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Qual é o caminho da mudança?

A alteração do projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal dos Clubes pela chamada “Bancada da Bola” nos últimos instantes da votação, apesar de toda a pressão midiática e do bom trabalho feito pelo Bom Senso FC, reforça um conceito que venho destacando nos meus últimos textos aqui na Universidade do Futebol: o processo de mudança não virá pela força do meio político, que é, sabidamente, amplamente viciado.

Partimos da premissa óbvia de que sequer o poder público tem respeitado as diretrizes da Lei de Responsabilidade para o uso do dinheiro público, mudando a regra pouco antes de ver que não irá poder cumpri-la, por que é que achamos que seria diferente com o futebol ou com o esporte?

O mais engraçado (para não dizer trágico) é que quem estuda um pouquinho de história verá que este cenário é apenas uma reprise de tantos outros “causos” envolvendo esporte, expectativas de mudanças radicais e o poder público no meio. E pior, historicamente, as relações com o esporte são evidenciadas e literalmente usadas em períodos eleitoreiros. Definitivamente, não funciona!

As entidades esportivas e o mercado precisam rever a forma de ser relacionar com o poder público urgentemente para que o processo possa ser tanto benéfico para a indústria do esporte quanto para a sociedade. Da forma que está, não tem sido positivo nem saudável para nenhuma das partes.

Com relação as contrapartidas, reforço: a solução passa por um processo de inversão de valores do que temos atualmente. Precisamos de um mecanismo de estímulos para quem faz direito, uma vez que a punição por vias legais não funciona. Só assim poderemos de fato beneficiar aqueles que agem de forma austera e dentro das prerrogativas de controle financeiro em detrimento daqueles que insistem em gastar mais do que arrecadam.

O caminho da mudança? Estimular boas práticas ao invés de punir. Tão simples quanto isso…

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O calendário do futebol brasileiro em 2015

O calendário do futebol brasileiro de 2015 é dotados de quase todos os vícios de calendários de temporadas anteriores. A única melhoria implantada, aparentemente, é a adoção de uma pré temporada de 25 dias, ao invés dos cerca de dez dias habituais.

No entanto, constate-se que, como em 2014, um clube pode fazer, em tese, até 84 partidas oficiais ao longo da temporada (38 pelo Campeonato Brasileiro, 24 pelo conjunto Libertadores / Sulamericana / Copa do Brasil, 19 pelos Estaduais / Regionais, dois pela Recopa Sulamericana e um pela Copa Suruga; dessa vez, a Recopa Sulamericana e a Copa Suruga não contarão com clubes brasileiros mas, ainda assim, o número de jogos oficiais de um clube brasileiro pode ir a 81).

Significa que, se há pré temporada maior, mas o número de jogos que se pode fazer é o mesmo, comprime-se o mesmo número de jogos por um tempo menor. Tem-se preparação, mas se tem também o mesmo número de jogos em menos tempo. Trocou-se seis por meia dúzia.

De resto, o que vemos?

• A não adequação ao modelo de calendário europeu, o que faz com que os clubes não possam excursionar na época propícia para enfrentar as grandes forças europeias.

• Várias rodadas de competições locais, menos importantes, jogadas aos finais de semanas, com várias rodadas do Campeonato Brasileiro, mais importante, jogadas em meios de semanas.

• Clubes jogando de forma simultânea às seleções, como acontecerá na época da Copa América, o que faz com que jogadores atuem sem seus principais destaques, cedidos à Seleção Brasileira, e cria concorrência entre atividades de clubes e atividades de seleções.

• Clubes grandes podendo fazer mais de 80 partidas oficiais por ano.

• Centenas de clubes pequenos podendo fazer menos de 20 partidas oficiais por ano, ao longo de menos de quatro meses.

• Estaduais com número de datas extremamente alto, estorvando toda a organização da estrutura.

Na batalha para se ter um bom calendário no futebol brasileiro, continuamos perdendo de goleada, de 7 x 1… mais um gol da Alemanha!

*Luis Filipe Chateaubriand é Membro do Bom Senso Futebol Clube e Autor da Obra “Um Calendário de Bom Senso para o Futebol Brasileiro”
 

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A TV e as coisas que o futebol brasileiro precisa discutir

Quando era presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil sempre foi conhecido pelo estilo verborrágico. Esse traço de personalidade ficou ainda mais evidente depois de dezembro de 2014, quando ele deixou o cargo. No entanto, entre exageros e polêmicas, o ex-dirigente fez em entrevista ao canal fechado “Fox Sports” uma reflexão que o futebol brasileiro precisa urgentemente repetir.

“Se o Flamengo se acertar, acabou o futebol brasileiro”, disse Kalil. Depois, instigado por um comentarista sobre o Corinthians, o ex-mandatário do Atlético-MG adicionou o clube alvinegro: “Flamengo e Corinthians. A competitividade no país depende de eles cometerem erros. Nós recebemos R$ 40 milhões a menos do que o Flamengo da TV. Para brigar, precisamos fazer tudo certo e torcer para eles fazerem besteira. Eles precisam contratar um Pato por ano”.

