual.

Nitidamente, as expectativas de rendimento esportivo (sem que a equipe sequer tenha pisado no gramado do jogo) já conduzem altos índices determinantes para as trocas de treinadores no Brasileirão. E, sobretudo, reforçam o desenho de curtíssimo prazo enquadrado no julgamento de dirigentes, que evidentemente transferem a pressão externa ao treinador em situações inoportunas.

Aliado a esse raciocínio, outro resultado estatisticamente significativo que encontramos em nossa análise sustenta ainda mais o pensamento superestimado dos tomadores de decisão. Considerando a disposição da tabela, para cada ponto a mais que a equipe do treinador apresenta em comparação ao seu adversário antes da partida (em qualquer momento do campeonato), a probabilidade de uma mudança de comando aumenta em 2,1% (por ponto). Antes mesmo de entrar em campo, somente o fato de somar mais pontos do que o adversário já parece instigar sinais de exigência no clube por um resultado positivo, exagerando as expectativas por aparentemente não aceitar insucesso frente a um adversário com pontuação inferior no momento.

Ao escancarar uma mentalidade especulativa alimentada por precipitações e expectativas supervalorizadas, devemos questionar se os dirigentes brasileiros fornecem um ambiente minimamente favorável aos treinadores, a fim de atrair resultados construtivos de acordo com os recursos, estrutura e condições disponíveis. Afinal, se uma troca imediata (ou frequente) de capital humano ocorre dentro de uma organização, a origem dos erros se torna explícita no processo de recrutamento conduzido pelos decisores, que são os encarregados por contratar e substituir treinadores e também devem, portanto, ser responsabilizados pela situação em que os clubes se encontram (no momento e na história recente).

C) Desempenho em competições paralelas (torneios eliminatórios)

De forma impressionante e até mesmo surpreendente (devido ao peso dos percentuais), ser eliminado da Copa Libertadores representa o fator mais impactante para a sobrevivência do treinador durante o Brasileirão. Isto é, quando o treinador vê a sua equipe finalizar a sua participação (sem o título de campeã) na principal competição continental de clubes da América do Sul (disputada em formato eliminatório, cujo contexto, circunstâncias e preparação são totalmente distintos quando comparados ao formato de pontos corridos da liga nacional), a probabilidade de manutenção do seu cargo é drasticamente reduzida entre 182,4% a 560,6%. Ou seja, segundo a nossa constatação estatística, mesmo que o treinador consiga manter o cargo (milagrosamente) por até 4 jogos no Brasileirão após a sua eliminação da Copa Libertadores, ele ainda enfrenta o risco substancial de uma mudança.

Em resultados preliminares deste estudo, também chegamos a um impacto semelhante após a eliminação da Copa Sul-Americana (a diferença é que o treinador ainda receberia um prazo de 5 jogos no Brasileirão até que a pressão se instalasse sobre o seu cargo). Porém, após reforçar os cálculos para garantir maior robustez estatística, notamos que o resultado perdeu significância. Mesmo assim, isso poderia servir de indício adicional (ou sinal de alerta) com relação a competições continentais durante a vigência do Brasileirão. Curiosamente, eliminações da Copa do Brasil não afetam as decisões de mudança.

Esta evidência científica destaca como os clubes brasileiros também superestimam suas participações em disputas internacionais, exigindo o sucesso como fator determinante para a manutenção do treinador durante a temporada da liga nacional (vale lembrar, novamente, que o Brasileirão representa um sistema de disputa oposto a torneios eliminatórios sob o contexto de alto rendimento).

Ainda sobre torneios paralelos no calendário anual, caso o treinador seja finalista estadual no mesmo ano sob análise, ele tende a aumentar em 30,0% sua longevidade no cargo ao longo do Brasileirão. Ou seja, uma final estadual na mesma temporada influencia positivamente a média de permanência no comando técnico durante a liga nacional. Contudo, o efeito pode ser testemunhado em uma equipe diferente daquela que ele conduziu à final, já que o treinador pode ser demitido ao perder o título e ser contratado mais tarde por um novo clube que o valorize justamente por ter sido finalista regional no início do ano.

