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Fatores que influenciam a participação de brasileiros na Champions League – Indicadores de tamanho corporal

Crédito imagem – Vitor Santos

Pelé, Garrincha, Rivellino, Zico, Sócrates, Romário, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Kaká, Neymar. São inúmeros os talentosos futebolistas brasileiros que nos encantaram e continuam a nos encantar com tamanha qualidade tático-técnica colocada em prática nos gramados mundo afora.

De fato, ao longo do tempo, o Brasil tem se caracterizado como um país formador de grandes jogadores para o futebol mundial. De norte a sul, todos os anos surgem novos talentos oriundos das categorias de base dos diversos clubes brasileiros. Além de oferecer uma carreira esportiva ao jovem futebolista, os clubes formadores buscam otimizar os processos de prospecção, detecção e formação de jogadores visando alimentar as suas equipes profissionais, bem como gerar receitas com a venda dos futebolistas talentosos formados “em casa” para os clubes europeus, asiáticos e até mesmo norte-americanos.

Um processo formativo virtuoso e capaz de revelar tais talentos ao futebol reclama aos profissionais envolvidos neste contexto a adoção de métodos de treinamento que trabalhem o ensino-treinamento das dimensões físicas, técnicas, táticas e psicológico-comportamentais.

Apesar do futebol ser reconhecidamente um esporte multifatorial, tem sido observada uma maior representatividade de futebolistas com maiores proporções corporais em equipes de futebol (MALINA et al., 2010), revelando um possível viés na prospecção de talentos. Isso vem ocorrendo porque os jogadores maiores e que amadurecem precocemente apresentam melhores resultados nos indicadores de tamanho e composição corporal (MALINA et al., 2000) e no desempenho físico (COELHO-E-SILVA et al., 2010), provocando uma aparente vantagem competitiva (GIL et al., 2007).

Por outro lado, diversas investigações têm apontado para a limitada contribuição do tamanho corporal e da maturidade precoce sobre o desempenho técnico (MALINA et al., 2005; GOUVÊA et al., 2017) e tático dos futebolistas (BORGES et al., 2018).

Diante de informações contraditórias acerca do impacto do tamanho corporal sobre o desempenho nas dimensões físicas, técnicas e táticas, surge a questão: os futebolistas brasileiros corporalmente maiores são aqueles que jogam nas melhores equipes europeias?

Para tentar responder a esta questão, buscamos no artigo de Mendes e colaboradores (2021) identificar os efeitos do tamanho corporal sobre a ascensão profissional de futebolistas brasileiros atuando na Europa. Foram coletadas informações provenientes de 309 jogadores brasileiros que atuam nas dez principais ligas europeias – Espanha, Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Rússia, Portugal, Ucrânia, Bélgica e Turquia, conforme ranking de coeficientes de clubes da UEFA.

A partir de análises estatísticas, identificamos que o aumento de 1 cm em estatura amplia em 7% as chances de o jogador atuar em um escalão inferior (P=0,03), diminuindo, consequentemente, as chances de atuar em uma equipe de escalão superior, participante da Liga dos Campeões da UEFA. Por sua vez, a massa corporal não foi capaz de predizer a atuação dos jogadores brasileiros em diferentes escalões competitivos.

Importante fazermos uma ressalva: esta análise não considerou a posição de jogo do futebolista. Acreditamos que as diferentes posições trazem consigo diferentes características morfofuncionais aos jogadores, o que não nos permite estender essa informação para todas as posições de jogo, sendo apenas uma análise generalista.

Considerando os dados previamente publicados na literatura, conjugados aos achados da nossa investigação, observamos que as estratégias de prospecção de talentos que buscam selecionar majoritariamente jovens futebolistas altos e fortes em detrimento daqueles que apresentam qualidades tático-técnicas pode diminuir as chances destes futebolistas participarem de elencos de grandes clubes.

Em síntese, recomendamos aos profissionais que trabalham com jovens futebolistas a adoção de uma visão integrada e multifatorial do desempenho esportivo, pois enviesar os processos de prospecção e seleção de talentos apenas pela dimensão morfofuncional pode trazer resultados imediatos dentro de campo a partir das momentâneas vantagens competitivas que o tamanho corporal ocasiona, mas ao longo do tempo o tamanho corporal sozinho parece não favorecer a um maior sucesso esportivo, tampouco ser um preditor de desempenho em campo.

Link para o artigo completo

Referências consultadas

BORGES, P.H.; CUMMING, S.; RONQUE, E.R.V.; CARDOSO, F.; AVELAR, A.; RECHENCHOSKY, L.; TEOLDO, I.; RINALDI, W. Relationship Between Tactical Performance, Somatic Maturity and Functional Capabilities in Young Soccer Players. Journal of Human Kinetics, v. 64, n. 1, p. 160-169, 2018.

COELHO-E-SILVA, M.J.; FIGUEIREDO, A.J.; SEABRA, A.; NATAL, A.; VAEYENS, R.; PHILIPPAERTS, R.; CUMMING, S.; MALINA, R.M. Discrimination of U-14 soccer players by level and position. International Journal of Sports Medicine, v. 31, n. 1, p. 790-796, 2010.

GIL, S.; RUIZ, F.; IRAZUSTA, A.; GIL, J.; IRAZUSTA, J. Selection of young soccer players in terms of anthropometric and physiological factors. The Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, v. 47, n. 1, p. 25-32, 2007.

GOUVEA, M.; CYRINO, E.S.; VALENTE-DOS-SANTOS, J.; RIBEIRO, A.S.; SILVA, D.R.P.; OHARA, D.; COELHO-E-SILVA, M.J.; RONQUE, E.R.V. Comparison of skillful vs. less skilled young soccer players on anthropometric, maturation, physical fitness and time of practice. International Journal of Sports Medicine, v. 38, n. 5, p. 384-395, 2017.

MALINA, R.M.; CUMMING, S.; KONTOS, A.P.; EISENMANN, J.; RIBEIRO, B.; AROSO, J. Maturity-associated variation in sport-specific skills of youth soccer players aged 13–15 years. Journal of Sports Sciences, v. 23, n. 5, p. 515-522, 2005.

