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Lista de Desejos para 2020

Em tempos de virada de ano reflete-se o que foi feito nos últimos 365 dias e é comum definir metas e ações para o próximo ciclo. Longe da falta de criatividade ou da urgência em escrever algo, é frequente lermos textos dos mais diversos temas que listam aquilo que se espera para o próximo ano. Por mais que o cenário seja utópico e o contexto, complexo, pontuar o que se quer não é vulgar e serve de norte para onde se quer chegar.
No cenário da gestão e, especificamente marketing esportivo dentro do futebol, eis uma breve lista do que se espera para 2020:

  • Que a transparência nas ações das entidades de administração do esporte em nosso país seja prioridade;
  • Que o marketing do futebol trabalhe de maneira incansável na luta contra a intolerância, o racismo e a xenofobia;
  • Que exemplos de boa conduta e cidadania sejam comunicados, a fim de reforçar que o esporte é fonte inesgotável destes bons exemplos;
  • Que as boas práticas de gestão sigam contribuindo com bons resultados dentro e fora de campo;
  • Que as organizações esportivas saibam de maneira clara dos seus propósitos e trabalhem para eles de maneira profissional;
  • Que o futebol seja ainda mais gerador de emprego, renda e riqueza;
  • Que o produto “futebol do Brasil” seja valorizado, em respeito ao torcedor e ao atleta;
  • Que o marketing do futebol seja um manancial de estudos acadêmicos, afinal a ciência conduz à inovação e inovação é condição sine qua non para o desenvolvimento;
  • Que todos tenhamos paciência, porque os resultados não acontecem do dia para a noite;

 

Antes de tudo, não se pode esquecer da essência do futebol, e o que se quer para ele. (Foto: Divulgação/Reprodução)

  • Que os projetos conduzam para os resultados e não o contrário;

 

Um ano 2020 repleto de conquistas e realizações!

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Há quem sustente que o futebol não tem nada a ver com a vida do homem, com as suas coisas mais essenciais. Não sei o quanto essa gente sabe da vida, mas de algo estou seguro: não sabem nada de futebol.”

Eduardo Sacheri,
escritor argentino

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Técnico estrangeiro vem porque tem conhecimento

A moda é clara e evidente: o número acima da média de técnicos estrangeiros desembarcando no futebol brasileiro segue uma ingênua e pobre tendência de copiar o que deu certo. Dá muito trabalho e exige conhecimento entender os pormenores de todo um processo que foi vitorioso. É muito mais fácil ir na ponta do iceberg: se os dois primeiros colocados do Brasileirão tiveram treinadores de fora do Brasil vamos imita-los e teremos os mesmos resultados, pensam alguns dirigentes.
Mas o que quero aqui não é dissecar a falta de preparo de gestores que buscam muito mais fazer política e agradar a torcida com contratações, sejam elas de treinadores e jogadores. Penso que o que vale é voltarmos nosso olhar para o mercado de técnicos e entender o que há, além desse modismo, de diferente entre os brasileiros e estrangeiros e porque além de perder mercado mundo afora alguns profissionais não estão nem mais conseguindo trabalhar por aqui.
Primeiro de tudo, o futebol não é uma ilha, isolado de tudo. Estamos inseridos dentro de uma sociedade, de um país. E tradicionalmente no Brasil não há incentivo para o estudo, para a leitura. Já coloco esse como um grande ponto de corte: nossos treinadores, de maneira geral, não se debruçam na parte teórica do jogo. Se em Portugal, por exemplo, as grandes universidades moldaram os melhores técnicos que eles têm, aqui contamos nos dedos as poucas obras literárias produzidas para documentar a evolução do jogo jogado no Brasil.
Ainda na parte acadêmica, agora que a CBF começou a se preocupar com cursos e formações. Se na Europa não é possível trabalhar sem as licenças, porque há um entendimento de que metodologia de treinos, conceitos de jogo e etc são importantes, por aqui qualquer um que ‘chupou laranja’ em algum vestiário pode ser técnico.
Compreendo nossa cultura resultadista, e tudo o que acarreta o famigerado número de três derrotas seguidas. Me coloco no lugar dos treinadores que pensam: “como vou estudar e buscar abordagens mais modernas de treino e jogo se preciso sobreviver no cargo?”. Mas o paradigma precisa ser quebrado.
O técnico de futebol tem que entender que o jogo mudou. Padrões de comportamento em campo com e sem a bola só são criados se houver uma metodologia avançada de treinamentos. A figura do líder de campo não pode mais ser apenas o cara motivador. O jogador só vai literalmente comprar a ideia se perceber que vai melhorar e se desenvolver se cumprir o que o treinador pede. Hoje em dia, a informação está aí para todos. Só não cresce e evolui quem não quer. Hoje é o modismo do técnico estrangeiro. Amanhã pode ser outra coisa. Mas como em qualquer área de atuação o profissional atualizado, competente, inquieto e ávido por saber o que se passa no mundo, não ficará sem trabalho. Talvez os técnicos brasileiros perdendo até o mercado doméstico passem a dar mais valor ao conhecimento.
 

