Categorias
Sem categoria

Doença patológica

Uma coisa é reverenciar um possível futuro craque do futebol brasileiro, cada vez mais decisivo quando entra em campo e cada vez mais com cara de craque real, e não em potencial.
 
A outra é banalizar a informação.
 
Até agora, todas as estréias de Alexandre Pato foram memoráveis e dignas de nota. A começar em 2006, no Internacional, quando em seu primeiro toque na bola como profissional Pato colocou a redonda no fundo da rede palmeirense numa goleada vexatória do Inter sobre o Palmeiras. Para melhorar, em três jogos como atleta profissional, Pato já tinha no currículo um título mundial de clubes, feito que nenhum outro jogador alcançou na história.
 
Poucos meses depois, e Pato quebrou outro recorde. Foi para o Milan, em transação astronômica, para ficar apenas esperando completar 18 anos e poder, de fato, estrear pelo clube italiano. Antes, em amistoso, jogou e, para variar, marcou. Depois, para valer, entrou em campo e mais uma vez fez um gol na partida de estréia.
 
Na última quarta-feira, Pato seguiu a sina de estréias antológicas. Num lance de sorte e extrema competência, deu o ar da sua graça no sempre insosso amistoso entre Brasil e Suécia. Fez o gol da vitória no seu primeiro chute com a camisa brasileira. O único do jogo: tanto o chute, quanto o gol.
 
Pronto, era o que bastava!
 
Liderada por Galvão Bueno (!?!?), a imprensa começou a fazer um escarcéu de que a estréia de Pato na seleção era tão magnífica quanto os primeiros jogos de outros craques da nossa história, como Pelé, Zico, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Todos eles, no debute brasileiro, colocaram a bola na rede adversária.
 
Só que, para variar, a doença patológica contamina a maior parte da imprensa. O fenômeno Pato parece que turva a mente das pessoas. Ou pelo menos o bom senso delas.
 
Ok, Pato de fato parece cada vez mais fadado ao pleno sucesso ao longo da carreira recém-iniciada. Só que não dá para querer colocá-lo, em exigência e performance, no mesmo nível de excelência de consagrados jogadores do país.
 
Pato fez um gol pela seleção. O primeiro no seu primeiro jogo como profissional pelo time brasileiro. Mas não dá para jogar nas costas de Pato a responsabilidade de ser, para a equipe nacional, um atleta do calibre de Zico, Pelé e Rivaldo. Já exclui Ronaldinho Gaúcho da lista. Porque, até hoje, sua maior contribuição foi a conquista da Copa das Confederações, em 2005. Nada perto do que o cracaço de bola e tão ou mais reverenciado que Pato no início de carreira fez pelo Barcelona em 2006.
 
É preciso dar tempo para a maturação de Pato. Antes disso, é impossível credenciá-lo como um fenômeno da bola. Quem sabe a liderança brasileira na conquista dos Jogos Olímpicos, coisa que nenhum outro craque conseguiu, permita-nos dizer que Pato é divino.
 
Porque, até agora, ele fez apenas um gol em sua estréia pela seleção.
 
Coisa que, além de Pelé, Zico, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, também o fizeram Anderson Polga, Cristóvão, Donizete Pantera, Leandro Machado, Zé do Carmo…
 

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Conceitos táticos, modelos de jogo e Wanderley Luxemburgo…

Diversos autores, pesquisadores, especialistas e treinadores (especialmente os europeus) conceituam três tipos de ataques possíveis em uma partida de futebol:
1)     O ataque posicional (ou posicionado);
2)     O ataque rápido;
3)     O contra-ataque.
O ataque posicional é um tipo de dinâmica ofensiva em que se busca primeiro melhor posicionamento e distribuição geométrica em campo – onde a posse de bola através dos passes horizontais (para o lado) acaba sendo parte importante da estratégia do jogo – para então, efetivamente construir situações que possibilitem chegar a meta adversária.
O ataque rápido se caracteriza pela progressão rápida no campo de jogo, rumo a meta adversária – onde os passes verticais são predominantes – quando a equipe adversária já atingiu organização defensiva (ou numérica ou geométrica).
O contra-ataque é um tipo de dinâmica ofensiva que se caracteriza pela imediata progressão a meta ofensiva a partir da interrupção do ataque adversário, quando ele não conseguiu ainda estabelecer equilíbrio defensivo.
Cada um desses ataques pode se transformar ao longo do seu percurso. Então um contra-ataque ou um ataque rápido podem se transformar em um ataque posicional, e esse, em um ataque rápido por exemplo.
O fato é que cada uma dessas dinâmicas ocorre em freqüência, de acordo com a lógica do jogo, mas podem, a partir dos treinamentos e do modelo de jogo adotado por uma equipe alterar-se sensivelmente.
Três momentos indissociáveis caracterizam o jogo de futebol; o atacar, o defender e as transições (ataque-defesa e defesa-ataque). Tradicionalmente há um grupo de treinadores que revelam a todo tempo suas preocupações com o defender; alguns outros com o atacar, mas poucos com as transições.
José Mourinho e Arsene Wenger (livro José Mourinho Vencedor Nato; revista Soccer Coaching Dez/Jan 2008) apontam respectivamente que as “transições” são os momentos mais importantes e decisivos dos jogos de futebol, e que está nelas o poder do jogo.
Como é no poder para dominar o adversário e no ganhar o jogo (dentro das regras do jogo) que se estabelecem os objetivos de treinadores e equipes, façamos uma reflexão sobre as tais transições.
Conceitualmente temos dois tipos de transição no jogo de futebol (um grupo de pesquisadores defende a existência de quatro – mas isso é discussão para outro momento): a transição ofensiva e a transição defensiva.

A transição ofensiva é o momento (ou conjunto de momentos), a ponte inseparável e não fragmentável entre equilíbrio defensivo e equilíbrio ofensivo (entre o estar a defender e o estar a atacar). A transição defensiva é o momento que caracteriza a mudança do estar a atacar para o defender.

Em geral os gols no futebol ocorrem em grande parte a partir de jogadas estratégicas de bola parada ou de transições ofensivas eficientes.
Existem equipes, especialmente na Inglaterra que jogam com objetivo claro de fazer mais rápidas e funcionais suas transições ofensivas quando confrontadas as transições defensivas adversárias. Quando duas equipes com esse tipo de característica em seus modelos de jogo se enfrentam, a partida torna-se um competitivo confronto entre transições defensivas e ofensivas; e levam vantagem aquelas que as fazem mais rapidamente, em maior velocidade (e menor tempo).
Não se deve confundir tipos de ataque (rápido, posicional ou contra-ataque) com transição ofensiva, pois ela é a estratégia anterior a esses eventos (a tal ponto que alguns especialistas e pesquisadores também defendem que a transições ofensivas e defensivas se confundem, e se convergem em uma coisa só – assunto também para outro momento).
O fato porém que deve ser apreciado e receber grande importância, é o de que independente de quais conceitos se defenda, uma equipe de futebol precisa ter um modelo de jogo bem definido, e isso significa, de alguma forma considerar, respeitar, entender e agir conhecendo a lógica do jogo, os princípios de ação e os princípios do jogo.
Quando uma equipe tem em seu modelo de jogo características que lhe trazem vantagem ao confrontá-las com as do adversário, basta a ela executar com precisão aquilo que já lhe é peculiar. Quando o modelo encontra no adversário uma oposição espelhada, que se encaixe de forma equilibrada e não vantajosa para ambos, ou cria-se um “contra-sistema” para surpreender o oponente, minimizando suas potencialidades e amplificando seus defeitos, ou se aposta que a eficiência do próprio modelo será capaz em algum momento de levar vantagem.
No Brasil, não é coincidência que o treinador Wanderley Luxemburgo tenha obtido (e continue obtendo) êxito, na organização de equipes competitivas e vencedoras. Ainda que pese todo aparato extra campo, que o auxilia na composição de suas equipes, aponto aqui que dentro de campo o treinador tem um modelo de jogo bem definido, com estratégias que deixam suas equipes muito bem preparadas para diferentes circunstâncias do jogo.
Independente de estar mais ou menos direcionado a essa ou aquela variável da lógica do jogo, o treinador brasileiro tem bem estruturado a geometria e as dinâmicas que solidificam seu modelo de jogo.

