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Moral hazard e Fair Play Financeiro da CBF: Flexibilizar o passado sem enfraquecer o futuro

Por: Davi Figueiredo

Um dos argumentos mais relevantes quando se discute flexibilização regulatória é o chamado moral hazard, ou risco moral, que ocorre quando um agente, acreditando que poderá ser protegido das consequências de suas decisões, passa a assumir riscos maiores do que assumiria se tivesse de suportar integralmente seus efeitos.

No contexto do Fair Play Financeiro da CBF, a preocupação é legítima.

Afinal, se um clube puder assumir obrigações financeiras acima de sua capacidade e, depois, contar com alguma forma de flexibilização, o sistema pode perder força justamente onde deveria produzir disciplina.

Ocorre que flexibilizar uma regra de transição não significa necessariamente enfraquecer o sistema. Algumas vezes, pode ser justamente o que preserva sua racionalidade.

Com efeito, em determinadas circunstâncias, conceder mais tempo para que um clube se ajuste pode proteger melhor a sustentabilidade financeira do que puni-lo por não conseguir absorver imediatamente um impacto que não provocou.

Não se trata de anistia, mas do reconhecimento que preservar a disciplina financeira pode exigir, excepcionalmente, a adequação dos meios e prazos para alcançá-la.

É justamente aqui que começa o verdadeiro teste de maturidade do sistema, uma vez que sustentabilidade financeira não significa insensibilidade à realidade econômica.

Vale lembrar que o Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (RSSF), mais conhecido como Fair Play Financeiro da CBF, entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026, inaugurando um novo marco regulatório para a gestão financeira dos clubes, com requisitos de solvência, sustentabilidade, controle de custos com elenco e endividamento de curto prazo, além de um sistema próprio de monitoramento e sanções.

Para a discussão em questão, merece destaque o requisito de solvência, que exige dos clubes a inexistência de dívidas em aberto perante outros clubes, atletas e demais profissionais (staff), bem como perante o Poder Público, especialmente quanto a tributos e obrigações sociais.

Os efeitos decorrentes do descumprimento desse requisito são distintos conforme as obrigações tenham sido constituídas antes ou depois da entrada em vigor do RSSF, aspecto central para o debate sobre a flexibilização do período de transição.

  • As obrigações contraídas antes de janeiro de 2026 pertencem a um ambiente anterior à entrada em vigor do regulamento. São passivos constituídos sob outra realidade regulatória, muitas vezes acumulados ao longo de anos, herdados de administrações anteriores e inseridos em ecossistema marcado por elevada interdependência financeira entre os clubes. Para esse estoque anterior, foi estabelecido um período de transição até 30 de novembro de 2026, durante o qual o descumprimento do requisito de solvência, isto é, a existência de dívidas vencidas e não regularizadas, fica sujeito, em regra, apenas à sanção de advertência pública. Encerrada essa transição, porém, as mesmas obrigações históricas passam a estar expostas ao regime sancionatório completo, que pode envolver multas, retenção de receitas, transfer ban, dedução de pontos, exclusão de competições e, no limite, rebaixamento.;
  • Já as obrigações assumidas a partir de janeiro de 2026 foram contraídas sob o novo regime. A partir daí, as regras estão postas, os critérios de solvência estão claros e os clubes conhecem previamente as consequências do inadimplemento. Para essas “dívidas novas”, a aplicação plena das sanções desde o início parece não apenas legítima, mas necessária para conferir credibilidade ao Fair Play Financeiro.

É nesse ponto que o moral hazard encontra seu limite: não há razão para proteger decisões financeiras tomadas quando as novas regras já estavam claramente na mesa.

O debate sobre flexibilização deve, portanto, permanecer concentrado no estoque anterior a 2026. Não para eliminar sua obrigação de pagamento, nem para criar uma anistia, mas para evitar que passivos formados sob um regime anterior saltem, em apenas onze meses contados a partir da vigência do novel regulamento (janeiro/26), de um período de adaptação para sanções capazes de atingir diretamente a atividade esportiva do clube.

Uma coisa é administrar a transição do passado. Outra, muito diferente, é tolerar novas infrações depois que as regras já passaram a valer em sua plenitude.

É justamente a preocupação dessa passagem abrupta, de uma proteção transitória para todo o arsenal sancionatório, que merece ser debatida quando se trata de dívidas constituídas antes da existência do novo sistema.

Já estender a mesma flexibilização às dívidas novas, assumidas sob regras conhecidas, seria outra coisa, pois poderia transmitir ao mercado a mensagem de que as consequências regulatórias são negociáveis mesmo quando o risco foi assumido conscientemente.

A discussão ganha ainda mais relevância diante de uma mudança profunda no ambiente econômico do futebol brasileiro e que tem sido objeto de inúmeras manchetes recentemente: a ruptura da estrutura de receitas associada às bets.

Publicada no último dia 25 de setembro, a MP nº 1.394/2026 proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil e determinou o encerramento das autorizações existentes. Na prática, isso atinge também receitas de patrocínio que já integravam o planejamento econômico e orçamento de diversos clubes.

E a questão é maior do que as bets, pois o impacto não se limita ao patrocinador máster no uniforme.

Os impactos da repetina proibição podem se espalhar por toda a cadeia econômica do futebol, incluindo propriedades comerciais em placas de estádio, contratos operados por empresas de mídia e marketing, title rights de competições, premiações, ativações comerciais, direitos de transmissão e operações financeiras estruturadas sobre contratos de patrocínio.

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Quando uma fonte relevante de receita desaparece ou é severamente reduzida, o efeito não para no contrato original. Há um efeito cascata sobre todo ecossistema.

Um clube que deixa de receber pode atrasar o pagamento a outro. Uma competição com menor receita comercial pode reduzir sua capacidade de distribuir premiações. A perda de anunciantes relevantes pode pressionar o valor de propriedades comerciais e, por consequência, o valor econômico do próprio produto futebol.

Além disso, clubes que anteciparam recebíveis de contratos de patrocínio podem ter que renegociar operações financeiras construídas sobre fluxos que deixaram de existir nas condições originalmente previstas. Isso pode significar novos encargos, reforço de garantias, encurtamento de prazos e aumento do custo da dívida.

Em outras palavras, não se trata apenas de perda de receita. Pode haver também uma deterioração das próprias condições de financiamento.

Neste contexto, vale destacar que 86% dos clubes analisados nos trabalhos preparatórios do Fair Play Financeiro possuíam dívidas vencidas entre si, enquanto que no segundo ciclo de reporte de solvência ao respectivo órgão regulador do sistema [ANRESF], mais da metade dos 40 clubes das Séries A e B declarou débitos em aberto perante clubes, atletas ou poder público.

Há, portanto, um componente sistêmico que não pode ser ignorado. Quando clubes são simultaneamente credores e devedores uns dos outros, a solvência deixa de ser apenas uma fotografia individual e passa também a refletir a liquidez de uma cadeia econômica interdependente.

E ainda emerge uma questão de coerência regulatória. O próprio RSSF adotou transições graduais para seus demais pilares: o requisito de sustentabilidade caminha para aplicação plena apenas sobre dados de 2027 (com base em demonstrações financeiras a serem apresentadas em 2028); o controle de custos com elenco reduz progressivamente seu limite até 2028; e o requisito de endividamento de curto prazo percorre uma trajetória de adaptação até 2029.

Por que, então, o estoque de obrigações anteriores a 2026 deveria enfrentar uma transição substancialmente mais curta?

Logo, somada a este notório desafio estrutural dos clubes equacionarem dívidas de legado histórico, a Medida Provisória talvez represente o primeiro verdadeiro teste de estresse institucional do Sistema de Sustentabilidade Financeira do futebol brasileiro.

O problema regulatório que surge é sofisticado e traz consigo inevitáveis questionamentos:

  1. Como um sistema de Fair Play Financeiro deve tratar um clube que deixa de cumprir seus indicadores não exclusivamente por decisões de gestão, mas também em razão de choque regulatório superveniente?
  2. É razoável exigir que clubes cumpram exatamente o mesmo cronograma de transição concebido sob determinada estrutura de receitas quando o próprio Estado, durante essa transição, elimina abruptamente uma fonte relevante dessas receitas?

Esse raciocínio não é incompatível com o espírito do Fair Play Financeiro. Ao contrário.

A própria experiência internacional sugere que considerar esse tipo de circunstância, de externalidade negativa, não é incompatível com a disciplina financeira.

O regulamento de sustentabilidade financeira da UEFA, que aliás serviu junto com outros modelos de ligas europeias como benchmark para o modelo brasileiro, permite expressamente considerar eventos extraordinários fora do controle dos clubes, situações de força maior e mudanças relevantes e imprevisíveis no ambiente econômico, compatibilizando a preservação da obrigação material e, ao mesmo tempo, recalibrando o tempo regulatório.

Em outras palavras, a experiência da UEFA mostra que flexibilidade regulatória e disciplina financeira não são conceitos incompatíveis. A experiência europeia sugere que um sistema de Fair Play Financeiro maduro não é aquele que aplica regras de forma indiferente ao contexto, mas aquele que consegue preservar a disciplina financeira mesmo quando precisa adaptar temporalmente sua aplicação.

Flexibilizar o prazo não significa flexibilizar o objetivo. Não por outro motivo, parte dos clubes das Séries A e B apresentará ofício à CBF com um pedido formal de revisão do prazo de transição aplicável às obrigações anteriores a janeiro de 2026 (e somente destas obrigações).

O pleito não nasceu da atual ruptura no mercado de apostas. Ele já se apoiava em um problema estrutural, já ilustrados aqui, como o volume de passivos históricos, a inadimplência cruzada entre clubes e a assimetria entre o curto prazo de transição da solvência e os cronogramas mais longos previstos pelo próprio RSSF para outros pilares.

O que mudou agora é que esse problema estrutural passou a conviver também com um choque regulatório superveniente de grande impacto sobre as receitas do futebol.

A lógica do ofício é, portanto, bastante objetiva. Não se pede a exclusão das obrigações, nem o afastamento do regime de solvência, mas a extensão do período de transição do estoque anterior a 2026, para que sua regularização ocorra em horizonte temporal mais compatível com a realidade financeira do segmento.

Isso aproxima muito mais o pedido de uma lógica de phased compliance do que de waiver.

