O mapa do futebol brasileiro está mudando. O que se consolidou na década de 60 com o que chegamos até aqui com os ‘doze’ clubes grandes do Brasil está se alterando na década atual.
Relembre que foi nos anos 60, por exemplo, que o Santos de Pelé se juntou ao trio de ferro da capital de São Paulo; que o Cruzeiro desbancou o América-MG e se consolidou como o grande rival do Atlético… Porém depois de quase setenta anos, com globalização, SAFs, mult-clubes e afins essa divisão ficou defasada.
Surgem outras variáveis que impactam muito mais no resultado final do que simplesmente o ‘peso’ da camisa, o histórico de títulos e até o número de torcedores. Como exemplo concreto: Bahia e Bragantino com seus modelos de gestão se consolidam como times de primeira divisão e que sempre brigam por vagas em competições internacionais.
Do outro lado, um Vasco da Gama, com uma torcida incrível, gigante e fanática, lutando praticamente todo ano para não cair para a segunda divisão. E se pegarmos os exemplos de Grêmio e Internacional veremos que o buraco é muito mais embaixo. Não é por acaso que o último grande título de um deles foi a Libertadores de 2017 com o Grêmio. Quase dez anos atrás… além de não terem torcidas nacionais, de faturarem menos em todos os aspectos do que os times da região Sudeste, eles ainda tem uma logística complicadíssima, por estarem no extremo do sul de um país continental. Aquela falta de descanso por uma viagem mais longa representa aquele um ponto que falta pra ganhar um campeonato de pontos corridos ou até para evitar um rebaixamento.
Entender que o futebol é algo dentro da sociedade e que ela tem mudado de maneira muito rápida nos dá a humildade de reconhecer que o futuro ainda não é algo totalmente nítido. Mas já está claro que aquele mapa dos anos 60 envolvendo doze clubes grandes não cabe mais nos dias de hoje…
Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/
Por: Thiago Filla de Almeida e Danilo Augusto Ribeiro
Temos pensado muito sobre o lugar que a criança ocupa dentro do esporte. Quanto mais tempo passamos nesse ambiente, mais nos convencemos de que precisamos fazer algumas perguntas que parecem simples, mas que talvez tenhamos deixado de fazer: para quem estamos fazendo esporte? Quem é a criança que está na prática esportiva? A criança que faz esporte hoje carregará quais valores para sua vida em sociedade?
Estas perguntas ganharam ainda mais sentido recentemente, quando um pai de uma categoria menor (de sub 6 a 13) questiona sobre resultados. A pergunta, por si só, é legítima. Os pais têm o direito de conhecer o projeto, saber como seus filhos estão sendo cuidados, quais são os objetivos da equipe e como a competição faz parte daquele processo. Mas aquela conversa levou a reflexão sobre até onde vai o papel dos pais e onde começa a responsabilidade dos demais adultos envolvidos no desenvolvimento esportivo de uma criança. Como estamos lidando com as expectativas parentais? Como nós, enquanto profissionais responsáveis por conduzir o processo esportivo, estamos nos posicionando frente aos questionamentos?
Pais têm um papel fundamental. São, muitas vezes, a principal referência daquela criança. São quem leva, busca, acompanha, incentiva, consola e comemora. Mas justamente por serem tão importantes, precisamos ajudá-los a compreender que ser pai ou mãe no esporte não significa ser treinador, dirigente, árbitro ou avaliador do próprio filho. Talvez o papel mais importante seja estar presente para que a criança possa ganhar sem se sentir superior, perder sem se sentir fracassada, errar sem sentir que decepcionou e, principalmente, praticar esporte sabendo que continuará sendo amada independentemente do resultado. Estamos preparados e temos consciência dos impactos que nossa conduta pode causar nas crianças?
Temos observado famílias reorganizando suas vidas inteiras em função da prática esportiva dos filhos. Pais que dividem a família para levar um menino para treinar em outra cidade; filhos muitas vezes morando longe da família, com terceiros, em busca de uma carreira esportiva incerta; crianças com agendas tomadas por treinos, jogos, viagens, campeonatos e avaliações, acompanhadas de uma expectativa cada vez mais precoce: “vai que ele vira jogador”. A lei geral do esporte (2023) e o Fifa Guardians (2026) são documentos que esclarecerão diferentes pontos sobre estas questões.
Mas e se ele só quiser jogar?
Não há nada de errado em uma criança sonhar em ser atleta. O problema começa quando o sonho deixa de ser dela e passa a ser dos adultos. Quando cada treino vira avaliação, cada jogo vira julgamento e cada resultado passa a ser uma medida do seu valor. O esporte, que deveria ampliar suas experiências, começa a ocupar toda a infância.
Também precisamos olhar para a agenda dessa criança. Ela realmente precisa de mais um treino? De personal? De academia? De atendimento individualizado? Precisa ocupar todos os espaços possíveis para não ficar “para trás”? Ou precisa de tempo para brincar, descansar, estar com a família, conviver com os amigos e simplesmente não fazer nada? Inúmeras pesquisas apontam diferentes fatores negativos quando se especializa precocemente uma criança. Para o professor Wilton Santana estamos num ponto de hiperespecialização precoce.
Fazer menos também pode fazer parte do processo de formação
Quando procuramos um engenheiro para construir uma obra, confiamos que ele sabe quanto de ferro, cimento e estrutura são necessários para que ela permaneça de pé. Quando vamos ao médico ou ao dentista, confiamos em sua formação e em seu conhecimento para orientar aquilo que precisa ser feito. Por que, quando colocamos nossos filhos em um projeto esportivo, tantas vezes temos dificuldade em confiar no profissional que estudou para trabalhar com movimento, esporte, aprendizagem e desenvolvimento?
É claro que os pais devem perguntar, acompanhar e participar. Mas precisamos recuperar uma relação que parece estar se perdendo: a confiança no conhecimento de quem conduz o processo. Perguntas aos gestores esportivos: como está sua relação com os pais/responsáveis pelas crianças que estão frequentando o seu projeto de Futebol/Futsal? Você faz reunião no início do semestre para apresentar as diretrizes metodológicas? Você promove encontros para apresentar e discutir o calendário e/ou possíveis competições a participar? O seu processo de desenvolvimento contempla encontros individuais com os pais que estão interessados em saber sobre o desenvolvimento do filho?
Se um professor permite que uma criança brinque, precisamos perguntar, antes de concluir que ele não está treinando. Se uma equipe perde uma partida, precisamos perguntar, antes de concluir que o trabalho está errado. Nem toda decisão pedagógica precisa coincidir com aquilo que o adulto gostaria. Estamos permitindo em nosso ambiente (interno e externo) que criança seja ela mesma?
É nesse ponto que precisamos falar do direito de brincar. João Batista Freire, Alcides Scaglia, Wilton Carlos de Santana e Carlos Rogério Thiengo, a partir de diferentes contribuições, nos ajudam a compreender o jogo como espaço de aprendizagem, criatividade, decisão, experimentação e autonomia.
Defender o lúdico não significa defender uma prática sem intenção pedagógica. Pelo contrário. Exige conhecimento, planejamento e uma concepção clara de infância. Brincar não é o oposto de aprender. Para a criança, jogar é perceber, decidir, errar, tentar novamente, criar e encontrar soluções. A criança vive plenamente o brincar, sem perceber o mundo à sua volta. Apenas sente e vive.
Recentemente, um aluno de licenciatura que participou de uma aula que estava participando de um curso relatou que estava tentando construir um ambiente mais lúdico, mas não conseguia sustentar essa posição dentro do projeto em que trabalhava. Isso me fez pensar: quando um professor decide defender a infância, quem sustenta esse professor? Qual é o seu propósito? Quais as referências que o guiam nessa caminho de “múltiplos” treinadores de futebol/futsal de arquibancada?
