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O menino Jesus do futebol

Por: João Batista Freire

Ninguém joga futebol só pelo salário. E se alguém o faz, já não é um jogador, é um tarefeiro, nada lhes resta a fazer em campo a não ser aguardar melancolicamente o final de carreira. Não é pelo salário que, após os gols, os jogadores se abraçam, beijam-se, rolam pelo gramado, choram, dão cambalhotas, numa explosão louca de alegria. Nenhum trabalho obrigatório provoca tanta alegria. Não se vê funcionários de empresas chorando, rolando pelo chão da sala, se abraçando ou se beijando ao final de uma tarefa, embora até possam comemorar suas boas realizações; só nos gramados e nas quadras, só no universo encantado do esporte isso acontece. Jogar futebol – eu poderia falar também de outros esportes – é um privilégio, uma maneira de viver intensamente a vida, um jeito de viver em estado de graça, de ser como o menino Jesus que Fernando Pessoa, o grande poeta português, descreveu no poema O Guardador de Rebanhos:

 “Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.”

            Dentro de cada jogador ainda vive esse menino Jesus, como vive em todos nós. Muitos de nós tivemos a graça de ser esse Jesus que roubava a fruta dos pomares, que se divertia jogando bola nas ruas, nos campinhos de terra, ralando os joelhos, rindo ao conduzir a bola e chorando quando os pés sangravam. E se ele vive, pode reviver. Talvez isso exija mais coragem que a habitual, mas é possível. Lembram como era divertido dar chapéus, meter a bola no meio das pernas do adversário, fazer gols de letra? Lembram como era gostoso inventar jogadas diferentes, realizar um passe perfeito, o gol da vitória? Era só uma brincadeira, um lindo sonho acordado, do qual não se acorda nunca quando a coragem não termina. Tudo isso não morreu, continua vivo dentro de cada jogador, talvez um pouco adormecido pelas regras, pelas proibições, pelos esquemas, pelo medo de errar. Mas esse menino Jesus dentro de cada jogador sempre pode acordar, a depender do que gritem os torcedores nas arquibancadas, a depender do que diz o professor durante os treinamentos e nos vestiários, a depender da conversa do jogador consigo mesmo. O jogo chama para brincar; não deveríamos resistir ao seu chamado.

            Antes de contar as histórias dos homens ao seu menino Jesus, o poeta brincava com ele, e o menino fazia da brincadeira a coisa mais importante do mundo. Era assim:

“Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.”

            E é assim que deve ser cada vez que o jogador entra em campo para jogar seu jogo de bola. Que ele jogue bola como o Jesus de Fernando Pessoa jogava as cinco pedrinhas. Porque esse Jesus não é aquele pregado na cruz, triste, cheio de sangue. É o jogador menino do poeta Fernando Pessoa, alegre e brincalhão, que se diverte enganando o adversário, nos campinhos de terra e nos mais importantes estádios.

            Quando entrarem em campo, que os jogadores sejam as crianças que tanto souberam se divertir com uma bola entre seus pés descalços. Que tanto surpreenderam o adversário, deixando-os de olhos arregalados de susto. Quem se diverte jogando não tem medo de errar, não tem medo de fazer coisas diferentes. Não tem medo de ser feliz. E, se porventura, errar, terá valido a pena tentar!

*João Batista Freire é educador, pesquisador e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), livre-docente em Pedagogia do Movimento e atua como consultor do Instituto Esporte Educação (IEE), além de ser consultor educacional da Universidade do Futebol. É referência na área de Educação Física escolar, jogo e pedagogia do esporte, com diversas e renomadas publicações sobre ludicidade, prática corporal e pedagogia do futebol.
Mais informações: https://cev.org.br/qq/joao-freire/

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A Bola que Decide: por que a segunda bola é o grande diferencial do futebol moderno

Por: Douglas Bazolli

Há um consenso tático no futebol contemporâneo: vencer duelos é condição essencial para controlar  o jogo. Fala-se muito da primeira bola, o cabeceio do zagueiro, o desarme do volante, o rebote do  goleiro. Mas é no instante seguinte que o jogo, de fato, se define. A segunda bola é, na nossa  realidade competitiva, a bola que decide. 

Ela emerge em contextos distintos, um tiro de meta longo, um lançamento dos zagueiros, um  escanteio ou qualquer bola parada e carrega consigo um princípio tático que muitos negligenciam: a desorganização momentânea do adversário. 

A Complexidade do Caos e a Desorganização Momentânea 

Quando duas equipes disputam a primeira bola, há um deslocamento natural de estruturas. Jogadores saltam, avançam, recuam e, por uma fração de segundo, perdem a referência espacial e a compactação. É nesse milésimo de segundo que a segunda bola aparece. E quem a conquista, ganha o direito de acelerar o jogo contra um adversário que ainda busca se reorganizar. 

Na literatura científica, o futebol é amplamente definido como um sistema complexo. Júlio  Garganta (1997), uma das maiores referências em modelação tática, aponta que o jogo é gerido por  fluxos de comportamentos de contornos variáveis. A segunda bola representa exatamente o ápice  dessa imprevisibilidade: o momento em que a estrutura tática pré-definida colapsa e a capacidade de auto-organização imediata da equipe é testada. 

O técnico Dorival Júnior, conhecido por estruturar equipes equilibradas e de rápida transição, sintetiza a importância de reagir a esses momentos de indefinição: 

O futebol hoje não te dá tempo para pensar depois que a bola viaja. Ou você se  posiciona para o rebote e para a segunda bola antes do duelo acontecer, ou você estará  sempre atrasado para defender e sem ângulo para atacar.” (Dorival Júnior) 

A Segunda Bola como Ferramenta de Ataque ao Espaço 

A equipe que treina a leitura, o posicionamento e a agressividade sobre a segunda bola compreende  um princípio fundamental: ganhar a segunda bola não é apenas recuperar a posse é atacar o espaço deixado pelo adversário que disputou a primeira bola. 

Dentro dessa “desorganização”, a opção mais inteligente quase sempre será colocar a bola no espaço vazio. Forçar o adversário a correr para trás enquanto seu time ataca a profundidade. O  duelista da primeira bola está fora de posição; o setor que ele deveria proteger está exposto. O  espaço que ele deixou é o seu atalho para o gol. 

Jorge Castelo (2003), ao estudar as transições defesa-ataque, corrobora essa visão ao afirmar que a velocidade e a eficácia na transição dependem diretamente da exploração do desequilíbrio espacial do oponente nos primeiros segundos após a recuperação da posse. É o que Jürgen Klopp  transformou em identidade global com o seu Gegenpressing:

“O melhor criador de jogadas do mundo é a pressão pós-perda (Gegenpressing).  Quando você ganha a segunda bola no alto do campo, o adversário está aberto,  procurando o passe. É o momento em que eles estão mais vulneráveis.” (Jürgen Klopp) 

O Fator Mental e a Compactação em Bolas Paradas 

Nas bolas paradas defensivas, o fenômeno da segunda bola é ainda mais crítico. É comum ver  equipes que vencem o primeiro duelo aéreo dentro da área, mas, no momento seguinte, perdem completamente a referência de marcação. A bola continua viva em zona perigosa, e os atletas se  desprendem de seus encaixes. É o momento em que se toma o gol. 

