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A balela do cansaço dos jogadores poupados

Não quero surfar na onda do bom momento do Flamengo para fazer esse texto. Claro que os resultados não são fruto do acaso. Nem as vitórias e nem as derrotas acontecem por mágica. Mas busco entender e analisar processos, ideias e conceitos que operacionalizam o que se sucede dentro das quatro linhas. E, neste final de semana o técnico português Jorge Jesus colocou a força máxima flamenguista para atuar em Fortaleza e conquistar uma convincente vitória por 3 a 0 diante do Ceará. Sendo que na quarta-feira, o jogo é no outro extremo do país, contra o Inter, pela Libertadores. O Flamengo venceu o primeiro jogo por 2 a 0 e tem uma vantagem gigantesca. Mas será que Jesus não poupou ninguém em Fortaleza porque pode perder por até um gol de diferença em Porto Alegre que se classifica à semifinal da Libertadores ou porque está balizado por um conceito sobre essa questão? Penso que a segunda opção é mais coerente.
Claro que os técnicos estrangeiros chegam no nosso país com um poder de convencimento diferenciado. É só pegarmos o caso do Santos como exemplo: outro treinador resistiria a três eliminações – Paulistão, Sul-Americana e Copa do Brasil – como Jorge Sampaoli resistiu? Creio que não.
Para falarmos sobre poupar jogadores e supostos cansaços temos que voltar no tempo e pontuar que os preparadores físicos foram os primeiros a estudar a fundo o futebol no Brasil. Então, de maneira óbvia, eles trariam o viés físico para as discussões e até para os treinos, por conta da autoridade adquirida pelo conhecimento. Quantas vezes vimos jogadores correndo em volta do campo para supostamente terem mais fôlego para jogar futebol?
O novo olhar para o futebol pede uma concepção mais complexa e sistêmica. A parte física claro que é importante. Entretanto, ela é só um dos elementos do jogo. Temos os aspectos técnicos, táticos, emocionais e podemos ir longe falando também do cognitivo, espiritual e vários outros. Dessa forma, o cansaço nunca é só físico. Porque o jogar não é só físico. Sem falar que quanto melhor uma equipe atua menor é o gasto de energia dela para cumprir a lógica do jogo.
A nossa cultura aceita muito fácil que não dá para jogar várias competições com forma máxima. Quem sabe os estrangeiros nos convençam de outra coisa. Torço por isso.
 

 

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Sobre a educação de treinadores

Bobby Robson: a educação do treinador não se separa do mundo da vida. (Foto: Reprodução/Barlavento)

 
Por mais de uma vez, nós conversamos aqui sobre a educação de treinadores. Quando penso na educação de treinadores, penso em algumas características, em coisas que vêm à minha cabeça (portanto, ao meu corpo) que gostaria de compartilhar com vocês antes de avançarmos: I) a educação de treinadores está baseada em saberes da modalidade, mas também em saberes da vida vivida, transferidos para a modalidade; II) sendo humana, a educação de treinadores não termina em momento algum, ou seja: enquanto somos humanos, somos educados; III) a educação de treinadores não é apenas racional, não acontece apenas na cabeça; ela é humana, de corpo inteiro.
Neste texto, gostaria de trabalhar um pouco essas coisas. Tenho algumas inquietações nos três casos. Vou compartilhá-las aos poucos.

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Como os mais chegados sabem, passei um bom tempo da minha vida dando aulas em um cursinho pré-vestibular popular, voltado para a comunidade de baixa renda. Fiz isso conscientemente, uma das partes da minha educação como treinador. Por quê? Porque, ao meu ver, o futebol está em todos os lugares – quando não conseguimos vê-lo, é responsabilidade mais nossa do que das coisas. Muitas das qualidades que nos são requeridas como treinadores, tais como respeito, carisma, didática, perspicácia, eloquência, enfim… todas elas são igualmente requeridas em sala de aula – ainda que, é claro, cada profissão guarde as suas peculiaridades. Em linhas gerais, tento me lembrar de que o futebol, antes de ser feito por atletas, é feito por pessoas. Pessoas estão em todos os lugares. Só não sei se estamos cientes do que isso tudo realmente significa.
Digo isso porque acho claro que este seja um dos grandes dramas da educação de treinadores. Se quero saber sobre tática, posso fazer um curso da Universidade do Futebol e, provavelmente, vou saber melhor sobre tática. Mas se eu ler um livro ou fizer um curso sobre carisma (mesmo que o melhor curso), isso não irá, necessariamente, me tornar uma pessoa mais carismática. Dentre outros motivos, isso acontece porque, sendo humanos, nós carregamos um passado, uma história (muito além da consciência), cicatrizes que nos fazem companhia onde vamos e que, escapando da consciência, podem ser invisíveis. Os conteúdos sobre tática estão à minha frente, eu posso vê-los. As marcas do meu passado (e do passado dos nossos atletas e colegas de trabalho, não se esqueça), nem sempre. Daí a importância deste saber das relações, da capacidade de construir relações ao longo do tempo.
Neste sentido, tenho cada vez mais claro que a escola principal de treinadores e treinadoras não está nem exatamente nos cursos de formação e nem exatamente nos saberes da própria modalidade (não me entenda mal, ambos são fundamentais). A escola principal de treinadores e treinadoras está na vida vivida, nas entrelinhas da vida vivida, nos pedaços de futebol que estão em todo lugar, mas que não encontraremos se não estivermos abertos.