Não precisamos ser contra a competição. A competição também educa. Ensina a lidar com a vitória, a derrota, a frustração, as regras e as adversidades. Perder um jogo não é um erro pedagógico. O problema aparece quando a competição deixa de ser parte da experiência esportiva e passa a ser a finalidade da infância.
E precisamos falar sobre o erro. O jogador erra. O professor erra. O árbitro erra. Todos nós erramos. Como queremos formar jogadores criativos se não permitimos que experimentem? Como queremos ensinar autonomia se controlamos todas as decisões? E como queremos que uma criança aprenda a lidar com a frustração se os adultos não conseguem lidar com a frustração de vê-la errar? O ambiente criado pelo professor e pelo entorno esportivo deve encontrar as vontades da criança, e não afastá-las.
O recente episódio ocorrido em Santa Catarina, no qual um pai fez disparos contra o carro de árbitros, após discordar de uma decisão em uma partida de futsal infantil, nos obriga a parar. Não para transformar aquele caso em espetáculo, mas para perguntar: o que mais precisa acontecer para que decidamos agir? No carro dos árbitros poderiam estar seus filhos, também de 10 anos.
A violência extrema talvez seja a face mais visível de algo que começa muito antes: no grito, na humilhação, na desqualificação do árbitro, na cobrança excessiva e na ideia de que uma criança precisa vencer para justificar o investimento dos adultos.
Por isso, esse manifesto é principalmente aos pais.
Sejam apenas pais!
Perguntem ao filho se gostou do treino. Perguntem o que aprendeu. Perguntem se está feliz. Ou não perguntem nada, deixem que eles falem, se quiserem falar, e qualquer outra coisa. Estejam presentes quando ganhar e, mas também quando perder. Não transformem o caminho para casa depois de um jogo em um outro jogo. Não comparem seu filho com outra criança. Não preencham toda a agenda porque outro menino está fazendo mais. Conheçam o projeto, conversem com o professor e confiem no processo.
Seu filho não precisa que Você, seja também o treinador.
Ele precisa que você seja seu pai.
Não precisa que você explique cada erro depois do jogo. Precisa saber que pode contar com você depois dele. Não precisa que você resolva todas as suas dificuldades. Precisa aprender a enfrentá-las. Não precisa ganhar para fazer você feliz. Precisa saber que continuará sendo motivo de orgulho mesmo quando perder. Seja um bom ouvinte.
Aos professores, cabe defender o brincar com conhecimento e coragem. Aos gestores, construir uma cultura em que formação não seja apenas sinônimo de resultado. Às federações e organizadores, pensar competições que respeitem as diferentes etapas da infância. À arbitragem, compreender que, em uma quadra de crianças, o erro também faz parte do processo educativo. De punitiva já basta uma sociedade contraditória, quando não, hipócrita. A arbitragem deverá ser sempre educativa.
Todos somos agentes socializadores. Todos educamos pelas nossas atitudes.
Talvez seja hora de mudarmos algumas perguntas. Em vez de perguntar apenas “quem ganhou?”, perguntar “o que essa experiência produziu naquela criança?”. Em vez de perguntar “ele joga bem?”, perguntar se “ele continua gostando de jogar?”. Em vez de perguntar “ele tem futuro?”, perguntar se “está vivendo bem o presente?”. E, antes de perguntarmos que atleta queremos formar, perguntar que criança estamos ajudando a formar?
É por isso que defendemos uma ideia que consideramos cada vez mais necessária:
O TERRITÓRIO DA CRIANÇA.
Uma criança que possa brincar, experimentar, competir, errar, aprender, descansar, criar, conviver e sonhar. Que possa querer ser atleta, mas que não precise deixar de ser criança para tentar chegar lá.
O esporte pode ser um lugar de excelência sem deixar de ser um lugar de infância. Pode ensinar disciplina sem produzir medo, competição sem transformar adversários em inimigos e formar atletas sem deixar de formar pessoas.
Não permitamos que a pressa dos adultos roube o tempo da infância.
Porque a criança não precisa de uma infância mais produtiva.
Precisa de uma infância mais plena.
E talvez a pergunta que devêssemos levar para dentro dos clubes, associações, federações, escolas, universidades e arquibancadas seja:
O que mais precisa acontecer para que nós, adultos, decidamos finalmente respeitar a infância?
Referências
FREIRE, João Batista. Pedagogia do Futebol.
SCAGLIA, Alcides José. Pedagogia do Jogo.
SANTANA, Wilton Carlos de. Pedagogia do Futsal: jogar para aprender.
THIENGO, Carlos Rogério. Estudos sobre formação e currículo no futebol.
RIBEIRO, Danilo Augusto. Estudos relacionados à pedagogia, formação e esporte.
Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152
Danillo Augusto Ribeiro é Profissional de Educação Física com mais de 15 anos de experiência no ensino-treino de Futsal para crianças e jovens. Foi professor universitário na Universidade Norte do Paraná e coordenador técnico-metodológico da iniciação esportiva no Club Athletico Paranaense e no Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua como Analista Esportivo no Instituto Futebol de Rua, além de prestar consultoria em estruturação e reestruturação de processos em clubes, escolas e associações de futebol e futsal. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/danilo-augusto-ribeiro-0410321a3/
Uma reflexão inspirada no texto de Ana Teresa Ratti (Máquina do Esporte)
Por: Tiago Corradine
O debate recente das “novas moedas de valor” no futebol global, brilhantemente proposto por Ana Teresa Ratti em sua análise na Máquina do Esporte, nos obriga a encarar uma ferida histórica e estrutural do nosso esporte. Quando o mercado internacional contrata um atleta hoje, ele não busca apenas o drible vistoso, a velocidade pura ou o índice físico isolado. Em um cenário hiperconectado, onde softwares de scouting e inteligência artificial nivelam o acesso aos dados de desempenho, a vantagem competitiva muda de figura. O que se compra, cada vez mais, é a capacidade de adaptação, a inteligência emocional, a comunicação multilíngue, a resiliência cognitiva e a construção de um capital humano integral. Contudo, ao olharmos para o espelho do futebol brasileiro, a reflexão ganha contornos dramáticos e nos empurra a uma comparação macroeconômica inevitável.
O Futebol Brasileiro e a Armadilha das Commodities
Historicamente, a matriz econômica do Brasil consolidou-se sob a lógica de um grande exportador de commodities: fornecemos matéria-prima de altíssima qualidade bruta (minério, soja, celulose, terras raras…) para que centros industriais externos realizem o refino, agreguem valor tecnológico e intelectual, e capturem a fatia mais robusta da cadeia de valor.
No futebol, o espelhamento desse modelo é quase cirúrgico. O Brasil continua sendo um celeiro inesgotável de talento natural, técnica instintiva e criatividade. Produzimos a “matéria-prima” em estado bruto. No entanto, o ecossistema nacional, pressionado por urgências financeiras crônicas e por um imediatismo sufocante, opera sob a lógica do extrativismo de curto prazo.
Nossos jovens talentos são “mercantilizados e exportados” precocemente, antes mesmo de terem sua maturação cognitiva, emocional e educacional consolidada. Chegam aos grandes centros europeus, como “diamantes brutos”. Lá, encontram ambientes sistêmicos capazes de “lapidar” não apenas o atleta dos 90 minutos, mas o indivíduo: desenvolve-se a cognição tática avançada, o domínio de idiomas, a gestão da imagem pública e a capacidade de tomada de decisão sob alta pressão. O resultado? A Europa “refina” o nosso talento, multiplica seu valor de mercado por cifras bilionárias e nos devolve o produto pronto apenas como espectadores do sucesso financeiro e simbólico que geramos na base.
Ecossistemas de Formação: Brasil versus Europa
Quando um clube brasileiro vende uma promessa precoce para pagar a folha salarial do mês seguinte, ele está, metaforicamente, queimando a safra do ano para comprar sementes que talvez nunca germinem. O foco exclusivo no resultado esportivo imediato e na vitrine de curto prazo negligencia dimensões fundamentais do desenvolvimento humano: identidade, autoconhecimento, inteligência emocional e instrução formal.