Portanto, o pedido busca preservar a responsabilidade financeira, mas evitar que passivos constituídos antes da existência do novo sistema sejam submetidos, em prazo extremamente curto, a todo o arsenal sancionatório do Fair Play Financeiro.

A mudança regulatória nas bets não cria esse argumento, mas o torna ainda mais relevante, porque afeta materialmente receitas, liquidez, capacidade de refinanciamento e o próprio processo de reorganização financeira dos clubes.

Exigir que todo esse estoque de dívidas históricas seja integralmente equacionado em um intervalo muito curto pode transformar uma regra de transição em um mecanismo de punição retrospectiva.

Esse recorte, na verdade, reduz o moral hazard em vez de aumentá-lo.

A título exemplificativo das potenciais consequências aos clubes brasileiros caso não seja acolhido o pedido de extensão temporal, vale trazer o caso do Málaga.

No início da década de 2010, o clube espanhol recebeu forte aporte de seu novo controlador, contratou jogadores como Van Nistelrooy, Isco e Júlio Baptista e construiu rapidamente um projeto esportivo capaz de levá-lo, pela primeira vez, à Champions League.

Na temporada 2012/13, chegou às quartas de final e esteve a minutos de eliminar o Borussia Dortmund.

Enquanto vivia seu auge dentro de campo, porém, a fonte de recursos secou. Vieram atrasos salariais, dívidas vencidas com outros clubes e obrigações fiscais.

Dentro desse cenário, há um detalhe regulatório especialmente relevante. Naquele momento, o requisito de equilíbrio financeiro da UEFA ainda estava em período de adaptação. Mas, a proibição de dívidas vencidas [solvência] já estava plenamente vigente.

E foi justamente por esse requisito de solvência que o Málaga acabou sancionado. A punição foi severa com a exclusão das próximas competições europeias para a qual se classificasse nas quatro temporadas subsequentes e multa de € 300 mil.

Privado das receitas e da exposição proporcionadas pelas competições europeias, o clube que acabara de chegar às quartas da Champions foi obrigado a vender seus principais jogadores, entrou em forte retração esportiva, caiu para a segunda divisão em 2018 e chegou à terceira divisão em 2023.

Agora transportemos essa experiência para o Brasil. Imagine um clube que conquiste dentro de campo uma vaga na Libertadores, mas seja impedido de disputá-la em razão de dívidas constituídas antes de janeiro de 2026, quando o novo Sistema de Sustentabilidade Financeira sequer estava em vigor.

A consequência poderia reproduzir a mesma dinâmica observada na Europa.

Além da perda esportiva, o clube deixaria de acessar premiações da CONMEBOL, receitas de bilheteria, direitos de transmissão, valorização de patrocínios, exposição internacional e outras receitas associadas à competição. Poderia ainda ser pressionado a vender jogadores ou reduzir investimentos para recompor seu caixa, tornando a própria sanção um novo fator de deterioração de sua capacidade financeira e, quiçá, desportiva com desdobramentos imprevisíveis.

Surge, então, um paradoxo que merece reflexão. Uma sanção concebida para proteger a sustentabilidade financeira pode, se aplicada abruptamente a passivos históricos, retirar do clube justamente os recursos que poderiam ajudá-lo a recuperar sua solvência.

Logo, a pergunta não é se a solvência deve ser levada a sério. Deve.

A pergunta é outra: a partir de quando é legítimo aplicar toda a potência das sanções de um novo regime sobre um estoque de obrigações que nasceu antes dele?

É esse equilíbrio, levando ainda em conta os significativos impactos nas receitas dos clubes, que pode permitir ao Fair Play Financeiro brasileiro combinar realismo na implementação com rigor para as novas decisões financeiras.

Sem o receio da repetição. Para dívidas assumidas depois de janeiro de 2026, a resposta deve ser clara: as regras estavam na mesa. O clube conhecia o sistema, conhecia suas obrigações e conhecia as consequências. Aqui, o rigor deve ser pleno.

Para o passivo anterior, entretanto, uma transição mais longa não representa leniência. Representa reconhecer que não é razoável tratar da mesma forma quem herdou uma obrigação de um regime anterior, transformando passivos históricos em sanções esportivas potencialmente irreversíveis, e quem contrai uma nova dívida sabendo exatamente quais serão suas consequências regulatórias.

O desafio está justamente em evitar que passivos históricos, formados antes do novo sistema, sejam convertidos em sanções esportivas potencialmente irreversíveis sem uma transição adequadamente calibrada.

Se a CBF for sensível ao pleito dos clubes e seguir o caminho sugerido, o episódio poderá produzir algo maior do que uma simples prorrogação de prazo. Poderá estabelecer a primeira doutrina brasileira sobre como o Fair Play Financeiro deve reagir a passivos históricos, choques regulatórios e mudanças extraordinárias do ambiente econômico sem perder sua força disciplinadora.

Porque um sistema regulatório maduro não é aquele que nunca flexibiliza. É aquele que sabe exatamente o que pode flexibilizar, por quanto tempo e, sobretudo, o que não pode flexibilizar.

Está lançado o verdadeiro teste de maturidade do Fair Play Financeiro brasileiro.

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional..
Linkedin: linkedin.com/in/figueiredodavid/

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O futebol das relações: a vantagem socioafetiva em um jogo cada vez mais móvel

Por: Nicolau Trevisani

Nos últimos anos, o debate sobre o jogo passou a utilizar com cada vez mais frequência o conceito de vantagem. Busca-se criar superioridade numérica, posicionar melhor os jogadores, encontrar vantagens qualitativas, explorar vantagens cinéticas e organizar espaços de maneira que a equipe possa progredir e controlar o adversário. Esse avanço na compreensão do futebol é importante. Quanto mais conseguimos nomear e interpretar aquilo que acontece no campo, mais ferramentas oferecemos ao treinador e aos próprios jogadores.

Entretanto, entre tantas formas de vantagem discutidas, existe uma que talvez seja menos visível no quadro tático e, justamente por isso, por vezes subestimada: a vantagem socioafetiva.

Ela nasce da relação. Do jogador que conhece o tempo do companheiro. Do atacante que inicia um movimento porque reconhece, antes mesmo do passe, a intenção de quem conduz a bola. Do meio-campista que ocupa determinado espaço sabendo que outro jogador interpretará sua movimentação. Da cobertura realizada não apenas porque aquele comportamento estava previsto pelo modelo, mas porque existe uma compreensão compartilhada sobre como aquele grupo joga.

É o futebol construído também a partir da familiaridade.

Em um momento em que se discute muito a ocupação racional dos espaços e a criação de vantagens posicionais, talvez seja necessário recordar que o jogo não acontece entre peças. Acontece entre pessoas. E pessoas constroem relações, reconhecem padrões umas nas outras, desenvolvem confiança e acumulam experiências compartilhadas.

Isso não significa diminuir a importância da estrutura. Tampouco significa estabelecer uma oposição simplista entre um futebol posicional e um futebol relacional. A estrutura continua sendo fundamental para oferecer referências, organizar comportamentos e aumentar a probabilidade de determinadas situações aparecerem. O ponto é outro: nenhuma estrutura consegue antecipar todas as respostas exigidas por um jogo essencialmente imprevisível.

É justamente nesse espaço entre aquilo que foi organizado pelo treinador e aquilo que precisa ser resolvido pelos jogadores que a vantagem socioafetiva ganha força.

Dois atletas que acumularam experiências juntos desenvolvem uma espécie de repertório compartilhado. Reconhecem velocidades, preferências, intenções e até pequenos sinais corporais. Sabem quando determinado companheiro prefere receber no pé ou atacar a profundidade; quando uma condução provavelmente terminará em passe; quando uma aproximação significa apoio ou quando significa arrastar um adversário para liberar outro espaço.

Essa informação não aparece necessariamente no desenho tático, mas interfere diretamente na velocidade e na qualidade das decisões.

E talvez essa dimensão esteja ganhando ainda mais importância porque o futebol contemporâneo parece caminhar para estruturas cada vez mais móveis. Trocas de posição, perseguições individuais, rotações, conduções que rompem linhas, ataques constantes ao espaço e referências defensivas menos estáticas fazem com que o cenário mude em poucos segundos.

Quanto menos estática é a ocupação dos espaços, maior é a necessidade de os jogadores compreenderem não apenas onde deveriam estar, mas também o que os outros provavelmente farão.

Nesse contexto, conhecer o companheiro passa a ser uma vantagem competitiva.

O passe já não depende somente de enxergar um espaço. Depende, muitas vezes, de acreditar que o companheiro também o enxergou. Uma ruptura pode acontecer não porque alguém recebeu uma instrução específica para realizá-la naquele instante, mas porque dois jogadores reconheceram simultaneamente uma possibilidade. A ação coletiva nasce, então, de uma leitura compartilhada.

É por isso que, em determinados momentos, o entrosamento consegue compensar até mesmo uma aparente desvantagem estrutural. Uma equipe pode não ocupar determinado espaço da maneira considerada ideal e ainda assim encontrar uma solução porque seus jogadores conseguem reorganizar a situação por meio das relações. Da mesma forma, uma equipe pode estar perfeitamente distribuída no campo e encontrar dificuldades se os atletas ocuparem posições corretas, mas não conseguirem jogar uns com os outros.

Talvez exista aqui uma distinção importante: o posicionamento organiza possibilidades; a relação transforma possibilidades em ações.

Isso também ajuda a explicar por que algumas associações entre jogadores parecem sobreviver a mudanças de sistema, treinador ou posição. Existem duplas, trios e pequenos núcleos de jogadores que encontram soluções com uma naturalidade difícil de reproduzir apenas por meio da prescrição. Não se trata de algo místico. Trata-se de informação acumulada pela convivência dentro do próprio jogo.

Para o treinador, essa discussão traz um desafio interessante. Se a vantagem socioafetiva nasce do conhecimento entre os indivíduos, como desenvolver relações sem transformar essas relações em movimentos previamente determinados?

Talvez a resposta esteja menos em ensinar sequências e mais em criar contextos. Colocar jogadores diante de problemas que precisem resolver juntos. Permitir que determinadas associações acumulem experiências. Organizar tarefas que preservem liberdade de decisão e, ao mesmo tempo, aproximem atletas cujas características possam se potencializar mutuamente.

Nesse sentido, treinar uma equipe não é somente distribuir funções. É também favorecer conexões.