Sobre essa desconexão mental coletiva após o primeiro duelo, Fernando Diniz traz uma perspectiva valiosa sobre a concentração e a relação dos atletas com o espaço da bola: 

“O jogo de futebol é um fluxo contínuo. O erro de muitos sistemas defensivos é achar  que o perigo acaba quando a bola é rebatida. Se a bola continua na área, o lance não  terminou. A desatenção no segundo movimento é o que separa uma defesa sólida de  uma defesa vulnerável.” (Fernando Diniz) 

Esse nível de exigência mental reflete diretamente o princípio do “Cabeça fria e coração quente” popularizado por Abel Ferreira no Brasil. A disputa da primeira bola exige o “coração quente”  (agressividade, imposição física), mas a leitura e a tomada de decisão para a segunda bola exigem a  “cabeça fria” (posicionamento, antecipação, leitura de espaço). 

A Identidade Global: Pressão e Sincronismo 

Há também o fator físico-tático da marcação pressão, hoje uma identidade global. Se o seu time é pressionado, a bola longa será inevitável. Se o seu time pressiona, forçará o oponente ao lançamento. Em ambos os cenários, o jogo será decidido por quem controlar a segunda bola após o duelo físico inicial. 

Pep Guardiola, mestre do Jogo de Posição, adapta essa necessidade à sua estrutura ofensiva: 

“Nós não jogamos com passes curtos apenas por estética. Jogamos assim para viajar  juntos. Se perdemos a bola ou se há um duelo aéreo, estamos todos próximos para  ganhar a segunda bola imediatamente.” (Pep Guardiola) 

Tite, um dos treinadores brasileiros mais detalhistas no aspecto de organização e compactação defensiva, sempre enfatizou que o equilíbrio de uma equipe passa diretamente pelo controle dessas zonas de rebote: 

“Não adianta ter uma defesa que rebate todas as bolas se o seu meio-campo não está  posicionado para ganhar a segunda bola. Vencer o primeiro duelo é duelo individual;  ganhar a segunda bola é organização coletiva e sincronismo.” (Tite) 

Conclusão: Treinando para o Jogo Real 

Treinar a segunda bola não é um detalhe acessório ou circunstancial. É uma diretriz metodológica essencial do dia a dia. É definir comportamentos claros para o momento em que o jogo se torna caótico, transformando a desorganização adversária em vantagem ofensiva imediata.

Talvez essa seja a essência da segunda bola: antecipar o caos. Saber onde o jogo estará antes de a bola sequer tocar o chão. 

A provocação para quem trabalha no dia a dia do futebol é simples: se o seu treino de transição ou organização ofensiva e defensiva termina no primeiro duelo, você está preparando a sua equipe para o cenário ideal, não para o jogo real. 

No futebol de alta exigência, o caos é a regra. Se a sua comissão técnica não estabelece diretrizes  metodológicas claras para o milésimo de segundo seguinte à primeira disputa física, você não está controlando o jogo está apenas torcendo para que o acaso decida a seu favor. 

O que você tem feito no dia a dia para que a sua equipe domine a bola que realmente decide as partidas? 

Referências Bibliográficas 

1. GARGANTA, J. (1997). Modelação táctica do jogo de futebol: estudo da organização da  fase ofensiva em equipas de alto rendimento. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências do  Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto.  

2. CASTELO, J. (2003). Futebol: Guia prático de exercícios de treino. Lisboa: Visão e  Contextos. (Obra fundamental para a compreensão da velocidade nas transições defesa ataque). 

3. AQUINO, R., et al. (2020). Influence of Situational Variables, Team Formation, and Playing  Position on Match Running Performance and Social Network Analysis in Brazilian  Professional Soccer Players. Journal of Strength and Conditioning Research, 34(3), 808- 817.  4. BARREIRA, D., et al. (2014). Padrão sequencial da transição defesa-ataque em jogos de  Futebol. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. (Estudo que mapeia a importância da  rápida reorganização ofensiva após a recuperação da posse de bola).

Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/

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Identidade de jogo

Por: Marcel Capretz

A originalidade e a convicção no próprio trabalho devem ser sempre aplaudidas. O futebol brasileiro é controverso: clamamos por novidades, mas taxamos quem inova.

Tudo com base no resultado. Nunca no processo. Infelizmente. Se quem faz diferente ganha, é gênio; se perde, é ‘professor pardal’. Fernando Diniz está tendo um início arrasador no Corinthians. Todos estão encantados com o trabalho. Mas sabemos que isso é consequência das vitórias iniciais. 

É claro que Diniz está acostumado com isso. Ele foi jogador. E de alto nível. Conhece o meio há décadas. Como treinador, quando o Brasil o conheceu há dez anos, com o revolucionário Audax, a lápide já estava pré-escrita pelos críticos: jogar desse jeito (diferente) é fácil em um time como o Audax. Quero ver fazer isso em clube grande’, diziam. E Diniz está fazendo a mesma coisa, claro, se adaptando, ajustando, entendendo cada circunstância, porém sempre com a mesma ideia mestra.

Fez isso no São Paulo, Athlético-PR, Vasco, Fluminense, Santos, etc. E aqui não se trata de jogo ofensivo ou defensivo. O meu ponto é identificar o trabalho de um treinador sem precisar olhar o uniforme: apenas observando os padrões de comportamento da equipe saber que ela é treinada por determinado profissional.

Isso é identidade. Isso é convicção. Ganhando ou perdendo, não se joga tudo pro alto de acordo com a maré. Que os mesmos que aplaudem hoje Fernando Diniz no Corinthians o deem apoio quando as derrotas acontecerem – e elas acontecerão, faz parte. O foco tem que ser no processo. E não só no resultado. Para fugirmos do famigerado, ‘ganhou é bom, perdeu não serve’.

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FUTEBOL DE SENTIDO

Não é a criança que precisa se adaptar ao futebol.

É o futebol que precisa fazer sentido para a criança.

Por: Thiago Filla de Almeida

O QUE SABEMOS SOBRE A CRIANÇA?

O quanto, de fato, conhecemos sobre a fisiologia da criança?

Compreendemos como se dá o desenvolvimento infantil?

Em que idade podemos interpretar como a criança percebe e responde às diferentes situações e circunstâncias do jogo?

Afinal, a criança quer brincar. Mas isso não significa simplificar o jogo, e sim compreendê-lo a partir de quem joga.

Outras modalidades já nos ensinam muito sobre isso:

no basquete, a altura da tabela é reduzida;

no vôlei, a rede é mais baixa e existe o mini vôlei;

no tênis, a quadra diminui, assim como a bola e os equipamentos.

Dentre inúmeros outros exemplos.

E o futebol?

Diminuir o campo dá trabalho?

Pedir traves menores é inviável?

Usar uma bola adequada descaracteriza o jogo?

Ao longo da minha trajetória, participei de diversos arbitrais e discussões sobre adaptação dos espaços de jogo. Estive, inclusive, envolvido na construção de um projeto de trave ajustável. Mas, para que esse tipo de iniciativa aconteça, sempre surge a mesma pergunta: quem está disposto?

Já ouvi pais dizerem que, com campo e trave menores, “não tem graça”.

Professores que resistem a redesenhar uma linha ou adaptar o espaço.

Enfim… quando o futebol vai olhar para a criança?

Em nosso país, existem experiências interessantes, mas, para o chamado “país do futebol”, ainda são poucas.

E não se trata da ausência de pedagogia.

Não se trata de dizer que “faltam teorias”.

É justamente o contrário.

É assumir responsabilidade:

de estudar a criança,

de compreender o jogo,

de reconhecer a rua como um espaço legítimo de aprendizagem.

Porque a rua não é improviso vazio.

O jogo ali tem lógica, tem intenção, tem sentido.