MALINA, R.M.; REYES, M.P.; EISENMANN, J.; HORTA, L.; RODRIGUES, J.; MILLER, R. Height, mass and skeletal maturity of elite Portuguese soccer players aged 11–16 years. Journal of Sports Sciences, n. 18, v. 9, p. 685-693, 2000.

MALINA, R.M.; REYES, M.P.; FIGUEIREDO, A.J.; COELHO-E-SILVA, M.J.; HORTA, L.; MILLER, R.; CHAMORRO, M.; SERRATOSA, L.; MORATE, F. Skeletal age in youth soccer player: implication for age verification. Clinical Journal of Sport Medicine, v. 20, n. 6, p. 469-474, 2010.

MENDES, C.; MENEGASSI, V.; JAIME, M.; COSTA, L.C.A.; MARQUES, P.G.; RECHENCHOSKY, L.; RINALDI, W.; BORGES, P.H. Impacto do tamanho corporal, da idade relativa e do índice de desenvolvimento humano sobre a participação de futebolistas brasileiros na Liga dos Campeões da UEFA. Retos, v. 39, n.1, p. 271-275, 2021.

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Relatório – O melhor time do mundo no Brasil

O presente documento foi confeccionado com dois objetivos. Primeiro o de trazer uma apanhado inédito sobre o mercado nacional e mundial do futebol feminino. Já o segundo é o de fazer um convite, um convite para sonharmos com o melhor time do mundo no Brasil. Tal sonho não é nem um pouco fácil de ser realizado, mas, como defendemos ao longo do estudo, está longe de ser impossível.

Clique no link abaixo para acessar o relatório completo!

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As epistemologias nossas de cada dia II – O empírico e a técnica

‘E você, jogou aonde?’

Em nossa última conversa, retomamos brevemente o conceito de epistemologia e como essa ciência se articula com os processos didáticos e metodológicos no ensino e treinamento do futebol. Falamos também sobre o quanto a teoria do conhecimento inatista, àquela que concebe o mundo – e o esporte – entre aqueles e aquelas que receberam alguma dádiva dos céus ou receberam vultuosa herança genética e são, portanto, essencialmente talentosos e talentosas, especiais, os e as que passam a vida tentando encontrar o dom que lhes foi atribuído e os e as pobres mortais.

No papo de hoje, apresentamos uma outra teoria do conhecimento, a empirista, que mesmo sustentada pelas mesmas lentes paradigmáticas do inatismo, concebe os processos de aprendizagem de maneira totalmente oposta. Expliquemos.

O inatismo pressupõe que todos os nossos saberes, competências, habilidades são determinados, concebidos para, durante a vida, serem aperfeiçoados: conhecimento é manifestado, assim, de dentro para fora. O Empirismo inverte os sinais. Empirismo faz alusão à empiria, termo que remete ao grego experiência, mas não àquela de sentido larrossiano – muitas vezes evocada neste espaço pelo Hudson Martins. Trata-se da experiência-vivência, mesmo: aquilo que passa.

O modo ‘empírico’ de conceber as relações humanas é tão antigo quanto à teoria do conhecimento inatista. O Empirismo foi impulsionado lá no Século XVII e teve como icônicos entusiastas dois britânicos: Francis Bacon, político, ensaísta e tido como um dos fundadores da ciência moderna e John Locke, filósofo, tido como ‘pai’ do liberalismo econômico. Ambos rejeitavam a incerteza e reduziam os fatos e saberes ao real e ao palpável, àquilo que poderia ser comprovadamente enxergado com os olhos e experimentado: um literal ver para crer, de fazer inveja ao Tomé bíblico.

Locke, inclusive, considerava a alma humana uma tábula rasa: vazia, desprovida de impressões ao nascer, que seria escrita de acordo com nossas vivências.  Quanto mais velhos ficamos ou maior quantidade de situações vividas em determinado contexto, mais sábios, fatalmente, seremos. O conhecimento é adquirido, portanto, de fora para dentro.

O Empirismo, durante os três séculos seguintes, firmou as bases do modus operandi de vida ocidental, seja na política, na economia, na saúde, nas relações sociais e, claro, na educação. Ofereceu uma roupagem moderna à visão de mundo fragmentada e dicotômica: a existência do certo ou errado, o bom e o mau, o vencedor e o perdedor, a teoria e a prática, os que sabem e os que não sabem, o que muito bem convinha num mundo repartido por muros ideológicos de concreto e cortinas de ferro. No Século XX.

No contexto educacional, o Empirismo sustenta abordagens pedagógicas que se pautam em modelos de produção industrial (sim, falo do fordismo e do toyotismo) e da psicologia comportamentalista – vale uma pinçada em ‘Sobre o Behaviorismo’,

obra de Burrhus Frederic Skinner. Superá-las pressupõe um rompimento epistemológico (ou brusca mudança das lentes de contato) que tem exigido, há décadas, constantes esforços de pedagogos e pedagogas globo afora, materializados pela busca de caminhos, na relação de aprendizagem, em que o(a) professor(a)/treinador(a) não mais seja o ‘senhor(a) do ensino’ e o(a) aluno(a), colocado em plano de protagonismo e nobreza deixe de trabalhar de forma mecânica. 

Na cultura esportiva e no futebol, o Empirismo é soberano. O(a) treinador(a), mais velho, mais experiente, ensina ao jogador(a), mais novo, tido como menos capaz, ao mesmo tempo em que é julgado(a) como mais competente que o outro através, e tão somente, dos resultados (como pede o produtivismo industrial). Para consegui-los rapidamente, fraciona, mecaniza e induz comportamentos nos treinamentos através do mecanismo punição-recompensa (olha a psicologia comportamentalista, aí), mesmo que descontextualizados às tarefas do jogo – essencialmente imprevisível e caótico.

