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O treinamento da transição ofensiva

Muitos gols ocorrem a partir de jogadas de contra-ataque. A equipe que perde a posse de bola necessita de uma resposta coletiva imediata que, caso não ocorra, potencializa a desorganização de seu sistema e a possibilidade de finalização do adversário. E quanto mais rápida, organizada e eficaz forem as ações coletivas da equipe que recuperou a posse, mais próxima ela estará do cumprimento da lógica do jogo.

Posto isso, o planejamento semanal deve privilegiar atividades que contemplem este momento do jogo, sabidamente, como parte integrante do Jogar da equipe. Em colunas anteriores, exemplos de atividades com caráter ofensivo, de transição defensiva e defensivo foram mencionados para auxiliar na elaboração do microciclo.

Na presente coluna as sugestões serão dedicadas às atividades que buscam a retirada adequada do setor de recuperação, horizontal ou verticalmente, conforme as regras a seguir:

•Após qualquer recuperação da posse de bola no campo de defesa, se a equipe errar o passe é ponto para o adversário;

•Com o campo de defesa dividido na intermediária, após qualquer recuperação da posse de bola no setor defensivo, ponto para a equipe se conseguir ultrapassar o meio campo com a bola dominada, através de condução ou passe. Como progressão desta regra, é possível definir um tempo limite para ultrapassar o meio campo e pontuar, entre 5 e 10 segundos.

•Com o campo de defesa dividido na intermediária, após qualquer recuperação da posse de bola no setor intermediário, ponto para a equipe se conseguir realizar um passe pra frente;

•Com o campo de ataque dividido na intermediária, após qualquer recuperação da posse no setor intermediário, ponto para a equipe se conseguir realizar um passe pra frente, no setor ofensivo;

•Com o campo de ataque dividido na intermediária, após qualquer recuperação da posse no setor intermediário, ponto para a equipe se a jogada terminar em finalização em até 10 segundos após a recuperação;

•Com o campo de ataque dividido na intermediária, após qualquer recuperação da posse no setor ofensivo, ponto para a equipe se a jogada terminar em finalização em até 5 segundos após a recuperação;

•Maior pontuação para gols originados em jogadas de contra ataque;

Durante os jogos, é possível combinar as regras e estimular a transição ofensiva a partir da recuperação da posse em diferentes locais do campo de jogo. Não esqueça de “amarrar” o tema desta coluna com as publicações anteriores. Elas dão significado às sugestões e possibilitam as inter-relações pretendidas no treinamento a partir de uma visão sistêmica.

Treinar o Jogar que se pretende é pré-requisito para condicionar complexamente o jogador de futebol.

Quem sabe quando esta visão teórica for unânime na prática não veremos mais desculpas sobre o (aparente) despreparo fragmentado de uma equipe na reta final da temporada. Muitos insistem em simplificar o futebol…

Abraços e até a próxima semana.

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Cruzando as pernas – #Demorou #Tamojunto

O futebol brasileiro não respeita datas. Não tem cabimento. Não é exemplo para Darwin. Não tabela com a preparação física. Não respeita o corpo do atleta, a alma do torcedor, a camisa dos clubes.

Calendário do futebol brasileiro é como folhinha de borracharia onde modelos desfilam suas vergonhas. Onde alguns sem muitas vergonhas baixam a borracha e sobem o burro no que é sagrado.

Não pode. Não cabe. Não deve.

– Não!

É o grito de gente que joga. São atletas bons de pé e de cabeça e também de peito para desarmar jogadas de bastidores. Bastilha que cai e que precisa ser encarada pelos atletas do bem comum e do bom senso. CBF, TVs, mídia, estão todos no mesmo jogo. É preciso organizá-lo. Respeitá-lo como já não se respeitam mais as férias aos atletas. A pré que já vira temporada. Os estaduais inchados. O Brasileirão longo. Muitos jogos para pouco futebol.

– Não!

