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Treino na areia para futebolistas!

Esse post eu o apelidei de post da responsabilidade, como profissional do futebol que preza pela melhoria do nosso esporte, pela evolução das práticas, tenho a responsabilidade de compartilhar e divulgar o conhecimento aos novos profissionais e estudantes. Uma dessas informações que precisam ser combatidas por nós preparadores físicos é: o treino na areia para futebolistas.

Dei-me um trabalho de fazer uma  busca no Pubmed, lilacs e Scielo, encontrei 9 artigos (1 revisão bibliográfica) de 2006 até 2016, as  palavras-chave utilizadas na busca foram: sand, sand and grass, sand training soccer, surface training.

Na busca encontrei apenas dois artigos relacionados ao futebol profissional e um de futebol amador recreacional, nenhum deles relacionam o treino na areia com desenvolvimento do jogar, apenas comparando treinos na grama e treino na areia. Encontrei mais uma revisão bibliográfica, um artigo que discorre sobre a pliometria na areia, dois artigos relacionam o treino na areia em esportes em geral, um outro relaciona a caminhada com o gasto energético nos dois tipos de piso e um relacionado ao hóquei na grama e netball. Já percebemos uma dificuldade em publicações referentes à modalidade em questão.

Adicionei a pesquisa dois posts de dois renomados nomes do nosso futebol, Sandro Sargentim e Rodrigo Leitão para encorpa-lo para aqueles que vão argumentar que é só teoria. Segue os pontos mais importantes.

Treinar na areia deixa o jogador de futebol lento

Par entendermos essa afirmação irei recorrer a física. Existe uma força chamada peso ( P=m.g),  essa força exerce uma ação no chão chamada de força normal, ou seja , o solo devolve a energia gerada pelo movimento (3ª lei de Newton) impulsionando o corpo de volta.

Segundo Galdino (2012), o componente elástico muscular (responsável pela transformação da energia cinética em elástica e depois cinética novamente) na areia acaba perdendo energia cinética sobre forma de calor, justamente por ficar muito tempo em contato com o solo em cada passada.

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Imagem2 Crédito: P. Coutinho et al/Journal of Science and Medicine in Sport 16 (2013) 271-275

Para reforçar esta ideia utilizo as palavras de Rodrigo Leitão: “para se deslocar em alta velocidade, um jogador necessita que o tempo de aplicação de força no solo (no gramado onde joga) seja muito pequeno, mas que promova movimentos muito rápidos, de maneira que a aplicação da força pelo pé do atleta no campo e a reação do campo sobre o pé se expressem de maneira extremamente reativa e explosiva. O tempo de contato a cada movimento entre pé (chuteira) e solo (gramado) deve ser mínimo, e nele (no tempo mínimo) a expressão da força (que garanta a ação rápida) deve ser relativamente máxima e suficiente para a necessidade da própria ação. E isso é justamente o contrário do que a “caixa de areia” propicia. Quando um atleta tenta fazer corridas rápidas na areia tem dificuldades, pois o tempo de contato entre o seu pé e o solo, a cada movimento, é maior do que quando realizado na grama, ou outra superfície mais dura. Isso quer dizer que a frequência de movimentos que acaba sendo capaz de fazer na areia é menor do que no gramado e que, portanto, a exigência neuromuscular para a ação não se configura como sobrecarga que estimule respostas adaptativas no sentido do aumento da velocidade”

Para embasar ainda mais a discussão trago algumas particularidades e adaptações que os autores utilizam para induzir uma determinada informação, Brito (2012), adaptou para fins de análise de dados, a corrida na areia em comparação a quadra de futsal e a grama artificial:

Alta velocidade de corrida (areia: 13-18 km/h; grama artificial e quadra: 16-22 km/h) 

Sprint (areia: >18 km/h; grama artificial e quadra: >22 km/h). 

