Por: Rafael Castellani & Sebastián Acevedo Vásquez
Não é raro nos depararmos com notícias que envolvem disputa entre dois ou mais clubes de futebol por um atleta. Para além das questões de objetivação e coisificação do atleta que marca esse tipo de situação, o que baliza esse processo e merece destaque é que frequentemente os desejos e necessidades do próprio jogador são negligenciados ou ficam em segundo plano.
Se entre atletas profissionais, adultos, esse processo já merece nossa atenção e crítica, imaginem quando o centro da disputa é uma criança!
Recentemente, nos deparamos com mais uma notícia, publicada no globoesporte.com, sobre o jovem Lucas Flora, que recentemente foi alvo de disputa entre Palmeiras e Corinthians. Flora, como tem sido chamado pela imprensa, é um garoto de 12 anos que ganhou destaque nacional pelo grande talento e habilidade demonstrados jogando futsal pelo clube alvinegro, sobretudo pela divulgação das suas jogadas nas redes sociais, nas quais já possui mais de 400.000 seguidores.
Este é o mesmo menino que, há poucos meses, foi noticiado em parte da imprensa como o instrumento de vingança entre Palmeiras e Corinthians. Em coluna do Portal R7, o colunista Cosme Rímoli afirmou que o Palmeiras, em retaliação ao fato da diretoria do Corinthians tentar, por três vezes, a contratação do coordenador técnico da base do Palmeiras, responsável pela revelação de grandes talentos, dentre eles o Estevão e o Endrick, iria “contratar” o promissor jogador, à época, uma criança de 11 anos de idade, oferecendo à sua família uma alta quantia em dinheiro, mais do que o dobro do valor oferecido pelo Corinthians.
A palavra “contratar” está propositalmente entre aspas, afinal, tanto a FIFA, quando a Lei Geral do Esporte, proíbem que crianças menores de 14 anos assinem contrato de formação ou profissional com clubes de futebol. Assim sendo, acordos celebrados com jovens menores de 14 anos não possuem validade desportiva. Tratando-se, à época, de uma criança de 11 anos, podemos destacar ainda a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção sobre os Direitos da Criança, que garantem os direitos integrais da criança, dentre eles, que o esporte seja uma ferramenta de desenvolvimento, e não um mecanismo de exploração precoce.
Nestes casos, podemos evocar, por exemplo, o artigo 24 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o qual garante a prática do futebol como lazer, priorizando o brincar; ou o artigo 32 da Convenção sobre os Direitos da Criança, que versa sobre a proteção contra a exploração econômica do menor. Ou então, se trazermos para análise o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a nova Lei Geral do Esporte, de 2023, está claro que qualquer contrato de trabalho só pode ser celebrado a partir dos 16 anos de idade e, no caso do futebol, o contrato de formação a partir dos 14 anos.
As revisões sobre small-sided games ajudam a sustentar essa lógica. Moran, Guilherme, Folgado, Miranda e Esgaio mostram que formatos reduzidos de jogo podem estimular comportamentos técnicos e táticos relevantes, mantendo intensidade e tomada de decisão em ambiente controlado. Assim, o jogo continua existindo, mas dentro de uma lógica metodológica que prioriza o aprendizado.
Para além das questões contratuais e normativas, o que nos interessa neste texto é saber quando é que vão devolver à criança o jogo, a brincadeira e o prazer pela prática do futebol.
Quando somos crianças, só pensamos em jogar bola e nos divertir. Entretanto, tal comportamento toma outra proporção e complexidade quando só a criança pensa que o futebol é somente um jogo de bola e o entorno vê nela oportunidades para melhoria financeira do clube, de ascensão social da família, para obter rendimentos com a representação do atleta e contratos com patrocinadores; assim, transformam essa criança em um “mini adulto”, fazendo-a assumir responsabilidades e lidar com pressões que não cabem na vida de uma criança que deveria, de fato, estar brincando de futebol, descalça na rua (em seu sentido amplo, conforme defendido por João Batista Freire), com as amizades próprias de uma criança de 12 anos.
Todos nós já fomos crianças e sabemos que se isso não for uma expressão de trabalho infantil, “bate na trave”; tudo com a ciência dos clubes e daqueles que se dizem interessados em gerenciar a carreira da criança.
E se o menino desistisse de jogar bola pela pressão a qual está sendo submetido? Será livre dessas responsabilidades assumidas ou terá que responder a um “dono”? Toda e qualquer criança deveria ter seus direitos garantidos, inclusive o direito de não querer voltar a jogar bola. O tamanho do contrato não pode ser maior do que o direito da criança em vivenciar sua infância e brincar em todas as etapas da sua vida.
Parafraseando uma música da banda Natiruts, “deixem o menino jogar!” É preciso tratarmos as crianças como crianças. Isso significa garantirmos sua segurança (física e emocional), o acolhimento de suas necessidades e interesses, reconhecendo-a em seu contexto, individualidade e integralidade.
Flora não é uma joia, ou seja, não é um produto ou mercadoria valiosa que precisa ser lapidada, como frequentemente é noticiado pela mídia e dirigentes. Flora é um broto; uma criança que precisa ser regada para florescer e se desenvolver. Ser regada a respeito, acolhimento, amor, diversão, prazer…
Quando falamos em diversidade de plantas de uma determinada região, estamos falando da flora de uma área. A flora de cada habitat é bastante peculiar e, ao mesmo tempo, distinta e está diretamente relacionada com fatores como temperatura, radiação luminosa, regime de chuva e solo. No Brasil, a flora é bastante rica, principalmente pela diversidade de ecossistemas existentes.
A Flora sempre se desenvolve no seu tempo, no seu ciclo; cada espécie é uma criança com sonhos e para que exista florescimento, precisamos garantir um contexto propício para a sua evolução e fortalecimento, como esperamos que seja o futuro de Lucas Flora e de toda e qualquer criança. Um contexto regado a amor, empatia, competência e compromisso ético pelo que fazemos, pela liberdade de expressão, pela colaboração com o ecossistema e com um futebol mais humano, lúdico, ecológico e menos mercadológico.
Rafael Moreno Castellanni é Coordenador Metodológico da Time Forte, responsável pelas unidades licenciadas do São Paulo Futebol Clube. Doutor em Psicologia do Esporte pela USP, mestre pela Unicamp e graduado em Educação Física pela UNESP, atua nas áreas de pedagogia do futebol, formação de treinadores e psicologia do esporte, com experiência acadêmica e consultiva no futebol e na educação. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/rafael-moreno-castellani/
Sebastián Acevedo Vásquez é Fundador e Presidente da Gondwana – Associação Cultural e Esportiva (OSC). Também é Diretor de Ecossistemas e Cultura de Inovação da SportsCoLab. Atua em projetos de inovação, educação social esportiva e desenvolvimento sustentável por meio do esporte, com experiência em empreendedorismo, direitos humanos e impacto social no futebol. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/homoludens3/
A formação de atletas no futebol deve ser compreendida como um processo de longo prazo, orientado pela aprendizagem e pelo desenvolvimento progressivo de capacidades técnicas, táticas, cognitivas e comportamentais. Neste contexto, a competição formal não deve ocupar papel central nas etapas iniciais, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Defende-se, neste artigo, que o treino deve ser o eixo principal da metodologia formativa, enquanto o jogo* deve existir de forma complementar, preferencialmente em amistosos e jogos-treino, sem caráter competitivo formal.
*Quando nos referimos ao “jogo”, tratamos especificamente de partidas com caráter competitivo formal, valendo 3 pontos, que tendem a antecipar demandas por resultado e podem interferir negativamente no processo formativo.
Essa orientação encontra respaldo na literatura sobre crescimento e maturação no esporte jovem, desenvolvimento de talentos no futebol e uso pedagógico de jogos reduzidos.
Argumenta-se que, nessa fase, o principal objetivo da formação é ampliar repertórios e consolidar aprendizagens, e não antecipar exigências competitivas incompatíveis com o estágio de desenvolvimento do atleta.
Palavras-chave: futebol de base; treino; formação esportiva; maturação; jogos reduzidos.
1. Introdução
A formação de atletas no futebol exige decisões metodológicas coerentes com os estágios de desenvolvimento biológico, motor e cognitivo. Em muitos contextos, observa-se a antecipação da competição formal como elemento central do processo, como se o jogo oficial fosse, por si só, capaz de produzir desenvolvimento. Essa lógica, contudo, tende a deslocar o foco da aprendizagem para o resultado.
A literatura clássica sobre prática deliberada indica que a excelência esportiva não decorre apenas da exposição à prática, mas da qualidade da prática realizada. Ericsson, Krampe e Tesch-Römer (1993) demonstraram que o desempenho de alto nível está associado a atividades estruturadas, repetidas e orientadas à correção de erros. No futebol de base, isso significa que o treino precisa ocupar posição central na formação, pois é nele que o atleta pode experimentar, repetir, corrigir e consolidar fundamentos.
Neste artigo, sustenta-se que o treino deve prevalecer sobre a competição formal até o segundo semestre da categoria Sub-14. Nessa etapa, o jogo deve existir como recurso metodológico, mas em formato amistoso e não competitivo, de modo a preservar o caráter pedagógico do processo.