Em 2014, o Flamengo foi o time brasileiro que mais faturou com venda de direitos de mídia (R$ 110,9 milhões). O Corinthians, segundo do ranking, amealhou R$ 102,5 milhões, quase R$ 30 milhões a mais do que o Palmeiras, que ficou em terceiro. O Atlético-MG, campeão da Copa do Brasil, recebeu R$ 71,3 milhões (todos esses valores desconsideram antecipação de verba).

A diferença de valores de mídia é reflexo do modelo de negociação. Clubes conversam individualmente com interessados, e esse formato privilegia os que têm maior potencial de resultados (audiência e audiência em mercados estratégicos). A questão é: isso é bom para o futebol?

A venda de direitos de mídia representa mais de um terço do faturamento dos principais clubes do futebol brasileiro. Para alguns, chega a 50% da receita total da temporada. Esse cenário tem sido exacerbado nos últimos anos, com a diminuição de empresas dispostas a patrocinar uniformes.

A TV já tem enorme importância no planejamento anual dos clubes. Com menos opções de patrocínio de uniforme, essa relevância tem ficado ainda maior. E se existe uma diferença tão grande em algo com esse status, o caminho do desequilíbrio parece irreversível no longo prazo.

É lógico que o Brasil tem fatores que ajudam a mudar um pouco o cenário – clubes que recebem menos e têm categorias de base mais prolíficas, por exemplo –, mas essas são as exceções. A tendência é que exista um domínio.

Desde 2010, segundo um relatório chamado “TV Sports Markets”, o valor global de direitos de mídia no esporte teve um incremento de 34% (chegou a US$ 36,8 bilhões). A liderança de faturamento é dos Estados Unidos, onde a receita de mídia subiu US$ 4,6 bilhões nos últimos quatro anos.

O mesmo estudo prevê novo incremento de 21% nas receitas de mídia até 2017. Uma das explicações é que há novas mídias ganhando importância, e que isso pode atrair mais faturamento.

Em médio e longo prazo, portanto, a comercialização de direitos de mídia no esporte só tende a ganhar relevância. E o futebol brasileiro, se mantiver o modelo atual de venda, pode criar um cenário em que a competitividade seja simplesmente impossível.

O futebol brasileiro precisa urgentemente discutir a venda de mídia. Não apenas pela questão da competitividade, mas por algo que o próprio “TV Sports Markets” salienta: há novas receitas possíveis, e os atuais contratos nacionais cedem à TV Globo os direitos de todas as mídias “existentes ou vindouras”.

Em poucos anos, por exemplo, a venda de conteúdo on demand pode virar uma receita significativa para o esporte. O futebol brasileiro não se preocupa com isso.

Atualmente, a competitividade é uma das principais bandeiras de venda do Campeonato Brasileiro. “É o único campeonato do mundo em que 12 times começam a temporada pensando em título”, é o que os dirigentes costumam dizer. Se mantiver o modelo, contudo, o país estará jogando contra o que tem de melhor.

O futebol brasileiro precisa discutir a venda de mídia. Precisa fazer isso de forma ampla, livre de clubismos e outros ismos. Precisa fazer isso com participação de diferentes segmentos, com dados estatísticos e noções de estratégia. Mas será que esse trabalho todo interessa a alguém?
 

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Qual era o segredo do futebol brasileiro?

Por que o nosso futebol alcançou tanto destaque em décadas passadas, desde a criação do futebol moderno, em 1863? Por que era considerado o futebol mais vitorioso, mais técnico, mais vistoso, mais bonito, mais alegre e mais habilidoso? Por que chegou a ser cinco vezes campeão do mundo?

Por que tivemos Pelé, Romário, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká entre os jogadores eleitos como melhores do mundo, alguns destes por mais de uma vez? Por que o Campeonato Brasileiro era tido como o mais equilibrado do mundo, quase sempre com um número razoável de equipes em condições de vencê-lo, diferentemente da maioria dos outros países em que existem apenas dois ou três grandes clubes? Por que éramos também um "celeiro" de craques, que nas últimas décadas abastecia o milionário futebol europeu?

Como era a formação de nossos craques?

O componente ambiental-cultural
Vejamos os componentes externos, aqui chamados de fenótipo e que envolvem os aspectos de: Treinamentos, experiências, nutricionais, sócio-culturais, geográficos e clínicos.

O Brasil talvez seja um dos países mais afetados pelo fenômeno futebol, sendo este, talvez o seu maior patrimônio cultural. Em época de Copa do Mundo, nos jogos da seleção brasileira, o país literalmente para!

Muito do nosso sucesso futebolístico se deve também ao contexto de nossa história, incluindo aí, especificamente, a história deste esporte no Brasil. Quando Charles Muller, retornando de seus estudos na Inglaterra, trouxe a primeira bola e os primeiros uniformes, encontrou aqui as condições ideais para a prática e a adesão foi instantânea: País de clima tropical, ou seja, o futebol poderia ser praticado em qualquer época do ano sem as restrições dos rigorosos invernos do hemisfério norte (exceto talvez em um ou outro período do inverno da região sul); havia muito espaço para a prática, inclusive nas cidades grandes; um povo sedento por novidades, musical, alegre, de espírito aberto e ávido por um jogo que se mostrou extremamente democrático, pois tem regras fáceis de entender, é barato, pode ser praticado em qualquer lugar e por qualquer pessoa. Como paixão nacional estabelecida e sendo a atividade principal de lazer do povo, a quantidade de gente que joga bola no Brasil era, e ainda é muito grande, daí ter sido este também um dos motivos de sempre surgirem tantos bons jogadores: Quanto maior a oferta de matéria prima, maior seria o número de selecionados de boa qualidade.