São as próprias crianças que ajustam o espaço para que o futebol aconteça.

Fundamentar a prática não é engessá-la.

É dar sentido ao que se faz.

É olhar para o jogo da criança sem a intenção de moldá-lo à força, mas com a disposição de entender o que ele revela.

É estudar para adaptar mais, intervir melhor e, muitas vezes, intervir menos.

No fim, talvez o maior desafio não seja ensinar futebol, mas estar disposto a aprender com quem joga, como nos provoca João Batista Freire, com um olhar que ultrapassa o jogo e alcança a vida, inclusive a educação em nosso país.

Referências

– Alcides Scaglia

– Danilo Augusto Ribeiro

– João Batista Freire

– Wilton Carlos de Santana

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

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Quem vai construir as pontes capazes de humanizar e transformar o futebol e a sociedade?

Por: Rafael Castellani

Há mais de duas décadas tenho me dedicado a estudar e intervir no futebol. Da iniciação científica ao doutorado, na Universidade do Futebol, na CBF Academy, no Progresso Futebol de Base, no Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia – (INCT – Futebol), no Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) e nas escolas de futebol onde atuei e atuo como coordenador metodológico, minha intervenção sempre se deu na perspectiva de tratar e respeitar crianças e atletas profissionais como seres humanos, sujeitos de necessidades, interesses e subjetividades.  
Em cada uma destas experiências, jamais renunciei a um olhar humanizado para o futebol e, para minha felicidade e inspiração política, venho compartilhando do propósito de transformar o futebol – e a sociedade – com muitos excelentes profissionais, dentre os quais três deles faço questão de citar nominalmente: João Batista Freire, João Paulo Medina e Lino Castellani Filho, meu pai. Obviamente, estes são somente três exemplos dentre tantos outros que poderia citar.

Ainda assim, terei que citar nominalmente outros quatro parceiros – Sebástian Vasquez, Tiago Corradine, Caio Rizek e Paulo André -, afinal, além da mais recente publicação de um texto escrito em parceria com o professor Sebástian, há outras três publicações destes três outros brilhantes profissionais que dialogam com essa temática e militam pela transformação do futebol 

 A começar pelo texto que escrevi com Sebástian Vásquez, intitulado “Sem conseguir ser criança, Flora não floresce”, a partir de um caso de destaque na mídia envolvendo uma criança de 12 anos que é disputada por dois clubes rivais, problematizamos que os desejos e necessidades do jogador são, costumeiramente, negligenciados ou ficam em segundo plano, fato que se torna ainda mais emblemático se o jogador em questão for uma criança. E questionamos: quando é que vamos devolver às crianças o jogo, a brincadeira e o prazer pela prática do futebol? Precisamos, urgentemente, garantir um contexto propício para a evolução e fortalecimento dos nossos jogadores, crianças, jovens e adultos, inserindo-os em um “contexto regado a amor, empatia, competência e compromisso ético pelo que fazemos, pela liberdade de expressão, pela colaboração com o ecossistema e com um futebol mais humano, lúdico, ecológico” e não apenas mercadológico.     

Em diálogo próximo ao nosso texto, o professor Tiago Corradine, que lidera junto a mim o grupo técnico pedagógico da Universidade do Futebol, publicou o artigo “O Florescer da Infância no Futebol: Um Chamado à Formação Integral”. Sua defesa passa também pela necessidade de investirmos na formação integral de atletas e cidadãos/ãs, “onde o desenvolvimento humano e social caminha lado a lado com o aprimoramento técnico”, potencializando o ser humano em sua totalidade. Como muito bem defende Tiago Corradine, “não podemos permitir que o futebol, que deveria ser um espaço de alegria e aprendizado, se torne palco de uma exploração precoce”. 

Na mesma perspectiva, o artigo escrito por Caio Rizek, supervisor das categorias de base do SPFC, intitulado “Meninos Profissionais: Quando a infância vive em função do futebol”, traz para a reflexão o surgimento dos “meninos profissionais” e, de forma ainda mais delicada, do “menino arrimo de família”, e reforça a necessidade de atuarmos com responsabilidade institucional, sensibilidade e coragem para enfrentarmos essa triste e preocupante realidade. As crianças estão cada vez mais distantes da sua infância e cada vez mais próximas de uma rotina profissional. Neste contexto, as famílias passam a se adaptar à vida do filho/atleta e a criança acaba tendo de assumir uma responsabilidade e um “protagonismo que não condiz com sua maturidade emocional”, afinal o “menino passa a ser tratado como “projeto”, “investimento” ou “esperança”.

O quarto texto, escrito pelo ex-jogador e atualmente dirigente esportivo, Paulo André Benini, estabelece críticas à formação esportiva de jovens jogadores, afinal, esta tem dado papel protagônico à proteção das crianças/adolescentes como ativos e a uma disputa por talentos. Nas palavras do autor,a lógica de proteção do investimento expõe quem realmente deveria ser protegido”, a criança.

João Paulo Medina, fundador da Universidade do Futebol e com quem tenho o prazer e honra de trabalhar há mais de uma década, tem explanado em suas mais recentes comunicações que boas ideias e posicionamentos como esses apresentados nestes textos exemplificados, apesar de expressivos e significativos, ainda estão posicionados em ilhas. São bons textos e “cases” que, apesar de cada vez mais numerosos, encontram-se dispersos pelo território brasileiro. Nesse sentido, é preciso construirmos pontes! Pontes capazes de unir e fortalecer pessoas e instituições empenhadas no propósito de, sob a premissa de uma visão sistêmica, integral e humanizada do futebol, transformar essa importante prática social e a nossa própria sociedade. 

Paulo André, corroborando o que vem sendo defendido por Medina há anos, finaliza seu texto abordando justamente a necessidade de criarmos um plano integrado capaz de conectar profissionais e instituições. E a CBF, ao propor a realização de um grupo de trabalho dedicado a discutir as categorias de base, composto por clubes, federações, executivos, formadores e especialistas, é justamente, no meu entendimento, a maior responsável por construir essas pontes!

Referências:

Benini, Paulo André. O futebol que protege o investimento — e expõe a criança. Disponível em: https://www.poder360.com.br/opiniao/o-futebol-que-protege-o-investimento-e-expoe-a-crianca/. Acesso em 15/05/2026.

Castellani, Rafael; Vásquez, Sebástian. Sem conseguir ser criança, Flora não floresce. Disponível em: https://universidadedofutebol.com.br/2026/04/27/sem-conseguir-ser-crianca-flora-nao-floresce/. Acesso em 15/05/2026.

Corradine, Tiago. O Florescer da Infância no Futebol: Um Chamado à Formação Integral. Disponível em: https://www.linkedin.com/pulse/o-florescer-da-inf%C3%A2ncia-futebol-um-chamado-%C3%A0-forma%C3%A7%C3%A3o-tiago-corradine-zxpbf/. Acesso em 15/05/2026.

Rizek, Caio. Meninos profissionais: quando a infância vive em função do futebol. Disponível em: https://universidadedofutebol.com.br/2026/04/21/meninos-profissionais-quando-a-infancia-vive-em-funcao-do-futebol/. Acesso em 15/05/2026.

Rafael Castellani é Doutor em Psicologia do Esporte pela USP, é Especialista em Pedagogia do Futebol e Formação de Atletas. Atua como Diretor Executivo e Coordenador Metodológico da Time Forte, além de Colunista e Líder do Grupo Técnico-Pedagógico da Universidade do Futebol.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/rafael-moreno-castellani/.

