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Estrutura ganha jogo?! Mas que estrutura?

Crédito imagem: Pedro Souza/Atlético

O resultado de uma equipe dentro de campo é fruto de tudo o que o clube produz na sua totalidade. Claro que alguns departamentos tem uma influência maior do que outros. Mas todos que trabalham em uma instituição esportiva tem a sua parcela de contribuição no que acontece dentro das quatro linhas.

Fixar os olhos apenas no campo e na bola pode ser perigoso. Principalmente se esse olhar for o do dirigente. Investir, por exemplo, quase que a totalidade do orçamento em salários para jogadores e desprezar outros profissionais que talvez não tenham a mesma visibilidade e relevância para o torcedor, mas que são fundamentais para potencializar a performance pode ser um erro fatal.

Vamos a uma situação hipotética, mas que é muito frequente no Brasil: um clube médio declara que ainda não tem verba para criar um departamento minimamente estruturado e aparelhado de Análise de Desempenho e Mercado. Esse mesmo clube, porém, gasta milhões para contratar um jogador baseando-se apenas no “olhar clínico” de algum dirigente estatutário “abnegado” e “apaixonado” pelo clube. E em muitos momentos esse mesmo caro jogador pode se machucar (o que faz parte) e demorar além do necessário para se recuperar. Se voltarmos o olhar para o departamento médico, talvez esse clube possa estar defasado em termos operacionais e estruturais. E quando esse jogador volta, mesmo que tardiamente, pode ser que ele fique um certo tempo sem jogar bem, apesar de estar clinicamente recuperado. Buscando o staff da instituição não encontramos um psicólogo, para auxiliar o jogador na parte mental. Mais alguns meses e esse clube começa a atrasar salários porque as despesas estão maiores do que as receitas…já viu um filme parecido?

Perceba que o analista, o médico e o psicólogo não são agentes famosos para o mundo externo do futebol, não podendo servir de muletas para alguns dirigentes no famigerado argumento de ‘dar uma resposta para a torcida’ na primeira crise, mas esses profissionais são extremamente importantes para a performance esportiva. E eu poderia citar inúmeros outros profissionais que não têm visibilidade, mas são pessoas fundamentais no sucesso esportivo. Ou se o advogado não for competente o clube não pode perder pontos por alguma irregularidade?! O gerente de logística não pode prejudicar a recuperação dos atletas escalonando mal voos, hotéis e campos para treinar em jogos fora de casa?!

Não estou aqui pregando que o torcedor conheça todos os funcionários do clube que ele torce. Meu foco está nos gestores. Nos tomadores de decisão. Esses têm que entender de todo o processo, entender da complexidade que é o jogo de futebol e saber que a vitória começa fora de campo. 

A torcida resta desconfiar do processo e da estrutura se na primeira crise for contratado um medalhão… a felicidade momentânea pelo reforço pode virar frustração lá na frente…

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Fluxos migratórios no futebol de base brasileiro

INTRODUÇÃO

Por que fluxos migratórios? 

O desrespeito aos direitos de crianças e adolescentes no processo de formação de jogadores e jogadoras é uma ocorrência bastante documentada por meio de produção acadêmica, jornalística e de estudos independentes. Entre as principais violações relatadas estão o distanciamento escolar e da família, a sobrecarga nos treinamentos e o abuso sexual.

Para aqueles que amam o futebol e mesmo para os que se preocupam com o futuro de nossa sociedade e país esse assunto merece atenção pois impacta um número significativo de jovens, sendo uma questão que extrapola a esfera do esporte, atingindo nossa sociedade como um todo. 

Mas afinal, qual o tamanho do futebol de base no Brasil?

Publicado em 2019, o relatório: educação e as categorias de base, mostrou que existiam no ano anterior 448 clubes em atividade nas categorias sub-15, primeira com competições oficiais em idade na qual é possível, legalmente, alojar jovens jogadores, ou superiores. Tal número equivale a cerca de 40 mil jovens, em uma estimativa bastante conservadora baseada em entrevistas com profissionais de 7 clubes profissionais de diferentes níveis esportivos do país. Destes, 35 mil, também de forma estimada* atuavam em clubes sem o Certificado de Clube Formador – CCF, sinal de alerta para a garantia dos direitos desses jovens, como aprofunda o referido documento. 

*As escolhas dessas estimativas estão explicadas de maneira detalhada no relatório.

No documento citado também são apresentadas estimativas, ainda de acordo com as entrevistas com os profissionais dos 7 clubes, sobre o número de jovens que transitam pelo país participando de processos seletivos in loco. Também de maneira conservadora e que vamos extrapolar no relatório de agora, o número encontrado foi de 13 mil jovens ao ano.

É em relação a esse contingente, em conjunto com os aprovados que passam a viver longe de suas cidades e estados de origem, que vamos direcionar nossas maiores atenções no presente estudo. 

Distanciamento escolar 

Mencionamos nos primeiros parágrafos outros tipos de violações frequentemente citadas em estudos sobre as categorias de base do futebol. Entre eles, o distanciamento escolar talvez seja o mais fácil de se observar e mensurar, por isso escolhemos nos debruçar sobre ele, especificamente, para ilustrar como o regime de albergamento, os alojamentos, podem ser prejudiciais para o desenvolvimento de jovens jogadores e jogadoras, lembrando que todas as outras violações listadas podem vir a reboque, estando menos documentadas ou recebendo menos atenção dos envolvidos no processo de formação. 

