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Táticas no futebol: por que devemos pensar além delas?

É comum, hoje em dia, ouvirmos algumas discussões, supostamente sobre tática no futebol brasileiro se prendendo aos números envolvidos nos esquemas de jogo: o 1-5-4-1 seria defensivo demais, ou o 1-4-2-4 superofensivo — sim, colocamos o primeiro “1” fazendo referência ao goleiro, por isso não fico espantado quando Jorge Sampaoli pedia no Santos um arqueiro que saiba jogar com os pés.

Sistema de jogo: táticas no futebol são importantes, mas não são tudo

Acredito na ideia do “futebol total”: com a bola, todos atacam, inclusive o goleiro. E sem ela todos defendem, incluindo o centroavante.

Eu amo a tática no futebol e adoro estudá-la. Quanto mais conheço e observo, mais quero aprender. Sei, porém, que ela por si só não traz todas as respostas para os complexos problemas que um jogo de futebol apresenta.

É claro que uma equipe com um jogo minimamente elaborado terá referências coletivas de ataque, defesa e transições. Mas haverá também decisões que serão novas, exclusivas dos jogadores, que poderão fazer a diferença para o cumprimento da lógica do jogo.

É necessário analisar além da formação tática

O que quero dizer aqui é que a análise deve ser muito mais ampla do que o esquema tático do futebol. Até porque ele é circunstancial.

Uma equipe pode se defender com duas linhas de quatro e atacar com uma linha ofensiva de cinco jogadores, dependendo da altura que os laterais e os meias ocupam.

Além disso, por conta das características únicas de cada jogador, da sinergia e dos elos que se formam, toda a equipe terá suas características únicas. Ou alguém duvida que um 1-4-3-3 com Messi de falso 9 é diferente do mesmo 1-4-3-3, tendo Diego Costa como centroavante?

Não quero aqui tirar o peso da tática no futebol na análise. Pelo contrário. Colocar os óculos dos princípios e subprincípios ofensivos e defensivos para tirar padrões de comportamento de um time é superválido.

Mas esses mesmos óculos precisam ser calibrados: se não abrirmos os nossos olhos para a complexidade de um jogo de futebol, continuaremos míopes para entender por que uma equipe ou ganhou ou perdeu, mesmo usando esses óculos.

Quer aprender mais as táticas no futebol, novas estratégias e os princípios de defesa e ataque?

O curso Tática no Futebol da Universidade do Futebol apresenta de forma didática e bem fundamentada todos os conceitos relacionados à estratégia e ao modelo de jogo.

São 4 módulos divididos em 14 aulas com diversos exemplos reais de jogo, a fim de ampliar o seu olhar para o futebol.

Para mais informações, entre em contato conosco.

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Governança Corporativa – Parte l

Crédito imagem – Cesar Greco/Palmeiras

Elaborado por: Diego Mello com a colaboração de Alessandro Langone e Marcelo Moraes.

Empresas existem para gerar valor a seus acionistas. Mais especificamente, a criação de riqueza através da operação dos mais distintos negócios é, há séculos, o objetivo primordial de sociedades empresárias em todo o mundo. É chamado de Governança Corporativa o conjunto de mecanismos e práticas criados para otimizar o desempenho de uma companhia e garantir aos provedores de capital retorno sobre seus investimentos. As práticas de Governança portanto representam o modo pelo qual as empresas são dirigidas e controladas, a fim de preservar e otimizar seu valor.

Como aplicar esses conceitos ao contexto do futebol brasileiro no qual, para a grande maioria dos clubes, constituídos como associações civis sem fins lucrativos, a criação de valor não está diretamente relacionada à obtenção de lucros? Quais os principais elementos do sistema de Governança de empresas privadas e clubes do exterior aplicáveis a nossos clubes e até que ponto tais práticas contribuem para que eles se beneficiem dos recursos públicos e privados agregados à cadeia de valor da indústria esportiva? Quais os dispositivos legais já existentes sobre o tema e de que forma as mudanças advindas do Fair Play Financeiro proposto pela CBF e da Lei do clube-empresa tramitando no Congresso Nacional poderão contribuir para, definitivamente, alçar a criação de valor ao cerne do processo decisório? 