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O Protagonismo Silenciado: a reinvenção necessária do camisa 10 no futebol moderno

Por: Douglas Bazolli

Resumo 

Este artigo propõe uma análise crítica sobre a posição do camisa 10 no futebol  contemporâneo, argumentando que, apesar das transformações táticas, a essência do jogador criativo e protagonista permanece indispensável. Contesta-se a narrativa de que o futebol moderno teria naturalmente “eliminado” essa figura, sugerindo que a  supervalorização do coletivo, muitas vezes impulsionada pelo medo de perder  resultados, tem levado à subutilização e à neutralização de talentos individuais.  Defende-se que o craque não deve ser obrigado a se adaptar a sistemas que o sufocam,  mas que o jogo e os treinadores precisam encontrar mecanismos para proteger e potencializar o protagonismo do camisa 10. O coletivo, embora fundamental, deve servir como ferramenta para amplificar o talento, e não como um fim em si mesmo que o apaga. A discussão aborda a profundidade tática e metodológica necessária para  resgatar o protagonismo do camisa 10, utilizando exemplos de treinadores e jogadores que ilustram essa tensão entre o individual e o coletivo. 

Palavras-chave: camisa 10; protagonismo; futebol moderno; tática; talento; coletivo;  metodologia. 

1. Introdução: O Craque em Campo e o Medo de Perdê-lo 

A figura do camisa 10 sempre foi o coração pulsante do futebol. Sinônimo de  criatividade, imprevisibilidade e genialidade, o armador clássico era o maestro que  ditava o ritmo, a pausa e a aceleração do jogo. No entanto, o futebol contemporâneo,  com sua ênfase na intensidade, na compactação e na organização coletiva, parece ter  relegado essa figura a um segundo plano, ou pior, a uma espécie de “luxo” tático que  poucos se permitem. A narrativa corrente sugere que o camisa 10 teria sido “engolido”  pela modernidade, obrigado a se transformar em um volante marcador ou em um ponta veloz para sobreviver. 

Mas essa leitura, embora sedutora, é superficial e perigosa. Ela esconde uma verdade  incômoda: o problema não é a obsolescência do camisa 10, mas a incapacidade de  muitos sistemas e treinadores em protegê-lo e potencializá-lo. O medo de perder, a obsessão pelo controle e a busca incessante por resultados imediatos têm levado a uma  supervalorização do coletivo que, paradoxalmente, neutraliza o que há de mais valioso no futebol: o talento individual capaz de romper padrões e decidir jogos. 

Johan Cruyff, com sua sabedoria singular, já alertava: “Jogar futebol é simples, mas é  difícil jogar simples”. Essa frase encapsula a essência do dilema. O futebol, em sua  complexidade tática atual, exige inteligência e organização, mas a simplicidade genial do craque é o que o torna verdadeiramente imprevisível. O camisa 10 não precisa mudar sua essência para caber no sistema; o sistema é que precisa encontrar mecanismos para que ele brilhe sem perder seu protagonismo. O coletivo, sim, é fundamental, mas ele deve ser uma ferramenta para amplificar o talento, e não uma mordaça que o silencia. 

Este artigo se propõe a defender, com veemência, que o camisa 10 não apenas ainda existe, mas é mais necessário do que nunca. O desafio é resgatar seu protagonismo,  questionando as lógicas que o sufocam e propondo caminhos metodológicos para que o talento volte a ser o centro do espetáculo. 

2. A Metamorfose do Protagonista: Do Clássico ao Contemporâneo 

A evolução tática do futebol é um processo contínuo de adaptação. Jonathan Wilson, em sua obra seminal Inverting the Pyramid, demonstra como as posições e funções no  campo se transformaram ao longo da história, mas a necessidade de um cérebro criativo  no meio-campo nunca desapareceu por completo. O que mudou foi a forma como esse  cérebro se manifesta e se integra ao jogo. 

Rinus Michels, o pai do Futebol Total, já preconizava uma fluidez de posições onde todos atacavam e defendiam. Contudo, essa fluidez não significava a anulação do especialista, mas sim a sua integração em um sistema dinâmico. “O futebol total exige que todos ataquem e defendam, mas sempre com inteligência e ocupando os espaços certos”, uma máxima que sublinha a importância da funcionalidade individual dentro do coletivo. O camisa 10, nesse contexto, não é um jogador estático, mas um elemento móvel que cria superioridade numérica e espacial. 

Pep Guardiola, herdeiro dessa filosofia, elevou a ocupação racional dos espaços a um dogma. Para ele, o talento sem um sistema é apenas talento; com um sistema, é uma força imparável. “Se você não tem a bola, precisa ocupar bem o espaço. Se tem a bola,  precisa encontrar o homem livre”, ensina Guardiola, destacando que a organização coletiva serve para criar as condições ideais para que o jogador de qualidade receba a bola em vantagem e decida. O camisa 10, em sua visão, é o principal beneficiário dessa  orquestração. 

Arrigo Sacchi, com sua obsessão pela compactação e sincronização, também defendia um coletivo que funcionasse como uma orquestra. “Uma equipe é como uma orquestra.  Se um músico toca desafinado, não importa o quão bom ele seja, a sinfonia não soa bem”, afirmava. Essa citação, muitas vezes usada para justificar a rigidez tática, pode ser reinterpretada: o camisa 10 é o solista que, quando bem integrado e afinado com o restante da orquestra, eleva a qualidade da sinfonia a um patamar superior. O problema não é o solista, mas a falta de ensaio para que ele brilhe em harmonia. 

O camisa 10, portanto, não morreu. Ele se metamorfoseou. Deixou de ser um jogador  fixo para se tornar um elemento relacional, que flutua, que se associa e que, acima de tudo, continua sendo o ponto de desequilíbrio em um jogo cada vez mais equilibrado. 

3. O Coletivo como Ferramenta, Não como Mordaça:  A Crítica à Neutralização do Talento

A busca incessante por um coletivo “perfeito” e a obsessão por defender resultados têm  levado muitos clubes a uma lógica de neutralização do talento. O medo de perder, de ser  exposto, de sofrer um contra-ataque, faz com que treinadores optem por sistemas mais seguros, mais compactos e, consequentemente, menos criativos. Nesse cenário, o camisa 10, o jogador que por natureza arrisca e desequilibra, é visto como um risco, e não como uma solução. 

Jürgen Klopp, embora associado a um futebol de alta intensidade e pressão, também  reconhece a necessidade de jogadores que quebrem linhas. Seu “Gegenpressing” exige que a recuperação da bola seja rápida para que a transição ofensiva, muitas vezes liderada por jogadores criativos, seja letal. A intensidade não anula o talento; ela o exige  em um ritmo mais acelerado. 

O problema reside quando o coletivo se torna uma mordaça, um fim em si mesmo, e não uma ferramenta para potencializar o individual. O craque é então obrigado a “se  adaptar” a funções que não são suas, a correr mais do que criar, a marcar mais do que pensar o jogo. Essa adaptação forçada não é evolução; é diluição. O talento, que deveria ser o motor da equipe, torna-se um peso, um elemento a ser contido. 

O futebol brasileiro, com sua rica história de camisas 10, sente particularmente essa  tensão. Telê Santana, um dos maiores expoentes do futebol arte, sempre defendeu a liberdade criativa, mas com responsabilidade. “O futebol é arte e disciplina”, dizia Telê,  sublinhando que a técnica e a ousadia precisam de um arcabouço tático para florescer,  mas nunca para serem sufocadas. Sua filosofia era a de que o talento deveria ser o ponto  de partida, e não um obstáculo a ser superado. 