Quando estudados os centros de treinamento e formação de jogadores e o distanciamento do ensino formal o que se percebe é que ele acontece tanto literalmente, com a não presença nas aulas, quanto de uma forma menos objetiva. Estudos publicados por Melo e colaboradores em 2010 apontam que jovens jogadores provenientes de outras cidades e estados que vivem em regime de albergamento em clubes do Rio de Janeiro são os que detêm maior número de reprovações e de atraso escolar quando comparados aos futebolistas em formação que vivem com a família. Também segundo os pesquisadores, quanto maior a faixa etária, mais os jovens são levados a estudar no período noturno. Em outro estudo, realizado por Marques e Samulski em 2009, com 186 jogadores de 18 anos, também é apontado o atraso escolar e dificuldades para conciliar a escola e a carreira esportiva, sendo que mais da metade da amostra parou de estudar em algum momento para se dedicar ao futebol.

Desde então, algumas melhorias, como a própria regulamentação do CCF, vêm sendo implementadas no processo de formação de jogadores, com destaque para o cada vez mais valorizado trabalho das, na maioria mulheres, profissionais do Serviço Social. De qualquer maneira, o tema continua merecendo nossa atenção. 

Tendo em vista a falta de dados sobre o tamanho do futebol de base no Brasil e a necessidade de especial atenção para os jogadores e jogadoras que deixam seus lares para buscar um espaço no futebol profissional, realizamos um levantamento sobre as cidades de origem de jogadores de 12 clubes das séries A e B do campeonato brasileiro de futebol masculino.

OS DADOS DO ESTUDO

O estudo tem dados enviados por 12 clubes das séries A e B do campeonato brasileiro de futebol masculino. Ao todo, foram coletadas as informações de 1680 jogadores nascidos entre 2000 e 2012, sendo 256 menores de 14 anos, ou seja, que não podem legalmente serem alojados. 

Em relação a seus estados de origem, dos 1680 jogadores listados, 718 são de estados distintos dos clubes de onde atuam, assim como 39 dos 256 menores de 13 anos.

Em relação aos fluxos migratórios, ou as origens e destinos dos jogadores temos os seguintes dados:

Origem dos jogadores 

Nascidos entre 2000 e 2007 – 12 clubes

SUL – 3 clubes

13 do norte (4,333333 por clube)

29 do nordeste (9,666667)

26 do centro oeste (8,666667)

85 do sudeste (28,33333)

33 do sul (11)

França 1 (0,33)

Namíbia 1 (0,33)

Portugal 1 (0,33)

Espanha 1 (0,33)

Paraguai 1 (0,33)

Equador 1 (0,33)

Camarões 1 (0,33)

SUDESTE – 5 clubes

14 do norte (2,8 por clube)

100 do nordeste (20)

53 do centro oeste (10,6)

110 do sudeste (22)

42 do sul (8,4)

3 dos Estados Unidos (0,6)

1 do Panamá (0,2)

1 da Bolívia (0,2)

1 da Colômbia (0,2)

CENTRO-OESTE – 1 clube

4 do norte

13 do nordeste

14 do centro oeste

14 do sudeste

2 do sul

NORDESTE – 3 clubes

4 do norte (1,333333)

27 do nordeste (9)

11 do centro oeste (3,666667)

51 do sudeste (17)

5 do sul (1,666667)

1 do Paraguai (0,3333)

Nascidos entre 2008 e 2012 – 5 clubes 

SUDESTE – 4 clubes

6 do norte (1,5 por clube)

17 do nordeste (4,25)

11 do centro oeste (2,75)

13 do sudeste (3,25)

3 do sul (0,75)

1 da Itália (0,25)

51(12,75 por clube) de fora do estado de origem/205 (51,25) no total

NORDESTE – 1 clube

6 do nordeste

1 do sul

7 de fora do seu estado de origem/51 no total

O funil

Os números do relatório: educação e as categorias de base com suas estimativas conservadoras apontam que temos:

40 mil jogadores de base no Brasil (1)

35 mil deles atuando em clubes sem CCF (0,875 para cada um do total da base)

10 mil alojados (0,25 para cada um do total da base) 

13 a 224 mil perambulantes que viajam realmente pelo país (0,325 a 5,6 para cada um do total da base) 🡪 30 a 500 jovens participando anualmente das semanas de avaliação para ingresso nos clubes brasileiros de variados níveis esportivos.

Com base nesses números temos, de acordo com o novo levantamento temos os seguintes dados:

Jogadores nascidos de 2000 a 2012

Total = 1680 (140 por clube) x 40 de série A e B = 5600 x 1000 tentando ingresso para cada um que tem êxito (Damo, 2005 e Toledo 2000) = 5,6 mi tentaram ingresso apenas nesses clubes.  

5600 x 0,25 = 1400 alojados nos 40 clubes das séries A e B

5600 x 5,6 perambulantes (escolhemos o máximo relatado nas entrevistas de 2019 por estarmos analisando clubes de elite, das séries A e B) = 31360 ao ano saem da sua cidade de origem anualmente para serem avaliados, ao menos uma vez em clubes.