Isso tem implicações inclusive na montagem de elenco. Nem sempre reunir individualmente os melhores jogadores disponíveis produz a melhor equipe possível. Características precisam conversar. Tempos precisam se encontrar. Jogadores precisam reconhecer no comportamento do outro possibilidades para manifestar as próprias virtudes.

A vantagem socioafetiva, portanto, não deve ser entendida como substituta das vantagens numérica, posicional, qualitativa ou cinética. Elas podem coexistir e se potencializar. Uma boa estrutura pode aproximar jogadores que se entendem; uma relação consolidada pode permitir que uma vantagem posicional seja percebida e explorada mais rapidamente; uma superioridade qualitativa pode se tornar ainda mais relevante quando o jogador que recebe a bola sabe antecipadamente como seu companheiro reagirá à jogada.

O erro talvez esteja em acreditar que organizar melhor o espaço torna menos importante organizar – ou permitir que se organizem – as relações.

Em um futebol cada vez mais móvel, no qual posições são frequentemente pontos de partida e não destinos permanentes, o conhecimento mútuo tende a adquirir ainda mais valor. Quando o cenário muda constantemente, a equipe precisa de referências. E algumas das referências mais poderosas podem estar justamente nos próprios companheiros.

O modelo de jogo continua tendo enorme importância. Os princípios continuam funcionando como uma linguagem comum. A organização posicional continua oferecendo referências fundamentais. Mas nenhuma dessas ferramentas deveria retirar do futebol aquilo que talvez seja uma de suas características mais fascinantes: são pessoas tentando resolver problemas junto com outras pessoas.

E, em um jogo cada vez mais móvel, talvez conhecer profundamente quem joga ao seu lado seja uma vantagem cada vez mais difícil de neutralizar.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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Ancelotti e a pressa infundada dos brasileiros

Por: Marcel Capretz

Carlo Ancelotti tem recebido muitas críticas pelo início claudicante no comando da seleção brasileira. Algumas tem fundamento, porque um ano de trabalho, mesmo com o espaçamento das convocações em datas fora de Copas, não é um período tão curto assim.

Mas a maioria dos apontamentos negativos ao técnico italiano vejo que é injusto. É preciso avaliar as coisas de forma ampla e contextualizada. Ancelotti, por mais vencedor que seja, não é um salvador da pátria. Um milagreiro. Não dá para imputarmos tantos anos de gestões ruins e desempenhos pífios dentro de campo ao treinador da seleção profissional, que é apenas a ponta do iceberg. Não vou nem voltar décadas na linha do tempo e puxar os mais de vinte anos que não ganhamos uma Copa.

Vou me ater apenas ao ciclo entre a Copa de 2022 e a Copa de 2026: três treinadores precederam Ancelotti, houve troca de presidente da CBF e uma geração de jogadores insegura e que parece não estar pronta mentalmente para assumir desafios com a camisa da seleção brasileira, apesar de um grande protagonismo nos respectivos clubes.

Nesse cenário caótico não é o treinador que chegará e em uma passe de mágica fará tudo mudar da água para o vinho em um curto espaço de tempo. O mal desempenho na Copa de 2026 deve servir de aprendizado. E os amistosos dos próximos meses serão sim bem ruins, porque trata-se de uma transição. Esperar qualquer coisa diferente disso não é para mim estar conectado com a concretude dos fatos.

Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/

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Quando o sonho de vencer começa a destruir quem sonha

Por: Tiago Corradine

Há uma pergunta que precisamos fazer com mais coragem: o que estamos fazendo com as crianças e os jovens em nome do esporte?

Os dois conteúdos que motivam esta reflexão expõem faces diferentes de um mesmo problema. De um lado, adultos que, nas arquibancadas, insultam, ameaçam, pressionam e transformam uma partida de futebol infantil em uma espécie de arena de sobrevivência emocional. De outro, treinadores e responsáveis que confundem autoridade com humilhação, disciplina com violência verbal e exigência com constrangimento.

Em ambos os casos, há uma criança ou um adolescente no centro, justamente quem deveria estar sendo protegido.

É preciso dizer o óbvio, embora o óbvio pareça cada vez mais esquecido: um treinador pode cobrar. Pode corrigir. Pode exigir compromisso, respeito, disciplina e concentração. Mas nenhum adulto, em hipótese alguma, tem o direito de humilhar uma criança para produzir desempenho. Gritos, xingamentos, ameaças e constrangimentos não são métodos de formação. São abusos de poder frequentemente disfarçados de “jeito de treinar”, “preparação para a vida” ou “necessidade de formar atletas fortes”.

Também não é aceitável que pais e outros adultos se comportem como se o resultado de uma partida justificasse qualquer atitude. Quando um responsável agride verbalmente um árbitro, hostiliza um adversário, ofende um treinador ou transforma o próprio filho em instrumento de sua frustração, não demonstra amor e respeito ao próximo, muito menos pelo esporte. Está ensinando que vencer, a qualquer custo, vale mais do que os processos de formação e aprendizados da vida.

E, quando ninguém intervém, o silêncio passa a funcionar como autorização.

A discussão sobre um cartão preto para afastar pais violentos pode ser importante por colocar o tema em evidência. Mas talvez o problema seja maior do que a cor de um cartão. Precisamos discutir quem educa, quem fiscaliza, quem denuncia e quem assume a responsabilidade de interromper comportamentos inadequados. Também precisamos compreender que a proteção das crianças não pode depender apenas da coragem ocasional de alguém. Ela deve fazer parte da cultura, das regras e das práticas de cada clube, escola, competição e família.

O esporte de formação não é uma versão reduzida do esporte profissional. Não é um mercado em miniatura. Não é uma vitrine para que adultos realizem seus sonhos interrompidos, conquistem prestígio ou obtenham retorno financeiro por meio do talento e do esforço de uma criança, ainda em processo de formação.

Ainda assim, muitas vezes é exatamente isso que acontece. A criança deixa de ser vista como criança e passa a ser tratada como promessa, ativo, investimento ou oportunidade. Seu corpo é controlado, sua rotina é ocupada, seus erros são expostos e suas emoções são ignoradas. Tudo em nome da performance e da rentabilidade que ela poderá proporcionar, se um dia chegar a ser um “jogador de futebol de sucesso”.

Mas o que é sucesso?

É chegar ao futebol profissional? É assinar um contrato? É ganhar dinheiro, títulos e visibilidade? É ser reconhecido por empresários, agentes, clubes e torcedores? Essas conquistas podem fazer parte de uma trajetória bem-sucedida, mas não deveriam ser o seu único critério.

Sucesso também deveria significar crescer com saúde, aprender a lidar com a frustração, construir autonomia, desenvolver responsabilidade, conviver com as diferenças e preservar a capacidade de sonhar sem ser destruído pela cobrança. Deveria significar tornar-se um adulto inteiro e não apenas um atleta rentável.

Porque pode haver uma carreira vitoriosa construída sobre uma infância adoecida. Pode haver um jogador tecnicamente excelente, mas emocionalmente fragilizado. Pode haver medalhas, contratos e troféus onde deveriam existir respeito, segurança e vínculos de confiança.

Nenhuma carreira esportiva compensa a perda da dignidade.

Nenhum resultado justifica o medo permanente de errar. Nenhuma promessa de futuro autoriza a violência no presente. E nenhum talento transforma uma criança em propriedade de quem a acompanha, treina, agencia ou sustenta.

O caminho para formar um jogador de futebol de sucesso não passa pela permissividade, mas tampouco passa pelo abuso. Passa por ambientes seguros, profissionais preparados, limites claros, comunicação respeitosa, acompanhamento psicológico, participação responsável da família e uma compreensão adequada do desenvolvimento infantil e juvenil. Passa, sobretudo, pela capacidade de reconhecer que cada fase da vida tem seu tempo e que acelerar a infância em nome de uma carreira pode significar comprometer justamente o futuro que se pretende alcançar.

É necessário proteger as crianças também daqueles que dizem agir “pelo bem delas”. Muitas violências chegam acompanhadas de boas intenções. O pai que afirma estar apenas cobrando. O treinador que diz estar preparando o jovem para o mundo. O empresário que justifica a pressão como parte do negócio. O dirigente que prefere não criar problemas. O espectador que vê, ouve e permanece calado.

A responsabilidade é coletiva, mas não é abstrata. Cada adulto precisa perguntar qual é o seu papel quando uma criança é ofendida, exposta ou submetida a uma pressão desproporcional. Quem presencia e não reage ajuda a normalizar. Quem normaliza ajuda a perpetuar. E quem perpetua participa da construção do ambiente em que essas crianças estão crescendo.

Que sociedade estamos construindo para as próximas gerações?

Uma sociedade em que a competência vale mais do que o caráter? Em que o resultado absolve a violência? Em que crianças são estimuladas a suportar tudo para provar que merecem uma oportunidade? Em que o fracasso é tratado como vergonha e o adulto se sente autorizado a ferir porque acredita estar investindo?

Ou uma sociedade capaz de compreender que formar pessoas é mais importante do que fabricar vencedores?

O esporte tem uma força educativa extraordinária. Pode ensinar disciplina, cooperação, persistência, respeito e responsabilidade. Pode ajudar uma criança a conhecer seus limites, superar dificuldades e descobrir possibilidades. Mas isso só acontece quando os adultos entendem que o principal objetivo não é controlar o sonho da criança e sim cuidar para que ela possa vivê-lo com liberdade, segurança e dignidade.

Antes de perguntar quantos gols um jovem marcou, deveríamos perguntar como ele está sendo tratado. Antes de avaliar seu potencial de mercado, deveríamos saber se ele está feliz, protegido e aprendendo. Antes de celebrar o atleta que ele pode se tornar, deveríamos nos comprometer com o ser humano que ele já é.

No fim, talvez a medida mais importante do sucesso não esteja no número de contratos assinados, mas na pessoa que permanece quando as luzes se apagam, os jogos terminam e os aplausos cessam.

Que ela seja capaz de olhar para a própria história sem precisar justificar as feridas como preço da vitória.

Porque formar um jogador pode ser uma conquista. Formar um ser humano, entretanto, é uma responsabilidade muito maior.

E nenhuma sociedade deveria aceitar que uma criança precise perder a infância para provar que merece vencer.

O JOGO É OUTRO!