Vanderlei Luxemburgo, em sua trajetória, também sempre valorizou o jogador que  pensa o jogo, o “cérebro” do meio-campo. Sua visão, muitas vezes pragmática, nunca abriu mão da importância de ter um jogador capaz de ditar o ritmo e a direção do  ataque. Muricy Ramalho, conhecido por sua ênfase na compactação e na solidez defensiva, também sabia que, para vencer, era preciso ter jogadores que fizessem a diferença na frente. O equilíbrio, para ele, não significava a ausência de craques, mas a sua integração funcional. 

4. A Responsabilidade do Treinador: Proteger e  Potencializar o Craque 

A chave para resgatar o protagonismo do camisa 10 reside na figura do treinador. É ele quem tem a responsabilidade de criar o ambiente tático e metodológico para que o craque não apenas sobreviva, mas brilhe. Isso implica em proteger o jogador criativo, construir mecanismos para que ele receba a bola em condições favoráveis e permitir que  ele exerça sua essência de desequilibrar. 

Abel Ferreira, um dos treinadores mais vitoriosos do futebol brasileiro recente, é um  exemplo de como a organização e a rotina de treino podem potencializar jogadores entre  linhas. Sua metodologia busca criar vantagens espaciais e temporais para que os  jogadores de qualidade recebam a bola em zonas de decisão. “O jogo é dos jogadores,  mas o treino é do treinador”, uma frase que resume a importância da preparação para que o talento se manifeste. O treinador não deve ser um limitador, mas um facilitador da  genialidade. 

Para que o camisa 10 seja protagonista, o treino precisa ser intencional. Isso significa: 

• Jogos posicionais que obriguem a equipe a encontrar o jogador criativo entre  linhas. 

• Tarefas específicas que simulem situações de decisão para o camisa 10.

• Mecanismos de apoio que garantam que ele tenha opções de passe e cobertura.

• Liberdade tática para flutuar e buscar o espaço onde pode ser mais efetivo. 

Sem essa metodologia, o camisa 10 se torna um talento isolado, recebendo poucas bolas em zonas úteis, e sua influência no jogo diminui drasticamente. O problema, portanto,  não é o jogador, mas a falta de um plano para ele. 

5. O Camisa 10 em Campo: Exemplos de Protagonismo  e Subutilização 

O futebol atual está repleto de exemplos que ilustram essa tensão entre o talento  individual e a lógica coletiva. 

No cenário mundial, Kevin De Bruyne é o protótipo do camisa 10 moderno que prospera em um sistema que o valoriza. No Manchester City de Guardiola, ele não é apenas um passador; é o motor da criação, o jogador que quebra linhas e decide. Sua  capacidade de leitura e execução é amplificada por uma equipe que o protege e o alimenta. Luka Modrić, no Real Madrid, mesmo com a idade avançada, continua sendo um maestro que dita o ritmo, controla a posse e encontra passes improváveis, mostrando  que a inteligência tática é atemporal quando há um ambiente que a sustenta. Bruno  Fernandes, no Manchester United, e Bernardo Silva e Jamal Musiala, em seus  respectivos clubes, também demonstram como a criatividade pode ser exercida com  mobilidade, intensidade e capacidade de decisão. 

No Brasil, a discussão é ainda mais latente. Ganso, no Fluminense, é um dos últimos  remanescentes do camisa 10 clássico, um jogador que precisa da bola no pé, de tempo e de espaço para pensar o jogo. Quando a equipe de Fernando Diniz, por exemplo,  consegue criar esse ambiente, Ganso se torna o maestro que organiza o ataque. Sua  subutilização em outros contextos não se deu por falta de talento, mas por falta de um sistema que o protegesse. 

Arrascaeta, no Flamengo, é outro exemplo de craque que, quando bem inserido, eleva o patamar da equipe. Sua capacidade de jogar entre linhas, de associar com poucos toques e de decidir em espaços curtos o torna um dos jogadores mais influentes do país.  Gustavo Scarpa, Matheus Pereira e Raphael Veiga também representam essa nova safra de meias que combinam técnica, leitura e capacidade de finalização. Todos eles, porém,  dependem de um coletivo que os entenda e os potencialize. 

Rodrygo, no Real Madrid, e Claudinho, em sua trajetória, ilustram como a criatividade  pode se manifestar em diferentes posições e com diferentes características. Rodrygo,  com sua mobilidade e capacidade de drible, e Claudinho, com sua visão de jogo e passe, mostram que o talento não está restrito à camisa 10, mas à capacidade de desequilibrar  em zonas cruciais do campo. O desafio é criar o ambiente para que esses jogadores não  sejam apenas “bons”, mas “protagonistas”. 

6. Discussão: O Talento Não Pode Ser Negociável 

A tese central deste artigo é clara: o talento não pode ser negociável em nome de uma  lógica coletiva que o sufoca. O futebol moderno, ao buscar o controle excessivo e a  minimização de riscos, corre o risco de se tornar um espetáculo previsível e sem brilho.  O camisa 10, o craque, é a antítese dessa previsibilidade. 

A frase de Telê Santana, “O futebol é arte e disciplina”, ressoa como um lembrete de  que a beleza do jogo reside na fusão entre a genialidade individual e a organização coletiva. Não se trata de escolher um em detrimento do outro, mas de encontrar o  equilíbrio que permita a ambos prosperar. 

O problema não é o camisa 10 se adaptar demais, e sim o jogo criar condições para ele aparecer. Muitos clubes priorizam controle e defesa de resultado, e acabam sufocando o craque. O treinador precisa proteger o protagonista e criar mecanismos para que ele participe mais. O talento precisa estar em campo e não ser substituído por uma lógica  excessivamente coletiva. 

7. Considerações Finais: O Futuro do Futebol Precisa  de Protagonistas 

O camisa 10 não desapareceu. Ele foi silenciado por um futebol que, em sua busca por controle e segurança, esqueceu-se de que a essência do jogo reside na imprevisibilidade e na genialidade. A reinvenção necessária não é do craque, mas do próprio sistema que  o cerca. 

A responsabilidade recai sobre os treinadores e os clubes. É preciso coragem para  proteger o talento, inteligência para criar mecanismos que o potencializem e sabedoria  para entender que o coletivo é uma ferramenta para amplificar o individual, e não para neutralizá-lo. O futebol precisa de protagonistas, de jogadores que ousem, que criem e  que decidam. O camisa 10, em sua essência, é a personificação dessa necessidade. 

O futuro do futebol não está em um jogo sem craques, mas em um jogo que saiba valorizá-los, protegê-los e colocá-los no centro do espetáculo. O talento precisa estar em campo, e é dever de todos os envolvidos no esporte garantir que ele tenha o protagonismo que merece. 

Referências 

• Cruyff, J. (1997). My Turn: The Autobiography. Pan Books. 

• Wilson, J. (2008). Inverting the Pyramid: The History of Football Tactics.  Orion. 

• Michels, R. (1971). Teambuilding and Tactical Principles in Modern Football.  (Referência conceitual baseada em sua filosofia).

• Guardiola, P. (Entrevistas e conferências sobre jogo de posição e ocupação de  espaços). 

• Sacchi, A. (Entrevistas e obras sobre organização coletiva, compactação e  sincronização). 

• Klopp, J. (Entrevistas e coletivas sobre pressão, intensidade e organização  coletiva). 

