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A Fórmula 1 e o futebol

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Os esportes de alto rendimento dividem-se, basicamente, em dois grupos. Os individuais e os coletivos.

O futebol, por exemplo, é um esporte coletivo. Não existe um jogador campeão, mas sim uma equipe. O tênis, por outro lado, é um esporte individual (ressalvada a exceção da Copa Davis e, de certa forma, os torneios de duplas). Nesse último esporte, o atleta é considerado individualmente o campeão.

Nesta coluna, gostaria de usar um exemplo do futebol para fazer uma crítica à Formula 1.

A modalidade do automobilismo da Formula 1 possui atualmente um problema gravíssimo, que é o conflito entre ser um esporte individual ou um esporte de equipe, o que compromete, de forma inaceitável, o espírito fundamental do esporte da busca pela vitória.

Diversos males hoje reconhecidos e combatidos também afetam esse espírito da vitória. A má utilização das apostas desportivas, por exemplo, pode fazer com que um time entregue um jogo de propósito, o que é inaceitável. O doping, de outro lado, maximiza o espírito da vitória de forma desleal e prejudicial à saúde dos atletas: igualmente reprovável.

Pois bem. O conflito entre esporte coletivo e individual, presente hoje na Fórmula 1, também em nossa opinião deveria ser combatido. Quem paga ingresso para assistir ao evento, sai evidentemente decepcionado ao ver um piloto deixar o outro passar por questões estratégicas da equipe. E em um cenário pessimista, mas possível, essa atitude pode levar ao afastamento de torcedores, mídia e patrocinadores, minando a viabilidade financeira do esporte.

Pelos regulamentos da competição, a Formula 1 é um esporte individual, tanto que a atitude da escuderia em questão provocou a sua punição. Entretanto, o erro reside em premiar e reconhecer, de forma muito ostensiva, a melhor escuderia da competição, por pontos de seus pilotos.

É como se o prêmio de artilheiro do Brasileirão fosse algo muito relevante (principalmente em termos financeiros). Esse fato não tiraria o aspecto da coletividade do jogo, porém poderia provocar distorções. Ou então, em outra perspectiva, se premiassem ostensivamente o melhor país em termos de rendimento dos seus clubes nos torneios continentais.

Um exemplo bacana para o caso (mas triste por outro lado) é o que aconteceu em certa temporada no campeonato de futebol do Nepal (!!). Naquele país, em que o futebol é muito pobre, o artilheiro da competição leva um cobiçadíssimo carro do patrocinador do torneio.

Em um certo jogo de última rodada, em que um time “A” precisava vencer para não cair e o outro time “B” estava no meio da tabela e não dependia de resultado algum, o time A acabou vencendo por 9×8, tendo o artilheiro do time B feito os 8 gols e sagrando-se o artilheiro da competição.

Em outras palavras, os esportes coletivos devem premiar as equipes, e os individuais premiar os atletas, apenas menções a outros destaques marginais. De forma que o esporte impeça que o verdadeiro espírito do esporte mantenha-se intacto.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Fifa na contramão do mundo

Caro amigo, sabe quando um ator famoso, um político, ou mesmo um jogador de futebol, faz tanta, mas tanta besteira, que a gente até dúvida? E por vezes nos pegamos pensando se não o fazem pelo simples prazer de aparecer? E mais, já que não conseguem destaque só pelo que fazem de normal e coerente, acabam tomando atitudes que são totalmente contrárias ao bom senso?

Pois é. Imagino que a Fifa tenha adotado esta estratégia. Em nota do dia 21 de julho, a federação que rege o futebol divulgou que vai intensificar os testes com dois assistentes extras com vistas à melhoria da arbitragem.

Na nota referente ao encontro realizado no País de Gales na última semana, a International Football Association Board aprovou solicitações para a realização de testes com dois árbitros assistentes a mais no campo de jogo para as temporadas de 2010/2011 e 2011/2012.

Num mundo onde a capacidade intelectual, isto é, as pessoas (que aqui chamaremos de recursos humanos) está cada vez mais sendo valorizada e especializada, tirando-lhe o fardo de trabalhos que podem ser feitos com maior precisão e velocidade por recursos tecnológicos, a International Board vai na contramão.