É muito prazeroso apreciar a forte transição defensiva do Palmeiras (equipe que o treinador dirige no início de 2008). Perda da bola ou ações inimigas pelas laterais; intensa e forte marcação para interromper a progressão adversária. Oponente tentando a
vançar pelo meio; estrutura que fecha os espaços e induz o adversário a começar o jogo (recuar a bola). Goleiro adversário pronto para iniciar um contra-ataque; atacante que se posiciona para retardar a reposição de bola. O balanço defensivo no escanteio de ataque é uma questão de matemática? Lá vai o modelo de jogo do treinador mostrar que é também uma questão geométrica e não só de números.

Em um jogo do Campeonato Paulista de 2008 tivemos um exemplo interessante e simples sobre a idéia de uma estratégia dentro de um modelo de jogo bem definido que fora colocada à prova. A equipe do Palmeiras trouxe como opção de jogo a formação de um grande losango para seu balanço defensivo nos seus escanteios de ataque. O aparente problema surgiu quando a equipe adversária (o Paulista de Jundiaí) na mesma situação posicionou três jogadores nas linhas de ataque (para conduzir um possível contra-ataque) e um jogador na 2ª bola (na meia-lua).
Se por um lado, para a equipe do Paulista, o modelo sugeria uma possível vantagem em uma situação de contra-ataque, por outro para a equipe do Palmeiras sugeria uma possível vantagem na disputa pela bola dentro da grande área. As duas equipes acreditaram no seu modelo inicial de jogo até o 3º escanteio a favor do Palmeiras. Com uma estratégia melhor definida para seu modelo de jogo o Palmeiras manteve sua proposta inicial; o Paulista recuou um jogador para dentro da grande área.
Poderia talvez o treinador palmeirense recuar mais um jogador para fazer a “sobra” defensiva. E quase como em um jogo de xadrez ele teve a sua “sobra” sem necessitar alterar em nada sua proposta inicial (já que o seu adversário acabara por abrir mão da sua estrutura matriz).
Muitos “especialistas” acreditam que modelo de jogo, ataque, defesa, transições e outros tantos conceitos e variáveis presentes em um jogo de futebol são “perfumaria”, “enfeites”; são bonitos mas não marcam gol, nem ganham jogo. Outros, se afundam em sua ignorância e nem fazem idéia do sem número de conteúdos que podem estruturar um jogo.
Tanto um quanto o outro acabam por colaborar pouco para o desenvolvimento crítico de torcedores, dirigentes e novos “especialistas”.
Porém, é claro, muitas vezes é mais fácil elucubrar no mundo das coincidências e dos achismos do que conhecer a fundo aquilo se fala.
Então, como cantaria Zeca Baleiro, “quando o homem inventou a roda logo Deus inventou o freio, um dia, um feio inventou a moda, e toda roda amou o feio“…

Para interagir com o colunista: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

CAS – Decisão delicada

Caros amigos da Universidade do Futebol,
 
Recentemente a Corte Arbitral do Esporte – CAS, sediada em Lausanne, Suíça, proferiu decisão importante no mundo do futebol e que pode representar um importante precedente para discussões sobre a estabilidade no contrato de trabalho de jogadores profissionais de futebol.
 
Trata-se do Caso Webster vs. Midlothian. O jogador Andy Webster, que atuava no clube escocês Heart of Midlothian, decidiu rescindir antecipadamente o seu contrato de trabalho, infringindo as disposições dos Regulamentos da FIFA que trata sobre a estabilidade contratual mantida entre atleta e clube.
 
O caso foi parar no DRC (órgão interno da FIFA para dirimir conflitos dessa natureza). O DRC impôs penalidade ao atleta, como forma de inibir tal prática, com base, no valor de 625 mil libras esterlinas.
 
O jogador recorreu ao CAS (uma vez que os estatutos da FIFA expressamente elegem aquela Corte para dirimir pendências desportivas que extrapolem as vias administrativas).
 
O CAS veio a reverter a decisão do DRC e determinou a redução da pena para 150 mil libras. Essa pena corresponde exatamente aos valores pendentes de acordo com os termos do contrato de trabalho à época em vigor.
 
Apesar de aparentar uma certa lógica, a decisão do CAS pode representar um grande precedente para que jogadores (e também os clubes) rescindam seus contratos antecipadamente sem que seja respeitada a “estabilidade contratual”, que tanto preocupa a FIFA.
 
De fato, a estabilidade contratual é uma discussão de longa data, e que foi implementada justamente (e principalmente) para proteger o jogador contra clubes que simplesmente abandonavam atletas no curso de seus contratos caso o sucesso esperado não fosse alcançado.
 
A decisão alcançada por Andy Webster pode ser bastante positiva para ele em um primeiro momento (afinal, correspondeu a uma economia de quase 500 mil libras). Porém, ela poderá representar um “tiro no pé” de toda a classe de jogadores, que possivelmente perderão a tranqüilidade que hoje possuem durante a vigência de seus contratos.
 
Isso me faz lembrar a famosa jurisprudência de casos no Brasil relativos à Justiça do Trabalho. Determinados atletas conseguiram na Justiça a liberação de seus clubes que não pagavam em dia os direitos relativos ao direito de imagem (por equipararem tal direito ao salário).
 
Ocorre que, por conta dessa aparente vitória dos jogadores, toda a classe passou a carregar consigo um enorme passivo previdenciário referente aos valores recebidos pela cessão do uso de suas imagens aos clubes.
 
Em suma, entendemos que os atletas devem buscar seus direitos, como fez Andy Webster e tantos outros. Porém, isso deve ser feito com cautela e visão, para que “o feitiço não volte contra o feiticeiro”.
 

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Dilema

Reparou que o Brasil anda jogando muito, muito, muito na Inglaterra? Claro que reparou. Todo mundo reparou. Afinal, a seleção joga muito, muito, muito na Inglaterra. Depois da Copa do Mundo de 2006, foram cinco jogos no país da rainha e mais um jogo na vizinha Irlanda. O que é bastante coisa.
 
Muita gente acaba reclamando, o que é perfeitamente compreensível. Afinal, se a seleção é brasileira, por que diabos ela não joga no Brasil?
 
Isso tem, pelo menos, umas três razões de ser:
 
Razão número um: a seleção brasileira é provavelmente o time com maior valor de mercado do planeta e todo lugar quer hospedar um jogo que envolva o selecionado nacional.
 
Razão número dois: a Inglaterra é o país que mais gasta com futebol, principalmente com ingressos. Portanto, qualquer jogo que envolva grandes marcas de futebol tende a trazer bastante público e apresentar bons resultados para a empresa que eventualmente organiza e promove determinada partida. Como era uma data Fifa e não tinha outros jogos para assistir, por que não ir a um jogo da seleção brasileira? O que mais você tem pra fazer numa quarta-feira a noite em Londres no frio? Tem cerveja no estádio? Pronto.
 
Razão número três: todo mundo tem falado da Espanha ultimamente, mas o fervo dos brasileiros é Londres mesmo. Tem brasileiro saindo pelo ladrão. Chega a impressionar. E brasileiro com dinheiro, diga-se. Quer dizer, ganhando em libra, pelo menos, o que já é um bom começo. Se bem que quem ganha em libra também gasta em libra, mas aí já é outra história.
 
No final das contas, fazer um jogo do Brasil na Inglaterra faz perfeito sentido econômico. Além disso, fica perto da Suécia e dos países em que a maioria dos jogadores da seleção reside. Tudo bem que fica longe dos torcedores nativos, mas também ninguém manda ter a seleção mais vitoriosa da história.
 
O que um cidadão brasileiro prefere: ver a seleção no estádio ou ver a seleção no estádio perto da sua casa?
 
Acho que todos sabemos muito, muito, muito bem a resposta.
 

Para interagir com o autor: oliver@cidadedofutebol.com.br

Categorias
Conteúdo Udof>Grupos de Estudos>Gief|Sem categoria

Sobre os Campeonatos Estaduais e os pontos corridos

A rivalidade entre os times de futebol no Brasil foi construída ao longo de muitos anos, nos confrontos entre os clubes de uma mesma cidade e, posteriormente, entre times do próprio estado. O Campeonato Brasileiro, com o objetivo de integrar o país, surgiu em 1971, portanto, um ano após a conquista do tricampeonato da Copa do Mundo de 1970 pela seleção.

