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A zona de conforto no futebol

Crédito imagem: Divulgação/Atlético MG

‘Mais difícil do que chegar ao topo é se manter nele’. Você já deve ter ouvido essa frase, que ao mesmo tempo que está batida se mostra extremamente verdadeira e contemporânea no futebol. 

A mobilização de um grupo de jogadores, de um staff técnico e até da parte diretiva de um clube é algo muito subliminar e que demanda inúmeros fatores para acontecer. Depois de um sucesso, então, se torna ainda mais refinado e de difícil obtenção. É da natureza humana entrar na zona de conforto depois de uma meta conquistada. A mesma meta, sendo no caso do futebol um mesmo campeonato, vencê-lo novamente, por exemplo, pode não motivar a todos. 

A maioria dos jogadores aqui no Brasil não aceitam as mesmas cobranças depois de um título. Os dirigentes acreditam que fazendo a mesma coisa que funcionou irão continuar sendo vencedores. Os próprios técnicos, em muitos casos, apostam no mesmo modelo e nas mesmas estratégias. E fazendo o que sempre foi feito não só é garantia de estagnação como o fracasso se torna uma natural consequência. Se você não está evoluindo, você está piorando!

Por isso defendo no Brasil a troca constante de uma parte do grupo de jogadores a cada temporada. Tanto após derrotas como após vitórias. Nossa cultura não permite ciclos muito longos. A simples troca de ambiente traz ao próprio jogador uma motivação diferente. São poucos aqueles que sustentam uma visão a médio prazo de refinamento do processo para continuar no topo. 

Repare que nos três clubes grandes da cidade de São Paulo em seus mais recentes ciclos vitoriosos isso aconteceu de maneira até natural. O São Paulo campeão mundial em 2005 era diferente do que concluiu o tricampeonato nacional em 2008. O Corinthians campeão brasileiro de 2017 passou por mudanças com relação ao time que conquistou o Mundial de 2012. O próprio Palmeiras atual foi se alterando paulatinamente desde o início dessas conquistas todas em 2015. A cultura vencedora por trás das vitórias é o que sustenta todo o processo. Por isso se faz necessária essa troca constante de personagens. Apego ao passado afasta, ao invés de aproximar, a conquista de novos troféus. 

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Rótulos no futebol: forma de jogar

Crédito Imagem: Kid Junior/SVM

Não há nem certo e nem errado no futebol. O objetivo do jogo é fazer mais gols do que o adversário. E a graça está nas inúmeras maneiras de se atingir isso. Convencionou-se, sobretudo no futebol brasileiro, de que o jogar bem e/ou bonito – coisas extremamente subjetivas e relativas – estão ligados intimamente a ter mais posse de bola do que o adversário. Aqui nem vou entrar na seara de pormenorizar a estatística fria da posse, relativizando em que parte do campo se encontra a maior porcentagem desse controle da bola. Porque o meu objetivo aqui é ponderar, por exemplo, de que é possível defender bem e de maneira elaborada fazendo da defesa a principal arma para cumprir a lógica do jogo e há, sim, muita beleza nisso. Nada de rótulos! Nada de pré-conceitos!

Até os termos proativo e reativo estão sendo usados para simplificar e até reduzir essa própria questão da posse de bola. Ser proativo no jogo de futebol não está necessariamente ligado a ficar mais tempo atacando. Uma equipe pode não ter a posse e mesmo assim ser extremamente proativa dominando o espaço de jogo e induzindo o adversário a atacar nas faixas do campo que lhe for mais conveniente.

Não podemos esquecer, também, a virtude que há em criar vantagens no jogo tirando o que cada jogador oferece de melhor. De nada adianta partir de uma ideia pré-concebida e desprezar a natureza de cada atleta. Até porque mesmo nos times mais endinheirados e também em seleções há algumas limitações e nunca haverá exatamente cem por cento de um grupo de mais de vinte jogadores programados para executar um suposto ideal de jogo do treinador em questão.

O caminho será sempre pensarmos em excelência e eficiência. Excelência em cumprir bem todas as fases do jogo. Eficiência para gastar a energia necessária (nem mais e nem menos) para resolver os problemas do jogo.  Ficarmos rotulando times ou de retranqueiros ou faceiros e coisas do gênero não enriquece a discussão. É mais ou menos como o famigerado “ganhou é bom, perdeu não serve”. A evolução do futebol brasileiro passa por avaliações mais criteriosas. Sem estereótipos. Sem falsas verdades absolutas.