Como bem pontua a trajetória de jovens revelações destacadas internacionalmente, atletas que combinam excelência em campo com multilinguismo, pensamento crítico e até formações acadêmicas avançadas, o futebol de elite exige pessoas preparadas para lidar com a complexidade. Estudar, comunicar-se e compreender o próprio papel no ecossistema global não enfraquecem o atleta; pelo contrário! Potencializam exponencialmente o seu rendimento dentro das quatro linhas.
A Provocação Incontornável Diante desse cenário, a pergunta que fica para gestores, formadores e acadêmicos do esporte é incômoda, mas incontornável:
Será possível alterar a cultura do futebol brasileiro enquanto estivermos ancorados em uma sociedade e em uma indústria estruturadas sob a lógica de commodities?
A resposta exige uma ruptura dolorosa, porém urgente. Mudar essa cultura significa abandonar o extrativismo predatório e transformar os centros de formação brasileiros em verdadeiros pólos de desenvolvimento intelectual, tecnológico e humano. Significa entender que investir em educação financeira, no ensino de idiomas, na comunicação e no suporte psicológico dos jovens não é um luxo opcional, mas a própria garantia de sustentabilidade da nossa principal indústria esportiva e cultural.
Sem essa virada de chave, continuaremos presos ao ciclo vicioso de exportar o “talento bruto” em troca de migalhas financeiras, assistindo passivamente os principais centros do esporte global “comprarem”, por bilhões, o valor que nós mesmos deixamos de agregar em casa.
O futuro do futebol brasileiro não depende apenas de novos métodos de treinamento físico ou tático; depende da coragem de reescrever o valor do ser humano que veste a camisa.
Tiago Corradineé Graduado em educação física pela UNICAMP, enxerga o futebol como ferramenta de transformação social e atua como nexialista — construindo pontes entre performance e formação humana. Com passagens por EUA, Espanha e Coreia do Sul, é especialista em desenvolvimento de atletas antifrágeis, gestão de escolas de futebol e consultoria para o Certificado de Clube Formador (FPF). Linkedin: https://br.linkedin.com/in/tiago-corradine-3b19a884
Os atletas que chegam hoje às categorias de base e ao futebol profissional cresceram em um contexto bastante diferente daquele vivido pelas gerações anteriores. São jovens acostumados ao acesso rápido à informação, à exposição nas redes sociais e a relações menos sustentadas apenas pela hierarquia. De maneira geral, querem compreender os motivos das decisões, receber respostas com maior frequência e enxergar com clareza o caminho do próprio desenvolvimento.
Isso não significa que a geração Z seja melhor, pior ou mais frágil. Também seria um erro utilizar o conceito de geração como explicação para todos os comportamentos individuais. O que existe é um novo contexto social, que influencia a maneira como esses atletas lidam com autoridade, frustração, reconhecimento e expectativa.
Durante muito tempo, o futebol valorizou um modelo no qual o treinador determinava e o jogador executava. Questionar poderia ser entendido como falta de respeito, enquanto suportar cobranças em silêncio era frequentemente associado à força mental. Parte dessa cultura ainda permanece, mas sua capacidade de produzir comprometimento parece cada vez mais limitada.
O atleta atual tende a se envolver mais quando compreende o sentido daquilo que está fazendo. Explicar uma decisão não significa enfraquecer a autoridade do treinador ou negociar todas as escolhas. Significa demonstrar coerência entre aquilo que se pede, o que se treina e a maneira como o jogador será avaliado. A autoridade deixa de depender exclusivamente do cargo e passa a ser sustentada também pela clareza das relações.
Essa geração também cresceu cercada por respostas rápidas. No ambiente digital, a informação, a aprovação e a comparação são praticamente imediatas. No futebol, porém, o desenvolvimento continua exigindo tempo. Um jogador pode precisar de meses para se adaptar a uma função, amadurecer uma capacidade ou conquistar espaço. Quando não consegue perceber evolução, pode interpretar a espera como falta de valorização e aumentar a ansiedade sobre o próprio futuro.
Por isso, o feedback assume uma importância ainda maior. O atleta precisa compreender onde está, o que já desenvolveu e quais comportamentos concretos precisa transformar. Dizer que alguém deve “amadurecer”, “competir mais” ou “melhorar a atitude” costuma ser insuficiente. Uma devolutiva útil traduz essas avaliações em ações observáveis e oferece referências para que o jogador reconheça a própria evolução.
Compreender esse novo perfil, entretanto, não significa retirar responsabilidades ou proteger o atleta de qualquer desconforto. A alta performance exige disciplina, capacidade de suportar frustrações e disposição para responder às cobranças. O que precisa mudar não é necessariamente o nível de exigência, mas a qualidade da comunicação e dos recursos oferecidos para que o jogador consiga enfrentá-la.
Nesse cenário, a terapia pode ocupar um espaço importante. O atleta decide sob pressão, exposição, incerteza e avaliação permanente. Sua tomada de decisão não depende somente da compreensão tática ou da capacidade técnica. Ansiedade, confiança, medo de errar, expectativas familiares e relação com o ambiente também interferem na maneira como ele percebe as situações e responde a elas.
O trabalho terapêutico não deve aparecer apenas quando existe uma crise. Ele pode ajudar o atleta a reconhecer padrões de comportamento, compreender suas reações, lidar melhor com a pressão e desenvolver maior autonomia. Não se trata de eliminar o desconforto da competição, mas de ampliar os recursos psicológicos disponíveis para enfrentá-lo.
É nessa relação entre psicologia, tomada de decisão e alta performance que tenho concentrado minha forma de entender o jogo, o jogador e meu direcionamento na forma de entender quem é e como devo enxergar a pessoa na minha atuação profissional. Antes de procurar corrigir uma ação isolada, é necessário compreender a pessoa que decide e o contexto no qual essa decisão acontece. Em um ambiente cada vez mais rápido, exposto e exigente, desenvolver o atleta também significa ajudá-lo a compreender a si mesmo.
A geração Z já chegou ao futebol. O desafio agora não é tentar encaixá-la integralmente nos modelos anteriores, nem adaptar todo o ambiente às suas vontades. É construir uma liderança capaz de combinar limites e escuta, cobrança e clareza, responsabilidade e desenvolvimento. O futebol não precisa exigir menos desses jovens. Precisa compreender melhor como ajudá-los a responder às exigências da alta performance.
Nicolau Trevisani Frotaatua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional.. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/
Artigo opinativo sobre a identidade e a gestão técnica na formação de atletas
Por: Douglas Bazolli
Resumo
Este texto discute um tema que mexe com diretores, treinadores e estudiosos do futebol brasileiro: a contratação cada vez maior de profissionais estrangeiros para trabalhar na base do país. Defendo aqui que essa prática, além de desnecessária, é prejudicial. O verdadeiro problema da formação brasileira não é a falta de gente boa, mas a falta de qualificação constante de quem manda e o desperdício de profissionais excelentes que temos aos montes dentro do nosso país. Além disso, as categorias de base formam não só jogadores, mas também treinadores. Ter estrangeiros nesses cargos quebra a rede natural de passagem de conhecimento profissional dentro de casa.
1. A IDEIA E O MAL-ENTENDIDO
Se o objetivo é recuperar o futebol brasileiro, tenho a certeza, construída em vinte anos de trabalho passando por base, profissional e coordenação, de que trazer gestores, coordenadores e treinadores de fora para a base não é o caminho. Uma coisa é a globalização no futebol profissional, onde se ajusta a tática em times já prontos. Outra coisa, completamente diferente, é entregar a formação dos nossos jovens a profissionais que não conhecem a cultura do Brasil.
O argumento de que “precisamos aprender com a Europa” parte de uma ideia que a prova derruba: a de que o Brasil não tem formadores. Isso não é verdade. O que falta não é qualidade, é colocar as pessoas nos lugares certos.