Atualmente, os Estaduais perderam um pouco de espaço no cenário futebolístico, mas foi graças a eles que as maiores rivalidades do país foram criadas. Os maiores clássicos são estabelecidos em âmbito local, como por exemplo, em São Paulo, com Palmeiras x Corinthians, San-São entre Santos e São Paulo; ou o famoso Flamengo e Fluminense, conhecido como Fla-Flu; temos também Bahia e Vitória com o Ba-Vi; sem falar no Gre-Nal, entre Grêmio e Internacional. Esses são apenas alguns exemplos para ilustrar como a dinâmica do futebol foi construída a partir de relações que aconteciam dentro de um espaço menor, a cidade. Claro que tempos depois, com um campeonato inter-regional (por exemplo, o extinto Torneio Rio-São Paulo) ou nacional (Campeonato Brasileiro), novas rivalidades são criadas (e para alguns, forjadas), mas nada comparado com a rivalidade entre times de uma mesma localidade.

Algumas pessoas consideram que o fim dos Estaduais é necessário para atender à nova dinâmica da globalização. O jornalista Juca Kfouri, sempre crítico em suas colunas, é um dos que defendem a extinção dos Estaduais, ou melhor, como ele mesmo diz:

“Eu não sou pela extinção dos Estaduais. Quero mais que eles durem a temporada inteira. Eu sou contra que os clubes grandes participem dos Estaduais. Prefiro vê-los na disputa dos mais interessantes torneios regionais, como o Rio-São Paulo, por exemplo, muito melhor como aperitivo da temporada e para avaliar as condições técnicas de cada time.” (KFOURI, 2007).

Será que um Campeonato Rio-São Paulo teria um nível técnico melhor do que encontramos nos Estaduais? É verdade que depois de muitos anos os times do Rio de Janeiro parecem estar melhor estruturados do que em outros anos e com jogadores importantes em seus elencos.

Ainda nessa polêmica, o mesmo Kfouri entende que gastar energia com jogos ditos “menores” não acrescenta em nada para os times grandes. Para ele, o risco é maior do que o benefício em disputar tais partidas:

“(….) não é muito diferente a situação dos grandes clubes diante de adversários que nada acrescentam aos seus currículos, a não ser a humilhação. Perde-se dinheiro como o Botafogo perdeu, expõe-se craques que valem fortunas em gramados e estádios sem condições, arrisca-se a invasões fruto de justas indignações mal extravasadas e não se acrescenta nada nem mesmo quando se ganha, posto que a vitória, nesses casos, é mera obrigação.” (KFOURI, 1998).

Já outro jornalista do mesmo veículo de comunicação discorda de seu colega de trabalho. Ele afirma:

“Ao contrário do que o Juca costuma argumentar, os Estaduais parecem-me interessantes para os clubes grandes. Servem como uma espécie de pré-temporada, em que os times podem ganhar entrosamento de jogo ao mesmo tempo em que são testados. Um campeonato compacto e bem organizado, com duração de pouco mais de dois meses, é um excelente início de temporada.” (TORERO, 2007).

Aqueles que defendem o fim dos Estaduais justificam sua posição sempre a partir do modelo europeu, que deveria ser importado para o Brasil sem nos atentarmos para as nossas particularidades. Parece que Nelson Rodrigues estava certo ao falar de nosso complexo de inferioridade diante dos europeus. Será que o modelo europeu dará certo num país com tantas diferenças como o nosso?

Os países da Europa, salvo raríssimas exceções, são pequenos e, portanto, existe uma maior facilidade de locomoção das equipes para jogar as partidas do outro lado do país. Claro que existem rivalidades entre os times de uma mesma cidade, mas não seria possível criar um campeonato Estadual devido ao número reduzido de times se comparado ao que encontramos nas cidades brasileiras.

As próprias condições geográficas do Brasil facilitaram que a construção das rivalidades se solidificasse dentro das cidades. O Brasil possui dimensões continentais e existe grande dificuldade (muitas vezes falta de recursos financeiros) para que os clubes joguem em locais distantes de sua origem. Aliado a isso, as rivalidades foram criadas a partir de jogos locais, na própria cidade. O primeiro Campeonato Paulista aconteceu em 1902, com apenas cinco equipes, e cresceu ao longo dos anos enquanto o primeiro Campeonato Brasileiro teve início somente em 1971. A maior dificuldade desse Campeonato Brasileiro, que se diz nacional, é integrar as mais diversas regiões do país. O número de participantes na primeira divisão de equipes da região Nordeste sempre é reduzido, sem falar que a região Norte dificilmente se faz representada.

Se não existirem os Estaduais, inúmeros clubes deixarão de existir. O próprio calendário atual faz com que diversos times tenham poucos meses de atuação durante o ano. Se esses times não participarem de alguma divisão do Campeonato Brasileiro, ficarão sem atividade pelo resto do ano. Será que a tão falada globalização significa seleção natural, na qual os mais fortes (leia-se mais ricos) sobreviverão?

Atualmente, o Campeonato Brasileiro está estruturado em uma competição de pontos corridos, ou seja, quem fizer mais pontos será o campeão. Espera-se que a melhor equipe seja a campeã para que não aconteçam distorções como ocorreram em outros Campeonatos Brasileiros, como relata Franco Jr (2007, p. 151):

“Fórmulas esdrúxulas, com o objetivo de valorizar as partidas finais e semifinais, provocavam distorções, tornando campeões times que haviam obtido menos pontos que os vices, como foi o caso em 1974, 1977, 1981, 1983 e 1986”.

O Campeonato Paulista adotou os pontos corridos, mas não descartou a semifinal e a final. Jogos conhecidos como “mata-mata” sempre despertam grande interesse pelos torcedores. Um amigo disse que não tem sensação melhor ao acordar quando sabe que o jogo é decisivo para o seu time, pois quem perder está fora. O modelo de pontos corridos opera num formato linear de disputa, isso é, quem acumular mais pontos será o campeão. Isso pode gerar periódicas hegemonias, o que para o futebol pode não ser o mais interessante. Essa forma de campeonato não abre espaço para grandes zebras, como pode acontecer no modelo de eliminatória simples. Do ponto de vista de justiça, é melhor que a equipe mais organizada (dentro e fora de campo) vença, mas isso pode ao longo do campeonato criar um desinteresse dos torcedores já que os ingressos são caros e não faz sentido investir dinheiro onde se sabe o resultado final antes do fim.

Ao mesclar a forma de disputa de pontos corridos (previsível) com a imprevisível e as emocionantes partidas de mata-mata, o Campeonato Paulista tenta resgatar os grandes clássicos, o interesse da torcida e a emoção da disputa. Qual será o melhor modelo? Isso é difícil de responder, alguns dirão que é melhor um em detrimento ao outro. Sou a favor da justiça no futebol, embora esse seja um esporte em que a injustiça muitas vezes vence. Também podemos perguntar se a injustiça não seria um dos grandes charmes do futebol?

Gosto do campeonato por pontos corridos, como acontece no Brasileiro, mas nos últimos anos confesso que o mais emocionante foi observar a disputa para ver quem não cairia para a segunda divisão em vez de discurtirmos quem seria o grande campeão. Se o objetivo maior dos clubes é estar em primeiro e o interesse de todos volta-se para o fim da tabela, é preciso rever alguma coisa. O problema não está na fórmula de disputa, mas na forma como os times se preparam para esse tipo de competição. Por isso, devemos olhar para o processo e não somente para o resultado final.

Independentemente da fórmula de disputa, não devemos e não podemos eliminar os Campeonatos Estaduais, pois foi a partir deles que o futebol brasileiro foi construído, existe uma grande tradição envolvida. Será que acabar com os Estaduais resolveria algum problema do nosso futebol? Acredito que não, ou melhor, certamente criaria outros tipos de problemas, como por exemplo, a extinção de inúmeros clubes. Não é a fórmula de pontos corridos que tira a emoção da disputa. O que provoca o desinteresse é a falta de estrutura dos clubes para enfrentar campeonatos estruturados como nesse sistema. Se for mudar algo no futebol, é preciso olhar primeiro para os nossos cartolas, mas isso terá que ser um outro artigo!

Bibliografia

FRANCO JUNIOR, Hilário. A dança dos deuses: futebol, sociedade e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
KFOURI, Juca. Ah, os Estaduais. Folha de S. Paulo. 14 de março de 1998.
______. Ainda sobre o velho estadual. Folha de S. Paulo. 11 de fevereiro de 2007.
TORERO, José R. O estado das coisas e coisas do Estado. Folha de S. Paulo. 1 de fevereiro de 2007.