Se preciso, que atletas profissionais (e não apenas bem remunerados, quando pagos em dia – ou meses) cruzem as pernas e os braços. Ao menos que discutam como alguns estão se articulando com a mesma velocidade com que os donos da bola e das boladas com controle remoto dominam o esporte, o espetáculo e o negócio de milhões para poucos, e migalhas para muitos.

O ideal seria equiparar nosso calendário ao europeu. O possível é racionalizar os estaduais, esticando-os pela temporada, diminuindo o número de partidas dos que jogam as primeiras divisões nacionais.

São várias ideias. Muitos ideais.

E, torcemos, muitos para debater e bater um bolão. Canarinhos que não são mais cordeirinhos. Ovelhinhas de presépio. Cordeirinhos no curral eleitoral e comercial de interesses desinteressantes ao futebol.

É preciso dar força e respaldo a quem coloca o pescoço e as canelas na forca.

Tem como racionalizar e diminuir o número de partidas, e não necessariamente acabando com campeonatos.

Tem como ouvir e conversar com quem faz o jogo, não necessariamente as jogadas.

Tem como melhorar o diálogo, o desempenho, a atividade, o negócio.

Tem de jogar junto. Não contra.
 

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

 

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Mudanças no calendário do futebol brasileiro?

Após a divulgação do calendário futebolístico de 2014, muito se tem falado do movimento dos atletas por mudanças no calendário do futebol brasileiro.

De fato, mudanças e adequações devem ser realizadas, mas, há de se levar em consideração as peculiaridades que rondam o futebol e as características do país.

No que concerne aos campeonatos estaduais, sua existência se dá em virtude do país se constituir como uma Federação. Não obstante isso, sua realização deve se restringir a poucas datas e não por longos três ou quatro meses. Inconcebível, ainda, campeonatos estaduais inxados, com vários times. Deveriam ter oito ou, no máximo 10.

A ideia dos campeonatos regionais é boa, especialmente para Estados com menor destaque no futebol, eis que podem unir forças. Para os campeonatos com maior tradicão e rivalidade como ocorre em Minas, Rio, SP, RS, SC, PR, GO, BA e PE, por exemplo, há de se avaliar com bastante carinho.

A ideia da Copa do Brasil durar todo o ano é muito boa, entretanto, a impossibilidade de se disputar a Sul-Americana acaba por desvalorizar a competição continental e, ainda, gerar situações bastante inóspitas como uma equipe jogar uma partida da Copa do Brasil querendo ser eliminada para disputar a competição internacional.

Por fim, muito se fala da adqueação do calendário do futebol brasileiro ao europeu, ou seja, iniciando-se em agosto e terminando em maio. Outrossim, o fato do calendário brasileiro iniciar-se em janeiro e terminar em dezembro se dá em razão do país ter o seu verão no final do ano, ao contrário da europa, cujo verão se dá no meio do ano.

De toda sorte, ainda há muito o que se estudar e discutir a fim de termos um calendário mais racional, com menos jogos e até mais rentável. Portanto, todo este movimento é essencial e pode significar um verdadeiro divisor de águas na história do futebol brasileiro.

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Eu falo, mas ninguém me entende

Os treinadores do futebol brasileiro têm passado por situações inusitadas em promover os melhores desempenhos de suas equipes e isso deixa para nós a impressão de que pode haver algum problema de comunicação entre os treinadores e seus atletas.

No esporte, como em qualquer campo de relacionamento profissional, podem existir barreiras à comunicação efetiva entre todos os envolvidos.

Estas barreiras são geralmente restrições que podem ocorrer dentro ou entre as etapas do processo de comunicação, fazendo com que nem todo sinal emitido pela fonte de informação (o treinador) percorra o processo e chegue incólume ao seu destino (os atletas). Segundo Chiavenato, o sinal emitido pode sofrer perdas, distorções, ruídos, interferências, ampliações ou desvios.

Já ouvimos algumas vezes treinadores argumento que os atletas não compreenderam a filosofia que seria implantada ou a concepção de futebol que seria inserida no clube A ou B. Esta declaração talvez já não teria para nós um indício de que algo na comunicação está errada?