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Agora, vamos pensar na continuidade da educação. Você e eu sabemos bem que há pessoas que realmente acreditam que já estão ‘formadas’, que já caminharam o suficiente para se ‘formar’ e que, agora, apenas ajudam (às vezes por obrigação) que outras pessoas se ‘formem’, dando continuidade à roda.
Mas repare comigo que há dois problemas aqui: o primeiro, que li e ouvi algumas vezes do Rubem Alves, é que as pessoas ‘formadas’ nada mais são do que pessoas na forma. A pessoa formada, portanto, é aquela que se adequou à forma. Na arte de se adequar à forma, é claro que ela tem seus méritos, mas será que é isso que nós queremos, por exemplo, como treinadores? Se estivermos na forma, você haverá de convir comigo que nossos limites serão claros, explícitos, muito bem definidos. Para a nossa educação como treinadores e treinadoras (e para a educação dos nossos atletas, dos nossos colegas de trabalho), será que pretendemos apenas nos colocar em formas estabelecidas por alguém, como faz o confeiteiro com um bolo, ou será que queremos uma educação além-das-formas (com o o fechado), além das formas (agora com o o aberto), uma educação que nos permita não apenas formar, mas trans-formar, às vezes de-formar, sem nos con-formar? Pense nisso.
O segundo problema está na ideia de que a educação termina. Se nós concordamos ali em cima, quando eu disse que a nossa educação como treinadores não está separada da vida vivida, então não é possível imaginar que nossa educação termina em algum momento. Porque, sendo humanos, temos nossos limites (ainda que existam para serem superados) e porque, sendo humanos em vida, temos a capacidade de educar e educar-nos pela vida, em qualquer situação. Posso achar que domino todas as ideias de mecanismos ofensivos, mas um belo dia estou no meu sofá e vejo uma equipe como o Ajax, abrindo mão da amplitude e criando enormes superioridades no setor da bola, e meus saberes estremecem. Aliás, esta é uma boa palavra. Como treinadores e treinadoras, nossa função é fazer estremecer, causar tremores. Mas, também como treinadores e treinadoras, pode ser que a vida nos estremeça.
Daí a pedagogia que não termina.

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Quando a vida nos causa algum tremor, este tremor não acontece apenas na cabeça, acontece no corpo inteiro. Digo isso porque, como treinadores e treinadoras, estamos nos habituando ao discurso da ruptura paradigmática, da superação do pensamento cartesiano, que não mais separa as partes, mas será que este saber está realmente incorporado, vinculado ao nosso corpo?
Não sei. Aqui e ali, ainda vejo que percebemos a educação como um grande supermercado, infinitos conteúdos dispostos nas gôndolas, e vamos pegando os conteúdos que queremos, quanto mais melhor, vamos nos entupindo de conteúdos, às vezes sem uma digestão adequada, sem uma dieta equilibrada, vamos apenas comprando e comendo e comprando. Mas será que essa educação, que vai ao supermercado todos os dias, é uma educação capaz de nos colocar além das formas? Rapaz, eu não estou convencido. Acho que estamos em vias de formar cada vez mais e, além disso, de formar sujeitos indigestos, com congestão, constipados, muitas vezes cansados. Não por acaso, uma indigestão e um cansaço que ocorrem principalmente na cabeça. Às vezes, uma indigestão de quem, na verdade, não comeu tanto assim.
Ao invés de nos educarmos como treinadores especialmente pelos conteúdos, fico pensando se não deveríamos nos educar pelos afetos, pelos sentidos, pela intuição (sim, pela intuição), se não deveríamos repensar essa educação que passa saberes no caixa rápido ao invés de relacionar-se com o mundo, de olhar para dentro, de não exatamente formar-se como treinador, mas de educar-se como treinador, de reconhecer nossos limites, de tentar superá-los, de aceitar quando isso não é possível, de aceitar a grandeza do jogo, de nos fazermos humanos pelo jogo.
Vamos pensando nisso aos pouquinhos.
 

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O Estilo de Jogo e o Marketing do Futebol