Para finalizar o resumo das principais causas, nossa avaliação econométrica também desmistificou argumentos midiáticos que tendem a manipular a opinião pública a respeito de atributos demográficos dos treinadores atuantes no Brasil. Embora a imprensa esportiva compare treinadores mais jovens e mais velhos, nascidos dentro e fora do país, com ou sem experiência como jogador profissional, nenhum desses três fatores mostrou resultados estatisticamente significativos para favorecer ou reduzir uma probabilidade de mudança de comando técnico no Brasileirão. Ou seja, o fato de um treinador ser brasileiro ou estrangeiro, sua idade (independente do número de anos) e sua experiência como ex-jogador profissional não apresentam comprovação científica para definir as trocas no país ao longo de 16 anos de pontos corridos. Devido ao alto volume e taxa relativa de rotatividade, a evidência científica que constatamos traduz que todo e qualquer treinador que passa pela liga nacional (independente do estereótipo em termos demográficos sobre idade ou nacionalidade) está sujeito aos mesmos efeitos, sem imunidade.

Seguindo adiante, a PARTE 3 irá tratar das respostas da segunda pergunta do estudo, explicando o impacto da alta rotatividade de treinadores e as reais consequências sobre o rendimento esportivo.

Por fim, a PARTE 4 concluirá o conteúdo, revisando as principais implicações práticas em torno dos treinadores, dirigentes e torcedores interessados no avanço do futebol brasileiro.

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Raymond Verheijen, o homem que entendeu o que é o futebol!

A segunda vez que ouvi o nome do holandês Raymond Verheijen – RV –  foi em 2010 quando eu ainda era o preparador físico do Al Ain FC dos Emirados Árabes e o meu preparador físico assistente, o irlandês Mike McDermott, me contou sobre um estágio que havia feito com ele antes da Copa do Mundo da África do Sul, Ele me mostrou uma planilha de autoria do RV com uma progressão de conteúdos em campos reduzidos que poderia ser usada ao longo de toda uma temporada.

Antes disto, eu já havia lido alguma coisa sobre o excepcional trabalho feito pelo RV como consultor de performance – preparador físico –  na seleção da Coréia do Sul, na Copa de 2002, envolvendo a grande polêmica levantada por jornalistas italianos, insinuando que no confronto entre os dois países pelas oitavas de final, os coreanos pudessem estar dopados, tamanha foi a superioridade física demonstrada pelos orientais na prorrogação, levando-os à vitória e a alcançar o maior feito de sua história chegando às semifinais da competição.

Em 2016, encontrei na internet um anúncio de seu livro “How simple can it be?” – “Mais simples do que isto?” em tradução livre – que imediatamente me chamou a atenção. Li a resenha do livro, fiquei curioso e procurei então saber onde encontrá-lo. Assim que me chegou às mãos, devorei o livro! Empolgado, percebi que era tudo o que eu gostaria de ter escrito e, ao chegar às páginas finais, fui ficando até meio pesaroso por já estar acabando! A partir dali me tornei um fã e descobri no site da antiga World Football Academy – WFA, agora renomeada para Football Coach Evolution – FCE, que eles promoviam cursos em vários países ao redor do mundo, mas que nunca haviam realizado um no Brasil…

Sendo assim, me lancei na empreitada de tentar trazer os cursos da então WFA para o Brasil, idealizando contribuir com a elevação do nível de nosso futebol, principalmente após o colossal vexame do Brasil na Copa de 2014.

Realizamos então o nosso primeiro curso o “Football Periodisation” no Rio de Janeiro em Fevereiro de 2017. Sucesso absoluto! Na tarde do terceiro e último dia, pude testemunhar nos semblantes da maioria dos 50 alunos participantes, uma certa emoção e um sentimento de reflexão geradas por aquele evento. RV consegue sistematizar aquilo que tem a intenção de transmitir com pleno embasamento, muita simplicidade e uma didática simplesmente fenomenal!