Categorias
Sem categoria

A mídia quer manter a história

“A mídia faz as pessoas se importarem, porque repete, repete, repete e repete a história. Fica batendo até a morte. A mídia quer manter a história”.
 
A frase acima é de Gay Talese, um dos maiores jornalistas da história dos Estados Unidos e do mundo. Nesta segunda-feira, Talese fala no jornal “Folha de São Paulo” sobre o escândalo sexual que derrubou o governador de Nova York. Ferrenho defensor do fim dos bordéis e das casas de prostituição, Eliot Spitzer foi desmascarado pela mídia e revelou-se um freqüentador assíduo de uma casa de prostituição comandada por uma brasileira.
 
Talese analisa, entre outras coisas, o comportamento da mídia em relação ao que era feito há 20 anos. Segundo ele, muita coisa mudou na imprensa. A começar pela noção do que é notícia. Quando questionado sobre o que via de notícia no caso de Spitzer, e se ele daria essa notícia, o jornalista saiu-se com essa.
 
“Não vou dizer que não publicaria, porque, se alguém mais publicar, você tem que publicar. Você não pode fingir que não viu, porque todo mundo sabe sobre isso, está na televisão, nos websites. Se você está no negócio de publicar jornais, tem que publicar o que é considerado notícia. É que hoje em dia tudo é notícia, o que não acontecia 30 anos atrás. É bom ou ruim? Eu não sei. O que acontece é que pelo menos força as pessoas a viverem em coerência com o que dizem”.
 
E o que isso tem a ver com o futebol?
 
Nada. E tudo. Assim como na vida dos políticos, o futebol é esmiuçado até o último final de cabelo pela mídia. O jogador foi ao banheiro, ele foi visto em suas férias numa clínica de repouso, ele foi visto fugindo da concentração, ele tossiu na cara do outro jogador com quem está brigado…
 
O futebol é hoje uma espécie de “Big Brother”. Não o personagem do livro “1984”, de George Orwell, mas o programa de TV. Todos querem dizer o que acontece com quem está envolvido no futebol. Ainda mais se esse alguém é conhecido do público em geral. O sucesso atrai, invariavelmente, a atenção e a overdose de cobertura da mídia.
 
Spitzer caiu nos Estados Unidos por pregar uma coisa e fazer outra na prática. No futebol, muitas vezes assistimos a carreiras destruídas exatamente por isso. A vida particular do atleta, teoricamente, não diz respeito a ninguém. Obviamente que lhe é permitido sair à noite, beber de vez em quando, sair com mulheres, homens e afins. O que não pode é o atleta ter seu rendimento em campo influenciado por causa do que é feito extra-campo.
 
É nesse momento que a mídia cairá matando, que fará de tudo para desmascarar aquele que não cumpre com o dever do bom ofício. Até lá, o atleta pode levar uma vida comum. Mas, se não o fizer, cairá no que prega Talese no início deste texto. A mídia bate na história até as pessoas se importarem com aquilo. E quando isso acontece, o caminho é irreversível.
 

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Conteúdo Udof>Artigos

Altitude também tem efeitos no rendimento dos árbitros

A discussão sobre a realização ou não de partidas em cidades com altitude elevada sempre considera os efeitos que essa situação impõe ao desempenho dos jogadores e os riscos que essa característica ambiental causa. Mas a condição de baixa pressão de oxigênio não interfere apenas no rendimento dos atletas. Essa situação afeta de forma determinante a performance de todos os personagens envolvidos na realização de jogos profissionais, e isso inclui a participação dos árbitros.

Assim como os atletas, os árbitros estão sujeitos aos efeitos colaterais causados pela realização de atividades físicas intensas em ambientes com altitude elevada. A grande diferença, contudo, é o tipo de exigência que o futebol cria para as duas categorias. Enquanto os jogadores utilizam mais o metabolismo aeróbio, os mediadores têm uma predominância anaeróbia.

“O jogo do árbitro é contínuo, apesar de não ser tão intenso. Ele corre uma distância que muitas vezes é até maior, mas com uma intensidade menor que a dos atletas. Por isso, há uma diferença nos efeitos da altitude entre as duas categorias”, explica Antonio Fedato Júnior, fisiologista que cuida dos testes dos árbitros da Federação Paulista de Futebol há nove anos.

O desgaste proporcionado pela altitude aos árbitros, assim como acontece com os atletas, é extremamente individualizado. Um teste utilizado para medir isso é chamado de “Butterfly”, aparelho que expõe o avaliado a um estresse máximo para colocá-lo em débito de oxigênio. O débito é calculado por intermédio do ventilômetro, pegando a freqüência cardíaca de recuperação. Assim, é possível medir a reação a simulações de ambiente de altitude.

“Esses dados são cruzados com as informações do teste de esteira para sabermos qual é a dificuldade do árbitro para pagar a falta de oxigênio. Quem estiver pagando de forma mais barata normalmente suporta melhor a falta de oxigênio”, pondera Fedato.

Em exames realizados pela Federação Paulista de Futebol, os árbitros que apitam jogos profissionais mostraram resultados próximos aos dos atletas quanto ao pagamento do débito de oxigênio.

A baixa pressão de oxigênio ainda cria uma dificuldade para a oxigenação do cérebro, que é fundamental para os árbitros tomarem decisões com velocidade durante o esforço físico. Portanto, um trabalho de adaptação também é fundamental para reduzir os efeitos da altitude no desempenho desses profissionais.

* Colaboraram Bruno Camarão e Rubem Dario
Leia mais:
Os caminhos para a preparação de esportistas para a altitude
Altitude também tem efeitos no rendimento dos árbitros
Adaptação à altitude se baseia apenas no tempo
Futebol no abismo
Os efeitos da altitude na performance do atleta
Os efeitos da altitude no rendimento dos futebolistas
Os riscos de exercícios de alto rendimento em locais de altitude elevada
Existe um meio para acabar com erros dos árbitros?

Categorias
Conteúdo Udof>Artigos

Os caminhos para a preparação de esportistas para a altitude

A polêmica surge sempre que um time brasileiro vai encarar um adversário que manda seus jogos em cidades muito acima do nível do mar. E se intensificou desde o ano passado, quando a Fifa começou a discutir a viabilidade de realização de partidas de futebol em praças com essa condição. Mas será que existe um meio de os efeitos que a altitude produz nos atletas serem reduzidos com a ação de treinamento?

O primeiro passo para responder a essa questão é um olhar sobre os problemas causados pela altitude. O desgaste excessivo causado por essa condição começa com dificuldades de respiração, reflexos da pressão barométrica mais baixa e de uma redução no oxigênio fornecido aos músculos. Diante disso, o corpo começa a consumir mais carboidratos e fontes primárias de energia, e isso aumenta a sensação de cansaço.

Em cidades mais altas, a sensação de cansaço pode evoluir para um mal agudo das montanhas, síndrome que retrata os efeitos causados por essa condição ambiental. Num período entre 12 e 48 horas de exposição, as pessoas que estão em locais com essa característica passam a ser acometidas por perda de apetite, náuseas, enjôo e dor de cabeça além da sensação de cansaço.

Essa lista de sintomas ainda pode evoluir para ataxia (dificuldade para caminhar), edema pulmonar ou edema cerebral em situações de desgaste físico em cidades situadas muito acima do nível do mar.

Ao nível do mar, a atmosfera contém 21% de oxigênio. Esse número cai gradativamente de acordo com a altitude da cidade, e a dificuldade para encontrar oxigênio faz o corpo aumentar a produção de homoglobina nos glóbulos vermelhos. Isso cria uma exigência maior para a produção de energia.

A hipoxia (deficiência de oxigênio) estimula a produção de eritopoetina (EPO) na medula óssea, e isso demanda uma adaptação do corpo para que seus processos metabólicos sejam aprimorados. Prova disso é que testes realizados com atletas adaptados ao ambiente de altitude mostra uma diferença de desempenho de até 3% quanto ao consumo de energia em comparação com o rendimento em uma cidade ao nível do mar.

Quanto tempo demora uma adaptação ideal à condição de altitude para atletas?

De acordo com a maioria dos autores, os atletas devem trabalhar ao menos quatro semanas em uma altitude de 2.200 metros (ou um ambiente que simule condições climáticas similares) para que possam ter total adaptação. “A principal idéia relacionada a isso acontece nos esportes olímpicos, mas o futebol não permite esse tempo. É uma saída interessante, mas que acaba se tornando inviável”, avalia o fisiologista Antônio Carlos da Silva.