Quanto ao contexto cultural-sócio-econômico, sabe-se que o menino pobre brasileiro já nasce tendo de superar as dificuldades e obstáculos que a vida lhe impõe. Ele brinca com aquilo que estiver ao seu alcance: seja uma lata, pedra, pau, etc.. Ele cresce livre e solto: Corre, salta, pula, rola! Brinca, briga, machuca, sara, bate, apanha! Pula o muro, sobe em árvore pra pegar fruta no quintal do vizinho, nada no rio, na praia, na lagoa, no açude; corre no pasto, corre de boi bravo, toca boiada… Trabalha na rua pra ganhar uns trocados. Joga bola no terreno baldio, na rua, na quadra, no pasto, na areia da praia… É piso seco, é molhado, é no paralelepípedo, é cheio de montinho; na subida, na descida, cheio de buracos!

A bola é grande, é pequena, é dura, é mole; bola de meia, bola furada, murcha, oval, com caroço, bola que quica, que não quica, que vem redonda, vem "quadrada", imprevisível! Ele joga descalço, sente a bola com os pés, joga de tênis velho furado, de chuteira surrada, joga “controle”, “dupla”, “paulistinha”, “rebatida”, pelada, "ranca"; joga sozinho, 1×1, 2×2, gol a gol, "bente altas", brinca de "embaixadinhas", joga bola mesmo que não haja uma bola!!! É o jogo informal, onde nada é padronizado ou homogêneo: local, piso, bola, número de jogadores, idade e tamanho dos participantes… É liberdade e improvisação pura! É a “Pedagogia da Rua”! É a “Escola informal do Talento”!!

E a miscigenação? Negro, branco, índio, mulato, cafuzo, mameluco… As dimensões são continentais com diferentes colonizações, culturas, crenças e tradições folclóricas com suas festas, danças, celebrações. São os sotaques, os pratos típicos, os tipos de alimentos encontrados em cada região, diferentes climas, relevos, vegetações. Tem samba, frevo, capoeira, tem a ginga, o molejo e o jogo de cintura, a malandragem, a esperteza! Pensa e decide rápido!

Tudo isto junto, é, em linguagem acadêmica: Psicomotricidade, aprendizagem motora proporcionada por uma vivência motora rica, variada e lúdica, desenvolvendo de maneira natural estratégias extremamente rápidas de percepção, processamento de informações e tomada de decisões. São os programas motores generalizados: Uma ampla gama de gestos motores armazenados no seu "HD" (sistema neuro-motor) que vão resultar em habilidade, agilidade, facilitadores da técnica, aguçada visão periférica percebendo de maneira mais rápida e precisa um maior número de estímulos/informações do ambiente para o processamento e a tomada de decisões. Essa rapidez de raciocínio alia-se à capacidade de improvisação e de adaptação. Tudo isto somado resulta na chamada inteligência específica…

Gera um atleta técnico, inteligente e habilidoso! Capaz de encontrar soluções para as tarefas/problemas inerentes ao jogo com rapidez, precisão e economia de energia.

Resumindo: Nosso estilo de vida, nossas carências e nossa cultura fazem com que o menino tenha que “se virar”, que se adaptar, tenha que criar, se safar, ser rápido, esperto, achar soluções! A nossa cultura não só valoriza como até glamouriza isso. É a ginga, a malandragem, o famoso jeitinho brasileiro pra resolver tudo, infelizmente, nem sempre de maneira ética e honesta… É verdade!… Basta ver nossa classe política!

No histórico de vida de quase todo grande atleta de futebol estão presentes condições como as citadas acima, ou seja, geralmente, eles não estudaram/estudam a fundo, tendo assim mais tempo livre para praticar, aprendendo livre e naturalmente a “fazer misérias" com uma bola de futebol. Thierry Henry, jogador da França, fez um pronunciamento semelhante durante a Copa do Mundo de 2006, referindo-se à qualidade dos jogadores brasileiros.

Hoje em dia, com a diminuição dos espaços para a prática e o aumento da violência, consequências respectivamente da especulação imobiliária e do crescimento das grandes cidades, essas condições estão ficando mais raras. Elas ainda ocorrem nas cidades do interior, nas praias e nas zonas rurais. Nos grandes centros urbanos, alguns clubes e escolas bem estruturados têm procurado suprir esse aprendizado natural com a implantação dos cursos básicos de esportes.

Ne
sses cursos, baseados na IEU (Iniciação Esportiva Universal), as crianças passam por diversas modalidades aplicadas de maneira variada, lúdica, livre, criteriosamente pedagógica e progressiva para que sejam também prazerosas, especialmente entre os 6 e os 12 anos de idade, visando uma rica formação psicomotora que resulta em um amplo acervo / repertório motor. Assim, a partir dos 13 – 14 anos, o menino estará pronto para iniciar o treinamento técnico a ser aplicado de maneira sistematizada nas categorias de base de um clube de futebol já com uma incrível bagagem motora.

