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A importância dos Estaduais

Caros amigos da Universidade do Futebol,

estamos chegando mais uma vez ao fim dos campeonatos estaduais pelo Brasil, e decidi dedicar esta coluna a essas competições tão importantes para o nosso futebol.

Em especial ao Campeonato Paulista, o qual, diante da decisão que nos brinda, mostra que é um campeonato moderno e com grande competitividade entre os clubes grandes e pequenos.

Como todos nós sabemos, todos os anos temos os Estaduais no primeiro semestre e o Brasileirão apenas começando por volta do mês de maio. Isso porque o Brasil é um verdadeiro continente no mundo do futebol, tamanha a importância das federações estaduais (para se ter uma ideia, a Federação Paulista de Futebol tem maior volume de jogos do que muita federação nacional, inclusive na Europa).

Basicamente, os Estaduais cumprem importante papel no cenário nacional por três razões.

Em primeiro lugar, porque permitem a viabilidade financeira dos clubes pequenos, que são justamente aqueles que revelam nossos craques. Sem os Estaduais, não teríamos essa enorme gama de agremiações formadoras em atividade por todo o nosso país.

Além disso, essas competições promovem o acesso de clubes para a Copa do Brasil, permitindo que equipes de menor expressão no cenário nacional possam enfrentar grandes clubes de outros Estados, dando a eles a chance de aparição na mídia nacional, podendo, muitas vezes, aparecer com a tão temida, mas admirada “zebra”.

Sem contar, por fim, a importância cultural dos Estaduais, que já fazem, há muito, parte da cultura do povo brasileiro.

Importante ressaltar o papel das federações estaduais, da TV, e de patrocinadores e investidores, que dedicam seus recursos para manter viva a competição estadual, em todas as suas divisões (só em São Paulo são quatro).

Aliás, vendo jogos da Champions League, em que sempre o mesmo grupo de meia dúzia de clubes vai às finais todos os anos, vejo a importância de termos clubes como o Grêmio Prudente e o Santo André chegando às semifinais e finais.

Isso mostra, em especial, a força que o futebol paulista tem.

Devemos olhar para outro lado e reconhecer que inovações e propostas para promover a melhoria nos campeonatos sempre serão benvindas. Não se pode fechar os olhos para isso. Porém, reduzir a importância dessa grande especificidade do futebol brasileiro, que são os Estaduais, isso nunca.

Assim, proponho aplausos para o nosso futebol local. E que venham novas gerações desse empolgante time do Santos em novas edições, não só para o benefício do clube que os formar, não só para o Estado desse clube, não só para o Brasil; mas sim, para todo o mundo.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Por que o futebol não sai da Globo?

Se você está lendo esse texto, você gosta de futebol.

Se você gosta de futebol, você acha que todo brasileiro gosta de futebol.

E se você acha que todo brasileiro gosta de futebol, você também acha que o futebol é um baita produto de televisão, afinal todo mundo assiste.

Entretanto, é bem possível que, se você faz uso dessa lógica, você esteja bastante errado.

Não no seu gosto pelo futebol, é claro, mas em acreditar que todo mundo também gosta de futebol.

Essa é uma antiga mentira criada pelo Getúlio Vargas que, com seus 1,60 metro de altura, tinha pernas curtas.

Desde que o pequeno presidente subiu nas tamancas do poder, o futebol foi enfiado goela abaixo da população, ainda que esta não tenha reclamado. Mas se fez acreditar que o futebol é muito mais popular no Brasil do que ele realmente é. E é por isso que ele não sai da Globo. Porque se ele sair, a sua já questionável popularidade vai ficar menor que o nosso pequeno revolucionário supracitado.

A grande sacada do futebol europeu foi levar o futebol para a tv paga. Como as pessoas só conseguiriam assistir futebol assinando o canal, elas pagavam pra isso. Ganharam as empresas de televisão, que popularizaram suas plataformas, e ganharam os clubes, que ganharam muito mais dinheiro com os contratos de exclusividade com essas empresas.

No Brasil isso não deu e ainda não dá muito certo. As pessoas, ao que tudo indica, não querem pagar para ver futebol. Veem porque está lá. Em dias de futebol, a audiência da Globo em geral cai. E a dos outros canais aumentam. O futebol na tevê aberta – que é o que realmente agrega audiência – afasta espectadores. Por isso o futebol precisa da Globo, porque o canal carrega consigo uma audiência fiel e natural. Porque se ele for pra outro canal, uma grande parcela do já pequeno público vai deixar de assistir. E se isso acontecer, o já minguado dinheiro de patrocínio vai sumir. E se a Globo resolver promover exclusivamente o vôlei, por exemplo, a onipresença esportiva do futebol pode ser ameaçada. Mas, acima de tudo, porque ninguém mais tem dinheiro para pagar ao futebol o que a Globo paga hoje.

Achar que a Record irá, eventualmente, entrar em uma briga com a emissora carioca pelos direitos do Campeonato Brasileiro me parece meio fantasioso. Primeiro porque, como dito, o futebol não atrai tanta audiência assim na televisão aberta para justificar qualquer leilão. E segundo porque o futebol é produto de televisão paga, e a Record não tem canal de esportes pago. Ou seja, não apenas ela teria que comprar os direitos, mas também teria que investir uma boa grana em montar uma estrutura para criar um canal que talvez nem seja aceito pelas duas maiores plataformas de televisão fechada do país, que têm participação da Globo.