2. Treino, maturação e desenvolvimento de longo prazo
A prioridade do treino nas categorias iniciais encontra respaldo na literatura sobre crescimento e maturação no esporte jovem. Malina, Bouchard e Bar-Or destacam que crianças e adolescentes atravessam processos heterogêneos de desenvolvimento, com diferenças relevantes entre idade cronológica, maturação biológica e capacidades funcionais. Isso implica que a imposição precoce de exigências competitivas padronizadas pode produzir efeitos negativos, especialmente quando o atleta ainda está consolidando sua base motora e cognitiva.
No futebol de formação, essa compreensão é essencial. O treino permite ajustar as demandas ao estágio de cada atleta, respeitando ritmos individuais e oferecendo maior controle pedagógico. Já a competição formal tende a ampliar a pressão por desempenho, reduzir o espaço para o erro e privilegiar o resultado imediato.
Sarmento et al., em revisão sobre desenvolvimento de talentos no futebol, reforçam que a formação eficiente depende de ambientes estruturados, com foco em aprendizagem progressiva e desenvolvimento de longo prazo. Essa perspectiva é particularmente relevante para sustentar a ideia de que, até o segundo semestre do Sub-14, o objetivo principal não deve ser competir, mas formar.
3. O papel do jogo na metodologia formativa
A defesa do treino como eixo principal não significa a exclusão do jogo. Pelo contrário: o jogo deve permanecer presente na metodologia, mas com função pedagógica bem definida. Até o segundo semestre do Sub-14, o jogo deve ocorrer preferencialmente em amistosos e jogos-treino, sem caráter competitivo formal.
Essa distinção é importante porque permite preservar a vivência coletiva, a cooperação, a leitura de jogo e a tomada de decisão, sem submeter o atleta às pressões simbólicas e emocionais da competição oficial. Nesse sentido, o jogo funciona como extensão do treino, e não como substituto da formação.
As revisões sobre small-sided games ajudam a sustentar essa lógica. Moran, Guilherme, Folgado, Miranda e Esgaio mostram que formatos reduzidos de jogo podem estimular comportamentos técnicos e táticos relevantes, mantendo intensidade e tomada de decisão em ambiente controlado. Assim, o jogo continua existindo, mas dentro de uma lógica metodológica que prioriza o aprendizado.
4. Competição precoce e seus limites
A competição precoce pode comprometer a qualidade da formação porque tende a induzir escolhas pedagógicas voltadas ao curto prazo. Quando o foco se desloca para vencer, o processo de aprendizagem perde espaço para a avaliação do resultado. Isso é particularmente problemático em categorias iniciais, nas quais o atleta ainda necessita de amplo repertório de experiências e de tempo para consolidar fundamentos.
Ford, Yates e Williams (2010) demonstram que treinadores de base podem estruturar atividades competitivas dentro do próprio treino, sem necessidade de antecipar o jogo oficial. Essa constatação reforça um princípio importante: a competitividade pode ser construída metodologicamente, sem que a competição formal assuma protagonismo precoce.
Assim, a formação até o segundo semestre do Sub-14 deve privilegiar:
treino estruturado e progressivo;
jogos-treino e amistosos como recurso complementar;
ausência de competição formal como eixo central;
foco em aprendizagem, e não em resultado.
5. Discussão
A tese central deste artigo é que, na formação de base, o treino deve ser mais importante do que a competição, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Isso não significa negar a importância do jogo, mas reconhecer que, nessa etapa, o jogo deve estar subordinado aos objetivos formativos.
A literatura aqui mobilizada converge para essa direção. Ericsson et al. (1993) sustentam a importância da prática deliberada. Malina, Bouchard e Bar-Or evidenciam que o desenvolvimento jovem é marcado por ritmos distintos de maturação. Sarmento et al. reforçam a necessidade de processos de longo prazo no futebol. Moran et al. demonstram que jogos reduzidos podem ser utilizados como recurso pedagógico sem necessidade de competição formal. Ford et al. mostram que a competitividade pode ser construída no treino.
Desse modo, a formação esportiva mais consistente não é aquela que antecipa a competição, mas aquela que organiza a aprendizagem com base em progressão, controle e intencionalidade pedagógica. O treino, mesmo quando ainda não é perfeito, oferece mais condições de desenvolvimento do que o jogo precoce porque permite corrigir, repetir e aprofundar.
6. Conclusão
A formação de atletas no futebol deve priorizar o treino como eixo central do processo, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Nessa fase, o atleta ainda está em processo de consolidação motora, técnica e cognitiva, o que torna inadequada a centralidade da competição formal.
O jogo deve permanecer presente na metodologia, mas em caráter amistoso e não competitivo, como ferramenta complementar ao treino. Essa orientação é compatível com a literatura sobre maturação, desenvolvimento de talentos e prática deliberada, e sustenta uma visão mais responsável e consistente da formação esportiva.
Em síntese, mesmo um treino imperfeito pode oferecer mais valor formativo do que a competição precoce. O que define sua relevância não é a ausência de erro, mas a presença de um processo pedagógico intencional, progressivo e coerente com a fase de desenvolvimento do atleta.
Referências
Bompa, T., & Buzzichelli, C. (2019). Periodização: teoria e metodologia do treinamento. Phorte.
Côté, J., Baker, J., & Abernethy, B. (2007). Practice and play in the development of sport expertise. In G. Tenenbaum & R. C. Eklund (Eds.), Handbook of Sport Psychology (3rd ed.). Wiley.
Ericsson, K. A., Krampe, R. T., & Tesch-Römer, C. (1993). The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological Review, 100(3), 363–406.
Ford, P. R., Yates, I., & Williams, A. M. (2010). An analysis of practice activities and instructional behaviours used by youth soccer coaches during practice. Journal of Sports Sciences, 28(5), 483–495.
Malina, R. M., Bouchard, C., & Bar-Or, O. Growth, Maturation, and Physical Activity.
Moran, J., Guilherme, J., Folgado, H., Miranda, R., & Esgaio, R. [referência a ser normalizada em ABNT conforme o artigo específico]
Sarmento, H., et al. [referência a ser normalizada em ABNT conforme o artigo específico]
Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/
Ao longo desta série, tenho procurado refletir sobre o futebol de base para além do campo. Falei de afeto, vínculos, ausências, exploração e projeções emocionais. Neste quarto artigo, avanço para um fenômeno cada vez mais presente no cotidiano dos clubes: o surgimento dos “meninos profissionais” e, de forma ainda mais delicada, do menino arrimo de família.
Trata-se de uma realidade complexa, que exige sensibilidade, responsabilidade institucional e coragem para ser enfrentada.
A Rotina de um “Menino Profissional”
Entre os meses de março e dezembro, o calendário das competições de base é intenso. Jogos aos finais de semana, treinos diários, deslocamentos longos, horários rígidos e cobrança constante por desempenho.
Na prática, esses meninos vivem uma rotina que pouco dialoga com a infância, mas muito próxima a de atletas adultos. O futebol passa a organizar toda a vida: horários, descanso, alimentação, escola e convivência social. O tempo livre desaparece. O lazer se reduz. A infância vai sendo encurtada.
A convivência familiar também sofre. A família passa a viver em função do futebol: leva e busca em treinos, acompanha jogos, viaja aos finais de semana e reorganiza sua própria vida a partir da agenda do clube. O atleta deixa de se adaptar à família, é a família que passa a se adaptar ao atleta. E, sem perceber, todos entram nesse mesmo ritmo.
Quando a Família Vive em Função do Filho Atleta
Esse movimento, apesar de bem-intencionado, tem efeitos colaterais importantes. A criança passa a ocupar um lugar central na dinâmica familiar, muitas vezes assumindo um protagonismo que não condiz com sua maturidade emocional.
O futebol vira prioridade absoluta. A escola perde espaço. O convívio social fora do clube diminui. O menino passa a ser tratado como “projeto”, “investimento” ou “esperança”. Como visto no 3º artigo desta série, “ativo” de um projeto familiar/financeiro. E isso pesa.
O supervisor, atento, percebe alguns sinais: cansaço extremo, dificuldade de concentração, irritabilidade, resistência às rotinas escolares e conflitos de autoridade dentro de casa.
Quando o Menino se Torna Arrimo de Família
Em muitos casos, esse processo começa muito cedo. Hoje, meninos a partir dos 9 anos de idade já recebem “ajuda de custo”. O que, no discurso formal, é apresentado como apoio para transporte e alimentação, na prática, em diversas realidades, torna-se a principal, ou única, fonte de renda da família.
Esse é um ponto sensível e pouco discutido: há famílias que passam a depender financeiramente do rendimento esportivo de uma criança. O futebol deixa de ser apenas um sonho e passa a ser necessidade.
Há casos em que a família se muda de outra cidade, ou até mesmo de outro estado, para ficar próxima ao clube. Em algumas situações, passam a morar em casas “emprestadas” por empresários. Em outras, o valor recebido pelo menino como ajuda de custo é utilizado para pagar aluguel, contas básicas e despesas familiares.