Meses depois, fui convidado por ele para ir à Europa para fazer os seus cursos de verão: Football Coaching Mentorship, em Amsterdam, Football Periodisation Expert Meeting, na AD Benfica, em Lisboa e Football Periodisation Personal Development, também em Lisboa. Já no primeiro dia do curso em Amsterdam, fui para o meu quarto ao final do dia absolutamente emocionado! Cheguei a chorar e me perguntei: “Mas que diabos está acontecendo? Vim fazer um curso de futebol! Por que estou tão tocado assim?”. A resposta estava na excelência do conteúdo e nas respostas para vários dos meus questionamentos de anos e anos atuando no futebol!

Em seu livro mais famoso – “Football Periodisation”, para muitos uma verdadeira “Bíblia” do futebol, RV começa discorrendo de modo filosófico sobre uma chamada “Teoria do Futebol” – linguagem do futebol, ações e hierarquia do futebol – que serve como um embasamento perfeito para a compreensão e aceitação de seus conceitos e propostas, passando a seguir por temas como  performance, condicionamento, fisiologia, métodos de treinamento e modelo de periodização no futebol, mostrando os “o quês, porquês e como”, conteúdo, sequências, métodos, tamanhos de campo, número de jogadores, tempos de jogo, tempos de pausa, número de séries etc. Ele faz questão de enfatizar que não se trata de uma “receita de bolo”, mas sim de uma estruturação lógica que pode ser útil como norte no planejamento e organização dos treinamentos visando construir um time sempre em estado de alto condicionamento e simultaneamente de baixa fadiga, independente de cada contexto ou fator externo enfrentado por cada treinador.

Já em seu mais novo e denso livro, “Football Coaching Theory”, RV se aprofunda em estudos nas áreas da Psicologia e da evolução humana, aperfeiçoando suas teorias de modo ainda mais filosófico, mas igualmente embasado e prosseguindo em seu combate intransigente às subjetividades, achismos, ou meras experiências pessoais que ainda imperam no ambiente do futebol em todo o mundo. Assim, aborda temas como a linguagem, as referências e sub-referências universais do Futebol, “football thinking”, “football braining”, situações e referenciais no treinamento do futebol, competências no futebol, periodização da seleção natural no futebol, auto regulação de times e jogadores e seis princípios da evolução do treinamento do futebol.

RV é simplesmente genial, e como gênio, acabou por se tornar também controverso. Suas estratégias de “coaching”, algumas vezes não são compreendidas nem muito bem-vindas, por gerarem algum desconforto em situações às vezes constrangedoras para alguns alunos. Isto faz com que alguns o taxem como arrogante. Outro exemplo: No seu curso mais avançado, os seis dias do curso “WFA Football Evolution Pro Course – Tactics”, que cursei em maio de 2018 no Valencia CF da Espanha, as aulas começavam às 8:00 da manhã e terminavam invariavelmente às 3:00 da madrugada, TODOS os dias! Sim! Exatamente assim! Uma insanidade! RV não dorme… Ele medita!!! É sério!!! E a gente que se vire pra acompanhar o ritmo…

Ele é extremamente direto e deixa bem claro que sua intenção nos cursos nunca foi e nem será a de fazer amigos, mas sim a de elevar o nível dos profissionais que atuam no futebol e, consequentemente, elevar o nível do futebol como um todo.

RV se envolve frequentemente em contendas na mídia esportiva europeia com vários dos mais renomados treinadores ao questionar os métodos de trabalho adotados em alguns dos maiores clubes do mundo. Sua atuação como mentor da WFA/FCE, já promoveu mais de 300 cursos ao redor do planeta, tendo-a elevado à condição de mais respeitada instituição autônoma de capacitação de profissionais do futebol mundial! Clubes e seleções nacionais como: Barcelona, Chelsea, Manchester City, Glasgow Rangers, Zenith St. Petersburgo… Holanda, Argentina, Rússia, Coreia do Sul, País de Gales, dentre outros, também atestam o seu nível de excelência e merecida fama como uma das mentes mais brilhantes, ou talvez a mais brilhante do futebol mundial! Gênio é a melhor palavra para descrevê-lo!