São esses os pressupostos que regem posturas banais no mundo da bola. O treinamento baseado em repetições de gestos é o que deve nortear a formação do(a) atleta para que os gloriosos tempos de ‘futebol-raiz’, com ênfase desenfreada na técnica, torne a dar as caras. Afinal, hoje ‘tá chato’ ver jogo. O Fulano, que nunca jogou profissionalmente, não pode ser melhor treinador que o Siclano, ídolo, ex-jogador consagrado, que chupou milhares de laranjas no vestiário e vai transmitir, quase que por osmose, tudo aquilo que fez e viveu em campo. E se não der certo Siclano, chame Beltrano porque ele, sim, bota ‘ordem’, (esse belo eufemismo para medo) e vai fazer com que o time corra mais e jogue ‘com empenho e vontade’. Puro empirismo.

Já corroboramos, em algum momento, com esses exemplos bobos – e é bastante possível que sejam centenas de dezenas de milhares os/as ainda concordaram. Porque, como dissemos, o Empirismo cumpre muito bem o que presume muitas das concepções do paradigma analítico-sintético, colocado à mesa desde o início de nosso processo de formação – na escola, na igreja, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.  Questionarmos tais concepções no momento em que o Interacionismo, terceira das três teorias do conhecimento que compõem a série, está posto e consolidado em outros lugares da Terra, a redonda e não a plana, é um dever pedagógico:

– teçamos críticas ao tecnicismo e não à técnica. O tecnicismo é a concretização industrial-produtivista chancelam ações repetitivas e descontextualizadas nos treinamentos, dentre outros motivos porque ‘sempre foi assim’, A técnica, fundamental ao jogo, pode e deve ser trabalhada junto à tática;

– vivência, em qualquer área, é importantíssima. Aprendemos a jogar, jogando e a treinar, treinando. Parece-nos importante, no entanto, nos atermos à qualidade, e não à quantidade, das experiências e tarefas que constituem nossos saberes, que adquirem novos sentidos a todo momento;

– há grande diferença entre ‘correr certo’ e ‘correr mais’. A ‘vontade’, desprovida de processos bem definidos na estruturação de modelos de jogo que potencializem rendimentos dos(as) atletas, tem prazo de validade curto.

O Empirismo carece de desconstrução – e toda a desconstrução envolve processo. Demanda, de acordo com o contexto, respeito ao tempo e a história do próximo. Não nos custa, porém, dizer que tal qual o mullet no cabelo, o discman, o computador com o sistema operacional Windows 95, a Brasília amarela e o voto impresso, o Empirismo na pedagogia, no esporte e na Pedagogia do Esporte foi tendência, teve lá sua utilidade e até parece tentador saudá-los em favor de um romantismo – às vezes mal-intencionado.

Mas no frigir dos ovos, é apenas cafona e sem sentido.

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Raio X da gestão do marketing nos clubes de futebol – as estruturas

Dando continuidade à série que apresenta as informações sobre a gestão do marketing nos clubes que disputaram a Série A1 do Paulistão 2018, hoje iremos tratar de como os 14 clubes analisados estruturavam a área de marketing. Dos clubes analisados 12 possuíam departamento de marketing, enquanto em dois não haviam profissionais atuando na área.

Tomando como base modelos teóricos sobre departamentos de marketing, foi identificado que cinco clubes adotavam o modelo empreendedor, com a área de marketing formada por apenas uma pessoa. Em outros cinco clubes o departamento se aproximava do modelo tido como tradicional, no qual há um departamento de marketing formal, independente, com diretor próprio e formado por uma equipe de três o ou mais pessoas. Dois clubes possuíam departamento de marketing voltado para vendas, formado por uma ou duas pessoas e sem o completo desenvolvimento do marketing. Por fim, um clube adotava o modelo de terceirização, com a área de marketing sob a responsabilidade de uma agência externa.

Em seis dos 12 clubes que possuíam departamento de marketing a área tinha autonomia de atuação e estava em igualdade com outros departamentos. Nos outros clubes o marketing era subordinado a outros setores, como departamento de futebol e a presidência. Apenas em cinco clubes havia funcionários suficientes que permitissem a divisão do marketing em áreas internas, com um total de 15 áreas identificadas.

Destaque para a área comercial e de sócio torcedor, as mais citadas. Ao comparar os resultados com modelos teóricos sobre departamentos de marketing de organizações esportivas e com os clubes europeus é observado a ausência ou o limitado espaço a áreas como ingressos/bilheteira; Relações Públicas; pesquisa e gestão de informações; e promoção e publicidade.

Dos 14 clubes analisados apenas quatro possuíam orçamento anual e formal para a área de marketing. Em sete a equipe de marketing necessitava negociar pontualmente com a direção a liberação de verbas para a realização das ações e em três clubes o marketing não recebia nenhuma verba do clube para a sua atuação, exceto o pagamento de salários.

Um achado interessante foi que em sete clubes a área de Marketing e de Comunicação eram unificadas, situação não retratada pela teoria e pouco usual nos principais clubes europeus. Tal junção foi justificada pelos entrevistados em razão de dois fatores distintos:

  • Opção estratégica, na qual a junção das áreas ocorria no nível superior, com um único responsável. As estratégias e o planejamento eram desenvolvidos em conjunto, com a aplicação sendo feita por equipes próprias para cada área;
  • Falta de pessoal: os poucos recursos financeiros e a limitada visão das diretorias dos clubes sobre ambas as áreas faziam com que não houvesse profissionais suficientes para a Comunicação e para o Marketing. Assim, a mesma pessoa acumulava a responsabilidade por ambos. O excesso de tarefas impedia o foco nas duas áreas, sendo que na maioria dos clubes em que ocorria tal fato o marketing era preterido em relação a comunicação, já que a atuação como assessor de imprensa apresentava uma demanda maior e diária.