Nesse contexto, a criança assume, ainda que inconscientemente, um papel de responsabilidade adulta. O peso emocional é enorme. O erro deixa de ser apenas esportivo e passa a ser percebido como ameaça à estabilidade da família.
Em alguns casos, esse processo se intensifica ainda mais, transformando o atleta em arrimo da família, alguém de quem se espera sucesso, retorno financeiro e ascensão social.
Cito algumas situações reais, obviamente modificando os nomes verdadeiros.
Lembro-me do atleta Didi, que vivia com a avó. Dentro de casa, era ele quem “mandava”. A figura adulta se invertia: a avó orbitava em torno das vontades do menino, que já se percebia com poder e responsabilidade além da idade, já que era responsável pelo sustento e pelo futuro da família. Não à toa, com 15 anos, podendo morar no alojamento do clube, ele preferiu continuar morando com a avó.
Outro caso marcante foi o do atleta Dedé, que aos 13 anos não queria ir à escola. Estava cansado dos treinos, dizia não ter energia. A mãe permitia que faltasse, justificando o desgaste físico. Em determinado momento, ela mesma verbalizou: “Eu tento falar com ele, mas ele não me obedece.”
Esses casos demonstram um deslocamento perigoso de papéis, no qual a autoridade parental se fragiliza e o futebol passa a justificar tudo, inclusive a negligência involuntária de etapas fundamentais da formação.
Neste contexto, o futebol legitima a quebra de limites e enfraquece a função educativa da família. O menino deixa de ser orientado e passa a ser tolerado.
Os Riscos Invisíveis Desse Processo
Quando o menino assume, ainda que simbolicamente, o papel de adulto, algo se perde. A infância deixa de ser vivida plenamente. A escola se torna secundária. A frustração passa a ser mais difícil de elaborar. O erro não é tolerado. O cansaço é naturalizado.
Esses meninos aprendem cedo a performar e carregar responsabilidades que não deveriam ser suas, mas nem sempre aprendem a lidar com limites, frustrações e hierarquias. Desenvolvem comportamentos de controle, ansiedade, agressividade ou resistência à autoridade, o que pode gerar conflitos futuros, dentro e fora do campo.
Como visto no 2º artigo desta série, um menino com 13 anos “mandava” no condomínio onde morava.
O futebol de base, quando não bem cuidado, corre o risco de formar atletas tecnicamente preparados, mas emocionalmente sobrecarregados: atletas precoces e adultos frágeis emocionalmente.
O Papel do Supervisor Diante dessa Realidade
Nesse cenário, o supervisor precisa assumir um papel ainda mais atento e ético.
É ele quem observa o excesso, percebe o desgaste e, muitas vezes, é o primeiro a identificar que algo saiu do equilíbrio.
Lhe cabe escutar a família, observar a rotina e identificar quando o processo deixou de ser saudável; provocar reflexões, chamar a família para o diálogo, reforçar a importância da escola, do descanso e da convivência familiar saudável. Cabe também lembrar que nenhuma carreira esportiva se sustenta sem base emocional e educacional sólida, quando construída sobre o sacrifício da infância.
O supervisor não está ali para romper sonhos, mas para protegê-los. Para garantir que o processo não sacrifique a infância em nome de uma promessa futura. Proteger o atleta, nesses casos, é proteger também a família, ajudando-a a compreender que o futebol não pode ser o único projeto de vida possível.
Futebol de Base: Ritmo, Limite e Humanidade
O futebol de base precisa ser intenso, competitivo e formativo para atletas preparados, mas não pode ser desumano. Crianças não são adultos em miniatura. São pessoas em desenvolvimento, que precisam de tempo, cuidado e orientação.
O futebol não pode transformar crianças em profissionais precoces, nem famílias em dependentes de uma promessa incerta. Meninos não podem carregar o peso de sustentar lares. Precisam de tempo, orientação e cuidado para crescer.
Formar atletas exige método. Formar pessoas exige sensibilidade.
Formar atletas é importante. Formar pessoas é indispensável.
O desafio está justamente em equilibrar esses dois mundos.
Seguimos refletindo.
Caio Rizek é Supervisor de Futebol de Base do São Paulo FC, atuando na organização e integração dos processos esportivos e institucionais das categorias de formação. É advogado e bacharel/licenciado em Educação Física, com formação executiva em gestão e liderança (MBA USP/Esalq). Possui experiência na supervisão operacional do departamento de futebol, relacionamento com comissão técnica, atletas e famílias, além de atuação em rotinas estratégicas do ambiente de base. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/caiorizek/
A gestão de clubes de futebol amador constitui um domínio particularmente exigente no contexto desportivo atual e à escala global, marcado por limitações estruturais, escassez de recursos financeiros e humanos e dependência de dinâmicas comunitárias. Neste enquadramento, o conceito de “contabilidade criativa” assume uma relevância acrescida, podendo ser reinterpretado como um conjunto de práticas estratégicas e inovadoras orientadas para a maximização de recursos e para a sustentabilidade organizacional, sem comprometer os princípios éticos e legais. O presente artigo propõe uma análise aprofundada deste conceito aplicado ao futebol amador, articulando uma abordagem teórica, evidenciando os seus limites e potencialidades na gestão quotidiana dos clubes.
1. Introdução
O futebol amador desempenha um papel central no desenvolvimento social, cultural e desportivo das comunidades locais, constituindo frequentemente o primeiro espaço de socialização desportiva de crianças e jovens, bem como um elemento identitário das regiões onde se insere. Em Portugal, esta realidade assume particular expressão, com centenas de clubes a operarem em contextos marcados pela forte proximidade comunitária e reduzida capacidade financeira, humana e estrutural.
Apesar da sua relevância social, a gestão dos clubes amadores é frequentemente caracterizada por uma estrutura organizacional pouco formal, dependente da “boa vontade” e do voluntariado das suas direções/staff/sócios e adeptos dos clubes de futebol, com reduzido acesso a competências técnicas especializadas, nomeadamente nas áreas da gestão e da contabilidade. Este cenário cria um ambiente onde a sobrevivência do clube amador depende, em grande medida, da capacidade dos seus dirigentes de encontrar soluções criativas que permitam fazer face a constrangimentos financeiros constantes ao longo das épocas desportivas.
É neste contexto que se insere a noção de contabilidade criativa, que em termos tradicionais, o conceito esteja associado a práticas de manipulação contabilística, a sua reinterpretação no âmbito do futebol amador permite enquadrá-lo como um conjunto de estratégias legítimas de gestão inovadora de recursos. Importa analisar de que forma a criatividade contabilísticas dos gestores desportivos no futebol amador pode ser mobilizada de forma ética e eficaz, contribuindo para a sustentabilidade e desenvolvimento dos clubes.
2. Reinterpretação da contabilidade criativa no contexto amador
A contabilidade criativa tem sido amplamente debatida, sendo frequentemente associada a práticas que exploram lacunas normativas para apresentar uma imagem financeira mais favorável de uma organização desportiva. Contudo, esta visão negativa não esgota o potencial do conceito, especialmente quando transposto para contextos de pequena escala, como é o caso dos clubes de futebol amador à escala global.
A contabilidade criativa pode ser entendida como a capacidade de reorganizar, adaptar e maximizar recursos existentes, respeitando os enquadramentos legais e fiscais. Trata-se, portanto, da necessidade da criatividade aplicada à gestão financeira, que não visa ocultar informação, mas sim potenciar a eficiência organizacional dos clubes de futebol amador. Os acordos com empresas locais para fornecimento de serviços e equipamentos em troca de visibilidade publicitária está, na prática, a utilizar uma forma de contabilidade criativa assente em permutas diretas. Da mesma forma, a utilização de instalações municipais mediante protocolos de cooperação permite reduzir custos operacionais, traduzindo-se numa gestão mais eficiente dos recursos disponíveis.
Esta reinterpretação exige, contudo, uma mudança de paradigma: a criatividade contabilística deve ser encarada como uma competência estratégica e não como um mecanismo de evasão ou manipulação. A sua aplicação deve ser sustentada por princípios de transparência, responsabilidade e rigor.
3. Estrutura financeira dos clubes de futebol amador
A análise da estrutura financeira dos clubes de futebol amadores revela um padrão comum de fragilidade e dependência externa, sendo que as receitas são, em grande medida, limitadas e voláteis e frequentemente insuficientes para cobrir os custos operacionais dos clubes ao longo das épocas desportivas.
Entre as principais fontes de receita, destacam-se as quotas dos sócios, que, embora importantes, tendem a ser reduzidas e irregulares, muito pelo contexto local, pela diversificação da oferta e pela instabilidade financeira global. A base associativa de muitos clubes é envelhecida, o que limita a capacidade de crescimento desta fonte de financiamento.
Os apoios das autarquias locais representam outra fonte relevante, muitas vezes determinante para a sobrevivência dos clubes. Estes apoios estão sujeitos a constrangimentos orçamentais e a alterações políticas, o que introduz um elevado grau de incerteza e implica capacidade de adaptação por parte dos gestores desportivos. Os patrocínios de empresas locais, por sua vez, dependem da dinâmica económica da região, sendo frequentemente modestos a nível financeiro, e mais elevados a nível de serviços/equipamentos.