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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Pedagogia e futebol: é preciso sentir para fazer sentido

‘Quem sabe só de futebol, ainda não sabe de futebol’ – Manuel Sergio

A vida, esse emaranhado de incertezas, possui duas certezas: a primeira é a morte física e a segunda, enquanto a primeira não vem, é a interdisciplinaridade.

O futebol, então, enquanto uma das representações de vida, é interdisciplinar. Podemos – devemos – debater sua condução, as condições com que são exploradas e o quanto, de fato, o discurso é levado a cabo, mas, assumindo o risco da afirmação generalizadora, suponho que mesmo aqueles ou aquelas que gostem de incutir rótulos aos profissionais esportivos – fulano é ‘ultrapassado’, ciclano é ‘retrógrado’ – terão certa dificuldade em escutar deles uma ode declarada ao obscurantismo.

Primeiro porque, no futebol, a interdisciplinaridade está posta. Demos, porém, um passo atrás: negar a fisiologia, a biomecânica, a nutrição, a psicologia, a análise de desempenho, bem como a influência de disciplinas outras no ensino, treinamento, vivência e aprendizagem do esporte-bretão parece um erro, um abraço fraterno ao insucesso profissional. É bem possível que soe óbvio, mesmo para os e as que projetam o mundo de forma cartesiana, difícil negar a importância das partes – até porque, para esses e essas, dá soma delas é que se constitui o todo.

A nem tão simples ‘mudança de chave’ – eufemismo para rompimento de paradigma – de um olhar para as relações mais linear e técnico, para outro, não-linear e complexo, pode contribuir à percepção de que diferentes áreas do conhecimento e disciplinas, como as citadas no parágrafo acima, por exemplo, interagem entre si e não é de hoje. Eis, aí, a interdisciplinaridade, importantíssima para entendermos as nuances das (infinitas) transformações das relações humanas, do próprio jogo e estruturarmos o passo adiante rumo à transdisciplinaridade, a que estudiosos como o Prof. João Paulo Medina tem se referido há um tempo – conversa que esmiuçaremos em próximas oportunidades. 

Segundo porque, mesmo em tempos de tosca resistência anti-iluminista, assumir-se como profissional esportivo de excelência carregado de tradicionalismos por aqui (sem levar em consideração a cultura sebastianista do torcedor ou torcedora passional, de culto cego ao futebol-raiz) sobretudo no pós-sete a um, já não pega tão bem assim – ao menos no discurso, não bastasse a contradição. O futebol mudou porque o mundo também mudou, e se modifica a todo momento. Quem não busca adaptação às dinâmicas emergentes corre grande risco de sucumbir profissionalmente, mesmo que não admita outros tipos de transformações sociais. Permitam-me o trocadilho: é o fenômeno do conservador ou conservadora nos costumes e liberal no futebol – pretendemos explorar bastante essas e outras contradições por aqui.

Ainda que tenha sublinhado a psicologia algumas linhas acima, a resistência às ciências humanas, para que seja concebida sob a interdisciplinaridade, perdura no futebol e, porque não dizer, na Educação Física, tida como prática demais para ser influenciada por teorias tidas como rebuscadas demais. As vivências do chão de quadra e à beira do campo compensariam as densas perfumarias filosóficas, afinal. Mostra de que os caminhos para o corte epistemológico, falado há décadas pelo Prof. Manuel Sérgio, que trata da transposição do futebol como atividade física para atividade humana, não está tão pavimentado assim.

E para melhor entendimento de uma atividade humana, dá-lhe ciências humanas, certo? Mas para que essa relação faça sentido é preciso oferecer, ora bolas, sentido. E é aí, que peço para que a Pedagogia tire o colete, faça rapidinho o aquecimento para entrar e mudar o jogo. Qualquer jogo. Não falo só do rachão no ambiente escolar ou o bobinho nas escolinhas especializadas, mas nos contextos competitivos e de altíssimo rendimento. Onde há gente, existe pedagogia.

