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Por uma política de desenvolvimento do futebol brasileiro – Uma utopia

Crédito imagem – Rafael Ribeiro/CBF

“Para que serve a utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

(Eduardo Galeano, pensador e escritor uruguaio)

Talvez muitos possam considerar inoportuno e irrelevante – além de “utópico” – defender a elaboração e implantação de uma política de desenvolvimento do futebol brasileiro levando-se em conta estes tempos tão difíceis, em que mal se consegue estabelecer políticas de natureza econômica, sanitária, educacional, cultural e social para o nosso país.

Mas entendendo o futebol como um importante fenômeno socioesportivo que mobiliza milhões de pessoas e que ainda caracteriza fortemente nossa identidade como nação, não é descabido sonharmos com a possibilidade de um grande pacto, que reúna lideranças capazes de definir uma política nacional de desenvolvimento do futebol e que possa, por extensão, contribuir para o desenvolvimento econômico, sanitário, educacional, cultural e social do Brasil, de forma mais ampla e sistêmica. Não se separa futebol e sociedade.

É verdade que o senso comum costuma interpretar a utopia como sendo algo inalcançável, que contém objetivos impossíveis de serem atingidos. E provavelmente seja isso mesmo. Como nos alerta Fernando Birri, cineasta e educador argentino, “a utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.”.

Contudo, a utopia pode significar também um propósito pessoal e coletivo de vida, que alimenta nossa imaginação em busca, por exemplo, de uma sociedade ideal, mais humana e solidária, formada por instituições políticas autenticamente comprometidas com a justiça social e o bem-estar da coletividade, mesmo considerando todas as suas contradições, conflitos e interesses divergentes. A utopia, portanto, pode ser um norte para que busquemos nossos propósitos mais nobres enquanto seres humanos e sociais, historicamente constituídos. Afinal, que sentido podemos dar às nossas vidas sem as utopias?

Por outro lado, ao mesmo tempo que somos determinados ou condicionados pelos contextos históricos, econômicos e culturais em que vivemos, somos também, de certa forma, capazes de contribuir para mudarmos a nossa realidade, tendo como referência os nossos sonhos. Somos nós, seres humanos, dentro de nossas circunstâncias existenciais, que construímos nossas determinações e nossos condicionamentos. Se estamos insatisfeitos, por que não construímos coletivamente uma utopia que nos faça caminhar com mais esperança?  

São com estes pressupostos que podemos considerar válida e relevante a ideia de concebermos, elaborarmos e implantarmos uma política de desenvolvimento para o futebol brasileiro; uma política através da qual não só o ecossistema do futebol poderá ser favorecido, como também a sociedade de forma geral.

Problemas novos e urgentes apresentam-se nesta terceira década do século XXI. Não podemos deixar de reconhecer que o modelo político e econômico hegemônico, predominante hoje no mundo, nos impõe enormes dificuldades e barreiras. Neste sentido, não podemos ser ingênuos a ponto de achar que apenas com boa vontade e alianças frágeis conseguiremos progredir de forma mais consistente. Mas isso não pode nos desmobilizar. Há sempre a possibilidade de encontrarmos soluções inovadoras, que nos façam crescer como indivíduos e como sociedade. Afinal, somos nós, seres humanos, quem temos que tomar as decisões e tentar encontrar as melhores soluções para os problemas que nos afligem.  

Dados da própria CBF revelam que hoje a indústria do futebol brasileiro movimenta recursos na ordem de 50 bilhões de reais, cerca de 0,72% do PIB, e que há potencial para alcançarmos algo próximo de 1,5% se nos organizarmos para tal, trazendo possibilidades de mais desenvolvimento para esta indústria que atualmente mobiliza, com todas as suas limitações, um número em torno de 150 mil empregos.

O futebol e a sociedade estão mudando rapidamente, e já está passando da hora de entendermos criticamente o cenário em que vivemos, diagnosticarmos nossos problemas e caminharmos coletivamente em busca de suas soluções. Em relação ao futebol especificamente, questões como o estímulo à prática da modalidade enquanto lazer e educação, atratividade dos eventos esportivos, qualidade dos jogos, calendários, arcabouço jurídico das instituições esportivas (clubes, federações, CBF etc.), entre outros elementos, além – é claro – de uma análise cuidadosa das novas tendências, são aspectos que precisam anteceder a elaboração de uma política consistente de desenvolvimento do futebol brasileiro.

Evidentemente que um plano realista que fundamente esta política, deve também considerar as contradições e conflitos de interesses dos diferentes setores que compõem a cadeia produtiva do futebol. Considerar esta correlação de forças que interfere na dinâmica desta indústria é indispensável, e só um pensamento crítico poderá fazê-lo. Se queremos mudanças radicais (no sentido de irmos à raiz das questões), entender essas peculiaridades é fundamental. Só avançaremos se tivermos lideranças que resolvam encarar estes desafios de frente.

Àqueles que acreditam nestas possibilidades e ainda alimentam a sua paixão por esta manifestação sociocultural e esportiva ímpar que é o futebol, fica aqui o convite para refletirmos de forma crítica e coletiva e, assim, construirmos essa utopia que transcenda o próprio futebol e nos faça avançar como uma sociedade mais justa, civilizada e humanizada.

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Como manter o apetite por vitórias no futebol?

Crédito imagem – Site oficial Palmeiras

Chamou a atenção a fala do técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, dizendo que após as conquistas do começo do ano – Libertadores e Copa do Brasil – ele pediu reforços a diretoria do clube. Ainda temos como verdade aquele falso clichê: em time que está ganhando não se mexe. E por mais que o treinador português tenha claramente mudado sua forma de se comunicar – a simpatia inicial deu lugar a um permanente aborrecimento – ele está coberto de razão nas reivindicações e traz a tona mais um tema importantíssimo para a discussão: como manter a fome de vencer de um grupo já campeão?