Aqui faço um pequeno recorte no texto para justificar o parágrafo anterior. Muitas pessoas pensam, erroneamente, que a tecnologia vem substituir o ser humano. Seria um erro maior ainda atribuir essa afirmativa a incapacidade das pessoas de compreender o fenômeno, pois a primeira vista numa fábrica onde um computador substitui o trabalho de quatro funcionários, essa premissa estaria correta, concordam?

A questão é que devemos esquecer um pouco aquele pragmatismo que nossas professoras nos ensinaram nas tenras séries escolares, de que não era possível subtrair maçãs e somar abacaxis ao mesmo tempo.

Na verdade, o mundo contemporâneo exige que as maçãs subtraídas sejam comparadas com os benefícios dos abacaxis somados no processo. E antes que o amigo tome “guela abaixo” essa vitamina, explico. Quando um computador faz o trabalho de quatro funcionários, ele está fazendo o trabalho que podemos chamar de braçal, repetitivo, de pouco teor intelectual, ou ainda o trabalho complexo , que demoraria um bom tempo para nós seres humanos realizarmos (só lembrando que complexidade não é sinônimo de inteligência como infelizmente alguns pensam).

O que para alguns significaria a perda destes quatro funcionários, o mundo hoje deve encará-los como o ganho de quatro novos recursos intelectuais, ou seja, quatro pessoas que podem ser atualizadas e capacitadas para desempenhar atividades muito mais intelectuais do que braçais, envolvendo criatividade, solução de problemas, inclusive elaboração de novas máquinas e recursos tecnológicos.

E nesse sentido que a Fifa vai na contramão do mundo, ao invés de adotar recursos mais precisos e confiáveis do que o ser humano (embora alguns insistam em não perceber, o ser humano é passível de erro), prefere colocar novos assistentes ao e ignorar o fato de que a tecnologia é no mínimo um paradoxo do avesso.

Se para eles mais duas pessoas podem ajudar a minimizar os erros, como conduzir as diferenças nas interpretações de mais duas pessoas envolvidas no processo. Imaginemos uma bola que teria ultrapassado a linha de gol, dependo do ângulo, do posicionamento e da intenção do arbitro ou assistente, as opiniões serão diferentes ao passo que adoção de um recurso tecnológico tornaria o lance preciso e claro.

A entidade ainda fixou os seguintes critérios para o teste que visa a adoção dessa “inovação”, de acordo com o disponibilizado no próprio site da Fifa

1. Que ele seja realizado nas ligas e competições profissionais das federações nacionais ou em nível de confederação continental (apenas competições de clubes).
2. Que ele seja concluído a tempo de permitir que uma decisão seja tomada em 2012.
3. Que os custos adicionais de tal experimento sejam de responsabilidade da liga, federação nacional ou confederação continental em questão.
4. Que todas as partidas da competição em questão sejam apitadas com dois árbitros assistentes adicionais.

Para não nos alongar, me atenho a provocar o amigo a refletir sobre o item 3.

Um dos grandes argumentos daqueles que defendem é que a tecnologia não deve entrar na arbitragem por que encarece o futebol e seria privilégio apenas das ligas mais ricas, o que fere o tão transparente espírito democrático do futebol.

Assim que diferença tem em investir em desenvolvimento de tecnologia e aplicação do que adotar dois novos árbitros, em termos de custo um pode ser mais alto agora, mas ao longo do tempo é diluído já que o mais caro é o investimento inicial (tecnologia), enquanto o outro (dois árbitros) exige também custos de treinamento e capacitação num primeiro momento, mas não tem possibilidade de diluição ao longo do tempo.

Enfim, enquanto todos reduzem custos e aperfeiçoam processos, investindo em tecnologia e, consequentemente, em recursos intelectuais, o futebol descarta os recursos tecnológicos “investindo” em trabalho passível de erro, afinal, segundo dizem, o erro é um charme no futebol. Que não me venham falar isso quando meu time for prejudicado.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Goleiros: percepção e antecipação

O posicionamento no gol e as atitudes do goleiro são de grande importância para o seu rendimento e de sua equipe dentro de uma partida. Ele é o único que, durante todo o tempo, se encontra atrás de toda a equipe, observando o posicionamento de seus companheiros e dos adversários, podendo, assim, auxiliar e interferir tanto nos aspectos defensivos quanto ofensivos da sua equipe.