Por fim, ao observarmos o cumprimento das exigências das regras de licenciamento da CBF sobre os departamentos de marketing, em especial sobre a presença de um cargo de liderança na área – CMO, diretor ou gerente de marketing, foi verificado que em metade dos clubes que possuíam departamento de marketing não havia tal cargo. Essa ausência acaba por fazer que a área seja gerida por pessoas sem dedicação exclusiva ao clube – caso dos diretores voluntários – ou por pessoas de outras áreas, como o presidente ou gerente administrativo.

Se mostra preocupante que apenas cinco clubes possuíam três ou mais pessoas no departamento de marketing, o que possibilitava a existência de áreas internas e uma atuação mais profunda e ampla. A terceirização da área em um clube se mostrou positiva, apesar de não haver um funcionário da terceirizada fixo no clube diariamente, bem como a junção nos níveis superiores do marketing com a comunicação. Por outro lado, é preocupante a subordinação do marketing a outras áreas ou a pessoas não especializadas, o que acaba por prejudicar em muito a atuação da área. Além da pouca relevância dada ao marketing por algumas diretorias, fato comprovado pela ausência, na maioria dos clubes, de um orçamento anual e formal e pela união do Marketing com a Comunicação sem a existência da quantidade adequada de profissionais para tal.

Clique aqui para ler a primeira parte do estudo.

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Sobre o processo de treino como poesia e método

Crédito imagem – Lucas Figueiredo/CBF

Muito embora todos nós, treinadores e treinadoras e profissionais do futebol em geral, estejamos nos preparando cada vez mais, muito embora nossas formações sejam cada vez mais recheadas, cada vez mais repletas de informações, eventualmente de conhecimentos (nem sempre de saberes), é claro que nos restam várias dúvidas, vários tipos de questionamentos sobre as nossas próprias práticas. Nós não sabemos de tudo, não saberemos, e as coisas de quem não sabemos nem sempre virão de um livro ou de um amontoado de livros, mas da vida que se vive, da maneira como vamos respondendo à vida que se vive – e portanto do sentido que somos capazes de dar à vida que vivemos todos os dias.

Sobre isso, tem me chamado muito a atenção, na minha própria prática como treinador, o caráter poético que de vez em sempre aparece no processo de treino. Neste momento histórico, em que estamos (ou pelo menos parecemos estar) cada vez mais submetidos ao método e cada vez mais distantes da arte, como se o fato de sentir, ao invés de apenas racionalizar, e o fato de fazer arte, ao invés de apenas e tão somente fazer o que nos diz o método, como se essas coisas fossem um erro, uma bizarrice – mais do que isso, como se pensar o futebol também a partir da arte fosse um retrocesso, como se o cultivar a arte, inclusive pela ampliação dos próprios limites humanos, fosse um delírio, ao mesmo tempo em que a obsessão pelo controle, em todas as suas manifestações, dentro e fora do processo de treino, fosse, essa sim, uma postura sóbria e elogiável. Curiosamente, às vezes sentimos que os delírios de controle da vida cotidiana parecem nos fazer menores e mais cansados, como se tudo o que a vida nos pedisse, para que de fato possamos nos sentir mais vivos, fosse um pouco mais de abertura, de des-controle – de uma forma que novas ordens fossem surgindo naturalmente.

No caso do treino, particularmente me chama a atenção o seguinte: por algum motivo, temos a tendência de acreditar, explicitamente ou não, que um determinado treinamento será tanto melhor quanto mais planejadas, organizadas e sistematizadas estiverem as suas variáveis, sejam as de um microciclo semanal, de um mesociclo, seja de uma sessão de treino, seja de um determinado exercício dentro de uma determinada sessão. Não raro, eu mesmo (e imagino que vários de vocês) me vejo numa espiral de rabiscos e observações que me permitam antever o máximo de possibilidades sobre as coisas que gostaria de propor, ou então que me permitam não apenas tirar o máximo de uma dada atividade, ou de uma dada sessão, tirar tudo aquilo que for possível, como também – e aqui está um ponto fundamental – que permitam que os atletas saiam da atividade mudados, de preferência nitidamente mudados, de um modo que as suas próprias maneiras de sentir e jogar o jogo passem a ser diferentes daquele instante em diante, cristalizando o aprendizado que me sinto na obrigação de estimular numa dada sessão ou ao longo do processo.

Por outro lado, não é possível pensarmos a educação (e portanto, o processo de treino) apenas e tão somente a partir dos nossos desejos de controle. Vocês sabem que uma das variáveis inequívocas da aprendizagem é a subjetividade do aprendiz, o que significa que a apreensão de um determinado jogo, por mais detalhado e meticulosamente planejado que seja, não depende das nossas vontades, como treinadores e treinadoras, mas depende das relações que cada atleta, na imensidão da sua particularidade, é capaz de criar com o jogo que se joga. E mesmo as relações do atleta com o jogo que se joga, mesmo esse tipo de relação aparentemente deliberada, dependente do próprio atleta, na verdade também sofre influência de todo um mundo interno, dos infinitos todos que residem em cada um, de um modo que a constituição de um saber depende sim, em parte, das nossas próprias vontades, enquanto mestres e aprendizes, mas depende também (e talvez especialmente) de um campo de variáveis que estão para muito além do que podemos ver – por isso a importância da **sensibilidade pedagógica**, porque há coisas que nos aparecem mais ao coração do que aos olhos – e, justamente por isso, muito além do que podem agir – são variáveis que carregam uma vida própria.

Por isso, penso comigo até que ponto, principalmente de um ponto de vista pedagógico, o melhor treino seja aquele mais criterioso, meticuloso, absolutamente detalhado, destrinchado, ‘limpo’, ou então se além do critério, do método e da limpeza também não é preciso, dentro do processo de treino, separar uma parte para a incerteza, o descontrole, o improviso, um certo grau de ‘sujeira’, num sentido informal do termo, como acontece exatamente no jogo que se joga: se o jogo é um espaço, por natureza, de descontrole, de imprevisibilidade, de equilíbrios dinâmicos (para usar o termo do Capra), se o jogo é um espaço de caos sobre ordem sobre caos, talvez também seja necessário que os nossos processos de treino, cada vez mais metódicos, mais rígidos, mais inflexíveis, se abram a um certo grau de impureza e de poesia. Como fazer isso? Não sei, não posso dar respostas universais. Ao menos na minha prática, tenho sentido o seguinte: alguns dos melhores treinamentos não são necessariamente os mais regulados e obsessivamente controlados, mas justamente aqueles a partir do quais, por vontade minha, ou por algum elemento do acaso, é preciso ter um grau de improviso (uma mudança de regra, um ou mais atletas lesionados, uma solução inesperada etc etc). Quanto mais nos abrimos ao jogo, me parece que mais ele nos responde.