Em evento realizado há alguns dias, discutia-se sobre a análise do jogo: sua ciência, seus conceitos e protocolos. Uma parte importante dentro da indústria do futebol e, por mais que em um primeiro momento não possa parecer, colabora muito com o marketing da modalidade, quer seja o de um atleta ou de uma instituição. A característica no estilo de um futebolista e de todo um plantel são capazes de refletir a cultura e filosofia de uma instituição, sobre como ela observa o jogo e colabora para ele, de acordo com o que acredita e o seu papel dentro do universo do futebol.
Tudo parte do princípio sobre como a instituição enxerga o esporte e se posiciona no ambiente em que atua. Isso se origina dentro das quatro linhas – a maneira como a equipe joga, ofensiva ou defensiva, posse e toque de bola – e toma forma para além do campo, com todo o quadro de colaboradores, inseridos em uma cultura e filosofia de trabalho, tendo como base a missão, a visão e os valores da instituição.
A implementação de uma rotina de trabalho e plano de ação, de acordo com uma filosofia organizacional – princípio do marketing e fundamental para o planejamento estratégico – sugere a aquisição de determinados atletas e funcionários. Em determinadas ocasiões atraem investidores e patrocinadores que se identificam com estas características.
Exemplo disso é certa equipe europeia em que todo atleta ao receber um passe volta o corpo para o campo de ataque ou em direção à meta oposta. Mesmo marcado ele não dá as espaldas ao objetivo, gesto que vai em encontro com a filosofia da organização (clube), que é de avançar e crescer. Ora, não se faz isso em dando as costas para o objetivo, que dentro de campo é o gol onde se deve atacar.
Na América do Sul, muitos sabem dos tempos sombrios do argentino River Plate no início desta década e da virada do clube a partir de Marcelo Gallardo como treinador. Segundo ele, voltaram-se a um estilo de jogo que resgatava a filosofia do clube, das categorias de base ao elenco profissional, de respeitar o estilo de jogo que tornou a instituição grande e sua maneira de se jogar o futebol. A partir disso o River começou a desempenhar com os 3 “Gs” que foram uma parte importante da aproximação do clube com o seu jogo: Ganar (Ganhar), Gustar (aproveitar/divertir-se) e Golear (golear).”
Esta filosofia (ou cultura, como preferirem) é capaz de proporcionar bons jogos, potencializar a presença de público e de rendimentos. Gerar experiências inesquecíveis aos torcedores. Não à toa o River Plate, especificamente, além de possuir um dos melhores planteis por estas bandas, é estudo de caso bem sucedido de gestão e marketing do esporte. Alto lá, não falo do seu presidente e como ele se envolve nos bastidores, mas sim de como o clube se transformou ao longo desta década.

Plantel do C. A. River Plate (Argentina) e seu treinador, Marcelo Gallardo (de preto), ao erguerem a Taça Libertadores da América. (Foto: Reprodução/CONMEBOL)

 
Assim sendo, o futebol como é jogado é sim capaz de refletir toda a cultura de trabalho de um clube, e isso ser percebido para além do campo, dentro de toda organização. Primeiro é uma ideia interna, que acaba por envolver toda a instituição. Esta ideia acaba por tomar o mercado, que passa a ver a organização a partir dessa ideia (ou o grupo dela).

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“E para o River, ser River novamente foi, sobretudo, uma vitória de caráter.”

Trecho da revista “Four Four Two”,
sobre a mudança do Club Atlético River Plate ao longo desta década.

 

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A inútil posse de bola do futebol brasileiro

A crise de identidade do futebol brasileiro teima em não passar. Já falei sobre nossa cultura individualista e de ‘futebol-arte’, muito presente ainda no inconsciente coletivo pelas Copas do Mundo vencidas. Lembramos mais dos heróis do que dos vilões, ou carregadores de piano. Lembramos mais de quem fez o gol do que de quem defendeu. Normal. Está enraizado pensar assim.Vai demorar para mudarmos pra uma visão mais coletiva do jogo.
Mas o objetivo desse texto não é simplificar cinco Copas vencidas, dizendo que se não fossem os defensores, os atacantes não brilhariam. Quero enfatizar aqui uma teórica busca por “resgate as origens” de alguns atuais treinadores brasileiros propondo um jogo de posse de bola com a suposta tese de que assim nossa escola futebolística está sendo respeitada e resgatada. Ledo engano.
Analisando equipes da primeira divisão do Campeonato Brasileiro vejo uma pobreza de ideias e recursos ofensivos absurda. Veja bem, contra-ataque e transições ofensivas também são maneiras válidas de atacar. E que tem a sua beleza, sim! Não partilho do conceito de que só uma ação ofensiva com mais de vinte passes é esteticamente digna. Mas até para chegar ao gol adversário com poucos passes é preciso cumprir alguns aspectos básicos da lógica do jogo. E para isso precisa ideia, treino, ou seja, competência e intenção no que se faz.
Me dá agonia ver equipes com mais posse de bola do que o adversário, que trocam mais passes do que o rival só que quando mergulho nos números vejo que a maior parte desses passes é para o lado e/ou para trás e que a parte da posse menos presente é no terço final de ataque.
Oras, tivemos já o melhor futebol do mundo não porque ficávamos mais tempo com a bola. E sim porque sabíamos muito bem o que fazer com ela. Dominar o adversário não significa ter mais porcentagem de posse. Para mim, uma equipe é superior a outra quando tem suas ações com e sem bola muito bem definidas e cumpridas com excelência. A posse é meio e não fim. Não podemos nunca nos esquecer: ganha o jogo quem faz mais gols do que o adversário e não quem tem mais tempo a bola nos pés. O foco então deve ser criar conceitos, princípios e ideias que aproximem sua equipe a ter mais condições de gerar chances reais de gol. E para isso não precisa ter a bola por quatro minutos seguidos, por exemplo.
Evoluímos já do conceito de que para o momento ofensivo é só dar a bola no pé do craque que ele resolve. Porém, vejo ainda muitas lacunas não só dos treinadores, mas dos próprios jogadores sobre domínio de espaço e tempo. Resgatar o futebol brasileiro não é ter um suposto jogo bonito, tendo noventa por cento de posse. E sim ter uma intenção tão clara e bem executada, individual e coletivamente, que o adversário se treme todo ao saber que vai nos enfrentar.
 