Percepção é basicamente um processo de organização de informações e que depende de ações e experiências passadas. A capacidade perceptiva se desenvolve paralelamente nos processos de aprendizagem e pode ser influenciada pelo nível de rendimento de fatores como atenção seletiva, capacidade sensorial de detecção de informação, memória e processos de processamento de informação no alto nível, como antecipação e predição.

Entende-se por antecipação o processo de resposta motora em função da ação do próprio jogador, do companheiro de equipe ou em função da ação do adversário. Isso implica dizer que, durante todos os momentos do jogo, o jogador deverá observar as ações de seus companheiros e adversários e com base nestas tomar decisões no intuito de executar uma resposta motora adequada que lhe permita se antecipar e deste fato tirar grande vantagem. A antecipação permite diminuir o tempo de resposta, porém, assume o risco de assumir uma resposta errada.

A antecipação, por exemplo, permite que um jogador, mesmo sendo “mais lento” do que o outro do ponto de vista fisiológico, possa atingir mais rapidamente uma área de jogo que lhe seja favorável, porque previu e antecipou a resposta. A capacidade de usar sinais antecipatórios para fazer previsões dos movimentos de jogadores e da bola, normalmente, é mais eficaz em atletas mais experientes.

Goleiros que alcançam alto índice em defesas de pênalti possuem alto capacidade de antecipação, aliado, claro, à velocidade de reação, explosão, elasticidade, dentre outros, já que a bola estará sobre a linha da meta em 0,5s, aproximadamente.

A qualidade das ações do goleiro depende diretamente de sua capacidade de observação. Em um pênalti, por exemplo, quando os sinais relevantes aparecem, o goleiro poderá relacionar as informações com o intuito de antecipar a possível ação do cobrador na penalidade máxima e, assim, encurtar o tempo com um “atalho”.

A capacidade de percepção e antecipação parece revelar-se um indicador fundamental para discriminar jogadores experientes ou inteligentes de jogadores principiantes ou pouco esclarecidos taticamente.


*Adriano Silva Soares é treinador de goleiros da equipe juvenil do Clube Atlético Mineiro, pós-graduado em Treinamento Esportivo (UFMG) e membro do GEAF

Contato: adrianounileste@yahoo.com.br

Leia mais:
Entrevista: Adriano Silva Soares, preparador de goleiros da base do Atlético-MG

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Jornalismo declaratório

Uma das grandes coisas da internet foi possibilitar que a notícia se propagasse de maneira tão rápida quanto o rádio, mas acessível até mesmo para quem está no ambiente de trabalho. Afinal, desde que o computador virou instrumento de trabalho, a internet passou a ser um meio de acesso à informação em tempo real.

Só que a transformação da realidade na cobertura jornalística mudou a forma como o jornalista passou a se comportar. A busca pelo “furo” tem sido paulatinamente substituída pela busca por audiência e pela velocidade na publicação da informação. Ao mesmo tempo, as fontes se tornaram mais bem preparadas para evitar cair em armadilhas.

Isso tudo leva a um novo cenário. Jornalismo, hoje, virou sinônimo de reprodução das declarações das fontes. A apuração da reportagem ficou em segundo plano.

O caso Muricy Ramalho e CBF evidencia isso.

Ricardo Teixeira disse que já estava tudo certo, restando o ok do Fluminense. Muricy disse, em linhas gerais, o mesmo.

A imprensa em geral já dava como fato consumado a efetivação do treinador do Fluminense na seleção brasileira.

E o que aconteceu depois?

A essência do jornalismo é a apuração. Apurar não significa reproduzir as frases das fontes, mas ir além da superfície.

O jormalismo declaratório sempre permeou o trabalho do jornalista de economia. E, agora, invadiu o esportivo.

É preciso ter mais gente que saiba mergulhar…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Biblioteca

Alongamento para todos os esportes

O livro traz uma série de 660 exercícios de flexibilidade que poderão ser utilizados no programa de treinamento de diversos esportes. Com a utilização e entendimento destes exercícios você poderá desenvolver programas para alunos iniciantes da hidroginástica,e ao mesmo tempo que estará apto a prescrever para atletas de alto nível da ginástica olímpica.

