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O papel das Forças Armadas…

Depois de algumas leituras e de acompanhar a palestra de um almirante em evento recente, quando abordou o legado dos Jogos Mundiais Militares, consegui descobrir o papel das Forças Armadas no Brasil: ajudar o esporte nacional.

É óbvio que o primeiro parágrafo tem um tom irônico. As Forças Armadas têm importância ímpar no sentido da defesa de qualquer nação. O artigo 142 da Constituição Federal diz o seguinte:
 

“Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm. Acessado em: 29-novembro-2011.
 

Em nenhum momento, nos artigos e parágrafos correspondentes ao Capítulo que trata das Forças Armadas aparece qualquer amparo ou direcionamento para que tal contribua com o esporte do Brasil.

Nos Jogos Mundiais Militares 2011 falou-se que um dos grandes legados foi a militarização de atletas. Ora, a competição que tem por objetivo retirar soldados do campo de batalha, um ambiente estressante, colocando-os em uma disputa sadia de esportes entre nações, não pode admitir que o “gato” para a disputa dos Jogos foi um legado, sob o argumento que agora os atletas recebem um salário militar e podem disputar competições olímpicas com mais tranquilidade. E a seleção brasileira de Beach Soccer também entrou na onda, que nem olímpica é, mas está integrada no Programa Olímpico da Marinha.

Talvez esteja aí a solução de todos os problemas do esporte brasileiro (modo irônico novamente). Vamos fechar todas as federações e confederações, vamos militarizar todos os atletas e, muito provavelmente, a medida resultará em… em… em… um retrocesso de algumas décadas!

Não sei dizer quem está certo ou quem está errado. Mas o fato é que se existem agentes se metendo aonde não devem, é porque quem deveria fazer algo decente para o esporte não o faz da maneira correta. O sistema formal de esporte no Brasil está uma salada e não é de hoje. E como os megaeventos geram repercussão midiática, todo mundo procura um jeitinho de aparecer…

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br
 

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Perfil Del Futbolista Uruguayo

Este é um trabalho de investigação no futebol uruguaio. Se bem conhecemos os futebolistas latino-americanos que chegam à fama e ganham muito dinheiro na Europa, pouco sabemos daqueles que jogam no próprio país natal, em relação à sua qualidade de vida e situação social e econômica, a qual diz muito sobre os atletas de renome mundial.

Neste estudo, o leitor terá um panorama da situação social, econômica, educativa e de qualidade de vida dos futebolistas profissionais do Uruguai.

Trata-se de uma investigação detalhada, com rigor técnico quanto à metodologia aplicada. Está baseado em falas dos próprios atletas, com entrevistas a pessoas sabedoras dessa realidade, além de uma apresentação de documentos de referência à situação dos jovens profissionais.

Por não se encontrar nenhum outro estudo sócio-econômico dos futebolistas de outros países da América Latina, não pode existir uma comparação continental.

Sobre o autor

Pablo Echegoyen é pesquisador e docente de Economia e de Estudos Econômicos e Sociais de bacharelado de Educação Secundária.

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Chip na chuteira. E o investimento dos clubes em tecnologia

Olá, amigos!

No texto desta semana trago uma nota sobre o lançamento de uma chuteira com chip capaz de marcar uma série de informações importantes sobre o desempenho do atleta. A seguir, seguem trechos deste informe, para que possamos debater e estabelecer uma reflexão acerca do tema.

“Esta semana, a Adidas anunciou a chegada no Brasil da chuteira Adizero F50 com o sensor miCoach Speed Cell. Este módulo fica em uma cavidade no meio da chuteira e monitora o jogador, medindo velocidade, distância percorrida, sprints (piques) e tempo total…

A chuteira com sensor permite analisar os dados do jogador após um treino ou partida, e sincroniza com o computador ou dispositivo iOS sem usar fios”.

Alerto que devemos ter um postura crítica em relação à notícia, evitando críticas sem o devido conhecimento e evitando também uma empolgação excessiva. Por isso a reflexão se faz importante para discutirmos o papel dos profissionais do futebol em alto nível, frente ao desenvolvimento de tecnologias e recursos de ponta.

Sem dúvida que, numa comparação imediata, percebemos a Adidas fazendo testes baseados no alto desempenho para alcançar o amplo mercado de consumidores, algo marcante na Formula 1, na qual montadoras e fornecedores testam seus novos componentes que com o tempo chegarão ao mercado.

O mercado de fitness já tem recursos tecnológicos de longa data, como o sistema de anotação de percurso, velocidade e performance de corredores de rua, de pessoas fazendo suas atividades cotidianas preocupadas com a saúde.

O cuidado com a empolgação e utilização dessa chuteira como fonte de informação deve ser focada na necessidade de testes e validações para tirar conclusões a respeito da precisão e da informação fornecida, e ainda pensar nos termos regulamentares que a Fifa pode ter nesse quesito.

Por outro lado, se conseguirmos provar e testar tal recurso, com as informações divulgadas, temos um rico material para investigar desempenho dos atletas, lembrando que tais informações já são utilizadas hoje, porém coletadas de distintas maneiras.

Assim, sem entrar no mérito do recurso propriamente dito, já que carece de testes e estes só com o tempo poderemos fazer, direcionamos nossa discussão sobre quem desenvolve tais recursos, ou melhor, sobre quem se interessa em desenvolver tais ferramentas

De olho no mercado, a Adidas investe alto e desenvolve alternativas e novos produtos. Será que os clubes de futebol não poderiam ser protagonistas no desenvolvimento de pesquisas a fim de investigar modelos, práticas e intervenções voltados ao rendimento?

A Gatorade tem um expressivo instituto de pesquisa voltada à análise de performance; a Adidas, assim como a Nike e outras, mostra preocupação com tecnologia dos uniformes e chuteira – e agora cada vez mais com chuteira e informações sobre o desempenho. Todas, com certeza, buscando valorização da marca além de participação de mercado

Se os clubes investissem mais em tecnologia e ciência não teriam benefícios, como desempenho melhor de atletas, contratações mais precisas, menor número de lesões e treinamentos mais adequados? Qual a sua opinião?