 

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Sobre o jogador inteligente

Juan Roman Riquelme: um dos vários leitores de entrelinhas. (Foto: Reprodução/goal.com)

 
Um dos mais repetidos debates entre os amigos e amigas do futebol está certamente associado ao conceito de inteligência. Se estou bem lembrado, esta mesma Universidade do Futebol já trouxe (e traz) contribuições importantes neste sentido. Tratar da inteligência no futebol é tratar de um terreno bastante fértil, uma vez que são possíveis (e desejáveis) contribuições das mais diversas áreas do conhecimento.
Neste texto, gostaria de trazer uma contribuição específica, que me ocorreu outro dia, em uma leitura que citarei abaixo. A partir dela, espero construirmos um olhar que nos permita não apenas re-pensar o que entendemos como inteligência no futebol, como também nos permita re-pensar as formas de praticar isto que entendemos por inteligência no futebol.

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Leio em Severino Antonio, um autor da Educação, no livro ‘Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento’, uma passagem bem breve sobre a inteligência, que gostaria de citar. Depois disso, vamos trabalhar um pouco essa passagem. Diz ele, falando da importância de repensarmos as nossas ideias sobre a razão, que é preciso:
“(…) Uma razão que não recuse o diálogo com os símbolos complexos, mas que – ao contrário – redescubra a definição etimológica de inteligência: intus legere, ler dentre, ler dentro, ler nas entrelinhas. Uma razão criativa, capaz de reconhecer os mistérios do mundo, e de dialogar com eles.” (p.23)
Da minha parte, na maioria das vezes em que quero pensar sobre uma palavra, eu não vou exatamente aos dicionários gerais, mas sim aos dicionários etimológicos – aqueles que tratam da origem das palavras. Repare o caminho que a etimologia nos abre quando pensamos na palavra inteligência: o inteligente, em primeiro lugar, é aquele capaz de ler dentro. Daí, é o que consegue ler dentre as possibilidades de dentro e, mais tarde, ainda consegue ler nas entrelinhas daquilo que está dentro. Guarde bem essa ideia. Vamos partir dela para pensarmos o jogador inteligente.

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Fica mais ou menos claro que o jogador inteligente tem uma leitura diferente dos outros jogadores. Os outros, em média, conseguem ler apenas aquilo que pode ser visto. Meus colegas cientistas diriam que são jogadores positivistas (positivo = qualidade do que pode ser visto). Só que os jogadores positivistas não são, necessariamente, jogadores inteligentes. O jogador inteligente é aquele que não está preocupado apenas com o que pode ser visto, apenas com os sistemas, apenas com a bola, com os adversários, apenas com o alvo, ele não está preocupado com nada disso em particular: ele está interessado (às vezes sem saber) no que está através e além daquilo que se vê, além do que os outros estão vendo. Exatamente por isso, ele é diferente. Sabendo ler o jogo nas entrelinhas (e não apenas nas linhas), o jogador inteligente vê o que não se passa nos olhos dos outros. É o que faz dele inteligente.
Dizendo isso, lembro-me daquela frase do Cruyff, que disse que algo próximo de ‘o futebol é um jogo que se joga com a cabeça e em que se usam os pés’. Ou seja, os pés são como acessórios, acessórios que trabalham em seguida do trabalho da cabeça. Mas, sendo os pés acessórios, então você haverá de convir comigo que jogar bem futebol não se centraliza na técnica. O jogador inteligente não é inteligente porque é técnico (se fosse assim, era preferível ter os pés na cabeça), mas é técnico, dentre outros motivos, justamente porque é inteligente. Um desses motivos é tático: se não estiver nos melhores espaços, com tempo suficiente para ação (capaz de inventar tempo, se preciso), em condições de relacionar-se bem com a bola e os companheiros, suficientemente distante dos adversários, podendo prosseguir ao alvo (gol), mesmo o mais técnico dos jogadores terá dificuldades para se criar. Por isso, não basta ser técnico, é preciso ser tático. É claro que isso também vale para as outras dimensões do jogo (que não se separam, como já sabemos), mas enfatizo o tático-técnico, porque o jogador inteligente é aquele que, exatamente por ler nas entrelinhas, sabe onde estão os espaços do espaço e, logo depois, sabe o que fazer com os espaços que se tem.
Se entendi bem, então o jogador inteligente lê nas entrelinhas – sendo as entrelinhas (também) tático-técnicas. Isto dito, pense uma outra coisa comigo: o jogador inteligente se faz jogando. Parece óbvio, mas não é. Por exemplo, caso eu queira formar um jogador inteligente, será inteligente colocá-lo de frente para outro jogador potencialmente inteligente, e pedir que eles troquem X passes entre si? Pé direito, pé esquerdo, chapa, parte externa… Bom, isso até pode torná-los inteligentes no ato de passar-a-bola-curto-fora-do-jogo, mas não necessariamente fará deles jogadores mais inteligentes. Eles serão mais inteligentes se souberem passar a bola curto (como no exercício), acertadamente, em contextos menos e mais complexos, ao longo do tempo, dentro do jogo. O fazedor de embaixadinhas, por exemplo, é inteligente na arte de fazer embaixadinhas, mas não é necessariamente um jogador inteligente. Para formar jogadores inteligentes, é preciso que os jogadores joguem! Não pode ser proibido jogar, pois o jogador inteligente se faz é pelo jogo. Assim, quanto mais atentarmos para as metodologias baseadas no jogo, mais próximos estaremos, a meu ver, de formar jogadores mais inteligentes.
E de onde vêm os jogadores inteligentes? Alguém dirá que eles vêm de fábrica, escolhidos por uma voz celestial, talento nato. Veja bem, eu não descarto as coisas da nascença e inclusive tratei disso neste texto. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que os talentos se fazem, de fato, na relação com a vida. Nem só no sujeito, nem só no objeto: na relação. Por isso, a Pedagogia do Esporte é tão importante: porque o sujeito inteligente, ainda que saiba ler nas entrelinhas, não nasceu alfabetizado. Ele aprendeu a ler, depois aprendeu a ler além das palavras, além das frases, além da leitura técnica, para então ler nas entrelinhas. Como disse certa vez o George Steiner, há quem seja, ao mesmo tempo, capaz de ler tecnicamente a letra impressa, mas analfabeto no único sentido que importa. O jogador inteligente, da mesma forma, é alfabetizado no sentido mais importante, é resultado de horas e mais horas de jogo, de boa pedagogia, de cuidado humano, de cuidado com os afetos, de mais jogo. O jogador inteligente não nasce pronto, não está pronto, não estará pronto, porque se faz na relação com o mundo, na relação consigo mesmo, é mais vírgula do que ponto final.
Ainda que esses pontos (todos eles!) não sejam tão simples assim…
 