Com a aplicação dos diversos exercícios apresentados, existe a possibilidade da produção de diferentes aulas, motivando os alunos e provocando progressos na atividade praticadas por eles.

Sobre o autor

Écio Nogueira é professor da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro e tem diversos livros publicados.

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Biblioteca

Teoria e prática do treinamento esportivo

A participação no Esporte como uma forma de arte, direta ou indiretamente, continuará a crescer em todo o mundo, por causa do seu significado cultural. O mesmo é sentido em relação ao nosso país, onde, a cada acontecimento esportivo, há maior divulgação e envolvimento das pessoas. Com isso, aumenta a exigência de melhor preparação profissional daqueles envolvidos diretamente no processo esportivo.

Este livro tem como foco a preparação de alunos de graduação de Esporte ou de Educação Física, bem como aos atletas, treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas e médicos do esporte, com a finalidade de dar um entendimento básico do Treinamento Esportivo, seus conceitos, fundamentos, princípios e métodos.

Sobre o autor

Valdir Barbanti possui graduação em Licenciatura em Educação Física pela Universidade de São Paulo, mestrado e doutorado em Educação Física pela Universidade de Iowa.

Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Educação Física e do Esporte, com ênfase em Treinamento esportivo, atuando principalmente nos seguintes temas: esporte, treinamento, preparação física, aptidão física, desempenho motor.

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Maldito FC

O mês de julho de 2010 é o mês dos técnicos de futebol.

Não só aqueles que ocuparam os principais papéis na Copa do Mundo da África do Sul – Parreira, Dunga, Domenech, Löw, Del Bosque.

O espaço é também preenchido por Mourinho, cujos capítulos da história no Real Madrid recém começam.

Sem falar de Felipão, que retorna ao Palmeiras depois de alguns anos, onde obteve enorme sucesso, que o catapultou ao estrelato como treinador do Brasil e Portugal.

E que ocupa o primeiro lugar na preferência nacional – talvez da CBF – para assumir a vaga na seleção brasileira, até há pouco nas mãos do criticado Dunga.

Saibam todos que não há cargo profissional, na iniciativa privada, que receba mais pressão que a de técnico de futebol.

Seja de clube pequeno, médio ou gigante. Seja da seleção de Antígua e Barbados. Seleção nacional como Brasil, Argentina, Itália, Alemanha, Inglaterra então…

Nenhum presidente de empresa ou alto executivo tem receio de sair à rua, para os afazeres cotidianos, e ser interpelado – pacificamente ou de forma constrangedora – por fanáticos dos produtos da empresa, querendo satisfação sobre determinada estratégia de venda ou queda no balanço trimestral.

São e serão sempre ilustres desconhecidos do povo.

A trajetória de êxitos e fracassos na vida de um técnico de futebol é desvendada, brilhantemente, pelo filme inglês Maldito FC (Damned United), cuja inspiração foi a biografia de Brian Clough.

Brian foi um atacante mediano, apesar de sua média de gols por partida nos clubes que defendeu chegar a impressionar e que o levara ao English Team. Devido a uma séria lesão, interrompeu a carreira e passou anos difíceis de transição profissional até chegar ao cargo de técnico.

Seu grande feito fora levar o clube inglês Derby County ao título da segunda divisão do país em 1969, dois anos após assumir o trabalho. Em 1972, era campeão da primeira divisão e levava o clube à disputa da então Copa dos Campeões da Uefa.

De temperamento forte e, até mesmo, irascível, rompeu com o clube e seu auxiliar após as conquistas e passou certo período em baixa, para voltar em grande estilo em 1975.


 

O filme aborda o período no Derby County e no Leeds United – fracassado, de seis semanas – em 1974.

Brian aceitara o cargo de Don Revie, técnico que transformara o Leeds no maior clube inglês em seus 13 anos de comando e que assumiria o English Team.