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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A importância de uma boa gestão de grupo

Qual as qualidades necessárias para um treinador no futebol de hoje? Existem muitas respostas para essa pergunta.

Um bom nível tático, um entendimento sobre questões fisiológicas, saber dar um treinamento com qualidade, e ser um bom gestor de grupo são algumas delas.

Neste último fator, porém, é onde acredito estar o ponto mais difícil e talvez o diferencial para ser um profissional de qualidade. Um dos pontos mais complexos, com certeza é fazer a equipe comprar a ideia do treinador e ir com ele até o fim, independente do que aconteça no percurso.

Muitas vezes vimos na mídia jogadores dizendo que a principal força da equipe é a união do grupo e que o grupo está fechado com o treinador…

Tudo isso só é possível graças a uma boa gestão por parte do técnico que, com este fator bem gerido, consegue levar um grupo aparentemente não tão bom a campanhas inesperadas (o Corinthians de 2011 é um exemplo claro disso).

Em uma de suas palestras, o treinador Vanderlei Luxemburgo disse que o ponto mias difícil de sua carreira era conseguir trabalhar com todo o grupo sem que os jogadores que não vinham atuando desistissem do seu trabalho e acabassem com a “união do grupo “.

Seguramente, não existe uma fórmula para se ter uma boa gestão de grupo, e nem tantos conteúdos concretos quanto a parte técnica/tática, e talvez por isso seja o grande diferencial para que um treinador seja vitorioso ou não em sua carreira.

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Avaliação do desempenho da arbitragem na Copa do Mundo de 2010

A atuação da arbitragem durante os jogos é um dos assuntos mais debatidos no meio do futebol. Ao longo dos anos, várias propostas foram formuladas por profissionais da área para tentar minimizar os erros de arbitragem, como usar as imagens da televisão nos lances polêmicos e profissionalização dos árbitros entre outras sugestões.

A Fifa também tem grande preocupação sobre este tema. Dentro da entidade tem um setor exclusivo para avaliar a atuação dos árbitros e criar programas de aprimoramento e preparação. Na última Copa do Mundo da África do Sul, a comissão de arbitragem da Fifa divulgou um relatório comentando a preparação dos árbitros e o desempenho da arbitragem na última Copa. Este relatório está dentro do relatório técnico tático da Copa-10.

Neste post será realizado um resumo deste relatório escrito por José María García-Aranda Encinar.

Durante a Copa foram enviados 24 trios de árbitros, sendo que as federações africana, asiática, e da América do Norte e Caribe enviaram três trios cada uma, a federação da Oceania um, América do Sul cinco e a européia nove. Além destes foram solicitados cinco trios de apoio.

Preparação:

Todos os árbitros passaram por um longo processo de avaliação e preparação. Ela começou em 2007 com seminários e monitoramento do desempenho nas competições organizadas pela Fifa. Em fevereiro de 2010 foi realizado um intensivo controle médico sobre os árbitros e a avaliação física.

Antes do começo da competição os membros da comissão de arbitragem da Fifa e os instrutores de árbitros se reuníram com todas as equipes para debater os assuntos técnicos de arbitragem e enviaram material multimídia com informações sobre interpretação das regras do jogo.

Logo que chegaram à África do Sul, todos os árbitros e assistentes passaram por diversas atividades teóricas e práticas. Durante o treinamento prático foi utilizado um programa chamado de “virtual refereeing” que permitia aos árbitros e assistentes analisar as suas decisões imediatamente depois dos lances em um monitor que passava as jogadas em diversas velocidades.

Já durante a competição uma plataforma virtual permitiu a gravação e análise integral das 64 partidas da Copa, onde os instrutores puderam imediatamente selecionar as jogadas desejadas para análise posterior. Após as partidas aconteciam reuniões para analisar os lances mais importantes dos jogos.

Além disso, durante os jogos foram realizados diversos estudos científicos, como o trabalho que avaliou a posição dos árbitros no campo de jogo com as decisões que foram tomadas, e a pesquisa que estudou como é percorrida a distância pelos árbitros e assistentes durante as partidas e suas distintas velocidades.

Resultados:

Os membros da comissão de arbitragem da Fifa concluíram que o rendimento físico dos árbitros foi excelente. Eles também ficaram muito satisfeitos com o controle disciplinar; segundo eles, o bom controle disciplinar foi um dos fatores que mais contribuíram para que diminuísse o número de jogadores lesionados na copa do mundo de 2010 em comparação com as outras competições realizadas pela entidade, como a Copa da Alemanha em 2006. Comparando as duas últimas Copas, em 2010 caiu a média do número de cartões amarelos (3,82 vs. 4,8) e vermelhos (0,27 vs. 0,44) aplicados durante as partidas.

Análise das decisões da arbitragem:

Foi constatada que apesar da enorme dificuldade, a grande maioria das decisões foi acertada. Dos 145 gols marcados, 142 foram validados corretamente. Treze gols foram anulados corretamente e dois gols foram mal anulados, um índice de acerto de 96,88% das decisões. Treze gols foram anulados por impedimento, sendo todos corretos (100% de acerto).

Das 663 finalizações que foram no gol somente cinco ficaram próximas da linha do gol (onde existe a dúvida se a bola entrou ou não). Destas cinco, quatro foram interpretadas corretamente e uma errada (jogo Alemanha e Inglaterra).

Aconteceram 65 situações de choque dentro da área. Destas, 20 situações foram interpretadas corretamente com não sendo pênalti, cinco situações deveriam ter sido assinaladas como pênalti e não foram e 15 pênaltis foram corretamente assinalados (100% de acerto).

Como conclusão os comissários ficaram satisfeitos com o rendimento geral dos árbitros destacando o surgimento de novos árbitros com talento, como exemplo eles citaram Irmatov do Uzbequistão.