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Empresa-Clube

Na onda do início de temporada do futebol europeu profissional, por ligação pessoal e afetiva este colunista acompanha a principal liga portuguesa. No fim de semana que passou, jogaram a Sociedade Anônima Desportiva (SAD) Belenenses contra o Sport Lisboa e Benfica. E equipe azul era a mandante, não tinha a Cruz de Cristo – tradicional de Belém – ao peito e tampouco jogava no Estádio do Restelo. Era estranho chamá-la de Belenenses. Por uma cisão do clube social com a SAD – a empresa – há quase dois anos, o clube – o tradicional, histórico, centenário neste ano – “Os Belenenses” refez o seu plantel mas teve que recomeçar. Voltou para a última divisão. Quem detém a vaga no primeiro escalão é a Sociedade Anônima. Este é o imbróglio.
Bom, a torcida dos azuis de Belém, aderiu ao clube, sem dúvida alguma. Não aderiu à empresa, a SAD. O Benfica jogou no último sábado como se fosse “local”. Pelo Brasil, o Figueirense aderiu ao conceito de clube-empresa e atualmente passa por alguns problemas. Existem vários que optaram por este caminho (de clube-empresa) e alguns têm sido bem sucedidos. Mais recentemente, o Red Bull Brasil se mudou para Bragança Paulista e juntou-se ao Bragantino. Nos bastidores da política, articula-se a regulamentação da modalidade clube-empresa, a fim de organizar a atuação e envolvimento das partes interessadas, atrair mais capital privado e estrangeiro.
Nada contra o conceito de clube-empresa. Ele é muito bem-vindo! A regulamentação sugere colocar limites a fim de manter a saúde financeira e criar sustentabilidade para uma organização esportiva, a fim de proporcionar boas condições para os seus colaboradores, melhores condições de trabalho para o atleta e, com isso, garantir ao torcedor um calendário adequado, com preços acessíveis em um recinto esportivo que otimiza a relação custo-benefício.
Em uma análise, como diz o Professor Luiz Haas (Doutorando em Gestão do Esporte pela Universidade de Lisboa), é preciso refletir sobre as tentativas de mudar os clubes associativos para empresas. Os debates ficam sempre nos pontos fortes, como se eles fossem resolver todos os problemas. Ao mesmo tempo, existem pontos fracos que precisam ser avaliados, como os exemplos português e catarinense. É preciso levar em consideração o ponto de vista do torcedor: o quanto a figura de um dono ou grupo de investidores e consequentemente a falta de diálogo podem afastar a massa associativa e toda uma orientação simbólica que um clube carrega. Em um outro extremo, a proposta recente do Botafogo de Futebol e Regatas, com os irmãos Moreira Salles, mostrou-se diferente.