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Futebol é ciência

É semana de Natal! Tempo de reflexão e confraternização. É costume trocar presentes e também época de boas novas, assim como foi há pouco mais de dois mil anos. Muito longe de quaisquer comparações, uma boa nova destes dias é a probabilidade da chegada de mais um treinador português para o futebol do Brasil: Jesualdo Ferreira, para o Santos Futebol Clube. Bom, esta coluna está sendo escrita na segunda-feira (dia 23), nada ainda até agora foi definido, por isso da expressão “probabilidade”. Independentemente da vinda dele, é notável a numerosa presença de técnicos portugueses nas principais ligas de futebol do mundo.

Notável, mas não surpreendente.

Há quase quatro décadas que o ensino superior em Portugal, através das suas principais escolas, dedica-se a entender o esporte, e claro, o futebol, como uma ciência. Quer seja dentro de campo, através das análises de jogo; ou fora dele, quando se estuda a gestão da modalidade. Todos os fenômenos são possíveis de serem estudados, analisados, quantificados e compreendidos. Com isso, há o controle e, com o controle, é possível gerir as situações em jogo e aquelas que o influenciam diretamente.

José Mourinho, renomado treinador português de futebol. (Foto: Divulgação/Reprodução)

 

Os grandes treinadores portugueses, sejam eles mais velhos ou mais novos, tiveram em maior ou menor escala contato direto com esta ciência. Há quem diga que o futebol não é uma ciência completamente exata, entretanto, ela te dá as condições para que a chance do erro seja infinitamente menor. Ao mesmo tempo, tem sido provado todos os dias que é sim possível combinar um bom futebol com boas práticas de gestão.

Os resultados de todos esses estudos, que começaram há décadas, não surgiram de maneira imediata. Demoraram para acontecer. O protagonismo mundial que o futebol luso possui levou tempo para que acontecesse. Houve um brilho nos anos 60 do século passado que levou muitos anos para voltar. Em uma primeira análise, especificamente em Portugal e em comparação com o Brasil, o imediatismo não conduz o plano de ação e a opinião pública cobra, sobretudo, pelo bom senso. Por estas bandas, hoje enxergam-se mudanças, mas historicamente é completamente o contrário. Neste cenário, entende-se a frase que esta coluna gosta muito, do Professor português Gustavo Pires: “o problema é que, no mundo do esporte, em inúmeras situações, os projetos decorrem dos resultados e não são os projetos que dão origem aos resultados”.

Diante disso, especialistas falam muito sobre um retrocesso do futebol no Brasil nos últimos anos e isso passa pelos 7 a 1 de 2014 e da ausência do país no topo do mundo da modalidade. Por isso é tempo e urgente que, seja no futebol ou em todos os campos da sociedade, tergiversemos da ambição desmedida, personalista e do imediatismo, para se agir com bom senso e planejamento (projetos), a fim de compreender as situações e resolvê-las e, deste jeito, deixar um legado (resultados).

Um Feliz Natal!

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

 

“O futebol é um serviço público.”
Professor Manuel Sérgio,
Filósofo português (1933 – )

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O retrocesso do Palmeiras com Luxemburgo

Caiu por terra o discurso do presidente do Palmeiras, Maurício Galiotti, sobre modernizar o futebol do clube ao trazer o técnico Vanderlei Luxemburgo. Quando demitiu Mano Menezes e Alexandre Mattos, ainda nos vestiários após a derrota pro Flamengo, pelo Brasileirão, Galiotti usou até o termo “modelo de jogo”. Ele queria modelo diferente. Fiquei com uma expectativa altíssima, já que sonho em ver um dirigente estatutário entender sobre ideias e conceitos de jogo, padrões de comportamento com e sem a bola. Mas ao trazer de volta Luxemburgo, o Palmeiras escancara que não liga a mínima para modelo de jogo – talvez nem saiba exatamente a que esse termo se refere – e que o viés político se sobrepõe a qualquer maneira organizada e planejada de tocar o departamento de futebol.
Luxemburgo foi um dos principais técnicos que vi trabalhar. Entre a década de 90 e o início dos anos 2000 suas equipes me encantaram pela maneira ofensiva de dominar os adversários. Mas há uns bons anos, Vanderlei vem se notabilizando por trabalhos na média e por declarações desdenhando do novo olhar que o futebol contemporâneo exige. A impressão que passa é que para ele tudo continua como há vinte anos, sendo que o futebol evoluiu duzentos anos em vinte nos aspectos táticos, físicos, metodológicos e até na gestão do vestiário.
Não há nenhum indício de que Luxemburgo conseguirá, com suas competências atuais, transformar esse Palmeiras radicalmente. Não vejo nada muito diferente no modus operandi, por exemplo, dele para Felipão e Mano Menezes que fracassaram no Palestra Itália em 2019.
Mas a maior decepção para mim está no Palmeiras ter um discurso falsamente moderno e decisões impetuosas e amadoras. É claro que o técnico preferido era Jorge Sampaoli, mas fica claro que muito mais pelo nome do que pela ideia que ele carrega. Fosse a ideia o grande chamariz e diretriz a ser seguida o nome contratado não seria Vanderlei Luxemburgo. Entendo a pressão e até a necessidade de ser definir o quanto antes o comandante para 2020. Entretanto, tudo no Palmeiras me parece muito mais coração do que razão: da demissão de Mano e Mattos a chegada de Luxa.
 