O componente genético
Como fatores internos, chamamos o genótipo ou, os aspectos hereditários: Biomecânicos, fisiológicos, morfológicos, cognitivos intrínsecos e emocionais. Ao observarmos as imagens de lances de jogadores como Garrincha, Pelé, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Neymar, etc., percebe-se que estes possuíam/possuem, também, excepcionais capacidades físicas que os faziam/fazem se destacar bastante em relação à média neste quesito, especialmente velocidade, força e potência muscular. Para atletas fenomenais como estes, não há como estabelecer mensurações sobre qual componente teve maior peso na formação de seus talentos.

O componente genético-hereditário, no qual o biotipo em todas as suas variáveis como peso, estatura, proporções corporais, estrutura óssea; somadas às características individuais do sistema neuro-motor como o número de fibras de contração rápida, número de neurônios, de sinapses e unidades motoras, grau de mobilidade articular, etc., envolve também algumas características psíquicas que possam ser herdadas como: temperamento, personalidade, rapidez de raciocínio, timidez ou extroversão, medo ou intrepidez, etc..

Penso que atletas assim tão talentosos, são resultado de uma complexa interação de ambos os fatores: ambiental-culturais e genético-hereditários, sendo impossível estabelecer uma distinção exata e/ou prevalência de um componente sobre o outro.

Muito há ainda a se descobrir sobre o tema através de ciências recentes como o mapeamento genético, por exemplo.

Partindo destes pressupostos, acredito que o melhor que pais e/ou educadores físicos podem fazer pelos seus filhos/alunos em termos de aprendizagem motora, seria incentivá-los a brincar, a se divertirem, a viverem ao máximo todas aquelas atividades prazerosas e simples de uma infância saudável: correr, pular, rolar, saltar, jogar as chamadas brincadeiras de rua por puro prazer! É também muito gratificante para um pai ver a expressão de satisfação de um filho quando este está com os amigos correndo e brincando livremente. Invariavelmente, são experiências como estas, aquelas que ficam guardadas na memória afetiva dos adultos como algumas das recordações de seus melhores momentos de infância!

O que houve?
Mas, então, o que será que aconteceu de errado conosco? Porque os papéis se inverteram, com os Europeus sendo, hoje, aqueles que nos tem dado aulas de futebol, vide Copa 2014 com os humilhantes 7×1 da Alemanha contra o Brasil no histórico “Mineirazo” de 08/07/2014?

Nossas estruturas política e de gestão do futebol não evoluíram a contento! Continuam ultrapassadas, viciadas, enferrujadas, ineficientes! Nós até temos ainda a escola natural do talento, a chamada “pedagogia da rua”, ainda presente, como citado, nas cidades do interior, nas nossas praias e áreas rurais, mas os europeus evoluíram muito na chamada “escola do jogo” e, nesta, nos deixaram para traz. Criaram gerações de atletas rápidos, técnicos e inteligentes (táticos), que compreendem profundamente o jogo. Nós paramos no tempo e ainda ficamos esperando que nossos jogadores decidam os jogos em uma jogada individual… Fato cada vez mais raro! Aqui, treina-se muito!

Mas priorizamos o treino físico em detrimento do treino sistêmico específico. Temos jogadores cada vez mais altos e fortes! O medo de perder e a busca pelo resultado imediato, desde as categorias de base, nos levaram aos chutões, à ligação direta, à trombada e à jogada aérea. Temos medo de reter a bola, antes, preferimos nos livrar dela, passá-la mesmo que seja “na fogueira” para um companheiro. Demoramos na tomada de decisões… Não somos precisos, não jogamos próximos, esquecemos o toque de bola… Naquilo em que éramos mestres, hoje recebemos aulas de Bayern, Barcelona, Borussia…

Olhando a história de nossos grandes times, tínhamos a habilidade e técnica refinada, aliadas à inteligência, ao toque de bola envolvente e preciso de jogadores fantásticos dos incríveis esquadrões de 58, 62, 70, 82… Os timaços do Santos de Pelé, Botafogo de Garrincha, Cruzeiro de Tostão, Palmeiras de Ademir da Guia, Atlético de Reinaldo, Flamengo de Zico, Inter de Falcão, São Paulo de Telê… Mas… e hoje? O que temos de especial?

O que precisa ser feito?
Precisamos urgentemente descer das torres da soberba e da arrogância, reconhecer que estamos defasados e que temos muito a aprender com nossos antigos “fregueses”! Futebol é para ser pensado, planejado, estudado, analisado e ter critérios… Não dá mais para ir levando apenas na base da intuição, experiência, improviso, malandragem e empirismo! Para tanto é preciso, com urgência, de mudanças estruturais, conceituais, filosóficas e de gestão profundas. Mudanças nas políticas e na legislação específica, alterando a natureza das entidades, a começar da poderosa e blindada CBF, entidade privada e “sem fins lucrativos” que fatura 400 milhões de Reais/ano, que comanda o futebol brasileiro com mão de ferro, não permitindo aos clubes autonomia para formarem, eles mesmos, as suas próprias ligas. Além disso, não há transparência, prestação de contas, nem priorização aos critérios de competência e capacitação técnica, antes, imperam os conchavos, o apadrinhamento político e as amizades.

CBF
A CBF deveria cuidar apenas das seleções! Deveria investir seus fartos recursos financeiros na popularização e democratização dos cursos de capacitação de treinadores reduzindo seu custo (mesmo que seja necessário subsidiá-los), regionalizando-os, e atualizando-os em termos de conteúdo técnico com equiparação aos cursos mais avançados da UEFA e outras Confederações.