Com a venda do Manchester United FC (alcunha de “Red Devils” – Diabos Vermelhos) para o empresário norte-americano Malcolm Glazer, torcedores do clube contrários à venda fundaram um outro, o United of Manchester (alcunha “Red Rebels” – Rebeldes Vermelhos). (Foto: Reprodução/Divulgação)

 
Portanto, o investimento privado incentivado pelo conceito e prática de um clube-empresa, pode levar o futebol do Brasil para um outro patamar, uma vez que será capaz de desencadear maior profissionalismo, comunicação e transparência, afinal os gastos terão que ser justificados, serão estabelecidas metas e resultados serão cobrados não apenas em campo. O jogo ficará mais interessante e isso para o marketing, é muito bom. O que não é muito bom é o conceito de empresa estar acima do de clube – que arrisco-me a denominar de “Empresa-Clube”, como foi o observado na liga de Portugal pela televisão, empresa (SAD) que acabou por afastar elemento principal do esporte: o torcedor, que preferiu – obviamente  – o clube.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Nenhuma emissora de televisão parece se importar com os torcedores, os seguidores de um time. Mas sem o barulho e a cantoria dos torcedores, o futebol não seria nada. Futebol se trata de paixão. Sempre será sobre paixão. Sem paixão, o futebol está morto. Sem os torcedores, o futebol seria apenas 22 homens correndo atrás de uma bola. Uma merda, em outras palavras. São os torcedores que tornam o futebol importante”.

Faixa da “Curva Nord”,
Torcida da Internazionale, de Milão,
em referência a passagem do livro ‘The Football Factory’, de John King

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Impactos Tupiniquins do 7×1

Este artigo visa à análise do desempenho do futebol apresentado pela Seleção Brasileira após a derrota acachapante de 7×1 para os alemães em 2014 na Copa do Mundo realizada no Brasil.

Durante a Copa do Mundo citada, o Brasil avançou com atuações parelhas frente aos seus adversários e deixou os rivais sul-americanos Chile Colômbia pelo caminho. Porém, ao encarar a Alemanha sem o zagueiro Thiago Silva, que estava suspenso, e o craque Neymar Jr, que se contundiu contra a Colômbia, o elenco em campo sofreu uma das piores derrotas da história do futebol nacional. Sob o comando de Luís Felipe Scolari, perdeu ainda a disputa do 3º lugar por 3×0 para a Holanda.

Após essa campanha, a Seleção mudou o comando técnico e viu, na figura do conservador Dunga, a solução para seus passos futuros. Todavia, não durou muito a passagem do técnico pela Seleção, pois a campanha nas eliminatórias sul-americanas estava aquém da zona de classificação para a Copa de 2018 e a diligência fraca na Copa América o fizeram ser demitido do cargo.

Em 2016, Tite assumiu o posto após passagem de destaque pelo clube paulista Corinthians, onde se consagrou campeão da Libertadores e Mundial em cima do inglês Chelsea. Ao assumir a Seleção, pôde dar novo ânimo à equipe e classificou-a para a Copa da Rússia no ano passado.

A Seleção conseguiu fazer exibições seguras, mas sucumbiu nas quartas de final frente à Seleção Belga. Em recentes participações, nota-se um selecionado, quiçá, abalado e com poucas atuações incisivas como havia outrora. Os adversários em amistosos e afins não mais “temem” o Brasil como ocorria em tempos vindouros.

Concluímos que a Seleção Canarinho está tentando recuperar sua identidade vencedora e voltar a ser temida pelos adversários como uma Seleção forte, encorpada e possuidora de um futebol envolvente. O Brasil é natural e historicamente um produtor de “pé de obra” que municia o mundo do futebol. Todavia, a imagem da Seleção está passando por transformações recentes e com Tite no comando tem buscado renovar essa autoconfiança na equipe de maneira que o futebol exercido em campo volte a ser fluídico e natural.

 

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O Bê-a-bá do Marketing

Nesta semana importante instituição do futebol do Brasil completa mais um ano de vida. Quase centenária, a Associação Portuguesa de Desportos está longe dos dias de glória de antigamente. Grande clube repleto de histórias e protagonismo, importantíssimo no futebol do Brasil e desde sempre revelador de inúmeros talentos. Atualmente o cenário é completamente o oposto.

No início dos anos 2000 o Leeds United AFC gastou fortunas e não conseguiu vencer da Liga dos Campeões da UEFA. Anos depois, por muito pouco não deixou de existir. (Reprodução: Divulgação)

 
Por motivos que sugerem temas para outros textos, levaram a uma situação que não é apenas  a da Lusa, mas de inúmeros clubes por todo o país. Grandes instituições. Com este ponto de situação, onde se encaixa o marketing? Há quem acredite que o marketing é capaz de resolver tudo e arrecadar recursos. Não é assim. Clubes de renome por si só são bons produtos, têm numerosas torcidas e podem ser bem posicionados no mercado, para que os recursos de fato sejam otimizados. Para que os torcedores frequentem mais os jogos, para que haja mais consumo de produtos licenciados.
Entretanto, já diz a velha máxima, que “uma andorinha sozinha não faz verão”. O marketing é mesmo um dos departamentos responsáveis pela arrecadação de recursos e condução dos planos de negócio dos produtos da instituição. Muito do seu sucesso vai depender de uma sinergia entre inúmeras outras áreas, desde a presidência, o quadro de colaboradores e todos os setores a que eles pertencem, inseridos dentro de um ambiente organizacional bastante complexo, porque está sujeito a fatores que abalam-no e comprometem o andamento dos trabalhos do clube. Fatores estes sendo aqueles “motivos” mencionados no início do parágrafo anterior, escusos e alheios à instituição esportiva. Alheiros ao interesse coletivo, ou seja, da comunidade e dos associados do clube. Sejam eles desde favorecimentos pessoais até gastos irresponsáveis,  estes muitas vezes para servir algum indivíduo ou pequenos grupos.
Ora, por estes “motivos”, vários clubes encontram-se em triste situação financeira. Teria valido a pena em certo momento da história gastar tanto, grupos de influência favorecerem-se de várias maneiras a fim – ou não – de permanecerem no poder?
O que é mais triste para o torcedor? Ficar sem títulos ou ver o clube do coração perto do fim? E se o fim chegar, para quem torcer?
Com tudo isso, pode parecer lugar comum, mas é preciso que os torcedores, que a instituição se pergunte: o que, quem somos e o que o clube quer? Onde se quer chegar e como se quer chegar. Qual a nossa missão? Qual a nossa visão? Quais são os nossos valores? O bê-a-bá do Marketing.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“A bola pune.”
Muricy Ramalho, comentarista, futebolista e ex-treinador