Fontes que motivaram essa reflexão:

– Reel do perfil @vamoq.vamo no Instagram: https://www.instagram.com/reel/DdMzMdgTWA9/

– “Cartão preto para os pais? Talvez. Mas não é por aí que passa a solução”, de Vitor Santos  “Educar o sonho”: https://lnkd.in/p/dYzGwf6M

Tiago Corradine é Graduado em educação física pela UNICAMP, enxerga o futebol como ferramenta de transformação social e atua como nexialista — construindo pontes entre performance e formação humana. Com passagens por EUA, Espanha e Coreia do Sul, é especialista em desenvolvimento de atletas antifrágeis, gestão de escolas de futebol e consultoria para o Certificado de Clube Formador (FPF).
Linkedin: https://br.linkedin.com/in/tiago-corradine-3b19a884

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O Serviço Social na formação de atletas: o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) como instrumento de formação integral no futebol de base

Por: Fernando Martillis

O futebol ocupa lugar significativo na sociedade brasileira, constituindo-se não apenas como prática esportiva, mas também como espaço de construção de identidades, pertencimento e expectativas de mobilidade social. Para milhares de crianças e adolescentes, a possibilidade de ingresso nas categorias de base de um clube representa a concretização de um projeto que envolve sonhos individuais e, frequentemente, expectativas de suas famílias.

Esse processo, entretanto, é atravessado por importantes contradições. Embora as categorias de base tenham como finalidade a formação de atletas, seus processos institucionais permanecem fortemente orientados pela lógica do alto rendimento. Jovens jogadores convivem desde cedo com avaliações constantes, competitividade, cobranças por desempenho e incertezas quanto à permanência nos clubes e à possibilidade de profissionalização.

Ao mesmo tempo, chegam às instituições trazendo consigo trajetórias sociais diversas. Dificuldades financeiras, fragilização de vínculos familiares, afastamento precoce da família, defasagem escolar, situações de violência, condições precárias de moradia e demandas relacionadas à saúde mental são alguns dos elementos que podem atravessar a experiência de formação esportiva.

Compreender essas dimensões significa reconhecer que a formação de um atleta não ocorre exclusivamente dentro do campo. Desenvolvimento esportivo e desenvolvimento humano constituem processos relacionados, tornando necessária uma concepção de formação que considere adolescentes e jovens atletas como sujeitos de direitos e pessoas em processo de desenvolvimento. É nesse contexto que se insere a atuação do Serviço Social nas categorias de base.

Serviço Social e formação integral no futebol

O Serviço Social enquanto profissão possui como campo de intervenção as diferentes expressões da questão social e, no ambiente esportivo, pode contribuir para identificar e acompanhar situações que ultrapassam a dimensão estritamente esportiva. A atuação envolve a aproximação com atletas e famílias, acompanhamento educacional e social, fortalecimento de vínculos, articulação com redes de proteção e participação em processos interdisciplinares.

Essa perspectiva encontra respaldo no princípio da proteção integral de crianças e adolescentes estabelecido pela legislação brasileira e nas próprias transformações recentes relacionadas à formação esportiva. A Lei Geral do Esporte e as exigências destinadas aos clubes formadores reforçam que a formação de atletas deve contemplar condições adequadas de desenvolvimento educacional, social, físico e psicológico.

Nesse sentido, a presença de diferentes áreas profissionais nas categorias de base não deve representar apenas uma ampliação quantitativa das equipes. A interdisciplinaridade pressupõe capacidade de produzir leituras complementares sobre o processo de desenvolvimento do atleta e de construir estratégias integradas de acompanhamento.

No âmbito das categorias de base do Ceará Sporting Club, esse processo ganhou maior estruturação a partir de 2019. Em 2021, houve o fortalecimento das áreas de Serviço Social e Psicologia com a incorporação de novos profissionais e, em 2025, a inclusão de profissional da Pedagogia. Essa configuração ampliou as possibilidades de acompanhamento dos atletas e contribuiu para consolidar uma perspectiva de formação que busca articular desempenho esportivo, proteção social e desenvolvimento humano.

Foi a partir dessa experiência profissional e das demandas identificadas no cotidiano institucional que surgiu o Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva (IVS).

A construção do IVS

A atuação cotidiana do Serviço Social permite reunir uma quantidade significativa de informações sobre a trajetória dos atletas. Entrevistas, atendimentos, contato com familiares, acompanhamento escolar e articulação com outros profissionais possibilitam identificar situações que podem representar riscos ou fatores de proteção durante o processo de formação.

O desafio estava em sistematizar essas informações.

No ambiente do futebol, caracterizado por grande circulação de informações e necessidade constante de tomada de decisões, registros fragmentados podem dificultar tanto o acompanhamento longitudinal dos atletas quanto a comunicação interdisciplinar.

O IVS foi desenvolvido como um instrumento técnico-metodológico destinado a auxiliar essa sistematização. Sua finalidade é identificar fatores de risco e proteção presentes na trajetória dos atletas, permitindo ao Serviço Social organizar informações, estabelecer prioridades de acompanhamento e construir estratégias de intervenção.

Sua utilização não substitui o estudo social, a entrevista ou a análise profissional. Pelo contrário, o índice é construído a partir desses procedimentos e somente adquire sentido quando interpretado dentro da realidade concreta de cada atleta.

Metodologicamente, sua construção decorreu da experiência profissional desenvolvida nas categorias de base do Ceará Sporting Club, da observação sistemática das demandas recorrentes e do acompanhamento das dimensões sociais, familiares, emocionais e educacionais presentes na trajetória dos jovens atletas.

A aplicação ocorre após estudo social realizado por meio de entrevista individual conduzida pelo assistente social. Nesse momento, são levantadas informações sobre a trajetória do atleta, suas relações familiares, condições socioeconômicas, experiência educacional, condições de moradia, histórico esportivo e outras questões relacionadas ao processo de formação.

As informações são posteriormente inseridas em formulário eletrônico e sistematizadas em planilha, permitindo a composição do índice e o acompanhamento das situações identificadas.

As sete dimensões do IVS

O Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva está organizado em sete eixos:

  1. condição inicial de alojamento;
  2. estudo e escolaridade;
  3. situação financeira familiar;
  4. participação e vínculos familiares;
  5. saúde e saúde mental;
  6. condições de moradia;
  7. formação de base.

Cada eixo reúne indicadores relacionados a situações específicas da trajetória do atleta.

Na condição de alojamento, são observados aspectos relacionados ao afastamento familiar, adaptação institucional e integração social. No campo educacional, consideram-se frequência, desempenho, possíveis defasagens e relação do jovem com sua trajetória escolar.

A situação financeira permite compreender aspectos socioeconômicos que podem afetar o atleta e sua família, enquanto o eixo referente aos vínculos familiares considera presença, acompanhamento e qualidade das relações estabelecidas.

Saúde e saúde mental abrangem elementos relacionados ao bem-estar emocional, possíveis situações de sofrimento psicológico e aspectos comportamentais identificados durante o acompanhamento. As condições de moradia permitem observar características estruturais e territoriais, incluindo situações de vulnerabilidade e exposição à violência.

Por fim, a formação de base considera a trajetória esportiva anterior, experiências em outros clubes e aspectos relacionados à adaptação e ao desenvolvimento esportivo.

Os indicadores recebem pontuações de acordo com fatores de risco e proteção identificados. Enquanto determinadas situações aumentam o índice de vulnerabilidade, fatores protetivos podem reduzi-lo. O resultado permite classificar a situação acompanhada em quatro níveis: sem risco, risco leve, risco moderado e risco grave.

Essa classificação não pretende rotular o atleta ou produzir qualquer avaliação sobre seu potencial esportivo. Sua finalidade é exclusivamente subsidiar o acompanhamento social, contribuindo para estabelecer prioridades e identificar situações que necessitam de maior atenção.

Da identificação à intervenção

A principal contribuição do IVS não está na produção de uma pontuação, mas na possibilidade de transformar informações sociais em estratégias de acompanhamento.

A identificação precoce de vulnerabilidades permite que determinadas situações sejam abordadas antes de seu agravamento. Dependendo das necessidades identificadas, podem ser construídas estratégias envolvendo aproximação com familiares, acompanhamento escolar, encaminhamentos para serviços, fortalecimento de vínculos ou articulação com outros profissionais da instituição.

O instrumento também favorece a comunicação interdisciplinar. Serviço Social, Psicologia, Pedagogia, departamento médico, comissão técnica e gestão observam o atleta a partir de lugares profissionais distintos. A sistematização das informações sociais pode contribuir para que essas diferentes leituras dialoguem, respeitando os limites éticos e o sigilo das informações profissionais.

Outro aspecto relevante é a possibilidade de acompanhamento longitudinal. As condições sociais não são estáticas. Um atleta pode apresentar alterações importantes em sua realidade familiar, econômica, educacional ou emocional ao longo de sua permanência no clube. Por isso, o IVS não deve ser compreendido como fotografia definitiva da situação social, mas como instrumento inserido em um processo contínuo de acompanhamento.

Formação esportiva e desenvolvimento humano

A experiência de construção e aplicação do IVS reforça uma questão central: as condições de desenvolvimento esportivo não podem ser completamente dissociadas das condições sociais, familiares, educacionais e emocionais vivenciadas pelos atletas.

Um adolescente que deixa sua família para morar em um alojamento, por exemplo, não vivencia apenas uma mudança relacionada ao futebol. Ele passa por um processo de reorganização de vínculos, adaptação a uma nova rotina, construção de autonomia e convivência com expectativas sobre seu futuro.

Da mesma forma, dificuldades financeiras, defasagens educacionais, fragilidade dos vínculos familiares, exposição à violência ou sofrimento emocional não desaparecem quando o atleta entra em campo.

Reconhecer essas questões não significa estabelecer uma relação automática entre vulnerabilidade social e desempenho esportivo. Significa compreender que o atleta é um sujeito constituído por múltiplas dimensões e que um projeto de formação comprometido com o desenvolvimento humano precisa considerá-las.

É justamente nesse ponto que o Serviço Social pode oferecer uma contribuição específica ao futebol. Sua atuação permite inserir no processo institucional elementos relacionados às condições concretas de vida dos atletas, aos seus vínculos, à garantia de direitos e às redes sociais que os cercam.

O IVS constitui uma tentativa de transformar essa perspectiva em instrumento de trabalho.

Considerações finais

A formação de atletas no futebol brasileiro exige uma compreensão que ultrapasse a dimensão técnico-esportiva. Crianças, adolescentes e jovens inseridos nas categorias de base vivenciam simultaneamente processos esportivos, educacionais, familiares, sociais e emocionais que interferem em suas trajetórias.