Toda conquista no futebol não é simples e deve ser comemorada. Seja um título de campeonato amador seja o da Serie A do Campeonato Brasileiro. De vinte times, dezenove “perdem” e só um ergue o troféu na primeira divisão nacional. Ou seja, é a exceção e não a regra.

E é natural do ser humano entrar em um estado de relaxamento após um esforço continuado. Ainda mais se esse esforço for bem sucedido e culminar na obtenção de um objetivo. E voltando a questão da exceção e da regra, são raros os jogadores que mantêm a vontade de vencer logo após um título. A maioria entra em uma zona de conforto. Nem todos são Messi, Cristiano Ronaldo e afins…

Quando Abel Ferreira fala em novos jogadores não necessariamente ele se refere a contratações para qualificar o elenco. A questão é muito mais mental, de apetite de vencer, do que técnica. Alex Ferguson, lendário técnico do Manchester United, eternizou a ideia de que após uma temporada sem conquistas a ordem era a manutenção do time porque as derrotas preparariam para as vitórias e que após um ano bem sucedido era necessário trocar de vinte a trinta por cento do elenco. Justamente para renovar essa sede de títulos.

Todo treinador com um mínimo de experiência sabe quando as vitórias estão se aproximando ou se afastando. O discurso que funcionou em um ano pode não funcionar no ano seguinte. Por isso, vale a pena refletir sobre as palavras do técnico do Palmeiras. E não ir pelo caminho de que ele simplesmente está dando desculpas pelas derrotas recentes.

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A união dos clubes brasileiros – Um desafio estratégico

Crédito imagem – CBF/Site

No FutTalks que foi ao ar ontem, conversamos com Rodrigo Caetano, diretor executivo de futebol do Atlético Mineiro. Entre muita coisa bacana discutida ao longo da entrevista, reflexões sobre a cultura e a gestão esportiva no Brasil, o executivo destacou a necessidade de união dos clubes brasileiros e como uma liga poderia ser benéfica para seu respectivo crescimento. Gravamos antes da notícia de que a formação de uma liga deve realmente sair do papel por aqui, já no ano que vem. Com a entrega de um documento assinado por 19 dos 20 clubes da série A do campeonato brasileiro masculino, o Sport não assinou por uma questão burocrática interna mas já comunicou apoio público ao movimento, na terça-feira da semana passada, as agremiações assumiram perante à CBF a intenção de organizar o campeonato brasileiro a partir de 2022.

Entre os pontos-chave que os clubes acreditam serem fundamentais e posteriormente trabalhados pela CBF ao longo do processo, está a articulação de uma nova tentativa de aprovação da lei do mandante, PL que acabou caducando no fim do ano passado, para dar a eles o direito sobre as transmissões televisivas de suas partidas. Atualmente esse direito é dividido igualmente entre o mandante e o visitante de modo que quem negocia com apenas uma das equipes envolvidas no jogo e não com a outra não pode transmitir a partida.

E se Rodrigo Caetano destacou a necessidade de união, essa volta à discussão sobre o direito do mandante pode ser um primeiro ponto para refletirmos sobre os desafios que a materialização da liga apresentará para os clubes envolvidos.

Especialistas apontam que, mais do que os direitos do mandante ou compartilhado, como funciona atualmente no país, a chave para aumentar as receitas e não desequilibrar a competividade de um campeonato nacional é que a negociação dos direitos de transmissão seja realizada em conjunto. O produto é a liga e todas as formas de explorar o seu conteúdo e marca. As negociações individuais costumam significar a criação ou alargamento de um abismo entre os gigantes do país e os outros, como no caso de Portugal.

Mesmo um eventual aumento total dos recursos provenientes dos direitos de transmissão, mas com uma maior disparidade, pode significar para os menores a inviabilização da competitividade já que o excesso de recursos concentrados com os gigantes inflaciona os salários e torna quase impossível a manutenção de elencos de qualidade pelos “mais pobres”.

É aí que começam os desafios. Flamengo e Palmeiras, clubes que despontam nos últimos anos como os mais saudáveis financeiramente e com potencial de crescimento, têm, atualmente, ambições continentais e até globais. Para clubes nessa situação cada real – ou euro – a mais na conta. Abrir mão de receitas em nome de uma liga forte talvez não seja o maior interesse desses e de outros clubes que ocupam o topo da cadeia alimentar do futebol brasileiro. Esse desafio não é exclusivo do Brasil, o movimento dos big 6 da Premier League na Inglaterra e da tentativa da criação da Superliga Europeia são exemplos de conflitos similares no mercado internacional.

Além disso há aquelas ocasiões nas quais as gestões dos clubes estão mais preocupadas com interesses alheios aos clubes, sejam por questões de política interna nos casos daqueles com modelo associativo ou pessoais, econômicas e política de seu dono ou executivos, no caso daqueles com modelo empresa.

Para finalizar, o que é, realmente, bom ou não, qual é realmente o melhor interesse de um clube? Para responder à essa pergunta vale recorrer ao exemplo da Superliga Europeia. Sua simples proposta pública mostrou que ganhar, estar no topo a qualquer custo, não é, necessariamente a razão de ser de um clube, os protestos dos torcedores da maioria dos organizadores mostram que o futebol, e a vida, são mais que isso.

Por tudo isso e muito mais, não seria possível aqui encerrar todo o contexto político e de gestão que envolve um clube de futebol, o desafio de compor uma liga que atenda satisfatoriamente o interesse de cada envolvido é gigante. Caso seja vencido, o futebol brasileiro tem tudo para crescer, como defendeu Rodrigo Caetano no FutTalks de ontem!

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Futebol – visão de futuro para melhorar o jogador

Crédito imagem: Lucas Figueiredo/CBF

Se busco neste espaço discutir o futebol de maneira sistêmica e integrada, sempre respeitando o viés analítico e cartesiano, porém buscando uma visão do todo, vale trazer para a discussão o aspecto mental do jogo.