Os efeitos da prática de atividade física na altitude têm alteração drástica de acordo com o praticante e com a altitude envolvida. Os sinais de fraqueza e cansaço são demonstrados de uma forma muito peculiar e variam de atleta para atleta. A determinação de um período de quatro semanas para a adaptação, portanto, é feita principalmente a partir do nível de produção de EPO. O pico acontece em dois ou três dias de exposição a condição ambiental de altitude e desaparece gradualmente depois entre 25 e 28 dias.

“É claro que a segurança em um trabalho desse tipo aumenta quando conhecemos o atleta e fazemos um trabalho de detecção da sensibilidade à altitude. A partir disso, é possível fazer uma preparação diferenciada e individualizada”, lembra Silva.

O principal entrave para o treinamento voltado à altitude no futebol é a falta de tempo. Enquanto algumas outras modalidades encontram espaço no calendário para fazer uma preparação adequada às condições climáticas, o esporte mais praticado do planeta obriga as equipes a intercalarem jogos em cidades altas e praças que ficam no nível do mar.

Essa situação torna impossível a criação de uma sistematização relacionada à preparação de equipes para jogos na altitude. Alguns times optam por retardar a viagem a fim de evitar que seus atletas atinjam o pico de produção de EPO antes da realização da partida. Outros tentam diferentes caminhos para amenizar os efeitos das cidades elevadas.

Um modelo de treinamento muito utilizado é a criação de um ambiente de baixa pressão de oxigênio para que os atletas sejam submetidos periodicamente a essa condição. Isso pode ser feito por meio de aparelhos de respiração ou com o uso de salas preparadas para esse fim. “Mas isso também tem um grande fator negativo, que é a relação custo-benefício. A não ser que tenhamos mais partidas na altitude, fica difícil adicionar esses instrumentos ao dia-a-dia”, comenta Silva.

Os aparelhos utilizados para simular as condições de altitude são chamados de tendas de hipoxia e foram criados na Finlândia, no início da década de 1990. O protótipo desse aparelho era uma casa bombeada com nitrogênio com o intuito de recriar o ar das montanhas. Houve uma enorme evolução na metodologia dos aparelhos, que passaram a trabalhar com compressores que diminuem a pressão do ar de forma controlada. O custo, porém, oscila entre 5 e 10 mil euros.

O trabalho das tendas de hipoxia ainda deve ser acompanhado por um sensor colocado na ponta dos dedos dos atletas. Esse equipamento mede a produção de EPO e o grau de adaptação de cada esportista ao treinamento.

Pensando na diminuição do custo, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) tem trabalhado no desenvolvimento de um aparelho que reduza o custo da simulação de ambientes com baixa pressão de oxigênio e facilite o trabalho de aclimatação dos atletas. Ainda assim, porém, é necessário que os jogadores tenham tempo para fazer sessões diárias de uso do instrumento (menos tempo no início e mais tempo de acordo com a proximidade da partida).

Outra forma de treinamento para a adaptação à altitude é o GO2, equipamento desenvolvimento pelos russos. O aparelho é um compressor que produz ar compatível com o que é encontrado na altitude. Os atletas usam uma máscara e recebem esse ar por uma hora diária, com cerca de 17 sessões para o resultado começar a aparecer.

O trabalho realizado com esse tipo de equipamento, contudo, ainda não é completamente aceito no ambiente acadêmico. Durante as Olimpíadas de Inverno de 2002, em Salt Lake City, o uso desses treinamentos foi proibido sob a alegação de que representaria uma forma de doping (o aumento de até 3% na produção de EPO).

Um estudo realizado pelo Laboratório de Fisiologia do Exercício e Performance Humana da Universidade Federal de Santa Maria-RS mostrou que o treinamento com uso de hipoxia, além de produzir adaptação às condições de altitude, reduz os efeitos do destreinamento para atletas de alto nível competitivo.

O Comitê Olímpico Internacional ainda estuda o caso, com o auxílio de seis universidades, para buscar uma solução que uma a preparação condizente com o ambiente de altitude e fuja da discussão ética sobre doping. O que pesa, nessa situação, é a ausência de treinamentos que produzam adaptação à altitude sem fazer uso da hipoxia.

Bibliografia

SAFRAN, Marc R.; McKEAG, Douglas B.; CAMP, Steven P. Van. Manual de Medicina Esportiva. Editora Manole, 2002.
MAUGHAN, Ron; GLEESON, Michael; GREENHAFF, Paul L. Bioquímica do Exercício e do Treinamento. Editora Manole, 2000.
HUCH, R. Gravidez e Altitude: Atividade Física em Altitudes Elevadas. In: Artal, Wiswell, R.A.; WiswelL, B.L.O. Exercício na Gravidez. 2. ed., São Paulo: Manole Ltda, p. 247-319, 1999.
POWERS, S.K.; HOWLEY E.T.; Fisiologia do Exercício. 3. ed., Barueri: Manole Ltda, 2000.
GELLER, César A. & PORTELA, Luiz O. O efeito do treinamento hipóxico intermitente sobre o desempenho de corrida no período de destreinamento: um estudo de caso. Universidade Federal de Santa Maria-RS, setembro de 2007.

* Colaboraram Bruno Camarão e Rubem Dario

Leia mais:

Os caminhos para a preparação de esportistas para a altitude
Altitude também tem efeitos no rendimento dos árbitros
Adaptação à altitude se baseia apenas no tempo}
Futebol no abismo
Os efeitos da altitude na performance do atleta
Os efeitos da altitude no rendimento dos futebolistas
Os riscos de exercícios de alto rendimento em locais de altitude elevada
Existe um meio para acabar com erros dos árbitros?

Categorias
Conteúdo Udof>Grupos de Estudos>Estação Futmkt

O marketing esportivo como estratégia de sucesso

Antonio Afif, em seu livro “A Bola Da Vez”, publicado em 2000, apresenta um grande panorama dos elementos envolvidos em todo o processo do mercado do marketing esportivo, com grande foco no futebol brasileiro e do exterior. O autor utiliza muitas referências de cases para exemplificar as aplicabilidades do marketing como ferramenta em prol do desenvolvimento dos esportes.

Esse livro pode ser classificado como um grande almanaque de um mercado ainda visto de forma nebulosa por muitos e, com seu formato bastante didático, deve ser lido por todos os interessados em compreender sob quais aspectos funciona essa área em franca ascensão, o marketing esportivo.

O conteúdo do livro se divide a partir de bases conceituais em teorias de marketing e comunicação, também utilizando grandes referências em cases mundiais dessas áreas, com estas atribuições adaptadas às áreas esportivas. Posteriormente, o foco fixa-se em questões mais táticas e estratégicas e suas aplicabilidades.

Conceituações Básicas de marketing e comunicação

Como parâmetro referencial inicial, o autor caracteriza o conceito de marketing esportivo da seguinte forma:

“Marketing esportivo é a utilização de estratégias dentro de planejamentos que fazem uso do esporte para atingir suas metas”.

Afif prefere não separar as ações que se utilizam do esporte em seu marketing, das atividades de instituições esportivas e atletas. Assim sendo, prefere não utilizar as derivações “marketing no esporte” e “marketing esportivo”. A defesa para esse posicionamento se dá pelo julgamento de que “o marketing, ao adotar o esporte como ferramenta, é uma só ação”.

O autor apresenta referências de marketing puro e suas adaptações para essa “nova indústria”, dando um panorama geral, suas perspectivas, forças, desafios, projeções, entre outros. Aborda também questões históricas do esporte como ferramenta de marketing e suas peculiaridades. Com este panorama, Antonio Afif embasa de forma sucinta uma importante temática, a defesa da aplicação de planos de marketing no futebol. Essas atribuições se estendem entre “Marketing como incremento de vendas”; “Marketing como agente de rejuvenescimento da imagem” e a “Segmentação do público-alvo”.

“…o que os profissionais de marketing precisam fazer, é o reconhecimento de seu público-alvo em lugar de querem ’empurrar´ produtos aos consumidores”.

Esta citação aponta um pensamento estratégico, visão esta que se faz presente na seqüência durante a abordagem das temáticas “Trabalho, fortalecimento e construção de marca”.