Partimos, assim, do pressuposto de que a Pedagogia é uma ciência educativa, que se reflete por método(s) e didática(s) para que, a partir de uma ou várias intencionalidades, as pessoas sejam tocadas e pensem, sintam e ajam melhor. E, aplicada ao futebol, também joguem, treinem melhor e, não menos importante, aproximem formas de pensar o mundo e o jogo distintas. A pluralidade de ideias toleráveis é o que dá tempero às relações humanas, afinal.

Quando evocamos o filósofo Edgar Morin para falar da noção de complexidade, as obras do psicólogo Urie Brofenbrenner que aludem à teoria ecológica ou as do físico Thomas Kuhn, que aborda a filosofia da ciência e o paradigma científico emergente, a Pedagogia é imprescindível para que essas brilhantes ideias tenham significado à realidade do profissional do futebol, esteja ele ou ela na Série A do Brasileirão ou no projeto voluntário do bairro periférico. É preciso, evidentemente, empenho e disposição para o novo e o novo nem sempre é cômodo – e nem deveria ser – bem como empatia e compromisso com o real e o social da parte de quem administra o ambiente formativo sem fazer do processo educativo algo superficial ou encastelado demais.

Por esse entendimento, nos parece importante inferir a Pedagogia, sob a égide da cada vez mais relevante subárea da Pedagogia do Esporte, como indispensável ao futebol. Vou além: a Pedagogia é, senão, a própria interdisciplinaridade, na medida em que se compromete com o diálogo entre dissemelhantes, mobiliza saberes de diversas fontes, admite sincretismos e minimiza dualismos entre a teoria e a prática, o ‘boleiro’ e o acadêmico, o reativo e o propositivo, a competição e a participação, a técnica e a tática, sem desconsiderar suas especificidades.

Seria, da parte deste que vos escreve neste espaço pela primeira vez, presunçoso demais dizer que as ciências humanas (com a Pedagogia inclusa) por si só, dá sentido à vida – e ao futebol – mas que ajuda a cada um de nós encontrar o seu, isso ajuda. Agora são três certezas, desconfio

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Aplicação do running anaerobic sprint test no futebol

Uma das maiores evolução do futebol moderno diz respeito ao aumento substancial e progressivo da intensidade do jogo. Corridas de alta velocidade (sprints) são essenciais para a performance do jogador¹. Uma pesquisa realizada no campeonato alemão aponta que os sprints foram as ações que mais se repetiram antes das situações de gol da temporada 2007/08². Destacando a importância em realizar sprints no futebol, surge então o grande desafio de avaliar e monitorar os atletas na sua especificidade.
O Running Anaerobic Sprint Test (RAST) é um protocolo de avaliação física bastante utilizado para mensurar a potência anaeróbia em jogadores de futebol de campo. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Wolverhampton Reino Unido, o RAST consiste na realização de 6 sprints máximos numa trajetória de 35m, sendo cada sprint sucedido por 10s de recuperação passiva. Os parâmetros obtidos através da aplicação do RAST são: potência máxima (W/KG), potência média (W/KG) e índice de fadiga(W/S)³.

 
Para que os resultados do teste sejam de grande acurácia, é necessário que se utilize um sistema de cronometragem de tempo preciso, pois, o tempo total que cada atleta leva para percorrer os 35m determina os valores do resultado final do teste.
Na literatura científica encontramos diferentes ferramentas para quantificar o tempo de realização de cada sprint durante a aplicação do RAST, como cronômetro manual, fotocélula (imagem 1), Global Position System (GPS), sistema de análise de movimento, aplicativos de celular (My Sprint) e câmeras de vídeo.