Apesar dos dados apontados pela Fifa, mostrando altos índices de acerto, durante a Copa aconteceram vários lances polêmicos com erros de arbitragem (tanto nos aspectos técnicos como disciplinares) que influenciaram os resultados de algumas partidas. Isso gerou muitas críticas ao desempenho de alguns trios de arbitragem.

Esta constatação mostra que apesar dos esforços da comissão de arbitragem ainda é necessário melhorar as avaliações e os programas de treinamento e aperfeiçoamento. Espero que no futuro se consiga minimizar os erros para as discussões ficarem voltadas somente para os aspectos técnicos e táticos do jogo.

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O esquema tático: o losango da linha média

Na coluna “O esquema tático: estruturando a linha defensiva” abordei o papel do esquema tático dentro do Modelo de Jogo e me aprofundei na dinâmica da linha defensiva no 1-4-4-2 zonal.

Nesta semana vou continuar a discussão sobre o esquema tático e a dinâmica de posicionamento dos jogadores; agora com a linha do meio-campo.

No 1-4-4-2, no 1-3-4-3, no 1-5-4-1 ou em outro esquema com quatro jogadores na linha média, posso adotar algumas dinâmicas de posicionamento. No Brasil, o mais popular deles é o “quadrado” onde se joga com dois volantes e dois meias. Em nosso futebol é comum observarmos também o “losango” no meio, onde se joga ou com três volantes e um meia (mais comum) ou com um volante e três meias. Na Europa é comum observarmos os jogadores dispostos em linha no meio-campo.

Esses são posicionamentos básicos, contudo cada um deles influencia em toda a organização da equipe. Vejam que no posicionamento em “linha” tem um bom equilíbrio horizontal, mas pode se ter dificuldades para marcar em bloco alto. Já no “quadrado” não se tem um bom equilíbrio na linha média, mas se pode pressionar mais a frente. No “losango” há um equilíbrio maior entre a ocupação em largura e em profundidade da linha média, mas há chance de ter dificuldades quando a bola entra nas costas dos meias/volantes das laterais. Esses são apenas pontos básicos que devem ser observados em cada uma das formações.

Volto a destacar que o esquema tático por si só não pode ser a única referência da equipe – ele deve se integrar sinergicamente com os demais conteúdos do Modelo de Jogo da mesma.

Como as implicações são quase que infinitas nas diferentes disposições dos jogadores na linha média, vamos nos focar agora no “losango”.

O intuito aqui não é esgotar as possibilidades nem as discussões sobre tal posicionamento, mas mostrar como ele pode ser definido e treinado na prática.

Então, vamos lá:

No Modelo de Jogo de uma equipe hipotética, o treinador definiu que a mesma estruturaria sua linha média no losango. Na organização defensiva, os jogadores desta linha deveriam se posicionar em zona fechando a região central do losango e direcionando o adversário para as laterais do campo a fim de recuperar a bola nesses espaços.

 

Na transição ofensiva, os jogadores dessa linha devem se deslocar rápido a fim de tornar o campo grande para a equipe. O jogador mais avançado do losango tem a missão de criar rápido uma linha de passe para frente para o jogador que recuperou a bola – se ele foi este jogador, deve buscar progredir no campo de jogo ou buscar um passe em profundidade para os atacantes.

 

No momento ofensivo, os jogadores da linha do meio devem estar dispostos de uma forma equilibrada tanto horizontal como verticalmente, e os meios/volantes das laterais do losango devem jogar cada um em sua metade do campo, podendo haver trocas. O volante menos adiantado deve se posicionar fazendo o balanço da jogada e o meia ofensivo deve sempre criar linha de passe em progressão para seus companheiros.

 

Na transição defensiva, os jogadores devem recompor atrás da linha do meio e fechar os espaços evitando a progressão da equipe adversária.

 

Definida a forma como a equipe se comportará nos diferentes momentos do jogo quando a ocupação do espaço em relação ao esquema tático for necessária, vamos ao treino.

Apresento abaixo, como de costume, três atividades práticas para o desenvolvimento da dinâmica da linha média em losango da equipe hipotética em questão.

Atividade 1

Descrição

– Atividade de 4 X 5, em que o objetivo da equipe composta por quatro jogadores é, sem bola, proteger o meio e, com bola, buscar um passe rápido para fora do quadrado. Já a equipe composta por cinco jogadores deve buscar, com bola, um passe na região central do campo e, sem bola, deve pressionar o adversário.

Regras e Pontuação

Equipe amarela
– Marca um ponto se algum jogador de sua equipe receber um passe após a linha tracejada (fora do quadrado).

Equipe azul
– Marca um ponto se fizer um passe para o jogador dentro do losango menor, na região central do campo.

Atividade 2

Descrição
– Atividade de 4 X 5 + Coringa , em que o objetivo da equipe composta por quatro jogadores, sem bola é proteger os golzinhos e recuperar a bola nas laterais do campo; e, com bola, fazer um passe para um jogador a frente da linha tracejada. A equipe composta por cinco jogadores faz o gol nos golzinhos e deve impedir a progressão do adversário. Coringa joga para a equipe que está com a posse de bola.

Regras e Pontuação

Equipe amarela
– 1 ponto quando recuperar a bola nas laterais do campo.
– 1 ponto quando fizer o passe para um jogador a frente da linha tracejada vermelha.

Equipe Azul
– 1 ponto quando fizer o gol nos golzinhos.

Atividade 3

Descrição
– Atividade de 8 X 11, em que o objetivo da equipe da defesa é proteger os golzinhos, recuperar a bola nas laterais do campo e, com bola, deve passar com a bola dominada ou fazer um passe para um jogador a frente da linha tracejada. Equipe que ataca pode fazer o gol nos golzinhos ou no gol oficial; sem bola, deve impedir a progressão do adversário.

Regras e Pontuação

Equipe amarela
– 1 ponto quando recuperar a bola nas laterais do campo.
– 2 pontos se passar com a bola dominada ou fizer um passe para um jogador a frente da linha tracejada vermelha.