2. O BRASIL NÃO É UM PAÍS SEM FORMADORES
O Brasil é, segundo o Observatório do Futebol, o maior exportador de jogadores do mundo. Em 2025, foram 2.326 transferências internacionais de brasileiros. Mais de 1.440 brasileiros jogavam no exterior em 135 ligas. A venda de atletas rendeu US$ 553,7 milhões, cerca de R$ 2,86 bilhões. Nos últimos seis anos, mandamos para fora 6.648 jogadores.
Esses números trazem uma conclusão que costuma ser ignorada: se o Brasil forma jogadores que o mundo inteiro compra, é porque tem formadores competentes. Jogador craque não surge do nada. Existe uma rede de observadores, treinadores de crianças, coordenadores e professores que mantém esse movimento. O problema não é a falta desses profissionais. O problema é onde eles estão e quem ocupa as vagas que deveriam ser deles.
3. A PROVOCAÇÃO NECESSÁRIA: 213 MILHÕES DE PESSOAS E NÃO TEMOS FORMADORES?
Aqui, faço uma provocação direta baseada na minha experiência de vinte anos no futebol. Segundo o IBGE em 2025, o Brasil tem 213.421.037 habitantes. Somos o quinto país mais populoso e o que tem a cultura de futebol mais forte. É o lugar com a maior quantidade de pessoas jogando no mundo.
E pergunto: em um país com tanta gente, não conseguimos ter bons formadores e gestores? A resposta é desconfortável: conseguimos, sim. O problema não é a quantidade de gente, é como eles são escolhidos. É a falta de valorização de quem é bom. É a estrutura da gestão. E os números que provam isso são fortes.
Uma nação que estuda muito o futebol
O Brasil tem, segundo o CONFEF, mais de 668 mil profissionais registrados. Não são amadores. São pessoas autorizadas por lei a trabalhar com esporte. Temos centenas de faculdades de Educação Física formando milhares de profissionais todos os anos.
A própria CBF Academy já treinou milhares de técnicos em seus cursos obrigatórios. Só a Licença PRO, o nível mais alto, formou cerca de 4.989 profissionais. Até 2026, esse número passou dos cinco mil. Mas o estudo no Brasil vai muito além da CBF. Existe uma rede forte de ensino que inclui:
Faculdades com foco em futebol, como Estácio, PUCRS e outras.
A Universidade Federal de Viçosa (UFV), com seu centro de pesquisa (NUPEF) e curso de especialização.
Pós-graduações de especialização em treino de futebol oferecidas por várias instituições globais.
Mestrados e doutorados em universidades como USP, Unicamp, UFMG e UFRJ.
Plataformas como a Universidade do Futebol (UdoF), que é referência em pesquisa no país.
Canais e comunidades como Diário do Treinador, Ciência da Bola e outros que ajudam na formação constante.
Eventos acadêmicos e científicos como o SIBRAFF (Simpósio Brasileiro de Futebol e Futsal), organizado pelo NUPEDEFF (Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Esportes, Futebol e Futsal) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que já vai para sua 4ª edição em 2026, reunindo pesquisadores, treinadores e preparadores físicos de todo o país para discutir os avanços e desafios da modalidade.
Além desses, existem outros eventos que mostram como o Brasil é sério na formação de profissionais: o Simpósio Internacional de Futebol da própria UFV, o Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol do Museu do Futebol (realizado desde 2010 em São Paulo), o CONBRACE/CONICE (Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte) e os diversos encontros regionais organizados por universidades e conselhos regionais de Educação Física. Todos esses espaços são frequentados por milhares de treinadores que buscam se atualizar e trocar experiências. Isso não é um país que falta formação, é um país que transborda formação.
“Nunca o treinador brasileiro estudou tanto. Nunca tivemos uma rede de ensino tão grande e acessível. Existe uma geração inteira que une a prática com a base de estudos, algo que poucos países no mundo têm.”
A base forma formadores — e estrangeiros quebram essa rede
Um ponto que quase ninguém vê é que as categorias de base não formam apenas jogadores. Elas formam treinadores. O coordenador de hoje é o diretor de amanhã. O treinador do sub-13 é o futuro técnico do profissional.
A base é a escola do treinador. Quando damos essas vagas para estrangeiros, cortamos a passagem de uma tradição profissional dentro de casa. Trazer gente de fora para a base não é só trocar um profissional por outro. É fechar a escola onde nossos brasileiros deveriam aprender. É destruir o caminho de carreira de milhares de pessoas que estão estudando em faculdades e cursos.
O problema da estrutura: bons profissionais fora, amadores dentro
Entre 2021 e 2025, o Brasileirão teve uma média de 21 demissões de técnicos por ano. Isso mostra a instabilidade do cargo e quanta gente boa fica rodando sem projeto. Sites como UOL e Goal.com mostram listas enormes de técnicos brasileiros de alto nível sem emprego — gente com licença máxima e títulos continentais. Ao mesmo tempo, vemos pessoas sem qualificação em cargos de chefia na base de clubes grandes. Em 2021, o portal Novo Momento avisou que 20% dos cargos técnicos na Série A eram de estrangeiros.
“Fica a pergunta: em um país com 213 milhões de pessoas e milhares de técnicos certificados, por que dizem que faltam formadores brasileiros?”
4. O PONTO CRÍTICO: QUALIFICADOS FORA E SEM QUALIFICAÇÃO NO COMANDO
Este é o ponto mais importante. Falo isso por ter passado por todos os setores da base ao profissional. O Brasil tem formadores de elite. Gente que entende de ensino, psicologia e treino. Mas muitos estão em funções menores, enquanto as chefias são ocupadas por pessoas que não têm o preparo necessário. Estudos recentes confirmam isso.
Barros e Elias (2023) mostram que os clubes brasileiros ainda enfrentam problemas clássicos de gestão mesmo depois de tantos anos da Lei Pelé.
Citação Direta: “A pesquisa descreve os problemas clássicos de gestão de clubes de futebol e os desdobramentos financeiros e estratégicos das decisões e dos planos das diretorias dos clubes na expectativa de revelar como poderiam ser contornadas pautas como dívidas, departamentos, aportes financeiros e administrativos mediante a aplicação da Lei Pelé.” (p. 142)
Monteiro (2021) reforça que as administrações amadoras levavam os clubes a grandes endividamentos.
Citação Direta: “As mudanças na legislação do futebol brasileiro, mais especificamente no que diz respeito à Lei Pelé, elevaram o futebol brasileiro ao patamar de profissionalização de gestão, isso porque antes o futebol era movido pela simples paixão de seus diretores, torcedores e até jogadores. A gestão dos clubes não exigia a complexidade atual do acompanhamento fiscal, trabalhista e gestão de contratos. As administrações amadoras levavam os clubes a grandes endividamentos, sentidos até os dias atuais.” (p. 103)
Uma pesquisa da USP (2026), feita por Rocoo Júnior e Moraes, foi clara ao apontar a falta de transparência nos clubes brasileiros.
Citações Direta
1: “Apesar da importância econômica e cultural da modalidade, falhas de governança e transparência ainda permeiam a gestão dos clubes e geram consequências financeiras e esportivas.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)
2: “Muitas equipes da Série D sequer possuem site oficial ou canais de contato.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)
3: A política interna é apontada como um dos principais entraves à modernização da gestão dos clubes brasileiros.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)
4: “Grande parte dos problemas organizacionais identificados no estudo está relacionada às disputas políticas, especialmente nos clubes associativos, onde diferentes grupos disputam o poder e as frequentes mudanças de gestão dificultam a continuidade dos projetos.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)
5: “É comum que integrantes do próprio clube atuem contra a administração em exercício, comprometendo decisões estratégicas e atrasando processos de profissionalização.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)
A tese de Silva (2026) descreve uma gestão que se parece com um sistema feudal, onde o conhecimento é retido como fonte de poder. Há ainda o problema da valorização financeira que empurra o treinador a pular etapas: o salário baixo no sub-13 faz com que o técnico queira subir rápido para o sub-17 ou profissional antes de estar pronto, deixando a base menor sem especialistas.