Outro teste bastante disseminado na literatura para avaliar o condicionamento anaeróbio dos atletas é o Wingate, no entanto, a aplicação do teste supra máximo de Wingate é um tanto quanto questionável e pouco reprodutivo para a especificidade do futebol. Levando em consideração que o futebol é um esporte que tem a corrida como a principal ação motora, e o teste de Wingate é realizado em ambiente laboratorial estando o atleta realizando o sprint em um ciclo ergômetro.
Sabemos que os testes de campo são os que mais reproduzem ações realizadas na especificidade do esporte. Este viés também legitima a avaliação através do RAST. Pois, a sua aplicabilidade pode acontecer em campo de grama, estando os atletas vestindo calção, camisa, meião e chuteira.
Portanto, o RAST é validado e importante para detecção e acompanhamento dos estágios de potência anaeróbia em jogadores de futebol. Sua reprodutibilidade é simples desde que o avaliador tenha um bom manuseio do cronômetro manual (levando em consideração que este é o equipamento mais barato para quantificar o tempo de sprint).
 
*Mestrando em Educação Física – Faculdade de Educação Física e Dança (UFG)
 
 
Referências Bibliográficas
1- LOTURCO, I. et al. Maximum acceleration performance of professional soccer players in linear sprints: Is there a direct connection with change-of-direction ability? PLoS ONE, v. 14, n. 5, 2019.
2- FAUDE, O.; KOCH, T.; MEYER, T. Straight sprinting is the most frequent action in goal situations in professional football. Journal of Sports Sciences, v. 30, n. 7, p. 625– 631, 2012.
3- DE ANDRADE, V. L. et al. Reproducibility of Running Anaerobic Sprint Test for soccer players. Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, v. 56, n. 1–2, p. 34– 38, 2016.
4- BANGSBO, J – Quantification of anaerobic energy production during intense exercise – Medicine Science Sports Exercise, 30 (1) 47-52, 1998-b.
 

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Um novo cenário para os treinadores brasileiros

O sucesso obtido pelo português Jorge Jesus no Flamengo, em um curto espaço de tempo, vem provocando debates acalorados e declarações públicas de relevantes treinadores brasileiros, seja sobre o papel do treinador estrangeiro no Brasil, seja sobre o espaço que o estrangeiro vem ocupando em território brasileiro.
Abel Braga, Argel, Jair Ventura, Levir Culpi, Luxemburgo, Mano Menezes, Renato Portaluppi, Zé Mário, dentre outros nomes, fazem parte do rol de treinadores que, de algum modo, fizeram críticas ao trabalho dos treinadores estrangeiros.
Levir Culpi limitou-se a criticar o argentino Jorge Sampaoli pelas suas tatuagens, mas não abordou questões conceituais de jogo do treinador do Santos.
O presidente da Federação Brasileira de Treinadores de Futebol, Zé Mário, criticou o excesso de elogios dedicados ao treinador estrangeiro, resumindo o atual sucesso pela qualidade de elenco.
Jair Ventura sustentou que os profissionais estrangeiros estão tirando o espaço de treinadores brasileiros mais novos.
Para Renato Portaluppi, se fosse dirigente, jamais contrataria um treinador estrangeiro. Na época da declaração, Sampaoli e Jesus não tinham conquistado títulos, portanto, não poderiam servir como parâmetro de sucesso. Em relação ao estudo contínuo e a qualificação dos nossos treinadores, Renato afirmou: “Quem precisa aprender vai a Europa estudar e quem não precisa vai à praia”.
A postura mais ponderada a respeito dos estrangeiros em terras brasileiras foi de Muricy Ramalho, o qual prefere olhar para a qualidade do treinador e não para o seu local de nascimento.
O português Jorge Jesus, após o bombardeio de críticas, resolveu se defender: “Além de Felipão, teve Autuori, Abel Braga, Dunga, Carlos Alberto, René Simões, Paulo Autuori. E nós treinadores portugueses, quando eles tiveram lá, tentávamos aprender e tirar alguma coisa positiva e nunca foi esta agressividade verbal que os treinadores brasileiros têm sobre mim. Não entendo essas mentes fechadas. Espero que olhem para mim como colega de profissão”.
 
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