Fora do seu estado de origem = 718 (59,83 por clube – 42,7%) x 40 de série A e B = 2393,2 x 1000 = 2,39 mi fora do seu estado de origem tentaram ingresso – Todos avaliados in loco? Não! Muitos são avaliados e sondados em seus estados e cidade de origem antes de viajarem de fato. 

Jogadores nascidos de 2008 a 2012 – jogadores com 13 anos (7º ao 8º ano do ensino fundamental) ou menos de 5 clubes das séries A e B masculinas, do nordeste e sudeste.

Total = 256 (51,2 por clube) x 40 de série A e B = 2048 x 1000 = 2,05 mi tentaram ingresso

51,2 por clube x 40 clubes = 2048 x 5,6 perambulantes por jogador a base = 11469

Fora do estado = 39 (7,8 por clube – 15,2%) x 40 de série A e B = 312 x 1000 = 312 mil fora do estado tentaram ingresso. Todos in loco? Não! 

Observações e discussões

– Estudo publicado em janeiro de 2021 de autoria de Israel Teoldo e Felippe Cardoso demonstra que o número de habitantes e o IDH da cidade de origem dos jovens jogadores impactam na identificação e desenvolvimento de jogadores no Brasil, o que pode ajudar a explicar o maior número de jovens originários do sudeste fora de seus estados nas categorias de base dos clubes estudados. 

– Em relação aos números do presente relatório um ponto de destaque é que estamos falando de um topo de pirâmide em relação ao “mercado de jogadores mirins”. Tendo CCF ou não – a maioria dos clubes que participaram desse levantamento possui o documento, independentemente da estrutura e condições de vida que os clubes oferecem aos integrantes de suas categorias de base, o grande ponto de preocupação é o que se passa com a vida dos perambulantes, principalmente os não aprovados. Essa preocupação deve ser extrapolada para aqueles que perambulam em busca de oportunidades em toda a cadeia produtiva do futebol brasileiro. Ou seja, para além dos mais de 31 mil – 11 mil menores de 13 anos – que viajam em busca de oportunidades nos 40 clubes das séries A e B, quantos outros são avaliados pelos mais de 400 clubes que mantém categorias de base ativas no Brasil? A quais tipos de violações de direitos tais crianças e jovens estão expostas? De quem é essa responsabilidade?

– Com o aumento exponencial da circulação de recursos no futebol feminino, é uma tendência que essa rede de captação tenha cada vez mais uma maior intensidade, aumentando o fluxo de meninas por conta do futebol pelo Brasil e, possivelmente, expondo essas crianças e jovens às violações de direitos já observadas no caso do futebol masculino. 

Como discutido ao longo do seminário “O ensino do futebol – Uma alternativa à captação”, existem caminhos que podem ajudar a diminuir esse fluxo de menores pelo país, com uma gestão mais humanizada das categorias de base, priorizando a Pedagogia de Futebol e não a captação de talentos.

Referências

Análise da carreira esportiva de jovens atletas de futebol na transição da fase amadora para a fase profissional: escolaridade, iniciação, contexto sócio-familiar e planejamento da carreira. Marques, M. P. Samulski, D. M.

Do dom a profissão: uma etnografia do futebol de espetáculo a partir da formação de jogadores no Brasil e na França 2005. Doutorado na UFRGS. Arlei Sander Damo, 2005.

Lógicas no futebol. Luiz Henrique de Toledo, 2000

Onde há fogo, há fumaça. Indústria de Base, 2019.

Perfil educacional de atletas em formação no futebol no Estado do Rio de Janeiro. Leonardo Bernardes Silva de Melo e colaboradores, 2010

Relatório: educação e as categorias de base. Universidade do Futebol, 2019.

Talent map: how demographic rate, human development index and birthdate can be decisive for the identification and development of soccer players in Brazil. Israel Teoldo e Felippe Cardoso, 2021.

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Um momento de liberdade: o jogo

Dando continuidade ao texto publicado em 24 de setembro 2020 sobre coisas que aprendi na rua Pernambuco, tenho me questionado sobre a infância, sobre o brincar e o jogar nessa época da vida. Aqui vou utilizar o termo brincar com referência ao momento lúdico e livre vivido pelas crianças, e quando me refiro ao jogo, quero tratar das atividades que tem regras como premissa para a prática. Comecei uma breve pesquisa no campo dos estudos culturais e percebi que pode ser possível fazer uma aproximação dessa base teórica com o que tem sido debatido sobre a pedagogia da rua, o brincar e o jogar na infância.

As relações de poder que perpassam a sociedade cooptaram a educação, utilizando a pedagogia como ferramenta na conformação do sujeito idealizado. “A pedagogia vai corresponder ao conjunto de saberes e práticas postas em funcionamento para produzir determinadas formas de sujeito” (CAMOZZATO; COSTA, 2013, p. 26). A educação contaminada por essa lógica está presente nos mais diversos âmbitos da vida, desde a família, até à mídia.