Citações Direta
1: “Os clubes operam majoritariamente em níveis iniciais de maturidade, concentrados nos estágios de informação e conhecimento, ainda desconectados de uma estratégia institucional mais ampla.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)
2: “O estudo identificou barreiras culturais severas, descritas por gestores como uma ‘gestão feudal’, na qual o conhecimento é retido como fonte de poder e o diálogo é evitado para não expor problemas internos.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)
3: “Na arquitetura organizacional, detectou-se a ausência generalizada de planos de cargos, carreiras e remuneração e de critérios de sucessão. Essa fragilidade torna as agremiações vulneráveis a perdas cognitivas massivas sempre que ocorre uma troca de comissão técnica.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)
4: “Os relatórios publicados pelos clubes são majoritariamente protocolares e não servem como ativos estratégicos de decisão.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)
5: “A principal conclusão é que os clubes brasileiros não utilizam a gestão do conhecimento de maneira estruturada para gerar vantagem competitiva. E isso importa porque, em um futebol cada vez mais complexo e profissionalizado, vencer também depende da capacidade de aprender e preservar conhecimento para decidir melhor.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)
“O problema não é a falta de gente boa. É que a gente boa não está onde deveria estar.”
5. O PAPEL DO COORDENADOR E A DEFORMAÇÃO NA PRÁTICA
O coordenador técnico é quem une a ideia do clube com o treino no campo. Ele garante que o menino de 12 anos siga um caminho que faça sentido até os 20 anos, sem que o treino mude toda hora do jeito que cada treinador quer.
Quando esse chefe não é qualificado, o resultado é destruído: o plano de ensino vira apenas um papel com promessas e cada um faz o que quer. Pior ainda quando é um estrangeiro que não conhece nossa cultura: o jovem acaba sendo formado em uma lógica que não tem nada a ver com a sua identidade e com o futebol que ele vive.
6. A CULTURA: A GINGA NÃO SE APRENDE EM CURSO
Estrangeiros, por melhores que sejam, não entendem que o futebol brasileiro é uma forma de cultura antes de ser um sistema tático. O drible no Brasil nasceu como forma de resistência. É algo que vem de dentro.
Pode-se aprender tática com um alemão ou um italiano. Mas não se aprende a formar um jogador brasileiro com quem não é daqui. Formar é passar uma tradição, e isso só acontece de quem conhece a nossa terra para quem vive nela.
7. O DESABAFO DE QUEM VIVE O BRASIL
Muitos nomes de peso concordam com isso. Rogério Ceni, Fernando Diniz, Cuca e Renato Gaúcho disseram em uma declaração conjunta:
“Eu não concordo e acho uma falta de respeito com os treinadores brasileiros que seja pensado a contratação de um treinador estrangeiro.”
Cuca e Rivaldo também já criticaram essa preferência, dizendo que é uma falta de consideração e de respeito com os profissionais do nosso país.
8. APRENDER COM O MUNDO NÃO É SER SUBSTITUÍDO POR ELE
Aprender com outros países é importante e ajuda a crescer. Ver como os europeus trabalham é bom. O erro não é aprender, o erro é desistir de quem é daqui para colocar alguém de fora.
Aprender significa observar o que o outro faz e adaptar para o nosso jeito. Colocar um estrangeiro no lugar do brasileiro é desistir. É dizer, sem falar abertamente, que não confiamos na nossa capacidade de criar o nosso próprio caminho.
9. UMA PROPOSTA QUE PROTEGE E POR QUE ELA FAZ SENTIDO
Proponho algo que pode parecer incômodo, mas que é sensato: a CBF deveria assumir o papel de guardiã da identidade do jogador brasileiro e exigir que qualquer profissional estrangeiro que queira atuar na nossa base passe pelas etapas de formação do sistema CBF.
Não se trata de fechar a porta. Trata-se de exigir o mesmo que outros países exigem de nós. Um treinador brasileiro que vai trabalhar na França precisa passar pelos ciclos de formação locais, adaptar-se à cultura, entender o contexto. Um brasileiro que vai para a Alemanha precisa cumprir as etapas da federação alemã. Por que seria diferente aqui?
O que proponho não é uma proibição agressiva. É uma exigência de equivalência: quem vem de fora precisa provar que entende o futebol brasileiro, que respeita a nossa cultura de formação, que passou pelos nossos ciclos de capacitação. A CBF Academy já tem estrutura para isso. Basta criar um caminho claro e obrigatório para o estrangeiro que quer atuar na base brasileira.
Isso não é xenofobia. É proteção da identidade. É o mesmo princípio que aplicam os países europeus com seus treinadores. Cada nação tem o direito e o dever de cuidar da formação dos seus jovens atletas como um patrimônio. E quando entregamos esse patrimônio a quem não passou pelo nosso processo, abrimos mão de algo que é nosso.
10. A IRONIA FINAL E O CHAMADO PARA AGIR
Existe uma ironia dura aqui. O Brasil é o maior celeiro de talentos do mundo. A Europa se alimenta do que produzimos. E nós vamos entregar a chave da nossa produção para os clientes?
A melhora do nosso futebol virá de dentro. Mas só se os brasileiros competentes tiverem espaço. Hoje, o profissional bom é deixado de lado e trocado por estrangeiros ou por pessoas com influência política.
O caminho é colocar os brasileiros certos nos lugares certos. Se continuarmos assim, teremos jogadores que parecem europeus, mas sem a nossa ousadia e alegria. Isso não é salvar o nosso futebol. É enterrá-lo com as nossas próprias mãos.
REFERÊNCIAS E FONTES
Falas de treinadores e jogadores:
Rogério Ceni, Fernando Diniz, Cuca e Renato Gaúcho — declaração contra estrangeiros (2023).
Cuca — sobre técnicos “ultrapassados” e aumento de estrangeiros (2019/2025).
Leão e Oswaldo de Oliveira — críticas em evento com Ancelotti (2025).
Rivaldo — crítica na ESPN (2022).
Dados de população e mercado:
IBGE — 213 milhões de habitantes (2025).
Observatório do Futebol — Brasil como maior exportador (2025-2026).
Banco Central — ganhos de R$ 2,86 bilhões com vendas (2025).
ResearchGate — 6.648 jogadores vendidos em 6 anos.
Educação e trabalho:
CONFEF — 668 mil profissionais registrados.
CBF Academy — quase 5.000 técnicos com Licença PRO.
UFV/NUPEF — estudos e especialização em futebol.
Universidade do Futebol (UdoF) — ensino continuado.
SIBRAFF — Simpósio Brasileiro de Futebol e Futsal, organizado pelo NUPEDEFF/UFSC (2026).
Estudos sobre gestão e cultura:
USP (EEFE) — estudo sobre amadorismo na gestão (2026).
Barros, M. M.; Elias, F. A. C. — “A gestão de clubes e a profissionalização do futebol no Brasil”. Revista Administração de Empresas — UNICURITIBA, 2023.
Monteiro — “As administrações amadoras e o endividamento dos clubes” (2021).
Rocoo Júnior; Moraes — Pesquisa sobre falta de transparência nos clubes brasileiros. EEFE-USP, 2026.
Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (Sub 15, sub 16 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/
Existe uma pergunta que me acompanha há muitos anos: que tipo de profissional o futebol precisará daqui a dez anos?
Durante muito tempo, a especialização foi o principal caminho para quem queria crescer no esporte. O treinador buscava ser um treinador melhor. O scout, um scout melhor. O psicólogo, um psicólogo melhor.
Esse movimento foi fundamental para a evolução do jogo.
Mas quanto mais estudava futebol, mais percebia que os grandes problemas da alta performance dificilmente pertenciam a uma única área do conhecimento.
Uma contratação envolve comportamento humano, leitura de contexto, análise de desempenho, projeção de potencial e estratégia organizacional.