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Sobre a noção de superioridades no futebol – Parte II

Edmundo e Romário, em 2000: superioridade sócio-afetiva? (Foto: Reprodução/torcedores.com)

 
Não faz muito tempo, conversamos aqui sobre a noção de superioridades no futebol. Apenas para lembrarmos, naquele texto nós falamos primeiro da diferença entre superioridades absolutas e relativas, depois tratamos de três divisões, que são algumas das mais conhecidas: a superioridade numérica, a superioridade posicional e a superioridade temporal. E para cada uma delas, deixei algumas observações que julgo importantes.
Muito bem, seguindo o que havíamos combinado, gostaria agora de avançar para outros dois tipos de superioridades: a superioridade qualitativa e a superioridade sócioafetiva.

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Quando falamos de superioridade qualitativa, é claro que falamos, diretamente, disso que chamamos de qualidade. Só que quando falamos de qualidade, geralmente tomamos duas noções como verdade: que a qualidade é individual e que a qualidade é técnica. Não por acaso, a superioridade qualitativa normalmente aparece em situações de 1 v 1, e supostamente se define pela qualidade técnica de um dos dois jogadores envolvidos no lance (repare ainda que geralmente associamos a noção de qualidade ao portador da bola; não por acaso, a qualidade costuma ter um viés ofensivo)
Neste sentido, podemos então traçar uma linha: um pré-requisito para a superioridade qualitativa é precisamente a ausência da superioridade numérica. Pois se eu tenho uma situação de 3 v 1 ofensiva, é muito provável que a minha vantagem, antes de ser qualitativa, seja exatamente numérica. Para que a qualidade de um dado atleta influencie o andamento de uma certa jogada, é preciso que ele esteja ou em igualdade numérica (geralmente em situações de 1 v 1, mas não apenas) ou mesmo em inferioridade numérica, onde talvez a qualidade seja ainda mais decisiva.
Só que, por outro lado, as fronteiras que separam a superioridade qualitativa da superioridade posicional ou da temporal são muito tênues. Vamos tomar como exemplo este lance, que viralizou bastante, deste excelente zagueiro holandês que é Virgil van Dijk, do Liverpool, em jogo contra o Tottenham, na última temporada. Van Dijk está em situação de 1 v 2, inferioridade numérica, as costas descobertas, em transição defensiva com altíssimo risco de finalização do adversário. Para amenizar a situação, ele faz o que nossos colegas portugueses chamam de temporizar, que podemos chamar aqui de princípio da contenção, ou seja, ele retarda o andamento da jogada tanto quanto possível (precisamente para conter danos). Ao mesmo tempo, direciona o portador da bola para uma determinada região. Ali, ele preferiu a finalização de perna esquerda de Mohamed Sissoko (que é destro), ao invés de deixá-lo passar para Heung-Min Son – este muito melhor finalizador. Van Dijk não conseguiu bloquear a finalização, mas foi bem sucedido no arrastamento do lance, que não se converteu em gol. Não seria esse um exemplo de superioridade qualitativa?
Se sim, então concordaremos que a superioridade qualitativa não é necessariamente técnica. Na verdade, antes disso, ela é tática. Essa qualidade de que falamos nasce precisamente da capacidade de cuidar bem dos espaços (portanto, de cuidar bem do tempo), para então, em seguida, tomar uma certa decisão técnica. A superioridade de van Dijk nasce precisamente da sua inferioridade numérica, ela se faz pela tática (antes de se fazer pela técnica) e talvez pudesse se fazer ainda mais numa situação de 2 v 3, com um companheiro lhe ajudando na defesa, pois não sendo apenas técnica, a superioridade qualitativa não precisa aparecer só na individualidade (do portador da bola, por exemplo).
Talvez ela esteja para além disso.

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Isto dito, vamos avançar para uma última noção de superioridade: a superioridade sócioafetiva. Salvo engano meu, este é um termo criado pelos nossos colegas espanhois, mas que parece ter uma certa carência de registros escritos (aceito sugestões, inclusive). Mas, em linhas gerais, parece tratar da importância de cuidar das relações e de estimular um ambiente saudável (do ponto de vista emocional) para que o desempenho de um dado atleta ou equipe seja ainda melhor.
Se me permitem, gostaria de colocar essa questão de dois lados, como se fosse uma moeda. No primeiro lado, acho que todos concordamos que o cultivo de boas relações, de um bom ambiente de trabalho, é de fato fundamental. Quando nos sentimos respeitados, quando há um interesse no nosso trabalho, quando há um certo prazer da nossa parte em conviver com as pessoas com que convivemos e trabalhar com quem trabalhamos, é realmente provável que nos sintamos muito mais plenos, muito mais inteiros no ambiente profissional. Aliás, criar relações interpessoais saudáveis é uma arte, que deve ser cultivada com esmero e todos os dias e que exige, dentre outras coisas, que saibamos sair de nós mesmos, para enxergarmos o outro de novos lugares.
Com isto dito, permitam-me olhar o outro lado da moeda. É realmente correto vincularmos bons relacionamentos aos resultados? Porque se dissermos que sim, então teríamos de ignorar os incontáveis casos de desentendimentos, que vocês e eu sabemos e vivemos muito bem, de gente que não se suportava e mesmo assim trabalhava muito bem – ou que inclusive trabalhava ainda melhor exatamente porque não se relacionava bem com um certo colega de trabalho. Vejam bem, não estou dizendo que devamos cultivar relações ruins, evidente que não, estou dizendo que o fato de ter boas/ótimas relações não significa, em absoluto, que o rendimento será necessariamente melhor, e inclusive creio que essa visão é um tanto idealista, negando as ambivalências que fazem parte de qualquer relação humana (inclusive da relação com nós mesmos).
Neste sentido, pensando especialmente no processo formativo dos nossos jovens atletas, cito rapidamente um argumento bastante interessante do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, naquele excelente livro ‘Sociedade do Cansaço’, que já devo ter citado aqui outras vezes. Diz ele que uma das graves doenças do nosso tempo é precisamente a doença da positividade, do excesso de positividade, da ânsia pela positividade e do vício pela positividade. E como recusamos veementemente a negatividade, então vamos desaprendendo a lidar com o contrário, a lidar com o outro, com o outro lado de nós mesmos, com as relações que às vezes estão bem às vezes não, não sabemos nos posicionar num mundo em que tudo precisa estar positivo e feliz. Daí as nossas dificuldades tão evidentes e daí as minhas dúvidas sobre as potências reais da superioridade sócioafetiva.