Cuidados com imagem

Para um bom trabalho e desenvolvimento de uma marca no futebol, fatores devem ser levados em consideração, como a associação de marcas executadas de formas planejadas, ou seja, um clube deve saber exatamente qual o perfil de seu patrocinador e de que forma isso irá repercutir sobre a sua imagem. Afif vê com uma visão bastante interessante esta questão da imagem do clube como “seu maior patrimônio”, relatando evidências da necessidade da fixação de uma marca e os cuidados com os padrões visuais. Outro foco que o autor aponta, refere-se ao formato comunicativo utilizado pelos clubes e sobre a necessidade de haver total controle e utilização de uma linha adequada ao seu público e ao perfil em questão, com um vigor que gere sintonia e aproxime a relação entre a torcida e o clube.

Atuação do planejamento em marketing dentro de clubes

Esta temática apresenta fatores de extrema importância para quem deseja compreender como de fato, organizações mais avançadas estruturalmente funcionam. Afif dispõe um organograma de um departamento de marketing da seguinte forma:

Diretor de Marketing
Gerente de Marketing
Dp. Comercial
Dp. De promoção e propaganda
Dp. De licenciamentos

Nas maiores instituições, a figura do diretor pode ser instituída. Em estruturas de menor porte, o gerente pode suprir essas funções.

O departamento comercial tem uma atuação mais externa em relação ao clube, recomenda-se que pelo menos 2/3 do tempo dos vendedores seja ocupado com visitas para prospecção.

O departamento de promoção e propaganda tem a função de desenvolver o conteúdo de comunicação do clube. Criando materiais institucionais, promocionais, criar estratégias de lançamento de produtos do próprio clube, catálogos de venda, idealizar campanhas de sócio-torcedor, promoções nos intervalos dos jogos, elaborar materiais de apoio ao setor de vendas, criar chamadas eletrônicas para rádios e também para outros eventos.

Criar alternativas de relacionamento com o público e difundir a identidade visual da marca do clube entre os fornecedores, criando um manual de identidade corporativa. Esse setor pode funcionar em parceria com agências de propaganda.

O setor de licenciamento analisa as empresas que possam vender produtos com a marca do clube. Essa relação aparece de forma muito importante quando relacionada ao tema “cuidados com a imagem do clube”.

“Para que essas ações possam dar resultado, a criação do planejamento é uma medida que antecede qualquer outra etapa, pois agrupará as metas e os objetivos a ser perseguidos. Convém destacar que para todas as ações há um prazo de cumprimentos que deve ser atendido”.

As principais ferramentas estratégicas que um clube possui para valorizar sua marca são: Pesquisa; Propaganda; Marketing de relacionamento; Marketing de incentivo; Licenciamento; Merchandising; Promoção de vendas; Estádio, Comunicação digital e Atendimento.

Elaboração de planejamentos estratégicos e de marketing

Esta base de planejamento esta pautada no estudo de necessidades de uma empresa (clube ou federação) e nas formas de satisfazer essas necessidades a fim de reduzir riscos e aproveitas oportunidades, esses aspectos baseados na visão do clube e seus dirigentes. O “plano” estratégico é o resultado no planejamento e objetiva comunicar essa visão a todo um ambiente interno e ao público externo. As etapas do plano estratégico são: diagnóstico; prognóstico; espaço de tempo. Ampliando-se nos níveis de planejamento até a questão estratégica, tática e operacional.

Já o plano de marketing é um “documento estratégico” que orienta os esforços de marketing de uma empresa. Esse plano deve focalizar um mercado alvo bem definido e considerar os efeitos do ambiente externo e interno. As etapas do plano de marketing são: Definição da atividade e aprovação do plano; levantamento das informações essenciais; formação da equipe profissional; criação do plano; implantação e execução do plano.

Comunicação como papel estratégico

Um clube pode ter um departamento de marketing funcionando de maneira eficiente, porém, se a comunicação for falha, toda esta estrutura pode ser comprometida.

O departamento de comunicação tem, basicamente, as seguintes áreas de atuação:

Assessoria de imprensa: É responsável pelo atendimento aos repórteres que cobrem o dia-dia dos clubes, elaboração de press releases, contato com redações e veículos de comunicação, fornecem as informações básicas à imprensa nos dias de jogos, organiza coletivas. A assessoria tem função importantíssima dentro de um clube, pois tem a capacidade de gerar notícias e alavancar espaços na mídia a custo zero.
Banco de dados: têm como finalidade o registro sistemático de estatísticas do time, sua história, informações que mereçam ser preservadas. Arquivos de fotos, vídeos, revistas, etc. As grandes marcas do time e de atletas devem merecer atenção diária, pois podem gerar pautas excelentes.
Publicações: É o setor encarregado de editar as publicações do clube, como uma revista mensal, boletins informativos semanais, etc. Devem observar todos os detalhes, desde a elabor
ação de pautas até a distribuição e o recolhimento da revista.
Projetos especiais: Os profissionais deste setor são os responsáveis pela estruturação de programas de televisão, alimentação e atualização do site, elaboração de pilotos para captação de patrocínio. Atuam também na área de treinamento e desenvolvimento dos profissionais das diversas áreas do clube, organizando cursos específicos e ainda cursos de media training, que prepara atletas e executivos para falar em público e atender a imprensa.

Patrocínio esportivo

“Apesar do patrocínio esportivo ainda estar ‘tomando corpo´ no Brasil, hoje as empresas começam a vislumbrar o fato de que o esporte pode ser um importante aliado de suas ações de marketing. Muitas organizações importantes continuam resistentes em fazer essa aposta, principalmente quando têm que manter negociações de pouca transparência. Esse fato afastou muitas companhias sérias, que não gostam da estrutura esportiva do Brasil, caracterizada por escândalos, calendários alterados no meio de competições, excesso de torneios e jogos, etc.”.

Com o posicionamento apontado nesta temática, podemos projetar a importância com qual deve ser tratada esta relação de negócios “patrocínio e esporte”, vislumbra-se também um mercado potencial mal explorado. O patrocínio esportivo ainda carece de uma visão mais abrangente, planejada e estruturada. O mercado necessita de profissionais com visões mais integradas de comunicação, que compreendam que uma marca não pode ficar somente amarrada a estampa da marca na camisa do time. O patrocínio esportivo tem condições de ser maximizado pelas empresas, aproveitando todo o espetáculo oferecido.

Ainda dentro desta temática, o autor trás números interessantes apresentados na época (2000) referente ao histórico do patrocínio no mercado esportivo:

O Brasil é o 5º maior mercado esportivo do mundo, movimentando cerca de US$ 2 bilhões/ano. Ao passo que os EUA respondem por US$ 87 bilhões – Somente a NBA gira US$ 5 bilhões/ano.
Segundo o Ranking Lance!, o faturamento dos times brasileiros depende basicamente da televisão, patrocínios e bilheteria. Cerca de 72% da receita advém destas fontes. Os 28% restantes provém de ações de merchandising, licenciamento e exploração do estádio.

Licenciamento

O licenciamento é a autorização que o clube dá a uma empresa para utilizar sua marca e símbolos mediante um contrato. Nos EUA e Europa, o licenciamento é largamente utilizado por pequenas, médias e grandes empresas com excelentes resultados. Valendo-se de marca já conhecida e de grande penetração no mercado consumidor, a organização agrega um diferencial a seu nome e aos produtos que comercializa.

Marketing promocional

O marketing promocional é uma ação que visa o estímulo da demanda, ou seja, destina-se a promoção de vendas. Os métodos mais utilizados são: amostras grátis, prêmios, concursos, descontos, cuponagem. Esse formato de ação tem a característica da reação imediata dos consumidores e tem como objetivos principais:

Atrair novos usuários;
Aumentar o volume de vendas;
Criar lealdade à marca;
Aumentar o tráfego no PDV;
Lançar um novo produto.

Essas reações que a “promoção” pode proporcionar são elementos que se enquadram perfeitamente no perfil de necessidades do futebol brasileiro e que devem ser observadas com muita atenção pelos profissionais atuantes em clubes e entidades esportivas.

Muitas marcas se notabilizaram no mercado através de ações de promoção de venda, o maior exemplo de sucesso desta utilização é a campanha “Pelúcias Parmalat”, que chegou a gerar um aumento superior a 20% dos produtos da empresa. No esporte este formato também trás diversos cases, Afif discorre acerca das ações “torcida ticket fórmula 1 – 1998” e “Campeonato nota 10 – Campeonato Paulista de 1999”.

Ações positivas

Essa área de atuação que também pode ser resignada mais diretamente ao “marketing social” caracteriza-se como ações de contribuição as áreas sociais, ligando-se diretamente ao terceiro setor, definindo-as como atividades espontâneas, não-governamentais, não-lucrativas realizadas em prol da sociedade.