Sei que o leque desse tema é gigantesco, por isso quero focar em algumas vertentes que se bem trabalhadas podem potencializar jogadores e consequentemente equipes. O treinador e/ou dirigente que souber incutir uma visão de futuro clara e positiva em cada membro do grupo sairá na frente dos demais. Cada tarefa proposta deve conter um resultado final motivante para ser atingido. Cada jogo disputado deve ser parte de uma jornada traçada com alvos e objetivos claros a serem alcançados. Isso pode parecer óbvio, já que todos querem ganhar, ainda mais no alto rendimento. Entretanto tenho observado muitos profissionais no ‘piloto automático’, trabalhando cada dia sem saber muito ao certo porque e para onde estão indo…

Outro ponto que pode ser levantado é o sucesso passado de cada um. Picos de performance são difíceis de serem mantidos, todavia todo atleta profissional tem pelo menos uma dezena de vitórias e conquistas que o fizeram chegar ao momento atual. Relembrar esses feitos gera não só emoções positivas como traz para o presente uma energia, um otimismo e uma confiança fundamentais para a resolução dos problemas atuais. 

Colocada a visão de futuro ideal e aguçada a confiança com base em conquistas já realizadas, cabe ao gestor compartilhar caminhos, tarefas e atividades que sejam percebidas por todos como de grande valor para se sair do ponto atual e chegar ao ponto desejado. Se esse profissional não apresentar meios práticos de melhorar a todos – individualmente e como equipe – qualquer discurso perderá força e não convencerá. Falta de conhecimento técnico, treinos monótonos e tomadas de decisão sem muita convicção ainda são frequentes…

Criar uma mentalidade vencedora não é fácil. Compreender e conduzir ao sucesso um grupo com vinte e poucos jogadores não é algo trivial. Por isso também não é trivial ser campeão. É algo para poucos.

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Táticas restringem ou potencializam as tomadas de decisão? – Conceitos

Crédito imagem destacada – Carolina Brito/CBF

Retomando a discussão que iniciamos no primeiro texto, para poder responder à questão proposta no titulo dessa serie de artigos, e necessária uma compreensão ampla do termo “táticas”. Assim, daremos sequência agora trazendo algumas concepções de tática no futebol brasileiro.

Usaremos como guia o “Glossário aberto do Futebol Brasileiro”, que foi publicado em 2020 pela CBF Academy e busca auxiliar em um sentido de padronização das terminologias no âmbito do esporte mais praticado no país.

O Glossário trata de tática no contexto do que chama de “dimensão tática do jogo”, e segundo o mesmo:                                            

Tática é a forma como os/as jogadores/jogadoras, por meio de seus posicionamentos e movimentações, ocupam e gerenciam os espaços do campo. Para isso é necessário que o/a jogador/jogadora manifeste o conhecimento na ação, sendo este caracterizado como a sua capacidade de perceber, analisar, decidir e realizar ação que melhor se adapte a uma situação do jogo. A tática no futebol se expressa em diferentes níveis de relação dos/das jogadores/ jogadoras dentro da equipe, como a tática coletiva (de equipe e grupo) e a individual”.

O glossário segue definindo táticas da seguinte forma no futebol:

Tática de equipe – a partir de 5 jogadores,

Tática de grupo – de 2 a 4 jogadores,

Tática individual – 1 jogador.

Além da tática; os conceitos de cultura, ideia e modelo de jogo, bem como, sistema e esquema de jogo, são importantes para a devida compreensão do tema, e também têm espaço no Glossário com as seguintes definições:

Modelo de jogo é o conjunto de referencias táticas que permite delimitar e concretizar o treinamento e a competição

Sistema de jogo, ou sistema tático, “são descritos no formato numérico, indicando a quantidade de jogadores/jogadoras que atuam em cada setor do campo ou subsetores (goleiro/goleira, defesa, meio-campo e ataque), como, por exemplo: 1-4-4-2, 1-3-5-2, 1-4-2-3-1, entre outros.

Esquemas de jogo, ou esquemas táticos, “são as ligações estabelecidas entre os/as jogadores/jogadoras durante as partidas, ou seja, a forma como eles/elas se relacionam ou se comunicam a partir das funções desempenhadas em campo, das suas virtudes e limitações.” O manual vai além e define uma variedade de princípios táticos: gerais, operacionais, fundamentais e específicos. Apontando uma lista para cada um deles, exceto para os princípios táticos específicos, que englobam as táticas de equipe, grupo e individuais e que seriam “selecionados pelo treinador”.

Considerando todas essas possíveis “variações” parece ficar claro que uma discussão sobre as consequências das “táticas” no processo de decisão de um jogador, podem trazer à tona diferentes elementos relativos ao tema e também levar a conclusões diversas.

Nesse sentido, propomos analisar as consequências no processo de formação de diferentes abordagens relacionadas a dimensão tática.

Primeiramente, iremos discutir uma formação baseada em determinado sistema tático, e ao esquema tático associado ao mesmo.

A tática na formação de um jogador – Sistemas & esquemas táticos

No intuito de criar referências para o posicionamento em campo, uma equipe de futebol necessita da organização que vem dos sistemas e esquemas táticos. No entanto, ao pensarmos no desenvolvimento de jogadores, é preciso ter muito cuidado para que estes não limitem a evolução dos mesmos. Por exemplo, se esse jogador cresceu tendo o seu desenvolvimento baseado em um certo sistema e esquema tático, desenvolveu uma compreensão do jogo a partir da função que deveria exercer, e trabalhou as habilidades e competências necessárias para o papel que deveria desempenhar.

As figuras mostram diferentes setores de uma equipe, e as posições dos jogadores em algumas diferentes situações.

A partir dessas habilidades e competências específicas da função, o jogador pode aprender a desempenhar com eficiência as responsabilidades que lhe foram deferidas. Quanto mais elevada a idade da equipe, a tendência é que mais detalhado seja o esquema, e que mais complexas sejam as tarefas que os jogadores devam desempenhar.