Se o leitor não lê o artigo por completo com essa adaptação, lê apenas o resumo, pode ser induzido ao erro. Como aconteceu no artigo onde as velocidades máximas atingidas foram diferentes (figura abaixo) significativamente, mas enquadradas na mesma categoria. Ou seja, o autor já assume e antecipa que na areia os praticantes serão mais lentos.

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Crédito: J. Brito et al/Human Movement Science 31 (2012) 946-956

Areia não é o melhor terreno para se treinar pliometria
Segundo o criador do método, o russo Yuri Vergoshansky, esse tipo de treino foi desenvolvido para aumentar a velocidade de reação muscular, o que os treinadores chamam de reatividade. Para que isso ocorra o indivíduo deve ficar APENAS 0,1 segundo em contato com o solo e assim aumentar a velocidade de resposta, só com esse argumento já era suficiente para não utilizar a areia para este tipo de treino.
Vou além: apesar de tendencioso na sua conclusão (leiam a metodologia) Impellizzeri (2007) reforça a ideia e mostra que existe diferença significativa no grupo grama, que melhoraram a sua CMJ (p = 0,033) e CMJ/SJ (p = 0,005) significativamente (p <0,001) ao contrário dos jogadores do grupo areia. Segundo o autor, treinar na grama é mais eficiente para melhorar o CMJ e o CMJ/SJ que treinar na areia.
Custo elevado de energia
Em uma revisão bibliográfica (Binnie, 2013) menciona que superfícies de areia podem oferecer um custo mais elevado de energia (CE) e menor estímulo de treinamento/impacto em comparação com locais de treinamento mais firmes e mais tradicionais do esporte de equipe, como a grama.
Cetollin e colaboradores (2010) estudando atletas de beach soccer, observaram que o solo arenoso apresenta uma exigência 15% maior ao terreno com uma maior compactação. Isto indica que parece haver uma exigência mais elevada no solo arenoso em comparação ao piso de grama mais compacto.
Ainda vemos profissionais que utilizam esse método na reapresentação do atleta, geralmente 48 horas, no pico de dor tardia do atleta. Se o objetivo é desgastar seu atleta a areia pode ser uma boa opção, mas em tempos de economia de energia, recuperação dos atletas, jogos três vezes na semana tenho certeza que essa não será a estratégia que utilizará depois de ler esse post.
Prevenção de lesões
Jan Ekstand citado por Brito (2012) explica que existe diferença nos mecanismos de lesões no futebol quando jogado em diferentes tipos de superfícies, bem como um aumento do risco com alternâncias frequentes de superfícies. Segundo o autor, apesar destas sugestões, existe uma falta de evidência direta ligando superfícies de areia com qualquer aumento ou diminuição da incidência de lesão, quando comparado com as superfícies mais firmes.
O que Impellizzeri (2008) sugere é que uma superfície de areia pode ser útil para atletas que retornam de lesão.
Especificidade

“sob o ponto de vista da complexidade, essa discussão nem faria sentido. Mas que ainda assim, mesmo não me pautando nela (na complexidade), o treino na “caixa de areia” para melhora do desempenho na velocidade de deslocamento dos jogadores de futebol ou da sua força explosiva não faria sentido algum em etapa alguma da preparação atlética do futebolista”

     Rodrigo Leitão

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Continuamos precisando rever o calendário do futebol brasileiro

Uma das principais discussões em relação ao futebol brasileiro está relacionado ao fato dos torneios serem organizados pela CBF e as suas federações estaduais, ao invés dos próprios clubes serem a parte central como detentores de suas ligas, algo que ocorre com sucesso na Europa.

O que mais chama atenção é que a CBF, “dona” do Campeonato Brasileiro, parece não entender o quanto deveria valorizar o seu produto principal destinado aos clubes. A grande prova está no calendário falho e sufocante, que obriga os grandes clubes a um número excessivo de jogos, enquanto que, na outra ponta, os clubes locais de menor expressão fecham as suas portas por um semestre inteiro sem campeonatos para participar.