A resposta a esta pergunta é sim, existe algo de falho na comunicação. Mas para que os treinadores estejam atentos quanto à qualidade de sua comunicação, compartilho as principais barreiras à comunicação efetiva dos treinadores no futebol, conforme definição de Laios citado na literatura de Dietmar Samulski.

• Tempo limitado: Durante as partidas, geralmente o treinador tem um tempo limitado para conversar com os atletas em particular, como nos intervalos por exemplo. Neste curto período de tempo, o treinador deve transmitir algumas instruções e pensamentos, bem como ter a certeza de que os atletas entenderam a mensagem.

• Linguagem: Muitas vezes ao treinadores utilizam uma linguagem muito científica e de difícil compreensão para a maioria dos atletas, isso dificulta e compromete o processo de comunicação.

• Habilidade de percepção: Significa que todo atleta tem uma percepção e decodificação diferente da mensagem enviada pelo treinador.

• Condição emocional: Em muitas ocasiões os atletas não entendem o que o treinador está passando pelos simples fato de estarem em condições emocionais ruins. Nervosismo excessivo, irritação e estresse elevado são exemplos de fatores que demonstram um desequilíbrio emocional do atleta.

• Fatores externos: São outros fatores que não estão relacionados diretamente com o ambiente de treinamento e por isso estão fora do controle do treinador, como por exemplo manifestação de torcedores que é uma situação que pode causar distrações dos atletas.

Então, cabe aos treinadores estarem atentos quanto à comunicação com seus atletas e o quanto isso pode ser decisivo para o desempenho de suas equipes. Comuniquem-se!

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Perdeu-se a chance

O anúncio do calendário do futebol brasileiro para 2014 trouxe à baila novos e antigos debates. De positivo, os primeiros ensaios para a constituição de uma associação de jogadores de futebol, que está se unindo para debater a organização do futebol e, sobretudo, protegê-los, tendo em vista que eles são os grandes atores do espetáculo.

De negativo, um calendário apertado, que não agrada ninguém: nem a parte técnica-física da prática, que deveria tentar preservar minimamente o atleta para a entrega de bons espetáculos; nem a área de gestão e marketing, que pensa na entrega de um bom produto; tampouco os torcedores, que irão acompanhar jogos em grande quantidade e de baixa qualidade, tornando-se pouco atrativo.

Perdemos, a bem da verdade, a chance de reorganizar o malfadado calendário do futebol brasileiro. A oportunidade era agora, com o "caos" da Copa (caos no sentido de influenciar a organização da temporada regular), quando se poderia encontrar inúmeras justificativas para este ajuste.

Alguns dirigentes continuam com a defesa de argumentos respaldada na "soberania nacional", ou seja, em afirmar que seguir um "modelo europeu" seria uma afronta para o Brasil. É a berlinda das desculpas, quando não se acha mais justificativas plausíveis, em um mundo globalizado e hiperconectado, para enxergar o óbvio.

Enfim, resta esperar mais algum tempo para a mudança inevitável. E que a organização que se está tentando fazer por meio dos jogadores siga um rumo sólido e consistente, que não baixe a guarda com pressões de dirigentes (que virão no curto prazo), e possam promover, de fato, ações transformadoras para o futebol brasileiro.

 

Leia mais
Pré-temporada e adequação à Europa são algumas das exigências dos jogadores

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Quando o campo fala

Líder da temporada 2013/2014 do Campeonato Espanhol, o Barcelona jogou fora de casa contra o Rayo Vallecano no último sábado e venceu por 4 a 0. O resultado positivo, porém, não impediu um revés da equipe catalã, que teve menos posse de bola do que o rival.

O Barcelona ficou com a bola em 49% do jogo de sábado. O Rayo Vallecano, 51%. O time catalão não tinha menos posse do que um rival em partidas oficiais desde 7 de maio de 2008, quando foi goleado pelo Real Madrid por 4 a 1.