Ou isso, ou ela tentaria revender os direitos para a ESPN, o que parece ser bem complicado, ou para a própria Globo, o que seria uma piada.

Pior. A história mostra que quando direitos de transmissão são superinflacionados por um canal que não possui a estrutura necessária para a difusão correta, ou então quando o próprio produto não colabora, as chances de o canal comprador quebrar são grandes. Procure os casos da ITV Digital e da Setanta. São casos claros do risco envolvido nesse tipo de operação.

Além de tudo isso, você também pode adicionar teorias conspiratórias sobre o poder de investigação jornalística daqui ou de acolá, que certamente colabora, mas não parece ser determinante para que o conservadorismo dos direitos impere.

A hora que a Globo tinha para perder os direitos já passou. Era lá em meados dos anos 90, quando ela de fato chegou a quase perder uma coisa ou outra. Mas agora não parece que vá acontecer novamente. A verdade é que, pelo menos em relação ao Campeonato Brasileiro, aparentemente o futebol precisa mais da Globo do que a Globo precisa do futebol.

A pergunta, portanto, não deve ser por que o futebol não sai da Globo, mas o contrário. Por que, afinal, a Globo não larga o futebol?

Isso é assunto pra uma futura coluna.

E eu não tenho muita certeza se conseguirei responder.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Mini fórum: panorama sobre a tecnologia na arbitragem

Olá, amigos!

Fiquei muito feliz com a participação de vocês nessa proposta maluca de fazermos um “mini fórum” de discussão a respeito do uso da tecnologia no auxílio da arbitragem no futebol.

Muito rico evitarmos, ainda que um pouco, aquele famoso “acho que sim” ou “acho que não, porque não”. Tanto defensores como críticos apontaram sólidos argumentos a respeito da mesma. Uma pena que não sejam esses os argumentos debatidos e considerados no processo de decisão, pois tenho a certeza de que boa parte dos que escreveram e comentaram nesse espaço tem plenas condições de se posicionar frente aos “poderosos” responsáveis por essa discussão no âmbito da Fifa.

Identificamos três grupos de correntes de ideias comuns nessas semanas.

Um que chamamos de “Portões Fechados”, com os colegas que demonstraram suas razões para defender que o futebol não deva abrir as portas para tecnologia, ao menos nos moldes concebidos hoje.

Outro que defende uma posição intermediária: eis os colegas dos “Portões Encostados”, os quais entendem uma série de benefícios, porém com algumas importantes ressalvas e receios.

E o terceiro grupo a que chamamos de “Portões Abertos”, referente àqueles que acreditam que a tecnologia só tem a acrescentar benefícios ao esporte bretão.

A seguir, como entendo ser o papel de um fórum, ainda que mini, exponho um quadro dos tópicos levantados pelos colegas:


Amigos, eis uma síntese muito breve dos e-mails trocados com os diversos colegas que se propuseram a debater nesse espaço. Que compreenderam que temos e devemos discutir com mais seriedade e sem o ranço de que não seremos ouvidos ou de que nada serve falar aqui.

Afinal, mesmo que não sejamos ouvidos por quem achamos que deveríamos ser, ao menos aprofundamos nossas reflexões em alto e bom nível, tornando assim nossa atuação profissional mais completa na medida em que conseguimos nos expor e ser expostos a opiniões diferentes, mas bem argumentadas.

Até a próxima!

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br  

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Entretenimento ou jornalismo?

A pergunta é, a cada dia, mais recorrente nas redações esportivas do país. Afinal, quando se fala sobre esporte tratamos de jornalismo na essência ou de um entretenimento? Qual é a função do jornalista que hoje trabalha com o esporte?

Ao longo dos anos, o futebol foi tratado tão a sério nas mesas-redondas e redações que, ao que tudo indica, a fórmula se esgotou. Ninguém mais aguenta o excesso de informações que permeiam o meio futebolístico. Sabemos, pelos mais diferentes meios, absolutamente tudo o que acontece dentro de um clube, uma competição, na casa de um jogador…

Nesse contexto, o comentarista “sério”, que tenta informar e comentar a informação, tem caído cada vez mais em descrédito, especialmente entre os jovens. De que adianta ele fazer essa pose toda séria se já sabemos o que vai falar? Se a opinião dele não deixa de ser uma mera opinião, sem embasamento teórico, sem conhecimento técnico, sem nada além do que aquilo que o torcedor já sabe, ou pelo menos está acostumado a saber…

Dentro dessa realidade, o ano de 2010 pode significar uma pequena quebra de paradigma em relação à importância do jornalista de esporte enquanto jornalista de informação, de apuração de notícias. O espaço para uma “bomba” é cada vez menor. Mais do que isso, o que o torcedor quer é ver o atleta como centro do espetáculo, seja dentro de campo, seja depois, na hora do programa de TV.

Acabou essa história de que a informação do jornalista é preciosa. O que se quer consumir é uma maneira diferente de jornalismo, muito mais voltado para o espetáculo do que para a seriedade.

Para ajudar aqueles que já começam a despontar com esse tipo de jornalismo (o Globo Esporte, com Thiago Leifert no comando, evidenciou essa nova alternativa para se falar de esportes no Brasil), está aí um time como o do Santos, em que a prioridade é o gracejo em vez do futebol de resultados.