• Telê Santana. (Depoimentos e entrevistas sobre técnica, liberdade com  responsabilidade e jogo ofensivo). 

• Luxemburgo, V. (Entrevistas e análises sobre leitura de jogo e protagonismo do  meio-campo). 

• Muricy Ramalho. (Entrevistas e análises sobre equilíbrio tático e funcionalidade  coletiva). 

• Ferreira, A. (Entrevistas e coletivas sobre metodologia de treino e mecanismos  ofensivos). 

• González-Víllora, S., et al. (2015). Review of the tactical evaluation tools for  youth players, assessing the tactics in team sports: football. SpringerPlus, 4,  663. 

• Dom, et al. (2023). Evolution of Tactics in Football. Journal of Human Kinetics,  88, 207–216. 

• Placar. (2025). É o fim do camisa 10 clássico? (Artigo de revista). • ge.globo. (2025). Dez camisas 10 para ficar de olho no Brasileirão 2025.  (Artigo online). 

• History of Soccer. (2023). The History of the Attacking Midfielder (The No.10).  (Artigo online).

Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/

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De novo: Flamengo e Palmeiras! E sem favorito.

Por: Marcel Capretz

Nosso futebol está ‘espanholizado’. O Barcelona e o Real Madrid da Espanha são os nossos Flamengo e Palmeiras.

Tivemos intrusos recentes como o Botafogo em 2024 e o Atlético-MG em 2021, mas, em suma, são flamenguistas e palmeirenses que todo ano ficam com a expectativa real de ganharem títulos importantes. E nesta quase metade de temporada vejo mais uma vez equilíbrio entre os dois.

A tentação de colocar o Flamengo como favorito é grande, ainda mais porque escrevo esse texto logo após a goleada da equipe carioca de 4 a 0 em cima do Atlético-MG. E é inegável que o elenco flamenguista é mais estelar e mais robusto do que o palmeirense e isso atenua a efervescência nos bastidores evidenciada pela troca abrupta de Filipe Luiz por Léo Jardim.

Mas o pragmatismo de Abel Ferreira não deve jamais ser descartado. Essa estabilidade de quase seis anos no comando influenciam muito nos momentos decisivos. E até o 2025 sem títulos, perdendo Libertadores e Brasileirão para o próprio Flamengo, trazem lições e aprendizados importantes para serem aplicados em 2026.

Como dizia Alex Ferguson, nos áureos tempos de Manchester United, ‘o ano sem títulos me aproxima dos títulos no ano seguinte’.

De um lado a beleza do jogo do Flamengo. Do outro a eficiência do Palmeiras. Vem disputa boa por aí. Repito: não coloco os cariocas na frente, não. Mesmo com as diferenças evidentes no jeito de jogar, vejo muito equilíbrio.

A lamentar que não teremos nenhum intruso neste ano. Não vejo outro clube com chance de incomodar os dois favoritos. Vai seguir a ‘espanholização’…

Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/?originalSubdomain=br

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Revisitando a interpretação da terapia no futebol

Por: Nicolau Trevisani

Em diferentes textos aqui na Universidade do Futebol, já abordamos a importância do estado de flow como um dos elementos que ajudam a compreender o desempenho em campo. Esse estado, associado a níveis elevados de concentração, clareza e envolvimento com a tarefa, não surge de forma aleatória — ele é influenciado por múltiplos fatores, entre eles a forma como o atleta percebe, interpreta e reage às demandas do jogo. Nesse contexto, ampliar o olhar sobre o papel da terapia no futebol se torna relevante, não apenas sob um viés clínico, mas também como parte de um processo mais amplo de desenvolvimento e potencialização de desempenho individual e consequentemente coletivo.

Ainda é comum que o acompanhamento psicológico seja associado principalmente ao tratamento de dificuldades, como ansiedade, insegurança ou momentos de queda de rendimento. Esse papel é importante e, em muitos casos, necessário. No entanto, limitar a terapia a essa função reduz sua contribuição dentro do ambiente esportivo. O trabalho psicológico também pode atuar de forma contínua, ajudando o atleta a lidar melhor com as exigências do jogo, a sustentar níveis de atenção e a responder de maneira mais consistente em situações de pressão.

Na prática, esse impacto pode aparecer de diferentes formas, sempre considerando as particularidades de cada indivíduo. Alguns atletas podem se beneficiar de um trabalho voltado à relação com o erro, conseguindo se reorganizar mais rapidamente durante a partida. Outros podem desenvolver maior clareza na tomada de decisão, especialmente em contextos de alta exigência. Há também aqueles que buscam maior estabilidade ao longo de uma competição. Esses exemplos não são regras, mas possibilidades — e reforçam a ideia de que não existe um único caminho, mas sim a necessidade de compreender o atleta em sua individualidade.

Esse cuidado se estende também às diferentes etapas da trajetória esportiva, sem que isso represente uma divisão rígida ou universal. Em momentos iniciais, por exemplo, é importante que pais e responsáveis compreendam que o desenvolvimento do atleta vai além do aspecto técnico, incluindo dimensões emocionais e cognitivas que influenciam diretamente sua relação com o jogo. Ao longo da carreira, as demandas se transformam, e a forma como cada atleta responde a elas também varia. Por isso, mais do que definir em que momento a terapia deve estar presente, talvez seja mais produtivo entendê-la como um recurso disponível ao longo de todo o processo, ajustado às necessidades de cada indivíduo.

A literatura ajuda a sustentar essa relação entre mente e desempenho. Em “Flow: A Psicologia do Alto Desempenho”, Mihaly Csikszentmihalyi destaca como determinados estados mentais favorecem a execução em ambientes desafiadores. Já em “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar”, Daniel Kahneman demonstra como, sob pressão, nossas decisões tendem a seguir caminhos mais automáticos e sujeitos a vieses. No futebol, essas ideias ajudam a compreender que o desempenho não depende apenas do que o atleta sabe fazer, mas da sua capacidade de acessar esse repertório em situações reais de jogo.

Dentro desse contexto, a formação que busquei ao longo da minha trajetória — partindo da análise de jogo e do scouting, e avançando para um aprofundamento na psicologia — permite construir um olhar mais sistêmico sobre o atleta. Essa integração entre o entendimento do jogo e dos processos mentais amplia a capacidade de identificar tanto lacunas quanto potencialidades, contribuindo para uma leitura mais completa do desempenho. Um olhar que pode agregar tanto na avaliação do jogador, enquanto scout, quanto na compreensão mais ampla do atleta dentro do processo de desenvolvimento.

A abordagem sistêmica, na minha visão e convicção, se prova cada vez mais necessária para atender às demandas complexas do futebol e do esporte de alto rendimento nos dias atuais, nas diferentes funções que impactam no jogo.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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Sem conseguir ser criança, Flora não floresce

Por: Rafael Castellani & Sebastián Acevedo Vásquez

Não é raro nos depararmos com notícias que envolvem disputa entre dois ou mais clubes de futebol por um atleta. Para além das questões de objetivação e coisificação do atleta que marca esse tipo de situação, o que baliza esse processo e merece destaque é que frequentemente os desejos e necessidades do próprio jogador são negligenciados ou ficam em segundo plano.

Se entre atletas profissionais, adultos, esse processo já merece nossa atenção e crítica, imaginem quando o centro da disputa é uma criança!