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O “poupar” no futebol cada vez mais banalizado

Crédito imagem: Danilo Fernandes/Meu Timão

Maratona de jogos, calendário totalmente insano, viagens longas, logística difícil… já sabemos há muito tempo que essa é a realidade dos grandes clubes do Brasil. E aí vem a tona um termo que me incomoda demais: poupar jogador!

Sempre deixo claro que o contexto é fundamental para analisarmos o que se passa. A cultura de um ambiente é soberana e deve nortear as decisões importantes visando ter o máximo de eficácia com o menor atrito possível. Posto isso, em se tratando de futebol brasileiro, com um imediatismo absurdo para o resultado e com os jogadores sendo “fominhas”, já que a maioria quer jogar sempre, não me parece vantajoso “descansar” e “poupar” parte do elenco a cada rodada, sem um aprofundamento científico e planejado por trás.

Prezo demais a qualidade do jogo e reconheço que o treino é fundamental para potencializar indivíduos e o coletivo. Entretanto, mesmo “poupando” alguns jogadores você não consegue treiná-los adequadamente com a outra parte do grupo concentrando, jogando e depois recuperando. 

Sou a favor da força máxima sempre! O jogo mais importante é o próximo! E pensando nesse máximo desempenho, o jogador poupado por um suposto desgaste físico não entregaria mais do que o reserva que vai entrar descansado?! Partindo sempre do pressuposto que o jogo não é só físico, mas também técnico, tático, mental e etc… e que quanto mais uma equipe joga, mais as conexões e relações se ajustam e menos desgaste é exigido para que as ações sejam cumpridas…

São reflexões que faço para não apenas aceitar o tal time alternativo… as exceções que vão aparecendo desse “sempre foi assim” são importantíssimas para pouco a pouco quebrarmos mais esse paradigma do futebol brasileiro…

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Tantas demissões de técnicos matam o futebol brasileiro

Crédito imagem: Gustavo Oliveira/athletico.com.br

Neste momento em que você lê esse texto o número de técnicos demitidos no futebol brasileiro será maior do que quando eu escrevi essas linhas. Certeza! Por isso não vou quantificar as demissões. São muitas! Desproporcionais! E isso me incomoda muito…

Sou um ferrenho crítico da qualidade do jogo que se pratica no Brasil. Tenho convicção de que poderíamos apresentar um produto melhor. E a questão não é dinheiro, já que sei que vão dizer que os melhores jogadores estão na Europa e por isso lá o jogo é melhor… o Villarreal fatura menos e mesmo assim eliminou o Bayern de Munique da Champions…

Mas a falta de tempo de trabalho dos técnicos, sim, impacta diretamente no que se vê em campo. Como elaborar ideias e implementar conceitos com uma média de três meses de um profissional à frente do processo? E depois vem outro técnico mudando tudo e depois de três meses chega outro e assim vai… o treinador aqui no Brasil não trabalha. Ele sobrevive. A cada rodada ou comemora a chance de trabalhar até o próximo jogo ou se aproxima da demissão. Sem muita avaliação. O futebol é muito dinâmico, dizem os dirigentes…

Não alimento a utopia de que todo clube deve ter em seu escopo um modelo de jogo estabelecido, com padrões de comportamento definidos com base na história, nas conquistas marcantes e no contexto geral e só a partir disso buscar um treinador que se encaixe e entregue tudo o que seja condizente com essa filosofia. Sei que aqui no Brasil o que se quer é a vitória a qualquer custo, não importando como. Mas até para ganhar desse jeitão aleatório tem que ter coerência. Precisa de tempo. Tem que respeitar e entender o processo. Há de se ter convicção mesmo nas derrotas e entender que elas fazem parte do amadurecimento.

É muito fácil demitir o treinador. Aparentemente se estanca o problema e a torcida vê que os dirigentes estão “tomando providências”. Porém no médio prazo já estamos colhendo os frutos disso…equipes sem padrão, jogando da forma mais simples possível, com medo da derrota… a conta chega. A bola pune!