Equipe azul
– 1 ponto se fizer gol nos golzinhos.
– 3 pontos se fizer o gol no gol oficial

Os conteúdos se integram!

Até a próxima!

Para interagir com o autor: bruno@universidadedofutebol.com.br

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Por que ele vai subir de categoria?

Há cerca de um ano, em uma de minhas primeiras publicações na Universidade do Futebol, escrevi sobre resultado nas categorias de base. Com uma série de questionamentos a dirigentes e membros da comissão técnica, o objetivo do artigo era mostrar que uma infinidade de variáveis, além das vitórias dentro das quatro linhas, deveriam ser analisadas para que, de fato, os verdadeiros resultados fossem mensurados.

Um dos questionamentos feitos segue descrito abaixo:

“Existe um relatório individual de desempenho (banco de dados), que acompanha a performance (tática, técnica, física e emocional) de cada atleta ao longo dos anos?”

Como o recesso das categorias de base do futebol brasileiro ocorrerá nos próximos dias, com exceção dos juvenis que terão oportunidade de jogar a Copa São Paulo de Futebol Jr., o momento é extremamente pertinente para a aplicação, ou então, criação do referido relatório.

É sabido que grandes equipes têm a possibilidade de conquistar campeonatos, porém, tais campeonatos não necessariamente significam retorno financeiro (principalmente nas categorias de base), que se dá predominantemente a partir da negociação de um jogador.

Logo, cada jogador, ou melhor, produto, deve ser analisado quantitativa e qualitativamente de modo a ser definido o seu potencial de valor agregado (para futura negociação) até a conclusão do processo de formação.

Definir o potencial de valor agregado é estimar quais serão as características deste jogador que o diferenciará de seus concorrentes (que são muitos), para que tenha maior atratividade comercial.

Posto isso, como analisar um atleta quantitativa e qualitativamente ao longo de um ano?

As informações acerca de determinado jogador que possibilitam a composição de um relatório não são difíceis de serem conseguidas e não precisam de ferramentas inacessíveis para a grande maioria dos clubes de futebol brasileiros, como por exemplo, softwares de gestão integrada. Com boa comunicação interna e recursos básicos do Office é possível estabelecer um banco de dados eficiente para o clube.

Para os dirigentes da base, ter o registro do desempenho obtido e do potencial que pode ser atingido por cada jogador permite um posicionamento coerente perante os gestores e investidores do clube em relação ao investimento que está sendo feito em cada categoria.

Para os treinadores, ter em mãos um relatório completo dos seus novos atletas no início do ano poupa-lhes tempo ao proporcionar informações importantes como perfil disciplinar, versatilidade e/ou especialidade, liderança, qualidade técnica, etc.

Como informações quantitativas gerais encontram-se o ano de ingresso no clube, a frequência anual de treinamento, a quantidade de jogos disputados, o tempo total jogado, os cartões recebidos, os gols feitos, as assistências, além das informações de crescimento e desenvolvimento como altura, peso e desempenho nas avaliações físicas.

Já como informações qualitativas, é possível estabelecer o desempenho comparativo do atleta em relação a sua própria categoria, uma análise das competências essenciais do jogo (relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação), e uma análise subjetiva (feita pela comissão técnica) tática-técnica-física-emocional de acordo com o Modelo de Jogo adotado. Para tornar as informações qualitativas ainda mais completas, uma produção em vídeo, de pontos fortes e pontos fracos do jogador, pode ser criada, dos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições).

Após esta análise individual completa é função dos dirigentes de base do clube reunirem todas as comissões técnicas para, em conjunto, definirem quais são os atletas que têm condições de serem promovidos para a categoria seguinte e quais terão que ser dispensados.

Essa discussão, que envolve a participação de todos e que tem um gestor como mediador, seguramente, diminui os riscos de um erro extremamente comum nos clubes brasileiros: investir por muitos anos em jogadores que não têm potencial de negociação ou atuação no departamento profissional e dispensar os que têm.

Com informações mais precisas, todos os envolvidos (atletas, comissões, dirigentes e investidores) são beneficiados. O atleta dispensado pode ir em busca de seu objetivo em outro clube ao invés de aguardar aquela ligação para se apresentar no início do ano e, após poucos dias de treino e elenco “inchado” ser liberado, pois o seu último treinador não o fez quando deveria; o atleta que subir de categoria é o que o clube realmente vislumbra retorno futuro e que deu mais um importante passo na pirâmide que ano a ano estreita até a profissionalização; a comissão técnica assume a devida responsabilidade profissional de, por estar no dia-a-dia de treinos e, mais do que os dirigentes, ter a obrigação de conhecer profundamente cada um dos seus jogadores, opinar favorável ou contrariamente a promoção de categoria e ser cobrada futuramente por isso; os dirigentes, com o registro de todos os seus produtos e potencial de valor agregado pode se posicionar perante a concorrência e fazer as readequações estratégicas necessárias; e os investidores poderão saber como andam seus investimentos e para quando está previsto o retorno.

É certo que na vida, digo, no futebol, muitos acontecimentos nos distanciam das práticas descritas acima. Interesses pessoais, influências políticas, autonomia limitada, entre outros fatores presentes no futebol, digo, na vida, ocorrem e sempre ocorrerão.

Para quem não aguarda o “mundo ideal”, já mencionado em outra ocasião, tem muito com o que contribuir para profissionalizar os procedimentos nas categorias de base. Para isso, é fundamental ampliar as discussões profissionais e não opiniões pessoais sobre cada jogador.

Caso alguém se interesse por uma planilha-modelo simples para fazer um relatório anual de um jogador, escreva-me.

Quantos atletas você irá subir de categoria?

Abraços e até a próxima semana!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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Túlio Prado, autor do livro “A Ciência da Grande Area”

Uma inquietação de Túlio Gustavo do Prado Freitas compartilhada com alguns colegas acadêmicos. Esse foi o mote para que o professor mestre do curso de Educação Física da Universidade de Uberaba (Uniube), com a colaboração de diversos renomados pesquisadores de instituições como Unicamp, USP, UNESP, UFPR, entre outras, organizasse o livro “A Ciência da Grande Área: futebol e conhecimento interdisciplinar”.