E talvez por isso valha a pena considerarmos, de uma forma bem subjetiva, de acordo com quem somos e quem gostaríamos de ser, como podemos dar um verniz de poesia ao processo de treino, como podemos acrescentar uma camada de arte ao método, e de que forma isso pode nos fazer não apenas melhores treinadores, treinadoras e profissionais do futebol, como também pode atingir precisamente aquelas camadas de aprendizagem, às vezes tão duras e monótonas, de que falávamos no começo deste texto.

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Regionalismo na Série A do campeonato brasileiro (2010-2019), uma análise sobre a participação de equipes e contratações de treinadores.

Crédito da imagem – SC Internacional/site oficial

A tabela abaixo apresenta a quantidade de equipes que representaram suas região entre as temporadas de 2010-2019:

Somadas as participações de todas as equipes da série A no período estudado, dividindo-as por regiões, temos o Nordeste com 28 participações, Centro-Oeste com 9, Sudeste com 108 e Sul com 55. Importante notar que a região Norte não possuiu nenhum representante no período estudado, sendo a última participação em 2005, quando o campeonato brasileiro possuía 22 equipes, tendo o Paysandu Sport Club como representante.

O gráfico abaixo apresenta a evolução das participações de equipes por região na série A do campeonato brasileiro de futebol.

De acordo com o gráfico apresentado, a elite do futebol brasileiro é marcada pela predominância de equipes do sudeste e sul do país.

As tabelas abaixo apresentam os resultados encontrados das participações de equipes por região, estado e os diferentes representantes por estado.

A participação nordestina na Série A, ficou restrita à participação de 8 equipes, sendo uma de Alagoas, duas da Bahia, duas do Ceará e três de Pernambuco. Importante frisar que nenhuma equipe esteve em todas as temporadas estudadas, e que de 9 estados que compõe a região nordeste, apenas 4 foram representados na elite do futebol brasileiro.

Sobre a região Centro-Oeste, temos a participação apenas de duas equipes, ambas do estado de Goiás. Essas, não conseguiram participar de mais da metade do período estudado. E em uma região com 4 estados, apenas 1 foi representado.

Responsável pelo maior número de equipes participantes, o Sudeste possui 4 estados, e apenas um não possuiu representante na elite do futebol brasileiro, o Espirito Santo. O estado de São Paulo obteve o maior número de diferentes representantes, 8 no total, algo que destaca a força do estado para o futebol nacional. O Sudeste é a região com mais equipes que participaram de todas as temporadas estudadas, 7. Fato que demonstra a consistência dessa região no futebol brasileiro.

A região Sul, é a segunda com mais equipes participantes, diferente de todos as outras regiões, todos os estados que a compõe tiveram representantes na elite do futebol brasileiro no período estudado. Com destaque para Santa Catarina que teve 5 representantes diferentes.

            Vamos analisar agora, a quantidade de participações nessas 10 temporadas por cada estado:

Parte 2: contratação de treinadores na série A, uma análise por regiões e estados

Sobre as contratações de treinadores, os dados foram coletados em sites de notícias esportivas, posteriormente armazenados em um arquivo de Excel, no qual foram analisados. Foi buscado a região e o estado de nascimento dos treinadores contratados, para que fosse realizado uma distribuição geográfica desses dados.

1. Brasil – A soma de “todas” as regiões

A tabela abaixo apresenta todas as contratações de treinadores realizadas pelas equipes da Série A durante todos os anos estudados.

No período de 10 anos, foram realizadas 423 contratações de treinadores de futebol pelas equipes da Série A. Os treinadores do sudeste foram os mais procurados pelas equipes brasileiras no período estudado (255), seguido pela região Sul (124), Nordeste (24), treinadores estrangeiros (14), e Centro-Oeste (6). Destaque que, a região Norte nesse período não teve um treinador que o representasse na elite do futebol brasileiro. O gráfico a seguir apresenta esses valores em percentuais.

A imagem a seguir trata de uma distribuição por região e estados de nascimento dos treinadores contratados no período estudado. É importante destacar que: Estes dados se referem a quantidade de vezes que um treinador é contratado. Por exemplo: em 2019, o treinador Zé Ricardo (Sudeste – RJ), foi contratado pelo Fortaleza e pelo Internacional, nesse caso, ele conta duas vezes para o estado do RJ.

Mas, se quisermos analisar quantos treinadores estiveram na elite do futebol brasileiro nesse período de 10 anos? A Série A do futebol brasileiro contou com a participação de 152 treinadores, no qual o Sudeste permanece liderando, com 81, destaque para o estado de São Paulo que foi responsável por praticamente metade dos números do sudeste; seguido pelo Sul (42); treinadores estrangeiros e nordestinos vêm na sequência, ambos com 12 representantes; a região do Centro-Oeste vem logo atrás com 5 representantes.

Obtemos até aqui, várias informações, mas é importante saber se elas se cruzam. Será que existe alguma correlação entre a quantidade de participações de por estado e a quantidade de vezes que os treinadores são contratados? Utilizando a linguagem Python e o Jupyter Notebook, foi utilizado a correlação de Pearson, tivemos o p com resultado de 0.95.

2. Analisando região por região

A tabela abaixo apresenta os resultados de todas as contratações realizadas. A leitura da tabela é feita desta forma: “Quantidade de vezes que treinadores das regiões (ou estrangeiro) foram contratados pelas equipes do:” Os dados estão divididos em valores absolutos e valores relativos (%).