Nesse contexto, o Serviço Social pode contribuir para a construção de práticas institucionais orientadas pela proteção social, fortalecimento de vínculos, promoção de direitos e acompanhamento das diferentes vulnerabilidades presentes no processo de formação.

A experiência de desenvolvimento do Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva demonstra a possibilidade de construir instrumentos específicos para a realidade do futebol, capazes de sistematizar informações, identificar precocemente situações de risco e subsidiar estratégias individualizadas de acompanhamento.

O IVS não deve ser compreendido como instrumento acabado. Trata-se de uma experiência construída em um contexto institucional específico, que necessita de avaliação contínua, aperfeiçoamento e futuras possibilidades de aplicação e validação em outras realidades esportivas.

Mais do que propor uma forma de mensurar vulnerabilidades, sua construção reafirma uma determinada concepção de formação.

Se o futebol dispõe atualmente de inúmeros instrumentos para avaliar o desenvolvimento físico, técnico, tático e esportivo de seus atletas, ampliar a capacidade de compreender suas condições sociais e humanas também deve fazer parte do processo formativo.

Uma formação esportiva comprometida com proteção integral e desenvolvimento humano demanda práticas institucionais interdisciplinares capazes de reconhecer adolescentes e jovens atletas como sujeitos de direitos em processo de formação social, educacional e humana.

Leia o artigo na integra aqui: https://docs.google.com/document/d/1TmZjcFGH16g-zZchJJlEC3s-OZiiBt1b/edit?usp=sharing&ouid=115013131826141164964&rtpof=true&sd=true

Fernando Martillis Assistente Social no Ceará Sporting Club. Mestre em Serviço Social (UECE). Pós-graduado em Didática do Ensino Superior e em Juventude no Mundo Contemporâneo. Graduado em Serviço Social pela UECE.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/fernandomartilis/

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O mapa do futebol está mudando

Por: Marcel Capretz

O mapa do futebol brasileiro está mudando. O que se consolidou na década de 60 com o que chegamos até aqui com os ‘doze’ clubes grandes do Brasil está se alterando na década atual.

Relembre que foi nos anos 60, por exemplo, que o Santos de Pelé se juntou ao trio de ferro da capital de São Paulo; que o Cruzeiro desbancou o América-MG e se consolidou como o grande rival do Atlético… Porém depois de quase setenta anos, com globalização, SAFs, mult-clubes e afins essa divisão ficou defasada.

Surgem outras variáveis que impactam muito mais no resultado final do que simplesmente o ‘peso’ da camisa, o histórico de títulos e até o número de torcedores. Como exemplo concreto: Bahia e Bragantino com seus modelos de gestão se consolidam como times de primeira divisão e que sempre brigam por vagas em competições internacionais.

Do outro lado, um Vasco da Gama, com uma torcida incrível, gigante e fanática, lutando praticamente todo ano para não cair para a segunda divisão. E se pegarmos os exemplos de Grêmio e Internacional veremos que o buraco é muito mais embaixo. Não é por acaso que o último grande título de um deles foi a Libertadores de 2017 com o Grêmio. Quase dez anos atrás… além de não terem torcidas nacionais, de faturarem menos em todos os aspectos do que os times da região Sudeste, eles ainda tem uma logística complicadíssima, por estarem no extremo do sul de um país continental. Aquela falta de descanso por uma viagem mais longa representa aquele um ponto que falta pra ganhar um campeonato de pontos corridos ou até para evitar um rebaixamento.

Entender que o futebol é algo dentro da sociedade e que ela tem mudado de maneira muito rápida nos dá a humildade de reconhecer que o futuro ainda não é algo totalmente nítido. Mas já está claro que aquele mapa dos anos 60 envolvendo doze clubes grandes não cabe mais nos dias de hoje…

Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/

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A CRIANÇA NO SEU TERRIÓRIO

um ambiente possivel para a infancia

Por: Thiago Filla de Almeida e Danilo Augusto Ribeiro

Temos pensado muito sobre o lugar que a criança ocupa dentro do esporte. Quanto mais tempo passamos nesse ambiente, mais nos convencemos de que precisamos fazer algumas perguntas que parecem simples, mas que talvez tenhamos deixado de fazer: para quem estamos fazendo esporte? Quem é a criança que está na prática esportiva? A criança que faz esporte hoje carregará quais valores para sua vida em sociedade?

Estas perguntas ganharam ainda mais sentido recentemente, quando um pai de uma categoria menor (de sub 6 a 13) questiona sobre resultados. A pergunta, por si só, é legítima. Os pais têm o direito de conhecer o projeto, saber como seus filhos estão sendo cuidados, quais são os objetivos da equipe e como a competição faz parte daquele processo. Mas aquela conversa levou a reflexão sobre até onde vai o papel dos pais e onde começa a responsabilidade dos demais adultos envolvidos no desenvolvimento esportivo de uma criança. Como estamos lidando com as expectativas parentais? Como nós, enquanto profissionais responsáveis por conduzir o processo esportivo, estamos nos posicionando frente aos questionamentos?

Pais têm um papel fundamental. São, muitas vezes, a principal referência daquela criança. São quem leva, busca, acompanha, incentiva, consola e comemora. Mas justamente por serem tão importantes, precisamos ajudá-los a compreender que ser pai ou mãe no esporte não significa ser treinador, dirigente, árbitro ou avaliador do próprio filho. Talvez o papel mais importante seja estar presente para que a criança possa ganhar sem se sentir superior, perder sem se sentir fracassada, errar sem sentir que decepcionou e, principalmente, praticar esporte sabendo que continuará sendo amada independentemente do resultado. Estamos preparados e temos consciência dos impactos que nossa conduta pode causar nas crianças?

Temos observado famílias reorganizando suas vidas inteiras em função da prática esportiva dos filhos. Pais que dividem a família para levar um menino para treinar em outra cidade; filhos muitas vezes morando longe da família, com terceiros, em busca de uma carreira esportiva incerta; crianças com agendas tomadas por treinos, jogos, viagens, campeonatos e avaliações, acompanhadas de uma expectativa cada vez mais precoce: “vai que ele vira jogador”. A lei geral do esporte (2023) e o Fifa Guardians (2026) são documentos que esclarecerão diferentes pontos sobre estas questões.

Mas e se ele só quiser jogar?

Não há nada de errado em uma criança sonhar em ser atleta. O problema começa quando o sonho deixa de ser dela e passa a ser dos adultos. Quando cada treino vira avaliação, cada jogo vira julgamento e cada resultado passa a ser uma medida do seu valor. O esporte, que deveria ampliar suas experiências, começa a ocupar toda a infância.

Também precisamos olhar para a agenda dessa criança. Ela realmente precisa de mais um treino? De personal? De academia? De atendimento individualizado? Precisa ocupar todos os espaços possíveis para não ficar “para trás”? Ou precisa de tempo para brincar, descansar, estar com a família, conviver com os amigos e simplesmente não fazer nada? Inúmeras pesquisas apontam diferentes fatores negativos quando se especializa precocemente uma criança. Para o professor Wilton Santana estamos num ponto de hiperespecialização precoce.

Fazer menos também pode fazer parte do processo de formação

Quando procuramos um engenheiro para construir uma obra, confiamos que ele sabe quanto de ferro, cimento e estrutura são necessários para que ela permaneça de pé. Quando vamos ao médico ou ao dentista, confiamos em sua formação e em seu conhecimento para orientar aquilo que precisa ser feito. Por que, quando colocamos nossos filhos em um projeto esportivo, tantas vezes temos dificuldade em confiar no profissional que estudou para trabalhar com movimento, esporte, aprendizagem e desenvolvimento?

É claro que os pais devem perguntar, acompanhar e participar. Mas precisamos recuperar uma relação que parece estar se perdendo: a confiança no conhecimento de quem conduz o processo. Perguntas aos gestores esportivos: como está sua relação com os pais/responsáveis pelas crianças que estão frequentando o seu projeto de Futebol/Futsal? Você faz reunião no início do semestre para apresentar as diretrizes metodológicas? Você promove encontros para apresentar e discutir o calendário e/ou possíveis competições a participar? O seu processo de desenvolvimento contempla encontros individuais com os pais que estão interessados em saber sobre o desenvolvimento do filho?

Se um professor permite que uma criança brinque, precisamos perguntar, antes de concluir que ele não está treinando. Se uma equipe perde uma partida, precisamos perguntar, antes de concluir que o trabalho está errado. Nem toda decisão pedagógica precisa coincidir com aquilo que o adulto gostaria. Estamos permitindo em nosso ambiente (interno e externo) que criança seja ela mesma?

É nesse ponto que precisamos falar do direito de brincar. João Batista Freire, Alcides Scaglia, Wilton Carlos de Santana e Carlos Rogério Thiengo, a partir de diferentes contribuições, nos ajudam a compreender o jogo como espaço de aprendizagem, criatividade, decisão, experimentação e autonomia.

Defender o lúdico não significa defender uma prática sem intenção pedagógica. Pelo contrário. Exige conhecimento, planejamento e uma concepção clara de infância. Brincar não é o oposto de aprender. Para a criança, jogar é perceber, decidir, errar, tentar novamente, criar e encontrar soluções. A criança vive plenamente o brincar, sem perceber o mundo à sua volta. Apenas sente e vive.

Recentemente, um aluno de licenciatura que participou de uma aula que estava participando de um curso relatou que estava tentando construir um ambiente mais lúdico, mas não conseguia sustentar essa posição dentro do projeto em que trabalhava. Isso me fez pensar: quando um professor decide defender a infância, quem sustenta esse professor? Qual é o seu propósito? Quais as referências que o guiam nessa caminho de “múltiplos” treinadores de futebol/futsal de arquibancada?

Não precisamos ser contra a competição. A competição também educa. Ensina a lidar com a vitória, a derrota, a frustração, as regras e as adversidades. Perder um jogo não é um erro pedagógico. O problema aparece quando a competição deixa de ser parte da experiência esportiva e passa a ser a finalidade da infância.

E precisamos falar sobre o erro. O jogador erra. O professor erra. O árbitro erra. Todos nós erramos. Como queremos formar jogadores criativos se não permitimos que experimentem? Como queremos ensinar autonomia se controlamos todas as decisões? E como queremos que uma criança aprenda a lidar com a frustração se os adultos não conseguem lidar com a frustração de vê-la errar? O ambiente criado pelo professor e pelo entorno esportivo deve encontrar as vontades da criança, e não afastá-las.