A relação de domínio se dá na disputa de interesses diversos que atravessam o âmbito social. Buscando dar essa ou aquela direção às pessoas, esse jogo de poder opera por meio de uma determinada pedagogia, em especial, a institucionalizada. Nesse sentido, o que Camozzato e Costa (2013) buscam, é revelar que existe uma “vontade de pedagogia”, ou seja, o motor de uma pedagogia que atravessa, entre outros espaços, as instituições educativas, ainda com objetivo de manter a relação de domínio. Nas palavras das autoras conceito que se torna “dizível” se considerarmos que as condições culturais contemporâneas erigem constantemente pedagogias que cruzam a esfera social e acionam um conjunto de forças para intensificar e refinar, por via das pedagogias, as aprendizagens necessárias a tornar-nos governáveis. (CAMOZZATO; COSTA, 2013, p. 23).

Nesse sentido, seria a pedagogia da rua uma possibilidade de resistir a essa “vontade de pedagogia” que perpassa as relações sociais? Uma tentativa de resposta ao questionamento surge da observação de que quando uma criança brinca com outras, relações e aprendizagens se estabelecem ali, de forma pouco ou nada controlada e com a mínima ou nenhuma interferência externa (de adultos).

Entrar nesse estado de jogo pode abrir espaço para a construção de mecanismos de problematização do modelo de controle fomentado pela “vontade de pedagogia”. É que a lógica interna de algumas modalidades como o futebol, por si, são fonte de desafio e prazer, o que parece ser fator determinante para motivar uma criança a participar daquele momento e adentrar nesse mundo outro, como uma espécie de realidade paralela que acontece naquele instante e ao longo da disputa do jogo.

Esses portais que levam a “realidades paralelas”, simbolizam passagens da criança por momentos únicos na vida, em que cada brincadeira e cada jogo possibilita esse tempo outro, deixando marcas que se manifestarão ao longo da trajetória individual, como as estratégias de negociação de regras e de punições em caso de seu descumprimento. Em especial, a disponibilidade de entrar em relação com o outro em benefício do prazer da brincadeira e/ou do jogo.

O fomento a esse(s) espaço(s) do brincar nos proporciona pensar que é necessária a preservação da infância, em especial daquela que tem o brincar como elemento central, e que os(as) adultos(as) possam proteger e também usufruir desse(s) espaço(s), buscando refúgio nesse mundo outro, onde prevalece a possibilidade de construção coletiva em prol do desejo comum.

Assim, o esporte como fenômeno social, principalmente na pedagogia da rua e pela prática lúdica na infância, assume uma condição de potencial fomento de sociabilidade e construção subjetiva que não se pauta pelo modelo de controle da “vontade de pedagogia”, mas, pelo contrário, promove e incentiva a prática esportiva livre de objetivos docilizantes.

Referência

CAMOZZATO, Viviane Castro; COSTA, Marisa Vorraber. Vontade de pedagogia: pluralização das pedagogias e condução de sujeitos. Cadernos de Educação. UFPel. n.44, jan-ab. 2013. Disponível em http://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/caduc/article/view/2737. Acesso em: 18 jan. 2021.

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Esquema tático: saiba como estruturar a linha defensiva

O modelo de jogo, como sabemos, é o norte que orienta as ações dos jogadores nos diferentes momentos da partida.

Esse norte é balizado por inúmeras referências que se integram e se relacionam complexamente. Dessa forma, o esquema tático é uma das referências e não a única dentro do modelo.

Esquema tático: é preciso ter estratégia para ser efetivo

Sendo uma das referências, o esquema tático de futebol não garante por si só a “ofensividade” ou a “defensividade” de uma equipe, ou seja, jogar com três atacantes não quer dizer que minha equipe é ofensiva, ou jogar com cinco na linha de defesa quer dizer que estou na retranca.

Isso tudo depende de como o esquema tático está se relacionando e sendo utilizado para o cumprimento do modelo e dos objetivos dentro do jogo.

Contudo, não podemos negar que essa referência é fundamental (será? Podemos jogar sem um esquema tático?) para a estruturação do espaço do jogo e precisa ser desenvolvida no dia a dia de treino.

Estratégias do futebol: como implementar um esquema tático?

Para que o esquema seja treinado é preciso antes de tudo que ele seja definido com o modelo de jogo da equipe.

Não vamos definir aqui todo o modelo de jogo e apresentar um processo completo para o desenvolvimento do esquema tático em especial.

Vou definir a dinâmica que envolve a linha defensiva dentro do 1-4-4-2 em linha e apresentar três atividades para o seu desenvolvimento.

Volto a destacar que dentro do 1-4-4-2 existem diversas possibilidades e vou explorar uma delas.

Modelo de jogo hipotético: entenda como funciona

Em meu modelo de jogo hipotético, pensando na “linha de 4” defensiva, minha equipe irá se comportar a partir de uma marcação zonal com a participação do goleiro como um elemento que fará a cobertura dos defensores.

Além disso, a linha defensiva terá como princípio operacional de defesa a recuperação da posse de bola nas laterais do campo e impedir progressão na região central, onde os jogadores devem direcionar a jogada para as laterais.

Quando a bola entrar nos corredores do campo, os laterais devem pressionar a bola e os demais jogadores da linha devem se movimentar, a fim de criar uma linha de três jogadores atrás do atleta que realiza a pressão.

(Vejam que um modelo de jogo contém muito mais conteúdos, mas utilizarei apenas esses dentro da organização defensiva, para fins didáticos.)

Sendo assim, posso elaborar algumas atividades para desenvolver o modo de jogar específico de minha linha defensiva.