O ano de 2010 poderá ser emblemático em relação à transformação do jornalismo de esporte, na sua essência, num espetáculo de entretenimento, muito mais do que na sisuda mesa-redonda. E o time do Santos é a válvula de escape para que essa fórmula funcione.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br  

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Raízes do Brasil

Ouve-se muito falar que o brasileiro é um povo sem memória, que pouco valoriza e demonstra orgulho de suas tradições e origens socioculturais.

A falta de memória – memória recente, inclusive – também é caso grave quando o povo, chamado à maior demonstração e exercício da cidadania em um país democrático que é o voto, comete os mesmos erros e perpetua políticos desqualificados no poder.

Ainda que tenhamos grandes discrepâncias socioeconômicas em nossas regiões do Brasil, nunca fomos tão nitidamente desejos de um separatismo entre o Sul, o Norte, o Nordeste, o Sudeste e o Centro-Oeste.

A exceção foi a infame iniciativa denominada de Sul é o meu país, surgida no Paraná na década de 1990, que visava fundar o Estado do Iguaçu e se separar do resto Brasil, sob a alegação de que a região sustentava economicamente os devaneios políticos acima das fronteiras de São Paulo.

A força do Brasil está, justamente, em nossa rica diversidade cultural. Somos um país forjado pela miscigenação de povos ao longo dos anos, o que contribuiu, positivamente, para nossa reconhecida adaptabilidade e superação das adversidades, bem como ser visto como um povo cordial e convidativo aos forasteiros.

De tanta mistura, nem lembro direito o que aprendi nas aulas de História do Brasil, sobre o que significa cafuzo, mameluco, crioulo, caboclo.

Esse caldo tempera o nosso futebol até hoje, desde a sua formação. Um grande privilégio.

Na Áustria, por exemplo, você encontra somente jovens austríacos jogando futebol. Um ou outro vai ser filho de imigrante, e olha lá.

De vez em quando – muito raramente – vemos a exceção a essa regra, como nos casos de jogadores negros representando as seleções de Alemanha e Polônia recentemente.

Assim é em boa parte dos países do Velho Continente. Ao contrário do Brasil, onde estamos juntos e misturados.

Portanto, soa muito agressiva a manifestação racista do jogador Danilo, do Palmeiras, em direção ao jogador Manoel, do Atlético Paranaense.

O próprio conceito de raça já foi posto em cheque, logo, não haveria razão de ser utilizado de qualquer maneira.

Pior ainda quando levamos em conta que ambos foram colegas de clube até pouco tempo atrás.

Dizia um amigo meu, grande publicitário, a respeito de um exercício que fora feito numa aula, na qual os alunos assistiram a um comercial em que um ator negro contava piadas de negros: Sabe quando preto toma laranjada? Quando vai à feira. Sabe a diferença entre o pneu furado e a preta grávida? E por aí enfileirava umas três piadas no comercial e a turma toda ia às gargalhadas…

Até um momento em que a câmera fechava nele e, bem sério, perguntava: Quer ouvir mais uma? Você sabia que, no Brasil, não existe preconceito?

Será que não?

Disse-me que o silêncio na turma, nesse momento, foi absoluto e constrangedor.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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A final de um time só: equívocos no processo de formação de jogadores de futebol

Existem infinidades de questões que podem ser exploradas quando o tema em debate é o futebol de base

Das dimensões que envolvem o processo pedagógico, às que exploram aspectos bioquímicos e fisiológicos do jogador em formação, é ponto pacífico que nas categorias de base no futebol objetiva-se a formação de jogadores capazes de lidar com aspectos centrais do jogo, e outros tantos que estão ao seu entorno.

Muitas empresas sérias no Brasil têm investido grande soma em estrutura, equipamentos e profissionais de excelência para encontrar e desenvolver talentos, que em médio e longo prazo se transformem em jogadores de grande expressão no cenário mundial do futebol.

Essas empresas superam grande parte dos tradicionais clubes de futebol no país, dentre outras coisas, porque fundamentam seu trabalho em uma organização profissional, que é totalmente desvinculada dos “achismos” e vícios fincados no futebol, e é sustentada por profissionais gabaritados que possuem conhecimento “técnico-prático-científico” de alto nível.

A formação de um jogador de futebol é algo que transcende aos treinos de campo, e de maneira multi, inter ou transdisciplinar (dependendo do modelo que cada clube ou empresa formadora estabelece para o processo) abarca (ou deveria abarcar) o desenvolvimento pessoal total e completo do jogador, como ser humano que é.

Isso quer dizer que a responsabilidade, na gestão do jogador e no seu “crescimento total”, de um clube ou empresa que investe no processo de desenvolvimento de jogadores de futebol, é muito grande, e eu diria determinante para o sucesso deste processo.

Isso parece óbvio, mas não sei se todos os clubes envolvidos com a formação de jogadores realmente sabem disso.

Nesta semana, um tradicional clube de futebol de São Paulo deu um mau exemplo sem tamanho e precedência em sua também tradicional história: sua equipe sub-17 deixou de comparecer a um importante jogo porque três dos seus jogadores juvenis estavam suspensos (quatro cartões amarelos e um vermelho – punição como cumprimento às regras da competição).

O resumo da história é simples. Três jogadores suspensos e uma final de campeonato. O clube em questão tentou reverter a suspensão (ou melhor, alterar o regulamento da competição) até o último instante. Como não conseguiu, simplesmente deixou de comparecer!