O desenvolvimento de um atleta depende da interação entre aspectos técnicos, táticos, físicos, psicológicos, sociais e culturais.
Uma decisão tomada por uma comissão técnica nunca é apenas uma decisão tática. Ela também envolve liderança, comunicação, gestão de pessoas, cultura e risco.
O futebol é complexo porque a tomada de decisão é complexa.
Foi essa percepção que começou a transformar minha carreira.
Por volta de 2010, nas conversas e aulas do professor João Paulo Medina, fundador da Universidade do Futebol, fui provocado por uma ideia que nunca mais me deixou: talvez estudar futebol significasse, antes de tudo, aprender a questionar os paradigmas através dos quais enxergamos o próprio jogo.
Desde então, essa inquietação passou a orientar minhas escolhas.
A graduação em Psicologia nunca teve como objetivo formar apenas um psicólogo do esporte. A experiência como scout e Analise de desempenho seja no FC Dallas (atual) ou nos diferentes contextos que encontrei nos meus 7 anos de São Paulo futebol clube nunca tiveram como único objetivo apenas identificar jogadores tecnicamente. A atuação em consultorias, na Seleção Brasileira de Rugby, os estudos sobre liderança, gestão e, mais recentemente, finanças corporativas, também nunca foram experiências desconectadas entre si.
Todas fizeram parte do mesmo projeto.
Hoje percebo que minha carreira não foi construída para me transformar em especialista de uma única disciplina.
Ela foi construída para compreender como pessoas, equipes e organizações tomam decisões em ambientes de alta performance e como construir contextos e escolher pessoas para que essas decisões sejam cada vez mais assertivas em diferentes áreas.
O futebol tornou-se o principal laboratório dessa investigação.
Talvez seja por isso que cada vez mais me interesso pelas conexões entre psicologia, liderança, scouting, ciência de dados, metodologia de treino, gestão e cultura organizacional.
Não porque eu acredite que um profissional precise dominar tudo.
Mas porque acredito que os maiores avanços acontecem justamente quando diferentes áreas começam a dialogar.
Esse é, inclusive, o exercício que procuro fazer ao escrever.
Não busco oferecer respostas definitivas.
Busco formular perguntas que talvez ainda não estejamos fazendo.
Se o futebol está em constante evolução, talvez nossa responsabilidade não seja apenas acompanhar essa evolução, mas tentar compreender quais serão os próximos paradigmas que transformarão a forma como pensamos o jogo.
É essa reflexão que procuro construir em cada artigo.
Porque acredito que o papel de quem estuda o futebol não é apenas explicar o presente.
Nicolau Trevisani Frotaatua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional.. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/
O futebol brasileiro sempre se orgulhou de formar bons jogadores para o mundo.
Mas talvez tenha chegado a hora de fazer uma pergunta mais incômoda:
QUEM ESTÁ CUIDANDO DA INFÂNCIA DENTRO DO FUTEBOL?
Nas últimas décadas, o mundo avançou na forma de compreender a iniciação esportiva. Organizações como a FIFA e a UEFA já consolidaram um princípio simples, mas profundo: antes de formar jogadores, é preciso formar pessoas.
Isso não é discurso. É estrutura.
Em países como a Inglaterra e a Alemanha a criança joga perto de casa, mantém vínculo com a escola, convive com a família e cresce em um ambiente que respeita o seu tempo. O clube não sequestra a infância, ele participa dela.
No Brasil, muitas vezes, acontece o contrário.
Antecipamos processos, aceleramos decisões e colocamos sobre crianças responsabilidades que não são delas. Meninos de 10, 11 anos saem de suas cidades, rompem vínculos afetivos e passam a viver em função de um sonho que, na maioria dos casos, não se concretiza.
E quando não se concretiza, o que sobra?
Essa reflexão não é contra o futebol.
É a favor da criança.
Uma proposta necessária
Se queremos que o futebol continue sendo um espaço de desenvolvimento e não de exclusão precoce, precisamos reorganizar a forma como tratamos a iniciação.
Alguns caminhos são urgentes.
QUEM VAI FALAR DA INICIAÇÂO ESPORTIVA DO FUTEBOL?
Primeiro: APROXIMAR A CRIANÇA DO JOGO, E NÃO AFASTÁ-LO DA SUA VIDA.
A “captação” precisa respeitar o território. Até os 13 anos, o futebol deve acontecer próximo da casa, da escola, da família. Não faz sentido que uma criança precise mudar de estado para continuar jogando. Oportunidade não pode significar ruptura.
Mais do que isso, é preciso valorizar o vínculo cultural e a identificação com o clube. O sentimento de pertencimento não é detalhe é base para qualquer processo formativo consistente. Clubes como o Athletic Club Bilbao mostram que identidade e formação caminham juntas.
Segundo: O JOGO PRECISA CABER NA CRIANÇA.
Campos menores, menos jogadores, mais contato com a bola, mais participação. Não é simplificar o futebol é torná-lo compreensível para quem está começando.
A própria FIFA já aponta o caminho ao incentivar jogos reduzidos nas idades iniciais.
A lógica é clara: quanto mais a criança participa, mais ela aprende.
Terceiro: COMPETIR NÃO PODE SIGNIFICAR EXCLUIR.
A competição, na iniciação, precisa ser espaço de experiência. Menos tabelas, menos rankings, mais festivais, mais jogos, mais vivências.
Na Confederação Alemã de Futebol, por exemplo, crianças participam de encontros sem classificação formal. Jogam, aprendem, convivem. E continuam jogando.
Quarto: O AMBIENTE FORMA MAIS DO QUE O TREINO.
Treinadores, pais, dirigentes. O comportamento dos adultos define o clima do processo. Por isso, é fundamental educar quem está ao redor da criança.
Ambientes seguros, acolhedores e respeitosos não são um diferencial. São uma obrigação.
Quinto: DIVERSIFICAR PARA DESENVOLVER.
Antes de especializar, é preciso experimentar. Incentivar a prática multi-esporte, valorizar o brincar, permitir que a criança viva diferentes experiências corporais e sociais.
O desenvolvimento não acontece na repetição precoce, acontece na diversidade até de experiências.
O olhar é para além do que formar somente “jogadores”, regulamentar a iniciação esportiva não é limitar o futebol é proteger aquilo que o torna possível. Criança precisa de tempo, precisa de espaço, precisa de gente por perto, precisa jogar, mas também precisa voltar para casa, encontrar os amigos, viver a escola, construir memórias que vão muito além do resultado de um jogo.
No fim, o maior erro não é deixar de formar um jogador. O maior erro é permitir que, no caminho, a criança deixe de ser criança. O futebol brasileiro sempre foi referência por aquilo que constrói dentro de campo, mas talvez tenha chegado a hora de se tornar referência também pelo cuidado com quem joga. Isso exige mudar o olhar: deixar de lado a pressa pelo tamanho e pela força e passar a valorizar o que realmente sustenta o jogo, a capacidade de entender, decidir, se relacionar, criar e participar. Porque, na iniciação, não estamos falando apenas de rendimento futuro, mas de experiências que ficam. E, quando o ambiente é mais justo e mais humano, o futebol também passa a abrir espaço para aqueles que talvez nunca teriam oportunidade. É olhar para dentro, entendendo quem joga; olhar para perto, cuidando do ambiente; e olhar para longe, respeitando o tempo de cada um. E, assim, o futebol deixa de ser apenas um caminho esportivo e passa a ser, de fato, um aprendizado para a VIDA.
Referencias:
– Alcides Scaglia
– Danilo Augusto Ribeiro
– João Batista Freire
– Wilton Carlos de Santana
Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152
A Copa do Mundo concentra alguns dos melhores jogadores do futebol em um contexto bastante particular. Ao contrário do que acontece nos clubes, onde existe uma convivência diária e um processo contínuo de treinamento, as seleções constroem sua identidade por meio de encontros pontuais ao longo das Datas FIFA e de períodos mais concentrados durante as grandes competições. Os atletas chegam de ligas, clubes e modelos de jogo diferentes, precisam estabelecer novas relações e adaptar rapidamente sua forma de jogar. Para quem trabalha com scouting, esse cenário oferece uma oportunidade interessante: observar o que acontece com o jogador quando parte importante do contexto ao seu redor muda.