Vale a pena destacar que essa linha não deve ser confundida com linha de impedimento, pois sua dinâmica não busca deixar o adversário nessa condição, mas sim neutralizar o ataque adversário.

Atividade 1

Descrição

  • Atividade de 4 x 4 + coringa, em que o objetivo das equipes é fazer o gol nos golzinhos adversários.

Regras e pontuação

  • Região central do campo: dois toques na bola;                    
  • Gol nos golzinhos vale 1.

Atividade 2

Descrição

  • Atividade de 4 + goleiro + coringa x 5, em que o objetivo da defesa é recuperar a bola nas laterais do campo e fazer um passe para o coringa posicionado no meio-campo. O ataque deve fazer o gol.

Regras e pontuação

  • A linha defensiva não pode realizar desarmes na região central do campo, enquanto os jogadores do ataque só podem dar dois toques na bola nesse espaço. Dentro da área e nas laterais do campo é livre.
  • O gol vale 3.
  • Fazer o passe para o coringa vale 1.

Atividade 3

Descrição

  • Atividade de 4 + goleiro x 6.

Regras e pontuação

  • Defesa marca ponto quando recuperar a bola nas faixas laterais do campo (1 ponto) ou quando trocar cinco passes (1 ponto).
  • Ataque marca ponto quando fizer o gol no gol oficial (3 pontos) ou nos golzinhos (1 ponto).

Defender é mais do que correr atrás do seu adversário.

Por conta disso, o curso Tática no Futebol da Universidade do Futebol é uma excelente oportunidade para quem deseja ficar por dentro de conceitos fundamentais, como a estratégia, a tática e o modelo de jogo.

No curso, além de você ser apresentado aos princípios de defesa e ataque, os conteúdos da formação são exibidos de forma didática e bem fundamentada.

Para mais informações, entre em contato conosco agora mesmo.

Até a próxima!

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Saiba o que é a marcação por zona e veja como funciona

“A organização defensiva é, acima de tudo, uma questão de defender com lucidez. Aquilo que se deve fundamentalmente procurar é fechar os espaços e assim condicionar os adversários.” (FRADE, 2002).

Nas últimas semanas, recebi vários e-mails sobre questões relacionadas à marcação por zona. Por isso, resolvi antecipar a discussão sobre essa temática.

Antes mesmo de iniciarmos a reflexão acerca da marcação zonal, precisamos discutir o que é a marcação por zona aplicada ao futebol e destacar que ela é parte fractal da organização defensiva da equipe.

Marcação no futebol: conheça 5 formas básicas

A marcação pode ser definida como o ato ou resultado de marcar um espaço e/ou um adversário direto (adaptado de AMIEIRO, 2005).

Partindo dessa definição, podemos discutir cinco formas básicas de marcação em relação ao espaço e ao adversário:

  1. Marcação zonal: age sobre o espaço.
  2. Marcação individual: age sobre o jogador adversário.
  3. Marcação individual por setor: cada jogador é responsável por um espaço e pelo jogador adversário que estiver dentro do local.
  4. Marcação mista: utiliza tanto a marcação zonal quanto a individual, que se alternam em circunstâncias específicas do jogo.
  5. Marcação híbrida: apresenta características da marcação zonal e individual, ao mesmo tempo que estas se manifestam em decorrência da estratégia da equipe.

Cada um desses tipos de marcação tem inúmeras outras referências que a orientam, mas não vamos discuti-las neste momento.

Nosso foco agora é: o que é marcação por zona. Nesta, cada jogador administra um espaço do campo que se modifica em função da bola, de seus companheiros e dos gols.

Marcação por zona: entenda como funciona

O objetivo da marcação é otimizar a ocupação espacial da equipe, deixando o “campo pequeno” para o adversário que ataca.

Na região onde a bola se encontra, a busca é pela criação da superioridade numérica, sem desguarnecer o lado oposto do campo que deve permanecer “vigiado” pelos jogadores mais próximos deste setor.

A região onde a bola se encontra é chamada por alguns autores de “lado forte”, e a região oposta é chamada de “lado fraco”. Em cada uma dessas regiões há uma preocupação diferente por parte da equipe e varia conforme o modelo de jogo de cada uma delas.

É imprescindível conquistar os espaços do jogo de forma estratégica

Para Nuno Amieiro, em seu livro “Defesa à zona no futebol”, ocupar os espaços do jogo de forma inteligente criando superioridade numérica na região da bola é um dos fatores fundamentais para “controlar” os adversários.

Além de criar superioridade numérica na região da bola e “vigiar” o lado oposto a ela, na marcação por zona se preconiza a presença de linhas escalonadas que servem como coberturas e visam, com isso, “aumentar” o caminho entre a bola e o gol.

Vale destacar ainda que na marcação por zona a atenção do jogador não deve ser apenas na ocupação do seu espaço mas também no desenvolvimento de seu jogo como um todo, levando em conta as demais referências do modelo de jogo.

Na marcação por zona, o que se busca é uma marcação coesa, dinâmica, homogênea com o intuito de fornecer uma referência coletiva comum aos jogadores dentro da organização defensiva da equipe.

Por fim, não trago nenhuma atividade prática para vocês, mas venho propor que me enviem sugestões para o desenvolvimento desse conceito.