Nesse ínterim, o Barcelona disputou 316 jogos e conquistou 16 títulos. Foram 228 triunfos (72,2%), 58 empates (18,4%) e 30 reveses (9,4%) em que os catalães dominaram mais a bola do que qualquer adversário.

O saldo de gols do período também é impressionante: o Barcelona marcou 822 vezes no período em que foi soberano na posse de bola. Nesses mesmos 316 jogos, o time foi vazado apenas 262 vezes.

Na pré-temporada que antecedeu as disputas de 2013/2014, o Barcelona já havia tido menos posse de bola do que o Bayern de Munique, time comandado por Pep Guardiola, técnico dos catalães no auge desse período vencedor. No entanto, isso foi registrado em uma partida amistosa.

Contra o Rayo Vallecano, não havia a ressalva de se tratar de um amistoso. Tampouco o alento de ser uma equipe extremamente poderosa e comandada pelo treinador que resgatou o estilo holandês-catalão de o Barcelona jogar.

Guardiola ficou no Barcelona entre 2008 e 2012. Ele foi substituído por Tito Vilanova, que era auxiliar e comandou a equipe catalã até este ano.

Quando um problema de saúde impediu Vilanova de seguir no Barcelona, o time não repetiu a iniciativa de buscar em seu quadro de funcionários um profissional. Em vez disso, contratou o argentino Gerardo “Tata” Martino, ex-Newell’s Old Boys.

Foi o Barcelona de Tata Martino o responsável pela queda da longeva soberania da equipe na posse de bola. Em pouco tempo, o argentino mudou de forma contundente a postura dos catalães. O toque de bola insistente e o jogo horizontal ganharam companhia de lançamentos e objetividade na definição dos lances.

“A posse da bola é sempre importante para o Barcelona, assim como era para o Newell’s Old Boys. Quando uma equipe atinge a excelência no futebol, é natural que as pessoas falem sempre sobre o estilo que assegurou isso”, ponderou Martino em entrevista coletiva após o jogo de sábado.

Depois do triunfo por 4 a 0 sobre o Ajax na primeira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da Uefa, o uso das bolas longas já havia chamado atenção. Na época, Martino disse que estava tentando apenas “adicionar algumas coisas ao repertório do Barcelona”.

O jogo mais incisivo pode ser benéfico para o Barcelona. Se o time catalão seguir pressionando a saída de bola de seus rivais e associar a retomada da posse a uma definição rápida, terá mais espaços do que encontrava na versão “mais paciente”.

A lógica é clara: o Barcelona pré-Martino era eficiente, mas levava mais tempo para definir os lances. Com isso, tinha de encontrar espaços em defesas mais bem postadas.

A marcação pressão e o contragolpe são eficientes porque proporcionam superioridade numérica em ações ofensivas. A velocidade de transição e definição é determinante para estipular o tamanho dessa soberania.

Na teoria, portanto, o Barcelona está adicionando elementos positivos ao jeito de a equipe jogar. Com a adição de bolas longas e uma transição mais rápida, Martino cria um time que pode ser mais seguro e letal.

Contudo, o risco que o Barcelona de Martino corre é contrariar o que se transformou em essência da equipe. Os catalães podem ser igualmente eficientes e igualmente vencedores, mas não seguirão sendo especiais se abdicarem do que os tornou únicos.

Guardiola não inventou um jogo de o Barcelona jogar, mas reuniu uma série de características que geraram orgulho na torcida catalã em times anteriores. Mais do que vencer, o grupo que ele moldou traduzia o que a torcida esperava ver em campo.

A pergunta, portanto, é o que motiva de verdade o torcedor no esporte profissional. O adepto quer vencer a qualquer custo ou quer ver no campo de jogo, independentemente da modalidade, atletas que representem o que ele pensa sobre o esporte?

Pense em quantas vezes você viu, em diferentes modalidades, atletas serem aplaudidos porque fizeram, a despeito do resultado, o que o público queria ver. Pense em quantos derrotados conseguiram simpatia, respeito e até um carinho da torcida.