O recente episódio ocorrido em Santa Catarina, no qual um pai fez disparos contra o carro de árbitros, após discordar de uma decisão em uma partida de futsal infantil, nos obriga a parar. Não para transformar aquele caso em espetáculo, mas para perguntar: o que mais precisa acontecer para que decidamos agir? No carro dos árbitros poderiam estar seus filhos, também de 10 anos.

A violência extrema talvez seja a face mais visível de algo que começa muito antes: no grito, na humilhação, na desqualificação do árbitro, na cobrança excessiva e na ideia de que uma criança precisa vencer para justificar o investimento dos adultos.

Por isso, esse manifesto é principalmente aos pais.

Sejam apenas pais!

Perguntem ao filho se gostou do treino. Perguntem o que aprendeu. Perguntem se está feliz. Ou não perguntem nada, deixem que eles falem, se quiserem falar, e qualquer outra coisa. Estejam presentes quando ganhar e, mas também quando perder. Não transformem o caminho para casa depois de um jogo em um outro jogo. Não comparem seu filho com outra criança. Não preencham toda a agenda porque outro menino está fazendo mais. Conheçam o projeto, conversem com o professor e confiem no processo.

Seu filho não precisa que Você, seja também o treinador.

Ele precisa que você seja seu pai.

Não precisa que você explique cada erro depois do jogo. Precisa saber que pode contar com você depois dele. Não precisa que você resolva todas as suas dificuldades. Precisa aprender a enfrentá-las. Não precisa ganhar para fazer você feliz. Precisa saber que continuará sendo motivo de orgulho mesmo quando perder. Seja um bom ouvinte.

Aos professores, cabe defender o brincar com conhecimento e coragem. Aos gestores, construir uma cultura em que formação não seja apenas sinônimo de resultado. Às federações e organizadores, pensar competições que respeitem as diferentes etapas da infância. À arbitragem, compreender que, em uma quadra de crianças, o erro também faz parte do processo educativo. De punitiva já basta uma sociedade contraditória, quando não, hipócrita. A arbitragem deverá ser sempre educativa.

Todos somos agentes socializadores. Todos educamos pelas nossas atitudes.

Talvez seja hora de mudarmos algumas perguntas. Em vez de perguntar apenas “quem ganhou?”, perguntar “o que essa experiência produziu naquela criança?”. Em vez de perguntar “ele joga bem?”, perguntar se “ele continua gostando de jogar?”. Em vez de perguntar “ele tem futuro?”, perguntar se “está vivendo bem o presente?”. E, antes de perguntarmos que atleta queremos formar, perguntar que criança estamos ajudando a formar?

É por isso que defendemos uma ideia que consideramos cada vez mais necessária:

O TERRITÓRIO DA CRIANÇA.

Uma criança que possa brincar, experimentar, competir, errar, aprender, descansar, criar, conviver e sonhar. Que possa querer ser atleta, mas que não precise deixar de ser criança para tentar chegar lá.

O esporte pode ser um lugar de excelência sem deixar de ser um lugar de infância. Pode ensinar disciplina sem produzir medo, competição sem transformar adversários em inimigos e formar atletas sem deixar de formar pessoas.

Não permitamos que a pressa dos adultos roube o tempo da infância.

Porque a criança não precisa de uma infância mais produtiva.

Precisa de uma infância mais plena.

E talvez a pergunta que devêssemos levar para dentro dos clubes, associações, federações, escolas, universidades e arquibancadas seja:

O que mais precisa acontecer para que nós, adultos, decidamos finalmente respeitar a infância?

Referências

FREIRE, João Batista. Pedagogia do Futebol.

SCAGLIA, Alcides José. Pedagogia do Jogo.

SANTANA, Wilton Carlos de. Pedagogia do Futsal: jogar para aprender.

THIENGO, Carlos Rogério. Estudos sobre formação e currículo no futebol.

RIBEIRO, Danilo Augusto. Estudos relacionados à pedagogia, formação e esporte.

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

Danillo Augusto Ribeiro é Profissional de Educação Física com mais de 15 anos de experiência no ensino-treino de Futsal para crianças e jovens. Foi professor universitário na Universidade Norte do Paraná e coordenador técnico-metodológico da iniciação esportiva no Club Athletico Paranaense e no Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua como Analista Esportivo no Instituto Futebol de Rua, além de prestar consultoria em estruturação e reestruturação de processos em clubes, escolas e associações de futebol e futsal.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/danilo-augusto-ribeiro-0410321a3/

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Além das Quatro Linhas: O Brasil, as Commodities e a Nova Economia da Formação no Futebol

Uma reflexão inspirada no texto de Ana Teresa Ratti (Máquina do Esporte)

Por: Tiago Corradine

O debate recente das “novas moedas de valor” no futebol global, brilhantemente proposto por Ana Teresa Ratti em sua análise na Máquina do Esporte, nos obriga a encarar uma ferida histórica e estrutural do nosso esporte. Quando o mercado internacional contrata um atleta hoje, ele não busca apenas o drible vistoso, a velocidade pura ou o índice físico isolado. Em um cenário hiperconectado, onde softwares de scouting e inteligência artificial nivelam o acesso aos dados de desempenho, a vantagem competitiva muda de figura. O que se compra, cada vez mais, é a capacidade de adaptação, a inteligência emocional, a comunicação multilíngue, a resiliência cognitiva e a construção de um capital humano integral.
Contudo, ao olharmos para o espelho do futebol brasileiro, a reflexão ganha contornos dramáticos e nos empurra a uma comparação macroeconômica inevitável.

O Futebol Brasileiro e a Armadilha das Commodities

Historicamente, a matriz econômica do Brasil consolidou-se sob a lógica de um grande exportador de commodities: fornecemos matéria-prima de altíssima qualidade bruta (minério, soja, celulose, terras raras…) para que centros industriais externos realizem o refino, agreguem valor tecnológico e intelectual, e capturem a fatia mais robusta da cadeia de valor.

No futebol, o espelhamento desse modelo é quase cirúrgico. O Brasil continua sendo um celeiro inesgotável de talento natural, técnica instintiva e criatividade. Produzimos a “matéria-prima” em estado bruto. No entanto, o ecossistema nacional, pressionado por urgências financeiras crônicas e por um imediatismo sufocante, opera sob a lógica do extrativismo de curto prazo.

Nossos jovens talentos são “mercantilizados e exportados” precocemente, antes mesmo de terem sua maturação cognitiva, emocional e educacional consolidada. Chegam aos grandes centros europeus, como “diamantes brutos”. Lá, encontram ambientes sistêmicos capazes de “lapidar” não apenas o atleta dos 90 minutos, mas o indivíduo: desenvolve-se a cognição tática avançada, o domínio de idiomas, a gestão da imagem pública e a capacidade de tomada de decisão sob alta pressão. O resultado? A Europa “refina” o nosso talento, multiplica seu valor de mercado por cifras bilionárias e nos devolve o produto pronto apenas como espectadores do sucesso financeiro e simbólico que geramos na base.

Ecossistemas de Formação: Brasil versus Europa

Quando um clube brasileiro vende uma promessa precoce para pagar a folha salarial do mês seguinte, ele está, metaforicamente, queimando a safra do ano para comprar sementes que talvez nunca germinem. O foco exclusivo no resultado esportivo imediato e na vitrine de curto prazo negligencia dimensões fundamentais do desenvolvimento humano: identidade, autoconhecimento, inteligência emocional e instrução formal.

Como bem pontua a trajetória de jovens revelações destacadas internacionalmente, atletas que combinam excelência em campo com multilinguismo, pensamento crítico e até formações acadêmicas avançadas, o futebol de elite exige pessoas preparadas para lidar com a complexidade. Estudar, comunicar-se e compreender o próprio papel no ecossistema global não enfraquecem o atleta; pelo contrário! Potencializam exponencialmente o seu rendimento dentro das quatro linhas.

A Provocação Incontornável
Diante desse cenário, a pergunta que fica para gestores, formadores e acadêmicos do esporte é incômoda, mas incontornável:

Será possível alterar a cultura do futebol brasileiro enquanto estivermos ancorados em uma sociedade e em uma indústria estruturadas sob a lógica de commodities?

A resposta exige uma ruptura dolorosa, porém urgente. Mudar essa cultura significa abandonar o extrativismo predatório e transformar os centros de formação brasileiros em verdadeiros pólos de desenvolvimento intelectual, tecnológico e humano. Significa entender que investir em educação financeira, no ensino de idiomas, na comunicação e no suporte psicológico dos jovens não é um luxo opcional, mas a própria garantia de sustentabilidade da nossa principal indústria esportiva e cultural.

Sem essa virada de chave, continuaremos presos ao ciclo vicioso de exportar o “talento bruto” em troca de migalhas financeiras, assistindo passivamente os principais centros do esporte global “comprarem”, por bilhões, o valor que nós mesmos deixamos de agregar em casa.

O futuro do futebol brasileiro não depende apenas de novos métodos de treinamento físico ou tático; depende da coragem de reescrever o valor do ser humano que veste a camisa.

Referência
Ana Teresa Ratti. As novas moedas de valor do futebol: o que o mercado realmente compra quando contrata um atleta. Máquina do Esporte. Disponível em: https://maquinadoesporte.com.br/analise/as-novas-moedas-de-valor-do-futebol-o-que-o-mercado-realmente-compra-quando-contrata-um-atleta/. Acesso em: ago. 2026.

Tiago Corradine é Graduado em educação física pela UNICAMP, enxerga o futebol como ferramenta de transformação social e atua como nexialista — construindo pontes entre performance e formação humana. Com passagens por EUA, Espanha e Coreia do Sul, é especialista em desenvolvimento de atletas antifrágeis, gestão de escolas de futebol e consultoria para o Certificado de Clube Formador (FPF).
Linkedin: https://br.linkedin.com/in/tiago-corradine-3b19a884

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A geração Z chegou ao futebol. A nossa forma de lidar e com o individuo mudou?

Por: Nicolau Trevisani

Os atletas que chegam hoje às categorias de base e ao futebol profissional cresceram em um contexto bastante diferente daquele vivido pelas gerações anteriores. São jovens acostumados ao acesso rápido à informação, à exposição nas redes sociais e a relações menos sustentadas apenas pela hierarquia. De maneira geral, querem compreender os motivos das decisões, receber respostas com maior frequência e enxergar com clareza o caminho do próprio desenvolvimento.