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Muito bem, falamos portanto de cinco das possibilidades de superioridade: numérica, posicional, temporal, qualitativa e sócioafetiva. Ao invés de apresentar conceitos, achei melhor espremê-los um pouco, ver o que sai deles, sentir melhor o aroma e o gosto. Espero que tenha sido uma leitura agradável e que nos abra caminhos para outros debates neste sentido.
Continuamos em breve.
 

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O que um clube quer ser?

Todos queremos vencer. Estamos “no jogo” – e cada um no seu – justamente para isso. Vencer. Se não fosse por isso, não haveria motivos para arriscar-se tanto, diariamente, o tempo todo. Competir é importante, sim. Entretanto, não o mais importante. É preciso aceitar que não foi possível vencer, entender o que saiu de errado, procurar corrigir os erros e, na próxima vez, fazer melhor. Da derrota, ficam as lições.

Assim é o ser humano, ansioso e descontente com o que já conseguiu. Assim também são os grupos de indivíduos, representados por uma equipe de futebol, através de uma organização esportiva. Um clube. Ao mesmo tempo, há muito mais propósitos para uma instituição além de tornar-se campeã. Sim, há. Não é possível vencer o tempo todo, conquistar títulos, ganhar todos os domingos ou quartas-feiras, afinal os seus concorrentes perseguem a mesma coisa. Há dias bons, há dias bons em menor escala. Períodos de “vacas gordas” e de “vacas magras”. Assim como na vida de cada um.

É no período das “vacas magras” que a opinião pública não entende tanto a redução das conquistas; as crises, as mudanças. É um banquete para uma imprensa caça-cliques. Formadores de opinião desesperados urgem por investimentos imediatos, supervalorizados, a fim de corrigir problemas pontuais, de curtíssimo prazo, que não deixam legado algum. Nessas horas, mecenas com recursos em abundância surgem com os mais variados interesses – pessoais – em detrimento do planejamento estratégico do negócio coletivo, que é a associação. O clube. Esta drástica intervenção muitas vezes pode dar resultados positivos. Entretanto, é um paliativo. O clube não demora para se perceber em meio a um turbilhão de contratempos e compromissos financeiros que não estavam nos planos. E, com isso, pode ruir.

O estádio de Vidal Pinheiro, do Salgueiros, protagonista do futebol português nos anos 90 do século passado, que abandonou o futebol profissional em função de uma grave crise financeira. (Foto: Reprodução/Divulgação)

 
Nos períodos de “vacas magras” é preciso que todo o clube (dirigentes, patrocinadores, associados e torcedores) busque pelos princípios do associativismo e cooperativismo e se pergunte: o que ele quer ser e o que é mais importante para ele. Em outras palavras, resgatar o marco fundador de uma organização que é o estabelecimento da sua missão, visão e seus valores, que nortearam as ações ao longo da história e dão sentido a cada tomada de decisão – quer seja no clube ou na vida – de cada membro ou simpatizante da instituição.
Esta coluna sempre fala que sim, temos visto bons exemplos de práticas de Gestão do Esporte. Será que vão continuar? Será que as próximas administrações darão conta? Difícil responder, entretanto, o mínimo que estes bons exemplos deixam é estabelecer referências. Ou seja, os próximos gestores que virão, se quiserem ser bem lembrados, obrigatoriamente deverão deixar o clube em um lugar “mais alto e melhor” do que quando receberam. Isso não significa ter que conquistar títulos ou pensar em ter o seu busto daqui a algumas décadas na portaria principal. Mas sim pensar na coletividade da instituição esportiva, respeitá-la antes de tudo e que cumpra o seu papel, orientado na sua fundação. Afinal, não é possível ser campeão o tempo todo.
Assim sendo, um dos grandes desafios do futebol do Brasil é que todas as partes interessadas na modalidade (imprensa, opinião pública, torcida e dirigentes) tenham consciência de que não é possível vencer o tempo todo e a todo custo. A todo custo, o preço é alto e o risco é ainda maior. Ganhar sempre, impossível. Vencer é importante, mas querer vencer com os seus próprios recursos é – muito – mais. Não seria esta a essência em comum entre todos os clubes? Certamente, é.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“A palavra convence, o exemplo arrasta.”
Ditado popular

 