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Vitor Pereira e essa desafiadora sequência no Corinthians

Crédito imagem: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

O sucesso e o fracasso tanto no futebol como na vida são previsíveis e podem ser potencializados. Há algumas atitudes que trazem a vitória para mais perto. E há outras que aumentam a probabilidade de um revés. É fato que não controlamos o resultado final. Porém o que entregamos para o mundo e como reagimos aos acontecimentos está inteiramente sob nossa responsabilidade. E dentro dessa perspectiva o Corinthians não poderia mesmo ser campeão paulista. Ter três técnicos (um interino e dois efetivos) em quatorze jogos não tem como dar certo…

Não quero ficar aqui remoendo a saída de Sylvinho. Por mais que não passe pela minha cabeça a manutenção de um treinador de um ano para o outro e após toda uma pré-temporada demiti-lo com apenas três jogos, (uma vitória, um empate e uma derrota), o foco agora deve ser a sequência do bom Vitor Pereira. Contudo, por melhor que seja o técnico português, o elenco corintiano tem graves problemas de formação. As contratações feitas desde o meio do ano passado podem ser vistas mais como oportunidades de mercado e lembranças afetivas do que por performance e efetividade. As posições de primeiro volante e centroavante, por exemplo, carecem de jogadores que estejam no pico da carreira – isso varia a partir de 24 e 26 anos até 28 e 30. 

Que fique bem claro: não sou contra a contratação de jogadores experientes. Mas é nítido que o elenco corintiano tem muitos jogadores que já estão no declínio não só físico, mas também técnico, tático e emocional. E isso é determinante para o modelo de jogo adotado!

Vitor Pereira é inteligente e experiente o suficiente para adaptar suas ideias às características dos jogadores a disposição. Entretanto a diferença entre o que o português prefere e o que esse elenco corintiano pode oferecer é enorme! Como propor uma marcação em linha alta se os homens de frente não conseguem ser intensos os noventa minutos? Como furar marcações fechadas se os jogadores não conseguem romper linhas e atacar espaço com agressividade? E até para não ficar preso só na questão da idade, como buscar uma construção desde lá de trás se o goleiro Cássio nunca foi estimulado a sair jogando com os pés? Isso sem falar do desgaste insano do nosso calendário com jogo atrás de jogo, viagens e mudanças climáticas de Fortaleza a Caxias do Sul pelo Brasileirão, passando pela Bolívia a Argentina com a Libertadores…

Sei que não há fórmula pronta para vencer no futebol e reconheço o enorme talento que alguns jogadores do elenco corintiano tem. Mas o desafio de Vitor Pereira é imenso! Potencializar o que esse time tem de melhor e minimizar as fraquezas não será um trabalho dos mais fáceis…

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Palmeiras x Cristiano Ronaldo

Créditos da imagem: Reprodução/TNT Sports

O que o Palmeiras atual tem a ver com Cristiano Ronaldo? A nacionalidade do atacante do Manchester United é a mesma do treinador palmeirense… mas isso é irrelevante perto da grande e complexa reflexão que podemos fazer ao traçar um paralelo entre o atual estágio do bicampeão da Libertadores e o momento de carreira do ex-melhor do mundo.

Cristiano Ronaldo saiu do Real Madrid a peso de ouro para a Juventus da Itália. O objetivo da contratação era enfim ganhar novamente a Champions League. O time italiano batia na trave e havia a crença de que o atacante português era a peça que faltava para a tal mudança de patamar. Oras, se CR7 ganhava com o Real Madrid ele também faria a Juventus campeã…simples, não?! Só que não foi bem assim… o próprio retorno dele ao Manchester United foi cercado por expectativas parecidas…

A questão central é que Cristiano Ronaldo não conquistava as Champions para o Real Madrid. Era o Real que fazia o português conquistá-las. O clube era (e continua sendo) extremamente forte. A cultura vencedora alicerça o desempenho dentro de campo. A mentalidade focada em sucesso por trás de cada célula do clube espanhol embalava o que acontecia nas quatro linhas. CR7 era uma parte dessa engrenagem. Levá-lo para outro contexto não representa jamais a reprodução dos mesmos resultados. Gastar com jogadores, buscar ter os melhores, ajuda a ganhar títulos. Mas não é o mais determinante. O próprio PSG de Messi, Neymar e Mbappé simboliza bem essa questão…