Recentemente, nos deparamos com mais uma notícia, publicada no globoesporte.com, sobre o jovem Lucas Flora, que recentemente foi alvo de disputa entre Palmeiras e Corinthians. Flora, como tem sido chamado pela imprensa, é um garoto de 12 anos que ganhou destaque nacional pelo grande talento e habilidade demonstrados jogando futsal pelo clube alvinegro, sobretudo pela divulgação das suas jogadas nas redes sociais, nas quais já possui mais de 400.000 seguidores.

Este é o mesmo menino que, há poucos meses, foi noticiado em parte da imprensa como o instrumento de vingança entre Palmeiras e Corinthians. Em coluna do Portal R7, o colunista Cosme Rímoli afirmou que o Palmeiras, em retaliação ao fato da diretoria do Corinthians tentar, por três vezes, a contratação do coordenador técnico da base do Palmeiras, responsável pela revelação de grandes talentos, dentre eles o Estevão e o Endrick, iria “contratar” o promissor jogador, à época, uma criança de 11 anos de idade, oferecendo à sua família uma alta quantia em dinheiro, mais do que o dobro do valor oferecido pelo Corinthians.

A palavra “contratar” está propositalmente entre aspas, afinal, tanto a FIFA, quando a Lei Geral do Esporte, proíbem que crianças menores de 14 anos assinem contrato de formação ou profissional com clubes de futebol. Assim sendo, acordos celebrados com jovens menores de 14 anos não possuem validade desportiva. Tratando-se, à época, de uma criança de 11 anos, podemos destacar ainda a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção sobre os Direitos da Criança, que garantem os direitos integrais da criança, dentre eles, que o esporte seja uma ferramenta de desenvolvimento, e não um mecanismo de exploração precoce.

Nestes casos, podemos evocar, por exemplo, o artigo 24 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o qual garante a prática do futebol como lazer, priorizando o brincar; ou o artigo 32 da Convenção sobre os Direitos da Criança, que versa sobre a proteção contra a exploração econômica do menor. Ou então, se trazermos para análise o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a nova Lei Geral do Esporte, de 2023, está claro que qualquer contrato de trabalho só pode ser celebrado a partir dos 16 anos de idade e, no caso do futebol, o contrato de formação a partir dos 14 anos.

Para além das questões contratuais e normativas, o que nos interessa neste texto é saber quando é que vão devolver à criança o jogo, a brincadeira e o prazer pela prática do futebol.

Quando somos crianças, só pensamos em jogar bola e nos divertir. Entretanto, tal comportamento toma outra proporção e complexidade quando só a criança pensa que o futebol é somente um jogo de bola e o entorno vê nela oportunidades para melhoria financeira do clube, de ascensão social da família, para obter rendimentos com a representação do atleta e contratos com patrocinadores; assim, transformam essa criança em um “mini adulto”, fazendo-a assumir responsabilidades e lidar com pressões que não cabem na vida de uma criança que deveria, de fato, estar brincando de futebol, descalça na rua (em seu sentido amplo, conforme defendido por João Batista Freire), com as amizades próprias de uma criança de 12 anos.

Todos nós já fomos crianças e sabemos que se isso não for uma expressão de trabalho infantil, “bate na trave”; tudo com a ciência dos clubes e daqueles que se dizem interessados em gerenciar a carreira da criança.

E se o menino desistisse de jogar bola pela pressão a qual está sendo submetido? Será livre dessas responsabilidades assumidas ou terá que responder a um “dono”? Toda e qualquer criança deveria ter seus direitos garantidos, inclusive o direito de não querer voltar a jogar bola. O tamanho do contrato não pode ser maior do que o direito da criança em vivenciar sua infância e brincar em todas as etapas da sua vida.

Parafraseando uma música da banda Natiruts, “deixem o menino jogar!” É preciso tratarmos as crianças como crianças. Isso significa garantirmos sua segurança (física e emocional), o acolhimento de suas necessidades e interesses, reconhecendo-a em seu contexto, individualidade e integralidade.

Flora não é uma joia, ou seja, não é um produto ou mercadoria valiosa que precisa ser lapidada, como frequentemente é noticiado pela mídia e dirigentes. Flora é um broto; uma criança que precisa ser regada para florescer e se desenvolver. Ser regada a respeito, acolhimento, amor, diversão, prazer…

Quando falamos em diversidade de plantas de uma determinada região, estamos falando da flora de uma área. A flora de cada habitat é bastante peculiar e, ao mesmo tempo, distinta e está diretamente relacionada com fatores como temperatura, radiação luminosa, regime de chuva e solo. No Brasil, a flora é bastante rica, principalmente pela diversidade de ecossistemas existentes.

A Flora sempre se desenvolve no seu tempo, no seu ciclo; cada espécie é uma criança com sonhos e para que exista florescimento, precisamos garantir um contexto propício para a sua evolução e fortalecimento, como esperamos que seja o futuro de Lucas Flora e de toda e qualquer criança. Um contexto regado a amor, empatia, competência e compromisso ético pelo que fazemos, pela liberdade de expressão, pela colaboração com o ecossistema e com um futebol mais humano, lúdico, ecológico e menos mercadológico.

[1] https://ge.globo.com/futebol/times/corinthians/noticia/2026/04/14/corinthians-marca-reuniao-para-debater-futuro-de-flora-ausencia-em-torneios-incomoda-familia.ghtml. Acesso em 14/04/2026.

[2] https://esportes.r7.com/prisma/cosme-rimoli/palmeiras-por-vinganca-tirou-revelacao-de-11-anos-do-corinthians-rival-tentou-levar-o-descobridor-de-13062024/. Acesso em 14/04/2026

[3] Conceito Flora: https://brasilescola.uol.com.br/biologia/flora.htm



Rafael Moreno Castellanni é Coordenador Metodológico da Time Forte, responsável pelas unidades licenciadas do São Paulo Futebol Clube. Doutor em Psicologia do Esporte pela USP, mestre pela Unicamp e graduado em Educação Física pela UNESP, atua nas áreas de pedagogia do futebol, formação de treinadores e psicologia do esporte, com experiência acadêmica e consultiva no futebol e na educação.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/rafael-moreno-castellani/

Sebastián Acevedo Vásquez é Fundador e Presidente da Gondwana – Associação Cultural e Esportiva (OSC). Também é Diretor de Ecossistemas e Cultura de Inovação da SportsCoLab. Atua em projetos de inovação, educação social esportiva e desenvolvimento sustentável por meio do esporte, com experiência em empreendedorismo, direitos humanos e impacto social no futebol.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/homoludens3/


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Até treino “ruim” na formação é melhor que uma partida valendo 3 pontos: o papel do treino no processo formativo do futebol

A formação de atletas no futebol deve ser compreendida como um processo de longo prazo, orientado pela aprendizagem e pelo desenvolvimento progressivo de capacidades técnicas, táticas, cognitivas e comportamentais. Neste contexto, a competição formal não deve ocupar papel central nas etapas iniciais, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Defende-se, neste artigo, que o treino deve ser o eixo principal da metodologia formativa, enquanto o jogo* deve existir de forma complementar, preferencialmente em amistosos e jogos-treino, sem caráter competitivo formal.

*Quando nos referimos ao “jogo”, tratamos especificamente de partidas com caráter competitivo formal, valendo 3 pontos, que tendem a antecipar demandas por resultado e podem interferir negativamente no processo formativo.

Essa orientação encontra respaldo na literatura sobre crescimento e maturação no esporte jovem, desenvolvimento de talentos no futebol e uso pedagógico de jogos reduzidos.

Argumenta-se que, nessa fase, o principal objetivo da formação é ampliar repertórios e consolidar aprendizagens, e não antecipar exigências competitivas incompatíveis com o estágio de desenvolvimento do atleta.