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O erro de Rogério Ceni e do Cruzeiro

Desejo sempre o maior sucesso possível a todas as pessoas. Ninguém veio a esse mundo sem o propósito de realizar coisas boas. Mas nesse espaço cabe a mim analisar situações, fazer projeções e cruzar circunstâncias. Por isso coloco como um grande erro a ida de Rogério Ceni para o Cruzeiro. Erro dele em sair do Fortaleza nesse momento. E erro da equipe mineira em contratar um técnico com o perfil dele nesta altura do ano.
Não tenho a menor dúvida que Ceni será muito em breve um dos maiores e melhores técnicos do Brasil. Há uma clara intenção no jogo das equipes dele. O seu Fortaleza não teve o sucesso que teve por acaso. Com uma posse de bola envolvente, mas também direta e vertical era fácil acharmos padrões ofensivos bem ajustados na equipe. Sem a bola também uma inteligência coletiva acima da media para interpretar os estímulos do jogo e tirar proveito do momento para usar uma marcação alta e agressiva ou então baixar as linhas e buscar fechar mais os espaços. Tudo isso é treino. Entendimento de jogo. E, claro, tem o dedo do treinador.
Rogério Ceni amadureceu como técnico. Ficou evidente no seu início no São Paulo que havia uma dificuldade nas ideias de jogo e de como implementa-las. Nem o enorme capital simbólico dele no clube foi capaz de fazer as coisas caminharem por mais tempo. E é justamente esse capital simbólico que faz o Cruzeiro, cheio de problemas administrativos e financeiros, pagar a multa e tira-lo do Fortaleza. Mais do que acreditar no que as equipes de Ceni fazem com e sem a bola, a diretoria cruzeirense aposta na representatividade de Rogério no mundo do futebol para tentar criar um fato novo junto aos atletas.
Não vou tirar o fator emocional do contexto. Era óbvio que o desgaste de Mano Manezes era irreversível. Porém, não consigo achar interessante na metade final da temporada uma equipe do tamanho do Cruzeiro romper completamente com um modelo de pensar futebol e mudar da água pro vinho.
Pode até dar certo. Não há fórmula certa no futebol. Só que vamos seguir com nossos clubes remendando trabalhos e técnicos sem a condição de mostrar seu real valor com um trabalho completamente autoral. Culpa dos dirigentes que buscam sempre um para-raio. Mas culpa também dos técnicos pelas decisões que tomam.
 

 

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Sobre as dúvidas dos laterais no momento defensivo

Danny Rose, lateral do Tottenham: indecisões na defesa contra o Aston Villa. (Foto: Reprodução/The42.com)

 
Nos últimos tempos, muito se falou e muito se escreveu sobre a noção de complexidade no futebol – inclusive através desta mesma Universidade do Futebol. Em linhas gerais, quando falamos de complexidade, falamos das relações inseparáveis entre as partes e o todo, em um dado organismo ou sistema. Isto já está suficientemente apresentado e, por ora, não gostaria de me alongar.
Mas faço essa introdução porque quando falamos da defesa, falamos de um destes momentos do jogo (ao lado do ataque, das transições, das bolas paradas), mas falamos deles sabendo que um momento do jogo não existe alheio aos outros – eles são inseparáveis. É um pouco do que gostaria de falar neste texto.
Vamos tomar como exemplo duas jogadas específicas de Tottenham v Aston Villa, que jogaram neste fim de semana pela Premier League, especialmente a partir do comportamento de um dos laterais, Danny Rose, no momento defensivo.

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Em primeiro lugar, vamos olhar para o contexto: neste jogo, o Tottenham estava disposto em um 4-3-2-1 (aliás, me agradam essas formações não usuais, que fogem do 4-3-3 ou do 4-2-3-1). Harry Winks, Tanguy Ndombele e Moussa Sissoko nesta linha de três, Lucas Moura e Erik Lamela mais adiante e Harry Kane como centroavante. O Aston Villa, que talvez esperasse mais defender do que atacar, passou boa parte do jogo em algo próximo de um 4-5-1.
Quando se defendia, o Tottenham mantinha a organização em 4-3-2-1 – já fez isso diversas vezes, não é uma surpresa. Mas neste jogo, em específico, Danny Rose, lateral-esquerdo, demonstrou alguma dificuldade para organizar seu espaço no setor, permitindo ao menos duas claras situações de gol no primeiro tempo. Uma delas foi convertida, em gol marcado por Tom McGill, logo aos 9 minutos do primeiro tempo. É sobre essas duas situações que gostaria de falar.