Nem sempre essas iniciativas buscam um retorno institucional para a marca, mas sem dúvidas, a sociedade vê com muitos bons olhos qualquer tipo de amparo que promova o desenvolvimento social. Como características gerais, o marketing social vincula a imagem da empresa: confiabilidade, respeito, credibilidade, etc.

Essa nova mentalidade beneficiou o setor esportivo, apesar de ficar atrás dos projetos destinados a educação, saúde, arte e cultura, e meio ambiente, o número de planos sociais ligados ao esporte vem aumentando consideravelmente no país, vide projetos: “Rexona de iniciação ao vôlei”, “Brasil bom de bola”, “Craques da Escola”, “Projeto Olímpico da Mangueira”, “Fundação Gol de Letra”, “Fifa e as aldeias infantis SOS”.

Novamente, assim como o marketing promocional, as ações sociais são grandes ferramentas que estão à disposição dos clubes, mas não são tratadas com muito vigor, principalmente aqui no Brasil, talvez isso se justifique pelo fato deste formato se caracterizar como projetos a longo prazo. Os valores agregados como “simpatia a instituição”, “criação de laços afetivos” e “credibilidade” podem gerar frutos extremamente positivos. Desde a aquisição de novos “fãs”, até a influência no processo de criação e desenvolvimento da identidade do clube ou até nos fechamentos de novas parcerias; patrocinadores ou investidores.

Arenas Multiuso

O processo de modernização dos estádios de futebol se deu na Inglaterra a partir do momento em que se percebeu que a violência e a insegurança eram elementos constantes nas partidas realizadas por lá. O governo britânico interferiu e decretou a obrigatoriedade da implementação de novas estruturas nos estádios. Após mais 1 bilhão de dólares de investimento, tendo sido um terço desse total financiado pelo governo inglês, essa determinação serviu para estimular a modernização da estrutura toda do futebol inglês. Os dirigentes perceberam que novas fontes de receitas poderiam ser criadas através da exploração das novas arenas esportivas que estavam se estabelecendo.

Essas medidas serviram de base para um desenvolvimento que possibilitou a parceria com a TV inglesa, elemento fundamental no sucesso do futebol inglês. As mudanças são evidentes já quando se analisa a média de público. Com 90% de taxa de ocupação dos estádios, o público inglês tornou-se ainda mais fiel.

Nos EUA, mais de 7 bilhões de dólares foram captados nos últimos 5 anos, através de cinqüenta times, entre equipes de basquete, futebol americano, hóquei e beisebol. Esse montante teve como destino a construção de mais de 30 arenas esportivas. Os estádios americanos envelheceram e os contratos de direitos esportivos nunca foram tão altos.

A realidade brasileira ainda está distante destes mercados. O cenário ainda não apresenta estudos mais aprofundados que trace um perfil do público freqüentador dos estádios, o que gera um conseqüente enfraquecimento do setor, repelindo investidores que migram para outros mercados, pois sentem-se inseguros em aplicar neste setor que se mostra pouco estruturado em sua parte organizacional, além de apresentar uma “mancha” devido a inúmeros escândalos de corrupção.

Influências da televisão

Apesar de muitos segmentos apresentarem rejeição a esta relação existente, é de extrema importância se relevar o papel exercido pela televisão para o desenvolvimento do esporte:

Aumento dos recursos financeiros das equipes.
Exigência de calendários mais organizados.
Promoção do esporte e das competições.

No mundo todo, os d
ireitos televisivos estão hoje no centro de uma lucrativa rede de negócios que movimenta bilhões de dólares anualmente. Com isso, todos os segmentos ganham: jogadores, agentes, organizadores de eventos, anunciantes, patrocinadores e as próprias emissoras de TV.

“O sucesso de um evento não depende mais apenas dos atletas”.

Esportes prediletos (segundo audiência das transmissões):

EUA: Futebol americano, basquete e beisebol.
Reino Unido: Futebol, F-1 e boxe.
França: Futebol, tênis e patinação no gelo.
Alemanha: Futebol, tênis e atletismo.
Espanha: Futebol, ciclismo e ginástica.
Rússia: Futebol, hóquei no gelo e boxe.
México: Futebol, atletisco e basquete.
Coréia do Sul: Basquete, beisebol e futebol.

Retorno de investimentos em marketing esportivo

Em 1994, o instituto de pesquisa Interscience realizou um estudo com o objetivo de verificar a eficácia dos patrocínio esportivos. O resultado desse trabalho foi a evidência de que o patrocínio esportivo contribui para imagem da marca, agregando-lhe atributos de status, seriedade, confiança e respeito.

Para reforçar uma determinada marca é preciso que se dê suporte à campanha criada. Isso pode ser feito utilizando-se as de diversas ferramentas existentes que ajudam a fixar o produto na lembrança dos consumidores, como pubicidade estática nos estádios, patrocínio de camisa com padrão visual ao do patrocinador, sampling nos jogos, relacionar o produto com o nome da equipe, utilização de atletas para a formação da imagem da marca (endorsement), etc.

As empresas que investem no esporte são vistas com simpatia por grande parte do público, tendo êxito maior ainda sobre o público jovem. Como consequência, essas empresas que investem no esporte de maneira competente, dificilmente deixam de atuar no segmento pois acabam criando laços com o público-consumidor. A empresa que investe no futebol deve saber que não está apostando num produto frio, mas em algo que envolve paixão.

Visibilidade da marca

Um investidor sempre busca a melhor relação para a sua marca/empresa. Para respaldar esse momento de negociação, é necessário ter tabulado todas as informações possíveis quanto a exposição de marca. Existem empresas especializadas no levantamento destas informações.

No Brasil, há uma empresa chamada Informídia que, desde 1997, desenvolve metodologias de aferição de merchandising em eventos televisivos. O trabalho desta empresa pode atender não somente empresas que investem em marketing esportivo, mas também pode ser útil no serviço de pós-venda de agências de publicidade. Na televisão, esse serviço contribui para a formação de preços de merchandising. O relatório de visibilidade de marca emitido pela Informídia contém os seguintes tópicos:

Metodologia
Regra de determinação de valor.
Mapeamento do campo de jogos com as propriedades.
Planilha com os dados do anunciantes.
Planilha com aparições, valores e índices.
Ranking de visibilidade (quem apareceu mais).

Outras empresas aparecem com metodologias de levantamento de dados, como a Sueca S-Comm que possui o software Spindex, que funciona interligado ao Ibope instantâneo, que permite avaliar a audiência de cada minuto de exposição. A Pay-TV Survey (PTS) é especializada na mapeação de operações de TV por assinatura no país, sua parceria com o Ibope permite informações mais detalhadas sobre operações, emissoras e programadoras de tv por assinatura.

Essas ferramentas são importantes armas para o plano tático, pois com elementos mais consistentes e precisos, os patrocinadores obtém mais segurança para seus investimentos. Entretanto, os resultados medidos por pesquisas qualitativos ainda são excassos.

“Os clubes, numa ponta, necessitam de títulos para justificar perantes as torcidas essas parcerias. Afinal, o torcedor não ganha nada do que está sendo investido no clube, mas não se importa desde que os dirigentes formem grandes esquadrões que lhe dêem muitas alegrias. Na outra ponta está o investidor. Se o dinheiro aplicado não trouxer retorno aos acionistas ou aplicadores, seus administradores terão de arranjar uma boa desculpa para o fracasso. Portanto, as partes devem conhecer muito bem o funcionamento desse negócio chamado futebol. Quanto maior for esse entendimento, menor será a probabilidade de fracasso”.

Categorias
Conteúdo Udof>Grupos de Estudos>Gepeefe

Repensando ambientes para a prática e aprendizagem do futebol

Desde sua origem, o futebol mudou e diversificou muito a sua prática. Da prática inicial nos campos gramados foram agregadas outras formas de jogar, por exemplo, em quadras e em campos de areia. Essas novas formas de jogar hoje são consideradas novas modalidades, com organizações, regras e regulamentos próprios e acabam se afastando da modalidade original.

Essa separação tem a sua importância, mas não podemos descartar as possibilidades de aprendizagem e de desenvolvimento do entendimento do jogo, em função da especificidade da modalidade. Fazer uma relação entre modalidades semelhantes e a prática do futebol em espaços diferentes do jogo formal, para desenvolver características ou capacidades físicas, ou ainda desenvolver movimentos semelhantes, não é tão difícil de perceber, aceitar e até utilizar.