E o que o Palmeiras tem a ver com tudo isso? Absolutamente tudo! A equipe palmeirense não tem os melhores jogadores. Não há um grande craque no time de Abel Ferreira. O Verdão não tem um centroavante como Gabigol. Ou um atacante tão completo como Hulk. Talvez Renato Augusto e Willian do Corinthians sejam melhores do que Zé Rafael e Gustavo Scarpa. Porém a engrenagem palmeirense dentro e fora de campo é disparada a melhor não só do Brasil como da América do Sul. E é isso que tem feito o clube tão vencedor!

Não há um só setor no Palmeiras que não seja profissional. As categorias de base são referência. Os departamentos médicos, de análise de desempenho, de marketing, jurídico etc, são de excelência. E isso impacta dentro de campo! Pode não parecer, mas tudo isso faz mais gols importantes do que um jogador que ganha dois milhões de reais por mês.

Não quero aqui pregar que o torcedor comemore, por exemplo, a chegada de um cientista do esporte ao invés de um craque renomado. Entretanto se faz necessário um olhar mais complexo para o que gera de fato conquistas duradouras e convincentes. O todo é maior do que a soma das partes. Ficaremos cada vez mais distantes das verdades por trás das vitórias enquanto buscarmos individualizar um jogo que é muito mais coletivo do que o onze contra onze nos noventa minutos…

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Os dilemas de Vitor Pereira no Corinthians

Crédito imagem: Divulgação/Timão Web

Estou muito curioso para acompanhar a evolução do trabalho do português Vitor Pereira à frente do Corinthians. O desafio de todo treinador quando chega em um novo clube é diminuir a distância e ser assertivo entre o que “quer fazer” e o que “dá pra fazer”. É claro que o técnico estrangeiro tem um empoderamento maior no ambiente. Digamos que inovar é um pouco mais fácil  para um profissional que vem de fora do que para um “doméstico”. Porém em alguma intensidade a ruptura com Vitor Pereira irá acontecer, já que o que ele pensa de futebol está muito distante do que vem sendo feito, salvo alguns curtos períodos, há mais de uma década no Corinthians.

A equipe de Parque São Jorge foi vitoriosa com Tite, Mano Menezes e Fábio Carille tendo uma ideia macro muito semelhante. Claro que algumas particularidades eram específicas de cada time, já que jogadores diferentes geram conexões também diferentes. Mas podíamos identificar padrões muito claros que permaneciam ao longo dos anos. Por exemplo, o bloco defensivo variando do médio para o baixo, a linha defensiva sempre com quatro jogadores tanto para defender como para atacar numa construção bem sustentada. Para atacar, e na própria transição ofensiva, a ideia prioritária era o passe vertical, tentando chegar ao gol adversário com poucos toques. Na transição defensiva, uma busca imediata pela recuperação da posse, porém após alguns segundos já uma recomposição da organização defensiva. 

Agora, Vitor Pereira demonstra gostar de outros mecanismos, como a saída de bola com três e não quatro jogadores, o goleiro participando da construção e jogando adiantado para fazer coberturas, já que o bloco de marcação também fica adiantado. Para atacar, jogadores bem abertos dando amplitude, buscando sempre triângulos, mesmo que isso gere passes para o lado e para trás várias vezes. E para executar essas ideias o grande dilema será a escolha dos jogadores. Cássio será esse goleiro que joga com os pés e fica adiantado fazendo coberturas? Gil terá velocidade para acompanhar os atacantes adversários quando vier uma bola longa? Fagner conseguirá jogar por dentro tendo outro jogador aberto pela direita?

É esse tipo de questionamento que será respondido com a sequência de jogos… entretanto a questão central para Vitor será ter o máximo de eficácia com o mínimo de atrito entre o que ele quer fazer e o que de fato dará para fazer.

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Táticas no futebol: por que devemos pensar além delas?