A nível de despesas fixas e variáveis, os clubes enfrentam encargos significativos, nomeadamente com inscrições em competições, organizações de jogos, policiamento, arbitragem, deslocações para a competição, manutenção de infraestruturas, custos com staff e planteis, aquisição de equipamentos desportivos, arrendamento de espaço e equipamento e licenças para serviços administrativos para um bom funcionamento. Mesmo em contextos amadores, a exigência competitiva implica custos que não podem ser negligenciados, a par dos acima referidos, existem custos fixos mensais com os recursos humanos na componente desportiva, nomeadamente com planteis, técnicos, staff.
Perante este cenário, torna-se evidente a necessidade de uma gestão financeira rigorosa e, simultaneamente, criativa, capaz de equilibrar receitas e despesas de forma sustentável.
Tabela 1 – Comparação entre clubes profissionais e amadores
A comparação apresentada na Tabela 1 permite compreender que, embora a contabilidade criativa exista em ambos os contextos, a sua natureza difere substancialmente. Nos clubes profissionais, está frequentemente associada a engenharia financeira complexa, enquanto nos clubes amadores assume uma dimensão mais operacional e pragmática.
4. Estratégias de contabilidade criativa na prática
Uma das principais formas de contabilidade criativa nos clubes amadores reside na valorização do capital social, nomeadamente através do voluntariado da sua massa adepta. Dirigentes, gestores desportivos e colaboradores desempenham frequentemente funções sem remuneração, contribuindo de forma decisiva para a redução de custos.
Um clube que mobiliza ex-atletas para desempenharem funções técnicas ou administrativas está a transformar capital humano em valor económico indireto. Esta prática, embora comum, exige uma gestão cuidadosa, de modo a evitar sobrecarga e garantir a continuidade do compromisso dos voluntários ao longo das diferentes épocas desportivas. São inúmeros os casos em que o esforço e dedicação não reconhecidos pela direção dos clubes, o que leva à desistência destes recursos humanos dedicados ao funcionamento do clube amador.
As parcerias com entidades locais constituem uma ferramenta fundamental de gestão criativa, podendo assumir diversas formas, desde acordos de patrocínio até permutas de serviços. Estabelecer parcerias locais entre o clube e as entidades privadas locais com intuito de auferir de serviços – por exemplo refeições aos atletas em dias de jogo, equipamentos de treino e jogos, merchandising, transportes – em troca de publicidade nas instalações do clube, nos dias de jogo e nas redes sociais. Esta solução permite reduzir custos e, simultaneamente, reforçar a ligação à comunidade. A colaboração entre clubes e escolas, que pode permitir a utilização de instalações desportivas em horários específicos, reduzindo a necessidade de investimento em infraestruturas próprias.
A contabilidade criativa, no contexto do futebol amador, deve ser entendida como um processo de adaptação estratégica, orientado para a maximização da eficiência na utilização de recursos escassos. Esta abordagem implica uma mudança de paradigma, onde a gestão financeira deixa de ser meramente contabilística e passa a assumir uma dimensão estratégica e inovadora.
A criatividade manifesta-se na capacidade de:
i. Reconfigurar recursos existentes;
ii. Identificar oportunidades de colaboração;
iii. Desenvolver soluções alternativas de financiamento;
iv. Reduzir custos sem comprometer a qualidade.
A organização de eventos constitui uma estratégia frequentemente utilizada para gerar receitas adicionais nas épocas desportivas. A realização e/ou participação nos torneios infantis e campanhas de angariação de fundos são exemplos de iniciativas que, para além do retorno financeiro, contribuem para o reforço do espírito comunitário e ligação com o seu clube de futebol. Organizar torneios de futebol infantis que envolvam equipas locais e visitantes pode gerar receitas através de inscrições, venda de alimentos e bebidas, merchandising e patrocínios associados ao evento. Esta abordagem, embora exigente em termos organizacionais, pode ter um impacto significativo na sustentabilidade financeira do clube de futebol amador.
A contabilidade criativa não dispensa o rigor, pelo contrário, exige um planeamento financeiro estruturado, baseado em orçamentos realistas e na monitorização contínua das contas. A capacidade de antecipar despesas, identificar oportunidades de poupança e ajustar estratégias em função da evolução financeira constitui um elemento central da gestão eficaz. Neste contexto, a criatividade manifesta-se na forma como os recursos são alocados e otimizados, e não na manipulação de dados.
Tabela 2 – Estrutura típica de receitas dos clubes de futebol amador
A análise da Tabela 2 permite concluir que os clubes amadores de futebol apresentam uma forte dependência de financiamento externo, particularmente de entidades públicas. Esta realidade reforça a necessidade de diversificação de receitas e de implementação de estratégias inovadoras, enquadráveis na lógica da contabilidade criativa.
Os clubes conseguem reduzir a dependência de subsídios através da dinamização de eventos ou da criação de redes de parceiros locais, tendem a apresentar maior resiliência financeira. Um aspecto relevante no futebol amador, a par da dedicação das direções e estruturas amadores, é o elevado impacto do voluntariado, que constitui um dos pilares estruturais do funcionamento dos clubes amadores. Contudo, a sua sustentabilidade depende da motivação e do reconhecimento dos indivíduos envolvidos.
Tabela 3 – Estratégias de contabilidade criativa e impacto financeiro
A Tabela 3 evidencia que a contabilidade criativa não se limita à redução de custos, mas inclui de igual forma estratégias que permitem gerar receitas e de otimização fiscal. Importa sublinhar que estas práticas são legítimas quando enquadradas no respeito pelas normas legais e contabilísticas aplicáveis em cada país/região.
Apesar das vantagens associadas à contabilidade criativa, é fundamental reconhecer os seus limites legais e financeiros. A adoção de práticas que ultrapassem o enquadramento legal ou que comprometam a transparência financeira pode ter consequências graves, incluindo sanções legais e perda de credibilidade. A tentativa de ocultar dívidas, atrasar pagamentos ou apresentar contas distorcidas constitui um risco real, especialmente em contextos de pressão financeira. No entanto, estas práticas não só são ilegais como comprometem a sustentabilidade do clube de futebol a longo prazo. A gestão criativa deve ser orientada por princípios éticos claros, incluindo a prestação de contas aos sócios, através de relatórios de contas e o cumprimento das obrigações fiscais e a transparência na gestão de recursos. A implementação de mecanismos de controlo interno e a imperativa colaboração com profissionais de contabilidade certificados ajudam a mitigar riscos.
A eficácia da contabilidade criativa depende, em larga medida, da qualidade da liderança de dirigentes com visão estratégica, capacidade de inovação e sensibilidade ética, sendo essenciais para implementar soluções sustentáveis nos clubes. No futebol amador, a existência de uma gestão rigorosa e séria, torna-se mais complexa do que no futebol profissional e carece de conhecimento/formação por parte dos dirigentes. Direções com experiência no futebol profissional, acabam por gerir os clubes amadores de forma mais transparente, séria e servindo de exemplo para outros clubes amadores. Um bom exemplo são os clubes fénix – Rangers, Fiorentina, Wimbledon, União da Bola – clubes que renasceram, crescem de forma sustentada e fruto é uma gestão contabilística exemplar.
A profissionalização parcial da gestão profissional no futebol, através da formação dos dirigentes ou da colaboração com especialistas, pode representar um investimento estratégico a longo prazo. Mesmo em contextos amadores, a adoção de práticas de gestão modernas contribui para a credibilidade e eficiência do clube. A liderança deve também promover uma cultura organizacional baseada na transparência, na responsabilidade e na participação, envolvendo sócios/adeptos, atletas e comunidade local nas decisões estratégicas.
Conclusão
A gestão de clubes de futebol amador revela-se um domínio particularmente complexo, exigindo uma articulação constante entre recursos escassos – humanos, financeiros e estruturais – exigências competitivas e responsabilidades sociais. Neste artigo procurou-se demonstrar que a contabilidade criativa, quando reinterpretada à luz de uma abordagem ética e estratégica, pode constituir um instrumento fundamental para a sustentabilidade destas organizações.
Importa sublinhar que a fragilidade estrutural dos clubes amadores de futebol não decorre exclusivamente da limitação de recursos financeiros, mas também da ausência de modelos de gestão profissionais e da dependência excessiva de fontes externas de financiamento, nomeadamente de entidades públicas. Esta realidade obriga os dirigentes a desenvolverem soluções adaptativas, muitas vezes baseadas na criatividade e na capacidade de mobilização de recursos não convencionais. Neste sentido, a contabilidade criativa emerge não como um mecanismo de distorção da realidade financeira, mas como uma competência estratégica orientada para a sobrevivência organizacional, de forma ética e legal, sempre devidamente acompanhada por um profissional de contabilidade certificado.