Em esforço conjunto com as Associações de Treinadores, CREFs e demais agentes, deveria tornar a capacitação técnica uma obrigatoriedade inegociável! Uma vez alterada a natureza das entidades, o sistema eleitoral da CBF e Federações estaduais deveria ser modernizado com a participação direta dos principais atores do futebol: presidentes das federações, dos clubes, dos treinadores
e atletas da elite do futebol brasileiro, todos com poder de voto. Nos clubes, a participação direta dos associados e não apenas dos conselhos deliberativos, que são, por sua vez, verdadeiras panelinhas.

Quais foram os critérios utilizados para a efetivação de nomes como José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, Gilmar Rinaldi, Dunga, Alexandre Gallo, Cláudio “Caçapa”?! Competência e capacitação técnica ou amizades, afinidades e apadrinhamento político? O que o Sr. José Maria Marin já fez pelo futebol brasileiro? Qual é a sua competência técnica para ocupar o cargo?

O certo é que, enquanto a esfera política continuar onipotente em detrimento do mérito, currículo e capacitação/competência técnica, não haverá mudanças e o nosso outrora glorioso futebol brasileiro continuará a caminhar a passos largos para a falência, para a extinção de sua “Galinha dos ovos de ouro”, os clubes de futebol! Um modelo fadado ao fracasso a olhos vistos!


*Preparador Físico de Futebol e Gestor Esportivo (www.ceperf.com.br) 

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A relação numérica, a mudança de regras e a lógica do jogo – parte II

Caros leitores,

Continuando o tema proposto na última coluna, nesta semana discutiremos como a criação de regras e consequente mudança na Lógica do Jogo pode provocar alterações nos resultados apresentados pelas equipes em Jogos (leia-se treinos) com diferentes relações numéricas de inferioridade/superioridade.

Para relembrar, em síntese, o artigo apresentado na publicação anterior mostrou que:

• Equipes em inferioridade correm mais;
• O nível de habilidade dos jogadores influencia a ocupação racional do espaço de jogo da equipe com menos jogadores;
• O índice de estiramento das equipes em inferioridade numérica diminui;
• A equipe em superioridade se distancia da própria meta;
• A equipe em inferioridade se aproxima da própria meta;
• A modificação na distância das linhas de força defesa-ataque e ataque-defesa.

Vale lembrar que a equipe em inferioridade, apesar de apresentar maior aproveitamento de finalizações, venceu somente quando jogou com os 5 jogadores de linha. Nos outros dois jogos (com 4 e 3 jogadores), empatou ou perdeu.

Numa análise subjetiva, muitos dos comportamentos comprovados estatística e cientificamente são esperados quando uma equipe passa a defender em inferioridade. Porém, e se alterarmos as regras do jogo? E se inserirmos restrições de toques na bola, pressão de tempo para finalizar, ultrapassagem de setores para pontuar ao invés de mini-gols, ou então, quaisquer outras regras que direcionem os comportamentos de jogo pretendidos? Será que os mesmos padrões serão apresentados ou as modificações na Lógica do Jogo (logo, na forma de vencê-lo) induzirão a(s) equipe(s) para respostas individuais e coletivas diferentes das apresentadas acima?

Para alimentar a discussão serão criados, hipoteticamente, alguns cenários que, subjetivamente, podem ter repostas distintas das evidenciadas anteriormente. É válido mencionar que, bem como no artigo (Silva et al., 2014) a comprovação científica enriqueceria a discussão.

Imaginemos um Jogo de 10 + GR vs 8 + GR, disputado em um campo com dimensões de 66,5x68m com algumas divisões espaciais no campo de ataque. As regras para a equipe em superioridade seriam as seguintes:

• Limite de 2 toques na bola até a intermediária ofensiva;
• Após cada passe, obrigatória a mudança de setor ofensivo. Se não mudar recebe uma punição. 3 punições equivalem a 1 ponto ao adversário;
• Perder a posse no campo de ataque e não recuperá-la em até 5 segundos = 1 ponto ao adversário (pontuação só vale se o local em que se encontra a bola após 5 segundos for pelo menos na mesma linha da recuperação da posse).
• Invasão da linha de fundo ou linha da grande área = 1 ponto
• Gol = 5 pontos

Já as regras para a equipe em inferioridade seriam:

• Limite de 3 toques
• Finalização que o goleiro não realize uma defesa completa = 1 ponto
• Gol = 5 pontos
• Gol de fora da área = 15 pontos

Para tentar ganhar esta atividade, a equipe em superioridade vai precisar de muita mobilidade ofensiva (para não dar pontos ao adversário) e movimentações em profundidade (para pontuar com progressões). Além disso, terá também que buscar o gol e “tirar” o contra ataque oponente, pois o adversário conseguir manter a posse de bola em progressão vale ponto e gol de fora da área valerá muito ao adversário.

Em contrapartida, parece que a melhor forma da equipe em inferioridade jogar esse jogo seja abaixar o bloco, orientar-se mais para impedir progressão do que para recuperar a posse e aproveitar espaços de média/longa distância para arriscar finalizações e tentar “matar o jogo”.

Aparentemente, este jogo será mais intenso para a equipe em superioridade. A obrigação de acelerar o jogo com mobilidade e transições defensivas agressivas na tentativa de aproximar da vitória será toda dela.