É comum, hoje em dia, ouvirmos algumas discussões, supostamente sobre tática no futebol brasileiro se prendendo aos números envolvidos nos esquemas de jogo: o 1-5-4-1 seria defensivo demais, ou o 1-4-2-4 superofensivo — sim, colocamos o primeiro “1” fazendo referência ao goleiro, por isso não fico espantado quando Jorge Sampaoli pedia no Santos um arqueiro que saiba jogar com os pés.

Sistema de jogo: táticas no futebol são importantes, mas não são tudo

Acredito na ideia do “futebol total”: com a bola, todos atacam, inclusive o goleiro. E sem ela todos defendem, incluindo o centroavante.

Eu amo a tática no futebol e adoro estudá-la. Quanto mais conheço e observo, mais quero aprender. Sei, porém, que ela por si só não traz todas as respostas para os complexos problemas que um jogo de futebol apresenta.

É claro que uma equipe com um jogo minimamente elaborado terá referências coletivas de ataque, defesa e transições. Mas haverá também decisões que serão novas, exclusivas dos jogadores, que poderão fazer a diferença para o cumprimento da lógica do jogo.

É necessário analisar além da formação tática

O que quero dizer aqui é que a análise deve ser muito mais ampla do que o esquema tático do futebol. Até porque ele é circunstancial.

Uma equipe pode se defender com duas linhas de quatro e atacar com uma linha ofensiva de cinco jogadores, dependendo da altura que os laterais e os meias ocupam.

Além disso, por conta das características únicas de cada jogador, da sinergia e dos elos que se formam, toda a equipe terá suas características únicas. Ou alguém duvida que um 1-4-3-3 com Messi de falso 9 é diferente do mesmo 1-4-3-3, tendo Diego Costa como centroavante?

Não quero aqui tirar o peso da tática no futebol na análise. Pelo contrário. Colocar os óculos dos princípios e subprincípios ofensivos e defensivos para tirar padrões de comportamento de um time é superválido.

Mas esses mesmos óculos precisam ser calibrados: se não abrirmos os nossos olhos para a complexidade de um jogo de futebol, continuaremos míopes para entender por que uma equipe ou ganhou ou perdeu, mesmo usando esses óculos.

Quer aprender mais as táticas no futebol, novas estratégias e os princípios de defesa e ataque?

O curso Tática no Futebol da Universidade do Futebol apresenta de forma didática e bem fundamentada todos os conceitos relacionados à estratégia e ao modelo de jogo.

São 4 módulos divididos em 14 aulas com diversos exemplos reais de jogo, a fim de ampliar o seu olhar para o futebol.

Para mais informações, entre em contato conosco.

Gostou deste artigo sobre táticas no futebol? Então, confira outros títulos em nosso blog:

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Tokenização em campo – Novos horizontes das transações no futebol

Diante de um cenário repleto de instabilidade e mudanças repentinas, o universo do futebol, cerne do entretenimento brasileiro (e mundial), se viu diante de uma crise com impactos significativos para a receita de diversos clubes esportivos em todo o mundo, abrindo as portas para novas oportunidades e modalidades no âmbito das transações financeiras.

Desde 2019, alguns clubes têm estudado novas possibilidades de rentabilizar as transmissões esportivas e, agora, diante da crise do coronavírus que se estende há mais de um ano, o mundo das criptomoedas e das transações de ativos digitais já se tornou realidade. Em janeiro, tivemos a primeira transação em criptomoedas envolvendo um jogador do futebol de elite – David Barral, do DUX Internacional de Madrid.

Em outros clubes europeus, as transações envolvendo ativos digitais ganhou destaque com a criação de um aplicativo chamado Fan Token. Sem promessas de retorno financeiro, o aplicativo comercializa ativos que permitem os torcedores a escolherem uniformes de equipe, músicas do estádio, acesso exclusivo ao banco de reservas e outros benefícios indiretos, que se tornam atrativos pela paixão da torcida. Alguns dos times que aderiram à nova modalidade de transações digitais foram Paris Saint-Germain, Juventus, Roma e Atlético de Madrid.

No Brasil, os ativos digitais já se tornaram uma realidade no Vasco da Gama, que lançou o Vasco Token. A partir dele, os sócios que investirem no ativo adquirem direitos de crédito do clube referentes ao mecanismo de solidariedade, que remunera os clubes pela formação dos atletas de base. Assim, cada vez que um jogador da base é transferido, o clube comprador paga o mecanismo de solidariedade e o valor é distribuído aos detentores dos tokens.