A análise desenvolvida permite concluir que as práticas de contabilidade criativa mais eficazes são aquelas que assentam na valorização do capital social, na construção de redes de parceiros e na diversificação de fontes de receita. O voluntariado, as permutas e os acordos institucionais assumem, assim, um papel central, permitindo reduzir custos e potenciar sinergias locais.
A criatividade no futebol amador não está isenta de riscos, sendo que a ausência de mecanismos de controlo e de competências técnicas adequadas poderá conduzir a práticas menos transparentes ou mesmo ilegais, comprometendo a credibilidade e a sustentabilidade a longo prazo dos clubes, das competições e das associações/federações de futebol. Torna-se, portanto, essencial estabelecer um equilíbrio entre inovação e rigor, garantindo que todas as práticas de gestão respeitam os enquadramentos legais e os princípios éticos fundamentais.
A liderança de um clube de futebol amador assume uma importância decisiva, dado que os dirigentes com visão estratégica, capacidade de planeamento e sensibilidade ética são determinantes para a implementação eficaz de práticas de contabilidade criativa. A formação contínua e a abertura à profissionalização parcial da gestão surgem como fatores críticos para reforçar a capacidade organizacional dos clubes.
Importa reconhecer o papel das políticas públicas e das entidades reguladoras na criação de um ambiente mais favorável à sustentabilidade do futebol amador. O desenvolvimento de programas de apoio estruturados, a simplificação de processos administrativos e o incentivo à formação em gestão desportiva podem contribuir significativamente para a melhoria das práticas organizacionais.
A contabilidade criativa no futebol amador, quando entendida como uma prática legítima de inovação na gestão, constitui uma ferramenta indispensável para os clubes, pois a sua eficácia depende, contudo, da capacidade de integrar criatividade, responsabilidade e rigor, num equilíbrio que assegure não apenas a sobrevivência, mas também o desenvolvimento sustentável destas organizações.
Gerir um clube de futebol amador não é apenas um ato de amor/dedicação ao clube e um exercício de administração financeira, mas um processo contínuo de adaptação, liderança e compromisso com a comunidade. É neste equilíbrio entre paixão e racionalidade que reside o verdadeiro desafio — e também a principal oportunidade — da gestão no futebol amador contemporâneo.
Ricardo André Encarnaçãoé Diretor Desportivo do União da Bola Futebol Clube. Possui formação em Turismo, com mestrado na área e doutorando pela Universidad de Málaga, além de especializações em gestão desportiva e direção técnica no futebol. Atua na gestão esportiva e organizacional de clubes, com experiência em projetos ligados ao futebol e ao turismo. LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/randreencarnacao/
Uma reflexão sobre governança, estrutura e responsabilidade institucional no esporte.
Durante muitos anos, o futebol brasileiro se acostumou a olhar para o lugar errado.
Quando os resultados não vêm, a análise quase sempre recai sobre treinador, elenco, esquema tático ou desempenho dentro de campo. Mas, para quem vive os bastidores, a realidade é outra: na maioria das vezes, o problema não começa no campo. Começa muito antes. Começa na forma como o clube é estruturado e gerido.
Escrevo essa reflexão também como forma de me apresentar e de iniciar minha contribuição junto à Universidade do Futebol, instituição que sempre acompanhei e onde busquei conhecimento ao longo da minha trajetória no esporte.
Sou profissional com mais de duas décadas de atuação no esporte e no terceiro setor, com formação na área contábil e tributária, e experiência na estruturação de processos, governança e gestão institucional.
Venho de uma família simples, do interior de Minas Gerais, onde aprendi, ainda em casa, valores que carrego até hoje: responsabilidade, honestidade, acolhimento e respeito ao próximo. Meus pais não tiveram acesso à formação acadêmica, mas foram meus maiores mentores. Foi com eles que aprendi que fazer o certo não depende de cargo ou visibilidade, mas da forma como enxergamos o mundo e dos princípios que escolhemos sustentar.
Minha trajetória profissional também não começou no futebol profissional. Começou no trabalho de base, na observação atenta e no compromisso com o que precisava ser feito.
Ao longo do caminho, atuei em instituições que me permitiram compreender o esporte a partir de sua estrutura fiscal, contábil, tributária, financeira e institucional. No Minas Tênis Clube, participei da construção de áreas fundamentais, como processos tributários, convênios, licitações e a estruturação do departamento ligado à Lei de Incentivo ao Esporte.
Mais tarde, no Cruzeiro, vivi diferentes fases de um grande clube: momentos de conquista, reconhecimento e excelência, mas também momentos de crise profunda, perda de credibilidade e fragilidade institucional.
Foi vivendo esses extremos que entendi algo que hoje considero central:
O futebol brasileiro sofre menos por falta de talento e mais por ausência de estrutura.
Temos talento de sobra. Temos atletas brilhantes, torcidas apaixonadas, força cultural e enorme capacidade de mobilização social. O que muitas vezes falta é base para sustentar tudo isso de forma responsável e duradoura.
Ainda convivemos com problemas que se repetem em diferentes níveis do futebol brasileiro:
• ausência de governança formal
• concentração de decisões
• falta de processos claros
• fragilidade de controles
• baixa maturidade institucional
• conflitos de interesse
• desorganização financeira e documental
• pouca cultura de transparência
Em muitos casos, o clube cresce esportivamente antes de estar preparado para sustentar esse crescimento administrativamente. E, quando isso acontece, o preço chega, quase sempre alto demais.
O futebol é apaixonante, mas paixão não substitui gestão.
Durante muito tempo, o ambiente esportivo naturalizou estruturas frágeis, informalidade e decisões personalistas. Esse modelo pode até sobreviver por algum tempo, especialmente quando há resultado esportivo ou aporte financeiro. Mas dificilmente constrói longevidade.
Sem governança, o clube depende de pessoas.
Com governança, o clube constrói instituição.
Essa talvez seja uma das discussões mais urgentes do esporte brasileiro.
Quando falamos em governança, não estamos falando de burocracia. Estamos falando de clareza, responsabilidade, transparência, controle, planejamento e capacidade de tomar decisões com base em critérios, e não apenas sob pressão.
Ao longo da minha trajetória, também tive a oportunidade de atuar em espaços institucionais do esporte, incluindo a prestação de contas no Ministério do Esporte, participação em grupos técnicos do terceiro setor e atuação como relatora em comitê desportivo ligado à lei de incentivo estadual em Minas Gerais.
Essas experiências ampliaram ainda mais a minha convicção de que o esporte brasileiro não precisa apenas de investimento.
Precisa de maturidade institucional.
Investimento sem estrutura pode gerar crescimento.
Mas não garante sustentabilidade.
Por isso, tenho defendido cada vez mais uma mudança de mentalidade.
Gestão não é acessório.
Gestão é condição de continuidade.
É o que permite que o clube sobreviva às mudanças, às crises, às trocas de liderança e aos ciclos esportivos.
Mais do que formar atletas, o futebol precisa formar instituições.
Antes de atrair recursos, precisa aprender a organizar recursos.
Precisa desenvolver capacidade de prevenir, planejar e construir legado e não ter que reagir a crises.
Essa discussão se torna ainda mais relevante quando olhamos para o papel do esporte na sociedade.
Um clube não é apenas um time.
Ele pode ser uma plataforma de desenvolvimento humano, formação cidadã, pertencimento e impacto social real. Mas, para cumprir esse papel com responsabilidade, precisa ser sustentado por gestão.
Não há impacto consistente sem estrutura, nem confiança sem transparência e somente com governança uma organização terá futuro sustentável
Talvez o grande desafio do futebol brasileiro hoje seja esse:
Parar de olhar apenas para o campo e começar a olhar para aquilo que sustenta o jogo.
Deis Chavesé executiva do futebol e atual CEO do Nova Venécia SAF, com mais de 20 anos de experiência na área. Foi diretora de projetos do Cruzeiro EC por 13 anos, liderando iniciativas estratégicas e captação de recursos. É formada em Ciências Contábeis, com especializações em Direito Tributário e gestão do futebol, além de atuar como professora e palestrante na área esportiva. LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/deis-chaves-projetos/
O jogo de futebol é técnico, tático, físico e mental. Tudo junto e ao mesmo tempo. Um drible, por exemplo: tem o gesto técnico da finta, a tática para saber se é uma ação ou para frente ou para trás, a questão física do arranque para superar o adversário e a coragem emocional de realizar o drible. É assim o jogo todo. Individual e coletivamente.
E mesmo não podendo separar o jogo em fragmentos e entendendo que o todo é maior que a soma das partes, há áreas que se potencializadas melhoram todo o conjunto. É o que chamamos de área de alavanca.
Na seleção brasileira hoje o que pode fazer a diferença e catapultar todo o projeto de campo é a parte emocional. Há claramente uma falta de confiança no grupo de jogadores. Os recentes insucessos e até os desmandos fora de campo em um ciclo de quatro anos marcado por uma instabilidade política enorme da Confederação Brasileira de Futebol fizeram com o que o moral de todos baixasse muito.
Pressão sempre houve e sempre vai existir. E o atleta que chega em um nível tão alto como esse sabe lidar muito bem com as cobranças. Mas saber lidar com derrotas é diferente. Exige um trabalho diferente e mais elaborado. E é aí que o currículo extremamente vencedor do técnico Carlo Ancelotti pode ser decisivo e fazer a diferença.