Don Revie era o paradigma de sucesso e a obsessão de Brian ao mesmo tempo.
A obsessão por superar Revie lhe fez deixar de lado aquilo que o alçara ao estrelato: a convicção no seu método de trabalho, nos seus colegas de comissão técnica e no seu estilo de liderança.

Quis implementar muito rápido a transição entre o anterior e o novo. Não funcionou. O ser humano – e o jogador de futebol ainda mais – é dado à zona de conforto profissional…

Quando se deu conta dos equívocos, retomou as rédeas do sucesso e levou o Nottingham Forest, da segunda divisão à conquista de títulos na Inglaterra e, pasme, ao bicampeonato da Copa dos Campeões da Europa em 1979-1980.

Os extras contidos no DVD do filme exaltam as inovações e o pioneirismo no estilo de trabalho de Clough. Alguns ex-atletas comandados e dirigentes destacam o perfil vanguardista que adotava.

A equação para a montagem de uma grande equipe, como Dunga queria em 2010, como Mourinho e Felipão já alcançaram em sua carreira, necessita do fator equilíbrio.

Não bastam comprometimento, suor e inteligência. Pois, se a convicção do trabalho parte de premissas equivocadas, o resultado pode ser o precipício coletivo.

Brian Clough morreu em 2004 aos 69 anos.

Diz-se que ele era o melhor técnico que o English Team jamais teve…

Recomenda-se o filme para todos os técnicos. Do presente e do futuro.

Inclusive Felipão e José Mourinho. Conhecimento pela experiência dos outros também serve.

Recomendar para o Dunga seria óbvio demais.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Um relato sobre o processo de captação de talentos no futebol

Um dos aspectos mais importantes dos grandes clubes de futebol está relacionado à captação de talentos para compor suas categorias de base, e posteriormente formar esses atletas para ingressarem no profissional. Para entendermos melhor os caminhos atualmente traçados por esses candidatos a futuros atletas de futebol precisamos analisar as formas que costumam chegar esses garotos até os clubes brasileiros e iniciar os seus treinamentos junto às equipes de base.

Considerando que hoje esse processo de detecção difere em muito daqueles praticados anteriormente, e que cada vez mais, tem se tornado precoce e competitivo, em que a concorrência chega a ser absurda. Se pudéssemos ter acesso aos números de garotos avaliados anualmente nos grandes clubes em relação aos selecionados, chegaríamos certamente a esta conclusão.

O objetivo deste texto é relatar os diversos mecanismos de captação de talentos em prática nos grandes clubes do futebol profissional brasileiro. Dentre os mecanismos, destacamos cinco principais e dois secundários. Podemos destacar alguns dos principais: as avaliações “peneiras”; campeonatos e jogos amistosos; indicações; escolas licenciadas “franquias” e os observadores técnicos. Entre as secundárias, destacamos: as clínicas de futebol e o intercâmbio internacional.

As chamadas “peneiras” são um dos mecanismos mais conhecidos e utilizados no meio do futebol. Porém, é um processo empírico, baseado na observação dos treinadores em uma única situação (muitas vezes apenas de jogo e de curta duração). Neste caso, muitos clubes pré-selecionam alguns garotos para continuarem os testes por pelo menos uma semana no clube, ou mais um dia, no mínimo.

Uma das fontes de descoberta de novos talentos está nas diversas competições de base espalhadas pelo Brasil. Nelas os “olheiros” identificam garotos de bons níveis que podem integrar as categorias de base dos clubes. Muitos empresários/agentes também utilizam esse mecanismo como forma de captação para posteriormente intermediar junto aos clubes. Os jogos amistosos realizados com outros clubes/escolas tendem a ser outra forma de identificar atletas oportunizando a participação de um número maior de jovens ao invés de indicar um ou outro apenas.

Após vigorar a Lei Pelé Nº. 9615, a participação de “procuradores” no futebol tem sido cada vez maior. Assim como os clubes, os empresários se tornaram representantes e intermediadores de atletas desde as mais precoces idades. Deste modo, os clubes se viram obrigados a firmar parcerias com esses agentes.

As indicações, sem dúvida, têm se tornado uma das melhores formas de captação de talentos no futebol. Muitas vezes são garotos que já passaram por etapas anteriores e por outros clubes. Possuem uma experiência e um nível de qualidade maior, e por isso estão mais preparados para enfrentar as rotinas de formação de um atleta de base.

Atualmente, os grandes clubes brasileiros têm institucionalizado as “escolas licenciadas” que funcionam como franquias ou chamadas escolas oficiais de futebol. Esta também tem sido uma maneira de avaliar e captar novos talentos para as categorias de base. Esta proposta tem atraído muitos garotos a se matricularem nas escolas oficiais com o objetivo de se tornarem atletas de base e futuramente profissionais dos clubes.

Por último, dentre as principais, estão os observadores técnicos, na maioria das vezes, ex-atletas dos clubes que são contratados pelo departamento de futebol para observar garotos por todo o Brasil. Os clubes possuem projetos para constituir uma espécie de setor de captação autônomo. Pessoas com experiência de atletas e treinadores para ocuparem essa função e compor a equipe de trabalho dos clubes brasileiros. Muitos destes “olheiros” têm baseado seus trabalhos apenas na observação como modelo empírico, sem utilizar critérios ou protocolo de avaliação com bases científicas que possam identificar e selecionar novos talentos.

Hoje, muitos clubes possuem projetos de intercâmbio e clínicas de futebol como forma de sustentação financeira com interesses econômicos, nos quais surgem garotos com potencial para integrarem as equipes de base dos clubes. Entre eles, atletas estrangeiros que podem ser inscritos nas federações e participam de competições oficiais. Os garotos estrangeiros vêm ao Brasil principalmente com objetivo de aprenderem e aperfeiçoarem a prática do futebol.

Ao considerar os mecanismos de captação de atletas no futebol apresentados nesse texto, como sendo de extrema importância para os clubes, assim como o processo de formação desses potenciais atletas, torna-se necessário um estudo mais apurado sobre os critérios de captação de talentos dos principais clubes do futebol brasileiro, a fim de precisar melhor essas formas de identificação do talento. Além disso, minimizar a margem de erros na tomada de decisão no momento da escolha e até criar-se, talvez, um protocolo de detecção no futebol com base nos critérios técnicos utilizados pelos profissionais que desempenham essa função, seja por parte dos observadores técnicos ou empresários.

Destas questões, podemos vislumbrar ao menos dois estudos que se relacionam ao processo de captação mais eficiente, ou seja, o mecanismo que mais aprova atletas para as categorias de base dos grandes clubes brasileiros. E ainda, identificar características particulares nos métodos adotados pelos profissionais envolvidos nesta função nos clubes de futebol.

Essas são algumas das questões a serem estudadas e investigadas mais profundamente na maneira de captar e formar novos talentos.

Bibliografia

Paoli, P.B.: Os Estilos de Futebol e os Processos de Seleção e Detecção de Talentos. Rio de Janeiro; 2007. [Dissertação de Doutorado – Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação Física da Universidade Gama Filho].


*Fabrício Moreira é coordenador do grupo PUBLIF e autor do livro “Futebol: Uma visão da iniciação esportiva”.

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O arco e a flecha, o futebol e o treino analítico

Recentemente no Café dos Notáveis, um visitante empolgado por conhecer lugar tão ilustre, após alguns minutos escutando de canto uma conversa entre dois seguranças do Café (dois “caras” que se vestem invariavelmente com ternos italianos de um botão, de cor marrom metálico, e sapatos bicolores – marrom e branco) – descrevo parte de suas vestimentas para ilustrar os carismáticos, engraçados e ácidos homens que cuidam da segurança do Café desde sua “fundação” – resolveu participar e fazer alguns apontamentos que representavam sua opinião sobre o assunto.

Os seguranças (nesse caso o Duk Dúvida e o Tom Certeza) falavam sobre como eram bons os arqueiros que disputaram o último campeonato de arco e flecha.

Para se ter ideia, na última rodada de flechadas, os três finalistas (que eliminaram juntos mais de 200 participantes) tiveram que atirar mais de 50 flechas cada um, em um alvo marcado a 30 metros, até que chegassem ao vencedor da competição.

Tom, que não tinha dúvidas comentava com Duk, que não tinha certezas, que ao certo aqueles arqueiros deviam atirar mais de 500 vezes em um dia, para ficarem com a “mira” refinada e quase tornarem impossível qualquer erro.