No cenário de crise, a proposta de venda dos tokens, que sustenta um sistema ganha-ganha entre clube e torcedores, serviu para angariar mais de R$ 10 milhões em ativos comercializados. Esse valor, que será destinado pelo Vasco para pagamento de salários, virá como retorno a médio-longo prazo para os torcedores que, sem poder comparecer aos estádios, podem ajudar o clube do coração neste momento complicado.

A ideia, que contou com o apoio de uma das gigantes do mercado de criptomoedas, pode ser aplicada por outros clubes, já que foi bem aceita pelos torcedores como investimento de grande potencial – as transações internacionais geralmente são feitas em euro ou em dólar, e o câmbio para a moeda brasileira garante um ganho significativo para os investidores

Apesar de haver um risco de não haver rentabilidade a partir do mecanismo de solidariedade – se, por exemplo, o atleta tiver seu contrato encerrado ou optar por seguir a carreira toda em um mesmo clube e não haja valores de transação para compensar o investimento, o universo do futebol oferece uma série de possibilidades para Tokenização: ingressos, mercadorias e, inclusive, transmissões esportivas, que já estão sendo rentabilizadas de outras formas.

Essas possibilidades são potencializadas através da tecnologia, que garante um avanço exponencial e maximizadas pelo contexto da pandemia ocasionada pela covid-19. Diante deste cenário, os clubes buscaram diversas formas de se rentabilizar, seja abrindo transmissões de seus treinamentos, viagens, bastidores, buscando alimentar os caixas dos clubes, afetados pela ausência do público nos estádios. Em paralelo a isso, um estudo da Binance Research, apontou um crescimento das criptomoedas de 2.300% em 2021 com valor investido na casa dos US$ 40 bilhões, o que torna este novo horizonte ainda mais atrativo para esse nicho.

O Vasco espera arrecadar de cerca de 50 milhões de reais, através da Exchange. Se virtualmente, blockchain e criptomoedas ainda geram muitas dificuldades de materialização, na vida real, 50 milhões de reais soam como algo bem palpável.

Aguardemos as cenas dos próximos [e exponenciais] capítulos.

Glossário:

CRIPTOMOEDA – é um meio de troca que utiliza da tecnologia de Blockchain e da criptografia para assegurar a validade das transações e a criação de novas unidades da moeda.

BITCOIN – É a mais famosa de todas as criptomoedas. Atualmente, um bitcoin vale cerca de R$ 320 mil reais.

TOKEN – Tokens são ativos digitais que representam uma parcela de um ativo real. Por exemplo, caso uma loja seja Tokenização, quem adquirir um token da loja irá obter lucro sob o lucro da loja.

BLOCKCHAIN – De forma resumida, blockchain é um sistema que registra e permite rastrear o envio e recebimento de informações pela internet, e é esse sistema que, assim como um livro de contabilidade não alterável, permite o controle das transações envolvendo criptomoedas.

MINERAÇÃO DE DADOS – É o ato de realizar cálculos matemáticos. Quando um computador realiza esse cálculo criptográfico ele recebe uma recompensa em bitcoins. Dizemos que ele está minerando e permitindo que surjam mais Bitcoins.

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A perda de capacidade da trabalho e as consequências jurídicas no futebol

Crédito imagem: Site Santos FC

Nesta segunda semana de março, um dos assuntos mais comentados no cenário futebolístico, foi o estado de saúde do jovem Raniel, o qual está afastado dos gramados há 05 meses e sem qualquer previsão de retorno.

O atacante Raniel contraiu o novo coronavírus em setembro de 2020. Após a sua recuperação da COVID 19, Raniel viajou para o Paraguai, para participar do jogo contra o Olímpia, tendo retornado sem nenhuma dor. No entanto, no dia seguinte da viagem, Raniel apresentou muita dor na panturrilha direta, sendo constatada a patologia trombose venosa.

Destaca-se que há inúmeras discussões médicas se o fenômeno tromboembólico acima mencionado está relacionado ou não à COVID 19, mas, até a presente data, tal questionamento permanece sem resposta.