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O jogador inteligente

Costumo sempre ter um olhar coletivo para o jogo de futebol. Em um esporte de onze contra onze me parece mais fiel a realidade analisar o todo do que as partes. Mas pela cultura de heróis e vilões estabelecida na indústria futebolística desde sua origem temos a tendência natural de individualizar o jogo. Por isso cabe falarmos sobre o que é um ‘jogador inteligente’. Até porque quanto mais jogadores inteligentes uma equipe tem mais ela se torna igualmente inteligente.
De cara já coloco que o jogador mais habilidoso nem sempre é o jogador mais inteligente. A habilidade por si só não decide jogos. Agora tente aliar uma técnica apurada com boas decisões: por exemplo, dribles predominantemente pra frente, passes e lançamentos certeiros rompendo linhas de marcação, cadência na condução e agressividade no ataque ao espaço sempre com uma leitura correta e rápida do ambiente para tirar vantagem das circunstâncias.
Vou repetir os termos que significam para mim a definição mais clara de um jogador inteligente: boas decisões, leitura correta e rápida do ambiente e tirar vantagem das circunstâncias. Para escancarar tudo isso, outro exemplo: um campeão de embaixadinhas pode ter o gesto técnico perfeito de domínio de bola e mesmo assim ser um jogador sem inteligência.
Cabe aos treinadores criarem treinos sistêmicos e complexos que fortaleçam o entendimento de jogo dos atletas e as boas tomadas de decisões sempre em um ambiente de altíssima pressão e curto espaço. O bom e inteligente jogador não é aquele que faz malabarismos com a bola. E sim aquele que contribui para a sua equipe ter o menor gasto de energia possível para cumprir a lógica do jogo e ganhar dos adversários.
 

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Sobre o desenho e características do 4-1-3-2

Jorge Jesus, treinador do Flamengo: geralmente em 4-1-3-2 durante o ataque. (Foto: Reprodução/Fox Sports)

 
É claro que muita coisa já foi falada e escrita sobre este Flamengo, treinado por Jorge Jesus e auxiliares, mas existe uma questão de que não se falou muito, e sobre a qual gostaria de discutir aqui hoje. Como é característico do próprio Jesus, já há algum tempo, o Flamengo normalmente se organizava, em fase ofensiva, num 4-1-3-2. Não é um 4-3-1-2 (losango), nem um 4-4-2 mais tradicional, as duas linhas de quatro (isso acontece na defesa, não no ataque) mas um 4-1-3-2. Embora me seja claro que os sistemas dizem menos do que imaginamos (mais importante do que os sistemas são os modelos nos quais eles se apoiam), também me agrada o fato de se tratar de uma distribuição bastante original: afinal, são poucos os times que se organizam dessa forma.
Neste texto, não pretendo falar especificamente do Flamengo (vou citá-lo algumas vezes), mas sim deste sistema, de algumas das suas características, para podemos avaliá-lo melhor. Evidente que estou aberto para seguirmos o debate nos comentários.

***

Como escrevi no começo, acho importante fazermos uma separação entre o 4-1-3-2, de que falaremos aqui, e o 4-3-1-2, quando o meio-campo se organiza em losango (sobre o qual já escrevi aqui e aqui). Embora sejam sistemas parecidos na aparência, acho que têm características razoavelmente diferentes, que pesam de alguma forma ao longo do jogo.
Quando pensamos no losango, vocês concordam que pensamos num sistema que tem, de partida, três alturas diferentes no meio-campo? Um volante, dois meias mais abertos (às vezes mais, às vezes menos) e um meia central. Este meia, portanto, está mais adiantado, é um elo entre os setores de meio-campo e ataque, normalmente a construção ofensiva passando por ele. Mas são duas características bastante claras: o meio-campo organizado em três alturas diferentes e, portanto, um meia central que ocupa um espaço entre os meias mais abertos e os atacantes.
Mas quando pensamos no 4-1-3-2, acho que falamos de algo diferente. Em primeiro lugar, falamos de apenas duas alturas diferentes, concordam? Um volante, que sustenta o equilíbrio coletivo durante o ataque, e uma linha de três meias, geralmente composta pela projeção de um falso segundo volante (como é Gerson), sem que haja, necessariamente, a figura de um camisa dez. Ou melhor, este jogador existe (como é um Everton Ribeiro), mas ele não necessariamente parte de dentro, como normalmente fazem os camisa dez, mas pode partir de fora, pode partir de qualquer um dos lados. Especialmente neste Flamengo, sinto que uma das fortalezas estava exatamente em uma certa fluidez ofensiva neste corredor central, uma certa liberdade para que Arrascaeta, Gerson, Éverton, Bruno Henrique e Gabriel pudessem se movimentar de acordo com a situação proposta pelo jogo. Este tipo de liberdade (e esta é uma opinião bastante pessoal) não me parece possível no losango, por motivos que posso discutir em outro texto. A meu ver, o bom ataque no losango exige certas localizações por parte dos jogadores de meio-campo.
Portanto, se falamos do 4-1-3-2, falamos de um sistema com algo próximo de duas linhas de meio-campo, três jogadores mais adiantados sustentados por um outro meio-campista (daí a importância de um William Arão, por exemplo), com os corredores laterais possivelmente abertos e o corredor central ocupado pelos meias e atacantes.