As equipes do nordeste contrataram 1 estrangeiro (1%); 6 nordestinos (8%); 50 contratações de treinadores do sudeste (66%), e 18 do sul (24%), totalizando 76 contratações.

            As equipes do Centro-Oeste, não contrataram nenhum estrangeiro; 1 nordestino (4%); 2 do Centro-Oeste (7%); 23 do Sudeste (82%); e 2 do Sul (7%); total de 28 contratações.

            Com relação às equipes do Sudeste, contrataram estrangeiros e nordestinos 10 vezes cada, ambos representando 5% do total. Realizaram 124 contratações de treinadores do próprio sudeste (63%); e 52 do Sul (27%), total de 196 contratações.

            Já as equipes do Sul, contrataram estrangeiros por 3 oportunidades (3%); nordestinos 7 vezes (6%); treinadores do Centro-Oeste por 3 vezes (2%), totalizando 123 contratações.

            Quais reflexões podemos tirar com esses números? O treinador nordestino representa 8% das contratações realizadas pelas equipes do próprio nordeste, enquanto o Sudeste contém 66% das contratações e o Sul 24%. Quando comparamos em números absolutos, equipes do Sul e Sudeste contratam mais nordestinos (7 e 10, respectivamente) que as equipes do nordeste (6). Porém, em números relativos (%), equipes do nordeste contrataram mais que as demais regiões (8% do Nordeste; 5% do Sudeste e 5% do Sul), apesar que a diferença percentual é muito pequena.

            Com relação às equipes do Centro-Oeste, esta é a que menos contratou “dos seus”, com duas contratações (7% do total). E foi a que mais contratou treinadores do sudeste, 23 (82%), nem mesmo as equipes do sudeste contrataram tanto “dos seus” quanto as equipes do Centro-Oeste.

            Sobre as equipes do Sudeste, temos a região que mais contrata estrangeiros em números absolutos e percentuais. Também é a região que mais contratou nordestinos em números absolutos. Foi a segunda região que mais contratou treinadores sulistas em números absolutos e relativos.

            As equipes do Sul contrataram treinadores de todas as regiões (exceto do Norte). Assim como todas as outras regiões, treinadores do sudeste foram maioria das contratações, porém, vale destacar que, as equipes do Sul foram as que mais contrataram sulistas em valores relativos (42%) e em valores absolutos (52), empatando com a região sudeste. Vale também destacar que elas foram as que menos contrataram treinadores do sudeste em valores relativos (47%) quando comparadas com as equipes das outras regiões.

            Terminada a pesquisa, vale refletir sobre tudo que foi exposto, equipes do Nordeste e Centro-Oeste valorizam muito pouco a mão de obra local. Os números poderiam ser ainda menores, visto que, por duas vezes equipes do nordeste colocaram treinadores para terminar o campeonato falta 1 ou 2 rodadas, visto que a equipe já não teria mais o que almejar na competição.

            Como relato pessoal, no Maranhão existe um grande problema na estruturação do futebol de base, ele simplesmente não existe. Um profissional que deseja trabalhar com futebol inicia pelas várias escolinhas que aqui temos, porém, não existe um próximo passo. Aqui temos, escolinhas e o futebol profissional. Competições de base existem, mas são montadas às pressas faltando dias da competição. Logo, não existe um processo de formação/maturação profissional de treinadores, auxiliares, analistas de desempenho, preparadores físicos… A solução já em um mercado restrito é sair em busca de emprego em outros estados, porém, qual clube de outro estado daria emprego à profissionais do futebol sem experiência ou apenas com experiência em escolinhas de futebol?

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A complexidade que envolve o problema do São Paulo

Crédito da imagem – Rubens Chiri/São Paulo FC

No futebol e na vida nunca é só um fator que explica tanto o sucesso como o fracasso. Soluções milagrosas do tipo “passe a fazer isso e sua vida mudará incrivelmente pra melhor” tendem a não funcionar. Assim como a ‘caça as bruxas’, que leva um único indivíduo ou uma única situação a explicar todo um fracasso também não corresponde a verdade. Prefiro uma visão mais global, sistêmica, integrada e transdisciplinar para me aproximar de respostas mais conclusivas.

Por tudo isso não dá pra reduzir o problema atual de desempenho do São Paulo a um único elemento. Fernando Diniz, Daniel Alves, Luciano, Raí, Júlio Casares, enfim, todos que compõem o clube tem sua parcela de culpa no revés.  Olhar o todo e não as partes isoladas costuma ser mais eficaz para entender o problema em sua raíz e encontrar soluções. Sobretudo no futebol profissional.

Nesse mesmo espaço, no mês passado, coloquei que a força mental do time estava em patamares elevadíssimos E que era essa força a responsável por potencializar a maioria dos jogadores para que em campo houvesse a impressão de que ao invés de onze, o São Paulo tinha quatorze, quinze atletas em campo, tamanho era o encaixe tático e técnico da equipe.

Eventos são emblemáticos em qualquer jornada. E a queda na Copa do Brasil para o Grêmio trouxe fantasmas passados, mas não é só isso. A mudança de diretoria tirou algumas peças e colocou outras no dia a dia do grupo. A deficiência do elenco ficou escancarada com a lesão de Luciano. Os anos sem conquistas e o passado recente de fracasso desse grupo vem à tona mais rapidamente do que elencos mais acostumados com conquistas. E nunca dá para tirar da análise que a partir do momento que se atinge um status de líder todos os adversários vão estuda-lo com mais afinco e buscar neutralizar suas forças e explorar as fraquezas.

O são-paulino não consegue ver luz no fim do túnel porque há poucos elementos para acreditar em uma reviravolta. Se nas eliminações das outras competições havia o alto número de rodadas restantes do Brasileirão para ganhar fôlego, agora o fim da temporada se aproxima. Que o São Paulo aprenda com os erros. Que não troque tudo, como foi em anos anteriores, que também tiveram a marca da derrota impregnada. Um fracasso nunca é inútil se dele as lições são aprendidas e usadas como alicerce para a construção de projetos de sucesso. Cada vez mais, o torcedor tricolor vai se acostumando com a derrota…. 