A obra procura tornar públicas algumas das discussões e defesas de Túlio Prado a respeito da necessidade de se conduzir mais profissionalmente o futebol no Brasil. E nela são reunidas algumas das áreas mais relevantes da modalidade, tais como a psicologia, a fisiologia, o direito, o treinamento e a nutrição.

Ex-atleta de categorias de base, o gerente da FutArte Escola de Futebol e da TecnoSports Consultoria Esportiva sempre teve muito interesse pelos métodos utilizados pelos treinadores e preparadores físicos com quem conviveu. Assim, resolveu se graduar e, depois, especializar-se em treinamento esportivo.

Há 12 anos trabalhando como coordenador e treinador de escolas de futebol, paralelamente à carreira como docente universitário, Túlio Prado, que diz estar satisfeito com o retorno que tem recebido dos leitores, também mergulhou na área de gestão.

“Talvez a principal contribuição da Administração seja possibilitar uma visão mais sistêmica sobre o tema do futebol. Alguns conceitos extremamente importantes, como o planejamento e a gestão de projetos, são de grande valia para os profissionais do esporte”, revela nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Para ele, o excesso das metodologias tecnicistas pode tolher a criatividade e inventividade que tanto se destacou nos craques brasileiros. Mas não se pode ser contra a existência das escolinhas que em alguns bairros são o único local onde a criança pode praticar o futebol.

O professor mineiro entende ser inconcebível que um clube que tenha em seu grupo principal um grande número de jogadores recebendo salários mensais astronômicos e alegue não ter dinheiro para implementar um departamento voltado à descoberta de talentos.

“Ora, se o clube não tem esse trabalho de captação, acaba ficando refém dos olheiros amadores e dos agentes que nem sempre têm interesses comuns aos seus”, completa.

Confira a agenda da Universidade do Futebol

 

Universidade do FutebolQual é a sua trajetória profissional, sua formação acadêmica e seu ingresso no ambiente do futebol?

Túlio Prado – Fui atleta de categorias de base e sempre tive muito interesse pelos métodos utilizados pelos treinadores e preparadores físicos com quem convivi. Assim, resolvi cursar a faculdade de Educação Física e, posteriormente, especializar-me em treinamento esportivo.

Em 2003, conclui o meu mestrado com uma pesquisa sobre futebol. Estou há 12 anos trabalhando como coordenador e treinador de escolas de futebol, paralelamente à carreira como docente universitário.

Universidade do FutebolQuando surgiu a ideia dessa obra e como foi delineada a produção?

Túlio Prado – O livro nasceu de uma inquietação minha e de alguns colegas acadêmicos, já que sempre discutimos e defendemos a necessidade de se conduzir mais profissionalmente o futebol no Brasil.

Temos excelentes profissionais atuando nesse mercado, mas a grande maioria não consegue desenvolver projetos que integrem diferentes saberes. Especialistas de diversas áreas atuam em um clube, mas, normalmente, cada um faz a sua parte, sem conseguir atuar de maneira realmente integrada.

Assim, surgiu a ideia de reunir em um livro os conhecimentos de algumas das áreas mais relevantes do futebol, tais como a psicologia, a fisiologia, o direito, o treinamento e a nutrição, entre outras. O passo seguinte foi convidar pesquisadores e profissionais que representassem cada uma dessas áreas para que pudessem contribuir com capítulos no livro.

Temos consciência de que muitas outras áreas poderiam ter sido abordadas, já que o futebol é um esporte extremamente amplo e dinâmico. De qualquer maneira, estamos satisfeitos com o retorno que temos recebido de nossos leitores.

Universidade do FutebolAlém de mestrado em Educação Física, você também cursa Administração. Como essas duas graduações se convergem em sua compreensão e capacidade analítica do futebol?

Túlio Prado – Talvez a principal contribuição da Administração seja possibilitar uma visão mais sistêmica sobre o tema do futebol. Alguns conceitos extremamente importantes, como o planejamento e a gestão de projetos, são de grande valia para os profissionais do esporte.

Infelizmente, no entanto, embora seja comum ouvirmos que “o treinador fez o planejamento para a temporada”, na realidade o que mais se faz é apenas um esboço que não considera detalhadamente aspectos como a análise de forças, fraquezas, oportunidades, ameaças, recursos e alternativas, entre outros.

As gestões de conhecimento e de pessoas também são áreas que enriqueceriam o trabalho de qualquer profissional do futebol.

Em suma, o futebol é encarado como um objeto de caráter eminentemente subjetivo e, com o auxílio da Administração, podemos enxergá-lo de uma maneira mais objetiva e concreta.

Universidade do FutebolNo segundo capítulo da obra organizada por você, é tratado o tema “Futebol de base e psicologia do esporte”. Quais as especificidades de um trabalho nessa área com jovens em formação, ainda mais em se tratando de uma competição tão midiática quanto a Copa São Paulo de Futebol Júnior?

Túlio Prado – Esse capítulo, sobre a psicologia do esporte, foi escrito pelo amigo Bruno José de Mattos, que além de psicólogo é profissional de Educação Física com mestrado na área.

Concordo com o Bruno quando ele afirma que um dos aspectos mais importantes é o controle da ansiedade. Os garotos vivenciam a Copa São Paulo como a ponte que separa o fracasso do sucesso. De acordo com essa visão, ao jogá-la pode-se ficar de vez no ostracismo ou, então, dar o primeiro passo rumo ao reconhecimento e ao sucesso.

Considerando que a maior parte desses jovens vem de famílias de baixo poder aquisitivo, a pressão para que consigam a ascensão econômica também representa um fator extremamente estressante.

E, a meu ver, mais importante ainda seria a preparação psicológica dos treinadores, que podem fazer a diferença pela maneira como conduzem o seu convívio com o grupo de jogadores. Um profissional que privilegie alguns em detrimento de outros pode ser o causador de uma série de problemas no curto prazo.