Seguindo com mais um exemplo, imaginemos outro jogo, desta vez de 8 + GR vs 7 + GR em dimensões de 50x68m. A equipe em inferioridade ataca 2 mini-gols dispostos na faixa central da linha do meio-campo, além de corredores para passagens nas duas faixas laterais. Abaixo, as regras para a equipe em superioridade:

• Limite de 2 toques na bola. Livre somente para os extremos da estrutura 1-4-3-1
• Gol = 2 pontos
• Jogada de fundo com os extremos, seguida de gol = 5 pontos.

Para a equipe em inferioridade teriam as seguintes regras:

• Limite de 3 toques na bola
• Circular a bola de uma faixa a outra desde que haja progressão vertical do ponto inicial ao ponto final = 1 ponto
• Passagem com a bola dominada na faixa lateral = 1 ponto
• Gol caixote = 1 pontos
• Passagem na faixa lateral e gol caixote só podem ser feitos após pelo menos 3 trocas de passes.

A equipe em superioridade deve jogar em largura com os extremos na tentativa de fazer gols com maior número de pontos. Já a equipe com menor número, tem mais chance de ganhar se for eficiente na abertura do campo, circulação da posse e jogo apoiado. Com estas combinações de regras, apesar da inferioridade numérica, parece que não haverá redução no índice de estiramento da equipe em inferioridade (tanto para manter a linha esticada para marcar os extremos como para construir as ações ofensivas fazendo campo grande a atacar).

Conhecer as necessidades globais da equipe é imprescindível para o planejamento das sessões de treinamento. De acordo com os elementos que ela precisa evoluir, a comissão tem diversas possibilidades à disposição para construir as atividades. Alterar dimensões, número de jogadores e criar regras de constrangimento ou indução são algumas alternativas que facilitam o aumento da densidade de ações que se pretende para que a equipe adquira comportamentos de jogo.

Em todos os casos, pensar na Lógica do Jogo criado e estimular os praticantes a atingi-la será fundamental.

Obrigado pela sua companhia ao longo de 2014!

Parafraseando um amigo: que a felicidade ao longo de 2015 seja uma constante em nossas vidas!

Que venham novos desafios, novos treinos e novos jogos…

Nos vemos em 2015.

Grande abraço! 

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A mentalidade vencedora – parte 3

Na primeira parte desta série expliquei o conceito da mentalidade fixa e da mentalidade de crescimento (DWECK, 2006) (https://universidadedofutebol.com.br/Artigo/15676/A-Mentalidade-Vencedora). Na segunda parte, discutimos algumas forma de se transformar a mentalidade fixa em mentalidade de crescimento (https://universidadedofutebol.com.br/Artigo/15688/A-mentalidade-vencedora-parte-2). Nesta terceira parte, irei focar no jogador de futebol e nas consequências de cada uma das duas das mentalidades no dia a dia do treinamento e na elaboração de um plano de desenvolvimento.

Assim como tantos outros brasileiros, eu cresci sonhando em ser jogador de futebol. Ir ao estádio, assistir aos profissionais, cantar o hino do clube e admirar o que eles faziam com a bola era o ritual. A pergunta que nunca saia da cabeça era: “será que eu tenho talento suficiente para virar um jogador profissional?”. Enquanto criança, com uma visão diferente de mundo, a pergunta era “fechada”, ou seja, simplesmenteexistia uma resposta simples, “sim ou não”, que eu teria que descobrir. 

Para ler este artigo completo, basta clicar aqui.

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A força da Premier League

Neste final de ano, aproveitando os recessos escolar e forense, estou em um pequeno tour pelo Leste Europeu.

Como estudioso do futebol, visita a estádios e clubes de futebol estão sempre no roteiro.

Além disso, no roteiro esta a análise da programação esportiva da TV e do marketing esportivo.

Neste ponto que surgiu a grande surpresa. A Premier League é destaque absoluto na Bulgária, Romênia e Hungria.

Os jogos são transmitidos "ao vivo" e há programas exclusivos sobre o Campeonato Inglês.

O mais incrível é que, nos telejornais, o tempo dispensado ao Campeonato Inglês é cinco vezes maior que aquele disponibilizado para as ligas locais.

Esse sucesso é fruto de uma administração profissional iniciada em 1992 e que tornou a Premier League a liga de futebol mais valorizada do Mundo.

Entretanto, se por um lado, temos um grande exemplo de profissionalismo, por outro há um efeito canibalista no qual a Liga Inglesa acaba por enfraquecer os campeonatos locais.

Dessa forma, imprescindível que o futebol de países com menos recursos financeiros e menos profissionalismo, como o brasileiro, acendam a luz amarela e que se reciclem, sob a pena dos futuros torcedores se debandarem para a Premier League. 

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Por que olhar para as divisões de base?

Nesta coluna em pleno dia de Natal, que para muitos significa o renascimento, trago uma reflexão sobre a importância dos clubes de futebol olhar cada vez mais para suas divisões de base. O cenário atual do futebol apresenta sinais de saturação financeira gerada pelos altos salários e valores envolvidos nas negociações dos atletas de alto rendimento, os clubes vivem em busca da sonhada saúde financeira e o custo elevado das folhas de pagamento dos atletas segue no sentido contrário desta realidade. Então como fazer para os clubes se manterem competitivos esportiva e financeiramente?