Mas estou querendo refletir sobre a utilização de outras modalidades para estimular também o entendimento das situações de jogo, estou querendo propor que esses diferentes jogos, e diferentes espaços/ambientes de jogo provocarão novos problemas, e novos desafios aos alunos/atletas, que para superá-los deverão pensar, propor e colocar em prática novas táticas (tanto individuais como coletivas), diferentes das que ele está acostumado a utilizar.

Nas regras específicas dessas modalidades o campo de jogo tem suas determinações quanto às dimensões do campo, dos gols e das outras marcações que organizam o espaço de jogo. Implicitamente fica também determinado o tipo de piso ou superfície em que o jogo será praticado, se na grama, na areia ou na quadra (neste, pisos diferentes, mas sempre nivelados). A importância da área de jogo fica explicita já que tanto no futebol de campo, como no futsal no futebol de praia e no futevolei esta é a primeira regra a ser apresentada. Mas essa não é a única importância do espaço no jogo, pelo contrário, a importância dessa regra está justamente nas situações que o ambiente lhe proporcionará.

Refletir e repensar os espaços e ambientes do futebol são importantes para a nossa prática como professores. As nossas escolhas como professores influenciarão a aprendizagem dos nossos alunos. As possibilidades de sucesso e de fracasso nas ações do jogo podem estar associadas ao espaço/ambiente de jogo. O Prof. Roberto Rodrigues Paes apresenta o que ele chama de Jogo Possível, como uma forma de adaptação do jogo para o aluno ter sucesso na atividade realizada, motivando-o a continuar jogando e aprendendo.

O Prof. Adriano José de Souza apresenta a possibilidade de adaptação ou alteração das regras para simplificar o jogo, favorecendo a aprendizagem. Mas também é importante o dificultar o jogo, para desafiar o aluno a propor novas possibilidades de solucionar problemas. Algumas das soluções que o aluno já domina são “desconstruídas”, por exemplo, ao se vivenciar a mesma situação em um terreno diferente.

A importância do entendimento da utilização dos espaços de jogo é percebida nos estudos de Garganta, sobre os Jogos Desportivos Coletivos. Ele apresenta os indicadores e fatores de qualidade do jogo. O autor apresenta características que qualificam um jogo de fraco nível, algumas delas se relacionam direta ou indiretamente com a aprendizagem da utilização do espaço de jogo.

Todos juntos à bola;
Querer a bola só para si;
Não procurar espaços para receber o passe;
Não defender;
Estar sempre pedindo a bola ou criticando os companheiros.

Já nos fatores de desenvolvimento do bom jogo todos eles se relacionam de alguma forma com o entendimento a boa utilização dos espaços:

afastar-se do colega que tem a bola,
Passar e não conduzi-la;
Procurar os espaços vazios buscando receber o passe;
Receber a bola e olhar (ler o jogo);
Ação após o passe (se deslocar para criar uma linha de passe);
Procurar o gol (objetivo do jogo).

Outra forma de perceber essa importância é na descrição das características que o autor dá às diferentes fases de aprendizagem do jogo. Garganta apresenta ainda a comunicação na ação, a relação com a bola e a estruturação do espaço como os fatores que vão indicar um desenvolvimento da compreensão do jogo pelos aprendizes. Desde a fase do jogo anárquico, passando pela descentração e pela estruturação até chegar à fase da elaboração o aluno passa pelas etapas de aglutinação (todos em torno da bola), depois para a ocupação dos espaços do jogo dependendo da sua função no jogo, em seguida uma ocupação racional do espaço (tática individual e coletiva) e finalmente a polivalencia funcional e a coordenação das ações táticas coletivas.

Uma forma de definir compreensão como algo mais “profundo” do que entender é pensar na utilização do conteúdo entendido ou aprendido. Uma das dimensões da compreensão está na utilização ou aplicação desse conteúdo, mas de uma forma (ou em uma situação) diferente da que ele foi aprendido (POGRÉ; LOMBARDI; SIDARTA, 2006). Pensando dessa forma a utilização dos diferentes espaços na aprendizagem tem a possibilidade de estimular a aprendizagem de uma situação, num espaço em que ele possa vivenciar as dificuldades e propor as soluções dos problemas construindo um conhecimento.

A mesma atividade, ou desafio em um espaço ou terreno diferentes, podem ser tanto novas vivencias para nova aprendizagem como também uma forma de avaliar a dimensão da compreensão do aluno sobre o conteúdo proposto.

Griffiin, Mitchel e Oslin apontam a abordagem tática para a aprendizagem do futebol, e para propor esses desafios táticos são indicados algumas possibilidades de adaptação do espaço do campo e do tamanho do gol (alvo). Em todas as fases de aprendizagem os autores propõem problemas táticos relacionados com a busca do gol, defender o gol e a recolocação da bola em jogo. Em todas essas situações as diferentes formas de se compreender e utilizar os espaços são utilizadas.

Na busca pelo gol, os desafios são de manter a posse de bola, atacar o gol, criar espaços no ataque e usar os espaços no ataque. Já para defender o gol os desafios são, defender o espaço, defender o gol e ganhar a bola. Na reposição da bola em jogo, os problemas táticos estão em situações de ataque e de defesa nas cobranças de lateral, escanteio e faltas. Diferentes desafios táticos são propostos, mas a compreensão dos espaços é sempre um dos focos de reflexão dos alunos para solucionar os problemas.

Diferentes tamanhos no espaço do jogo podem proporcionar um jogo com defesa por zona ou defesa individual. Mudanças no terreno onde o jogo é realizado podem estimular o atleta a dominar a bola de formas muito diferentes, imagine as diferentes formas de se controlar a bola em um campo gramado, agora imagine essa grama seca e cortada bem baixa, a bola responderá aos pingos de forma diferente.

Agora imagine esse campo com o gramado alto e encharcado: qual a velocidade de deslocamento da bola, e como essa bola irá pingar nesse campo? As mesmas situações de jogo nesses campos diferentes irão proporcionar respostas diferentes para os mesmos problemas. Quais são as diferentes formas de se conduzir a bola em uma quadra de futsal? E no futebol de praia (beach soccer)? As formas de se tocar na bola para fazer um passe são as mesmas? E para receber (dominar) a bola?

Quantas diferenças e diferentes estratégias não são propostas e aplicadas em campos ou quadras diferentes. Imaginem o quanto se pode aprender ao se jogar em gramados diferentes, em quadras abertas ou ginásios, em quadras de areia ou na própria praia, e nos campos de “terrão”, nas ruas (hoje asfaltadas) nas garagens dos prédios, nos portões. Imagine também o quanto se pode aprender ao se ler um bom livro, uma biografia de um jogador, ou de um técnico. E quanto da cultura do futebol já não foi publicado em livros, revistas e na internet. O Prof. Wellington de Oliveira nos
instiga a ir alem do habitué: “Essa experiência, virtual e instrumentalizadora, mostra-se crítico-reflexiva, pois possibilita tanto aos usuários quanto a equipe da plataforma que saiam da concha e reinventem maneiras de se fazer o futebol…”

Bibliografia

GARGANTA, Júlio. Para uma teoria dos jogos desportivos coletivos. In: GRAÇA, Amandio; OLIVEIRA, José. O Ensino dos Jogos Desportivos. 2a Porto: Universidade do Porto, 1995. p. 244. Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física.
GRIFFIN, Linda L.; MITCHEL, Stephen A..; OSLIN, Judith L.. Teaching Sport Concepts and Skills: a Tactical Games Approach. Champaign: Human Kinetics, 1997.
OLIVEIRA, Wellington de. Os caminhos para uma formação crítico-reflexiva. Disponível em: . Acesso em: 15 mar. 2008.
PAES, R.R. A pedagogia do esporte e os jogos coletivos. In: Rose JR. Dante de (org). Esporte e Atividade Física na Infância e na Adolescência: Uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2002.
POGRÉ, Paula; LOMBARDI, Graciela; SIDARTA, Equipe do Colégio. O Ensino para a compreensão: A importância da reflexão e da ação no processo de ensino-aprendizagem. Vila Velha: Hoper, 2006.
SOUZA, Adriano José de. É Jogando que se Aprende: o caso do voleibol. In: NISTA-PICOLLO, Vilma Leni. Pedagogia dos Esportes. Campinas: Papirus, 1999. Cap. 4, p. 55-78.