Enquanto essa parece ser uma progressão lógica, do mais simples ao mais complexo, em termos de formação de jogadores, existe um problema que pode ocorrer de acordo com essa forma de abordagem.  

Vamos ilustrar esse cenário com dois exemplos:

  1. Um jogador que cresceu como “volante”, jogando sempre pelo meio, seguindo as instruções para jogar em dois toques e passar curto ao receber ou roubar a bola.
  2. Um jogador que cresceu como “ponta”, sendo instruído sempre a que a equipe tenha a bola, jogar “aberto” e procurar o “1v1”, e sem a bola, defender o lateral da equipe adversária.

Se durante a formação de um jogador todo o seu treinamento for “específico para a posição”, durante os anos cruciais para a lapidação da motricidade, o jogador pode ter tido limitado o seu desenvolvimento tanto técnico quanto cognitivo, pela aplicação das funções que lhe foram exigidas pelo treinador.

O volante ao qual nos referimos acima possivelmente não terá desenvolvido o drible e capacidade de criação; assim como o ponta talvez não tenha desenvolvido como jogar por dentro, flutuar na marcação ou criar vindo de uma posição mais defensiva, etc. Se essas exigências chegarem, por exemplo, no sub 17, os jogadores já não terão a mesma capacidade de adaptação ao jogo que teriam quando eram mais novos.

Buscando amenizar o problema, uma estratégia frequentemente utilizada por treinadores da base, é a de fazer com que jogadores atuem em diferentes posições, para experimentar diferentes desafios e desenvolverem uma variedade de capacidades (necessárias para a devida compreensão do jogo de forma global).

Mesmo nesse caso, vale ressaltar que o entendimento do jogo e desenvolvimento das capacidades se darão através das posições onde o jogador irá atuar, e as funções que ele irá desempenhar no esquema e modelo de jogo da equipe. 

Nesta segunda parte refletimos um pouco melhor sobre o conceito de tática, de acordo com a terminologia no nosso país, e alguns cenários iniciais onde ela pode interagir com as possibilidades de desenvolvimento da tomada de decisão dos jogadores, sobretudo nas categorias de base.

Na terceira parte, iremos aprofundar um pouco mais no assunto, discutindo o desenvolvimento dos jogadores em perspectiva de outros aspectos relacionados a dimensão tática, e buscando uma resposta para o tema central do artigo. Até lá!

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A Pedagogia da morte e a Copa América de futebol

É de 1971 o magnífico filme “Ensina-me a viver”. Harold, de 20 anos, apaixona-se por Maude, de 79. Harold, de família rica, simulava suicídios e frequentava funerais. Com Maude, ele aprende a viver.

                O Brasil vive episódios às avessas do filme. Uma espécie de “Ensina-me a morrer”. Uma pedagogia da morte. O método consiste em normalizar o que seria excepcional: a morte pelo Covid-19. Desde que o vírus aportou em nossas terras, o presidente do Brasil, contrário às teses do isolamento social e vacinação, escancarou as portas ao vírus. A mais recente declaração infeliz e genocida do atual presidente do Brasil recomenda que os vacinados, que representam menos de 13% da população brasileira com a segunda dose, não mais precisem usar máscaras. Seguidor da teoria da imunidade de rebanho, pretende Jair Bolsonaro salvar a economia brasileira contaminando três quartos de nosso povo. Contaminam-se, mas não param de produzir; morrem, mas os 95% que continuarão vivos, tocarão a economia. Para não sacrificar a economia, deliberadamente, uma parte considerável da população seria sacrificada. Como se nossa economia estivesse destinada ao sucesso caso não houvesse pandemia.

                Continuamos, no entanto, com o dilema da normalização da morte excepcional.

                O contingente daqueles dispostos a disseminar a ideia de que todos morrem, e daí, de que tudo não passa de uma gripezinha, de que a economia é mais importante que a vida, é enorme, milhões de “verdeamarelos”. “Verdeamarelos” que, não por coincidência, costumam ir às ruas protestar trajando a camisa da CBF, aquela que, supostamente, assemelha-se às usadas pelos craques da seleção. O traje cai como uma luva se considerarmos a relação estreita mantida entre CBF e o Governo brasileiro atual. 

Não há como nos mantermos indiferentes a mais esse absurdo proposto pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e prontamente aceito e apoiado pelo Governo genocida de Bolsonaro. Faltam adjetivos ruins para caracterizar a decisão de realizar a Copa América de Futebol no momento atual da pandemia. Lamentável, vergonhosa, absurda, revoltante, triste, desrespeitosa, irresponsável, interesseira, dentre outros adjetivos são bastante apropriados para esta situação.

Vamos nos ater, especificamente, ao último adjetivo: interesseira. Afinal, precisamos identificar e questionar os interesses que estão por trás desta decisão. A quem interessa a realização de uma competição esportiva desta grandeza em um país que está assolado por tantas mortes e sofrimento em decorrência da pandemia do coronavírus?

Ao capital, ao mercado financeiro e a todos que a ele servem, sobretudo, o Governo Federal. Pois é… o motivo para o não cancelamento desta competição, mesmo estando a América Latina em situação catastrófica, é o dinheiro que esta competição esportiva gera e faz circular. Pouco importa, ou importa bem menos, a saúde e a vida da população.