Acredito que o ponto de virada deste cenário se encontra nas divisões de base e para que estejamos sensíveis a este manancial de oportunidades é fundamental reforçarmos alguns conceitos sobre a carreira esportiva, pois a partir destes os clubes estarão muito mais sensibilizados sobre como lidar com estes futuros atletas e podem passar a estimular e incentivar cada vez mais trabalhos sérios e de qualidade, para que seus frutos atendam as expectativas futuras mencionadas.

Apenas para conceituar, conforme definição de Stambulova & Alfermann (2007), uma carreira esportiva refere-se somente à prática de esportes competitivos. No entanto, quando se fala de planejamento de uma carreira, devemos levar em consideração o contexto esportivo no qual essa carreira vai se desenvolver. O desporto no Brasil é reconhecido a partir de três manifestações (Lei n. 9.615, conhecida como Lei Pelé): desporto de participação, desporto educacional e desporto de rendimento.

O desporto de participação, de fundamental importância para a promoção da saúde e educação de um país, refere-se à prática esportiva como lazer. Não caracterizando uma carreira esportiva.

O desporto educacional, pode se estender por toda a trajetória escolar e universitária e tal percurso, mesmo sem a intenção de alcançar o esporte profissional, demanda planejamento, estabelecimento de prioridades, organização de rotina escolar e ajustes às exigências acadêmicas e esportivas. Podendo caracterizar-se como uma fase da carreira esportiva.

É igualmente importante compreendermos que a carreira esportiva de um atleta envolve diferentes fases. Estas fases podem estar associadas à progressão pelas categorias de um determinado esporte (ex. pré-mirim, mirim, infantil, juvenil e adulto) ou conforme sugerido pelo modelo de Lavalle (2006) podem estar associadas ao nível de exigência esportiva: iniciação, desenvolvimento, excelência e aposentadoria.

Falando em categorias de base dos clubes de futebol, vale a pena comentarmos sobre as fases de iniciação e desenvolvimento.

A fase de iniciação envolve as atividades lúdicas e não envolvem a preocupação com a performance esportiva. No contexto brasileiro, esta fase refere-se às escolinhas esportivas ou brincadeiras de rua, dependendo do nível socioeconômico.

Já na fase de desenvolvimento geralmente faz-se uma opção por determinada modalidade esportiva. As crianças passam a competir regularmente e o nível de comprometimento aumenta, demandando maior organização da rotina do atleta.

Sabemos que cada vez mais aumenta a expectativa sobre o atleta da base e justamente por este motivo os clubes precisam estar cada vez mais atentos sobre o quanto à vida do atleta como um todo pode influenciar no seu desempenho esportivo, com isso todos passamos a compreender a importância de considerar as outras demandas para a além da vida esportiva, tais como o nível de maturidade psicológica (infância, adolescência e idade adulta), as referências de relacionamento (família, amigos, parceiros e treinadores) e o nível de escolaridade.

Assim, amigo leitor, para que os clubes possam realmente renascer a partir de suas divisões de base o tema planejamento de carreira deve ser muito bem tratado, afinal de contas o fim de sua escravidão financeira pode estar neste amplo e vasto universo de oportunidades que se descortina em sua própria estrutura. Novas estratégias e ações voltadas ao melhor planejamento e desenvolvimento devem ser estudadas e analisadas com objetivo de aperfeiçoar cada vez mais a formação de novos atletas nos clubes de futebol.

Um abraço e feliz natal a todos. 

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Talento – A prática como caminho obrigatório

“Na sua infância quantas horas dedicavas, por dia, a prática de Futebol?
Cruyff – de 5h a 6h; Laudrup – 5h; Messi – Todas” Ruiz, L.

 

O talento nasce ou é construído?

Como treinadores, temos quase uma obrigação moral de acreditar que a resposta para esta pergunta se encontra muito mais na segunda opção do que na primeira. Se pensarmos que Messis, Ronaldinhos e Neymares simplesmente “nascem”, significa que não acreditamos no poder da prática, seja ela completamente informal ou formal, e, de fato, não acreditamos que ela pode moldar como os jogadores jogarão no futuro, seja ele próximo ou ainda muito distante.

Daniel Coyle (2009) diz que “A teoria da excelência através do talento natural, priva as pessoas e as instituições da motivação para se mudarem a si mesmas e às sociedades.”. Isso aumenta nossa argumentação quanto a necessidades dos treinadores e professores verem o treino e a prática como questão obrigatória para o sucesso, e não só no Futebol! Como o autor põe, quando se entende mal a questão do talento, leva a que as pessoas se tornem conformistas já que não acreditam na mudança, não acreditam na melhoria e não acreditam que se tivessem trabalhado muito poderiam ter sido qualquer coisa. É muito dificil compreender isso, de certo modo, é assumir os próprios erros.