A CBF tem se esforçado em desenvolver uma embalagem mais elaborada ao seu produto, com a criação de protocolos de jogos que agregam certo valor ao evento. Porém, por ter que entregar a temporada dentro do prazo, faz com que o seu produto Campeonato Brasileiro conflite com a sua outra propriedade, a Seleção Brasileira. Essa questão faz com que se perca a principal característica que qualquer produto deve priorizar: a sua qualidade.

Como exemplo, em outubro a seleção jogará duas partidas pelas Eliminatórias Sul-Americanas, na chamada data FIFA, onde as seleções de todo o mundo disputam as suas competições continentais ou amistosos preparatórios. Nenhum clube europeu das grandes ligas terá jogos oficiais nesse período, pois o calendário é programado para que os clubes tenham sempre o seu elenco completo à disposição, haja visto serem eles os responsáveis pelo alto custo de suas contratações e pagamentos mensais de salários.

Nesse período em que a seleção brasileira jogará, não teremos jogos do Campeonato Brasileiro, o que parece um avanço. Porém, teremos nada menos que a final da Copa do Brasil e a final da Primeira Liga, sendo que esse segundo perdeu grande parte de seu prestígio nessa sua segunda edição. Sem dúvida, as finais ocorrerão nessas datas por não haver qualquer outra possibilidade disponível.

Na minha visão, a forma mais coerente de conseguirmos ver por aqui um calendário equilibrado, onde as datas FIFA sejam respeitadas e os clubes tenham maior tempo de recuperação e de treino, é repensando ainda mais sobre os campeonatos estaduais. Apesar da importância histórica, clubes e torcedores hoje não dão o mesmo valor que davam há duas décadas atrás. Ao mesmo tempo, seria uma pena se esses campeonatos simplesmente acabassem.

Hoje, qualquer grande mudança no calendário dos torneios existentes esbarra em interesses enraizados em nossa cultura. Porém, para pensarmos na sobrevivência do nosso futebol no dia de amanhã, é essencial que a prioridade esteja na qualidade do espetáculo, não mais na quantidade de jogos.

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A diferença é a cultura

Vários pontos chamaram atenção na entrevista coletiva que o técnico Rogério Ceni concedeu no último domingo (25), no estádio do Morumbi, pouco depois de o São Paulo ter empatado por 1 a 1 com o Fluminense. O resultado fez com que a equipe paulista chegasse a cinco partidas consecutivas sem um resultado positivo no Campeonato Brasileiro e fez da zona de rebaixamento uma possibilidade real para as próximas rodadas, o que deflagrou uma onda de reclamação de torcedores. Houve vaias nas arquibancadas e protesto em frente ao portão que dá acesso aos vestiários.

Diante de ambiente tão conturbado, Ceni disse que “não vai se entregar”, mas já admitiu que suas ambições estão mais direcionadas à próxima temporada. Lembrou que o São Paulo ainda está se movimentando para definir o elenco – na última semana, por exemplo, houve negociações como a transferência do zagueiro Maicon, que rumou para o Galatasaray, e as contratações do defensor Arboleda, do meia Jonathan Gómez, do volante Matheus Jesus e do meio-campista Petros. Outros nomes, como o zagueiro Aderlan, ainda podem ser anunciados nas próximas horas.

O que mais chamou atenção, no entanto, foi outro ponto: sem querer, Ceni ofereceu uma das explicações mais contundentes sobre o bom momento do Corinthians, que somou 26 pontos em 30 possíveis e lidera o Campeonato Brasileiro – no domingo, o time comandado por Fabio Carille bateu o Grêmio, segundo colocado, em Porto Alegre.

Questionado sobre o que tem faltado ao São Paulo, Ceni recorreu ao equilíbrio do futebol nacional. Disse que há uma equidade de forças e que sua equipe tem feito bons jogos, mas acumulado placares adversos. Citou partidas contra Cruzeiro, Ponte Preta e Corinthians, reveses, para dizer que seu time esteve muitas vezes perto de resultados diferentes.