Permanecemos, há semanas, com mais de 2.000 mortes diárias. Permanecemos, há semanas, com os hospitais colapsados ou em vias de. Mas, o que importa à Conmebol, à CBF e ao Governo Federal é o dinheiro. É o mercado. É a economia. Nos aproximamos de 500.000 vítimas, mas “a economia não pode parar”. Em vez do isolamento social, o relaxamento e a volta ao trabalho, às escolas, aos shoppings e bares/restaurantes. No lugar do cancelamento desta competição, o aumento do número de pessoas (atletas, comissão técnica, dirigentes, staff, imprensa etc) circulando em nossos aeroportos, hotéis, ruas, bares e campos de futebol. Estima-se que mais de 10.000 pessoas, vindas de todos os cantos do mundo, passarão a circular em solo brasileiro, ampliando as possibilidades de um contágio que, só entre nós, não para de crescer. Somente a seleção venezuelana, primeira adversária da equipe brasileira, tem 13 integrantes (dois nem chegaram a viajar ao Brasil) contaminados com o Covid. Passados três dias do início da competição, já são, conforme dados do Ministério da Saúde, 52 pessoas contaminadas por Covid, entre jogadores, membros das delegações e prestadores de serviços contratados para o evento.

Ao Governo Federal, há outro interesse, talvez ainda mais forte que a própria questão financeira: o uso político do futebol, da seleção brasileira e, especificamente, desta competição. Sempre que atacado pela sociedade e mídia em virtude de suas condutas ou decisões prejudiciais ao povo brasileiro, Bolsonaro arruma um “fato novo”. O fato novo da vez é a Copa América.  

Concomitantemente à decisão da realização ou não da Copa América no Brasil, julgada, inclusive, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), há a denúncia de abuso moral e sexual contra o presidente da CBF e o aguardado manifesto dos jogadores da seleção. A respeito da denúncia contra o presidente, agora afastado, da CBF, nenhuma surpresa. É o quarto dirigente maior da CBF seguidamente afastado do cargo. Que sofra todas as consequências, conforme a lei.

Já em relação ao manifesto, chegamos a esperar um ato de consciência política. Chegamos a esperar que “suspiros de Afonsinho e Sócrates”, dentre outros (poucos, é verdade), “contaminassem” o grupo de jogadores e estes se negassem a participar da Copa América. Mas, infelizmente, não fomos surpreendidos. Como disse o Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”. Apresentaram um manifesto ridículo, evasivo, destituído de empatia, sem solidariedade com o povo nem compaixão com os quase meio milhão de pessoas vitimadas pelo vírus. Sequer citaram a pandemia, as faltas de vacinas e os milhares de mortos!

O comentarista da Rede Globo, Walter Casagrande, em tom bastante duro, disse que os jogadores tinham que ser homens e não covardes, ao trocarem atitudes por um manifesto. Concordamos que faltou coragem. Mas eles não tinham que ser homens. Tinham que ser como as mulheres! Fortes, corajosas, conscientes politicamente, tais como nossas atletas Carol Solberg, Joana Maranhão ou como as atletas da seleção brasileira feminina de futebol que protestaram contra toda e qualquer manifestação de assédio, especialmente contra mulheres. E vale ressaltar que nem de longe elas possuem o poder, os salários e a força politica, no âmbito do futebol e fora dele, que possuem os homens da nossa seleção. E nem por isso deixaram de se manifestar.   

Ainda assim, não podemos nos abster de refletir sobre as aparentes contradições que se apresentam em relação à realização desta competição. Alguns, como disse o atual Vice-Presidente da República, devem estar pensando: por que cancelar a Copa América, se o Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores estão em pleno andamento? Verdade. Mas a resolução deste impasse não passa por trazer mais uma competição esportiva para o Brasil e sim paralisar, imediatamente, todas as demais. Todas são danosas. A Copa América será um considerável acréscimo de peso ao dano.

Entretanto, há de se considerar que as circunstâncias para uma possível defesa ou crítica à realização da Copa América em comparação aos nossos campeonatos nacionais, são distintas. Primeiro, porque estamos falando dos atletas de futebol mais bem sucedidos e remunerados da América Latina. Daquele grupo de jogadores que provavelmente, juntos, ganham mais do que os salários somados de todos os demais jogadores do futebol brasileiro. Em defesa destes, e de toda a massa trabalhadora do futebol brasileiro (comissão técnica, roupeiros, funcionários dos clubes, massagistas, imprensa esportiva etc.), poderíamos pensar em apoiar a realização dos campeonatos nacionais – contra os quais já nos manifestamos -, mas não há defesa para a realização da Copa América.  Os que defendem os campeonatos nacionais, que o façam em defesa dos trabalhadores do futebol, a maioria, pessimamente remunerados. Quanto à Copa América, só beneficia os já privilegiados, incluindo aí jogadores, CBF, mídia, empresários etc. 

Há ainda outro grupo que pode estar pensando: por que a mídia, leia-se a Rede Globo, tem feito esse “estardalhaço” quanto à realização da Copa América, se o mesmo não acontece com as demais competições? Porque, caros leitores, a Globo não possui os direitos de transmissão da Copa América, mas do Brasileiro e Copa do Brasil, sim. Novamente o argumento de que “a economia não pode parar” prevalece.

Que o futebol segue movido pela lógica do mercado e do capital, nos parece filme repetido. Que o grupo de jogadores da seleção brasileira perdeu a oportunidade de retomar a admiração de grande parte da população, o orgulho de vestir a “verde amarela” e de salvar vidas, nos parece aquele filme de romance cujo desfecho é previsível.  Mas nada é tão cruel e motivo de indignação e revolta do que o filme de terror que este Governo federal nos apresenta, tendo a morte como inspiradora de uma pedagogia e o futebol como um de seus protagonistas. 

*A opinião e visão de nossos colunistas e parceiros não refletem, necessariamente, o posicionamento da Universidade do Futebol.