Garganta (2014) afirma que o Talento Potencial pode existir antes do treino, mas o jogador só existe depois disso. O Talento Potencial citado pelo Prof. nesta frase significa que pode haver determinadas potencialidades e predisposições genéticas que podem contribuir para que uma criança se torne no futuro um talento real, um jogador, assim como pode haver determinadas influências, vivências e experiências que levaram alguém a ser um Talento Potencial. Temos que lembrar que muitos Talentos Potenciais o são apenas em determinadas idades e depois, por diversos motivos, acabam não potencializando esse talento e deixando, eventualmente, de o ser. Consequentemente deixando de se tornar um jogador. Mas o que a frase realmente tenta passar, não é que existe esse potencial, mas que o jogador só existe depois da prática, não há uma opção em que o potencial se transforme em jogador sem praticar. O autor põe isso como condição obrigatória para e com muito sentido.

Como dissemos anteriormente um indivíduo pode ter predisposições que facilitarão ou farão com que as suas experiências sejam vividas de maneira diferente dos outros. Lai (2006) afirma que a diferença de altura entra os indivíduos é definida de 60% a 80% geneticamente. Esse autor afirma que há influência genética em determinados fatores que compõem a morfologia do indivíduo, logicamente, afetando como esse irá viver suas experiências.

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Lições do exterior – Parte 3

Para fechamento do relato das experiências vivenciadas no Curso de Esporte nos EUA, promovido pela UNISUL entre os dias 06 e 20-dez, reservo uma reflexão que considero importante para a evolução dos negócios do esporte no Brasil.

Primeiro que os aprendizados vindos de países mais maduros em termos de esporte enquanto plataforma de negócio é sempre válido, mas devem vir invariavelmente acompanhados de uma reflexão profunda sobre a cultura e os costumes locais para poderem ser replicados em outras realidades. Ouvi e sempre tive como referência o esporte dos EUA. Mas só a vivência prática (ainda que breve), permite ver de perto os costumes e a forma como outras pessoas lidam e se relacionam com os diferentes segmentos de mercado.

E é justamente neste aspecto que somos imensamente diferentes. Assim como somos dos europeus, um mercado que tive a oportunidade de vivenciar e aprender de forma mais holística. O fato é que precisamos encontrar O NOSSO MODELO.

O que aí está não suporta uma convivência em comunhão entre as entidades esportivas, na sua maioria geridas de maneira arcaica, com as necessidades do mercado (empresas, mídia, patrocinadores etc.) e das pessoas. A divisão de quem faz o que precisa ser melhor estruturada: aqui no Brasil, segundo a opinião pública, parece que todas as entidades têm que fazer tudo sempre. Isso é impossível.

Nos EUA pude perceber que essa premissa está muito clara e a divisão de atividades fica evidenciada pelo papel e gênese de cada organização. Ligas Profissionais (e respectivas franquias), se não tiverem dinheiro para pagar seus atletas e suas despesas, vão a falência. Escolas e universidades tem o papel de formação dos atletas e administram seus próprios recursos de acordo com suas características (ou seja, fazem suas próprias escolhas com os recursos que possuem em mãos para todas as atividades – ensino, pesquisa, extensão, cultura, lazer, estrutura física… até o esporte). Federações de Esportes Olímpicos simplesmente selecionam suas equipes para a disputa de Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos e devem, naturalmente, trabalhar para a promoção e o desenvolvimento das respectivas modalidades.

No Brasil, Federações, ONGs, Clubes, Poder Público, Sistema S, Empresas, Universidades, Escolas, Associações, Agências e Mídia se sobrepõe nas atividades umas das outras. No final das contas, como a entrega fica pulverizada, a qualidade também não é das melhores e o resultado é aquilo que todos nós conhecemos.

Outras duas premissas importantes que são muito bem trabalhadas lá na terra do Tio Sam e que aqui ainda precisaremos alicerçar projetos consistentes para o alcance de resultados:

(1) O poder público contribui vez por outra com projetos de instalações esportivas, desde que alinhadas aos interesses dos parceiros privados (ligas e/ou franquias), no âmbito do esporte de alto rendimento; e investem em escolas e universidades, que administram seus recursos para reservar uma parcela que considerem importante para a aplicação no esporte. Em suma, desde o processo de formação de atletas até as atividades de esporte profissional, a intervenção do governo é mínima, tal e qual a característica do país – mercado autorregulado. Não considero para esta análise o esporte de participação/lazer, que não foi plenamente estudado.

(2) O clientelismo. A distância que temos para a realidade dos mercados lá fora é impressionante. Desde os pequenos detalhes, que vem desde a sinalização das instalações a cortesia de atendimento em bares e lanchonetes; até o relacionamento de patrocinadores e das próprias equipes com os consumidores, além, é claro, do cuidado com o cenário e a entrega do produto. Ainda cabe mencionar a qualidade dos produtos licenciados, a quantidade de alternativas de consumo da marca, a presença da marca em toda a cidade (bares, lanchonetes temáticas, lojas etc.), sonorização, atrações para o público, diversificação de alternativas de lazer, atividades antes do jogo (…). Na teoria, parece redundância falar em “tratamento especial aos clientes”, de tão óbvio que são seus pressupostos. Mas na prática, quando olhamos para o que acontece no nosso mercado, é preciso ensinar o básico ainda para poder começar a dialogar.

Enfim, é cada vez mais claro que o esporte brasileiro necessita de uma rediscussão de seu modelo. É necessário acabar com algumas distorções se quisermos realmente falar em negócios e mercado de esporte de alto rendimento. E é preciso fazer isso urgentemente!!!

Leia mais:
Lições do exterior – Parte 2
Lições do exterior – Parte 1