O São Paulo é, segundo o serviço de estatísticas Footstats, o time com mais posse de bola no Campeonato Brasileiro. Também é o quinto na lista dos que mais precisam de finalizações para balançar as redes – são 9,3 chutes a cada gol, quando o Corinthians precisa de apenas 2,3 em média.

Tem sentido a ideia de Ceni, portanto. O São Paulo tem argumentos para dizer que propõe o jogo e que controla as partidas em alguns setores do campo. Falta eficiência, o que pode ser corrigido apenas com um pouco mais de tranquilidade. É o famoso “quando a bola começar a entrar…”.

No entanto, a teoria do comandante são-paulino também expõe um dos motivos para a atual fase do São Paulo. Existe uma notória questão de tranquilidade, e as finalizações são apenas reflexo disso, mas o time tricolor em 2017 é um exemplo do que proporciona a ausência de uma cultura futebolística.

É aí que o Corinthians serve como contraexemplo. O time de Fabio Carille emula hoje todas as características que forjaram vitórias em temporadas passadas, nos períodos em que Mano Menezes e Tite trabalharam no Parque São Jorge. Exceção feita ao segundo semestre de 2013, todos os momentos ruins do time alvinegro desde 2008 aconteceram quando a diretoria ignorou esse perfil e contratou treinadores dispostos a impingir rupturas culturais – Adilson Batista, Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira.

O Corinthians de Carille é sóbrio, prioriza a defesa, tem um nível extraordinário de atenção e coordenação na última linha e consegue aliar a esse perfil uma gigantesca eficiência no ataque. Sofre pouco, vê poucas bolas rondando o gol defendido por Cássio e sabe aproveitar os espaços oferecidos por rivais que tentam furar esse bloqueio.

É o sucesso do Corinthians um dos principais motivos para o futebol brasileiro estar acompanhando atualmente uma explosão de times que abdicam da posse de bola. Construir jogo demanda e tem uma série de riscos, e os paulistas mostraram que é possível vencer com menos emoção.

São apenas dez rodadas de Campeonato Brasileiro, é claro, e em pouco mais de um quarto de competição é impossível dizer que o Corinthians segurará a toada até o fim da temporada. Contudo, já é possível dizer que a equipe alvinegra reencontrou com Carille a cultura futebolística que moldou seus momentos mais prolíficos na década, e entender que sua essência é um dos pilares para qualquer trabalho de construção.

No futebol brasileiro de hoje, talvez só Santos e Fluminense tenham questões culturais tão arraigadas. São times alicerçados em revelações e em jogos de velocidade proporcionado pelo ímpeto dos moleques – sim, causa e efeito muitas vezes se confundem nesse processo.

Rogério Ceni tem poucos meses como treinador e ainda carece de maturidade na nova profissão que escolheu. Pode até ter identificado bem o equilíbrio vigente no Campeonato Brasileiro em 2017, mas falhou ao tentar diagnosticar por que o Corinthians tem se mantido acima do bolo. Existe uma cultura que funciona ali – e que também funciona em Santos (quinto colocado) e Fluminense (oitavo colocado), times que superaram momentos claudicantes quando definiram um perfil em que apostar.

O São Paulo pode dar impressão de estar perto de amealhar resultados melhores do que o retrospecto recente, mas existem outras questões sobre o trabalho de Rogério Ceni. O comandante neófito ainda não conseguiu dar uma cara ao time – e ele não é o único responsável pela ausência de cultura, é bom que se diga. Enquanto a equipe não tiver uma cara pronta ou uma essência, sempre vai estar um pouco mais distante do sucesso.

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Detecção de Talentos – Parte II

Olá, leitor!

No texto anterior introduzi o tema que dá título à coluna, detecção de talentos, trazendo uma visão geral de como este processo normalmente ocorre em nosso país. Como mencionado anteriormente, são diversas as oportunidades de avaliação – observadores técnicos pelo Brasil a fora, competições, avaliações internas e externas, etc. – porém, é baixa a demanda de vagas – são muitos candidatos para poucas vagas, visto que nem todos os clubes possuem categorias de base e nem todos possuem as categorias menores (sub-11 e sub-13) – sendo assim, este processo de detecção pede muito rigor e reflexão.