Duk, que tinha muitas dúvidas, achou desta vez que Tom devia estar certo; afinal, para acertar alvo tão minúsculo em considerável distância (segundo o entendimento deles) realmente o número de repetições que um arqueiro devia realizar em um dia de treinamento não poderia ser menor.

Repetir, repetir e repetir e só assim chegar à excelência, assim como disse certa vez Platão; ou Sócrates – talvez, quem sabe Aristófanes – pensou, mas sem certeza, o segurança Duk.

O fato é que o empolgado visitante, do qual não me lembro bem o nome, logo se intrometeu no debate entre Tom e Duk e, cheio de convicção, disse:

– Ora, senhores… É o que eu sempre digo sobre o futebol. Jogador para ficar bom tem que repetir os fundamentos até a exaustão. Tem que passar, chutar e cabecear duzentas vezes por dia se for preciso. Se os arqueiros para ficarem bons atiram quinhentas vezes em um dia de treino, tentando acertar o alvo, o mesmo vale para o nosso futebol!

E emendou:

Não é possível ensinar, trabalhar e aperfeiçoar passes ou qualquer outro fundamento, com jogos adaptados, reduzidos, direcionados, conceituais, específicos, ou seja lá quais forem… Tem que repetir o movimento e ponto!

Duk, que não tinha certeza, depois de ouvir atentamente as palavras do visitante, pensou que talvez ele estivesse certo. Mas tinha muitas dúvidas, principalmente porque um arqueiro treina quinhentas vezes (ou seja lá qual for o número), a fazer exatamente aquilo que fará quando estiver competindo – exatamente o mesmo. É concentrar, mirar e atirar (sempre da mesma distância, com o mesmo equipamento, com as mesmas condições competitivas de luz e vento).

Então, colocou à prova seu breve pensamento e suas rápidas e incertas conclusões.

Tom, que também ouvira tudo com bastante atenção, olhou para o visitante e com toda calma que lhe é característica, disse que repetir gestos é diferente de repetir ações, e que no caso do arqueiro, gesto e ação estavam carregados de um único significado e intenção, que era o de acertar a flecha no alvo.

Disse que conhecia muitos arqueiros, inclusive um dos finalistas da competição, e que jamais havia visto um deles treinar quinhentas repetições de empunhadura do arco, separada das repetições de puxada da corda do arco, separada da própria flecha ou da mira ao alvo.

Concluiu que toda repetição se concentrava em torno do significado do movimento em sua totalidade e intenção, que era o de atirar a flecha, com o arco, no alvo.

E ainda acrescentou:

– Então, se formos transferir seus apontamentos sobre o arco e flecha ao futebol (disse ao visitante), esteja certo de que eles reforçam justamente a necessidade de que no futebol, para ensino e aperfeiçoamento das habilidades básicas do jogo, devemos nos atentar para ele (o jogo) e para as ações e seus significados. Isso quer dizer que ao criarmos jogos que exijam dos jogadores criatividade para resolver problemas específicos, parte fractal desta solução estará também na habilidade técnica básica que se manifesta no jogo como ferramenta para dar solução a eles (aos problemas).

– Isso quer dizer que “repetir” ações de jogo, com toda sua circunstancialidade e imprevisibilidade, pode melhorar, dentre outras coisas, as habilidades técnicas básicas? (perguntou Duk).

– Claro que sim!!! (respondeu Tom).

O visitante, que escutava tudo atentamente em silêncio, olhou para Tom e para Duk, deu um suspiro, fez uma cara de desconfiança e resolveu abandonar o debate. Afinal, pensou ele, realmente Pelé, Zico, Maradona, Romário, Ronaldos, Messi e tantos outros deviam ter aprendido o que sabiam nas peladas de rua ou de terreno baldio, e não repetindo passes dois a dois festejando a monotonia. Mas esses eram craques. Nasceram assim. Não precisavam de treino… E além do mais (continuando com suas introspectivas reflexões), explicar isso para dois seguranças não ia ser fácil…

Deixou pra lá e foi embora.