Raniel se submeteu a cirurgia para tratamento da trombose venosa aguda na perna direita. Ocorre que, após a cirurgia, o atleta foi acometido pelo encurtamento no tendão de Aquiles, podendo inclusive passar por outra intervenção cirúrgica.

Pois bem.

A situação do Raniel traz à tona debates importantes para o Direito do Trabalho e Previdenciário Desportivo, notadamente no que tange aos direitos dos atletas que são acometidos por doenças, ocupacionais ou não, e ficam impossibilitados de prestarem seus serviços, ou seja, jogar futebol.

A Lei Pelé, em seu art. 45, prevê a obrigação do clube em contratar seguro de vida e de acidentes pessoais, vinculado à atividade desportiva, para os atletas profissionais, almejando cobrir os riscos que estes estão sujeitos. Tal dispositivo legal dispõe, ainda, que a indenização securitária deve corresponder, no mínimo, ao valor anual da remuneração pactuada.

Assim, nos termos da Lei Pelé, o jogador possui o direito à um seguro, o qual lhe garantirá indenização, caso ocorra algum acidente relacionado à atividade desportiva, independente se a lesão for temporária ou definitiva.

Ademais, a Lei Pelé determina que o clube é responsável pelas despesas médicas e de medicamentos ao restabelecimento do atleta, enquanto a seguradora não fizer o pagamento da indenização.

No caso do Raniel, por exemplo, caso seja comprovado que este contraiu COVID 19 no seu ambiente de trabalho e que suas complicações decorreram do novo coronavírus, este terá direito ao recebimento de indenização securitária.

Além do seguro acima mencionado, aplica-se ao atleta profissional as normas gerais da legislação trabalhista e da seguridade social, ressalvadas as peculiaridades da Lei Pelé.

Desta feita, em caso de incapacidade do atleta profissional, este pode ser afastado pelo INSS, percebendo o benefício previdenciário correspondente à sua situação, auxílio-doença comum ou acidentário. Salienta-se que, para recebimento do auxílio-doença comum, o jogador deve comprovar a sua situação de segurado e o período de contribuição mínimo de 12 meses.

Destaca-se, por oportuno, que enquanto o atleta estiver em gozo do benefício previdenciário, o contrato de trabalho estará suspenso, sendo, inclusive, vedado, em regra, o seu encerramento.

Outro questionamento que surge é se o atleta profissional possui estabilidade, em caso de doença ocupacional ou acidente de trabalho. O Tribunal Superior do Trabalho, em recente julgamento (Ag 10173-68.2016.5.18.0011), entendeu que o atleta possui direito à estabilidade provisória ao emprego, em caso de doença ocupacional ou acidente de trabalho, mesmo que seu contrato de trabalho seja determinado e ainda que não tenha ocorrido o seu afastamento previdenciário.

Isso porque, embora o afastamento previdenciário seja um requisito para a concessão da estabilidade provisória, segundo o TST, o clube pode arcar com a remuneração dos atletas durante o seu período de convalescença, sem que estes sejam encaminhados ao INSS, para que não seja caracterizada a garantia ao emprego.

Assim, diante de tal situação, o TST entendeu ser desnecessário o afastamento previdenciário para a concessão da estabilidade provisória.

Em que pese o entendimento do TST acima mencionado, tem-se que não há um consenso na jurisprudência. Há decisões que afirmam que a estabilidade provisória decorrente de doença ocupacional ou acidente de trabalho é incompatível com o contrato especial de trabalho do atleta profissional, por este ter prazo determinado. Outrossim, entendem que o seguro previsto na Lei Pelé se equivale à garantia de emprego prevista no art. 118 da Lei 8.213/91.

O entendimento acima mencionado foi da Nona Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, nos autos da reclamatória trabalhista distribuída sob o nº 0010561-61.2020.5.03.0006, na qual contendem Lucas Thiago Revuela Billewicz e América Futebol Clube.

Assim, sem ter o objetivo de esgotar o tema, o qual se sabe é muito rico e polêmico, deixa-se aqui as principais consequências jurídicas de eventual incapacidade laborativa do jogador de futebol.

Por fim, estimo melhoras ao Raniel, para que este retorne logo aos gramados, sendo certo que este possui uma brilhante carreira pela frente.