Dado este cenário, num primeiro momento, pode até parecer simples o trabalho daqueles que avaliam os candidatos, dentre os muitos meninos que desejam ingressar nos clubes, basta colocar pra jogar e selecionar os melhores. Mas, o que quer dizer esse “melhores”?

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Vejamos um exemplo de uma das atividades que tenho utilizado nos últimos anos, nas avaliações que ministrei para jogadores das categorias sub-10 a sub-15:

Uma atividade de confrontos aleatórios em igualdade, inferioridade e superioridade numérica, o treinador dá um sinal e indica a quantidade de jogadores por rodada, estes partem para a disputa da bola, quem vencer a disputa ganha o direito de tentar fazer o gol, quem perde a disputa tenta proteger o alvo, a rodada termina quando ocorrer o gol ou o desarme por parte do defensor, ou após um limite de tempo pré-estabelecido. Dinâmica simples, onde se pode avaliar técnica de drible, passe, domínio, finalização e desarmes, todas competências que um jogador deve executar bem, e que com certeza são levadas em consideração nesta atividade. Porém, será que são somente estas as competências possíveis a se avaliar?

No desenrolar desta atividade, além das competências mencionadas, busco observar também alguns pontos que julgo extremamente importantes, dentre eles, a coragem. E como avalio isso? Basicamente observo quais jogadores, após a primeira dividida pela bola, continuam acelerando ao máximo para a disputa da mesma em todas as oportunidades, e quais jogadores desaceleram ou já adotam uma postura defensiva no intuito de evitar o choque da dividida. Que jogadores continuam tendo uma postura ofensiva, em vencer a disputa para fazer o gol. Será esse um critério e um olhar interessante para a análise? Podemos ainda notar um jogador que busca criar linhas de passe e desmarcar-se quando está sem bola, ou um que consegue ser muito produtivo dando somente um toque na bola, etc. Não seriam estes aspectos a se levar em consideração? Imagine que você trabalha em um clube que é historicamente reconhecido pela raça, por ter equipes vitoriosas que foram muito aguerridas, não seria então a coragem uma determinante característica a ser levada em conta para a toma de decisão?

O que estamos observando no jogar de nossos jogadores? Somente os momentos em que estes detêm a bola são determinantes nas avaliações? Outro ponto que julgo extremamente importante e determinante quando avalio jogadores, é a progressão de entendimento que estes apresentam. Numa avaliação, seja ela de um dia ou de uma semana, busco criar atividade de treino que sejam gradativas em complexidade, e assim, ter alguns subsídios para analisar a capacidade de adaptação dos jogadores, o potencial de entendimento e evolução que apresentam. O que é mais vantajoso, captar jogadores que possam resolver hoje os problemas da categoria (ex: jogadores muito maturados que resolvem os problemas só com a força) ou jogadores que demonstrem alta capacidade de adaptação e compreensão às necessidades do jogo? Quem conseguirá evoluir mais e passar por todo o processo da base? Nesse sentido, trago um exemplo de algumas das experiências práticas que vivi.

globoesporte.com
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Lucas Lima e Fabinho |Reprodução
Lucas Lima e Fabinho |Reprodução

 

Tive a oportunidade de vivenciar a formação destes dois jogadores, Fabinho – com quem pude trabalhar – e Lucas Lima – a quem pude enfrentar – ambos campeões nos clubes onde jogam, de reconhecido valor no âmbito nacional e internacional, Fabinho ainda tendo sido eleito um dos melhores jogadores da última edição da UEFA Champions League. O que tem em comum? Na infância e adolescência, não passaram pela base de nenhum dos grandes clubes do futebol brasileiro. Lucas Lima passou por diversos clubes do interior de São Paulo, e Fabinho fez toda a sua formação de base no modesto Paulínia Futebol Clube (coordenado metodologicamente pelo Prof. Dr. Alcides Scaglia) antes de ir para o juniores do Fluminense. Mesmo assim alcançaram o sucesso no futebol, chegando até a Seleção Brasileira. Como estes reconhecidos jogadores não foram selecionados por nenhum dos grandes clubes do Brasil?