O objetivo explícito do esporte é vencer, mas o esporte não seria o que é se não tivesse metas tácitas. É uma atividade em que valem inspiração, sonho e representatividade. O Barcelona dos últimos cinco anos mostrou isso. Martino pode até criar uma equipe mais eficiente, mas o início dele contradiz a essência do clube.

Até o momento, o discurso de ampliar o repertório tem sido eficiente. Se o Barcelona mantiver a rotina de vitórias, Martino ganhará argumentos muito contundentes.

Em algum momento, porém, técnico e diretoria precisarão questionar o que desejam fazer no futebol. O campo fala, e os recados do Barcelona de Tata Martino até aqui não são nada animadores.

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Universidade do Futebol no programa Segredos do Esporte da ESPN

Matéria sobre o papel da Universidade do Futebol 24/9/2013 Confira o vídeo

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Impopularidade, virtude, excentricidade… e um breve (re)pensar futebolístico!

Sócrates, o filósofo, era um homem incontestavelmente original. Assim como retratado por Alain de Botton (2012), em sua existência septuagenária não se apegou a bens materiais (vivia descalço, usava a mesma túnica durante todo o ano…), nutria pouco interesse por status social e demonstrava relevante preocupação com o outro, mais especificamente com os motivos que levavam os homens a aceitarem crenças populares e o status quo sem quaisquer indagações racionais.

Sua atividade filosófica se dava nas ruas atenienses, sem formalidades nem distinções sociais: interpelava os cidadãos em busca de respostas sobre seu estilo de vida e convicções subjetivas, mesmo sendo recorrente uma boa dose de ignorância dos interlocutores nestes colóquios. Embora fosse um homem virtuoso (seu carcereiro lhe definiria como "superior", "generoso" e "gentil"), sua excentricidade lhe custaria a vida.

"Três atenienses – o poeta Melito, o político Ânito e o orador Licon – chegaram à conclusão de que ele era um homem estranho e pernicioso. Afirmaram que não adorava os deuses, havia corrompido a estrutura social de Atenas e instigado a juventude a se rebelar contra seus pais. Na opinião dos acusadores, a atitude correta seria silenciá-lo e até mesmo matá-lo". (DE BOTTON, 2012, p.36)

Foi o que, de fato, ocorreu. Levado ao Júri dos Quinhentos (de nome relativo à quantidade de votantes), Sócrates foi condenado, vitimado pela impopularidade. Ainda lhe foi dada a chance de viver, desde que abandonasse suas convicções filosóficas e se adequasse aos padrões sociais impostos pelo senso comum. Mas, sem titubear, preferiu a morte.

A mesma impopularidade que delineou o destino do filósofo se retirou discretamente das pautas futebolísticas nacionais. Vinhetas remasterizadas e flashes do Olodum, aliados ao advento de hashtags infanto-juvenis, marcam o reencontro triunfal entre a seleção brasileira e o povo.

Se, ao início da Copa das Confederações, o distanciamento entre torcedores e selecionados era preocupante, a aproximação pós-título se torna igualmente amedrontadora, a despeito da (aparente) incoerência aqui explícita. O triunfo se tornou sinônimo de virtude (Sócrates fatalmente questionaria esta afirmação), sendo convertido em chamariz para a aceitação da massa. Mas a essência líquida das sociedades modernas (como nos dirá Zygmunt Bauman), faz com que a vitória de ontem seja facilmente refutada pela derrota de hoje. Talvez aí, resida o perigo de ligações tão próximas com os resultados, apenas.