Essas serão as principais questões abordadas nessa série de textos sobre Governança Corporativa no futebol preparada em parceria com a Universidade do Futebol. O desenvolvimento do futebol brasileiro como indústria passa necessariamente pela reflexão sobre a forma pela qual nossos clubes, federações e a CBF se organizam e são geridos, independentemente de sua natureza jurídica, e sobre o papel das diferentes partes interessadas (stakeholders) na construção de um ambiente de negócios favorável não apenas aos interesses de associados ou acionistas como também à longevidade das organizações.

Governança Corporativa no futebol – uma breve perspectiva histórica

A importância da Governança Corporativa no esporte deriva da sua relevância em empresas dos mais diferentes setores. As discussões sobre o tema adquiriram importante conotação mediante a deflagração na primeira década do século XXI de escândalos de corrupção em grandes empresas multinacionais nos Estados Unidos. Tornava-se latente a partir de então a necessidade por um sistema capaz de minimizar os inevitáveis conflitos de interesse entre os detentores de capital, donos das empresas, e os dirigentes por eles contratados para geri-las. Relatórios, guias, cartilhas e leis foram então elaborados para fundamentar princípios essenciais de ética e transparência aos negócios, disseminando a necessidade por práticas honestas e responsáveis na gestão das organizações. A partir desse mesmo período a matéria evoluiu também no Brasil como decorrência, não por acaso, do processo de abertura econômica e privatizações que estimulou a chegada ao país de empresas internacionais. 

Particularmente no cenário esportivo nacional o advento da discussão sobre Governança para clubes de Futebol teve como um dos mais importantes marcos a publicação da Lei Zico (Lei nº 8.672/1993), em 1993. Somente a partir de então inclui-se no arcabouço legal sobre o esporte elemento relacionado à organização de entidades esportivas como empresas, estabelecendo-se assim previsão legal para um modelo de gerência esportiva ainda incipiente.

Instituídos em momentos históricos bastante distintos aos de 1993, os dispositivos legais anteriores à Lei Zico que estabeleceram as bases de organização do desporto no Brasil, como o Decreto-Lei nº 3.199/194, primeira lei esportiva oficial do país, e a Lei nº 6.251/1975, refletiam, de forma clara, a intenção do Estado em manter controle sobre o funcionamento do esporte. Com efeito, apesar de relevantes para incentivo e regulamentação das práticas esportivas tais dispositivos pouco favoreceram para fomentar discussões sobre a Governança de associações esportivas na medida em que representaram, em última análise, mecanismos para reforçar a tutela do Governo sobre o esporte. A baixa autonomia conferida às entidades para decidirem sobre sua própria estruturação interna fica evidenciada nos artigos transcritos a seguir do Capítulo IX do Decreto-Lei nº 3.199/1941:

“Art. 48. A entidade desportiva exerce uma função de caráter patriótico. É proibido a organização e funcionamento de entidade desportiva, de que resulte lucro para os que nela empreguem capitais sob qualquer forma.

(…)

Art. 50. As funções de direção das entidades desportivas não poderão ser, de nenhum modo, remuneradas.

Art. 51. As diretorias das entidades desportivas serão compostas de brasileiros natos ou naturalizados; os seus conselhos deverão constituir-se de dois terços de brasileiros natos ou naturalizados pelo menos.

Parágrafo único. Poderá o Conselho Nacional de Desportos abrir exceção para o estrangeiro radicado no país, com relevantes serviços prestados à comunidade brasileira em geral ou aos desportos nacionais em particular.”

O paternalismo estatal e a subordinação das entidades esportivas ao Governo àquela época estavam também expressos nas formas previstas em Lei para intervenção e controle do poder público sobre as práticas esportivas, inclusive no que concerne a fiscalização da aplicação dos recursos financeiros das entidades esportivas, conforme corroborado pelos artigos 3º e 9º do mesmo Decreto:

“Art. 3º Compete precipuamente ao Conselho Nacional de Desportos:

a) estudar e promover medidas que tenham por objetivo assegurar uma conveniente e constante disciplina à organização e à administração das associações e demais entidades desportivas do país, bem como tornar os desportos, cada vez mais, um eficiente processo de educação física e espiritual da juventude e uma alta expressão da cultura e da energia nacionais;

b) incentivar, por todos os meios, o desenvolvimento do amadorismo, como prática de desportos educativa por excelência, e ao mesmo tempo exercer rigorosa vigilância sobre o profissionalismo, com o objetivo de mantê-lo dentro de princípios de estrita moralidade;

c) decidir quanto à participação de delegações dos desportos nacionais em jogos internacionais, ouvidas as competentes entidades de alta direção, e bem assim fiscalizar a constituição das mesmas;

d) estudar a situação das entidades desportivas existentes no país para o fim de opinar quanto às subvenções que lhes devam ser concedidas pelo Governo Federal, e ainda fiscalizar a aplicação dessas subvenções.

(…)

Art. 9º A administração de cada ramo desportivo, ou de cada grupo de ramos desportivos reunidos por conveniência de ordem técnica ou financeira, far-se-á, sob a alta superintendência do Conselho Nacional de Desportos, nos termos do presente decreto-lei, pelas confederações, federações, ligas e associações desportivas.”

Da mesma maneira, já na década de 1970, foi expresso de forma inequívoca nos artigos 8º, 17 e 18 da Lei 6.251/1975 o controle absoluto pretendido pelo poder público na gestão e financiamento do setor esportivo no país:

“Art. 8º O apoio financeiro da União somente será concedido a entidades que observarem as disposições desta Lei e de seu regulamento ou as normas expedidas por órgãos ou entidades competentes do Sistema Desportivo Nacional.”

(…)

Art. 17. Caberá ao Conselho Nacional de Desportos fixar os requisitos necessários à constituição, organização e funcionamento das confederações, federações, ligas e associações desportivas, ficando-Ihe reservado, ainda, aprovar os estatutos das confederações e federações e suas respectivas modificações.

Art. 18. Sob pena de nulidade, os estatutos das confederações, das federações e das ligas desportivas, obedecerão ao sistema de voto unitário na representação das filiadas em quaisquer reuniões dos seus poderes.

§ 1º O Conselho Nacional de Desportos padronizará o sistema de votação nos estatutos das confederações, federações e ligas desportivas.

§ 2º As confederações, federações e ligas desportivas terão, a partir da publicação do decreto de regulamentação desta lei, o prazo máximo, improrrogável, de 90 (noventa) dias para adaptarem os seus Estatutos ao presente artigo.”

Não obstante, ainda que de forma sucinta e pouco específica, os contornos a respeito de maior relevância na participação da iniciativa privada no esporte, em complemento ao incentivo estatal, passaram a ser delineados no artigo 4º dessa mesma Lei, segundo o qual: 

“Art. 4º Observadas as disposições legais, a organização para a prática dos desportos será livre à iniciativa privada, que merecerá o amparo técnico e financeiro dos Poderes Públicos.”

O que então pensava-se representar a modernização definitiva do arcabouço legal a respeito da Governança no esporte, entretanto, foi verificada apenas em 1993 por meio da promulgação da Lei Zico. Dentre outros aspectos de significativa relevância para a gestão dos clubes de futebol, instituiu-se, como anteriormente citado, a possibilidade do gerenciamento do esporte através de empresas, em contraposição ao modelo associativo sem fins lucrativos então, e até hoje, vigente:

 “Art. 11. É facultado às entidades de prática e às entidades federais de administração de modalidade profissional, manter a gestão de suas atividades sob a responsabilidade de sociedade com fins lucrativos, desde que adotada uma das seguintes formas:

 I – Transformar-se em sociedade comercial com finalidade desportiva;

 II – Constituir sociedade comercial com finalidade desportiva, controlando a maioria de seu capital com direito a voto;

 III – Contratar sociedade comercial para gerir suas atividades desportivas.

Parágrafo único. As entidades a que se refere este artigo não poderão utilizar seus bens patrimoniais, desportivos ou sociais para integralizar sua parcela de capital ou oferecê-los como garantia, salvo com a concordância da maioria absoluta na assembleia geral dos associados e na conformidade dos respectivos estatutos.”

Os debates jurídicos acerca da personalidade jurídica dos clubes de futebol incitados pela Lei Zico adquiriram ainda maior importância pela promulgação da obrigatoriamente dos clubes tornarem-se empresas disposta no texto original da Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998), de 1998:

“Art. 27. As atividades relacionadas a competições de atletas profissionais são privativas de:

I – Sociedades civis de fins econômicos;

II – Sociedades comerciais admitidas na legislação em vigor;

III – Entidades de prática desportiva que constituírem sociedade comercial para administração das atividades de que trata este artigo.

Parágrafo único. As entidades de que tratam os incisos I, II e III que infringirem qualquer dispositivo desta Lei terão suas atividades suspensas, enquanto perdurar a violação.”

A lógica havia sido portanto invertida: da proibição ao funcionamento de entidades esportivas direcionadas ao lucro, em 1941, à obrigatoriedade de sua constituição como sociedades com fins econômicos, em 1998, a legislação brasileira sobre Governança no esporte evoluiu como resposta às mudanças econômicas, políticas e sociais verificadas no período. Mas esse cenário durou pouco: em razão de controversas jurídicas acerca de sua constitucionalidade a alteração compulsória do modelo associativo estabelecida pela Lei Pelé foi posteriormente revogada, restaurando-se o cenário preconizado pela Lei Zico segundo o qual a conversão é opcional. Apesar disso o artigo da Lei Pelé que trata sobre esta matéria mantém no texto atualmente vigente de seu art. 27 a previsão legal de equiparação de clubes a empresas, particularmente no que concerne à responsabilização dos dirigentes esportivos prevista no Código Civil (Lei no 10.406/2002):

“Art. 27. As entidades de prática desportiva participantes de competições profissionais e as entidades de administração de desporto ou ligas em que se organizarem, independentemente da forma jurídica adotada, sujeitam os bens particulares de seus dirigentes ao disposto no art. 50 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002, além das sanções e responsabilidades previstas no caput do art. 1.017 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002, na hipótese de aplicarem créditos ou bens sociais da entidade desportiva em proveito próprio ou de terceiros.    

§ 11.  Os administradores de entidades desportivas profissionais respondem solidária e ilimitadamente pelos atos ilícitos praticados, de gestão temerária ou contrários ao previsto no contrato social ou estatuto, nos termos da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 – Código Civil.”    

Novas perspectivas – cuidado com o que deseja

A partir dessa contextualização histórica é possível compreender o panorama atual e os possíveis rumos para o nosso futebol a respeito das práticas de Governança Corporativa. Considerando-se que apenas a partir do início dos anos 1990, após quase um século do início da prática do futebol no país, os clubes passaram a dispor de autonomia legal para definirem sua forma de organização jurídica é de se esperar que seja longo e penoso o processo de ruptura com o cenário anterior de forte subordinação ao Estado e dependência de recursos públicos. Na medida em que se deparam com a possibilidade de abandonar o modelo associativo e buscar novas formas de financiamento de suas atividades, no entanto, as organizações automaticamente atraem para si maior compromisso com transparência, moralidade, impessoalidade, eficiência e outros temas inerentes a boas práticas de gestão. Seja para atender expectativas de parceiros comerciais, empregados ou órgãos dirigentes da indústria quanto ao uso consciente e efetivo dos instrumentos de Governança, ou mais especificamente para prestar contas a investidores ou acionistas, no caso daquelas constituídos como empresas, é ainda longo o caminho a ser percorrido pelas entidades esportivas na direção de um ambiente de plena confiança, credibilidade e ética nos negócios.

Apesar disso, no que pese o número ainda incipiente de clubes de futebol que formalmente constituíram-se como empresas no país, o notório aumento do nível de profissionalização verificado na última década na forma como nossos clubes e a própria CBF são geridos é indicativo da baixa tolerância do mercado em relação a práticas amadoras, antiéticas e pouco transparentes de gestão. Independentemente se em associações sem fins lucrativos ou em sociedades empresárias, anônimas ou limitadas, é crescente a percepção por parte de nossos dirigentes esportivos do dano ocasionado por irresponsabilidade e ineficiência administrativa e da forte relação causa-efeito existente entre as ações realizadas fora das quatro linhas com os resultados esportivos obtidos dentro delas.

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O Santos atual tem uma força que os livros não explicam

Meu interesse em estudar futebol sempre existiu. Mas se acentuou após a derrota catastrófica do Brasil para a Alemanha em 2014. Eu perdi de 7 a 1. Não foi só o time de Felipão. Eu como jornalista também fui derrotado. Ali no Mineirão todos que de um jeito ou de outro estão envolvidos nessa indústria futebolística brasileira tiveram um grande aviso de que o caminho traçado anteriormente deveria ser revisado.

Sei que o futebol é apaixonante por ter o seu caráter aleatório, imprevisível. Todo jogo por ser jogo carrega isso. Entretanto, por inúmeros fatores,só no futebol a ‘zebra’ aparece tantas vezes. Há inúmeros padrões que se repetem e que devem ser estudados, aprendidos e aprimorados, mas há alguns elementos que nem os mais estudiosos conseguem explicar. E isso vale não só para questões de dentro de campo como também para aspectos de gestão, governança e etc.

E o momento do Santos é um desses que a explicação lógica e racional não consegue embasar. O clube passa por uma situação delicada em sua política, com inúmeros problemas financeiros, banido pela FIFA de realizar novas contratações por não ter quitado dívidas recentes e mesmo assim os resultados dentro de campo são muito bons. A visão humana sobre o jogo nunca pode ser desconsiderada. Estamos tratando de seres humanos e cada um responde de uma maneira aos estímulos, sejam eles positivos ou negativos. E outra coisa que extrapola o entendimento técnico é a formação de grupo, nas suas mais poderosas entranhas, que faz também com que o todo seja maior do que a soma das partes. O atual momento do Santos é uma grande lição a todos que acreditam que só o estudo responde a todas as perguntas do jogo. 

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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A cultura engole a estratégia

Os jogadores serão sempre os atores principais nesse espetáculo chamado futebol. Eles tomam decisões em micro segundos. Eles abrem mão de prazeres momentâneos em nome de uma forma física cada vez mais exigente e necessária para a alta performance. Eles, profissionais e assalariados, comemoram quando marcam um gol – você abraça seus colegas de empresa quando faz algo bem feito? Pois é…

Porém, cada vez mais esses atletas são dependentes de outras pessoas. O sucesso de uma equipe dentro de campo é fruto, é produto, de tudo o que acontece em seu entorno. Massagistas, roupeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, enfim, cada célula do clube tem sua parcela de responsabilidade no resultado final. E diante disso será cada vez mais raro um clube “bagunçado” conquistar troféus.

No mundo corporativo usa-se muito o termo  ‘cultura organizacional’. Com tristeza, constato que não dá pra importar em cem por cento essa ideia para o futebol. Isso porque, principalmente aqui no Brasil, os clubes são estritamente políticos. Entretanto, quando há uma cultura, embalada por uma mentalidade, focada em vitória, em sucesso e em soluções, o trabalho dos jogadores dentro das quatro linhas fica facilitado.

E estou citando muito os atletas, mas tudo isso vale também para os treinadores. No caótico futebol brasileiro, o técnico de sucesso muitas vezes não é o que tem mais conhecimentos táticos e metodológicos. E sim aquele que entende mais rapidamente essa ‘cultura’ e sabe tirar o melhor da estrutura já existente. Um entendimento global do contexto e a habilidade em fazer todos caminharem para o mesmo lado pode dar um resultado mais rápido e eficaz do que grandes mudanças táticas.

O torcedor sempre tem seu olhar voltado para as quatro linhas, e é inegável que o mais apaixonante é o que acontece no campo. Mas para cobrar resultados vale uma visão mais global e sistêmica. Insisto que o jogador é a peça mais importante. Mas ele está inserido em uma engrenagem maior. Tem muita gente trabalhando para que um chute seja convertido em gol. Então, quando a bola entra o mérito não é só daquele protagonista. Para o inverso, quando a bola sai, o demérito também não de apemas uma pessoa. Por uma visão mais coletiva…podem jogar só onze. Mas tem muita gente envolvida nesse esporte tão incrível… 

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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A injusta demissão de Domenec no Flamengo

Que a fase do Flamengo não é das melhores está a vista de todos. Os números e o próprio desempenho escancaram isso – números, aqui, me refiro especificamente aos defensivos, em uma análise simples e quantitativa dos gols tomados e ao desempenho falo de uma análise mais qualitativa, envolvendo toda a complexidade do jogo, nos aspectos técnicos, táticos, físicos e emocionais.

É extremamente injusto e contraproducente comparar o Flamengo de Domenec Torrent com o de Jorge Jesus. Eu poderia fazer um texto enorme discorrendo sobre as diferenças de modelo de jogo, princípios e subprincípios ofensivos, defensivos e de transições, mas isso não é o que mais explica o atual momento do clube.

Domenec Torrent em ação pelo Flamengo. Crédito: Redes sociais do treinador/Divulgação

Na nossa cultura individualista de analisar o jogo o mais fácil é apontar que bastava Domenec dar sequência ao trabalho de Jesus que os resultados e performance seriam os mesmos. Porém se no futebol “antigo” isso até poderia funcionar já que diante de inúmeros talentos o bom técnico era aquele que menos atrapalhava, nos dias de hoje essa análise se torna rasa demais. O coletivo se sobressai mais do que nunca. E se estamos discutindo algo tão imprevisível, aleatório, complexo e humano como é o jogo de futebol, nunca podemos apontar um único problema e muito menos uma única solução.

Em um ano tão atípico, com o calendário cruelmente apertado e com casos de Covid explodindo em todos os elencos, a análise tem que ter um viés de complexidade ainda mais aguçado.Que tal se ao invés de falarmos sobre o Jogo de Posição não falássemos sobre relacionamento interpessoal entre Domenec e os jogadores? Ou então se no lugar de só constatarmos a defesa mais exposta não questionassemos se a fome e o espírito do grupo estão sendo tão estimulados como Jorge Jesus fazia? Ou até ampliarmos o debate para a liderança e a comunicação do ex-técnico flamenguista, se ela não gerava um impacto tão positivo como era com o treinador português? 

Que fique claro: sou um apaixonado por tática. Leio, estudo, vou atrás de tudo o que envolve essa vertente do jogo. Mas quanto mais estudo tática mais vejo que só ela não responde a todos os problemas.

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Buscar as causas dos problemas do futebol

Que um jogo de futebol reúne dentro das quatro linhas aspectos técnicos, táticos, físicos e emocionais, tudo junto e ao mesmo tempo, não é novidade. Um drible, por exemplo, necessita do gesto técnico em si, da parte física para ser complementado, da orientação tática para sabermos se é para frente ou para trás, e do aspecto mental na coragem de realizá-lo. Uma única ação envolve tudo isso. Em uma fração de segundos.

Entendendo toda essa indissociável complexidade, há momentos não só de uma partida, mas de uma equipe e também de um atleta em que uma das vertentes se sobrepõe a outra. Mas para deixar claro, mais uma vez: nunca é só “uma coisa”. Uma equipe não está “cansada” apenas pela parte física. Esse cansaço pode vir de problemas táticos, com conceitos mal treinados, que geram um gasto excessivo de energia no jogar do time.

Por tudo isso, e sempre partindo do princípio que o futebol é uma atividade humana, não podemos simplificar análises e reduzir conceitos. Citei exemplo de time, mas posso falar também do aspecto individual: um jogador, por exemplo, que é contratado a peso de ouro por um histórico de alta performance, mas que não repete as boas atuações. Ele desaprendeu? O físico não é mais o mesmo? Suas características não casam com o modelo de jogo da equipe? Ele está com algum problema pessoal? Pode ser um pouco de tudo. Entretanto observe que busquei um elemento de cada esfera para tentar fazer esse fictício diagnóstico: técnico, físico, tático e emocional.

O torcedor deseja sempre frases curtas e impactantes para resumir momentos no futebol. Contudo, uma análise que busque ser o mais fiel a realidade tem que ser ampla e complexa. Nunca é só uma coisa, em alto tão aleatório e previsível ao mesmo tempo, como o futebol.

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O Palmeiras pode mais

De 2015 para cá o Palmeiras vive uma era de títulos. São dois Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil e o recente Paulistão. O clube se fortaleceu e fincou os pés entre os melhores do país após o quase rebaixamento de 2014. Seria terrível cair três vezes em doze anos. Voltando as conquistas, chama a atenção que todos os troféus vieram com técnicos diferentes. E isso sinaliza muita coisa…

A falta de continuidade, as interrupções de trabalho, impedem o Palmeiras de ganhar ainda mais. E a aleatoriedade na escolha dos treinadores torna impossível identificarmos um ‘jeito Palmeiras’ de jogar, que seria fundamental para uma sequência avassaladora. O clube está forte. Tem uma lucrativa arena, um patrocinador robusto, um departamento de marketing perspicaz, dentre outras coisas. E muito das conquistas recentes vieram por conta dessa estrutura. Entretanto, a condução do futebol se mostra fraca quando vem as derrotas. Aí esse mesmo técnico que venceu é descartado. A cultura do futebol brasileiro no que tem de mais cruel esmaga uma estratégia e uma visão mais macro e a longo prazo.

Quando os dirigentes palmeirenses falam em buscar o DNA do clube, em trazer o que há de mais moderno e contemporâneo, soa como um discurso sem consistência. Até porque falar em DNA é sempre relativo: na gloriosa década de 90, Luxemburgo encantou a todos com um jeito de jogar e Felipão ganhou a Libertadores de outro. Como fica então o DNA? E a questão da modernidade foi rasgada quando o próprio Luxemburgo foi contratado no final do ano passado, já que ele mesmo prega que não há nada de novo no futebol atual. 

O Palmeiras se tornou forte como instituição e tem que arrastar isso pra parte de campo. Constantes trocas e perfis antagônicos de técnicos demonstram ausência de convicção. Pelo que é hoje fora de campo um ajuste como esse se torna crucial no Verdão.

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Tite evoluindo

É sempre relativo analisar a importância da seleção brasileira no cenário doméstico e internacional. Há quem defenda que o encanto de outrora já não existe mais. Os argumentos são os mais variados: os nossos craques não jogam aqui e só ‘pensam em dinheiro’, a qualidade do jogo não é mais a mesma, faz tempo que não ganhamos uma Copa do Mundo, estamos atrasados com relação ao que se faz na Europa e etc. Porém, sempre que a seleção joga eu me esforço para acompanhar. Penso ser importante procurar entender quais as ideias do treinador e como cada jogador convocado se comporta, já que para mim faz sentido o específico clichê que diz: jogar em clube é uma coisa e na seleção é outra.

Me apego aqui mais ao treinador, porque é o que tem me chamado a atenção. Já falei inúmeras vezes que Tite é o melhor técnico brasileiro. Com o conservadorismo da CBF é impensável  termos um profissional estrangeiro, portanto a permanência de Tite se mostra mais do que coerente. E é a evolução do ex-treinador do Corinthians que mais salta aos olhos. 

Tite é hoje o ponto intermediário entre os mais competentes treinadores do mundo e a mesmice de ideias que, de maneira geral, impera no Brasil. E a cada pequeno ‘ciclo’ de jogos é possível ver melhora na seleção brasileira. E falo aqui de conceitos, de ideias. Por exemplo, se na Copa do Mundo, há dois anos, a seleção insistia em uma saída de bola com a linha defensiva de quatro ‘sustentada’, hoje vemos uma saída de três, ou até mesmo com dois jogadores dependendo da marcação do adversário. Se o Brasil antes sofria ao perder a bola, já que sem uma compactação bem feita é impossível realizar um ‘perde-pressiona’ eficaz, hoje atacando com mais gente as linhas invariavelmente estão mais próximas e uma transição defensiva acontece de maneira natural.

Brasil x Bolívia pela primeira rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2020
Tite em ação na estreia da seleção nas eliminatórias. Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Não jogar contra as melhores seleções do mundo por conta do calendário é um problema gigante, mas de poucas, ou quase nenhuma, solução. O que está ao alcance de Tite ele está fazendo: aprimoramento tático, busca de conhecimentos do que se faz no mais alto nível e evolução profissional. E o que é mais difícil: com pouquíssimo tempo para treinar. Ao invés de criticar as circunstâncias que envolvem a seleção prefiro olhar para dentro de campo. E o que tenho visto tem me agradado cada vez mais. É garantia de vitória? Claro que não. Mas aumenta as probabilidades.

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Jogar bem é jogar bonito

A beleza na vida e no futebol é algo subjetivo. Depende do modelo de mundo de cada um. As experiências prévias, as influências, o contexto e uma serie de outras coisas condicionam a maneira com que enxergamos tudo. O que é belo para mim pode não ser para você. E vice-versa. 

Entendendo essa complexidade, simplifico o ‘jogar bonito’ do futebol para ‘jogar bem’. Não são exatamente sinônimos, mas cabe para o argumento que quero defender. Isso porque jogar bonito – por mais complexo e interpretativo que seja, repito – aproxima da vitória. A proposta pode ser tanto um jogo calcado na ocupação inteligente do espaço como por ter o controle da partida por meio da posse de bola. Mas qualquer ideia sendo bem executada tem sua beleza e tudo que é eficaz tem maior probabilidade de êxito. Um jogo supostamente ofensivo e sempre com maior posse de bola não basta para ser considerado nem bonito e nem eficiente. Faça bem o que se propõe a fazer e se aproximará da vitória. Dá trabalho. É difícil. Por isso nem todos conseguem.

As glórias mais marcantes do futebol brasileiro foram obtidas com o talento individual do jogador, tendo como base sempre o jogo ofensivo. Entretanto isso não anula uma marcação elaborada e uma transição rápida em direção ao gol adversário. Até porque o jogo é uma ‘coisa’ só. Não cabe mais nos dias de jogo compartimentar uma equipe em defesa, meio de campo e ataque.

A bipolarização entre jogar bonito e jogar para vencer trata-se de uma distorção colossal. Ter uma ideia clara e executá-la com excelência tem sua estética. E isso conduz ao resultado. Não é, nunca foi e nunca será excludente.

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A complexa problemática do Flamengo

A cultura futebolística no Brasil foi pautada sempre pela individualidade. No “futebol antigo”, jogadores se sobressaiam com mais facilidade, hoje, o coletivo prevalece mais do que nunca. Podemos ampliar essa visão sobre o conceito de coletivo, que é básico, já que o jogo se dá em onze contra onze, para questões de fora do campo também. Um clube tem que estar alinhado em seus mais variados setores, como financeiro, administrativo, político, jurídico, dentre outros, para que dentro de campo o sucesso esteja mais próximo. Com cada setor funcionando bem e de maneira integrada, as probabilidades de vitória aumentam.

Dentro dessa visão sistêmica e complexa, a figura do treinador é extremamente importante. É ele quem interliga tudo o que o clube gera e canaliza para as quatro linhas, trocar o técnico significa um rearranjo geral. Por isso o dilema do Flamengo hoje é cruel: como fazer Domenec Torrent alcançar os mesmos resultados do seu antecessor, Jorge Jesus?

Pessoas diferentes criam relações igualmente diferentes. Poderíamos aqui falar de princípios e sub-princípios ofensivos e defensivos, de comportamentos de transição e de bola parada, mas não é só a tática que marca a diferença entre o técnico espanhol e o português. A questão é de personalidade, de relacionamento, de comunicação, de liderança. Nesse sentido, é óbvio que a gestão do ambiente será diferente porque se tratam de pessoas diferentes. O simplista argumento de “era só dar sequência ao que vinha sendo feito” não cabe em nenhuma circunstância. Não falamos de um motor no qual se troca uma peça e o seu funcionamento segue o mesmo, ps próprios jogadores passam a interagir de maneira diferente pela “simples” troca no comando.

A direção do Flamengo tem que ser persistente na ideia, mostrar convicção e crença no treinador escolhido. Não prego a permanência de Domenec com fim nela mesmo, se vierem dez derrotas consecutivas não há como segurar, entendo isso, mas perseverar diante de dificuldades iniciais é mais do que necessário. Assumir um trabalho extremamente vitorioso traz inúmeros desafios, esse é o momento dos dirigentes entenderem isso e mostrarem que realmente o Flamengo pensa e age de maneira diferenciada.