Captar jogadores é muito mais do que simplesmente “olhar a parte técnica”, analisar se ele tem “um bom biotipo”, ou se tem “faro de gol”, o jogador é um personagem complexo, que depende de várias competências para obter sucesso, olhá-lo de forma simplista, minimalista, não dando a devida atenção a aspectos importantes, como sua parte cognitiva e emocional, podem acarretar em erros de tomada de decisão que irão onerar o clube e gerar frustrações desnecessárias. É claro que os erros irão acontecer, todo ser humano é passível de erro, o que proponho é que se observem os jogadores em sua totalidade, no que podem vir a se tornar (quando bem estimulados), e não somente no momento em questão, que se criem parâmetros para avaliar isso, não tenho dúvidas que poderemos assim, qualificar ainda mais o nível dos jogadores que atuam em nosso futebol e minimizar os erros nesse complexo processo de detecção de talentos.

Até a próxima!

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TJMG condena município por discriminação a treinador cadeirante

Dentre as várias nuances e objetivos do Direito Desportivo está a inclusão social. Neste sentido, o Município de Pirapetinga, interior de Minas Gerais, foi condenado a indenizar o treinador cadeirante em R$ 5 mil por danos morais porque ele foi barrado quando tentava entrar em um campo de futebol onde era disputado um campeonato amador, organizado pela prefeitura. A decisão em segunda instância é da 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que modificou a sentença de primeira instância que isentou o Município de responsabilidade.

O cadeirante, que treinava uma das equipes, propôs a ação contra o Município pedindo indenização por danos morais, uma vez que que teve sua honra violada por um agente municipal.

Conforme consta nos autos do processo, o autor da ação assistia a uma partida de futebol no Ginásio Poliesportivo de Pirapetinga, quando foi convidado pelo técnico de um dos times para auxiliá-lo, entretanto teve seu acesso ao campo de jogo impedido pelo agente municipal que teria, ainda, proferido palavras discriminatórias.

A desembargadora Sandra Fonseca, relatora do recurso, vislumbrou a existência de ofensa à honra do cadeirante e ainda ressaltou que o regulamento da competição permitia que cada técnico escolhesse um auxiliar, ou seja, o autor da demanda foi impedido de assumir função legalmente permitida.

Considerando que o desporto constitui uma manifestação cultural com enormes potencialidades na aproximação das pessoas, das culturas e das nações, através da dinamização de sociabilidades, decisões como essa orientam a ação desportiva para a inclusão e o combate a qualquer tipo de discriminação.

Ressalta-se que, por inclusão social no desporto, considera-se a existência real de igualdade de oportunidades no seu acesso, através de boas práticas para a promoção da prática desportiva generalizada, e a presença de pessoas tendencialmente excluídas na sociedade no exercício das atividades dirigentes e técnicas, sem que haja qualquer discriminação por motivos raciais, étnicos, religiosos, deficiência, gênero, orientação sexual, classe social ou outros.

Parabéns à Justiça Mineira e que este exemplo se alastre pelo país.

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Revirando os bolsos das calças guardadas

Vez ou outra os departamentos de marketing dos clubes de futebol brasileiro nos surpreendem tentando, a torto e a direito, fisgar a atenção (e os bolsos) dos torcedores com mirabolantes ações de marketing. Algumas das mais geniosas ideias já vistas foram: colocar micro fotos dos torcedores na camisa de jogo; seduzir o torcedor a comprar um diamante que contém os restos da grama do campo; enviar a nova camisa de jogo ao espaço, persuadir o fã a tatuar o símbolo do clube, entre outros. Como diria Tim Maia “Vale…Vale Tuuuudo”.