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol

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Uma introdução ao pensamento complexo e sistêmico no futebol

Crédito imagem – Pedro H. Tesch/AGIF/CBF

“A nossa visão de mundo condiciona os limites do nosso trabalho”João Paulo S. Medina

Apesar de estarmos já na terceira década do século XXI, não é raro ouvir por parte de alguns torcedores, jornalistas esportivos e até mesmo profissionais especialistas da modalidade, frases como “o futebol é coisa simples, nós é que complicamos as coisas”. Outro jargão muito comum de se ouvir – após a apresentação de argumentos um pouco mais aprofundados sobre a dinâmica do jogo – é que “o futebol é prática e não teoria”; ou então que “o futebol é bola na rede, o resto é conversa fiada”. Diante destas afirmações cabe indagar: será que o futebol é isso mesmo? Tão simples, tão claro, tão objetivo e fácil de desvendar seus mistérios?

Com essas indagações preliminares, gostaria de propor algumas reflexões, fazendo alguns contrapontos às afirmações simplificadoras e simplistas que se ouve ainda com muita frequência, no futebol e fora dele.

Primeiramente, temos que entender que este tipo de pensamento não surgiu do nada. Podemos afirmar que ele foi construído historicamente e teve sua origem e disseminação – dentro da cultura ocidental, pelo menos – na Europa por volta dos séculos XVII e XVIII, com o advento do Iluminismo. Dá-se início, assim, a um movimento que procura combater o Absolutismo e o pensamento religioso que, por séculos, definiram as relações de poder entre as pessoas em seu convívio em sociedade, condicionando nossa compreensão sobre a realidade e, consequentemente, condicionando nossos hábitos, costumes e cultura.

O Iluminismo foi alavancado através das contribuições de grandes pensadores e cientistas (à época reconhecidos como filósofos naturais) como Galileu Galilei (1564-1642), René Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1643-1727), que juntamente com muitos outros nomes de expressão, ajudaram nas mudanças de paradigma que condicionavam a visão de mundo medieval.

No transcorrer deste movimento sociocultural e econômico, grandes transformações ocorreram. A Terra deixa de ser o centro do universo (geocentrismo); a aproximação da verdade segue mais os princípios científicos do que os princípios puramente religiosos. Desta forma, o conhecimento começa a se estratificar e se especializar, uma vez que esta nova ciência emergente propõe uma leitura mais acurada da realidade, não mais baseada nas tradições, mas sim buscando desvendar essa realidade através de métodos científicos, apartando-se, portanto, do sobrenatural e coletando dados de forma mais direta e objetiva no mundo natural, através de experiências que pudessem ser testadas, reproduzidas, replicadas, comprovando-se hipóteses e teses.    

Este modelo causou uma verdadeira revolução (científica) no pensamento e proporcionou um desenvolvimento sem precedentes para a humanidade ao longo dos séculos seguintes. Porém, com o passar do tempo, dentro desta nova visão de mundo, o que era solução começa a ser problema. As especializações chegaram a um ponto tal que já não permitem uma conexão mais direta com o todo em toda a sua complexidade; pelo contrário, se distancia dele. Começa-se a perceber que o estudo das partes, por mais meticuloso e rigoroso que seja, quando dissociado do todo, já não traz as soluções que procuramos em muitos casos, principalmente quando os problemas não estão restritos tão somente às questões mecânicas ou inorgânicas. Neste sentido, a revolução industrial, que teve início em meados do século XVIII, e que consolidou o processo de formação do capitalismo, acelerou a visão reducionista e estimulou a comparação dos seres humanos enquanto máquinas.

Porém, mesmo com as contestações crescentes que começaram já a partir da primeira metade do século XX, principalmente com o advento da teoria da relatividade e da física quântica, evidenciando as limitações deste modelo paradigmático – cartesiano, newtoniano, linear, mecanicista, este pensamento ainda hoje é determinante, hegemônico e condiciona o dia a dia de nossas ações.

É, portanto, nesta perspectiva que ainda costumamos adotar uma visão de mundo que tem como pilar o modelo tradicional da ciência, baseado na simplicidade, na objetividade, na estabilidade e na previsibilidade. E, infelizmente, é essa a visão de mundo que ainda prevalece no futebol.

Porém, se analisado sob outra perspectiva, o futebol, quer enquanto fenômeno socioeconômico e cultural, quer enquanto manifestação esportiva e lúdica –característica do jogo em si, na verdade, não tem nada de simples, objetivo, estável ou previsível. Se quisermos arriscar a desvendar seus mistérios temos que começar a entendê-lo de forma cada vez mais ampla, sistêmica e complexa.

Considerando que a nossa visão de mundo condiciona os limites do nosso trabalho, é essencial que enxerguemos o futebol com outras lentes, ou seja, de forma mais abrangente e ampla possível, sem deixar de lado as suas especificidades. Afinal, o futebol não é nada simples, como muitos ainda pensam. Ele é complexo e quanto mais procurarmos entender a sua complexidade, mais aptos estaremos para fundamentar as nossas tomadas de decisão; e não só no futebol.

Em um próximo texto falaremos mais sobre o pensamento complexo e sistêmico e seus prováveis impactos na visão que temos sobre o futebol e sobre a realidade na qual estamos inseridos.

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O duelo brasileiro na final da Libertadores

Após 13 edições, a Copa Libertadores da América novamente terá uma final entre duas equipes brasileiras. A última vez que isso havia ocorrido foi em 2006, quando o Internacional sagrou-se campeão ao vencer o São Paulo.

Teremos duas equipes brasileiras, mas apenas um treinador do país. Pelo segundo ano consecutivo um português pode ser o campeão da principal competição de clubes da América do Sul. Outro dado a se destacar é que após 3 finais consecutivas – 2017, 18 e 19, desta vez não haverá ao menos um treinador argentino decidindo o título.