Em 2011, o Flamengo faturou uma das mais importantes competições das categorias de base; aspecto emocional condiciona a Copa SP

 

Universidade do FutebolAlém disso, em sua avaliação, qual a fronteira entre a participação do preparador físico no amparo psicológico aos atletas, e o trabalho propriamente dito de um profissional específico da área?

Túlio Prado – O preparador físico é quase sempre aquele que tem mais contato os atletas e essa condição deve ser usada como um recurso para se conhecer melhor o grupo e para desenvolver os comportamentos considerados positivos.

Ao ter acesso aos jogadores, esse profissional pode estimular situações e posturas que sejam favoráveis ao ambiente e ao progresso do trabalho. Neste sentido, é fundamental que não só o preparador físico, mas toda a comissão técnica trabalhe conjuntamente com o psicólogo do esporte a fim de identificar os objetivos e analisar a abordagem que será adotada.

Universidade do FutebolComo você vê, dentro do âmbito escolar e das próprias escolinhas de futebol, a possibilidade de instrumentalizar o futebol para integrar novos conhecimentos?

Túlio Prado – Esse é um dos grandes desafios da pedagogia do esporte. Estou certo de que essa instrumentalização seja possível e cada vez mais necessária. A questão é como implementá-la sem que tenhamos recursos humanos com o conhecimento, as habilidades e, sobretudo, a atitude para fazê-la.

Ou seja, é preciso ensinar os novos profissionais a pensar e a agir diferente. E esse é um papel que deveria ser cumprido pelas universidades brasileiras, mas que em minha análise está longe de ser efetivado.

Universidade do FutebolO fato de as crianças não brincarem mais tanto de futebol, desenvolvendo essa atividade majoritariamente em escolinhas ao comando de um professor muitas vezes tecnicista, pode acarretar em uma perda da identidade brasileira ao longo do tempo?

Túlio Prado – Não podemos ter dúvidas disso. Aliás, precisamos encarar essa realidade com a seriedade que ela exige.

O excesso das metodologias tecnicistas pode tolher a criatividade e inventividade que tanto se destacou nos craques brasileiros. Não se pode, no entanto, ser contra a existência das escolinhas que em alguns bairros são o único local onde a criança pode praticar o futebol, já que o processo de urbanização das cidades, assim como a violência crescente, tem forçado para a extinção das “peladas na rua”, que foram os grandes laboratórios da ginga brasileira.

Assim, penso que as escolas de futebol podem ter uma contribuição valiosa no processo formativo dos futuros atletas, desde que os professores saibam equilibrar o seu poder de comando com a liberdade de ação e a ludicidade de seus alunos.

Universidade do FutebolQual é a sua avaliação sobre a formação de atletas de futebol no Brasil? Os grandes clubes formadores sabem exatamente que jogador estão procurando para fazer parte desse contexto?

Túlio Prado – Após coordenar escolas de futebol vinculadas a dois grandes clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, tenho a convicção de que a resposta a essa questão não é a que gostaríamos que fosse.

No “país do futebol” ainda há uma grande dificuldade no estabelecimento das metas e nos procedimentos de seleção, detecção e promoção de talentos. Além dos problemas políticos internos, tais como a influência obscura dos interesses de diretores e agentes, os clubes parecem não entender que o departamento de base é o seu bem mais valioso e, como tal, deveria ser de gestão prioritária.

Especificamente em relação à área técnica, percebe-se a ausência de um padrão de trabalho, culminando para uma autonomia profissional que nem sempre é positiva ao clube. Um exemplo é um treinador da categoria sub-15 que monta o seu time de acordo apenas com as suas preferências e convicções pessoais, sem respeitar a filosofia de trabalho defendida pelo coordenador da base.

Os treinadores, às vezes, se esquecem de que mais importante que a vitória em um jogo ou um título de torneio, o seu papel é formar e promover os atletas para as categorias seguintes. Afinal, se essa promoção for bem sucedida, mais garotos formados na casa chegarão à equipe profissional, a um custo muito menor que a contratação de atletas formados fora.

Além disso, é inconcebível que um clube que tenha em seu grupo principal um grande número de jogadores recebendo salários mensais de 50, 100, 200 mil reais, alegue não ter dinheiro para implementar um departamento voltado à descoberta de talentos, com três ou quatro profissionais com conhecimento e recursos tecnológicos para percorrer as cidades em busca de jovens com alto potencial.

Ora, se o clube não tem esse trabalho de captação, acaba ficando refém dos olheiros amadores e dos agentes que nem sempre têm interesses comuns aos seus.

Para Túlio Prado, se o clube não tem um trabalho de captação profissional, acaba ficando refém de olheiros amadores e agentes nem sempre confiáveis

 

Universidade do FutebolNos fóruns de discussão sobre a modalidade, muito se fala sobre a importância da “dimensão técnica”. Sobre qual processo os profissionais devem se orientar: por aquele orientado por um “estereótipo” de gesto “perfeito”, em que se estabelece biomecanicamente o que é bom e o que não é, ou o que é a expressão da autonomia e criatividade do indivíduo, para resolver problemas do jogo quando ele está ou não de posse da bola? Em outras palavras, o treinamento técnico deve partir da técnica ao jogador ou do jogador à técnica?

Túlio Prado – Deve-se lembrar sempre que os atletas são diferentes entre si, tanto anatomicamente, com alavancas corporais distintas, como intelectual e emocionalmente. Assim, há uma diversidade de maneiras pelas quais um indivíduo pode aprender a uma tarefa, da mesma maneira que o gesto perfeito para um pode não sê-lo para outro.

Além disso, essa questão é um bom exemplo para discutirmos os conceitos de eficiência e eficácia. Ao se executar um gesto biomecanicamente perfeito, o atleta estará sendo eficiente, o que não significa que foi eficaz. Um atleta que bate na bola com estilo e classe não necessariamente estará acertando o passe ou fazendo o gol.