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Outra coisa que gostaria de discutir com vocês são as possíveis vantagens do 4-1-3-2 em transição defensiva. Especialmente para as equipes que desejam fazer sucessivas pressões pós-perda, acho que existe uma vantagem importante deste sistema na comparação, por exemplo, com o losango: no 4-1-3-2, uma vez que existe essa linha de três, da qual falamos acima, há uma possibilidade importante de se fazer aqueles escalonamentos, as coberturas que tão necessárias do ponto de vista defensivo, especialmente para as equipes que marcam por referências zonais. No caso do losango, isso não é necessariamente verdadeiro, porque o camisa dez, de que também falamos anteriormente, está normalmente adiantado em relação aos meias. Neste caso, no instante da perda da posse, seria preciso que ele (estando mais adiantado) fizesse as primeiras tentativas de pressão – o que permitiria a cobertura. Mas caso isso não aconteça, caso este camisa dez (no sentido genérico) já estivesse superado, então o meia mais aberto deveria pressionar o adversário, sob o risco de também ser superado, deixando um enorme espaço às costas. Neste caso, não sei se vocês concordam, entra uma outra questão fundamental (que também me faz relativizar o valor dos sistemas, quando isolados): as características dos jogadores para cada sistema.
No caso do losango, estes dois meias abertos, via de regra, devem imprimir algum tipo de intensidade (do ponto de vista fisiológico), especialmente se a ideia da equipe for pressionar alto. Neste ano, citei aqui o exemplo da Sampdoria da última temporada, na qual estes dois meias mais abertos eram responsáveis pelas pressões aos laterais adversários, no começo da construção. Para usar um desses termos que temos importado (e que prefiro traduzido), acho bastante indicado que esses meias tenham alguma característica área-à-área, que sejam capazes de ir e vir com frequência, ou então pode ser que espaços valiosos ao longo do jogo fiquem descobertos (como os lados contra equipes cujos laterais sabem construir, como o próprio Flamengo).
Por outro lado, no 4-1-3-2, sinto que é bastante importante haver não necessariamente dois, mas um jogador com essas características. Gerson, como dissemos, é um exemplo. Tem alguma facilidade para conduzir a bola da defesa ao ataque, para ajudar na construção já no campo adversário, para finalizar se preciso, para pressionar após a perda. Para equipes que atacam em 4-1-3-2 e se defendem em 4-4-2 (como é o próprio Flamengo), é preciso haver pelo menos um jogador capaz de compor a segunda linha quando a equipe baixa o bloco e depois adiantar-se na fase ofensiva. Os outros dois meias, por sua vez, podem não ser jogadores exatamente intensos do ponto de vista fisiológicos, podem não ir e vir a todo instante, mas devem ser rápidos de outro ponto de vista cerebral, devem ser os jogadores inteligentes, que saem de fora para dentro, abrem os corredores para os laterais, movimentam-se livremente pelo corredor central, cuidam com o tempo e com o espaço. Reparem que são características um pouco diferentes de um 4-2-3-1 ou num 4-3-3 – apenas para ficarmos nesses exemplos. Como disse no início, os números dizem menos do que pensamos, mas dizem alguma coisa.

***

Outra coisa, ainda nessas coisas que me agradam neste sistema, é o fato de ter dois atacantes, de fato. Nos últimos anos, talvez nos últimos quinze anos, para ser mais preciso, sinto que fomos normalizando o fato de atacar com apenas um jogador na área. Os próprios 4-2-3-1 e 4-3-3, que citei acima, são exemplos. Em linhas gerais, geralmente há um jogador a mais no meio-campo (por dentro ou por fora) e um jogador a menos na área, o que supostamente valoriza a construção – ainda que isso não seja necessariamente verdadeiro. Da mesma forma, fica claro que ter apenas um jogador na área raramente permite anular a sobra do adversário: são geralmente situações de dois zagueiros contra um atacante. Talvez vocês se lembrem de um texto sobre Marcelo Bielsa, que escrevi aqui, no qual lembrei de um certo cuidado, que imagino que ele ainda tenha, para manter superioridades numéricas nesse setor quando se defende (pulando de dois para três zagueiros quando enfrentava equipes que jogavam com dois atacantes, por exemplo).
No caso do 4-1-3-2, mesmo se pensarmos no exemplo do Flamengo, mais uma vez caímos em uma mistura do sistema com as características dos atletas. Bruno Henrique e Gabriel estão fazedores de gols, ainda que não sejam necessariamente jogadores de área. São coisas diferentes. Ambos têm alguma facilidade de movimentação, podem deslocar-se para os lados ou mesmo recuar alguns metros (para atrair os zagueiros, inclusive), e fazem isso exatamente porque não são atacantes que apenas pisam na área, mas que pisam na área e que, diversas vezes, pisam na área ao mesmo tempo. Este é o grande problema para os zagueiros, justamente por correr-se o risco de morrer a sobra. O lance do gol de empate do Flamengo contra o River Plate, marcado por Gabriel, é um exemplo interessante neste sentido: não foi Bruno Henrique que pisou na área junto de Gabriel (foi Arrascaeta), mas o simples fato de haver um comportamento já suficientemente treinado foi central para matar a sobra do River e gerar o gol a partir de uma certa superioridade posicional (Arrascaeta e Gabriel estavam melhor posicionados do que os defensores do River no lance).