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O lance do primeiro gol do Aston Villa começa em um tiro de meta, batido curto pelo goleiro Tom Heaton. A bola passa por um dos zagueiros (Mings, um dos melhores em campo) e o lateral-esquerdo Neil Taylor, até chegar ao meia Jack Grealish. Você pode ver o lance aqui, a partir dos 1:29. O Tottenham tenta pressionar a saída de bola do adversário, e sobe a equipe quase inteira no campo de ataque.
Num movimento aparentemente treinado, Mings recebe a bola de volta e já mira o espaço às costas do centroavante brasileiro Wesley, que segurava o quarto zagueiro Davinson Sánchez. Mas quem aproveitou o espaço não foi o ponta oposto, que poderia entrar em diagonal, mas sim McGill, o meia pela direita, que infiltra exatamente no espaço que supostamente estaria coberto por Rose. Repare, na imagem abaixo, a distância de Rose para Sánchez no instante do lançamento.

Fonte: Reprodução Watch ESPN.

 
Neste caso, temos um exemplo de problema que os laterais podem encontrar – não apenas em um 4-3-2-1, mas em qualquer linha de quatro. Há duas questões importantes aqui: a primeira é a baixa pressão no portador da bola, especialmente em uma zona já tão apertada do campo (repare no vídeo como Mings se desmarca às costas de Lucas, sem que o brasileiro perceba). Mings teve o tempo exato para dominar, avançar alguns metros, olhar o espaço, fazer o lançamento. Depois, podemos discutir a posição de Rose, cuja distância razoável para Sánchez poderia ser justificada pela preocupação com o ponta adversário, mas ao mesmo tempo deixou suficientemente aberto um espaço potencialmente mais perigoso naquela situação, bem ao centro – exatamente por onde entrou McGill. Se Rose estivesse alguns metros mais centralizado, talvez a jogada sequer avançasse.
Não custa lembrar que esta tomada de decisão, dentro do campo, está longe de ser simples.

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No segundo lance, que você pode ver no mesmo vídeo a partir dos 3:16, Rose toma outra decisão discutível, que gostaria de trazer com mais atenção. A jogada começa com uma falta pela direita, em que o Tottenham se prepara para uma cobrança longa – mas na verdade a batida é curta. Repare que o mesmo McGill, agora em posse da bola, tem tempo e espaço para pensar o jogo de frente e encontra um exímio passe em profundidade para o ponta Trezeguet, que tenta finalizar, mas é travado por Sanchez. Assim que Trezeguet recebe a bola, vemos um jogador levantando o braço, pedindo impedimento – é Rose.
Na imagem aberta, que deixo mais abaixo, repare que é exatamente Rose quem está mais afastado da linha. E vejo duas coisas a se pensar aqui: uma é contextual. Houve uma falta naquele setor, ele estava mais próximo do setor, e percebeu que o lateral Ahmed Elmohamady poderia receber com alguma liberdade por ali. Mas existe outra coisa, mais próxima do modelo: será que o treinador Mauricio Pochettino, nestas situações, prefere priorizar a redução dos espaços centrais ou laterais? Imagino que sejam os centrais, o que me faz crer que houve dois erros, no mínimo: é bem verdade que Rose poderia ter se atentado ao meio tão logo a bola foi recuada, ma também é verdade que Ndombele e Erik Lamela (de chuteiras amarelas na imagem), poderiam ter sido mais ativos, talvez interceptando o passe, evitando que a bola lhes ultrapassasse rumo à grande área. Em certa medida, repare que é um tecido, uma cadeia de equívocos.

Fonte: Reprodução Watch ESPN.

 
Se voltarmos ao início do texto, encontramos algo que não pode passar batido: o Tottenham jogava em 4-3-2-1, e mantinha a estrutura quando se defendia. Isso quer dizer que, ao contrário de um 4-3-3 – ou qualquer uma das variações defensivas com duas linhas de quatro – os laterais deste sistema não contam, sistematicamente, com o apoio defensivo dos pontas. Ou seja, para defender os lados (especialmente para cuidar do lateral adversário) é preciso contar com o suporte dos volantes dessa linha de três (no caso do Tottenham, Sissoko e Ndombele). Mesmo assim, exatamente como ocorreu nos dois lances, especialmente no segundo, é possível que o lateral fique em dúvida sobre a decisão a ser tomada: cuidar mais do espaço interior ou evitar que o jogador aberto receba com mais tempo? Como bem sabemos, é claro que esses parâmetros são definidos com antecedência, existe um modelo desenhado pelo treinador. Mas mesmo assim, frente aos problemas do jogo, nós hesitamos. Por isso, dentre outros fatores, é tão importante pensar em metodologias de treinamento baseadas no jogo e, além disso, pensar em maneiras de humanizar as relações treinador/atletas.
As dúvidas de Rose, nos lances que citei, como as dúvidas de qualquer outro jogador e de todos nós, se justificam em demasia pela nossa humanidade.