Na próxima coluna, vou apresentar alguns desses exercícios propostos por vocês a fim de trocarmos informações sobre nossos treinos: acredito que essa troca é fundamental para todos nós.

Perto de finalizar, eu trouxe uma frase de Ayrton Senna, grafada em seu capacete histórico, diante do qual passo todos os dias quando vou para o campo de treino:

“Há um grande desejo em mim de sempre melhorar. Melhorar é o que me faz feliz. E sempre que sinto que estou aprendendo menos, que a curva de aprendizado está nivelando, ou seja, o que for, então não fico muito contente. E isso se aplica não só profissionalmente, como piloto, mas como pessoa.”

Conheça o curso “Mapa de jogo” da Universidade do Futebol

O curso “Mapa de jogo: desvende a complexidade do jogo de futebol”, da Universidade do Futebol, mostra a importância de enxergar o jogo com um fenômeno multidimensional e como essa visão implica os ambientes de treino e jogo.

São abordados tanto aspectos macro, como a lógica e as competências básicas do jogo, quanto os aspectos micro, como as regras de ação para cada posição dos jogadores de futebol.

Para mais informações, entre em contato conosco agora mesmo.

Até a próxima!

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O que aprendi com as Olimpíadas

Crédito imagem – COI/Site oficial

O futebol é o tema central desse espaço, mas ele está sob um guarda chuva maior que é o esporte e tudo que envolve competição. E por mais que cada modalidade tenha suas particularidades é possível tirarmos ideias que são genéricas. Principalmente as relacionadas ao campo mental. 

Temos o jogo travado no campo, na quadra, na pista, na piscina e etc. E temos também o jogo da mente. E as Olimpíadas do Japão nos trazem grandes reflexões sobre para onde está caminhando o atleta de alta performance nesse mundo pandêmico e que se transforma em uma velocidade jamais vista. 

O ponto que mais me chamou a atenção – e aqui falarei de conceitos e não de pessoas – foi ainda a simplicidade. Ganhadores de medalhas olímpicas negando qualquer tipo de pressão que a magnitude desse evento naturalmente carrega afirmando que fizeram apenas o que estão habituados. Provas individuais afloram muito isso. Afinal, é mais vantajoso pensar que alí estão os olhares de todo o mundo e que qualquer falha será notada por milhões de telespectadores, que o resultado obtido pode ser a única chance de uma mudança radical de patamar de vida ou que trata-se apenas de mais uma ‘volta de skate’, mais uma ‘corrida na pista’ ou mais uma ‘nadada’?!

Não é trivial esquecer o entorno e focar apenas na tarefa a ser desempenhada, mas notei que quem tem essa habilidade é porque valoriza e tem um processo muito bem sedimentado. Contando que um ciclo olímpico tem quatro anos, são quarenta e oito meses de preparação. A competição irá refletir o preparo prévio de cada um. Atletas que acreditam na repetição, na melhora contínua, na auto avaliação de erros e acertos tendem a se dar melhor quando ‘é pra valer’. O estado de confiança não se gera apenas com otimismo e pensamento positivo. Isso também ajuda, entretanto sem um processo por trás se torna ineficaz.

E por fim destaco a capacidade de superação. Ninguém nasce campeão. Ninguém nasce o melhor do mundo. Ninguém nasce medalhista olímpico. E todo sucesso teve inúmeros fracassos anteriores. Várias derrotas que alguns encaram como o fim da linha e outros como oportunidades de fazer diferente. A habilidade de se levantar é fundamental para chegar no topo. E se a maioria quer resultado rápido, dá para afirmar que vai colocar a medalha no peito aquele que foca na tarefa, que acredita no processo prévio e que não se abala com as derrotas, entendendo que elas são fundamentais para pavimentar o caminho de glórias futuras.

Essas habilidades mentais que observei e pincei atentamente nesses dias de Jogos Olímpicos servem para qualquer modalidade, incluindo o futebol, e também para a vida de cada um de nós. Se o esporte reflete a sociedade, vamos nos inspirar nos vitoriosos. Se alguém conseguiu, qualquer um consegue!

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O olhar se volta para o jogador de futebol

Crédito imagem – Dinho Zanotto/AGIF/CBF.com

O futebol é cíclico e muda constantemente. O jogo que se pratica hoje é bem diferente se comparado ao de cinco, dez anos atrás. A nossa própria vida tem registrado uma evolução colossal: por exemplo, tenho certeza que você utiliza hoje aplicativos de celular que nem existiam na década passada.

No futebol, se antes falávamos de tática achando que a discussão já deixava de ser rasa argumentando que o 4-4-2 era mais efetivo que o 3-5-2 e vice-versa, houve uma evolução ao colocarmos na mesa conceitos do modelo de jogo, tema amplamente difundido pela literatura portuguesa. Claro que é mais relevante falar de princípios operacionais como amplitude, profundidade, compactação, flutuação e etc do que quantos zagueiros ocupam a primeira linha defensiva de uma equipe.

Mas o próximo passo, que já vem sendo dado por muitos profissionais brasileiros, é trazer a discussão para o aprimoramento tático e técnico do jogador. E quando me refiro que tudo é cíclico, criar mecanismos focados primeiro no crescimento individual e depois no coletivo não deixa de ser um retorno às origens.