Alguns atletas conseguem manter ou até ampliar seu nível de desempenho. Outros, mesmo apresentando qualidades reconhecidas em seus clubes, encontram mais dificuldade para manifestá-las. Isso não significa que tenham deixado de ser bons jogadores. Pode significar que determinadas capacidades dialogam melhor com alguns ambientes do que com outros, que novas relações ainda não foram construídas ou que o atleta não encontrou a mesma segurança para expressar seu jogo.
Essa diferença reforça um dos maiores desafios da avaliação de talentos. O scout não observa o jogador de maneira isolada. Ele observa um atleta interagindo com companheiros, adversários, princípios coletivos, exigências competitivas e condições emocionais específicas. O comportamento visível é sempre resultado dessa interação. Por isso, descrever aquilo que o jogador faz é necessário, mas dificilmente suficiente para projetar como ele poderá atuar em outro contexto.
Um lateral pode atacar a profundidade com frequência porque percebe bem o momento de avançar, mas também porque a estrutura da equipe cria espaços e estímulos constantes para esse movimento. Um volante pode recuperar muitas bolas por possuir leitura defensiva, agressividade e capacidade de antecipação, mas também porque o posicionamento coletivo direciona o adversário para as zonas em que ele consegue intervir. Um atacante pode apresentar boa produção ofensiva porque possui recursos técnicos e inteligência para atacar os espaços, mas também porque as relações construídas ao seu redor facilitam o acesso às situações em que ele é mais eficiente.
A observação, portanto, precisa tentar compreender não apenas o comportamento, mas o que ajuda a produzi-lo. Nesse ponto, as capacidades técnicas e cognitivas ganham importância. A qualidade da execução, a percepção dos espaços, a leitura dos movimentos, a velocidade para interpretar os problemas e a capacidade de escolher respostas adequadas ajudam a explicar por que determinado atleta consegue resolver as situações do jogo.
Entretanto, essas capacidades não se manifestam separadas da dimensão emocional. Um jogador pode possuir qualidade técnica e boa compreensão do jogo, mas ter dificuldade para acessar esses recursos quando se sente inseguro, pressionado ou pouco conectado ao ambiente. A confiança interfere em sua disponibilidade para assumir riscos. A segurança emocional influencia a liberdade para decidir. A capacidade de lidar com o erro permite que o atleta continue participando do jogo mesmo depois de uma ação malsucedida. O equilíbrio emocional ajuda a preservar a qualidade perceptiva e decisória nos momentos de maior exigência.
Isso não significa tratar confiança ou estabilidade emocional como características fixas e exclusivamente individuais. O próprio contexto pode fortalecê-las ou limitá-las. A clareza do papel, a comunicação da comissão técnica, o vínculo com os companheiros, a sensação de pertencimento e a forma como o erro é tratado também influenciam a maneira como o jogador manifesta suas capacidades. Por isso, talvez uma boa avaliação não deva procurar separar completamente atleta e ambiente, mas compreender como eles se relacionam.
O futebol de seleções torna essa interação mais visível. Ao mudar de contexto, o jogador precisa reconstruir referências e relações em pouco tempo. Precisa compreender as características de novos companheiros, adaptar-se a outros princípios e responder a uma pressão competitiva elevada. Nessa mudança, algumas capacidades parecem viajar melhor do que outras. Jogadores com boa leitura de jogo, flexibilidade cognitiva, confiança, estabilidade emocional e facilidade para estabelecer relações tendem a encontrar caminhos mais rapidamente, mesmo sem reproduzir exatamente os mesmos comportamentos apresentados em seus clubes.
Talvez essa seja uma pista importante para a observação e a avaliação de talentos. Mais do que buscar respostas definitivas, três perguntas podem ajudar a aprofundar o olhar.
A primeira é: o que o jogador faz? Essa é a camada mais visível da análise. São os comportamentos apresentados durante o jogo: como recebe, passa, conduz, pressiona, protege espaços, ataca a profundidade, reage às transições e participa das diferentes fases.
A segunda é: quais capacidades ajudam a explicar aquilo que ele faz? Aqui, a análise precisa buscar o que existe por trás do comportamento. Entram a técnica, a percepção, a tomada de decisão, a compreensão do jogo, os atributos físicos, a confiança, a regulação emocional e a capacidade de relacionar-se com os demais jogadores.
A terceira é: em quais contextos essas capacidades provavelmente continuarão se manifestando? Essa talvez seja a pergunta mais próxima da projeção. O jogador terá tempo e espaço semelhantes? O novo modelo exigirá decisões compatíveis com suas características? Como ele tende a responder a uma liga mais intensa, a outro papel, a novas relações ou a uma pressão diferente? Quais elementos do ambiente atual o potencializam e quais podem não existir em outro lugar?
Naturalmente, nenhuma dessas perguntas elimina a incerteza. O scouting trabalha com projeções, e projeções nunca são garantias. No entanto, elas podem evitar uma leitura excessivamente presa ao comportamento presente. Também ajudam a diminuir o risco de atribuir exclusivamente ao jogador aquilo que foi produzido pelo contexto, ou de ignorar capacidades individuais apenas porque o ambiente atual não favorece sua manifestação.
Talvez essa seja uma das contribuições mais interessantes da Copa do Mundo para quem observa jogadores. Ao colocar atletas de alto nível em novas relações, funções e referências coletivas, ela evidencia que talento não é apenas aquilo que aparece em um contexto conhecido. Também envolve a capacidade de compreender novos problemas, adaptar-se emocionalmente, construir relações e continuar encontrando formas de manifestar suas principais qualidades.
No fim, avaliar talentos não significa apenas registrar o que um jogador faz hoje. Significa tentar compreender por que ele consegue fazer, quais capacidades estão por trás daquele desempenho e em quais ambientes elas poderão continuar aparecendo.
Nicolau Trevisani Frotaatua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional.. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/
Olá a todos! Dentro do nosso percurso sobre as análises, refletimos sobre os pilares que explicam como fazer, por que fazer e que tipologia de análise realizar com base nas necessidades, no contexto e na realidade de cada equipe.
Neste artigo, aprofundaremos talvez uma das questões mais importantes, mas muitas vezes deixada de lado pelo simples fato de ser de conhecimento geral. Dentre as reflexões, tentaremos dar um guia sobre os aspectos a serem levados em consideração para definir cada tipo de ação coletiva ou individual.
Através do glossário da CBF, já temos uma excelente definição das tipologias de ação que ajudam a unificar a linguagem e o entendimento para a organização de uma linha comum de análise.
Segundo a literatura, a partida de futebol pode ser definida em duas ou quatro fases (+ bolas paradas): POSSE e NÃO POSSE, com as transições fazendo parte da organização da fase ofensiva e defensiva. Para um melhor entendimento, usaremos as 4 fases, modelo também chamado de CICLO DO JOGO:
Fase ofensiva
Transição defensiva
Fase defensiva
Transição ofensiva
Seguindo o ciclo de jogo, como podemos definir cada fase respondendo às seguintes perguntas:
Quando uma equipe ou jogador entra realmente em posse de bola?
Quando começam e terminam as transições ofensivas e defensivas?
Quais são as tipologias de transição?
Apesar de pensarmos instintivamente em responder “facilmente” a essas perguntas, vamos destacar os pontos-chave para essas definições.
POSSE E NÃO POSSE DE BOLA
Quando uma equipe/jogador entra realmente em posse de bola? Quantos toques ou quanto tempo com a bola o jogador precisa ter para que se configure a posse? Se imaginarmos um cruzamento na área e um defensor rebatendo a bola de cabeça, esse gesto técnico pode ser definido (em nível estatístico) como ganho ou perda de posse de bola de uma equipe por uma fração de segundo?