Palavras-chave: futebol de base; treino; formação esportiva; maturação; jogos reduzidos.

1.   Introdução

A formação de atletas no futebol exige decisões metodológicas coerentes com os estágios de desenvolvimento biológico, motor e cognitivo. Em muitos contextos, observa-se a antecipação da competição formal como elemento central do processo, como se o jogo oficial fosse, por si só, capaz de produzir desenvolvimento. Essa lógica, contudo, tende a deslocar o foco da aprendizagem para o resultado.

A literatura clássica sobre prática deliberada indica que a excelência esportiva não decorre apenas da exposição à prática, mas da qualidade da prática realizada. Ericsson, Krampe e Tesch-Römer (1993) demonstraram que o desempenho de alto nível está associado a atividades estruturadas, repetidas e orientadas à correção de erros. No futebol de base, isso significa que o treino precisa ocupar posição central na formação, pois é nele que o atleta pode experimentar, repetir, corrigir e consolidar fundamentos.

Neste artigo, sustenta-se que o treino deve prevalecer sobre a competição formal até o segundo semestre da categoria Sub-14. Nessa etapa, o jogo deve existir como recurso metodológico, mas em formato amistoso e não competitivo, de modo a preservar o caráter pedagógico do processo.

2.   Treino, maturação e desenvolvimento de longo prazo

A prioridade do treino nas categorias iniciais encontra respaldo na literatura sobre crescimento e maturação no esporte jovem. Malina, Bouchard e Bar-Or destacam que crianças e adolescentes atravessam processos heterogêneos de desenvolvimento, com diferenças relevantes entre idade cronológica, maturação biológica e capacidades funcionais. Isso implica que a imposição precoce de exigências competitivas padronizadas pode produzir efeitos negativos, especialmente quando o atleta ainda está consolidando sua base motora e cognitiva.

No futebol de formação, essa compreensão é essencial. O treino permite ajustar as demandas ao estágio de cada atleta, respeitando ritmos individuais e oferecendo maior controle pedagógico. Já a competição formal tende a ampliar a pressão por desempenho, reduzir o espaço para o erro e privilegiar o resultado imediato.

Sarmento et al., em revisão sobre desenvolvimento de talentos no futebol, reforçam que a formação eficiente depende de ambientes estruturados, com foco em aprendizagem progressiva e desenvolvimento de longo prazo. Essa perspectiva é particularmente relevante para sustentar a ideia de que, até o segundo semestre do Sub-14, o objetivo principal não deve ser competir, mas formar.

3.   O papel do jogo na metodologia formativa

A defesa do treino como eixo principal não significa a exclusão do jogo. Pelo contrário: o jogo deve permanecer presente na metodologia, mas com função pedagógica bem definida. Até o segundo semestre do Sub-14, o jogo deve ocorrer preferencialmente em amistosos e jogos-treino, sem caráter competitivo formal.

Essa distinção é importante porque permite preservar a vivência coletiva, a cooperação, a leitura de jogo e a tomada de decisão, sem submeter o atleta às pressões simbólicas e emocionais da competição oficial. Nesse sentido, o jogo funciona como extensão do treino, e não como substituto da formação.

As revisões sobre small-sided games ajudam a sustentar essa lógica. Moran, Guilherme, Folgado, Miranda e Esgaio mostram que formatos reduzidos de jogo podem estimular comportamentos técnicos e táticos relevantes, mantendo intensidade e tomada de decisão em ambiente controlado. Assim, o jogo continua existindo, mas dentro de uma lógica metodológica que prioriza o aprendizado.

4.   Competição precoce e seus limites

A competição precoce pode comprometer a qualidade da formação porque tende a induzir escolhas pedagógicas voltadas ao curto prazo. Quando o foco se desloca para vencer, o processo de aprendizagem perde espaço para a avaliação do resultado. Isso é particularmente problemático em categorias iniciais, nas quais o atleta ainda necessita de amplo repertório de experiências e de tempo para consolidar fundamentos.

Ford, Yates e Williams (2010) demonstram que treinadores de base podem estruturar atividades competitivas dentro do próprio treino, sem necessidade de antecipar o jogo oficial. Essa constatação reforça um princípio importante: a competitividade pode ser construída metodologicamente, sem que a competição formal assuma protagonismo precoce.

Assim, a formação até o segundo semestre do Sub-14 deve privilegiar:

  • treino estruturado e progressivo;
  • jogos-treino e amistosos como recurso complementar;
  • ausência de competição formal como eixo central;
  • foco em aprendizagem, e não em resultado.

5.   Discussão

A tese central deste artigo é que, na formação de base, o treino deve ser mais importante do que a competição, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Isso não significa negar a importância do jogo, mas reconhecer que, nessa etapa, o jogo deve estar subordinado aos objetivos formativos.

A literatura aqui mobilizada converge para essa direção. Ericsson et al. (1993) sustentam a importância da prática deliberada. Malina, Bouchard e Bar-Or evidenciam que o desenvolvimento jovem é marcado por ritmos distintos de maturação. Sarmento et al. reforçam a necessidade de processos de longo prazo no futebol. Moran et al. demonstram que jogos reduzidos podem ser utilizados como recurso pedagógico sem necessidade de competição formal. Ford et al. mostram que a competitividade pode ser construída no treino.

Desse modo, a formação esportiva mais consistente não é aquela que antecipa a competição, mas aquela que organiza a aprendizagem com base em progressão, controle e intencionalidade pedagógica. O treino, mesmo quando ainda não é perfeito, oferece mais condições de desenvolvimento do que o jogo precoce porque permite corrigir, repetir e aprofundar.

6.   Conclusão

A formação de atletas no futebol deve priorizar o treino como eixo central do processo, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Nessa fase, o atleta ainda está em processo de consolidação motora, técnica e cognitiva, o que torna inadequada a centralidade da competição formal.

O jogo deve permanecer presente na metodologia, mas em caráter amistoso e não competitivo, como ferramenta complementar ao treino. Essa orientação é compatível com a literatura sobre maturação, desenvolvimento de talentos e prática deliberada, e sustenta uma visão mais responsável e consistente da formação esportiva.

Em síntese, mesmo um treino imperfeito pode oferecer mais valor formativo do que a competição precoce. O que define sua relevância não é a ausência de erro, mas a presença de um processo pedagógico intencional, progressivo e coerente com a fase de desenvolvimento do atleta.

Referências

Bompa, T., & Buzzichelli, C. (2019). Periodização: teoria e metodologia do treinamento. Phorte.

Côté, J., Baker, J., & Abernethy, B. (2007). Practice and play in the development of sport expertise. In G. Tenenbaum & R. C. Eklund (Eds.), Handbook of Sport Psychology (3rd ed.). Wiley.

Ericsson, K. A., Krampe, R. T., & Tesch-Römer, C. (1993). The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological Review, 100(3), 363–406.

Ford, P. R., Yates, I., & Williams, A. M. (2010). An analysis of practice activities and instructional behaviours used by youth soccer coaches during practice. Journal of Sports Sciences, 28(5), 483–495.

Malina, R. M., Bouchard, C., & Bar-Or, O. Growth, Maturation, and Physical Activity.

Moran, J., Guilherme, J., Folgado, H., Miranda, R., & Esgaio, R. [referência a ser normalizada em ABNT conforme o artigo específico]

Sarmento, H., et al. [referência a ser normalizada em ABNT conforme o artigo específico]



Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/