Isso não significa que a geração Z seja melhor, pior ou mais frágil. Também seria um erro utilizar o conceito de geração como explicação para todos os comportamentos individuais. O que existe é um novo contexto social, que influencia a maneira como esses atletas lidam com autoridade, frustração, reconhecimento e expectativa.

Durante muito tempo, o futebol valorizou um modelo no qual o treinador determinava e o jogador executava. Questionar poderia ser entendido como falta de respeito, enquanto suportar cobranças em silêncio era frequentemente associado à força mental. Parte dessa cultura ainda permanece, mas sua capacidade de produzir comprometimento parece cada vez mais limitada.

O atleta atual tende a se envolver mais quando compreende o sentido daquilo que está fazendo. Explicar uma decisão não significa enfraquecer a autoridade do treinador ou negociar todas as escolhas. Significa demonstrar coerência entre aquilo que se pede, o que se treina e a maneira como o jogador será avaliado. A autoridade deixa de depender exclusivamente do cargo e passa a ser sustentada também pela clareza das relações.

Essa geração também cresceu cercada por respostas rápidas. No ambiente digital, a informação, a aprovação e a comparação são praticamente imediatas. No futebol, porém, o desenvolvimento continua exigindo tempo. Um jogador pode precisar de meses para se adaptar a uma função, amadurecer uma capacidade ou conquistar espaço. Quando não consegue perceber evolução, pode interpretar a espera como falta de valorização e aumentar a ansiedade sobre o próprio futuro.

Por isso, o feedback assume uma importância ainda maior. O atleta precisa compreender onde está, o que já desenvolveu e quais comportamentos concretos precisa transformar. Dizer que alguém deve “amadurecer”, “competir mais” ou “melhorar a atitude” costuma ser insuficiente. Uma devolutiva útil traduz essas avaliações em ações observáveis e oferece referências para que o jogador reconheça a própria evolução.

Compreender esse novo perfil, entretanto, não significa retirar responsabilidades ou proteger o atleta de qualquer desconforto. A alta performance exige disciplina, capacidade de suportar frustrações e disposição para responder às cobranças. O que precisa mudar não é necessariamente o nível de exigência, mas a qualidade da comunicação e dos recursos oferecidos para que o jogador consiga enfrentá-la.

Nesse cenário, a terapia pode ocupar um espaço importante. O atleta decide sob pressão, exposição, incerteza e avaliação permanente. Sua tomada de decisão não depende somente da compreensão tática ou da capacidade técnica. Ansiedade, confiança, medo de errar, expectativas familiares e relação com o ambiente também interferem na maneira como ele percebe as situações e responde a elas.

O trabalho terapêutico não deve aparecer apenas quando existe uma crise. Ele pode ajudar o atleta a reconhecer padrões de comportamento, compreender suas reações, lidar melhor com a pressão e desenvolver maior autonomia. Não se trata de eliminar o desconforto da competição, mas de ampliar os recursos psicológicos disponíveis para enfrentá-lo.

É nessa relação entre psicologia, tomada de decisão e alta performance que tenho concentrado minha forma de entender o jogo, o jogador e meu direcionamento na forma de entender quem é e como devo enxergar a pessoa na minha atuação profissional. Antes de procurar corrigir uma ação isolada, é necessário compreender a pessoa que decide e o contexto no qual essa decisão acontece. Em um ambiente cada vez mais rápido, exposto e exigente, desenvolver o atleta também significa ajudá-lo a compreender a si mesmo.

A geração Z já chegou ao futebol. O desafio agora não é tentar encaixá-la integralmente nos modelos anteriores, nem adaptar todo o ambiente às suas vontades. É construir uma liderança capaz de combinar limites e escuta, cobrança e clareza, responsabilidade e desenvolvimento. O futebol não precisa exigir menos desses jovens. Precisa compreender melhor como ajudá-los a responder às exigências da alta performance.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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A ESTRANGEIRIZAÇÃO DA BASE: UM CAMINHO A REPENSAR PARA O FUTEBOL BRASILEIRO

Artigo opinativo sobre a identidade e a gestão técnica na formação de atletas

Por: Douglas Bazolli

Resumo

Este texto discute um tema que mexe com diretores, treinadores e estudiosos do futebol brasileiro: a contratação cada vez maior de profissionais estrangeiros para trabalhar na base do país. Defendo aqui que essa prática, além de desnecessária, é prejudicial. O verdadeiro problema da formação brasileira não é a falta de gente boa, mas a falta de qualificação constante de quem manda e o desperdício de profissionais excelentes que temos aos montes dentro do nosso país. Além disso, as categorias de base formam não só jogadores, mas também treinadores. Ter estrangeiros nesses cargos quebra a rede natural de passagem de conhecimento profissional dentro de casa.

1. A IDEIA E O MAL-ENTENDIDO

Se o objetivo é recuperar o futebol brasileiro, tenho a certeza, construída em vinte anos de trabalho passando por base, profissional e coordenação, de que trazer gestores, coordenadores e treinadores de fora para a base não é o caminho. Uma coisa é a globalização no futebol profissional, onde se ajusta a tática em times já prontos. Outra coisa, completamente diferente, é entregar a formação dos nossos jovens a profissionais que não conhecem a cultura do Brasil.

O argumento de que “precisamos aprender com a Europa” parte de uma ideia que a prova derruba: a de que o Brasil não tem formadores. Isso não é verdade. O que falta não é qualidade, é colocar as pessoas nos lugares certos.

2. O BRASIL NÃO É UM PAÍS SEM FORMADORES

O Brasil é, segundo o Observatório do Futebol, o maior exportador de jogadores do mundo. Em 2025, foram 2.326 transferências internacionais de brasileiros. Mais de 1.440 brasileiros jogavam no exterior em 135 ligas. A venda de atletas rendeu US$ 553,7 milhões, cerca de R$ 2,86 bilhões. Nos últimos seis anos, mandamos para fora 6.648 jogadores.

Esses números trazem uma conclusão que costuma ser ignorada: se o Brasil forma jogadores que o mundo inteiro compra, é porque tem formadores competentes. Jogador craque não surge do nada. Existe uma rede de observadores, treinadores de crianças, coordenadores e professores que mantém esse movimento. O problema não é a falta desses profissionais. O problema é onde eles estão e quem ocupa as vagas que deveriam ser deles.

3. A PROVOCAÇÃO NECESSÁRIA: 213 MILHÕES DE PESSOAS E NÃO TEMOS FORMADORES?

Aqui, faço uma provocação direta baseada na minha experiência de vinte anos no futebol. Segundo o IBGE em 2025, o Brasil tem 213.421.037 habitantes. Somos o quinto país mais populoso e o que tem a cultura de futebol mais forte. É o lugar com a maior quantidade de pessoas jogando no mundo.

E pergunto: em um país com tanta gente, não conseguimos ter bons formadores e gestores? A resposta é desconfortável: conseguimos, sim. O problema não é a quantidade de gente, é como eles são escolhidos. É a falta de valorização de quem é bom. É a estrutura da gestão. E os números que provam isso são fortes.

  • Uma nação que estuda muito o futebol

O Brasil tem, segundo o CONFEF, mais de 668 mil profissionais registrados. Não são amadores. São pessoas autorizadas por lei a trabalhar com esporte. Temos centenas de faculdades de Educação Física formando milhares de profissionais todos os anos.

A própria CBF Academy já treinou milhares de técnicos em seus cursos obrigatórios. Só a Licença PRO, o nível mais alto, formou cerca de 4.989 profissionais. Até 2026, esse número passou dos cinco mil. Mas o estudo no Brasil vai muito além da CBF. Existe uma rede forte de ensino que inclui:

  • Faculdades com foco em futebol, como Estácio, PUCRS e outras.
    
    • A Universidade Federal de Viçosa (UFV), com seu centro de pesquisa (NUPEF) e curso de especialização.
    • Pós-graduações de especialização em treino de futebol oferecidas por várias instituições globais.
    • Mestrados e doutorados em universidades como USP, Unicamp, UFMG e UFRJ.
    • Plataformas como a Universidade do Futebol (UdoF), que é referência em pesquisa no país.
    • Canais e comunidades como Diário do Treinador, Ciência da Bola e outros que ajudam na formação constante.
    • Eventos acadêmicos e científicos como o SIBRAFF (Simpósio Brasileiro de Futebol e Futsal), organizado pelo NUPEDEFF (Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Esportes, Futebol e Futsal) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que já vai para sua 4ª edição em 2026, reunindo pesquisadores, treinadores e preparadores físicos de todo o país para discutir os avanços e desafios da modalidade.

Além desses, existem outros eventos que mostram como o Brasil é sério na formação de profissionais: o Simpósio Internacional de Futebol da própria UFV, o Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol do Museu do Futebol (realizado desde 2010 em São Paulo), o CONBRACE/CONICE (Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte) e os diversos encontros regionais organizados por universidades e conselhos regionais de Educação Física. Todos esses espaços são frequentados por milhares de treinadores que buscam se atualizar e trocar experiências. Isso não é um país que falta formação, é um país que transborda formação.

“Nunca o treinador brasileiro estudou tanto. Nunca tivemos uma rede de ensino tão grande e acessível. Existe uma geração inteira que une a prática com a base de estudos, algo que poucos países no mundo têm.”

  • A base forma formadores — e estrangeiros quebram essa rede

Um ponto que quase ninguém vê é que as categorias de base não formam apenas jogadores. Elas formam treinadores. O coordenador de hoje é o diretor de amanhã. O treinador do sub-13 é o futuro técnico do profissional.

A base é a escola do treinador. Quando damos essas vagas para estrangeiros, cortamos a passagem de uma tradição profissional dentro de casa. Trazer gente de fora para a base não é só trocar um profissional por outro. É fechar a escola onde nossos brasileiros deveriam aprender. É destruir o caminho de carreira de milhares de pessoas que estão estudando em faculdades e cursos.

  • O problema da estrutura: bons profissionais fora, amadores dentro

Entre 2021 e 2025, o Brasileirão teve uma média de 21 demissões de técnicos por ano. Isso mostra a instabilidade do cargo e quanta gente boa fica rodando sem projeto. Sites como UOL e Goal.com mostram listas enormes de técnicos brasileiros de alto nível sem emprego — gente com licença máxima e títulos continentais. Ao mesmo tempo, vemos pessoas sem qualificação em cargos de chefia na base de clubes grandes. Em 2021, o portal Novo Momento avisou que 20% dos cargos técnicos na Série A eram de estrangeiros.