***

Bom, acho que temos o suficiente para uma conversa inicial. Num outro momento, posso falar dos possíveis problemas deste sistema (como o fato de eventualmente não ter alturas diferentes na segunda linha de meio-campo ou o possível espaço deixado às costas da linha de três na transição defensiva).
Para finalizar, apenas acho importante lembrar algo que também já escrevi em outros momentos: que o modelo/sistema de uma equipe não necessariamente é adequado à outra, que é preciso usarmos a criatividade (e não o comodismo) a nosso favor, e que as inspirações, que temos em todo o lugar, não podem fazer com que nos afastemos de nós mesmos, mas sim que fiquemos ainda mais próximos de nos tornarmos quem somos.
A meu ver, é nessa diversidade que o futebol se enriquece.
 

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O jogo conceituado taticamente

Venho tentando traduzir o que há de moderno no jogo atual para o melhor entendimento da escola brasileira de futebol. Caminho neste propósito há anos e devido aos momentos especiais que vivemos atualmente no Brasil, minha motivação tem algo de mais especial ainda.
Já tive muitas dificuldades para fazer a leitura do que acontecia na evolução do futebol, pois minha formação se origina de momentos em que o futebol não tinha a rica literatura de hoje para nos instruir. Nos defrontávamos com dúvidas, cujas respostas tinham de ser dadas por nós mesmos em treinos e jogos.
Éramos treinadores habituados a guardar o segredo das descobertas, pois achávamos que somente nós o sabíamos. Cada treinador camuflava seus conhecimentos, o que se tornava um grande entrave para o desenvolvimento do futebol brasileiro como um todo.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o futebol europeu se mobilizava em várias frentes. Uma delas era encontrar formas de confrontar o jogo das individualidades, característico dos sul-americanos. Diversos núcleos de pesquisas foram instaurados e coisas novas e boas surgiram.
O FC Barcelona e a Universidade do Porto apresentaram ao mundo duas formas parecidas de conceber o treino e o jogo de futebol. No Barcelona, um importante personagem, o Professor Paco Seirul-lo, e na Universidade do Porto, o pesquisador e Professor Victor Frade construíram os métodos Integralista e da Periodização Tática, respectivamente, que revolucionaram o modo de lidar com esse jogo. Os dois baseados no conhecimento sistêmico.
Hoje, com a comunicação escancarada, os conhecimentos técnico, prático e científico do futebol estão disponíveis a todos. Além disso, as gerações modernas de treinadores chegam com o perfil de estudiosos e muito interessados no conhecimento e compartilhamento das descobertas em geral.
Com o advento dos novos métodos, não se concebe mais que as soluções táticas do jogo moderno sejam entregues exclusivamente às cabeças e aos pés dos jogadores. Algo tem de reger suas ações em campo à busca de uma fluência de jogo mais qualificada e inteligente.
No Brasil ainda estamos perambulando em dúvidas quanto ao que devemos fazer com o jogo, como e por quê fazer!? Permanecemos ignorantemente na dependência da competência dos nossos jogadores, senão em tudo, mas em grande parte das demandas táticas do jogo. A mente da comunidade futebolística brasileira permanece super conectada ao poder das individualidades.
O paradoxal nisso é que o jogador continuará sempre sendo a maior estrela na festa do futebol, mas a forma como ele deve escancarar seu protagonismo agora é diferente da de décadas atrás. As individualidades clamam por apoio das táticas coletivas que lhes dão segurança e lógica ao jogo.
As dificuldades que enfrentamos nos tem feito gastar tempo e energia justificando erros em nossa forma de jogar ao invés de nos direcionarmos de corpo, alma e mente para a aceitação e o entendimento do jogo moderno.
Talvez porque o novo obrigatoriamente nos tira de uma zona de conforto com a qual aprendemos a conviver por muitos anos. Agora não dá mais para esperar. O que o brasileiro precisa saber, vez por todas, é que o quanto antes percebermos as mudanças, mais rapidamente encontraremos fórmulas para as transformações.
A primeira e talvez mais importante das mudanças deve acontecer na cabeça do treinador brasileiro. Dar contribuição à visão detalhista e/ou individual do jogo com a abordagem global e/ou coletiva. Enxergar de vez o jogo como algo que tem vida – começo, meio e fim (finalidade). Os princípios e conceitos táticos do jogo, quando devidamente conectados, nos apresentam uma lógica bem distinta e mais eficiente da que conhecemos.
Para construirmos o jogo moderno será necessário repaginar nossos métodos de treinamentos. Ensaiar as manobras táticas coletivas pra defender e atacar com qualidade não será possível concebendo o treino e o jogo à moda antiga.
Considero imensurável a contribuição que Jorge Jesus e Jorge Sampaoli estão nos dando neste momento.
Se abrirmos mão das nossas vaidades e arregaçarmos as mangas da busca do conhecimento, prontamente veremos também os brasileiros fazerem coisas ainda mais bonitas com as nossas equipes. Nenhum estrangeiro conseguirá se perpetuar no futebol brasileiro, pois adaptados às peculiaridades da nossa cultura, somente nós.
Já tivemos muitos treinadores forasteiros comandando equipes brasileiras, principalmente sul-americanos. Nunca vimos transformações tão significativas como as que apresentam Flamengo e Santos.
Vamos aproveitar, caros colegas. Vamos crescer!
Coisas muito boas estão sendo feitas pelos treinadores Jorge Jesus e Jorge Sampaoli, mas vejo coisas menos boas também. Digo isso, com a certeza de quem estuda taticamente os jogos de equipes brasileiras e estrangeiras todos os dias há vários anos. Vejo também o Bahia, o Grêmio, o Bragantino, o Athletico-PR e alguns outros times brasileiros com jogos conceituados e interessantes, mas com falhas também. Normal!
Como fruto que sou da cultura futebolística brasileira percebo alguns aspectos que ainda atrapalham o sucesso dos nossos treinadores. Por exemplo, não fomos estimulados a estudar! Não precisava! O jogador fazia tudo! Esse entendimento era geral!
Cansávamos de assistir no Brasil aos debates da comunidade futebolística sobre a importância do treinador no contexto de um jogo.
– Será que é mesmo necessária a presença do treinador à beira de campo?
– Treinador ganha jogo?
Ouvíamos muito disso, e mais…
Hoje, Sampaoli e Jesus fazem um verdadeiro carnaval em suas áreas técnicas e são idolatrados também por isso.
– Jogam junto com suas equipes! É o que dizem!
Flamengo e Santos jogam bem porque o fazem sob a regência de ideias de jogo conceituadas e devem treinar muito bem. Seus treinadores são bons, além de estarem em clubes gigantes com muitos bons jogadores às mãos, têm bons conceitos do jogo moderno e sabem aplicá-los. Se ficassem quietinhos em seus espaços não alterariam em nada a qualidade do jogo das suas equipes. Talvez fossem até melhores do que são. Mas enfim, se faz parte das suas personalidades que permaneçam assim!
De qualquer forma, deixo aqui um alerta aos treinadores brasileiros, principalmente aos mais jovens:
– Não pulem igual malucos à beira de campo achando que isso vai fazer seus times jogarem o fino da bola! Sejam vocês mesmos e aprendam a construir jogos conceituados taticamente sob ideias de jogo espelhadas na maneira moderna de se jogar. Nós temos um celeiro de ótimos jogadores em nossas terras que vão ajudá-los em muito nessa empreitada.
Nestas minhas investidas na tentativa de escrever algo sobre futebol aprendi uma coisa: depois que você publica um texto, perde o direito sobre ele. Serão tantas as interpretações, às vezes até na contra-mão do que o autor desejou expressar, que diversos entendimentos poderão surgir.
Espero que as minhas ideias cheguem ao público com a compreensão pelo menos parecida daquilo que sempre procurei expressar em todos os meus anos de futebol.
Prezo com profissionalismo e paixão pela Escola Brasileira de Futebol como a expressão cultural e esportiva mais importante do nosso Brasil e em toda a minha existência não quero deixar dúvidas quanto a isso!
Até uma próxima!
 