Não temos a melhor geração de todos os tempos, mas temos excelentes jogadores. O plano tático pode ser aprimorado com o período de treinamentos pré-Copa. A questão física, principalmente de alguns jogadores vindos de lesão, pode ser restabelecida. A cereja do bolo precisa ser o resgate da confiança e da auto estima. Não que isso fará do Brasil o grande favorito na Copa. Mas vai ajudar a aumentar nossas chances.
Olá a todos, hoje falaremos sobre a análise de uma das questões mais importantes do futebol, ou seja, o ERRO, afinal como dizem: “se ninguém errasse, o jogo terminaria zero a zero!” Tentar analisar o erro pode ser algo extremamente objetivo e de fácil definição, mas a sua origem na maioria das vezes se torna algo subjetivo, não calculável, dependente do contexto, identidade e estratégia de jogo.
Escrever sobre erros no futebol exige entender que o erro é a unidade básica do jogo. Para a análise de desempenho e também para as plataformas de análise IA, o desafio é transformar o “lance de azar” em um dado classificável.
Na formação de um jogador, o erro é parte integrante inevitável do processo. No profissional, o erro pode acarretar perda não apenas de uma partida, mas de uma temporada, de um ciclo ou de uma inteira trajetória. A importância de conhecer o erro permite corrigi-lo e, ao reconhecê-lo, poder evitar que aconteça novamente (“Conhecer para Reconhecer”).
Na origem da palavra “errar” que vem do latim errāre significa “vagar”, “andar sem rumo” ou “desviar-se” do caminho. No futebol podemos fazer uma analogia que erro não significa apenas finalizar para fora do gol, mas a partir do êxito, mas ter a competência de reconhecer o porque da situação e como corrigir-lo. Ou seja o que fez ele “desviar-se” do seu objetivo.
Segundo o estudo sobre a análise sequencial, o gol raramente é fruto de um único erro isolado. Geralmente é o resultado de uma sequência de 3 a 5 microerros acumulados em um curto intervalo de tempo, geralmente menos de 20 segundos (Castellano; 2000).
Usaremos exemplo do gol sofrido pelo Brasil no amistoso contra a França.
No estudo os erros foram divididos em 3 tipologias de sequência
Erros “Gatilho” (Trigger): Parecem inofensivos, mas quebram o equilíbrio tático
(ex: Nāo reação a bola perdida / recomposiçāo).
2. Erros “Amplificadores”: Reações erradas dos companheiros que tentam compensar o erro inicial, agravando a situação.
(Romper a marcação fora do tempo / Nāo temporizar)
3. Erros “Terminais”: A falha técnica final.
(ex: Inferioridade numérica nos últimos 20 metros / Leitura de fechamento de linha de passe)
As raízes de um erro possuem tantas variáveis que não podem ser contabilizadas de forma objetiva. Dada a dificuldade de determinar as origens de um erro devido à individualidade e características de cada sujeito, existem indicadores que podem ajudar a avaliar o desfecho negativo de uma ação em uma partida?
Entender sobre as tipologias do erro, nos ajuda a reconhecê-los e corrigi-los. Para uma reflexão pratica, utilizaremos como referência uma situação de jogo de re-construção/saída de bola que não teve como êxito a progressão para o segundo terço do campo.
APROFUNDAMENTO
Refletindo sobre a questão, existem algumas possibilidades de avaliação de um erro, que podem ser:
Técnico
Tomada de Decisão (Escolha)
Ocupação de Espaço
Tática Individual
TÉCNICO (Execução)
Provavelmente, entre as quatro possibilidades, esta é a mais evidente e reconhecível. Para exemplificar vamos imaginar os possíveis erros do defensor que tenta um passe para um meio-campista que podem ser:
Transmissão que não chega do jogador A ao jogador B.
Transmissão que chega ao destino, mas em condições inadequadas (muito forte, muito fraca, alta, etc.).
Transmissão chega ao destino, em condições corretas, mas no ponto errado (no pé mais perto da pressão adversária que pode retardar ou facilitar a pressão não dando sequência a jogada.
Controle (domínio) que não permite a continuidade funcional da jogada.
Controle com perda da posse de bola.
TOMADA DE DECISÃO (ESCOLHA)
O erro de escolha, segundo a FIGC (Federazione Italiana Giuoco Calcio), seria um erro de tática individual visto que a execução técnica é a parte final do processo chamado de OODA (Observar, Orientar, Decidir e Agir). Exemplos na construção:
Não avaliação da condição numérica (superioridade/inferioridade), vantagem posicional ou qualitativa.
Desconhecimento do princípio tático.
Falta de vivência da situação específica.
OCUPAÇÃO DE ESPAÇO
Com base no contexto (bola, meta, adversário, companheiro), existe uma distância de relação entre os jogadores. As distâncias permitem a interação e a ocupação do espaço conforme a estratégia. Devido a dinamicidade do jogo, essas distâncias podem não ser respeitadas:
Pouca distância entre jogadores, facilitando a pressão ultra ofensiva adversária.
Distância excessiva, diminuindo as linhas de passe para o portador.
Ocupação que não permite o aproveitamento da superioridade numérica do goleiro.
TÁTICA INDIVIDUAL
Envolve a tomada de posição e marcação (fase defensiva) e o orientação do corpo e desmarcação (fase ofensiva). A orientação do corpo de quem recebe é determinante. Erros comuns:
Posicionamento “flat” (corpo plano/fechado).
Estar de costas, sem visualizar a bola ou o campo.
Calcanhares no chão, reduzindo a reatividade.
ADVERSÁRIO
– o erro não pode ser considerado apenas um demérito coletivo ou individual, mas temos que levar em consideração os oponentes, segundo ainda o estudo de chain analyse, o adversário é um construtor de contexto (castellano;2000) que muitas vezes podem forçar o erro de tomada de decisão diminuindo o tempo-espaço através de uma pressão organizada, que pode ser medidoatravés do chamado ppda- passes por ação defensiva.
VARIAVEL OCULTA
– Os eventos de uma partida não são lineares; não seguem uma causa-efeito estreita. O desgaste físico, a leitura de jogo e a inteligência emocional influenciam diretamente no contexto de cada ação.
Apesar da condição biopsicossocial do ser humano, eles são considerados variáveis que fogem estrutura lógica do futebol. O erro, para fins da análise, é definido exclusivamente por indicadores espaciais, temporais e relacionais, ou seja, que sejam mensuráveis, garantindo que a unidade de medida seja o comportamento dentro do contexto e não a condição do indivíduo que podem ser diferentes entre si. Afinal se uma equipe toma um gol pois está “cansada” ou porque faltou “concentração”, provavelmente tais estados já se traduziram em métricas objetivas de queda de performance. Apesar de reconhecer a importância da variável oculta, ao focar no dado, a análise ganha precisão ao tratar o erro como evento principal; fato é que o jogador certo estava no lugar errado, no tempo errado.
“Conhecer para Reconhecer e Reconhecer para Corrigir”
Bruno Loureiro BatistaéTreinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/
A rua segue viva pulsando nos cantos do Brasil, nos campinhos de terra, nas traves improvisadas, no gol feito de chinelo. Dizer que ela deixou de existir talvez seja mais confortável do que admitir que paramos de oportunizar: nós paramos de olhar para ela.
Trabalho no INSTITUTO FUTEBOL DE RUA e tenho a oportunidade de visitar diferentes e inúmeras cidades do nosso país, e em todas elas encontramos o mesmo cenário. As brincadeiras continuam acontecendo, “o ambiente da rua”, o jogo continua sendo criado. A bola continua rolando mesmo sem uniforme, sem estrutura e, muitas vezes, sem adulto por perto.
A rua ainda ensina. Ensina a decidir; Ensina a lidar com o diferente; Ensina a negociar regras; Ensina a perder, ganhar e continuar jogando. dentre outros aprendizados.
Foi nesse ambiente que muitos dos grandes jogadores da nossa história foram formados. Não apenas tecnicamente, mas na sua essência como jogadores criativos, imprevisíveis e humanos. Mas, enquanto a rua resiste, o futebol parece ter seguido outro caminho.
Hoje, apenas uma parcela menor dos jovens inicia sua relação com o jogo nesses espaços. A maioria está nas escolinhas, nos projetos, nos ambientes formais. Isso não é, por si só, um problema. O problema está no afastamento simbólico que construímos, estrutural e metodológico. Criamos uma bolha.
Uma bolha onde o acesso depende de condições financeiras. Onde o deslocamento até o treino já é um filtro. Onde o uniforme, a mensalidade e a estrutura se tornam portas de entrada onde brincar não é considerado, muito menos praticado ou estimulado.
E, dentro dessa bolha, passamos a olhar pouco. Olha-se para o resultado imediato. Para o tamanho. Para a força. Para quem está pronto agora.
Seleciona-se cedo. Descarta-se rápido.