Ainda na perspectiva supracitada, De Botton oferece um novo caminho:

"A verdadeira respeitabilidade não se origina da vontade da maioria e sim de uma argumentação adequada. Quando estamos fazendo vasos, devemos ouvir os conselhos daqueles que sabem transformar o verniz em Fe3O4, a uma temperatura de oitocentos graus; quando estamos construindo um navio, é o veredicto dos que constroem trirremes que deve nos preocupar; e quando estamos considerando temas éticos – como ser feliz e corajoso, justo e bom – não devemos nos intimidar por julgamentos inapropriados, mesmo que provenham dos lábios de professores de retórica, generais poderosos e aristocratas bem-vestidos da Tessália." (DE BOTTON, 2012, p.43)

Se os resultados são mensuráveis apenas efêmeras e que quantificam (não necessariamente qualificam) a performance, cabe ao profissional do futebol refletir repetidamente em busca de argumentos adequados ao contexto social moderno. No caso da seleção brasileira, talvez um debate sólido se dê na organização de seu modelo de jogo, que, independentemente de vitórias ou derrotas, possa conferir direção e sentido ao jogo que se quer jogar.

Assim sendo, é perfeitamente válido questionar se o otimismo pós-título se justifica plenamente ou não. Se a organização ofensiva iniciada por Thiago Silva, David Luiz e Luiz Gustavo pode ser mais objetiva, dando fluidez ao jogo; se a mobilidade ofensiva é a ideal ou ainda carece de muito trabalho coletivo para desorganização defensiva adversária; se o Brasil saberia se desvencilhar organizadamente da mesma marcação pressionante que impusera à Espanha; se a repetição massiva de crenças populares (tais como às relativas ao "peso da camisa" e adjacentes) é benéfica ou não à cosmovisão de atletas e comissão técnica; se a vitória, em dados momentos históricos, representa virtude ou é apenas uma armadilha… Enfim, talvez aqui ficasse evidente que o futebol do devir é permeado pelas dúvidas, não pelas certezas.

Da mesma forma, argumentos adequados não devem caminhar de mãos dadas à arrogância e autossuficiência que tanto maculam o futebol brasileiro (daqui surgiram várias das crenças hoje questionadas pela excentricidade dos que organizam a quebra de paradigma).

Uma reflexão sobre o pensamento socrático levaria, sim, à necessidade de convicção posterior à construção argumentativa, mas pediria, antes disso, que fossem ouvidos do cientista ao torcedor, do teórico ao prático, do (pretenso) sábio ao (dito) ignorante, como estratégia coerente para entendimento do jogo através da complexidade entranhada nas relações dos fenômenos técnicos, táticos, físicos, psicológicos, sociais, lúdicos, espirituais, enfim… fenômenos humanos impossíveis de serem ignorados! Ainda há considerável margem de crescimento, o que denota que deitar eternamente em berço esplêndido seria, novamente, um erro grotesco.

O resultado, por si só, faz com que alguns milhões de técnicos (outra crença?) caminhem rumo ao paraíso que, reza a lenda global, estaria eternamente reservado ao futebol brasileiro. A busca pela virtude futebolística move outros milhares (já somos tantos?), que questionam as fábulas literárias da bola, ainda que sejam vitimados pela impopularidade, sobretudo neste meio tão hermético.

Talvez, em algum lugar deste interlúdio, esteja o caminho para a descoberta de verdades ainda ocultas, que clamam pelas luzes que as colocarão em pauta. Assim, debates sobre modelos de jogo, metodologias de treinamento, formação de cidadãos (que precede a de atletas), gestão esportiva, (im)popularidade e outros temas mil, ganharão conteúdo e trarão palavras que não mais reproduzam o senso comum, mas sucedam um processo de (re)pensar cujas ressonâncias serão, certamente, tão assustadoras quanto prazerosas.

Bibliografia

DE BOTTON, Alain. As Consolações da filosofia. Tradução de Eneida Santos. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2012.

*Bacharel em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Graduando em Ciências do Esporte pela Unicamp, FCA-Limeira.

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O futebol, os paradigmas, os métodos, os modelos, a lógica e o livro “Os números do jogo”

O futebol jogado no mundo todo, sofre, continuamente, transformações. Do mais distante ao mais próximo passado, da mais, até a menos tradicional cultura futebolística continente à fora, é fato que ao longo de sua história, o futebol – e mais pontualmente a maneira de jogá-lo – vem ganhando em organização, em sofisticação estratégica, e em elaboração coletiva.