Por outro lado, um atleta que não tenha o movimento limpo e correto pode ter um excelente aproveitamento em suas ações técnicas.

Ou seja, acho que é importante estimularmos o gesto mais bonito, mais plástico e mais econômico do ponto de vista energético, mas é fundamental que respeitemos as características de cada atleta.

 “É importante estimularmos o gesto mais bonito, mais plástico e mais econômico do ponto de vista energético, mas é fundamental que respeitemos as características de cada atleta”.

 

Universidade do FutebolEm se considerando treinamentos mais complexos e integrados, como devem ser orientados os ensinamentos táticos nas categorias de base?

Túlio Prado – Isso depende muito da faixa etária, da experiência e do nível dos jogadores. A orientação dada a uma equipe sub-13 é totalmente diferente do trabalho realizado com a categoria sub-17, por exemplo.

Entretanto, de maneira geral, os jogos situacionais que proporcionem o maior número de ações específicas e realistas, possibilitam um grande aprendizado das questões táticas.

O erro mais comum nesse caso é quando o treinador conduz exaustivamente a atividade prática, cobrando o envolvimento e a intensidade das ações, mas peca na discussão e na análise do que foi aplicado. Ou seja, tão ou mais importante que fazer na prática, é discutir com os seus atletas o que foi realizado.

Deve-se reservar um tempo maior para o aprendizado teórico e para a reflexão sobre as movimentações que ocorrem no futebol. Importa ainda ressaltar que o hábito de analisar com os jogadores os vídeos de jogos da própria equipe e de times de referência, pode representar um grande diferencial no aprendizado tático.

Universidade do FutebolA partir de que faixa etária deve haver uma preocupação didática em explicar e discutir os treinos? Esses atletas jovens podem desenvolver um processo de autonomia e participar da construção de uma atividade?

Túlio Prado – Em minha experiência pude perceber que a partir de 7 anos já é possível e valiosa a discussão das atividades. É claro que o formato e a complexidade desse processo devem ser moldados às limitações de interpretação das crianças.

Quanto à autonomia, é sempre interessante deixar um espaço para que os jovens possam expressar os seus interesses e preferências. Evidentemente, o professor ou o treinador devem saber se o momento permite a flexibilização das atividades, tendo a preocupação de cuidar para que os objetivos de médio e longo prazo não sejam prejudicados.

Experiente no comando de escolas de futebol, Túlio Prado afirma que, a partir de 7 anos de idade, já é possível e valiosa a discussão das atividades com os alunos

 

Universidade do FutebolEm se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? É possível se falar em escolas regionais de futebol?

Túlio Prado – O futebol, como qualquer jogo esportivo, é uma manifestação da cultura. Assim, a nossa formação como seres sociais influencia a maneira como vimos e praticamos o futebol.

Por outro lado, embora eu respeite os colegas que acreditam nas escolas regionais, tenho uma dificuldade para aceitar que a globalização do futebol ainda permita a existência de estilos de jogos caracterizados geograficamente.

Acredito muito mais na determinação de estilos de treinadores, que têm mais relação com a sua experiência anterior como jogador profissional ou amador e com a sua formação intelectual, cultural e teórica, que com a região, estado ou país nos quais o clube esteja localizado.

Universidade do FutebolVocê participou da primeira turma do Curso Master em Técnica de Campo. Qual a sua avaliação geral sobre o projeto, quais foram as suas principais absorções e como enxerga o cenário para qualificação de profissionais de futebol no Brasil hoje?

Túlio Prado – Considero-me um felizardo por ter participado da primeira turma desse curso. Como resido em Uberaba, a 470 km de São Paulo, participar desse projeto exigiu uma grande dedicação, sobretudo pelas viagens semanais. E a minha análise é que o retorno que obtive foi extremamente positivo.

Quando se faz um curso na área de futebol, normalmente buscamos mais que a troca de informações e a aquisição de novos conhecimentos. Queremos também uma possibilidade de networking, de ter acesso real aos palestrantes e aos demais alunos. E esse foi uma grande característica desse curso.

Tive a oportunidade de conhecer o Prof. João Paulo Medina, idealizador do curso, e pude perceber que tão grande quanto a sua enorme experiência no futebol é a sua simplicidade e o seu comprometimento com os seus projetos.

Quanto à qualificação profissional no futebol, vejo que o mercado está sedento por iniciativas como o curso promovido pela FPF e pela Universidade do Futebol. Os novos profissionais sabem que a capacitação é um dos melhores recursos para quem quer entrar no mercado e os que já atuam na área estão cada vez mais conscientes que, ou abrem a cabeça para o conhecimento, ou correm o risco de perder o seu espaço.

Essa é a hora da verdade. O futebol brasileiro precisa lutar para manter-se no topo. E, para isso, precisamos cada vez mais da oferta de livros, eventos, congressos e cursos que possibilitem a discussão e o enriquecimento de nossa formação e de nossa atuação profissional.

Túlio Prado participou da primeira turma do Curso Master em Técnica de Campo; na segunda edição, realizada neste semestre, Carlos Alberto Parreira (foto) conferiu a aula magna

 

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Sérgio Odilon, treinador da equipe sub-15 do Corinthians 
Marquinhos Santos, treinador da seleção brasileira sub-15
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Ricardo Perlingeiro, treinador das categorias de base da AS Roma
Diogo Giacomini, treinador do sub-17 do Atlético-MG
Vinícius Eutrópio, treinador de futebol

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Vai dar liga

Na última semana iniciou-se mais uma edição da NBB (Novo Basquete Brasil), liga de clubes de basquete que equivale ao Campeonato Nacional da categoria.

As ligas, nos termos do art.13, da Lei 9615/98, conhecida como Lei Pelé, fazem parte do Sistema Nacional do Desporto e, conforme o artigo 16, são pessoas jurídicas de direito privado, com organização e funcionamento autônomo, e terão as competências definidas em seus estatutos, podendo filiar-se ou vincular-se a entidades nacionais de administração do desporto, vedado a estas, sob qualquer pretexto, exigir tal filiação ou vinculação. Ou seja, a Lei Pelé autoriza a criação de ligas independentes.