Enquanto isso, fora desse sistema, milhões de meninos seguem interagindo, brincando e se desenvolvendo sem oportunidades. Aproximadamente 99% de uma geração inteira que o futebol simplesmente não enxerga, meninos que vivem o jogo todos os dias, mas que dificilmente terão a oportunidade de vestir a camisa de um grande clube.
Quantos deles poderiam? Qual o melhor momento para oportunizar? Que momento o DEPARTAMENTO CAPTAÇÃO E PROSPECÇÃO poderia ser efetivo? Essa é uma pergunta que o futebol precisa ter coragem de fazer.
E, ao mesmo tempo, algo curioso vem acontecendo.
Enquanto nós, aqui dentro do País, passamos a buscar referências fora importando modelos, metodologias e formas de organizar o jogo, grupos internacionais têm feito o caminho inverso.
O City Football Group e a Red Bull, entre outros, têm investido no futebol brasileiro e em mercados semelhantes. Não apenas para implementar suas estruturas, mas para acessar algo que ainda é abundante por aqui: a rua, a ginga, o modo brasileiro de jogar futebol.
E esse modo, historicamente, nasce onde? Na rua.
Existe, então, uma contradição evidente. O mundo olha para o Brasil em busca daquilo que sempre nos caracterizou: a criatividade, a improvisação, a relação espontânea com o jogo, a ginga, a alegria e a ousadia.
E nós, por vezes, deixamos de valorizar exatamente isso.
Não se trata de negar a evolução do futebol, nem de rejeitar o conhecimento que vem de fora. O jogo mudou, e é fundamental acompanhar esse movimento. Mas evoluir não pode significar esquecer a própria identidade. O risco não está em aprender com o mundo e deixar de compartilhar o que somos, ele está em deixar de reconhecer o que o mundo vem aprender conosco.
A rua não é romantismo, ela é um ambiente de aprendizagem complexo, rico e profundamente formador, onde há riscos, mas o equilíbrio destas competências existentes na rua é potente. Um espaço onde o jogo se apresenta em sua forma mais livre, rica em diversidade e, por isso mesmo, mais desafiadora. Ignorá-la não é apenas perder uma referência cultural.
É, possivelmente, deixar de enxergar “potenciais”. Deixar de compreender processos. Deixar de formar melhor. Talvez a rua não tenha acabado, talvez o que esteja acabando seja a nossa capacidade de olhar para ela com atenção, respeito e intenção, estudando uma forma de torná-la possível aos esquecidos pelo futebol da bolha.
E se isso for verdade, a pergunta que fica não é apenas sobre quantos jogadores estamos formando… mas sobre quantos estamos deixando de formar sem nem perceber.
E isso hoje é o meu propósito, é pelos 99,999% que a bolha não oportuniza.
Inspirações e Referências
Alcides Scaglia Danilo Augusto Ribeiro João Batista Freire Wilton Carlos de Santana
Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152
O futebol contemporâneo constitui um fenómeno social, cultural e económico de grande relevância em diversas sociedades europeias. Os clubes de futebol assumem frequentemente um papel central na identidade coletiva das comunidades onde se inserem, funcionando como símbolos de pertença, representação territorial e memória histórica. Para muitos adeptos, o clube local não representa apenas uma organização desportiva, mas uma instituição com significado emocional e cultural profundo que transita de geração em geração.
Diversos clubes com presença histórica em campeonatos profissionais enfrentaram dificuldades financeiras graves que culminaram em processos de insolvência, dissolução administrativa ou desaparecimento jurídico. A crescente profissionalização do futebol, associada à intensificação das exigências económicas da competição, contribuiu para aumentar os riscos de instabilidade financeira em várias organizações desportivas. Quando um clube desaparece, a comunidade de adeptos enfrenta uma perda que ultrapassa o plano competitivo. A extinção de uma instituição com décadas de história representa frequentemente uma rutura simbólica com o passado. Como reação a estas perdas, surgem frequentemente iniciativas destinadas a preservar a herança desportiva e identitária do clube original, sendo que uma dessas respostas consiste na criação de um novo clube, habitualmente designado por “clube fénix”.
O conceito de clube fénix refere-se a uma organização fundada após o colapso de um clube anterior, procurando recuperar a sua identidade histórica, os seus símbolos e a ligação com os adeptos. Tal processo implica um percurso complexo de reconstrução institucional, marcado por desafios económicos, sociais, desportivos e organizacionais. O presente artigo analisa os principais desafios enfrentados pelos clubes fénix no contexto do futebol europeu, recorrendo igualmente a alguns exemplos concretos que ilustram diferentes trajetórias de reconstrução institucional.
Contexto de Colapso Institucional
A falência dos clubes de futebol resulta frequentemente de processos prolongados de fragilidade económica e de modelos de gestão insustentáveis. O aumento das despesas associadas à atividade profissional, especialmente em salários de jogadores, infraestruturas e encargos operacionais, tem colocado diversas organizações perante pressões financeiras significativas. Em muitos casos, a tentativa de alcançar sucesso desportivo imediato conduz a investimentos que ultrapassam a capacidade financeira real dos clubes. A dependência de investidores externos, a acumulação de dívidas fiscais e a falta de mecanismos de controlo financeiro contribuem para agravar situações de desequilíbrio orçamental. Quando as dificuldades atingem níveis críticos, os clubes podem entrar em processos de insolvência que culminam na perda da personalidade jurídica ou na dissolução administrativa.
O desaparecimento de um clube provoca frequentemente uma reação mobilizadora por parte dos adeptos e das comunidades locais. A criação de um clube fénix surge como tentativa de preservar a continuidade simbólica da instituição desaparecida, ainda que juridicamente se trate de uma nova entidade completamente distinta.
Sustentabilidade Económica e Reconstrução Financeira
A sustentabilidade financeira constitui um dos maiores desafios enfrentados por clubes fénix, sendo que inicia a sua atividade sem grande parte dos recursos materiais e financeiros que sustentavam o clube anterior. Infraestruturas, contratos comerciais e património podem ter sido alienados ou perdidos durante o processo de insolvência. A participação nas divisões inferiores do sistema competitivo implica receitas muito reduzidas ou muitas vezes inexistentes. Os direitos televisivos tornam-se inexistentes, existe uma menor visibilidade mediática e reduzida capacidade de atração comercial que por sua vez limitam as fontes de financiamento disponíveis. Perante esta realidade, muitos clubes adotam modelos de financiamento baseados numa forte participação dos sócios e adeptos do anterior clube insolvente. Através de campanhas de adesão associativa, iniciativas comunitárias e parcerias com pequenas empresas locais e de anteriores sócios/adeptos, que se tornam elementos fundamentais para assegurar a sustentabilidade financeira inicial.
A experiência do colapso institucional anterior tende a influenciar profundamente a cultura organizacional destes clubes. A prudência financeira e o equilíbrio e rigor orçamental passam a assumir prioridade estratégica. A construção de um modelo económico sustentável baseia-se frequentemente em princípios de transparência, responsabilidade financeira e controlo rigoroso das despesas. A componente social desempenha um papel determinante na consolidação de um clube fénix, dado que a ligação emocional entre clube e adeptos constitui frequentemente o principal motor do processo de reconstrução institucional. Os adeptos não são apenas consumidores de um espetáculo desportivo, pois representam uma comunidade de pertença que se identifica com
os valores, símbolos e história do clube. O desaparecimento de uma instituição desportiva provoca, por isso, um impacto significativo na identidade coletiva de muitas comunidades.
O clube fénix surge como um projeto de reconstrução social que procura preservar essa identidade. A participação ativa dos adeptos no processo fundacional contribui para reforçar a legitimidade do novo clube. Em diversos casos europeus, os adeptos desempenharam um papel central na criação ou recuperação destas organizações. Um exemplo particularmente relevante pode ser observado em Inglaterra com a fundação do AFC Wimbledon. Após a transferência do antigo Wimbledon FC para a cidade de Milton Keynes em 2002, um grupo de adeptos decidiu criar um clube que preservasse a identidade histórica da instituição original. O projeto iniciou-se nos escalões inferiores do futebol inglês e, ao longo dos anos, conseguiu alcançar as divisões profissionais, tornando-se um dos exemplos mais emblemáticos de reconstrução baseada na mobilização dos adeptos.
Desafios Desportivos e Progressão Competitiva
A dimensão desportiva representa uma das faces mais visíveis da reconstrução de um clube fénix., sendo que a maioria destas organizações inicia a sua atividade nas divisões inferiores dos campeonatos nacionais, independentemente do historial competitivo do clube anterior. Implica um percurso de progressão gradual, que pode prolongar-se durante vários anos ou mesmo décadas. A construção de equipas competitivas com recursos financeiros extremamente limitados exige uma estratégia desportiva muito bem estruturada.
A aposta na formação de jogadores jovens constitui uma das abordagens mais frequentes, com vista à valorização de atletas locais que por sua vez permite reduzir custos e reforçar simultaneamente a ligação entre a equipa e a comunidade. A estabilidade técnica desempenha igualmente um papel importante, a continuidade das equipas técnicas facilita a consolidação de modelos de jogo e de processos de desenvolvimento desportivo.