Os sistemas de preparação desportiva futebolística estão cada vez melhores, os jogadores estão cada vez mais bem preparados, a análise do desempenho vem contribuindo cada vez mais para correções de rotas, a velocidade do jogo aumentou e os futebolistas vêm mostrando uma capacidade cada vez maior de tomar decisões exatas e rápidas.

Já escrevi outras colunas, aqui mesmo neste espaço, com intuito de chamar atenção para o fato de que a evolução do jogo de futebol, mais especificamente do “jogar futebol” traria (e traz) consigo a necessidade emergente e urgente de um entendimento mais qualificado sobre o jogo.

Ora, se o jogar futebol que concebemos e operacionalizamos nos treinamentos, é resultado da maneira que enxergamos e entendemos o jogo, nada mais óbvio do que a necessidade de enxergá-lo (o jogo) melhor e mais claramente.

É inegável o fato de que há mais de uma década, a busca pelo “enxergar melhor e mais claramente” tem trazido à tona uma série de conflitos – paradigmas foram, estão e serão quebrados. “Durante muito tempo, quatro palavras dominaram o futebol: “sempre foi feito assim”.

O jogo bonito está arraigado na tradição. O jogo bonito agarra-se a seus dogmas e truísmos, a suas crenças e credos. O jogo bonito pertence a homens que não querem ver seu domínio ameaçado por intrusos que sabem que enxergam o jogo como ele realmente é.

Esses homens não querem que lhes digam que há mais de um século eles estão deixando de perceber alguns fatos. Que existe um conhecimento que eles não possuem. Que o jeito como eles sempre fizeram as coisas não é como as coisas devem ser feitas.” (livro: “Os números do jogo”, de Chris Anderson e David Sally – página 13)

Avançar a linha limite, que estabelece ideias, ideais, conceitos e verdades é avançar a barreira, que esconde atrás dela, um mundo novo e desconhecido.

Nunca é fácil passar por essa barreira. O certo, é que a maneira que escolhemos passar por ela pode determinar as dificuldades e resistências que encontraremos logo à frente.

Muitos são os caminhos que levam às vitórias. A história do futebol nos mostra isso muito claramente!

Não deveríamos brigar por métodos “A” ou “B”. Não! Não deveríamos brigar por um modelo “C” ou “D”. Precisamos entender no cerne o que o jogo, propriamente dito, a partir de sua inexorável lógica tem para nos dizer.

Vitórias podem ser alcançadas pelos métodos “A” e “B”, mas também pelo “X”, pelo “Y” ou pelo “Z”; equipes podem jogar bem a partir dos modelos “C”, “D” ou “E” – mas indiscutivelmente jogos não podem ser vencidos e/ou bem jogados se o “jogar” – e logo, a preparação para o jogar – não estiverem em conexão, na essência, com o cumprimento da lógica do jogo.

A negação ou não compreensão sobre o passado (da preparação para o “jogar”, e do “jogar” propriamente dito) trarão ilusões para o presente e dificuldades para o planejamento do futuro.

“Não dá para dizer que todas as tradições estão erradas. Os dados que hoje podemos reunir e analisar confirmam que parte daquilo que sempre se acreditou ser verdade é, de fato, verdade. Para além disso, porém, os números nos oferecem outras verdades, esclarecem coisas que não temos como saber intuitivamente e expõe a falsidade do “sempre foi feito assim”.

O maior problema de seguir um tradição venerável e um dogma estabelecido é que ambos raramente são questionados. O conhecimento fica estagnado, enquanto o próprio esporte e o mundo em torno dele mudam.” (do mesmo livro: “Os números do jogo”, de Chris Anderson e David Sally – página 14)

Filosófico ou não, por hoje é isso!