Jogadores melhores formarão equipes melhores. Quanto mais atletas com alta capacidade de resolução de problemas, mais chances de êxito. O bom treino hoje estimula o jogador a ampliar o repertório de percepção e ação com e sem a bola. O gesto técnico é só o resultado final de um rápido entendimento da ‘situação problema’ que o jogo impõe e a eficaz tomada de decisão de qual a melhor forma de resolver. 

Todo jogador de alto nível carrega uma bagagem muito grande de conhecimentos prévios sobre o jogo. O ambiente vencedor será aquele que potencializar o que cada atleta já faz bem e apresentar a ele novas formas de ação diante o caos aleatório que é um jogo de futebol. 

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Caso Sunderland AFC e a má gestão no futebol

Você acha que a má gestão nos clubes de futebol é um problema exclusivo do futebol brasileiro? Times que acabam por ficar endividados, acumular problemas na justiça, sofrer com o rebaixamento e decepcionar a sua grande legião de fãs, também é uma realidade para grandes e tradicionais clubes do velho continente. Hoje, vou dar um exemplo bastante recente de como a má gestão e administração pode rapidamente arruinar um grande clube, que disputou por muitos anos a liga que é considerada por muitos como a melhor do mundo, a Premier League.

A série ‘’Sunderland Till I Die’’, disponível na plataforma Netflix, relata os bastidores da meteórica decadência deste tradicional clube do norte da Inglaterra. Fundado por professores  em 1879, o  Sunderland AFC é um dos clubes mais tradicionais e históricos do país – com 6 títulos ingleses a equipe dominou as competições nacionais entre o final dos anos 1890 e início dos anos 1900. No entanto, o futebol atual não mostra paciência ou respeito à história de qualquer clube, já não há como dizer que a instituição é “muito grande” e “tradicional demais” para cair no abismo. Arrisco a dizer, que a dramática série vai fazer o amante do futebol criar uma empatia quase que automática com os Black Cats e seus aficionados. Além dos bastidores internos, a série também dá uma voz especial aos torcedores e mostra as suas rotinas para acompanhar o clube que tanto veneram. Fica difícil não se colocar no lugar destes torcedores apaixonados, que seguem o Sunderland há décadas e estão vivenciando possivelmente o pior momento de sua história. O desânimo, a indignação e a esperança andam de mãos dadas com cada fanático alvirrubro.

A derrocada começa quando o milionário americano, Ellis Short, adquire o clube, ainda disputando a Premier League. Os problemas de falta de gestão profissional e má administração do clube logo começam a ficar nítidos, visto que o clube do norte inglês conta com um alto investimento financeiro mas não corresponde dentro de campo. Desta forma, acaba caindo de divisão e ingressa na disputa da segundona inglesa (Championship). O Sunderland é um dos grandes casos comprovados, de que apenas o alto investimento financeiro não resolve todos os problemas de um clube de futebol. Além do mais, se mal administrado, este investimento pode gerar ainda mais problemas, por vezes irreversíveis ao  clube – também atingindo diretamente patrocinadores, investidores, funcionários e os torcedores. A má administração no Sunderland fica ainda mais evidente quando o clube, que possui uma estrutura digna de um grande clube europeu, com um estádio e centro de treinamento de primeira linha, acaba por ser novamente rebaixado para disputar a terceira divisão inglesa (Football League I) – onde permanece até os dias de hoje. Foram 2 rebaixamentos em sequência e um corte profundo na alma de cada torcedor do Sunderland, que certamente irá demorar para cicatrizar.

Podemos elencar diversos fatores que podem ter contribuído para o fracasso recente dos Black Cats. Falta de planejamento estratégico, falta de organização dos núcleos, ausência de processos de trabalho, falta de profissionais devidamente qualificados, falta de filosofia de jogo do clube e de integração dessa filosofia com as categorias de base. Exemplos não faltam… Entre 2010 e 2018, o Sunderland contratou mais de 70 atletas, e conseguiu lucrar futuramente na transferência de apenas 3 deles. Fez investimentos milionários em equipamentos altamente tecnológicos para ter dentro de seu CT, os quais não tem utilidade nem mesmo para os funcionários responsáveis. Sem contar com os milhões de libras investidos em jogadores que acabaram atuando em menos de 10 partidas pelo clube, contratações e transferências claramente equivocadas e sem um planejamento adequado. Uma sucessão de erros graves, que poderiam ter sido evitados caso os gestores do clube tivessem uma visão sistêmica sobre a gestão, execução, liderança e avaliação de processos relacionados a um clube de futebol profissional – enxergando todos as áreas e suas interconexões com um olhar sistêmico. 

A Universidade do Futebol capacita profissionais para atuar no mundo do futebol com o fomento da visão sistêmica, da gestão profissional e organizada dentro dos clubes de futebol, buscando integrar de forma harmônica as dimensões política, administrativa e técnica presentes no ecossistema dos clubes de futebol. 

Você também acredita que se os gestores do Sunderland na época, houvessem se apossado de conhecimentos sobre a visão sistêmica, a qual o nosso curso de Gestão Técnica no Futebol aborda amplamente, os Black Cats estariam em uma situação menos caótica hoje? Fica a reflexão!

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Intensidade no futebol é isso mesmo?