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Reflexões sobre o método de avaliação nas categorias de base

Para todos os profissionais envolvidos com categorias de base, a proximidade do final do ano também significa a proximidade da tomada de decisões muitas vezes difíceis, que geram dilemas, desentendimentos e crises de consciência. Isso porque o final do ano e de uma temporada implica na necessidade de se decidir sobre quais atletas serão absorvidos, contratados, promovidos ou dispensados pelo Departamento de Base.
Em meio aos vários dilemas vividos na gestão das categorias de base de um clube de futebol (e porquê não, nas escolas de futebol Brasil afora) talvez o processo de avaliação seja um dos que gera mais incertezas, discussões e aflições.
Por “avaliação”, entendamos aqui como os processos, critérios e métodos utilizados inicialmente na identificação do talento, e depois aplicados ao longo da trajetória do jovem no decorrer das diferentes categorias, que culminaria em sua projeção futura ao status de atleta profissional. É por meio dessas avaliações que jovens atletas são captados, promovidos, contratados e dispensados.
Importante que se diga já aqui no início que este texto não possui a pretensão de apresentar um formato “ideal” de avaliação. Menos ainda determinar exatamente quais critérios devem ser privilegiados na identificação de um atleta talentoso ou mesmo na avaliação de sua projeção futura como atleta profissional. A intensão deste texto é tão simplesmente a de apresentar as minhas reflexões sobre os dilemas vividos no processo de avaliação e apontar para uma direção relacionada ao método a ser empregado, sem dúvida respeitando as particularidades de cada instituição de futebol.
Os envolvidos no processo, desde os captadores (conhecidos também como “olheiros”), passando pelos treinadores, coordenadores técnicos e chegando aos executivos e diretores estatutários, todos acabam por possuir sua opinião a respeito de como deve ser feita a identificação e avaliação dos talentos a serem atraídos e desenvolvidos no clube a que servem.
De certa maneira, todos buscam por uma “bola de cristal”, que seja precisa o suficiente para se prever o quanto o “talento” atraído e desenvolvido no clube irá realmente “virar”, se tornando um atleta ou equipe de atletas cujo alto nível de desempenho possa contribuir com resultados esportivos e financeiros ao clube.
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*Gabriel Puopolo de Almeida atualmente é psicólogo da categoria sub-20 do São Paulo FC. É bacharel em Esporte pela Escola de Educação Física e Esporte USP/SP, Mestre em psicologia da aprendizagem pelo Instituto de Psicologia da USP. Atua também como instrutor da CBF Academy para as áreas de Psicologia do Esporte e Gestão de Pessoas.