“Fica a pergunta: em um país com 213 milhões de pessoas e milhares de técnicos certificados, por que dizem que faltam formadores brasileiros?”

4.  O PONTO CRÍTICO: QUALIFICADOS FORA E SEM QUALIFICAÇÃO NO COMANDO

Este é o ponto mais importante. Falo isso por ter passado por todos os setores da base ao profissional. O Brasil tem formadores de elite. Gente que entende de ensino, psicologia e treino. Mas muitos estão em funções menores, enquanto as chefias são ocupadas por pessoas que não têm o preparo necessário. Estudos recentes confirmam isso.

Barros e Elias (2023) mostram que os clubes brasileiros ainda enfrentam problemas clássicos de gestão mesmo depois de tantos anos da Lei Pelé.

Citação Direta: “A pesquisa descreve os problemas clássicos de gestão de clubes de futebol e os desdobramentos financeiros e estratégicos das decisões e dos planos das diretorias dos clubes na expectativa de revelar como poderiam ser contornadas pautas como dívidas, departamentos, aportes financeiros e administrativos mediante a aplicação da Lei Pelé.” (p. 142)

Monteiro (2021) reforça que as administrações amadoras levavam os clubes a grandes endividamentos.

Citação Direta: “As mudanças na legislação do futebol brasileiro, mais especificamente no que diz respeito à Lei Pelé, elevaram o futebol brasileiro ao patamar de profissionalização de gestão, isso porque antes o futebol era movido pela simples paixão de seus diretores, torcedores e até jogadores. A gestão dos clubes não exigia a complexidade atual do acompanhamento fiscal, trabalhista e gestão de contratos. As administrações amadoras levavam os clubes a grandes endividamentos, sentidos até os dias atuais.” (p. 103)

Uma pesquisa da USP (2026), feita por Rocoo Júnior e Moraes, foi clara ao apontar a falta de transparência nos clubes brasileiros.

Citações Direta

1: “Apesar da importância econômica e cultural da modalidade, falhas de governança e transparência ainda permeiam a gestão dos clubes e geram consequências financeiras e esportivas.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

2: “Muitas equipes da Série D sequer possuem site oficial ou canais de contato.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

3: A política interna é apontada como um dos principais entraves à modernização da gestão dos clubes brasileiros.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

4: “Grande parte dos problemas organizacionais identificados no estudo está relacionada às disputas políticas, especialmente nos clubes associativos, onde diferentes grupos disputam o poder e as frequentes mudanças de gestão dificultam a continuidade dos projetos.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

5: “É comum que integrantes do próprio clube atuem contra a administração em exercício, comprometendo decisões estratégicas e atrasando processos de profissionalização.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)


A tese de Silva (2026) descreve uma gestão que se parece com um sistema feudal, onde o conhecimento é retido como fonte de poder. Há ainda o problema da valorização financeira que empurra o treinador a pular etapas: o salário baixo no sub-13 faz com que o técnico queira subir rápido para o sub-17 ou profissional antes de estar pronto, deixando a base menor sem especialistas.

Citações Direta

1: “Os clubes operam majoritariamente em níveis iniciais de maturidade, concentrados nos estágios de informação e conhecimento, ainda desconectados de uma estratégia institucional mais ampla.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

2: “O estudo identificou barreiras culturais severas, descritas por gestores como uma ‘gestão feudal’, na qual o conhecimento é retido como fonte de poder e o diálogo é evitado para não expor problemas internos.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

3: “Na arquitetura organizacional, detectou-se a ausência generalizada de planos de cargos, carreiras e remuneração e de critérios de sucessão. Essa fragilidade torna as agremiações vulneráveis a perdas cognitivas massivas sempre que ocorre uma troca de comissão técnica.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

4: “Os relatórios publicados pelos clubes são majoritariamente protocolares e não servem como ativos estratégicos de decisão.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

5: “A principal conclusão é que os clubes brasileiros não utilizam a gestão do conhecimento de maneira estruturada para gerar vantagem competitiva. E isso importa porque, em um futebol cada vez mais complexo e profissionalizado, vencer também depende da capacidade de aprender e preservar conhecimento para decidir melhor.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

“O problema não é a falta de gente boa. É que a gente boa não está onde deveria estar.”

5.  O PAPEL DO COORDENADOR E A DEFORMAÇÃO NA PRÁTICA

O coordenador técnico é quem une a ideia do clube com o treino no campo. Ele garante que o menino de 12 anos siga um caminho que faça sentido até os 20 anos, sem que o treino mude toda hora do jeito que cada treinador quer.

Quando esse chefe não é qualificado, o resultado é destruído: o plano de ensino vira apenas um papel com promessas e cada um faz o que quer. Pior ainda quando é um estrangeiro que não conhece nossa cultura: o jovem acaba sendo formado em uma lógica que não tem nada a ver com a sua identidade e com o futebol que ele vive.

6.  A CULTURA: A GINGA NÃO SE APRENDE EM CURSO

Estrangeiros, por melhores que sejam, não entendem que o futebol brasileiro é uma forma de cultura antes de ser um sistema tático. O drible no Brasil nasceu como forma de resistência. É algo que vem de dentro.

Pode-se aprender tática com um alemão ou um italiano. Mas não se aprende a formar um jogador brasileiro com quem não é daqui. Formar é passar uma tradição, e isso só acontece de quem conhece a nossa terra para quem vive nela.

7.  O DESABAFO DE QUEM VIVE O BRASIL

Muitos nomes de peso concordam com isso. Rogério Ceni, Fernando Diniz, Cuca e Renato Gaúcho disseram em uma declaração conjunta:

“Eu não concordo e acho uma falta de respeito com os treinadores brasileiros que seja pensado a contratação de um treinador estrangeiro.”

Cuca e Rivaldo também já criticaram essa preferência, dizendo que é uma falta de consideração e de respeito com os profissionais do nosso país.

8.  APRENDER COM O MUNDO NÃO É SER SUBSTITUÍDO POR ELE

Aprender com outros países é importante e ajuda a crescer. Ver como os europeus trabalham é bom. O erro não é aprender, o erro é desistir de quem é daqui para colocar alguém de fora.

Aprender significa observar o que o outro faz e adaptar para o nosso jeito. Colocar um estrangeiro no lugar do brasileiro é desistir. É dizer, sem falar abertamente, que não confiamos na nossa capacidade de criar o nosso próprio caminho.

9.  UMA PROPOSTA QUE PROTEGE E POR QUE ELA FAZ SENTIDO

Proponho algo que pode parecer incômodo, mas que é sensato: a CBF deveria assumir o papel de guardiã da identidade do jogador brasileiro e exigir que qualquer profissional estrangeiro que queira atuar na nossa base passe pelas etapas de formação do sistema CBF.

Não se trata de fechar a porta. Trata-se de exigir o mesmo que outros países exigem de nós. Um treinador brasileiro que vai trabalhar na França precisa passar pelos ciclos de formação locais, adaptar-se à cultura, entender o contexto. Um brasileiro que vai para a Alemanha precisa cumprir as etapas da federação alemã. Por que seria diferente aqui?

O que proponho não é uma proibição agressiva. É uma exigência de equivalência: quem vem de fora precisa provar que entende o futebol brasileiro, que respeita a nossa cultura de formação, que passou pelos nossos ciclos de capacitação. A CBF Academy já tem estrutura para isso. Basta criar um caminho claro e obrigatório para o estrangeiro que quer atuar na base brasileira.

Isso não é xenofobia. É proteção da identidade. É o mesmo princípio que aplicam os países europeus com seus treinadores. Cada nação tem o direito e o dever de cuidar da formação dos seus jovens atletas como um patrimônio. E quando entregamos esse patrimônio a quem não passou pelo nosso processo, abrimos mão de algo que é nosso.

10. A IRONIA FINAL E O CHAMADO PARA AGIR

Existe uma ironia dura aqui. O Brasil é o maior celeiro de talentos do mundo. A Europa se alimenta do que produzimos. E nós vamos entregar a chave da nossa produção para os clientes?

A melhora do nosso futebol virá de dentro. Mas só se os brasileiros competentes tiverem espaço. Hoje, o profissional bom é deixado de lado e trocado por estrangeiros ou por pessoas com influência política.

O caminho é colocar os brasileiros certos nos lugares certos. Se continuarmos assim, teremos jogadores que parecem europeus, mas sem a nossa ousadia e alegria. Isso não é salvar o nosso futebol. É enterrá-lo com as nossas próprias mãos.

REFERÊNCIAS E FONTES

Falas de treinadores e jogadores:
  • Rogério Ceni, Fernando Diniz, Cuca e Renato Gaúcho — declaração contra estrangeiros (2023).
    • Cuca — sobre técnicos “ultrapassados” e aumento de estrangeiros (2019/2025).
    • Leão e Oswaldo de Oliveira — críticas em evento com Ancelotti (2025).
    • Rivaldo — crítica na ESPN (2022).
Dados de população e mercado:
  • IBGE — 213 milhões de habitantes (2025).
    • Observatório do Futebol — Brasil como maior exportador (2025-2026).
    • Banco Central — ganhos de R$ 2,86 bilhões com vendas (2025).
    • ResearchGate — 6.648 jogadores vendidos em 6 anos.
Educação e trabalho:
  • CONFEF — 668 mil profissionais registrados.
    • CBF Academy — quase 5.000 técnicos com Licença PRO.
    • UFV/NUPEF — estudos e especialização em futebol.
    • Universidade do Futebol (UdoF) — ensino continuado.
    • SIBRAFF — Simpósio Brasileiro de Futebol e Futsal, organizado pelo NUPEDEFF/UFSC (2026).
Estudos sobre gestão e cultura:
  • USP (EEFE) — estudo sobre amadorismo na gestão (2026).
    • Barros, M. M.; Elias, F. A. C. — “A gestão de clubes e a profissionalização do futebol no Brasil”. Revista Administração de Empresas — UNICURITIBA, 2023.
    • Monteiro — “As administrações amadoras e o endividamento dos clubes” (2021).
    • Rocoo Júnior; Moraes — Pesquisa sobre falta de transparência nos clubes brasileiros. EEFE-USP, 2026.


Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (Sub 15, sub 16 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/