Tom olhou para Duk e, com ar sereno, disse:

– É, caro amigo Duk, a verdade está em como enxergamos o mundo que está ao nosso redor… Você já leu o “Pequeno Príncipe”?

– Aquele em que as pessoas acham que o desenho da cobra que engoliu um elefante é o desenho de um chapéu? (perguntou Duk).

– Esse mesmo. Para alguns sempre vai ser um chapéu. Para outros uma cobra que engoliu um elefante…

E assim encerraram a conversa para receber um dos Notáveis que estava a chegar…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Na mesma

No ano passado, eu fiz um estudo bem simples que projetava o balanço anunciado do clube de futebol com o maior faturamento no país no ranking das maiores empresas brasileiras produzido pela revista Exame. Na época, o São Paulo, com um faturamento de aproximadamente R$ 158 milhões, ficava na 1195ª posição, empatado com uma usina hidrelétrica mato-grossense que possuía seis funcionários. A idéia era mostrar que apesar de ser extremamente badalado, o negócio do futebol em si não é muito grande e está longe de gerar tanta receita quanto a maioria das pessoas tende a imaginar.

Um ano depois, o São Paulo não é o clube que mais fatura no país. Com a volta à Série A, Ronaldo e patrocínios, o Corinthians ultrapassou o seu rival e se tornou o clube que mais faturou em 2009, com R$ 181 milhões. O São Paulo caiu pra terceiro, com R$ 174,8 milhões, um acréscimo de 10% em relação ao ano anterior, e o Inter ficou em segundo, com R$ 176,2 milhões.

Apesar da evolução financeira, o São Paulo caiu de posição na projeção do ranking da Exame. Se em 2008 o clube foi a 1195ª organização que mais faturou no país, em 2009 ele foi ultrapassado por oito empresas e caiu para a 1203ª posição, ficando entre a Camaquã Alimentos, empresa gaúcha de 179 funcionários localizada a 130km ao sul de Porto Alegre e especializada em arroz parboilizado, e a Pioneiros Bioenergia, usina de derivados da cana-de-açúcar localizada no interior paulista.

O Internacional, que ficaria na 1201ª posição, faturou um pouco a menos que Rivelli Alimentos, empresa de Barbacena, Minas Gerais, que é especializada em frango e patrocinadora do América-MG, e um pouco a mais que a Sandvik Mgs, mineradora sueca com base em Guarulhos que, possivelmente por conta do desquecimento da economia mundial, teve uma redução de mais de 50% do faturamento em relação a 2008.

Curiosamente, apesar de o Corinthians ter faturado em 2009 R$ 23 milhões a mais que o São Paulo faturou em 2008, o clube ficou exatamente na mesma posição do ranking da Exame que o campeão de faturamento do ano passado, a 1195ª posição. Isso deixou o clube paulista entre a Alcoazul, mais uma usina de álcool, açúcar e biodiesel, que fica em Araçatuba, e o Hiper Moreira, de Goiânia, que, com uma única loja de 11 mil metros quadrados de área de venda divididos em dois andares, é, aparentemente, o maior hipermercado regional do Centro-Oeste do Brasil.

O fato de o clube que mais faturou do Brasil ter mantido a mesma exata posição projetada no ranking da revista em dois anos seguidos mostra que, se não houve grandes avanços comerciais no futebol brasileiro, pelo menos os clubes estão acompanhando o crescimento do mercado nacional. Ao mesmo tempo que isso é bastante positivo, o fato também consolida a ideia de que o mercado do futebol no país (e fora dele) é pequeno e gera muito mais exposição do que dinheiro.

Ademais, mostra que a preocupação da indústria do futebol brasileiro como um todo não deve ser pautada pelas possibilidades de ganhos financeiros, mas sim no controle crescente e desenfreado dos seus gastos, principalmente com salários e valores de transferência. Existe um nítido teto de receita que pode ser atingido pelos clubes de futebol do Brasil. O buraco dos custos e das dívidas, porém, parece ser cada vez mais profundo.

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Depois de uns quatro anos escrevendo neste espaço quase que ininterruptamente, vou pegar umas pequenas férias de três semanas. No interim, você pode acompanhar alguns devaneios de 140 caracteres pelo Twitter em @oliverseitz. Nos vemos em breve. Até.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br