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A construção social de um jogador – o enganche argentino

Crédito imagem – FIFA.com

“… un pibe de cara sucia, con una cabellera que le protestó al peine el derecho de ser rebelde; con los ojos inteligentes, revoloteadores, engañadores y persuasivos, de miradas chispeantes que suelen dar la sensación de la risa pícara que no consigue expresar esa boca de dientes pequeños, como gastados de morder el pan ‘de ayer’. Unos remiendos unidos con poco arte servirán de pantalón. Una camiseta a rayas argentinas, demasiado decotada y con muchos agujeros hechos por los invisibles ratones del uso. Una tira atada a la cintura, cruzando el pecho a manera de banda, sirve de tirador. Las rodillas cubiertas de cascarones de lastimaduras que desinfectó el destino; descalzo, o con alpargatas cuyas roturas sobre los dedos grandes dejan entrever que se han efectuado de tanto shotear. Su actitud debe ser característica, dando la impresión de que está realizando un dribbling con la pelota de trapo. Eso sí: la pelota no puede ser otra. De trapo, y con preferencia forrada con una media vieja. Si algún día llegara a instalarse este monumento seríamos muchos los que ante él nos descubriríamos como ante un altar.” (El Gráfico Nº 480, 1928, p. 11)

Esta é a descrição do jornalista Ricardo Lorenzo do que seria o monumento do jogo argentino. Borocotó, como Ricardo Lorenzo era conhecido, está para o imaginário argentino como os irmãos Nelson Rodrigues e Mário Filho estão para o Brasil. Era o editor do El Gráfico, que foi possivelmente a revista esportiva mais influente do mundo. Passada as brevíssimas apresentações, quando falamos de um “pibe”, moleque de cara suja, com cabeleira rebelde, olhos inteligentes, etc. quem vem em sua mente? Chegaremos lá.

Os anos 1920 no futebol argentino foram anos de afirmação de sua identidade nacional, depois das primeiras décadas de domínio britânico. No final do século XIX eram 45 mil britânicos em Buenos Aires, em um período de colonização mundial por parte dos ingleses, seja territorial, como na Índia, mas também econômica, com dívidas externas e controle de mercados estratégicos nos outros países. Bancos, ferrovias e comércio argentino, em especial na capital, eram de controle inglês. Organizada por quinze britânicos e um nascido em Santa Lúcia, a primeira partida registrada em solo argentino acontece no dia 20 de junho de 1867, próximo de onde hoje é o estádio Monumental de Núñez. Apenas quatro anos após a padronização das primeiras regras da Football Association em 1863.

Até 1912 a Argentina viveu seu primeiro nascimento no futebol. Um nascimento inglês, com o objetivo de “jogar bem e sem paixão” (Iwanczuk, 1995). A grande equipe desta época é o Alumni, formado em 1898 por alunos e ex-alunos de escolas inglesas de Buenos Aires com o objetivo de defender valores britânicos diante da popularização do futebol na Argentina. Pouco antes da fundação do Alumni o Ministério da Justiça e Educação Pública, por influência britânica, tornara obrigatórias as aulas de Educação Física nas escolas e proibindo que instituições de ensino tivessem seus nomes em competições, o quê favoreceu o surgimento de clubes ingleses como o Alumni.

Entre os anos de 1900 e 1911 o Alumni ganhou 10 campeonatos nacionais. Mas foram anos de grandes transformações sociais no país, com muitos imigrantes desembarcando nos portos argentinos, principalmente em Buenos Aires.

Entre 1895 e 1914 a população de imigrantes nascidos em outro país subiu de 25% para pouco mais de 30% na Argentina, sendo aproximadamente 75% deles vindos de Espanha ou Itália. Na capital os imigrantes eram 67% dos comerciantes, 76% dos artistas e eram maioria em outras classes trabalhistas como engenheiros e arquitetos. A população de Buenos Aires cresceu de 260,000 em 1880 para 1,576,000 em 1914, com quase metade da população formada por imigrantes, vindos principalmente de Espanha e Itália. No mesmo ano, 80% daqueles nascidos na Argentina eram descendentes de imigrantes que haviam chegado no país desde 1860 (Archetti, 2003).

Entre 1885 e 1915 houve ainda um “boom” de clubes sendo fundados. Para se ter noção, todos os 24 participantes do campeonato argentino de 2019/20 são desta época. O campeonato argentino, iniciado em 1893, ganha a segunda divisão em 1895; a terceira em 1899; a quarta em 1902 e em 1907 ainda existiam cerca de 300 clubes sem divisão. Ainda hoje podemos observar a popularização ao constatar que Buenos Aires tem 36 estádios com pelo menos 10 mil lugares, a número um do mundo neste quesito.

E assim, pelo alto crescimento urbano, populacional e principalmente em Buenos Aires com a chegada de imigrantes que a Argentina forma o seu estilo argento e tem o seu segundo nascimento no futebol, desta vez criollo, que vem da sua terra. E para fundar seu estilo, o velho deve morrer para dar lugar ao novo. Agora o futebol deve-se “jogar bem e com paixão”.

O estilo da La Nuestra se daria pela mistura da cultura gaucha com a dos pampas. Daí viriam muitas metáforas apropriadas pelo futebol argento, como o drible ser a gambeta (nome que se dá à corrida de um avestruz) e os potreros. A noção dos potreros é especial por vir dos largos pastos onde os cavalos – animal que simboliza a liberdade na cultura gaucha – podem ser livres. Um pibe em um potrero tem o potencial de simbolizar a máxima liberdade, mas para isso deve ter a liberdade de expressão corporal como em uma dança de tango. Aí surge o monumento daquele que seria o pibe de oro, descrita por Borocotó e que todos nós lemos é impossível não pensar em Diego Armando Maradona.

O também jornalista Hugo Asch, escreveu sobre o papel do camisa 10 argentino, chamado lá de enganche: “Estamos falando de um número, o 10 é uma condição para poucos: ser o criativo da equipe, o ideólogo. […] um invento muito argentino, quase uma necessidade. O gênio incompreendido que com um gesto, um toque, um arranque sempre mais mágico do que lógico, consegue o espaço exato, o passe genial, o caminho para o gol e para a vitória” (Asch, 2007).