Um exemplo relevante de reconstrução desportiva ocorreu em Itália com o caso da Fiorentina, que após a falência do clube histórico em 2002, foi criada uma entidade denominada inicialmente Florentia Viola, posteriormente renomeada como ACF Fiorentina. O novo clube iniciou a sua atividade nas divisões inferiores do futebol italiano e conseguiu regressar rapidamente aos escalões profissionais, recuperando a presença na Serie A e reafirmando o seu papel no futebol italiano. Na Escócia, o Rangers FC, o histórico clube de Glasgow, enfrentou em 2012 um processo de liquidação após graves problemas financeiros e fiscais. Uma nova entidade empresarial adquiriu os ativos desportivos do clube e permitiu a continuidade da atividade competitiva. O Rangers foi reintegrado no sistema competitivo escocês nos escalões inferiores e iniciou um processo de recuperação progressiva, regressando posteriormente à principal divisão do futebol escocês. O caso do Parma Calcio 1913 constitui também um exemplo significativo de reconstrução desportiva. Após a falência do histórico Parma FC em 2015, um novo clube foi criado e iniciou atividade na Serie D, o quarto escalão do futebol italiano. Através de uma estratégia de crescimento gradual e de forte mobilização dos adeptos, o clube conseguiu regressar às divisões profissionais em poucos anos.
A criação de um clube fénix oferece também uma oportunidade para reformular os modelos de governação institucional, pois muitos dos clubes que entraram em colapso apresentavam fragilidades significativas em termos de gestão administrativa e controlo financeiro. A nova organização pode adotar estruturas de governação mais transparentes e participativas. Estatutos claros, mecanismos de fiscalização financeira e participação ativa dos sócios contribuem para reforçar a legitimidade institucional.
A profissionalização gradual da gestão torna-se igualmente necessária à medida que o clube cresce, adicionando funções relacionadas com administração financeira, marketing, comunicação e planeamento desportivo exigem competências técnicas especializadas. O acesso extremamente limitado a infraestruturas adequadas constitui um dos principais desafios. Muitos clubes fénix não dispõem inicialmente de estádio próprio ou centros de treino permanentes. A utilização de instalações municipais ou a partilha de infraestruturas com outras entidades desportivas representa uma solução comum nas fases iniciais, que por sua vez atrasam o desenvolvimento desportivo dos clubes.
O Caso do União da Madeira e o Surgimento do União da Bola Futebol Clube
O contexto português oferece também exemplos relevantes de processos de reconstrução institucional associados ao desaparecimento de clubes históricos. Um caso particularmente significativo ocorreu na Região Autónoma da Madeira com o declínio do histórico Clube de Futebol União da Madeira. Fundado em 1913, o União da Madeira construiu ao longo de várias décadas uma presença relevante no futebol português, incluindo participações na Primeira Liga. O clube desempenhou um papel importante na vida desportiva da cidade do Funchal e na formação de gerações de adeptos. As dificuldades financeiras acumuladas ao longo dos anos conduziram gradualmente a uma situação de declínio institucional que acabou por resultar na interrupção da atividade competitiva. A perda de capacidade organizativa e os problemas económicos impediram a continuidade do projeto desportivo nos moldes anteriormente existentes.
Perante esta realidade, surgiu em 2022 um novo projeto destinado a preservar o espírito e a identidade associada ao universo unionista. Foi então fundado o União da Bola Futebol Clube, inspirado na herança histórica do União da Madeira. O novo clube iniciou a sua atividade nas competições organizadas pela Associação de Futebol da Madeira, começando nos escalões inferiores do futebol regional. O percurso competitivo inicial demonstrou uma evolução gradual. Na época desportiva de 2024/25, o clube alcançou a subida da Primeira Divisão Regional para a Divisão de Honra da Associação de Futebol da Madeira, escalão em que atualmente compete.
O caso do União da Bola Futebol Clube evidencia vários dos desafios característicos dos clubes fénix, sendo que a reconstrução institucional exige dedicação da estrutura existente, rigor e sacrifício, mobilização de adeptos, criação de estruturas organizativas estáveis e consolidação de um projeto desportivo capaz de crescer progressivamente no contexto competitivo regional. A preservação da memória histórica do União da Madeira continua a desempenhar um papel relevante na identidade simbólica do novo clube. A ligação emocional dos adeptos à história unionista contribui para sustentar o projeto e reforçar o sentimento de continuidade entre passado e presente.
Conclusão
Os clubes fénix representam um fenómeno significativo no panorama do futebol contemporâneo, poisa sua emergência evidencia simultaneamente as fragilidades estruturais de algumas organizações desportivas e a capacidade de mobilização das comunidades que procuram preservar as suas instituições simbólicas.
A reconstrução de um clube após um processo de colapso envolve desafios complexos que abrangem múltiplas dimensões da vida organizacional, desde a sustentabilidade económica, a reconstrução da ligação social com os adeptos, o desenvolvimento de estruturas de governação transparentes e a consolidação da competitividade desportiva constituem elementos fundamentais deste processo. Vários clubes demonstram que trajetórias de renascimento institucional são possíveis quando existe uma base social mobilizada e uma estratégia de desenvolvimento sustentável. O exemplo do União da Bola Futebol Clube na Madeira evidencia igualmente a presença deste fenómeno no contexto português, ilustrando o esforço de reconstrução associado à herança do União da Madeira.
O percurso de um clube fénix raramente é imediato ou linear. A reconstrução exige tempo, estabilidade organizacional, dedicação, empenho, muito rigor e forte envolvimento comunitário. A persistência das direções, estruturas, dos adeptos e a capacidade de desenvolvimento institucional podem transformar um episódio de
colapso numa oportunidade de renovação estrutural, permitindo que o clube renasça e recupere gradualmente o seu lugar no panorama desportivo.
É comumente difundida a ideia de que administrar uma Organização é algo composto de planejamento, organização, direção e controle. Dos quatro conceitos mencionados, o planejamento é o principal, o mais importante, o que deve nortear todos os outros.
Planejar consiste em estabelecer objetivos de curto, médio e longo prazo, assim como os meios de obtê-los. Sucede que, no Brasil, o conceito de planejamento não é devidamente valorizado.
Há razões históricas para isso, pois a colonização portuguesa foi baseada na extração de minerais preciosos, os mancebos vinham para cá para conseguir riqueza e voltar à metrópole portuguesa. Uma visão, claramente, de curto prazo, quando o planejamento deve contemplar o longo prazo.
Portanto, organizações brasileiras, em geral, têm falhas no planejamento… e não seria diferente no futebol.
No futebol, o planejamento significa organizar toda a temporada antes dela começar, considerando vários fatores, tais como montagem do elenco, definição do treinador e da comissão técnica, calendário de competições, controle financeiro. desenvolvimento das categorias de base, estratégia de contratações e vendas de jogadores.
Clubes que planejam bem evitam decisões impulsivas, como demitir técnicos a cada derrota ou contratar jogadores apenas pela pressão da torcida. Clubes que planejam mal ficam presos ao imediatismo, ao empirismo, ao paternalismo.
A troca de treinadores é um dos aspectos marcantes do mau planejamento, trocar de técnico muitas vezes prejudica a implantação de uma filosofia de jogo.
Decisões emocionais são tomadas com base em pressão da torcida, da imprensa ou de resultados imediatos, o que também denota mau planejamento.
Mais um indício de mau planejamento são os dirigentes amadores, que não tem formação em Gestão e que não são oficialmente remunerados.
E mau planejamento também é detectado em clubes que têm dívidas exorbitantes, não há orçamento, ou este é mau concebido ou não cumprido. Um problema recorrente, em termos de planejamento, não diz respeito a um clube específico, mas sim ao conjunto de clubes: o calendário imperfeito, irracional, anacrônico, do futebol brasileiro.
Este escriba é especialista no assunto.
Há exemplos de clubes que melhoraram seu desempenho a partir do planejamento.
O Flamengo, de 2013 em diante, a partir do planejamento, resgatou dívidas colossais, aumentou receitas e ganhou muitos títulos.
O Palmeiras, a partir de um presidente que emprestou dinheiro para pagar dívidas e de uma patrocinadora poderosa, que ditaram caminhos, conseguiu se reerguer.
O Athletico Paranaense é frequentemente citado como exemplo de gestão moderna, com forte planejamento de infraestrutura e formação de jogadores, apesar dos altos e baixos dos últimos anos.
Uma mudança recente no futebol brasileiro foi a criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo que permite clubes se tornarem empresas, como Botafogo, Cruzeiro, Bahia. A ideia é trazer investimento privado e gestão profissional, facilitando o planejamento de longo prazo.
Em relação ao planejamento da forma de jogar do time, isto envolve modelo de jogo definido, perfil de contratações compatível com o treinador, integração entre base e profissional, uso de análise de dados e scouting.
Portanto, em termos de planejamento, o futebol brasileiro se equilibra entre a modernidade europeia e os métodos arcaicos históricos nativos.
(Texto Escrito com a Ajuda do Chatgpt)
*Maurício Rech éMestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas. Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca