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A indispensabilidade de advogado nos processos desportivos disciplinares

Muito se tem noticiado acerca de uma nova reforma no Código Brasileiro de Justiça Desportiva – CBJD e, tendo em vista tal situação, se pretende aqui trazer um ponto a debate: a (in)dispensabilidade de advogado nos processos desportivos disciplinares.

No ano em que a Constituição democrática completa duas décadas de existência, nos parece intrigante qualquer tentativa de negação das garantias individuais, notadamente as do devido processo legal em suas acepções formal e material.

Conquanto clara e inequívoca, a literalidade da lei das leis sofre atentados por meio de inferiores instrumentos cuja validade no ordenamento jurídico pode ser questionada desde o nascedouro.

No entanto, é essa a realidade que move a elaboração das reflexões seguintes que têm por objeto a análise da “(anti)juridicidade” das disposições contidas no CBJD sobre a defesa nos processos desportivos de competência dos tribunais de justiça desportiva.

Procuremos, de início, extrair a correta intelecção de seus dispositivos pertinentes à defesa, em particular, dos “defensores”, para depois, fazer a análise da juridicidade da disposição.

O Capítulo VI do Título II, do CBJD se dedica ao tema e assim dispõe:

Art. 29. Qualquer pessoa maior e capaz poderá funcionar como defensor, observados os impedimentos legais.

Art. 30. A declaração formalizada pela parte habilita o defensor a intervir no processo, até o final e em qualquer grau de jurisdição, podendo as entidades de administração do desporto e de prática desportiva credenciar defensores para atuar em seu favor, de seus dirigentes, atletas e outras pessoas que lhes forem subordinadas, salvo quando colidentes os interesses.

Parágrafo único – Ainda que não colidentes os interesses, é lícita a qualquer das pessoas mencionadas neste artigo a nomeação de outro defensor.

Art. 31. O menor de 18 (dezoito) anos que não tiver defensor será defendido por pessoa designada pelo presidente do órgão judicante.

Art. 32. Os presidentes do STJD e do TJD poderão nomear pessoas maiores e capazes para o exercício da função de defensor dativo.

A redação do artigo 29 encerra em si um paradoxo: qualquer pessoa maior e capaz pode ser um defensor, observados os impedimentos legais. Qual é o paradoxo? É que não é admissível o exercício de defensoria por pessoa que não seja advogado regulamente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil.

Conseqüentemente, os requisitos “maior e capaz” não são legítimos ou suficientes para autorizar o exercício de defesa, já que a advocacia é privativamente exercida por advogados, ex vi do art. 3º, da Lei 8.906/94. Assim, os impedimentos legais que ressalvariam o exercício da função de defensor nos processos desportivos disciplinares acabam por culminar no óbvio: somente um advogado pode desempenhar o papel de defensor, pois só o bacharel inscrito na OAB tem conhecimento jurídico e habilitação para exercer o munus da defesa.

Precipitadamente dir-se-ia que defensor e advogado têm significados diferentes e indicam exercício de funções também diferentes, o que retiraria a lógica do parágrafo anterior. Tal equívoco é facilmente eliminado ao se ter em mente a própria função do chamado defensor. Defensor é aquele que representa o acusado em processos nas mais variadas instâncias judiciais ou não e se vale do Direito para a defesa.

É inegável que o processo desportivo transcorre, a par dos demais processos administrativos, judiciais ou extrajudiciais em geral, por meio de atos concatenados cuja seqüência vem previamente estabelecida em regulamentos (leis ou atos infralegais) e o fato de estarmos tratando de direito desportivo não afasta a premissa da indispensabilidade do advogado, pois é ele que tem o conhecimento para compreender e interpretar juridicamente o procedimento.

Importante lembrar que a defesa não se resume a desconstituir os “fatos” ou “atos” sobre os quais versa o processo. A defesa, por ser inexoravelmente ampla como diz a Constituição, engloba a verificação da qualificação jurídica desses fatos e sua subsunção aos modelos teóricos previstos no regulamento; engloba a necessidade de comprovação por meios lícitos da prática infracional e fiscalização na produção de provas; engloba percuciente análise do contexto fático e as condições de culpabilidade e punibilidade; e diversos outros aspectos. Isso é o que se chama defesa técnica.

E a defesa técnica é igualmente abrangente nas mais variadas esferas. É justamente a amplitude da defesa que orienta os procedimentos em geral, daí a possibilidade/necessidade de oitiva de testemunhas; possibilidade/necessidade de realização de perícia (quando a matéria versar sobre área de conhecimento diversa da do Direito); possibilidade de interposição de recursos, etc. Vale dizer que há diversos papéis a serem desempenhados num processo, sendo cada um deles privativo.

Com o devido respeito, discordamos veementemente das opiniões em sentido contrário, segundo as quais uma pessoa que conheça muito bem as regras de um dado esporte e conheça leigamente o regulamento possa exercer “melhor” a defesa. Ninguém, em sã consciência, se submeteria a uma cirurgia a não ser que fosse realizada por um médico, por mais que uma outra pessoa possa demonstrar “conhecer” o corpo humano ou já ter assistido diversas cirurgias similares. Por que então se submeter a um processo cuja defesa não será patrocinada por um advogado?

Feitas essas ponderações, já é possível refutar a idéia de um “defensor” que não seja advogado. Mas, segundo também nos parece, o próprio CBJD dá conta de corroborar e encerrar polêmicas sobre a questão. É que o Título III trata do processo desportivo e logo nos primeiros dispositivos, a indispensabilidade do advogado exsurge cristalina:

TÍTULO III
DO PROCESSO DESPORTIVO

CAPÍTULO I
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 33. O processo desportivo, instrumento pelo qual os órgãos judicantes aplicam o direito desportivo aos casos concretos, será iniciado na forma prevista neste código e será desenvolvido por impulso oficial.

Art. 34. O processo desportivo observará os procedimentos sumário ou especial, regendo-se ambos pelas disposições que lhe são próprias e aplicando-se-lhe, obrigatoriamente, os princípios gerais de direito.

As comezinhas lições de Direito vertem-se no sentido de que o direito não é um mero conjunto de palavras aleatoriamente organizadas em artigos. O direito deve ser interpretado como um todo, sendo a literalidade da lei mero instrumento para o início de sua compreensão.

É assim que se deve entender o que dispõe o artigo 33 que inegavelmente menciona a aplicação do Direito desportivo. Com maior contundência, o artigo 34 dá o tiro de misericórdia na corrente doutrinária que defende a dispensabilidade do advogado, pois advertidamente determina de forma clara e precisa, a aplicação dos princípios gerais de direito.

Para a matéria em exame, podemos citar alguns dos mais importantes princípios gerais de direito: garantia de ampla defesa e contraditório, recorribilidade das decisões, presunção de inocência, devido processo legal, etc. E isso deveria bastar para que fossem cessadas as discussões acerca do tema.

Retomando os aspectos da defesa, já dissemos que a ampla defesa engloba diversos aspectos, incluindo a defesa técnica – essa que só pode ser exercida por advogado pelas razões já expostas.

Portanto, a redação atual do CBJD não possibilita interpretação diversa sobre a necessidade de advogado para o exercício da função de “defensor”, também pela obrigatória aplicação dos princípios gerais de direito, não obstante seja salutar uma proposta de alteração de seu texto para que tal exigência passe a constar de forma inequívoca a todos os olhos, inclusive leigos.

Nessa oportunidade, é anda importante mencionar que o Superior Tribunal de Justiça já consolidou entendimento sobre a necessidade da presença de advogado em processos disciplinares e editou a Súmula nº 343:

É obrigatória a presença de advogado em todas as fases do processo administrativo disciplinar. (TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 12.09.2007, DJ 21.09.2007 p. 334)

Tal súmula apresenta conteúdo superior ao que aparenta ter. Alguma celeuma foi posta, ao longo desses 20 anos de democracia, acerca do alcance da aplicação dos dispositivos constitucionais sobre ampla defesa, contraditório e devido processo legal, nos processos disciplinares e a dúvida se colocava da seguinte maneira: trata-se de um direito disponível do acusado?

Isto é, o acusado poderia dispensar sua defesa técnica, não obstante estivesse pacificado o entendimento de que o órgão processante tinha o dever de conceder tal oportunidade? Hoje, a resposta dada pelo Judiciário é não, pois mais que um direito do acusado, a defesa técnica (aquela que é realizada somente por advogados) é obrigatória e condição de legitimidade e validade do processo disciplinar.

Nos processos penais, isso “sempre vigorou”, pois, como todos sabem, todos os réus em processos versando sobre delitos penais são, não obstante a vontade do acusado, defendidos por advogados, ainda que dativos, isto é, nomeados pelo Estado e pagos às suas expensas.

A Súmula 343 inaugura, portanto, consolidação de entendimento no sentido da maior amplitude da defesa, tornando a presença do advogado obrigatória.

Em conclusão, entendemos que:

(i) embora desnecessária a reforma do CBJD no que se refere à presença de advogado para o exercício da defesa – eis que não se pode admitir defesa dissociada desses profissionais;

(ii) a alteração do diploma é salutar para:

(ii.i) que se encerrem interpretações equivocadas que desvirtuam o processo desportivo e o transformam em uma contrariedade ao ordenamento jurídico a ser desconstituída na justiça comum ou nas cortes arbitrais

(ii.ii) que os tribunais desportivos não se caracterizem como verdadeiros tribunais de exceção.

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Do ‘The Bangu Atlhetic Club´ ao Bangu Atlético Clube

Se hoje o Bangu Atlético Clube amarga a desprestigiada e desorganizada segunda divisão do campeonato carioca e luta contra crises financeiras e contra a má administração da FERJ, o “The Bangu Atlhetic Club”, assim mesmo, em inglês e com o “The” antes do nome, fundado em 1904, pelos diretores da Cia. Progresso Industrial, figura como um dos clubes de maior importância histórica para o desenvolvimento da prática do futebol no Rio de Janeiro. Esse valor histórico do clube no contexto do futebol nacional permite um estudo bem aprofundado. A escolha por um recorte temático de um clube específico e não de um processo ou localização geográfica, como é mais comum, se deve, exclusivamente, à importância histórica do clube.

Nada de títulos ou de uma torcida numerosa. O que o Bangu coleciona, ao longo dos seus mais de cem anos, são interessantes passagens e fatos históricos. Um claro exemplo de sua importância histórica é o fato de o Bangu ter sido o primeiro time a escalar um jogador negro em seu “scratch” logo no segundo ano de sua história. O jogador era Francisco Carregal, tecelão da fábrica.

A partida em questão foi disputada no campo da fábrica, em 14 de maio de 1905. É possível afirmar que esse foi o primeiro jogo do verdadeiro time do Bangu. Anteriormente o time tinha disputado jogos de última hora, com times arranjados também nesse tempo.

Em alguns desses jogos já figuravam brasileiros em campo, mas todos brancos. Mulato mesmo, só Francisco Carregal; em 1905, era o único mulato e brasileiro entre os onze. Todos os jogadores, sem exceção, eram funcionários ou diretores da fábrica de Bangu.

Em um país que contém figuras negras históricas no futebol – que dispensam apresentações – sem dúvida, esse é um fato que inscreve o Bangu como figura fundamental na construção histórica do futebol brasileiro. E o time da Cia. Progresso Industrial não parou por aí.

De fato, a democratização e a popularização tanto da prática quanto da diversão futebolística no Brasil se devem, e muito, ao Bangu. Não apenas por Francisco Carregal, mas, principalmente, pelo caráter popularizador que o clube foi tomando ao longo dos anos. Caráter esse adquirido ao longo dos anos ao inserir, dentro de um contexto nacional de construção histórica e popularização do futebol no Brasil, um novo grupo social ao futebol, quando passou a incluir os trabalhadores, brancos ou mulatos, geralmente de camadas sociais mais baixas, em seus times.

Vale destacar que, na época do surgimento do Bangu o futebol brasileiro era um esporte de predomínio inglês e que, somente aos poucos, passou a incluir os nativos no processo: compunha-se de brasileiros brancos e de uma elite quase tão prestigiada quanto à inglesa.

O início da história banguense não é muito diferente o clube foi fundado por diretores e funcionários estrangeiros da fábrica inglesa Cia. Progresso Industrial com o objetivo de criar um espaço de socialização entre os funcionários que, além do futebol, também praticavam o cricket, atividade sempre reservada aos estrangeiros. Os estrangeiros, nesse caso, eram portugueses e italianos presentes no grupo, embora a maioria fosse mesmo inglesa.

De fato, o futebol chamava atenção. De acordo com relatos de Mário Filho, vários operários, mulatos e brancos, ficavam do lado de fora do bonito gramado de Bangu pegando as bolas que caiam para fora e sonhando com o momento em que poderiam experimentar seus primeiros pontapés na pelota. A espera não foi tão grande como parecia.

Os diretores do clube viram-se obrigados a chamar diversos funcionários que não pertenciam à “elite” do futebol porque surgiu uma dificuldade em montar, dois times para um treino devido à quantidade, cada vez menor, de europeus na fábrica.

Essa dificuldade foi somada à questão da localização geográfica do bairro no qual a fábrica funcionava, longe da Zona Sul. Nessa região, era mais fácil encontrar sujeitos interessados. Além disso, havia a exigência primária de que os jogadores do clube deveriam ser funcionários da fábrica. Ou seja, os diretores passaram a buscar brasileiros que se destacavam tanto na produção fabril quanto na habilidade com a bola nos pés para completar o time.

Logo se via que não era necessário ter posses ou menos melanina para ser um bom ” player”. Não viam mal nenhum em um operário jogar bola, desde que, na segunda-feira, logo cedo, ele continuasse a trabalhar. Nesses tempos primórdios do futebol no Brasil, o operário não era promovido por jogar bola, e nem tinha regalias, conquistava-as se fosse um bom operário.

Importante fazer uma ressalva. O Bangu não se tornou, mesmo com a popularização feita por ele próprio, um clube exclusivo de pobres operários. Ele tinha os mestres da fábrica como jogadores, mais ingleses do que nunca. Seu diferencial em relação aos clubes da elite como Botafogo, Fluminense e América, como ressalta Mário Filho, era a presença do “o operário”.

O Bangu, clube de fábrica, botava operários no time em pé de igualdade com os mestres ingleses. O Botafogo e o Fluminense se restringiam à elite. Foi a primeira distinção que se fez entre clube grande e clube pequeno um era o clube dos grandes, o outro dos pequenos [1].

Tal distinção, que permaneceria por muito tempo, gerou diversas confusões e talvez os primeiros registros de brigas entre torcidas no Brasil. Continuando com Mário Filho “no fundo, luta de classe sem ninguém se dar por isso, é claro [2].

No início do século XX, a diretoria da Cia. contribuía com uniformes, bolas e o campo, que já era orgulho entre os moradores do bairro. Com o tempo, o Bangu começava a ficar famoso no futebol brasileiro. A “footballmania” começava a tomar conta do Rio de Janeiro.

O time disputava campeonatos contra os grandes da Zona Sul Fluminense, Botafogo e América, e realizava excursões. O resultado é que o clube ficou mais famoso que a fábrica e deu uma maior atenção ao futebol. A fábrica começou, então, dar mais tempo, dinheiro e espaço para a prática do esporte.

A relação do trabalhador-jogador com a diretoria do clube e da fábrica também se modificou com a crescente importância do futebol para Bangu. Os craques do time eram impreterivelmente protegidos na fábrica, cuidava-se para que tudo fosse certo para esse ou aquele jogador. Em hipótese alguma, para jogar, o jogador deixava de trabalhar.

A condição imprescindível para jogar no Bangu era ser trabalhador da Cia. Progresso Industrial e em tempos de amadorismo o sujeito recebia apenas como funcionário da fábrica. Privilégios que os craques-operários recebiam era o de trabalhar na sala de pano, trabalho leve e menos prejudicial à saúde, diferente da sala de tintas, por exemplo.

Em raros casos, alguns jogadores saíam da produção para trabalhar nos escritórios. Há relatos de proteção a funcionários incompetentes, mas que garantiam seus empregos acertando o gol adversário ou marcando com vigor o center-half do time adversário.

O crescimento do clube foi notório. Além de campo e uniformes, a Cia. Progresso Industrial passou a oferecer uma cota de dinheiro mensal ao clube para a compra de uniformes e para o transporte, ou seja, pretendia-se promover a consolidação de uma sede social. Interessava à fábrica que o clube investisse na área social para seus trabalhadores.

Um exemplo claro disso é uma análise do distintivo do Bangu, que traz as cores vermelha e branca, e as três iniciais do nome do clube B, A e C. Entretanto, não são meramente letras sem nenhum significado. Além do nome do clube, cada uma envolve um desenho que diz respeito à ideologia do clube. Eis a explicação: “O “B” significa um pincenê, espécie de monóculos muito usado no século XX, e que representa o lado “intelectual” do clube.

O “A” é um suporte para pintura de telas, mostrando uma vocação para o lado cultural e o “C” representa uma ferradura, desejando sorte nas atividades esportivas [3].

A dinâmica cultural em Bangu era essa: os operários-jogadores, na maioria trabalhando na sala do pano, recebiam um ticket para ir treinar e não perderem a hora de trabalho. Iam para o esverdeado gramado inglês da fábrica, esperavam pelo demais trabalhadores que não tinham obtido ainda o privilégio da sala do pano e jogavam.

As crianças do bairro já se inspiravam nos jogadores e davam seus primeiros pontapés. Sabiam que se fossem bons jogadores, teriam a garantia de um bom emprego na fábrica. Trabalhar e ainda ter vaga no time? Era o futuro que a maioria traçava e para isso passavam horas jogando bola em frente ao largo da igreja do bairro com bolas de meia e, nas raras e prestigiadas vezes, com bolas de pneu.

Assim acontecia uma espécie de “divisão de base” do Bangu pois só assim eles poderiam continuar contando com um time de trabalhadores da fábrica, com gente que queria justamente isso. Era um casamento perfeito, a diretoria queria jogadores que quisessem trabalhar nas fábricas, e os moleques peladeiros queriam jogar para trabalhar na mesma fábrica. Importante destaque é o fato que o que era objeto de desejo das crianças não era uma carreira como jogador banguense e sim como trabalhador fabril.

Uma importante distinção a se fazer é clube de fábrica e clube da fábrica. O Bangu era um clube da fábrica, um prolongamento da Cia. Progresso Industrial fantasiado de time de futebol. O campo, a sede, toda a estrutura pertencia à fábrica e não a uma instituição independente chamada Bangu Atlético Clube, pois “não se sabia onde acabava a fábrica, onde começava o clube [4].

Usufruindo do jargão moderno e pouco reflexivo de que futebol é resultado e nada mais, cabe falar dos resultados obtidos pelo Bangu nos campeonatos cariocas da era amadora. No primeiro campeonato carioca, disputado em 1906 e vencido pelo Fluminense, o Bangu ficou com apenas um 5° lugar entre seis times. Depois de algumas campanhas fracassadas, o Bangu viria a fazer sua primeira campanha de destaque em 1916, com um vice-campeonato, perdendo apenas para o tradicional América. Na década de 20 o Bangu alcançou no máximo um quarto lugar.

Posteriormente, em 1932, último ano antes da profissionalização, o Bangu alcançou um 3° lugar. Durante essas três primeiras décadas de futebol, o Bangu ganhou uma certa fama de “ganha, mas não leva”. Tal fato talvez fosse justificado com um relato de Mário Filho que diz que quando o Bangu jogava fora de casa passava por uma grande dificuldade pois tinha jogadores negros e eles não se atreviam a entrar com raça e força nas divididas e truncadas com os brancos da elite do Fluminense, do Botafogo, caso contrário era confusão com a torcida e com os jogadores.

E assim, os negros, mulatos e até os mais pobres operários não desempenhavam seu melhor papel quando jogavam nos campos da Rua Guanabara, ou de General Severiano. Ainda nos escritos de Mário Filho vemos que quando o jogo era em Bangu a história era diferente e o jogo transcorria com suas atividades normais, até exageradas por partes dos mulatos, já que poucos torcedores da Zona Sul se arriscavam para assistir a um jogo em Bangu.

Somente em 1933, o Bangu conquistou o primeiro de dois títulos cariocas que possui e foi no primeiro campeonato carioca profissional da História, o que leva o Bangu a se vangloriar por ser o primeiro campeão de futebol profissional do país. A profissionalização do futebol no Bangu foi, de certa forma, tranqüila. O apoio dos patrões da fábrica facilitou o processo, pois eles acreditavam que para montarem melhores times, era preciso valorizar o chamado “capital esportivo”.

Começou-se a oferecer remunerações, sob forma de agrados, presentes e “bichos”. Tal processo tirou de campo, aos poucos, o operário que se satisfazia ao jogar por diversão. Estes passaram a desejar, então, uma carreira profissional no esporte. Há alguns casos de ex-operários que fizeram, com louvor, testes em outros clubes grandes do Rio de Janeiro.

Por fim, cabe questionar um pouco do porquê de grande parte processo descrito de popularização e democratização do futebol brasileiro foi realizar-se em um bairro afastado no Rio de Janeiro e em uma fábrica de tecidos que resolveu montar um clube de futebol. Waldenir Caldas aponta a localização geográfica como fator fundamental para tal fenômeno.

A já dita necessidade de se completar o time e os operários passando a jogar seria a justificativa. Há ainda a hipótese levantada por Anatol Rosenfeld que diz que o lazer era estimulado pela fábrica através do futebol e o clube, para assim aumentar a qualidade de trabalho e a produção da fábrica. Caldas refuta a idéia de Rosenfeld argumentando que se a possibilidade fosse verdade não se teria: só um número reduzidíssimo de operários começando a praticar o futebol, uma vez que o objetivo maior era o aumento da produção.

Ao contrário, neste caso, esse lazer deveria estar ao alcance de todos os trabalhadores. E, como sabemos, não foi isto o que aconteceu. Além disso, os ingleses teriam a sua escolha, diversas outras modalidades esportivas, não precisando escolher justamente o futebol, um esporte caro e altamente elitizado naquela época [5].

Caldas esquece-se, porém, que o Bangu não se restringia a um clube de futebol, mas era sim um clube social, como apresentado nesse artigo e que se preocupava com diversos setores sociais dos trabalhadores da fábrica, o que torna a idéia de Rosenfeld de certa forma plausível. Dessa forma a democratização do futebol teve seu início no Brasil ali, por diversos fatores que não necessariamente tinha esse objetivo, fatores internos como a política da fábrica e externos como a “footballmania”, que tomou conta do Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX.

[1] FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. 4ª edição, p. 43
[2] Idem.
[3] Site: www.bangu.net.
[4] FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. 4ª edição, p. 43.
[5] CALDAS, Waldenyr. O Pontapé Inicial – Memória do Futebol Brasileiro. IBRASA, São Paulo, 1990.

* Thales Machado é graduando em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro do CEPIF (Centro de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares do Futebol). Estuda e pesquisa a história do futebol no Rio de Janeiro. Contato: thalescmachado@gmail.com

Bibliografia

ANTUNES, Fátima Martins Rodrigues Ferreira. O Futebol nas Fábricas – In: Revista USP n° 22 – Dossiê Futebol
CALDAS, Waldenyr. O Pontapé inicial – Memória do Futebol brasileiro – IBRASA, São Paulo 1990.
FILHO, Mário. O Negro no futebol brasileiro. 4ª edição. Rio de Janeiro – Mauad , 2006.
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro – 1902/1938 – Rio de Janeiro – Nova Fronteira, 2000.

Sites na internet

Bangu.net – www.bangu.net
The Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation. – www.rsssf.com

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Caso Leandro Amaral

A notícia que tivemos nesta quinta a respeito do caso envolvendo o atleta profissional de futebol Leandro Amaral e o Vasco da Gama pode criar importante precedente no Brasil.
 
O juiz da 33ª Vara Cível do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-RJ) julgou improcedente a ação proposta pelo jogador em face do clube de São Januário, em que era pleiteada a rescisão do respectivo contrato de trabalho.
 
Em síntese, o atleta assinou contrato de trabalho com o clube por um ano, o qual poderia ser prorrogado por igual período a exclusivo critério do Vasco. Ao final desse primeiro ano, o atleta pretendia trocar de clube, ao passo que o Vasco exerceu o seu direito de renovação do contrato.
 
Resultado: o atleta recorreu à Justiça Comum, e obteve antecipação de tutela para ser transferido livremente a qualquer outro clube. E, de fato, assinou contrato com o Fluminense, onde jogou e treinou até a última quarta-feira.
 
Para sua surpresa, após trâmite regular do processo em primeira instância, o juiz entendeu por bem não ratificar a decisão anteriormente tomada, indeferindo o pedido de Leandro Amaral.
 
O que ocorre é que Leandro Amaral terá que se entender imediatamente com os dirigentes do Vasco uma vez que, mesmo que recorra da decisão, não haverá efeito suspensivo da decisão recém proferida. Para todos os efeitos, o atleta é hoje jogador do Vasco.
 
Resta agora acompanhar o caso, para saber quais foram os argumentos utilizados na sentença, que podem ser importantes na consolidação de jurisprudência sobre o tema.
 
Confusão no FUTSAL
 
Esta semana, também tivemos uma notícia bastante controvertida no mundo do Futsal no Brasil.
 
A Procuradoria do STJD/CBFS ofereceu denúncia, por requerimento da própria CBFS (Confederação Brasileira de Futsal), contra o atleta Falcão, os clubes SC Corínthians Paulista e Malwee/Jaraguá, bem como a Federação Paulista de Futsal.
 
Motivo? O atleta Falcão participou de jogo amistoso e comemorativo entre Corinthians e o clube argentino Pinocho em prol da campanha “FUTSAL – Um Sonho Olímpico”, que visa incluir o futsal no programa dos jogos olímpicos do COI.

Só que Falcão, que é atleta da Malwee, atuou pelo Corinthians, que foi seu clube formador, com o exclusivo intuito de promover o esporte e trazer maior atenção de torcedores e mídia em torno da festa.
 
CBFS e a Procuradoria entendem que, para a participação de um jogador nessas condições, ainda que em um jogo amistoso, somente pode ser realizada mediante a transferência interestadual de atletas perante as federações estaduais competentes.
 
Ou seja, a Malwee/Jaraguá deveria ter entrado com a documentação de transferência de Falcão ao Corinthians que, após a partida, deveria promover nova transferência do atleta de volta ao clube catarinense!!!
 
Nem a Federação Paulista escapou da denúncia, o que torna a medida ainda mais inusitada.
 
Isso porque o jogo foi idealizado com o único propósito de promover o esporte internacionalmente e incluí-lo nas próximas edições dos jogos olímpicos (o que traria um aumento incalculável de receita à própria CBFS).
 
Dá pra entender?
 

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Tendão patelar: lesões e diagnóstico por imagem

O tendão patelar é a estrutura do joelho que liga a patela à tíbia. Faz parte do que é chamado mecanismo extensor do joelho, juntamente com o músculo anterior da coxa (quadríceps) e seu tendão e a própria patela. Com a contração do quadríceps, e com a integridade de todas essas estruturas, ocorre a extensão da perna.

O tendão patelar, que também pode ser chamado de ligamento patelar (ou ligamento da patela, que é o nome atual aceito pelos anatomistas) é local relativamente comum de lesões em atletas. Os esportes mais relacionados às lesões do tendão patelar são aqueles que geralmente envolvem saltos, como voleibol, basquetebol e algumas modalidades do atletismo.

Devido a isso, a lesão do tendão patelar por trauma repetitivo recebeu o nome genérico de “joelho do saltador” (ou jumper´s knee, em inglês). Mas essas lesões não são exclusividade desses esportes e ocorrem também em outras atividades, como corrida, futebol e tênis.

As lesões do tendão patelar fazem parte de um grupo maior de doenças que causam o que os ortopedistas chamam de “dor anterior do joelho”. Dessa forma, o atendimento médico visa ao diagnóstico clínico da doença específica responsável pela dor do esportista.

Basicamente, as lesões do tendão patelar são as tendinopatias (“tendinites”), com fases diferentes de gravidade, as rupturas parciais e as rupturas totais.

Tendinopatias leves, ou iniciais, podem causar um discreto espessamento do tendão e alteração de sua textura. Na medida em que a doença progride, o espessamento e a alteração da substância do tendão aumentam, e surgem alterações degenerativas (tendinose) acompanhadas ou não de calcificações.

Geralmente as lesões ocorrem na porção proximal do tendão, ou seja, logo abaixo da sua origem na patela. Nas fases mais avançadas dessa doença, surgem rupturas parciais no interior do tendão, que juntamente com as alterações teciduais, enfraquecem-no.

Nessa fase o tendão lesionado já não possui a mesma resistência física (mecânica) que um tendão saudável. A maior complicação que pode ocorrer nesta lesão é a ruptura completa do tendão. Nesta situação há descontinuidade total das fibras e a ligação entre a patela e a tíbia se perde e o mecanismo extensor perde a sua função.

Os exames de imagem são excelentes para auxiliar os médicos no diagnóstico diferencial da dor anterior do joelho, especialmente as lesões do tendão patelar. Radiografias podem ter alguma utilidade no diagnóstico nas lesões do tendão patelar se demonstrarem calcificações ou espessamento na sua região e, nos casos de ruptura completa, se demonstrarem a patela deslocada superiormente, com ou sem fratura do seu pólo inferior.

Inegavelmente são a ultra-sonografia (US) e a ressonância magnética (RM) os dois métodos mais indicados para a avaliação desses atletas. Ambas podem detectar um espessamento heterogêneo do tendão, com ou sem focos de rupturas parciais.

Pessoalmente, acho que a RM é superior à US na distinção entre áreas de degeneração e pequenas rupturas no interior de um tendão muito alterado e na avaliação da extensão de rupturas parciais. Ambos os métodos são excelentes para fazer um acompanhamento evolutivo da lesão. O fato de o tendão ser superficial e grande facilita a sua avaliação pela US. Ainda assim, a RM é um exame mais completo. E isso se justifica na capacidade que a RM tem de avaliar a articulação do joelho como um todo.

Além de estudar muito bem o tendão patelar, a RM avalia outras estruturas que podem apresentar lesão, provendo informações para o diagnóstico diferencial. Afinal, como mencionado anteriormente, há outras doenças ou lesões que podem simular os sintomas do tendão patelar, como condromalácia patelar, inflamação da gordura infra-patelar (de Hoffa), doença de Osgood-Schlatter, bursites e osteoartrose patelo-femural.

Ao receber um relatório de RM, o médico do atleta terá muitas informações para completar o diagnóstico clínico e iniciar o tratamento específico. E se a lesão já for conhecida, com um exame de controle, ele saberá como está a sua evolução, e poderá orientar o atleta de forma prevenir (ou pelo menos tentar) que a lesão progrida como, por exemplo, para uma ruptura total.

Concluindo, a RM é uma excelente ferramenta a serviço da medicina esportiva para o diagnóstico inicial de doenças do joelho, especialmente a lesão do tendão patelar, porque permitirá diagnosticá-la, graduá-la e diferenciá-la de outras alterações. Ao fazer o acompanhamento da lesão, fornecerá informações úteis para a prevenção de complicações.

Dr. Milton Miszputen, radiologista músculo-esquelético – radiologia@milton.com.br – www.milton.com.br/esporte

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Para ensinar, é necessário saber como se aprende

Nos artigos anteriores, desenvolvemos o conceito de capacidades táticas e dos principais fatores e ciências pertinentes ao processo de desenvolvimento das mesmas. Uma dessas áreas de conhecimento, fundamental no processo de elaboração e execução de treinamentos, não só das capacidades táticas, mas do treinamento esportivo em geral, é a “psicologia da educação”.

Cabe ressaltar que a psicologia da educação não se refere, como muitos poderiam pensar, somente a aspectos de motivação ou problemas comumente chamados na linguagem popular de “psicológicos”, mas sim de princípios desenvolvidos através de pesquisas relativas ao processo de ensino-aprendizagem.

Um treinador é um educador mesmo quando treina equipes profissionais adultas. Quando nos referimos a categorias de base, o papel como educador aumenta ainda mais. Assim como um educador, um treinador não pode somente conhecer o assunto que pretende ensinar, mas precisa, entre outras coisas, de uma metodologia compatível com os alunos-atletas com os quais está trabalhando. Ou seja: precisa conhecer o processo de ensino-aprendizagem.

Em outras palavras, necessita saber como se aprende para poder desenvolver sua metodologia de ensino, adaptando a mesma ao grupo e às necessidades individuais dos jogadores com os quais trabalha. Por exemplo: um professor americano tem sua avaliação feita por um órgão chamado INTASC (em inglês: Coverage of Interstate New Teacher Assessment and Support Consortium) baseada nos seguintes aspectos (Slavin, 2006):

1 – Conhecimento do assunto,
2 – Conhecimento do desenvolvimento humano e aprendizagem,
3 – Adaptação da instrução para necessidades especiais,
4 – Diferentes estratégias de instrução,
5 – Motivação e organização,
6 – Técnicas de comunicação,
7 – Técnicas de planejamento de instrução,
8 – Avaliação da aprendizagem,
9 – Responsabilidade profissional,
10 – Parcerias.

É interessante notar que todos estes itens são pertinentes ao trabalho de um treinador, e que o conhecimento sobre o assunto a ser ensinado, que normalmente é o único fator a ser considerado pelos treinadores “espertos em futebol”, é apenas o primeiro dos dez itens.

Alem disso, imaginamos que muitos leitores poderão achar “um exagero” tudo isso, já que estamos falando somente de um assunto mais simples, “ensinar futebol”.

Mas será que todos esses fatores não são importantes e estão envolvidos? Será que simplesmente muitas vezes não se tem conhecimento suficiente destas áreas e por isso é mais fácil pensar “eles vão aprender o que eu vou ensinar”, quando na verdade nem tudo que é ensinado será aprendido, e que o conhecimento sobre o processo de ensino-aprendizagem pode aumentar consideravelmente o grau de aprendizagem dos alunos-atletas (ou mesmo dos jogadores profissionais de futebol)?

Por isso os conhecimentos da educação devem ser aplicados no ensino do futebol. A educação vem sendo estudada e desenvolvida há milhares de anos, e no século passado centenas de pesquisas foram realizadas e cientificamente testadas de forma a oferecerem aos professores uma sólida base no auxilio de um ensino eficaz.

Da mesma forma, um treinador deve conhecer pelo menos uma base destes princípios, para que os seus conhecimentos sobre o esporte e as ciências relativas ao treinamento esportivo possam ser em grande parte assimilados pelos seus alunos-atletas (é quase uma utopia achar que tudo o que for ensinado será prontamente aprendido).

Queremos deixar claro que não menosprezamos o conhecimento sobre o assunto a ser ensinado, a experiência empírica, a opinião de “especialistas” sobre o assunto e a tradição (Mills, 2006, p. 6); mas ressaltamos a importância da pesquisa cientifica e do conhecimento das diversas ciências envolvidas com o treinamento esportivo, para potencializar as nossas capacidades como professor-educador.

Ilustraremos o artigo com um exemplo de um destes princípios, baseado em nossa experiência, para deixá-lo mais prático.

“Os alunos devem saber onde estão e para onde vão”.

Como muitos treinadores, cometíamos o erro de iniciar o treino e passar o exercício, sem explicar o porquê e quais eram os objetivos. Gostávamos de deixar a surpresa no ar sobre como seria o treinamento, e considerávamos correta a nossa conduta justificando com o fato de que procurávamos relacionar os exercícios, desde o aquecimento, com os objetivos principais da sessão ou período de treinamento.

No entanto, pesquisas comprovam que alunos aprendem mais, quando sabem desde o inicio o que vão fazer, os motivos pelos quais devem realizar tais tarefas e quais serão os objetivos. (Slavin, 2006)

Terminamos ressaltando que respeitamos o conhecimento técnico de cada treinador, e que sabemos que é possível ensinar, ganhar títulos e obter sucesso mesmo sem o conhecimento das ciências ligadas ao processo de ensino-aprendizagem.

Mas, será que não seria interessante pelo menos levar em consideração e refletir sobre o que milhares de pesquisas têm mostrado através dos anos; e sobre o que as ciências do esporte e da aprendizagem têm a nos dizer?

Bibliografia

SLAVIN, Robert E. (2006) Education Psychology: Theory and Practice
GAY, L.R., Mills, G.E. & AIRASIAN, P. (2006) Educational Research: Competencies for Analysis and Applications (8th ed.)

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O uso do lactato para o desempenho físico

Olá, caros leitores e leitoras. Sejam todos novamente bem-vindos!

Bem, em nossos últimos artigos, defendemos fortemente a explicitamos a existência do lactato em nosso organismosistema biológico, e não do ácido lático. Além disso, evidenciamos a viabilidade fisiológica de uma elevada produção deste pela célula muscular em contração intensa, refletindo uma elevada capacidade de funcionamento da via glicolítica anaeróbica, grande responsável pela energética produtora de energia em exercícios com esse caráter, além de auxiliar no tamponamento da célula muscular quando do seu transporte para a corrente sanguínea.

Bom, mas, parafraseando o título desse manuscrito, o que fazer com o lactato depois de termos valorizado tanto a sua produção? Bem, prezados amigos e amigas, continuaremos seguindo a mesma premissa: valorizando-o!

O lactato, por ser um composto formado por carbono, oxigênio e hidrogênio, pode, depois de formado, ser utilizado para proporcionar “vida” às células que o utilizarem. Essa “vida” pode ser traduzida, biologicamente, em ATP e glicose. De fato, a molécula de lactato (C3H5O3), é quase a metade da molécula de glicose (C6H12O6)! Vamos aos fatos.

Uma vez formado pela via glicolítica muscular a partir da glicose (daí sua semalhança com ela!), o lactato pode assumir alguns destinos. Começaremos pelo destino intracelular, ou seja, o lactato produzido tem um “endereço” no interior da própria célula que o gerou.

Uma vez produzido no citosol celularda célula, o lactato pode encontrar um “portão” em organelas doidas para produzirem ATP dentro da célula: as mitocôndrias. O “portão” mitocondrial é um MCT (transportador discutido em nosso último artigo); no caso da mitocôndria, esses são os MCT1, que eficientemente transportam o lactato para dentro da mitocôndria. Uma vez convidado a participar da festa mitocondrial de produção de ATP, o lactato transforma-se em energia útil para a própria célula que o produziu, auxiliando a mesma no pagamento da sua “conta” metabólica durante o processo contrátil. Lógico, eficiente e rentável esse destino para o nosso polivalente lactato, caros leitores!

Por outro lado, o lactato produzido intracelularmente pode ser exteriorizado da célula muscular, novamente às custas dos MCTs. Nesse caso, os MCT4 são os maiores responsáveis por este transporte. Uma vez na corrente sanguínea, o lactato tem, basicamente, três destinos.

Um deles, de forma semelhante àquele que foi discutido acima, é a utilização do lactato por outras células musculares, mais especificamente nas suas mitocôndrias. Objetivo: produção de ATP !!! E mais auxílio para o débito metabólico da contração muscular!!!

Outro destino do lactato, que ganhou a corrente sanguínea, é atingir o fígado. Nesse órgão existem, assim como nos músculos-esqueléticos e nas mitocôndrias, MCTs, mais especificamente os MCT1. Uma vez convidado a entrar nas células hepáticas, nosso polivalente lactato dá origem a mais uma molécula de suma importância para a vida: a glicose, em um processo bioquímico denominado gliconeogênese. Esse processo (que pode ser resumido para fins didáticos como o caminho no sentido oposto ao da via glicolítica, que transforma lactato a partir de glicose) é muito importante, considerando o papel “filantrópico” desempenhado pelo nosso fígado: cuidar da manutenção da glicemia, nutrindo as células do nosso organismo com glicose, principalmente aquelas do sistema nervoso central e as hemáceas. OE até o próprio músculo-esquelético pode ser beneficiado por esta glicose “extra” produzida pelo bom e velho fígado.

Aliás, essa parece ser uma das grandesbelas adaptações causadas pelo exercício físico sistematizado e regular. Agora, imaginem caros amigos, o quanto essa adaptação pode beneficiar nossos futebolistas, que tanto precisam de energia para manter contrações musculares sucessivas ao longo de 90 minutos de disputa.

Ainda outro destino do lactato sanguíneo é beneficiar o músculo-cardíaco com sua polivalência. As células cardíacas são dotadas de transportadores tipo MCT1 e também são bastante “interessadas” na utilização de metabólitos que estejam “passeando” pela corrente sanguínea para transformá-los em ATP, dentro de suas benditas mitocôndrias, tendo em vista que a demanda metabólica deste tecido, até por questões de sobrevivência, é muito alta.

Tendo esse panorama em mente, fica aqui a idéia de que, além de ser formidável para o músculo-esquelético conseguir produzir cada vez mais e mais lactato, a sua utilização tem um viés absolutamente pró-desempenho, pois auxilia diversos tipos de células com “mantimentos” valiosos: ATP e glicose. Com vossa licença, leitores e leitoras: VIVA O LACTATO!!! (mais uma vez…)

Em suma, fica a sensação de que esse tal lactato combina muito com o futebol, tendo em vista que é reflexo de um músculo potente e resistente, além de auxiliar o sistema orgânico como um todo a responder eficientemente ao estresse imposto pelo jogo.

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Formação da motivação e a preparação volitiva

Uma das maiores dificuldades da preparação psicológica é manter a motivação dos atletas para se aperfeiçoarem constantemente. Nos últimos anos esse problema tem se manifestado especialmente devido ao grande número de cargas de treinamento e de competição, resultando em tensões psicológicas e físicas.

No início dos treinamentos não há muita carga de trabalho, mas um número elevado de materiais novos e interessantes, que fazem com que o atleta evolua de uma sessão para outra. Tudo isso facilita manter entre os atletas jovens um interesse natural pelos treinos. Posteriormente, devido ao aumento do volume de cargas e uma determinada estabilização, assim como, às vezes, a falta de melhores resultados, muitos atletas não conseguem se manter motivados.

Algumas medidas podem ser tomadas para resolver tal problema.

Em primeiro lugar, o treinador deve tentar assegurar uma organização e um conteúdo do processo de treinamento que permitam ao atleta alcançar alguns objetivos relacionados ao aperfeiçoamento. Posteriormente é necessário orientar constantemente o atleta em relação à necessidade de trabalhar ativamente os componentes mais finos da preparação e superar as dificuldades em contínuo crescimento durante a assimilação de cargas cada vez maiores. Ao mesmo tempo, deve-se controlar o estresse emocional e físico ao qual é submetido o atleta na atividade competitiva e de treinamento, de acordo com suas possibilidades fisiológicas e psíquicas e com seus recursos funcionais (CRETTI, 1978).

É importante frisar que a motivação do atleta está diretamente relacionada com todo o complexo dos componentes do sistema moderno de preparação: a organização e base material-técnica, a eficácia em relação à preparação técnico-tática, física e psicológica, o sistema de prevenção de acidentes e enfermidades e seu tratamento, entre outros. E é inevitável que as falhas de qualquer um dos componentes do sistema de preparação citados reflitam negativamente no nível de motivação do atleta.

O aspecto mais importante da preparação psicológica é garantir um alto nível de atividade do atleta em relação à sua atividade durante todo o período de prática. O elemento chave é a orientação motivada relacionada com o desejo ou a ausência de praticar o esporte. Essa orientação deve estar voltada para os objetivos internos e externos. A orientação para os objetivos internos está relacionada com a concentração da atividade nos processos de aperfeiçoamento e não no resultado final. A orientação para os objetivos externos, ao contrário, focaliza o resultado final, e o processo de preparação é avaliado apenas como um meio para alcançar o resultado e um valor social (BURTON, 1992).

Na prática a orientação motivada é dirigida à formação de alguns princípios psicológicos: orientação ao processo de aperfeiçoamento, orientação ao êxito e orientação ao fracasso.

Preparação volitiva

Volitivo significa desenvolver uma atividade ou ação consciente que vise a um determinado objetivo. E na preparação volitiva de um atleta, obtém-se êxito quando seu processo de aprendizagem técnico-tático está organicamente relacionado com o desenvolvimento de suas qualidades físicas e com sua preparação integral.

Para se alcançar sucesso e constante aumento das exigências do treinamento há algumas premissas que ajudam no desenvolvimento das qualidades volitivas. A base prática da preparação volitiva se baseia em alguns fatores segundo Matveev (1977):

1. A orientação regular e obrigatória do programa de treinamento e as aspirações competitivas: essas exigências desenvolvem no atleta o hábito de executar esforços sistemáticos, a perseverança de superar dificuldades, a capacidade de terminar uma tarefa e de fazer sempre aquilo que se compromete. No entanto, para se alcançar êxito é necessário que o atleta tenha consciência dos objetivos desportivos e que confie no treinador e nos seu método de trabalho.

2. Introdução sistemática de dificuldades suplementares: diferentes procedimentos devem ser aplicados como: introdução de uma tarefa adicional; realização do treinamento em condições mais difíceis que as habituais; aumento do grau de risco; introdução de obstáculos físicos e emocionais, entre outros.

3. Utilização de competições e do método competitivo: alguns procedimentos, quando amplamente utilizados na prática, podem ajudar a eficácia da competição. Exemplos:

– competições que promovam a execução quantitativa do objetivo;
– competições que promovam a execução qualitativa do objetivo;
– competições em condições mais difíceis ou às quais o desportista não esteja acostumado.

É importante participar regularmente de competições, tomar conhecimento dos programas de competições e utilizar sistematicamente o método competitivo durante a organização do treinamento.

4. Reforço constante das funções de auto-educação: baseia-se no conhecimento de si mesmo e no entendimento do sentido de toda a atividade competitiva. São seus componentes:

– manter, estritamente, o ritmo normal de vida;
– autoconvencimento, automotivação e auto-imposição para realizar os programas de treinamento e resultado desportivo;
– autocontrole das emoções, do estado psíquico e geral, por meio de métodos autógenos (independentes, pó contA própria) entre outros;
– autocontrole constante.

Durante a preparação volitiva é necessário prestar atenção à educação moral e ética dos atletas. A ética é constituída de normas que regem o comportamento do atleta e que determina sua relação com as pessoas e as instituições. Esse termo compreende tanto as normas gerais da moral estabelecidas na sociedade como as exigências específicas ao comportamento dos atletas como: seguir as normas das competições, respeitar adversários e espectadores e cumprir com os rituais esportivos. As características gerais da moral também adquirem um tom específico: responsabilidades, justiça, honestidade desportiva, dever e honra ajuda mútua, entre outras.

Na ética esportiva há exigências especiais, pois os atletas e treinadores freqüentemente se encontram em situações diferenciadas. Assim temos: o aperfeiçoamento constante da qualificação esportiva, a alta organização e capacidade de trabalho, a preocupação com a vida do adversário e do companheiro, a educação e o bom senso, o ponto de vista crítico de todos os envolvidos e o próprio incentivo ao esporte.

Bibliografia

PLATONOV, V. N. Teoria geral do treinamento desportivo olímpico. São Paulo: Editora Artmed, 2004.

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Dieta de proteínas altera o limiar de lactato

A medida da concentração de lactato sangüíneo vem sendo utilizada para prescrição do treinamento. Aumentos progressivos na intensidade do exercício intensificam a via glicolítica, consequentemente aumentando a produção de lactato.

A partir de uma determinada intensidade de trabalho, a concentração sangüínea de lactato aumenta de forma não linear marcando um ponto de transição denominado limiar de lactato (LL), que é postulado como a maior intensidade de exercício em que o organismo consegue manter equilibrada a produção de lactato com a sua remoção. O limiar de lactato tem sido usado para inferir a predominância da via metabólica geradora de energia, glicolítica ou oxidativa em diferentes intensidades do exercício.

Variações no regime alimentar modificam o metabolismo, inclusive na regulação das vias metabólicas e seleção dos substratos energéticos. As dietas com baixa ingestão de carboidratos sem diminuição do total energético ingerido (dietas de proteínas ou dietas cetogênicas) têm sido utilizadas como meio para rápida perda de massa corporal e emagrecimento.

O futebol é uma modalidade em que há constantes mudanças na demanda energética, para isto, a prescrição do treinamento e da alimentação deve possibilitar ao atleta atuar nas diferentes intensidades e minimizar os efeitos da fadiga. O glicogênio muscular é de fundamental importância para a performance e a restrição da ingestão de carboidratos contribui para diminuir as reservas deste carboidrato.

Em estudo realizado com atletas de futebol profissional submetidos a testes antes e depois de uma dieta de proteínas, verificou-se que a concentração de lactato durante o esforço foi menor após a dieta de proteínas. Os resultados do estudo também mostraram que a velocidade em que ocorre o limiar de lactato diminui em quase 10%. Além disso, a remoção do lactato após o exercício também foi alterada, sendo mais rápida quando os atletas seguiam a dieta equilibrada e mais lenta após
a dieta de proteínas.

A lactacidemia é um parâmetro para avaliação e prescrição de treinamento, a precisão desta medida é fundamental para fisiologistas, treinadores e atletas, e os resultados deste estudo mostram variações importantes nos parâmetros relacionados ao LL que poderiam induzir uma avaliação incorreta do treinamento e conseqüentemente uma prescrição inadequada, caso o atleta estivesse sendo submetido a uma dieta de proteínas.

Vários autores mostram que dietas com redução de carboidratos tendem a diminuir a reserva de glicogênio muscular e hepático, sendo que esta redução é acentuada pela prática de atividades físicas, o que poderia refletir numa curva de aparecimento de lactato diferente. E foi exatamente isto que os dados desse estudo confirmaram, mostrando que três dias de restrição de carboidratos aparentemente reduzem as reservas de glicogênio e diminuem a velocidade da via glicolítica.

A via glicolítica é a principal via para ressíntese do ATP nas atividades de alta intensidade, com conseqüente aumento da lactacidemia. Como referido anteriormente a dieta de proteínas inibe a atividade glicolítica em exercícios alta intensidade. Para suprir a alta demanda energética torna-se necessário aumentar a atividade da miokinase e adenosina deaminase, enzimas responsáveis pelo aumento do aparecimento de AMP e IMP + amônia respectivamente, e aumentando a possibilidade de fadiga.

Dois fatos têm que ser observados por qualquer comissão técnica que pretenda utilizar o recurso da dieta de proteínas: (a) um atleta que tenha feito uma avaliação anterior à dieta cetogênica e realiza uma reavaliação durante a vigência da dieta; (b) um atleta que seja avaliado somente durante a realização da dieta.

Num atleta na situação (a) a redução na concentração de lactato poderia ser interpretada como adaptação positiva do metabolismo, já que menor produção de lactato corresponderia a menor dependência da via glicolítica e conseqüentemente menor consumo de glicogênio. Esse dado, porém, seria conflitante levando-se em conta a menor intensidade (velocidade) em que foi alcançado o LL, que indicaria uma diminuição da performance. Este conflito causaria problemas no momento da elaboração do regime de treinamento oferecido ao atleta.

Já um atleta na situação hipotética (b) provavelmente seria treinado de forma inadequada levando em conta a interpretação dos dados sem a devida consideração ao regime alimentar diferenciado.

Bibliografia

MACHADO et al. Efeitos da dieta cetogênica na lactacidemia de atletas
de futebol. Ação e Movimento, v. 2, n. 4, p. 189-195, 2005
CAMERON E MACHADO. Tópicos avançados em bioquímica do exercício.
editora Shape: Rio de Janeiro, 2004
MAUGHAN, GLEESON E GREENHAFF. Bioquímica do exercício e do
treinamento. Manole: São Paulo, 2000.

* Marco Machado
Laboratório de Fisiologia e Biocinética (UNIG – Campus V)
Universidade Iguaçu (UNIG)
http://lattes.cnpq.br/6549675665082560
http://my.indexcopernicus.com/marcomachado

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Sporting: relação entre dados econômicos e esportivos

A importância da análise financeira para o contexto empresarial é evidente na medida em que se pode observar a saúde financeira de uma organização e de se poder avaliar suas características quanto a investimentos, aplicação de recursos, origem dos recursos, autonomia da gestão entre outras.

No esporte a relação entre a análise financeira apresenta uma complexidade diversa do mundo corporativo, uma vez que os clubes não buscam tão somente o equilíbrio financeiro de suas contas, mas também a melhoria gradativa da performance esportiva.

Nesse contexto, o presente trabalho seguirá como escopo a análise do balanço, da demonstração de resultados e do relatório apresentados pela Sociedade Anônima Desportiva (SAD) do Sporting Clube de Portugal (SCP) em três exercícios relacionados aos anos contábeis correspondentes às temporadas de 2004-2005, 2005-2006 e 2006-2007, cruzando com informações esportivas pertinentes.

O balanço pode ser definido como o documento que retrata a comparação do ativo com o passivo e capital próprio de uma organização. Apresenta, portanto, de acordo com aquele ano, a situação patrimonial e financeira da organização.
Já a demonstração de resultados apresenta o resultado líquido de um período, ou seja, o lucro ou o prejuízo obtido pela organização, sendo possível avaliar o desempenho organizacional. Trata-se, portanto, da comparação entre os proveitos e ganhos e os custos e perdas.

O relatório é um documento público e obrigatório para as SAD, segundo a legislação portuguesa, divulgados em meio eletrônico e imprensa geral pela administração de cada SAD no término de cada ano contábil, em que se apresentam o balanço e a demonstração de resultados junto com dados qualitativos das atividades desempenhadas pelo clube ao longo do exercício.

A presente análise se baseará em duas teorias financeiras, nomeadas como teoria tradicional, que expressa o desempenho financeiro de uma organização com a dedução de razões pelo cruzamento de informações do balanço e demonstração de resultados e a teoria funcional, que serve para o estudo das origens e aplicações de fundos, constituído pelos ciclos financeiros em que se pode observar os investimentos, a exploração e as operações de capital.

A análise dessas razões é importante em situações em que a organização pretende obter empréstimos ou realizar investimentos, sendo possível apresentar como ela gere seus recursos e salda seus compromissos para instituições de interesse.

Análise das temporadas 2004-2005, 2005-2006 e 2006-2007 utilizando parâmetros econômicos e esportivos

Os primeiros apontamentos deste estudo, após análise superficial, dão conta para uma forte relação entre o bom desempenho financeiro com a comercialização de atletas, além de uma relação entre o desempenho esportivo e a soma total de proveitos ao longo do exercício, especialmente quando este ocorre em competições européias.

Pela análise das razões obtidas nas equações da teoria tradicional, é possível chegar a algumas conclusões sobre as características e estratégias adotadas pela gestão da SAD do Sporting Clube de Portugal:

– Apresentou um resultado operacional negativo no primeiro ano em análise (2004-2005), apesar de ter tido um resultado líquido positivo devido à sessão “à Desporto e Espectáculo os direitos televisivos e os direitos acessórios relativos às épocas desportivas de 2008/09 a 2018/19 e os créditos do contrato celebrado com a TBZ Marketing”, gerando uma mais valia extraordinária na ordem dos 64.950.000,00 _, mas que não será considerado para efeitos deste estudo por ser justamente um proveito extraordinário.

Nos anos seguintes (2005-2006 e 2006-2007) teve resultados operacionais positivos, pois a alienação de direitos desportivos dos atletas passaram a entrar nos resultados operacionais e não nos extraordinários, sendo capaz de equilibrar as contas do exercício. Destaque-se no último ano a venda do atleta Nani para o Manchester United, que permitiu um resultado operacional positivo na ordem dos 17 milhões de euros.

Resultados

Resultados 2004-2005 2005-2006 2006-2007
Resultados Operacionais -8.401.000,00 3.375.000,00 17.454.000,00
Resultado Líquido do Exercício 54.670.000,00 313.000,00 14.480.000,00

– Fez uma aposta na solidez financeira, ou seja, renegociou dívidas de curto prazo e adquiriu um empréstimo que foi capaz de saldar algumas dívidas de curto prazo, que vinham “sufocando” a tesouraria, para transpassá-las para o longo prazo, permitindo uma melhor gestão dos ativos de cada exercício.

– Apresenta boas razões de financiamento, com elevada capacidade de financiamento com recursos próprios, gerados pelos próprios resultados operacionais de cada exercício. O melhor ano da análise é o de 2006-2007.

– O SCP possui uma razão positiva para o equilíbrio financeiro, o que indica uma suficiência para financiar investimentos de médio e longo prazo não cobertos por capitais próprios.

Para cruzarmos dados esportivos com os econômico-financeiros, faremos uma breve exposição do rendimento desportivo nos três anos em estudo:

Pontos por temporada

Competições 2004-2005, 2005-2006, 2006-2007
Liga Portuguesa 3º / 61 pts.-34 jgs. 2º / 72 pts.-34 jgs. 2º / 68 pts.-30jgs.
Liga dos Campeões – 3ª Elim. / 0 pts.
-2 jgs. F. Grupos ¬/ 5 pts.
-6 jgs.
Copa Uefa – Finalista / 29 pts.
-15 jgs. 1ª Rodada / 3 pts.
-2 jgs. –
Taça de Portugal 8ª Final / 7 pts.
-3 jgs. ½ Final / 13 pts.
-5 jgs. Campeão / 18 pts.
-6 jgs.
Total (pts./jogo) 1,86 pts./jogo 2,04 pts./jogo 2,16 pts./jogo

E das receitas obtidas em cada temporada:

Proveitos 2004-2005, 2005-2006, 2006-2007
Bilheteria 6.203.000,00 _ 4.070.000,00 _ 3.470.000,00 _
Bilhetes de Temporada 5.736.000,00 _ 5.862.000,00 _ 7.860.000,00 _
Direitos TV 9.731.000,00 _ 8.106.000,00 _ 8.952.000,00 _
Quotização 3.761.000,00 _ 3.788.000,00 _ 4.098.000,00 _
Patrocínios 2.778.000,00 _ 4.074.000,00 _ 6.131.000,00 _
Royalties 1.215.000,00 _ 1.170.000,00 _ 297.000,00 _
Transf. Jogadores 1.299.000,00 _ 6.335.000,00 _ 25.456.000,00 _
Participação Uefa 3.053.000,00 _ 4.503.000,00 _ 6.618.000,00 _
Extraordinários 65.582.000,00 _ 734.000,00 _ 443.000,00 _
Outros Proveitos 879.000,00 _ 1.571.000,00 _ 2.133.000,00 _
Total 100.237.000,00 _ 40.213.000,00 _ 65.498.000,00 _

A partir desses dados, será possível cruzar os dados relativos aos resultados operacionais (RO) de cada exercício com a média total de pontos (MTP) por jogos de cada temporada para chegarmos a algumas considerações acerca de indicadores econômico-desportivos.

Nesse sentido, pode-se afirmar que, quanto maior a MTP, melhor o RO, indicando uma forte relação entre o aproveitamento e conquista de pontos ao longo da temporada com os resultados econômicos do exercício. Essa metodologia de contagem dos pontos desconsidera a campanha efetiva nos torneios disputados já que não se leva em conta a comparação com outras equipes.

Há também coincidência entre uma boa campanha em competições européias com os proveitos de bilheteria. Na temporada 2004-2005, quando o SCP alcançou as finais da Taça da Uefa, os proveitos com bilheteria alcançaram 6.203.000,00 _, enquanto que nos anos subseqüentes os proveitos auferidos com bilheteria chegaram a 4.070.000,00 _ e a 3.470.000,00 _ respectivamente. Mesmo o fato de ter conquistado o título da Taça de Portugal (considerar que a final é disputada em campo neutro, mas também o fato de ter tido jogos anteriores em casa) na temporada de 2006-2007 e de ter disputado até a última rodada o título da Liga Portuguesa não foram suficientes para elevar os proveitos com bilheteria, comprovando que a boa participação esportiva internacional é muito relevante pa
ra este item.

Entretanto, a comercialização de bilhetes para a temporada está mais relacionada com campanhas estratégicas de marketing do que pela performance esportiva, como pode ser verificado nos números expostos acima.

Os proveitos conquistados por royalties também guardam estreita relação com o desempenho esportivo, devido principalmente ao aumento na venda de produtos licenciados. Os outros proveitos não revelam qualquer relação com o desempenho esportivo e o total de proveitos não podem ser considerados pois as características de consideração dos mesmos diferem de um ano para o outro.

Por fim, iremos calcular o custo por cada ponto conquistado em cada época desportiva relacionado com a remuneração do pessoal (RP), de acordo com os quadros abaixo:

Remuneração do pessoal

Custos e perdas: 2004-2005, 2005-2006, 2006-2007
Custos com o Pessoal:
Remunerações 19.716.000,00 _ 16.728.000,00 _ 20.853.000,00 _
Encargos Sociais 0 _ 0 _ 0 _
Outros 866.000,00 _ 754.000,00 _ 813.000,00 _
Total 20.582.000,00 _ 17.482.000,00 _ 21.666.000,00 _

Relação entre a remuneração do pessoal com a média total de pontos – 2004-2005, 2005-2006, 2006-2007

RP / MTP 10600_/pts./jogo 8200_/pts./jogo 9654_/pts./jogo
* Valores expressos em milhões de euros

Essa razão apresenta um valor inverso pois, quanto menor seu resultado, é sinal que mais rentável foi o custo da média de pontos por jogo em relação ao custo com pessoal. Portanto, o ano de 2005-2006 apresentou uma melhor razão, no qual se gastou menos com pessoal para se obter uma média maior de pontos.

Entretanto, em termos de resultados práticos esportivos, que se traduzem em títulos ou pela disputa destes, a época 2005-2006 teve o pior rendimento, uma vez que o SCP alcançou a final da Taça da UEFA e disputou até a última rodada o título da Liga Portuguesa na época 2004-2005 e na época 2006-2007 também disputou até a última rodada o título da Liga Portuguesa e conquistou o título da Taça de Portugal. O que pode ter elevado o custo com pessoal, se levarmos em conta os motivos expostos acima, é a oferta de prêmios pelo rendimento.

Os dados apresentados retratam a situação financeira e a possibilidade de se fazer uma aproximação com aquilo que acontece em termos esportivos é fundamental, como já salientado, para a melhoria da gestão administrativa do clube (ou empresa, neste caso) de uma maneira geral.

Bibliografia

BAPTISTA, Margarida; ANDRADE, Paulo. Organizações desportivas: um contributo para uma nova atitude. In: Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, 2004.
Consulta eletrônica: www.gesbanha.pt
Consulta eletrônica: www.iapmei.pt
Consulta eletrônica: www.sporting.pt
CARVALHO, Pedro; LUÍS, José Pedro. Clubes ricos, accionistas pobres. In: Jornal de Negócios, 21 nov. 2007, p. 6-7.
NEVES, João Carvalho das. Análise financeira: métodos e técnicas. 10. ed. Lisboa: Texto, 1997.
SAIAS, Luís; CARVALHO, Rui de; AMARAL, Maria do Céu. Instrumentos fundamentais de gestão financeira. 3. ed. Lisboa: Universidade Católica Editora, 1998.

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Overtraining no futebol: detecção através de método multidisciplinar

Aparatos sofisticados como testes laboratoriais são utilizados para verificação da instalação do quadro de overtraining nos atletas de futebol. Porém, tais métodos geralmente são de difícil aplicação e acesso, devido ao alto custo, o que acaba restringindo a utilização desses recursos apenas aos atletas que têm disponíveis melhores condições através de suas equipes.

Muitas alterações no organismo têm sido descritas através dos procedimentos laboratoriais. No entanto, até o momento, nenhuma se mostrou, isoladamente, confiável a ponto de poder ser aceita como teste diagnóstico exclusivo para o overtraining. Entre essas alterações pode-se citar: freqüência cardíaca máxima diminuída, alterações nas medidas de lactato, como sua concentração em esforço máximo ou seu limiar, alteração na relação testosterona/cortisol, alterações imunológicas que levam a infecção das vias aéreas superiores, alterações em marcadores séricos como CK (creatina Kinase) e uréia, etc. Enfim, tantas teorias de biomarcadores, entretanto, ainda não possibilitam maior conhecimento fidedigno sobre a etiologia e a fisiopatologia do quadro (PELUSO, 2003; BANFI, DOLCI, 2006).

Em alguns estudos a síndrome do overtraining tem sido associada com altos níveis de cortisol no sangue e saliva na recuperação após o esforço, mas em outros estudos o mesmo não ocorre, gerando assim alguma controvérsia. Se mudanças hormonais ocorrem com o overtraining, então é necessário que estudos longitudinais sejam realizados com atletas que se apresentem nessa condição para demonstração de resultados mais confiáveis (HOOPER et al., 1992, GARCIA, 2003).

As informações sobre o estado de recuperação de um atleta são fornecidas por parâmetros subjetivos (comentários sobre o estado atual, sobre o desempenho e sobre a disposição psíquica do atleta) ou objetivos (avaliação cardiopulmonar e endócrina). A dinâmica do desenvolvimento do desempenho físico apresenta uma fase de estagnação ou retrocesso, caracterizada pela falta de recuperação, situação muito freqüente no futebol devido aos jogos e sessões de treinamento. A negligência da recuperação pode causar síndromes crônicas de sobrecarga de diferentes naturezas, isto é, de natureza física ou psíquica; estas síndromes também podem ser denominadas “excesso de treinamento”.

Assim, como cita Weineck (1999), a associação lógica entre a carga e a recuperação no treinamento e na competição parece ser tão necessária no futebol quanto o volume, a intensidade e o aumento gradual das cargas. Um aumento da capacidade de desempenho somente parece ser possível devido ao emprego de medidas e métodos gerais e específicos de recuperação.

A partir da literatura citada pode ser afirmado que atletas de futebol em situações de treinamento, caso sejam submetidos a estímulos (cargas de treinamento) excessivos, com período de recuperação insuficiente para reestruturação do organismo, sobretudo no enfoque das reservas energéticas, estarão envolvidos em um diagnóstico de síndrome do overtraining.

Avaliações através de análises laboratoriais frequentemente são utilizadas para verificar alterações endócrino-metabólicas nas diversas condições de competição e treinamento no futebol. Porém, uma caracterização mais específica dessas alterações, para a obtenção de um instrumento que possa ser considerado referência na afirmação quantificada do overtraining ainda não foi conseguido.

Assim, é fundamental a realização de investigações que analisem a correlação dos dados coletados através das análises laboratoriais* com coleta de sangue e não invasivos (utilização da saliva), antropométricas* e psicológicas*, com o propósito da criação de um método de avaliação disponibilizado para os profissionais do futebol, de forma mais integrada, para evitar e contornar situações que se caracterizam como overtraining.

Avaliação bioquímica*

Hemograma completo, cortisol, testosterona, glicose, catecolaminas (adrenalina e noradrenalina), AGL (ácidos graxos livres), CK (creatina kinase), ACTH (hormônio adrenocorticotrópico), insulina, lactato, uréia, ácido úrico e creatinina.

(Análise – Hemograma*: eritrócitos, hemoglobina, hematócrito, leucócitos, linfócitos, monócitos, bastonetes, segmentados, eosinófilos, basófilos e plasmócitos).

Avaliação psicológica*

Podem ser aplicados questionários como “POMS” (MCNAIR et al., 1971 e adaptações), “Escala de Avaliação de Reajuste Social” (HOLMES, RAHE, 1967 apud GREENBERG, 2002) e/ou “Questionário de Estresse Percebido” (SANZ-CARRILLO et al., 2002), bem como a organização de uma caderneta de registro individualizada, denominada Recordatório do dia e noite da coleta, com fins de se anotar as ocorrências significativas que possam causar estresse aos atletas.

A intenção vai ao encontro do surgimento de fatos que não se limitam ao treinamento e a competição, mas que possam interferir nos níveis de estresse. Tendo em vista que a literatura apresenta vários estudos que observaram a existência do fator emocional como indício para a instalação do quadro.

Avaliação antropométrica*

As pregas cutâneas podem ser verificadas por meio de adipômetro científico (CESCORF®), com precisão constante de 10 +/- 2 g/mm2 e abertura total de 85 mm, segundo critérios de Guedes (1994).

O índice de massa corpórea (IMC) pode ser calculado a partir das medidas do peso corporal e altura, utilizando-se como referência o padrão da World Health Organization (WHO, 1995).

Bibliografia

BANFI, G.; DOLCI, A. Free testosterone/cortisol ratio in soccer: usefulness of a categorization of values. J. Sports Med Phys Fitness. 46 (4):611-6, dec. 2006.
GARCIA, M. Marcadores Hormonais no overtraining no futebol. Campinas. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 2003.
GREENBERG, J.S. Administração do estresse. 1a. edição brasileira. Editora Manoele. São Paulo, 2002.
GUEDES, D.P. A técnica de espessura do tecido subcutâneo. In: _______. Composição corporal: princípios, técnicas e aplicações. 2ª. Edição. Londrina, Associação dos Professores de Educação Física, 1994. p.46-79.
HOOPER, S.L.; et al. Hormonal responses of elite swimmers to overtraining. Medicine and science in sports and exercise. v.15, n.6, jun, 1992. p.741-47.
MCNAIR, D. LORR, M., DROPPLEMAN, L. Profile of mood states manual. Educational and Industrial Testing Service. San Diego, Calif, 1971.
PELUSO, M.A.M. Alterações de humor associada a atividade física intensa. Tese de Doutorado. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2003.
SANZ-CARRILLO, C; GARCÍA-CAMPAYO, J.; RUBIO, A., SANTED, M.A.; MONTORO, M. Validation of the spanish version of the perceived stress questionnaire. Journal of psychosomatic research. 52, p.167-172, 2002.
WEINECK, J. Treinamento ideal: instruções técnicas sobre o desempenho fisiológico, incluindo considerações específicas de treinamento infantil e juvenil. 9ª. Edição. Editora Manole. São Paulo. 1999. 740p.
WHO – WORLD HEALTH ORGANIZATION. Physical status: the use and interpretation of antropometric. Report of a WHO Expert Committee. WHO Tec. Rep. Ser. n.854, p.1-452, 1995.