O enganche é o jogador total argento, pelo qual é possível compreender toda uma cultura do país e sua história, que carrega valores, necessidades e mitos. A narrativa mitológica que El Gráfico fez por muitos anos ajuda a pensar este jogador total por um âmbito, mas proponho aqui para você que está lendo a pensar a influência do rápido crescimento urbano, do uso dos espaços públicos, do pertencimento à cidade, dos encontros das diferenças, da encruzilhada (lembrando Luiz Antônio Simas) e por fim, da liberdade do futebol de rua nos potreros para formar organicamente estes pibes capazes de fazer mágica.

Bibliografia

Archetti, E. (2003). Transforming Argentina: sport, modernity and national building in the periphery. Antropolítica : Revista Contemporânea de Antropologia e Ciência Política, 41-61.

Asch, H. (12 de Agosto de 2007). Una bala para el enganche. Fonte: Perfil: https://www.perfil.com/noticias/columnistas/una-bala-para-el-enganche-20070812-0007.phtml

Iwanczuk, J. (1995). Historia del fútbol amateur em la Argentina. Buenos Aires: Autores Editores.

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O olhar se volta para o jogador de futebol

Crédito imagem – Dinho Zanotto/AGIF/CBF.com

O futebol é cíclico e muda constantemente. O jogo que se pratica hoje é bem diferente se comparado ao de cinco, dez anos atrás. A nossa própria vida tem registrado uma evolução colossal: por exemplo, tenho certeza que você utiliza hoje aplicativos de celular que nem existiam na década passada.

No futebol, se antes falávamos de tática achando que a discussão já deixava de ser rasa argumentando que o 4-4-2 era mais efetivo que o 3-5-2 e vice-versa, houve uma evolução ao colocarmos na mesa conceitos do modelo de jogo, tema amplamente difundido pela literatura portuguesa. Claro que é mais relevante falar de princípios operacionais como amplitude, profundidade, compactação, flutuação e etc do que quantos zagueiros ocupam a primeira linha defensiva de uma equipe.

Mas o próximo passo, que já vem sendo dado por muitos profissionais brasileiros, é trazer a discussão para o aprimoramento tático e técnico do jogador. E quando me refiro que tudo é cíclico, criar mecanismos focados primeiro no crescimento individual e depois no coletivo não deixa de ser um retorno às origens.

Jogadores melhores formarão equipes melhores. Quanto mais atletas com alta capacidade de resolução de problemas, mais chances de êxito. O bom treino hoje estimula o jogador a ampliar o repertório de percepção e ação com e sem a bola. O gesto técnico é só o resultado final de um rápido entendimento da ‘situação problema’ que o jogo impõe e a eficaz tomada de decisão de qual a melhor forma de resolver. 

Todo jogador de alto nível carrega uma bagagem muito grande de conhecimentos prévios sobre o jogo. O ambiente vencedor será aquele que potencializar o que cada atleta já faz bem e apresentar a ele novas formas de ação diante o caos aleatório que é um jogo de futebol. 

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Entendendo o perfil de trabalho no futebol

Crédito imagem – Ricardo Duarte/SC Internacional

A graça da vida é a diferença entre as pessoas. O que seria de nós se todos fossemos iguais?! 

E o ambiente é quem tem a maior participação na moldagem do nosso caráter. Estímulos, contextos e exemplos próximos são os que mais influenciam nossa personalidade. Mas, claro, há uma carga genética que também tem alí o seu papel. Entretanto nunca vou para o lado do inatismo – “isso nasceu comigo e nada pode mudar”. Negativo.

Trazendo para o futebol o chavão mais próximo seria: “tenho o dom de jogar. Para que então treinar?!”. Não, mil vezes não!!!

Trazendo a discussão para a classe de treinadores é muito interessante observar a diferença de perfis. Por mais que todos estejam inseridos na mesma (dura!) realidade do mercado, cada um reage de uma maneira. E fora esse aspecto emocional, temos as ideias: todos estão passando pelos mesmos cursos da CBF, com acesso aos mesmos conteúdos. Porém cada um vai interpretar de uma forma e levar a cabo, nos treinos e campos de jogo, de uma maneira singular, baseado nas experiências prévias, forças de caráter e etc e etc…

Por tudo isso, toda e qualquer análise sobre determinado profissional deve ser criteriosa. Digo por parte de imprensa e torcida, mas fundamentalmente por quem tem a “caneta” nas mãos. Dirigentes devem ter muito conhecimento e sensibilidade para entender determinada estratégia para um jogo, qual o modelo, quais as metodologias de treinos, quais os pilares humanos do trabalho e várias outras coisas que são simples se olhadas de maneira pontual, mas que combinadas formam uma complexa e sistêmica rede, que não pode ser avaliada de forma rasa e passional.

Ainda estamos engatinhando nesse aspecto no Brasil. Se contrata um treinador por uma “embalagem”, por um “rótulo”, mas sem a real noção dos meandros do trabalho, e sem saber ao certo o que ele tem como filosofia. E para demitir o processo é o mesmo, porém com os traumas inevitáveis que todo desligamento carrega. Estudo e conhecimento são as chaves para bem avaliar. A parte da paixão deixamos para o torcedor!

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O futebol de rua e a literatura

Em textos anteriores abordamos as contribuições da Pedagogia da Rua para a educação e, sobretudo, debatemos o que a Rua tem a nos ensinar, para o bem ou para o mal, para uma prática que seja mais significativa e prazerosa para os meninos e meninas que praticam o futebol em nosso país. 

Como beneficiar-se da Pedagogia da Rua em aulas de Educação Física nas escolas, ou aulas de esporte em clubes e escolas de futebol, quando há impedimentos de aulas práticas provocados pela chuva ou, como ocorre atualmente, pela necessidade de isolamento social causada pela pandemia? Entre outras providências, podemos nos apropriar de uma extraordinária riqueza cultural da sociedade brasileira: nossa literatura, rica em textos sobre o esporte. Neste artigo, tomaremos como referência um de seus maiores expoentes: Luís Fernando Veríssimo.