A NBB nasceu de forma independente em 2005, com o nome de NLB (Nossa Liga de Basquetebol), eis que não possuía o reconhecimento da Confederação Brasileira de Basquete tendo, inclusive, coexistido com o Campeonato Nacional. A partir de 2008 a Liga se filiou à CBB com o nome de NBB (Novo Basquete Brasil).

Ressalte-se que, conforme estabelece o artigo 20, da Lei Pelé, as entidades de prática desportiva participantes de competições do Sistema Nacional do Desporto poderão organizar ligas regionais ou nacionais, comunicando-se a sua criação às entidades nacionais de administração do desporto das respectivas modalidades.

Estas ligas integrarão os sistemas das entidades nacionais de administração do desporto que incluírem suas competições nos respectivos calendários anuais de eventos oficiais, outrossim, é vedada qualquer intervenção das entidades de administração do desporto nas ligas que se mantiverem independentes.

Destarte, as ligas em que se organizarem, independentemente da forma jurídica adotada, sujeitam os bens particulares de seus dirigentes ao disposto no art. 50 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002, além das sanções e responsabilidades previstas no caput do art. 1.017 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002, na hipótese de aplicarem créditos ou bens sociais da entidade desportiva em proveito próprio ou de terceiros, ou seja, pode haver a desconsideração da pessoa jurídica e eventual execução afetar o patrimônio pessoal dos dirigentes.

No que concerne às questões disciplinares, as ligas poderão instituir sua própria Justiça Desportiva para julgamentos atinentes às suas competições.

Ante o exposto, percebe-se a possibilidade legalmente reconhecida de os clubes buscarem competições alternativas por meio de ligas independentes que podem, inclusive, auxiliar no desenvolvimento da modalidade esportiva, como ocorreu no basquete brasileiro que, após a criação da liga independente, conseguiu maior receita e visibilidade (este ano a final da NBB será transmitida pela Rede Globo).

Tais fatos, certamente, contribuíram para que o basquete brasileiro retornasse aos Jogos Olímpicos.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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O individual e o coletivo: pequena reflexão filosófica

Todos sabem e o repetem: uma equipa de futebol não são onze jogadores. E é verdade: onze jogadores, com o mesmo treinador e as mesmas camisolas não constituem automaticamente um “team” de futebol. Para haver um coletivo, é preciso haver uma determinada qualidade, no relacionamento entre todos os elementos que constituem um departamento de futebol, incluindo os atletas superdotados e supertreinados. E ainda uma determinada quantidade onde a qualidade se concretize e realize.

Uma equipa não é um dado imediato. É o resultado concreto de um trabalho que se realizou em conjunto e deliberadamente. A mera aglomeração de jogadores, mesmo que discutindo problemas e tomando decisões, não faz imediatamente uma equipa. Porque o coletivo não nasce de um instante, é obra permanente de constituição e de exercício. Ele faz-se porque se vai fazendo…

Não pode exigir-se aos “torcedores” uma profunda capacidade reflexiva e crítica. Eles vão aos jogos, acima do mais, para aplaudirem as vitórias dos seus clubes. Dificilmente compreenderão (e aceitarão) que uma equipa recém-formada, mesmo com atletas de reconhecido valor, só pela conjunção de fatores favoráveis poderá render tudo o que está ao seu alcance. E os dirigentes, pressionados pelos sócios, assumem por vezes posicionamentos, onde a paixão obnubila a razão, onde a sensatez mal se vislumbra.

Ouçamos, a propósito, José Barata-Moura: “O característico de uma visão imediata do real é precisamente esta permanência do disperso, no separado, no isolamento dos diferentes elementos que a experiência nos fornece ou impõe. Neste sentido, poderemos verdadeiramente dizer que uma visão imediata da realidade objetiva constitui, no fundo, uma visão abstrata, isto é, uma visão do mundo onde aspetos essenciais foram deixados ou postos de parte, não apenas em virtude de uma legítima e necessária delimitaçãio (.), mas com o intuito, deliberado ou não, de (.) proceder a uma certa absolutização do parcelar, do momentâneo, do finito” (Totalidade e Contradição, Livros Horizonte, p. 121).

Hão-de ser os investigadores, os estudiosos (despidos da máscara rude dos que se julgam donos da verdade, teorizando só e sem relação interdisciplinar com a prática), a propor: não é com onze jogadores que se faz uma equipa, mas com onze jogadores que se relacionam e se subordinam às exigências do todo. O Marx dos Grundisse pode aqui ser invocado: “A sociedade não consiste em indivíduos, mas expressa a soma das ligações e relações que esses indivíduos têm entre si”. E assim uma equipa coesa não nasce de um dia para o outro. Faz-se e… demora tempo!

Quando se tem em conta as contradições de que o todo se compõe, percebe-se o processo moroso onde a unidade não exclui, antes exige, a estrutura dialética dos contrários… internos e externos à própria equipa. Aliás, são as contradições que permitem o desenvolvimento do todo. E assim um grande jogador só o é, em função do seu vínculo às necessidades da equipa.

Não existem praticantes de invulgar capacidade individual, desinseridos da equipa. Também o praticante está situado num espaço e num tempo e é daí que ele surge como atleta de eleição. Efetivamente, cada atleta, em plena competição, é um dos momentos de uma totalidade em devir, é o imediato que, para compreender-se, há-de saber integrar-se num mais amplo e complexo sistema de relações.

Com isto, não se defende que um Messi, ou um Cristiano Ronaldo, ou um Neymar, devam morrer, na férrea prisão de uma tática castradora, mas que nela se devem criar condições para que o atleta se realize. Ser um atleta genial é sem dúvida distinguir-se pelos primores técnicos, pela inteligência tática e pelo alto rendimento, em relação aos demais colegas de equipa, mas é também estar essencialmente em relação com todos eles.

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br