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O futebol, os paradigmas, os métodos, os modelos, a lógica e o livro "Os números do jogo"

O futebol jogado no mundo todo, sofre, continuamente, transformações. Do mais distante ao mais próximo passado, da mais, até a menos tradicional cultura futebolística continente à fora, é fato que ao longo de sua história, o futebol – e mais pontualmente a maneira de jogá-lo – vem ganhando em organização, em sofisticação estratégica, e em elaboração coletiva.

Os sistemas de preparação desportiva futebolística estão cada vez melhores, os jogadores estão cada vez mais bem preparados, a análise do desempenho vem contribuindo cada vez mais para correções de rotas, a velocidade do jogo aumentou e os futebolistas vêm mostrando uma capacidade cada vez maior de tomar decisões exatas e rápidas.

Já escrevi outras colunas, aqui mesmo neste espaço, com intuito de chamar atenção para o fato de que a evolução do jogo de futebol, mais especificamente do "jogar futebol" traria (e traz) consigo a necessidade emergente e urgente de um entendimento mais qualificado sobre o jogo.

Ora, se o jogar futebol que concebemos e operacionalizamos nos treinamentos, é resultado da maneira que enxergamos e entendemos o jogo, nada mais óbvio do que a necessidade de enxergá-lo (o jogo) melhor e mais claramente.

É inegável o fato de que há mais de uma década, a busca pelo "enxergar melhor e mais claramente" tem trazido à tona uma série de conflitos – paradigmas foram, estão e serão quebrados. "Durante muito tempo, quatro palavras dominaram o futebol: "sempre foi feito assim".

O jogo bonito está arraigado na tradição. O jogo bonito agarra-se a seus dogmas e truísmos, a suas crenças e credos. O jogo bonito pertence a homens que não querem ver seu domínio ameaçado por intrusos que sabem que enxergam o jogo como ele realmente é.

Esses homens não querem que lhes digam que há mais de um século eles estão deixando de perceber alguns fatos. Que existe um conhecimento que eles não possuem. Que o jeito como eles sempre fizeram as coisas não é como as coisas devem ser feitas." (livro: "Os números do jogo", de Chris Anderson e David Sally – página 13)

Avançar a linha limite, que estabelece ideias, ideais, conceitos e verdades é avançar a barreira, que esconde atrás dela, um mundo novo e desconhecido.

Nunca é fácil passar por essa barreira. O certo, é que a maneira que escolhemos passar por ela pode determinar as dificuldades e resistências que encontraremos logo à frente.

Muitos são os caminhos que levam às vitórias. A história do futebol nos mostra isso muito claramente!

Não deveríamos brigar por métodos "A" ou "B". Não! Não deveríamos brigar por um modelo "C" ou "D". Precisamos entender no cerne o que o jogo, propriamente dito, a partir de sua inexorável lógica tem para nos dizer.

Vitórias podem ser alcançadas pelos métodos "A" e "B", mas também pelo "X", pelo "Y" ou pelo "Z"; equipes podem jogar bem a partir dos modelos "C", "D" ou "E" – mas indiscutivelmente jogos não podem ser vencidos e/ou bem jogados se o "jogar" – e logo, a preparação para o jogar – não estiverem em conexão, na essência, com o cumprimento da lógica do jogo.

A negação ou não compreensão sobre o passado (da preparação para o "jogar", e do "jogar" propriamente dito) trarão ilusões para o presente e dificuldades para o planejamento do futuro.

"Não dá para dizer que todas as tradições estão erradas. Os dados que hoje podemos reunir e analisar confirmam que parte daquilo que sempre se acreditou ser verdade é, de fato, verdade. Para além disso, porém, os números nos oferecem outras verdades, esclarecem coisas que não temos como saber intuitivamente e expõe a falsidade do "sempre foi feito assim".

O maior problema de seguir um tradição venerável e um dogma estabelecido é que ambos raramente são questionados. O conhecimento fica estagnado, enquanto o próprio esporte e o mundo em torno dele mudam." (do mesmo livro: "Os números do jogo", de Chris Anderson e David Sally – página 14)

Filosófico ou não, por hoje é isso!