Veríssimo pincelou em prosa o Futebol de Rua. Nossa proposta para este texto é abordar a crônica de Luís Fernando Veríssimo sobre o Futebol de Rua, discutindo-a à luz da Pedagogia. Não apresentaremos a crônica em sua totalidade, mas trechos dela para estabelecer com eles um diálogo.

Em uma aula de Educação Física na escola, em dias de chuva, se não podemos ocupar os espaços abertos (quadra, campo, pátio, ou até as praças e ruas, se necessário), o lugar, por vocação, da Educação Física, ficaríamos em sala, entre outras coisas, lendo as palavras do escritor gaúcho com nossos alunos e refletindo sobre elas. Por que nos causa tanto desassossego a chuva, quando temos um lugar abrigado para ler, escrever, contar histórias? Não somos “Veríssimos”, mas nós e nossos alunos vivemos nossas histórias, as que passaram e as que estão acontecendo. Sala de aula serve à Educação Física nessas ocasiões. Não é o nosso nicho, seguramente, e não é para a preferirmos ao espaço aberto, pois que o espaço aberto da Educação Física rompe com a arquitetura tradicional de salas e carteiras e poderia servir a uma revolução pedagógica. Não vamos à sala de aula por um motivo qualquer, mas vamos por Veríssimo! E, quando a chuva passar, certamente teremos muito gosto em sair da sala e bater nossa bola lá fora, riscando a quadra para que vire rua, e fazendo nossos pés correrem atrás de alguma coisa que role.

Logo no início de sua crônica, Veríssimo diz: “…existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno”. A Rua, no seu significado mais amplo, coloca-nos em pleno exercício do desenvolvimento da criatividade, da vivência do lúdico e do próprio gesto motor. Jogadores criativos se desenvolvem no ambiente da Rua e não nos clubes onde, cada vez mais, são privados de se divertir e improvisar com as bolas nos pés.

Ao ler com os alunos passagens como esta: “Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora”, começamos por aprender sobre a humildade, se visitamos a Rua. A Rua não tem compromisso com a educação formal, nem mesmo com formar para a vida, ela não se importa com o que vai acontecer no futuro. A pedagogia sim, é que deveria ser sábia o suficiente para ir à Rua aprender tudo o que ela tem a ensinar.  

Veríssimo se dedica, então, a descrever como seriam as “regras oficiais” do Futebol de Rua, caso elas existissem. Com alta dose de ironia, versa sobre a bola, as traves, o campo de jogo, o tempo das partidas, a formação dos times, o juiz, as interrupções, as penalidades, a tática, o intervalo, a justiça esportiva… cada “regra” traz inúmeros aprendizados do ponto de vista pedagógico, dentre os quais explicitaremos alguns.

 A bola é o elemento central de um jogo de futebol, certo? Errado! A bola oficial, para alguns, indispensável na escola ou nos clubes, é apenas um dos elementos que propiciam a materialização do jogo. Para Luís Fernando Veríssimo, “A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor”. Essa diversificação de objetos seria, ou não, fundamental para a construção de um maior e mais qualificado repertório motor?

Na mesma passagem há outro aspecto importante, típico do Futebol de Rua: a disputa de forças e o modo como ela é resolvida. Se não há bola, mas há a merendeira do irmão menor, por que não chutá-la? Ao falar das traves, apesar de destacar que elas podem ser feitas com o que estiver às mãos (na maioria das vezes com chinelos ou tijolos), o cronista ironiza dizendo que podem também ser feitas com as merendeiras do irmão menor ou até mesmo com ele próprio. Se a bola vai para debaixo do carro, quem busca? O irmão menor.  É isso mesmo; a Rua educa para o bem ou para o mal. Pode ser injusta, como na opressão sobre o irmão menor, sobre os mais fracos, mas deixa a lição de que há um jogo de forças em questão, que a Pedagogia da Rua tem que reconhecer e saber como tratar. A Rua nos apresenta cotidianamente uma disputa de forças que se traduz no espaço a ser utilizado para o jogo, na escolha dos times, nos equipamentos, nos acordos, enfim, em quase tudo que se refere ao Futebol de Rua. Já que no Futebol de Rua não há juiz, como se resolvem as discussões e discordâncias durante o jogo? Não raramente, como dito nesta crônica, “os casos de litígio serão resolvidos no tapa”. E os mais fracos, os menores, com frequência levam desvantagem.     

 Isso tudo se relaciona à autogestão do jogo, que a Rua nos ensina. Chega a nos impressionar a dificuldade que nossos alunos de hoje apresentam quando se trata de jogar sem a presença de um professor ou de um árbitro à beira da quadra/campo. Quando Veríssimo descreve as diversas ocasiões em que os jogadores, na Rua, resolvem facilmente os litígios, como entram em acordo com facilidade, como tornam desnecessária a presença de um juiz, ele desvela uma sabedoria que deveria servir de exemplo aos que praticam as pedagogias oficiais.

Outro aspecto que vale ser destacado na bela crônica de Veríssimo, é a Rua ser um espaço de todos, ainda que não livre das disputas que já mencionamos. “O número de jogadores em cada equipe varia, de um a 70 para cada lado”. Cabem todos, desde que o espaço permita. Cabem todos, mas não sem que, mais uma vez, a disputa de forças se manifeste. “Algumas convenções devem ser respeitadas. Ruim vai para o golo. Perneta joga na ponta, a esquerda ou a direita dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque”.

 Como esperamos ter explicitado, a educação da Rua é tão rica, e, por outro lado, tão subaproveitada, quanto as possibilidades de sua apropriação no ensino e prática do futebol são imensas. E a nossa literatura, em crônicas, prosas e versos – Veríssimo é somente um exemplo dentre tantos outros que temos disponíveis -, fortalece nosso entendimento acerca da importância da Rua, e daquilo que ela nos ensina para a prática do futebol nas escolas, clubes e “escolinhas”.