Nesta final destacamos o poderio ofensivo das equipes, ambas chegam empatadas como a 3º equipe que mais finaliza a gol na competição, o Palmeiras ainda é a 2º em expectativa de gols, o xG, enquanto o Santos é a 4º. 

E quando se fala em ataque, pensamos logo nos jogadores de frente, mas em nossa análise ressaltaremos dois jogadores que tem contribuído muito para o sucesso ofensivo de suas equipes e que atuam no meio-campo. Gabriel Menino e Alisson, são dois jogadores que com a versatilidade entre as fases do jogo, dada a média de recuperações de bola e de passes progressivos, têm sido fundamentais para “empurrar” suas equipes até a meta adversária.

Prognóstico de uma final com equipes buscando o gol a todo momento!

Desfrutem do JOGO!

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Otimismo no futebol feminino brasileiro em 2021

Crédito imagem – Felipe Oliveira/EC Bahia

Não é nenhuma novidade que 2019 foi um ano importante na consolidação do futebol feminino no Brasil. Em virtude da força e o crescente interesse da população na prática – por exemplo, com a transmissão da Copa do Mundo Feminina – o ano de 2020 vinha com grandes expectativas.

No entanto, o ano de 2020 foi fortemente marcado pela pandemia do COVID-19 e todas as restrições nas quais fomos submetidos em um esforço conjunto para erradicação dessa doença que até hoje assola o mundo inteiro.

Infelizmente vários âmbitos da sociedade foram acometidos pela crise, e com a comunidade esportiva não seria diferente. Várias competições ao redor do mundo foram paralisadas, e mesmo quando aconteciam, foi com a ausência do público.

A título de exemplo, no Brasil, apenas 11 dos 26 estados conseguiram concluir seus campeonatos femininos estaduais, evidenciando não apenas um período de crise mundial, mas acabando também por intensificar ainda mais os percalços que a prática ainda enfrenta no país como a falta de estrutura, maior planejamento e etc.

No início de dezembro de 2020 a CBF emitiu um ofício determinando que os campeonatos estaduais que não aconteceram no ano passado poderiam ser realizados até 28 de março de 2021. Alguns campeonatos já retornaram às suas atividades, mas caso outros não retornem, nos deparamos com um problema: o Brasileirão deste ano está agendado para começar em maio, e corremos o que risco de que alguns campeões estaduais ainda não tenham nem sido definidos quando a data chegar.

Mas, mesmo diante de tantos obstáculos e incertezas, o futebol feminino conquistou alguns recordes em 2020. O Brasileirão Feminino foi transmitido pela Band, e registrou números de audiências significativos e impressionantes para o horário nobre da televisão brasileira, além investir e transmissões exclusivamente femininas, sob o comando de Alline Calandrini, Milene Domingues e a narradora Isabelly Morais.

Com a popularização dos jogos nas redes sociais e algumas transmissões realizadas via Twitter e Facebook, houve um aumento expressivo no público que acompanhou as competições – um aumento de cerca de três vezes o número em relação ao ano anterior.

O destaque foi tanto que a final do campeonato mineiro fez história, recebendo no Mineirão o clássico duelo entre Cruzeiro e Atlético-MG que foi transmitido na televisão aberta, também com grande audiência. E o destaque não ficou apenas por conta das competições nacionais: as semifinais e final da Champions League feminina foram transmitidas pela ESPN, resultando também em grande engajamento nas redes sociais.

O resultado foi tão relevante que os campeonatos viraram aposta para diversos canais neste ano de 2021. A Band possui os direitos de transmissão do Brasileirão feminino até 2022, mas também já se sabe que a Disney está à procura de mais competições para que possa investir nas transmissões, uma vez ela já detém os direitos da Champions feminina e a Supercopa da Espanha, por exemplo.

Além disso, a Globo também vêm demonstrando crescente interesse em mais transmissões da modalidade; além da contratação da narradora Renata Silveira e de outras comentaristas, o objetivo também é negociar e tentar comprar os direitos do Campeonato Brasileiro Feminino.

O projeto é ainda mais estratégico: as contratações foram feitas em partes, inserindo de maneira gradual nomes femininos nas transmissões masculinas, buscando uma maior representatividade no esporte como um todo. A ideia originalmente era transmitir as partidas do campeonato no lugar da transmissão da Fórmula 1, que teria seu contrato finalizado ao final de 2020, o que não ocorreu. Porém, a emissora global ainda está interessada em transmitir os jogos em outros horários acessíveis, o que apenas corrobora o potencial econômico da modalidade.

Vale ressaltar que a transmissão dos jogos femininos ajudaria no desfalque que a emissora carioca passou a enfrentar com a perda dos direitos de transmissão do Campeonato Carioca e a Libertadores de 2021.

O ano de 2021 também merece destaque uma vez que serão realizadas as Olimpíadas de Tóquio, e a seleção feminina brasileira tem vaga garantida. Lideradas pela técnica Pia Sundhage, as jogadoras já se encontram em Viamão-RS desde o dia 5 de janeiro para início dos treinos e preparações para a competição. O primeiro compromisso oficial da seleção será na disputa da sexta edição do Torneio She Believes, entre os dias 15 a 24 de fevereiro em Orlando, nos Estados Unidos. O Brasil é um dos convidados da competição e disputará com as seleções do Japão, Canadá e as anfitriãs e atuais campeãs mundiais, os Estados Unidos. A estreia será contra o Japão, no dia 18 de fevereiro, as 18 horas (horário de Brasília).

Ou seja, mesmo diante de tantos desafios, o futebol feminino só vem crescendo – e ainda tem muito a crescer. Os patrocínios e investimentos estão em evidente expansão, e podemos apontar como exemplo o Guaraná Antártica e a Riachuelo, que patrocinaram o Campeonato Brasileiro de 2020.

Uma maior exposição ajudaria ainda mais no crescimento da modalidade, cativando um maior público e catapultando o esporte a um destaque cada vez maior e merecido.