Claramente, esta é uma situação muito veloz e altamente específica que não altera esse dado estatístico significativamente ao longo de uma partida, mas serve como ponto de partida.
Segundo Paco Seirul-lo em seu livro (Espaços de Fase, 2000), uma equipe entra em posse de bola apenas quando a mesma fica à “disposição” do time (cerca de 2 a 3 passes). Ou seja, mesmo que a equipe recupere a bola, é indispensável o tempo para que o coletivo possa se organizar e a bola fique sob o controle efetivo dos jogadores.
Já segundo o estudo científico de Hoernig (2017), a posse de bola pode ser dividida em dois macroprincípios:
POSSE INDIVIDUAL COM BOLA (PIB): Entende-se como o momento em que um jogador tem a possibilidade de realizar uma ação com a bola dotada de intencionalidade tática, como um passe ou uma condução.
AÇÃO INDIVIDUAL COM BOLA (AIB): Compreende-se quando a bola entra no raio de ação de um jogador e ele tem a possibilidade de escolher, de modo consciente, entre diversas ações de jogo — como condução, passe ou até mesmo a proteção da bola (ação ofensiva, segundo o Glossário da CBF) — sem precisar, necessariamente, tocá-la de imediato.
Quando um jogador faz um passe consciente com intencionalidade tática (como um lançamento), a posse ainda é considerada da equipe até que a bola entre no “PIB” de um jogador adversário.
Apenas essa simples reflexão sobre algo tão instintivamente simples de ser respondido nos faz pensar quão complexa pode ser uma análise objetiva de qualquer dado técnico-tático no esporte. Para começar a conceituar cada situação, precisamos ter alguns pontos-base bem definidos:
Contexto de jogo (bola – adversário – balizas – companheiro – regras)
Tempo e espaço da ação
Número de jogadores envolvidos
Número de adversários atrás da linha da bola
Usaremos esses pontos para tentar começar a definir as transições dentro de um ciclo de jogo, critérios que também podem ser utilizados em outros momentos, como o bloco médio/baixo/alto, ataque posicional, construção ou desenvolvimento.
TRANSIÇÕES
As transições são caracterizadas pelo momento no qual a equipe que está em posse acaba passando o “PIB” para o “AIB” de um jogador adversário. Este curto período de tempo necessita de uma rápida reorganização ofensiva/defensiva para atenuar ou acelerar a jogada com base no contexto.
Quanto tempo dura uma transição?
Como defini-las com base na zona do campo?
Como posso dividir as suas tipologias?
Efetivamente, não é simples responder a todas essas perguntas, mas, através de algumas definições, podemos analisar de forma mais organizada os diferentes momentos. Iremos refletir sobre pelo menos três diferentes tipologias de transição:
TRANSIÇÃO VELOZ: Se a equipe recupera a bola no meio de campo adversário (mais próximo do gol), essa tipologia de transição provavelmente será mais veloz, com menos jogadores envolvidos e menos passes até se chegar a uma finalização, a fim de reduzir o tempo de reorganização adversária. O primeiro gol do Brasil contra a Escócia poderia servir como exemplo:
Recuperação da bola através de pressão individual.
Recuperação da bola no meio de campo adversário (zona 3) com duração de quatro segundos (máximo 10’’).
Dois jogadores ofensivos envolvidos (máximo 3).
Um jogador adversário atrás da linha da bola (máximo 7).
TRANSIÇÃO CONSTRUIDA: Esta tipologia de transição se caracteriza por ter a bola recuperada em qualquer ponto do meio-campo defensivo (zona 1 ou 2). Se a equipe que recuperou a bola envolveu quatro ou mais jogadores, com tempo mínimo de dez segundos, ao menos três passes até a chegada ao gol adversário e a equipe adversária mantendo até seis jogadores atrás da linha da bola, teremos uma “transição manobrada”. O gol de Marrocos contra o Brasil na primeira partida após a Copa do Mundo poderia se encaixar nesta tipologia:
Recuperação em duelo (dividida) vencido.
Recuperação no meio-campo defensivo (zona 1/2) com duração de doze segundos.
Quatro jogadores ofensivos envolvidos.
Seis jogadores atrás da linha da bola.
TRANSIÇÃO VERTICAL: Quando se recupera a bola no meio-campo defensivo, não necessariamente o número de passes, jogadores envolvidos e o tempo de ação total serão altos. Uma boa organização de ataque preventivo pode acelerar a transição com um ou dois passes, ou até mesmo uma condução de bola em velocidade, aproveitando o “campo aberto” deixado pelo adversário em um tempo máximo de doze segundos. Como exemplo, podemos utilizar o gol do Danilo no amistoso contra a Croácia:
Recuperação em duelo aéreo vindo de um escanteio.
Recuperação na zona 1 com onze segundos de duração.
Três jogadores envolvidos (AIB) com verticalização rápida.
Cinco jogadores totais atrás da linha da bola.
Como o futebol não é uma ciência exata, é normal haver jogadas que as tipologias se misturem ou que podem mudar de tipologia dentro da mesma ação (Da transição manobrada à ataque posicional); a sensibilidade para entender o contexto será sempre o fator fundamental para uma boa análise e divisão das tipologias de ação.
Uma vez definida, como podemos utilizá-la dentro de uma metodologia de treinamento?
Dividindo e analisando as diferentes maneiras pelas quais a equipe cria ou sofre transições, passamos a ter um quadro mais completo para trabalhar na origem da situação — que pode ser a fase de construção (no caso do exemplo da Escócia) ou a marcação preventiva (no caso de Croácia/Brasil). Qualquer divisão das ações e análise tem como objetivo entender melhor as dinâmicas do jogo para poder “conhecer para reconhecer e corrigir” situações de ordem coletiva, grupal e, principalmente, individual, com base no modelo de jogo de cada treinador.
E você, concorda com uma subdivisão levando em consideração essas variáveis? Colocaria ou retiraria algum item?
Estarei à disposição para aprofundarmos o assunto.
Bruno Loureiro BatistaéTreinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/
Mais uma eliminação precoce da seleção brasileira em Copa do Mundo, mais uma vez para um país que nunca foi campeão Mundial. Fatos dessa magnitude, vistos até por quem não acompanha o dia a dia da bola e sim só de quatro em quatro anos, nos ajuda a colocar os pés bem no chão, fincados na realidade e minimizar o falso, enganoso e paralisante mantra de que somos o “país do futebol”.
É incontestável que o Brasil é quem mais conquistou Copas. Porém, as próprias datas dessas conquistas nos evidenciam que fomos vitoriosos em dois blocos bem específicos: de 1958 a 70 com três títulos e depois de 1994 a 2002 fazendo três finais e erguendo dois troféus. São dois recortes pontuais da história em que de fato fomos hegemônicos, porém que não nos colocam como os melhores do mundo de todos os tempos.
Deitamos eternamente no berço esplêndido de que ninguém joga melhor do que o brasileiro, de que aqui naturalmente ‘brotam’ talentos e que o “dom” do futebol é algo inato, que já vem do ventre materno. Essas (falsas) percepções nos levam a não nos esforçarmos muito. Para que eu vou lutar e me dedicar se o meu talento é superior ao dos demais e a qualquer momento esse meu dom pode nos salvar?!
Não cultivamos uma mentalidade vencedora com foco em processos, intensidade, agressividade com e sem a bola, concentração nos noventa minutos de jogo. Por isso – não só por isso, mas muito por isso – tomamos sete da Alemanhã e fomos superados pela Bélgica, Croácia e Noruega. Que tenhamos aprendido a lição.
O talento de Neymar não nos salvou. Até porque não teria como mesmo; ele chegou machucado, não se cuidou por anos, focou nos prazeres imediatos da vida, se machucou demais e etc. Bem diferente do perfil do jogador das seleções que nos eliminaram nas últimas Copas…