Não compareceu por causa de três jogadores… Claro, como ir à disputa de uma partida de futebol se três dos seus vinte ou mais jogadores não poderiam estar presentes como titulares?

Ainda que fossem Pelés, Maradonas, Zicos ou Garrinchas (os jogadores suspensos eram dois atacantes e um meia), não vejo como justificar (especialmente em se tratando de categorias de base e formação) para os demais jogadores do grupo, que a equipe não disputaria a final do campeonato porque três jogadores estavam suspensos (como resultado de ações de responsabilidade de cada um deles).

Ora, se eram imprescindíveis ou insubstituíveis, por que os gestores da equipe não se preveniram, por que não se prepararam para poupar os ditos jogadores? Ah, planejamento, onde estás que não te vejo?

E que fique claro, falta de planejamento não é o problema!

O problema é a mensagem implícita que se esconde atrás dessa ausência a uma final de campeonato, que diz aos outros jogadores do grupo: “vocês não servem para nada sem os três suspensos”. Ou que diz aos três suspensos: “toda a equipe depende de vocês, sem vocês não temos um time”!

Onde e que valores norteiam o processo de formação desses jogadores?

Realmente é uma pena que o desenvolvimento de atletas nas categorias de base ainda seja tratado dessa forma. É uma pena que já nessas categorias aqueles que deveriam servir de exemplo tentam descumprir com regras, ou ainda manipulá-las ao bel prazer…

Ao menos para os que foram assistir à final de um time só, a certeza de que ela realmente seria de um time só, pois como haveria de ser diferente se o adversário não se apresentara ao “campo de batalha” porque estava com medo? (era isso que diziam, que só podia ser medo).

Nesse episódio, a imponência alviverde (ops?! – será que entreguei qual era a equipe?) sucumbiu às decisões duvidosas de um processo de formação de jogadores que agora também me deixa dúvidas.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Helio D’Anna, treinador de futebol

Há aproximadamente um mês, pesquisa encomendada pela Fifa indicou o impacto do futebol sobre torcedores de diversos países. Um dos pontos relatados era que o mercado norte-americano ainda não tinha sido completamente conquistado pela modalidade, mas está em intenso progresso. A venda de bilhetes para a Copa do Mundo de 2010 explicita essa linha ascendente.

Os fãs norte-americanos ficam atrás apenas dos próprios anfitriões dentre aqueles que mais compraram ingressos para os jogos do Mundial na África do Sul – por volta de 120.000 ingressos comprados até abril. Já os donos da casa compraram 925.437 entradas. Também se destacam os britânicos (67.654), alemães (32.269), australianos (29.657) e canadenses (16.001).

Outro levantamento científico com 500 cidadãos representativos cuja idade variava entre 16 e 55 anos mostrou que 28% das pessoas estadunidense adotam o hábito de assistir a duelos futebolísticos pela televisão – levantamento idêntico datado de 2008 estabeleceu que somente 15% dos entrevistados tinham essa cultura.

Dentro dessa realidade construída, um profissional brasileiro acompanha in loco o avanço dos tradicionais amantes de beisebol, basquete e futebol americano. Helio D’Anna, ou simplesmente “Coach L”, por conta de uma dificuldade de pronúncia dos habitantes locais, atua há quase duas décadas à frente de escolas americanas.

Formado em Educação Física pela Unicamp, Helio já dava os primeiros passos em sua carreira como técnico antes mesmo de completar o ensino superior. Treinou algumas equipes do Brasil, além da própria Escola Americana de Campinas, responsável por sua ida aos Estados Unidos. Hoje comanda as equipes masculina e feminina da Lincoln Memorial University.

“São atletas fortíssimos e muito rápidos, de alta estatura e grande mobilidade. Talvez devido à interação do sistema educacional e desportivo, o jogador americano tende a ser um estudante do futebol, muito inteligente e que busca jogar o jogo como se estivesse em uma partida de xadrez”, comentou o brasileiro, em entrevista concedida via e-mail à Universidade do Futebol.

“Coach L”, cujo currículo também apresenta instrução em clínicas e estágios, tais como São Paulo Club, Clemson University Soccer Camp, Post-to-Post Soccer, Brazilian Soccer Academy, BRUSA, Brazilian Soccer Training Center e Cincinnati-Brazil Soccer, faz parte do programa de desenvolvimento olímpico no Estado de Kentucky, onde reside.

Dentre outras abordagens, Helio fala sobre a qualidade do nível universitário e profissional na América do Norte, a relevância da convenção anual de técnicos, que ocorre naquele país, a razão pela qual a modalidade é tão forte entre as mulheres e as chances da seleção dos EUA na Copa-10.

Universidade do Futebol – Helio, fale um pouco sobre sua formação acadêmica e o início de sua trajetória no futebol.

Helio D’Anna – Tenho diploma de Educação Física pela Universidade de Campinas (Unicamp) e mestrado pelo Union College, nos Estados Unidos. Comecei a trabalhar com futebol já antes de me formar na faculdade, por intermédio da Escola Americana de Campinas.

Foi lá que tive oportunidade de interagir com o modelo americano de competição, vinculado ao sistema educacional. Daí, fui contratado pelo Union College e agora estou no Lincoln Memorial University.

Ao todo, minha trajetória desde a escola americana soma 22 anos.

Universidade do Futebol – Como é a formação do treinador de futebol nos Estados Unidos e de onde surgiu o convite para atuar no país?

Helio D’Anna – Tenho a licença nacional da NSCAA (National Soccer Coaches Association of America). Como eu trabalhava dentro do sistema americano na escola americana de Campinas, fui recomendado ao Union College por um dos administradores dessa instituição de ensino, que tinha raízes junto ao Union College.


À esquerda, de azul, Helio posa ao lado das equipes masculina e feminina da Lincoln Memorial University 
 

Universidade do Futebol – De que maneira você avalia a evolução da modalidade nos Estados Unidos e que importância têm os treinadores estrangeiros nesse processo de profissionalização?

Em primeiro lugar, há um número muito grande de garotos e garotas jogando futebol aqui nos Estados Unidos. Pouca gente sabe, mas há mais participação no futebol do que nos outros esportes quando se trata de jovens. Portanto, a base está bem representada.

O nível universitário é muito bom, e o nível profissional tem boa qualidade – eu o comparo a países como o Japão e a Austrália, nos quais o profissional cresce a cada ano.

A influência estrangeira tem sido muito importante, tanto em relação a jogadores, quanto a técnicos. Apesar de a maioria ser de origem européia, há bons profissionais sul-americanos, incluindo brasileiros, principalmente no nível universitário.

Universidade do Futebol – É possível se dizer que já há uma “escola estadunidense de futebol”, assim como há um modelo de jogo tipicamente inglês, italiano, brasileiro e argentino, por exemplo? Ou acredita que a globalização estabeleceu parâmetros e aproximou esses estilos?

Helio D’Anna – Há, sim, uma escola própria dos Estados Unidos, apesar de ser uma mistura das tradições latina e européia. Mas a “marca” americana envolve qualidade atlética altíssima, força, defesa, e objetividade.

Contamos com uma geração nova de jogadores muito técnicos também, mas a cara do futebol americano está representada por um jogo de transição e toques rápidos, e de movimentação constante.

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual é o perfil atual do jogador de futebol nos Estados Unidos?

Helio D’Anna – São atletas fortíssimos e muito rápidos, de alta estatura e grande mobilidade. Talvez devido à interação do sistema educacional e desportivo, o jogador americano tende a ser um estudante do futebol, muito inteligente e que busca jogar o jogo como se estivesse em uma partida de xadrez.

O futebol “estilo americano”
 

Universidade do Futebol – Anualmente ocorre a convenção de técnicos de futebol nos Estados Unidos, da qual você sempre participa. Qual a relevância de um evento desse porte ser realizado em território norte-americano?

Helio D’Anna – A convenção é a culminação do calendário anual. O evento possui uma importância muito grande, pois a partir dela e dos esforços da NSCAA há um padrão de trabalho em todas as categorias e uma divulgação de ideias e produtos que ajudam o crescimento do futebol de uma maneira homogênea em um país tão grande.

Além disso, a convenção cria uma atmosfera de classe (ou até família), o que favorece a valorização da profissão de técnico e do “produto” futebol como marketing.


 

Universidade do Futebol – O início da caminhada do futebol feminino nos EUA se deu mais devido a fatores culturais, econômicos ou políticos? Comente sobre a explosão de oportunidades para as mulheres, desde a iniciação até a prática de alto nível.

Helio D’Anna – O grande “empurrão” veio de uma lei federal chamada de Title IX nos anos 1970. Essa lei obrigou a todas as instituições a oferecerem as mesmas oportunidades a mulheres que fossem oferecidas aos homens. Quem não seguisse essa norma, corria o risco de sanções e perda de verbas federais. Com isso, muito dinheiro foi injetado no futebol feminino.

Outro fator importante foi cultural: o movimento de emancipação feminina foi bem incorporado e, com isso, as meninas não sofrem abusos ou preconceitos por participarem do futebol. Muito pelo contrário: o futebol feminino é muito charmoso e atrai apoio por ser um mercado especifico.

São várias as companhias que têm chuteiras, uniformes e materiais específicos para mulheres, por exemplo.


O Brasil possui uma das maiores jogadoras de todos os tempos, Marta, mas caiu para os EUA nas Olimpíadas de 2004
 

Universidade do Futebol – Os Estados Unidos têm uma tradição secular de organização desportiva e tratamento profissional de suas ligas. De maneira geral, como é estruturado o futebol nos Estados Unidos? Há uma diferenciação muito grande entre a categoria profissional masculina e feminina?

Helio D’Anna – A cultura do desporto profissional americano é bastante consistente e segue uma filosofia de marketing: empresa privada voltada ao lucro, e ligas independentes, com gestação central e direitos iguais aos clubes.

Há também uma característica de estabilidade, já que não há acesso ou descenso, e há limites de salários para as agremiações. Isso é verdadeiro não só ao futebol, mas a todos os esportes.

A diferença entre masculino e feminino está basicamente relacionada à “receita”. Por gerar menos lucro e ter menor assédio público, o desporto feminino profissional tem uma dependência de manutenção que vem das leis federais e da ajuda do lado masculino. Apesar de estar crescendo, o desporto profissional feminino em geral continua a ter uma conotação de segunda classe quando comparado ao masculino.

Universidade do Futebol – As crianças e adolescentes praticantes do futebol nos EUA pretendem, de forma geral, se tornar jogadores ou jogadoras profissionais?

Helio D’Anna – Pela liga profissional de futebol ser bem menor que a de outros esportes, o adolescente não sonha tanto em ser profissional quanto se vê no Brasil. No entanto, sem dúvida alguma, esses jovens incorporam o futebol para o resto da vida.

Como há milhares de jovens jogando no momento, a tendência é de essa pirâmide aumentar e desenvolver uma cultura maior de “sonhadores”, aproximando-se mais da realidade brasileira.

Mas como o futebol de formação é vinculado ao sistema educacional, mesmo esses aspirantes sabem que precisam de um diploma para terem uma carreira em alguma área após a vida de jogador profissional.

Universidade do Futebol – Qual é o papel dos pais na prática esportiva e, particularmente, do futebol nos EUA? Que diferenças existem em relação ao Brasil?

Helio D’Anna – Uma diferença que vejo é em relação à importância da prática desportiva na formação do indivíduo. Por conta disso, o pai americano larga tudo para acompanhar o filho ou a filha nas competições. Aliás, o pai é o segundo técnico dos filhos e muitos buscam obter licenças e estudam o futebol para poderem dar mais apoio.

Francamente, a grande distinção está no fato de que a prática do futebol pelas crianças é cara. Todos os clubes e escolas cobram taxas e há uniformes a serem comprados, viagens, etc. Como o poderio econômico na média é alto, o pai é um investidor na jornada do adolescente para que um dia ele ganhe uma bolsa para estudar e jogar em uma universidade.

Como as universidades são caras, o pai vê essa jornada como um investimento a ser recuperado lá à frente.

Universidade do Futebol – Como você vê o “espírito de competição” dos jovens norte-americanos? Eles praticam esporte para ganhar ou apenas praticam como um meio de educação, lazer e/ou saúde?

Helio D’Anna – A cultura americana em geral é muito competitiva e até agressiva. Esporte lazer está restrito a atividades não competitivas. Uma vez vestindo uma camisa de futebol, tanto pai, quanto técnico, além dos atletas, todos querem competir e ganhar.

Muitas vezes, aliás, chegando a um patamar nem um pouco saudável.


Donovan comemora seu gol diante do Brasil, e faz a torcida abrir um sorriso na final da Copa das Confederações: expectativa é boa para o Mundial-10
 

Universidade do Futebol – E o mercado de trabalho para profissionais do futebol brasileiro que queiram trabalhar nos EUA? Quais são os principais desafios e dificuldades a serem superados?

Helio D’Anna – Um desafio está na barreira da língua. Eu tenho certeza de que à medida que o domínio do inglês aumente na formação de profissionais de futebol no Brasil, nós veremos mais e mais brasileiros trabalhando aqui.

Outra barreira é a da imigração trabalhista. O visto de trabalho é complicado, principalmente para quem não tem formação acadêmica dentro dos Estados Unidos. Mas essas são as únicas barreiras importantes, já que o respeito ao futebol é muito grande, e o desejo de se ter profissionais brasileiros aqui é maior ainda.

Universidade do Futebol – Qual o perfil do torcedor de futebol nos EUA e como o habitante local vê as chances da seleção norte-americana na Copa do Mundo de 2010?

Helio D’Anna – Quem se apaixonou pelo futebol é tão apaixonado quanto um fã do Brasil. O problema é que há ainda um “gap” entre esses milhares de jovens crescendo e jogando a modalidade e a geração que cresceu jogando beisebol, basquete e futebol americano. Mas isso está mudando e a tendência é crescer mesmo.

A expectativa é reservada, apesar do sucesso na Copa das Confederações. O torcedor está desconfiado no momento, pois os amistosos e até a jornada de classificação não têm sido muito gloriosos.

Tudo vai depender do jogo contra a Inglaterra: se os Estados Unidos conseguirem um bom resultado e embalarem, vão dar trabalho. Há bons valores jogando na Europa com condições de fazerem um bom Mundial na África do Sul.


 

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É provável

Tudo que acontece na vida de todos é resultado de uma combinação de incontáveis e imensuráveis fatores. E como ninguém consegue identificar e muito menos controlar esses fatores, tudo o que você pode fazer são apostas de que as coisas irão acontecer a seu favor. E, como são apostas, não dá pra prever o resultado final, então você tende a agir de maneira que as probabilidades de que as coisas aconteçam a seu favor sejam maiores.

Uma família, por exemplo, tende a querer que seu filho seja uma pessoa bem sucedida econômica e emocionalmente. Como ela não tem como determinar que isso vá acontecer com plena certeza, ela faz apostas que favoreçam esse resultado final. Para isso, por exemplo, a família busca colocar o filho nas melhores escolas e fazer com que ele frequente círculos sociais que lhe permitam desenvolver os valores que a família acredita que melhor contribuirão para o seu futuro. Entretanto, mesmo que a família siga essa cartilha, é impossível determinar que o filho será de fato uma pessoa bem sucedida.

Pessoas que frequentaram ótimas escolas e fizeram parte de círculos sociais muito bem sucedidos podem, eventualmente, ser fracassadas econômica ou emocionalmente. Assim como pessoas que frequentam escolas sofríveis e frequentam círculos sociais fragmentados podem se dar muito bem na vida. A questão é a probabilidade de isso acontecer, tanto pra bem quanto pra mal.

O futebol é igual. A quantidade de variáveis que incidem sobre uma partida é tão grande que ninguém consegue prever exatamente qual vai ser o resultado. Tudo o que você consegue fazer são apostas em fatores que tornarão mais prováveis a obtenção de um resultado favorável. É um jogo de números. Ou melhor, é um jogo de porcentagens. Toda vez que eu vejo o replay de um gol eu fico me perguntando qual era a probabilidade de aquele gol acontecer. Um chute que passa por baixo da perna de um zagueiro, bate no lado de dentro da trave, toca nas costas do goleiro e entra é resultado de uma combinação favorável de uma infinidade de variáveis. Se a bola tivesse sido chutada com um desvio de 0,1 grau, ela teria batido na perna do zagueiro e ido pra fora.

Se ela ainda assim passasse por baixo da perna do zagueiro, bateria na parte central da trave e rebateria para uma área do campo que não teria ninguém. Se nada disso acontecesse e o goleiro tivesse usado um pouco menos de impulso no pulo, ela não teria rebatido em suas costas.

Apesar de esse lance parecer algo extremamente complexo, lances mais corriqueiros também são resultados da mesma combinação de infinitas variáveis. Quando um jogador cruza uma bola na área e outro cabeceia para dentro do gol, qual era a probabilidade de o cruzamento ter sido feito naquela mesma altura, força e direção? Qual era a probabilidade de o cabeceador chegar na velocidade certa e posicionar a cabeça na direção correta para que a bola fosse a uma posição que se o goleiro tivesse um passo para o lado ele conseguiria defender? E se as probabilidades são tão distintas, por que os mesmos times conseguem ganhar mais partidas do que os outros?

A resposta é sempre a mesma: probabilidade. Se você comprar um juiz, por exemplo, não quer dizer que você vá ganhar uma partida, apenas que você terá maior probabilidade de vencê-la. A mesma coisa acontece quando uma equipe joga em seu estádio, quando a torcida faz foguetório na frente do hotel, quando o outro time faz declarações provocativas publicamente, e assim por diante. No futebol, e na vida, não existem fatores determinantes. Apenas medidas para aumentar a probabilidade de que aquilo que você quer que aconteça de fato aconteça. E tudo o que você pode fazer é trabalhar a favor do aumento das probabilidades. E também saber que aquilo que acabou de acontecer, seja algo positivo ou negativo, é também fruto da probabilidade. E que independe única e exclusivamente do seu controle, que no fundo pode ter tido apenas uma mínima influência em todo o processo.

O problema é quando alguém deixa de reconhecer isso. Quando se muda tudo por conta do desacerto do provável. Quando se põe por terra um trabalho que provavelmente estava certo em favor da mínima chance que deu errado. Decisões são tomadas acreditando que o que está certo está certo e o que está errado está errado. Que não há espaço para a influência da variável que não foi prevista. Que está tudo sobre controle.

Não. Não está tudo sobre controle. É impossível estar tudo sobre controle.

Aceitar isso é fundamental para a melhor compreensão do funcionamento das coisas.
E, certamente, faz com que você seja uma pessoa muito menos estressada, principalmente com o seu time.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  

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Vinte e dois atrás de uma bola

– Cansado, Oto?

– Rapaz, a gente estava jogando fruitbol. Fazia um calor danado no fundo da caverna.

Meu amigo de asas referia-se àquele joguinho que os morcegos aqui da caverna adoram jogar. Passam uma frutinha de boca em boca, tentando encaixá-la em um buraco na parede.

– Deu briga, Bernardo.

– Briga? Mas era só uma brincadeira.

– Ah, como se vocês humanos também não brigassem em qualquer brincadeira. Pior, até se matam. A gente tem umas briguinhas, mas todo mundo continua amigo.

Os morceguinhos ficavam eufóricos com o fruitbol. Jogavam horas seguidas e terminavam assim, esbaforidos, excitados. Terminado o jogo, Oto adorava me contar suas façanhas. Assisto a algumas partidas e nada do que ele conta é real. São fantasias, delírios, invenções de sua imaginação fértil, típicas daquele estado que costuma suceder o jogo.

– Tenho um primo em São Paulo que acha o nosso jogo uma besteira, uma perda de tempo. Sempre fala que não conhece nada mais estúpido que vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola, ou vinte e dois morcegos, o que, para ele, dá na mesma – disse Oto.

– Imagino então que ele tem algum outro jeito de perder tempo – falei.

– Ele lê; nas prateleiras mais antigas das bibliotecas da USP. Mas para ele isso não é perder tempo – completou meu amigo – Diz que já voou até Coimbra, onde tem uma biblioteca muito frequentada por morcegos.

– Perder tempo é bom – prossegui – Quando o que fazemos não tem nenhum outro sentido que apenas viver, esse é o perder tempo que vale a pena.

– E correr atrás de uma bola é desse tipo de perder tempo? – perguntou Oto.

– É o que eu acho.

– Isso que vocês fazem, de ficar como doidos correndo atrás de uma bola para lá e para cá, gritando, chutando a canela um do outro, comemorando, xingando, brigando, serve para quê? – tornou a perguntar o morcego?

– Para nada – respondi.

– E tem alguma explicação?

– Para mim, nenhuma – respondi ao morcego.

– Dá mais saúde? – ele insistiu.

– Acho que isso não tem importância – eu disse.

– Produz o que? – o morcego teimou.

– Nada – eu falei.

– E não tem nenhuma outra importância, pequena que seja? – Oto já estava um tanto preocupado.

– Tanto quanto esta nossa conversa – arrematei.

– Mas para quê viver assim, sem utilidade, sem sentido, sem serventia? – perguntou Oto, acho que pensando lá no seu primo.

– É porque, quando se tira toda a utilidade de alguma coisa que a gente faz, e mesmo assim o gosto pela coisa continua, é porque vale a pena. Fazer por fazer é o mesmo que viver por viver – respondi.

– Mas, então isso é bom, faz bem, tem um sentido – concluiu o quiróptero.

– Se você quiser entender assim, que seja.

– Isso quer dizer que jogar futebol, correr como doido atrás de uma bola, é um bom jeito de viver – disse o morcego.

– É, é quando o que a gente faz é um fim e não um meio.

– Então perder tempo faz bem, Bernardo?

– O tempo que a gente tem é para ser perdido. Correr atrás de uma bola é uma boa maneira de fazer isso. A vida costuma ser melhor nesses momentos que naqueles em que fazemos coisas chamadas úteis. Às vezes basta viver, e isso pode ser feito correndo atrás de uma bola, conversando com você, ou dando cabriolas dentro da água, como nosso amigo Arnaldo, o bagre cego, aí no lago da caverna. Olha ali fora a coruja pousada há horas naquele galho seco, olhando, olhando… para onde? O que quer dizer isso?

– Você está me dizendo então que trabalhar é ruim? – perguntou o morcego com certo tom moralista na voz.

– Não dá para não trabalhar, senão a vida se acaba, não se sustenta. O trabalho equilibra esse perder tempo, que é o outro nome do jogo. Não se pode jogar indefinidamente, sem limites. Mas se a gente puder trabalhar e jogar ao mesmo tempo, melhor, não é? – acrescentei tentando responder ao meu amigo.

– Como se faz isso?

– Gostando muito do trabalho que a gente faz – respondi, tentando encerrar o assunto, que já me cansava.

Era tarde. Oto distraiu-se e esqueceu de sair com os amigos para caçar. Preferiu ficar comigo naquela conversa que não levava a nada. A noite ia alta. Os meteoritos se travestiam de estrelas, fragmentando-se contra a atmosfera, riscando de luzes a noite escura. As estrelas piscavam chamando a atenção. Aurora piou longamente e alçou voo para perder-se na noite. Tudo funcionava sem muito sentido, e em harmonia. Não era preciso pensar para entender tudo aquilo. No céu, vinte e duas estrelinhas corriam atrás de um cometa.

*Bernardo, o eremita, é um ex-torcedor fanático que vive isolado em uma caverna. Ele é um personagem fictício de João Batista Freire.

Para interagir com o autor: bernardo@universidadedofutebol.com.br  

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Footville

As redes sociais, na internet, já são, notadamente, um grande e inteligente ambiente de comunicação e relacionamento entre as pessoas.

Muita gente, inclusive, relaciona-se muito mais virtualmente do que em carne e osso. É mais rápido, mais fácil – o trânsito não vira desculpa pra ninguém – e fica tudo bem entre todos, apesar da frieza aparente.

Ainda que se felicite o seu amigo deixando um recado no Orkut ou no Facebook.

É assim. E será cada vez mais comum e socialmente aceito enquanto comportamento.

Como meio de relacionamento, pois, as redes sociais já estão consolidadas. Não à toa que o Facebook desbancou o Google como site mais visitado em março.

O Second Life não emplacou porque era sofisticado e exigia demais em termos de tecnologia do usuário – não era qualquer computador que rodava.

Por outro lado, as redes sociais de hoje são facilmente acessadas até pelo telefone celular.

A partir de agora, o que se vê no horizonte é o que as pessoas vão fazer umas com as outras dentro das redes sociais.

Avançou-se da rede social 1.0, eminentemente individualista – eu coloco as minhas fotos, os vídeos preferidos, links, sites, amigos – para a rede social 2.0 – colaborativa, na qual eu posto comentários naquilo que os outros fazem, organizo as pessoas em torno de causas e interesses comuns (comunidades), faço uso de aplicativos sociais e também jogo socialmente.

Jogar socialmente? Com certeza! O grande fenômeno de jogos sociais se chama Farmville, no qual as pessoas são fazendeiros virtuais e interagem entre si, cuidando de tudo o que aconteceria numa fazenda real.

São 82 milhões de fazendeiros virtuais. E, no total, dos 400 milhões de usuários do Facebook, 230 milhões jogam socialmente.

No meio disso, existe dinheiro de verdade, sim. A moeda virtual é aceita, mas também a real, por meio de cartão de crédito. O fazendeiro pode acelerar a expansão e as benfeitorias gastando dinheiro de verdade, ou optar por fazê-lo a partir da inteligência e participação no jogo.

Sem contar, logicamente, na receita obtida pela publicidade feita por empresas interessadas em explorar o potencial das redes sociais.

O futebol, como parte integrante da sociedade brasileira e intrinsecamente ligado à própria formação do nosso povo, possui todas as características positivas para que se pudesse desenvolver um Footville.

Por enquanto, as iniciativas são tímidas ou se resumem a cópias simplistas, sobre um fenômeno complexo e com grande potencial de desenvolvimento como negócio na internet.

Os principais clubes de futebol no Brasil não se vangloriam de ter milhões de torcedores?

Todos eles devem estar, nos próximos anos, inseridos nas redes sociais da internet e jogando Farmville – na falta do Footville.

E a riqueza gerada pelos negócios não irá para o bolso do clube. Deverá ir para o BNDES virtual, como pagamento do financiamento para compra de máquinas, insumos e manutenção das fazendas.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br