Crédito imagem – Site oficial UEFA

O termo intensidade tem sido muito usado nas análises de jogos e equipes do futebol brasileiro. Se cobra um time para ser intenso ou se elogia um treinador por fazer seus jogadores serem intensos dentro das quatro linhas. Reconheço que reduzir assuntos complexos e traduzi-los em termos simples e de fácil entendimento é mais do que uma virtude e sim uma obrigação em qualquer processo de comunicação. Porém isso não pode ser suplantado pelo correto entendimento e a consequente assertiva exposição do tema. E a intensidade tem sido definida de maneira muito equivocada nas discussões por aqui.

Ainda se fala que uma equipe é intensa quando ela corre muito em campo. Jogadores que correm (!) são taxados como intensos.

Há uma herança, aqui, dos brilhantes preparados físicos da nossa história que foram os primeiros a estudar e documentar o que acontecia dentro das quatro linhas. Porém, esses estudos sempre vieram com um viés físico. Nada mais natural já que eram os preparadores quem colhiam os dados e conseguiam as conclusões. 

Mas ao falar de futebol dentro de um sistema complexo precisamos entender que a parte física é uma das vertentes do jogo. Temos ainda a técnica, a tática, a emocional, a cognitiva e poderíamos expandir para o social, filosófico, antropológico e etc. O jogo é tudo isso junto e ao mesmo tempo. Então como podemos classificar uma equipe e um jogador como intensos apenas ao olhar o desempenho físico?

Acredito que uma equipe intensa seja aquela que resolva os problemas do jogo da forma mais eficaz e com o menor gasto de energia possível. Quando um time está bem treinado e os setores estão bem ajustados o desgaste é menor para atingir a eficácia. É necessário correr mais quando não se sabe nem o que, nem onde e nem como fazer dentro de campo. Não à toa, José Mourinho disse que um dos jogadores mais intensos com quem ele trabalhou foi Deco. E venhamos e convenhamos, Deco nunca foi um jogador fisicamente acima da média. Mas a capacidade de pensar e executar acertadamente as ações do jogo em um curto espaço e em pouco tempo faziam dele um jogador intenso.

Por tudo isso, ao ver um jogador correndo muito e se desgastando mais do que o necessário não vamos mais chamá-lo de intenso. Há nessa situação tudo, menos essa intensidade complexa que me refiro…

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Panorama do futebol brasileiro a partir de agora

Crédito imagem – Lucas Uebel/Grêmio

Chega ao fim uma primeira parte do calendário do futebol brasileiro. O término não só dos estaduais, como também da fase de grupos da Libertadores e da Sulamericana, nos dá um claro panorama do que teremos nos meses mais importantes da temporada, com o início do Brasileirão e das fases mais agudas da Copa do Brasil e das competições internacionais.

E mais do que resultados vale sempre analisarmos desempenho e contexto. As trocas constantes de comissão técnica são inerentes à nossa cultura. E se não vale ficarmos sempre batendo na já surrada tecla do ‘pouco tempo de trabalho’ vamos fugir também do ‘Estadual é obrigação’, mas ‘perde para você ver…’.

O conjunto mais forte do Brasil hoje é o do Palmeiras. Vou além: o mais forte da América do Sul. E usei o termo conjunto propositalmente. Não é o melhor time que vence. Não basta ter os melhores jogadores. É preciso o melhor conjunto dentro e fora de campo. A diretoria menos suscetível a jogar tudo pro alto em um período de instabilidade. O clube mais sólido nos seus mais variados departamentos para entregar a melhor condição para quem entra em campo. E nisso o Palmeiras está à frente do Flamengo, por exemplo, que para mim é a segunda força. Ou a pressão que o técnico Rogério Ceni sofre após cada mínimo revés não revela um cenário de instabilidade?! E por mais que jogador por jogador o Flamengo seja o mais forte. Entretanto insisto: não basta ter os melhores jogadores para vencer.

Em um segundo escalão projeto três trabalhos muito promissores: o de Tiago Nunes no Grêmio, o de Cuca no Atlético-MG e o de Hernan Crespo no São Paulo. Tiago tem uma incrível chance de apagar a impressão ruim deixada no Corinthians e fazer do atual Grêmio ainda melhor do que o Athlético-PR de 2019. O reforço pontual de Douglas Costa pode potencializar outros jogadores do elenco gremista. No Galo, Cuca não é um gênio tático, mas consegue mobilizar as forças internas rumo a objetivos. E por mais que as ideias coletivas sejam diferentes, há uma boa herança deixada por Jorge Sampaoli. O mesmo se aplica ao que Crespo recebeu de Fernando Diniz no São Paulo: se o técnico argentino conseguir imprimir um caráter vencedor a esse elenco, a sorte são-paulina pode mudar.

Corroborando que vou além do resultado nessas projeções, escrevo esse texto no início da noite de sábado, 22 de maio; sei que o Atlético foi campeão mineiro, mas não sei ainda os resultados dos campeonatos Carioca, Paulista e Gaúcho. E por mais que eu tenha muito claro que se trata de uma modalidade esportiva, em que o resultado sustenta tudo, não mudaria uma só vírgula em função do que aconteça nessas finais.

Os textos de nossos conteudistas parceiros não refletem, necessariamente, as opiniões da Universidade do Futebol