É claro que os departamentos de marketing dos clubes abusam também de ações mais ortodoxas e menos arriscadas de se conseguir resultados financeiros significativos. As ações de marketing mais comuns realizadas pelos clubes são: os programas de sócio torcedores, as escolas de futebol oficiais, os lançamentos de livros e filmes, os canais de informações dos clubes, as contratações de jogadores renomados, o patrocínio máster, as lojas oficiais dos clubes (física e virtual) e, por fim, as agências de turismo exclusivas dos clubes (GASPAR et Al, 2014) .

Não quero aqui neste espaço discutir os resultados de tais ações, mas fazer com que os gestores de marketing dos clubes de futebol reflitam sobre a possibilidade de explorar outros horizontes. Para isto, não precisam de nenhuma ideia do fantástico mundo de Bob, a fim de incentivar os mais diversos tipos de torcedores a consumir a marca de seu clube de coração. Basta mexer com o que já existe dentro deste torcedor, ou seja, “futucar” os mais valiosos momentos, as mais latentes memórias, estimular os mais ardentes sentidos e sentimentos.

Trazer a tona estas memórias parece ser mais simples e efusivo do que as estratégias de chantagem adotadas por alguns clubes do Brasil para atrair mais adeptos aos programas de sócios-torcedores, por exemplo. Estas ações mais parecem com as publicidades feitas pelo Regime Militar do que com ações de marketing esportivo. “Ame-o ou Deixe-o”; “Se você não é sócio-torcedor, você não é digno de pertencer a nós”. E o pior é que grande parte dos sócios-torcedores compram isso como verdade e defendem essa máxima nos discursos sobre o tema.

Minha intenção aqui é fornecer uma alternativa que se encontra nos livros, artigos acadêmicos e nas mais diversas indústrias ao redor do mundo (AYOZIE, 2013; BROWN, 2001a, 2001b; BROWN; KOZINETS; SHERRY JR, 2003a, 2003b). Estou falando do retromarketing. Trata-se de uma técnica de marketing que relança um produto, bem ou serviço, revitaliza uma marca ou faz alusão ao passado de uma organização, a fim de atrair e fidelizar mais consumidores (AYOZIE, 2013; BROWN, 2001a, 2001b; BROWN; KOZINETS; SHERRY JR, 2003a, 2003b).

Quem estuda e trabalha com o retromarketing defende a utilização desta técnica, pois entende que uma ação de marketing deve ter o foco nas experiências passadas de consumo e não no que o consumidor anseia do produto, bem ou serviço que será oferecido, pois é quase impossível prever o comportamento futuro do consumidor. O pouco que se pode prever sobre o consumidor deve estar baseado, essencialmente, em aspectos do passado. Isto significa que as ações de marketing devem traduzir, ou retraduzir, os sentimentos que os consumidores sentiram ao consumirem o bem, produto ou serviço no passado (BROWN, 2001a; 2001b). Isso faz todo o sentido e temos isso aos montes estocados nas memórias futebolísticas.

Se os clubes têm salas de troféus e departamentos históricos com intermináveis volumes recheados com ricas memórias, se sabemos e conhecemos quem é o consumidor dos clubes de futebol, se temos como mapear as experiências passadas de consumo deste consumidor por meio de pesquisa perguntando para ele diretamente como ele se sentiu ao experimentar os produtos, bens e serviços dos clubes de futebol, porque não se faz nada para atraí-lo e fidelizá-lo de verdade? Porque não existe preocupação em se entender para só então oferecer?

Para estas preocupações, os clubes podem utilizar o retromarketing. Uma opção diferente e que dá conta de se aproximar mais das necessidades e desejos do torcedor-consumidor dos clubes de futebol, de modo a entendê-lo e responde-lo melhor. Pois bem, pra nortear melhor os pensamentos, peço que você reflita o seguinte:

Porque um torcedor sabe quem foi o “heroi” do último título de seu clube e tem dificuldades para apontar quem fez o último gol na última partida que seu time disputou? Porque um torcedor sabe grande parte da escalação que conquistou pela última vez um título e mal sabe a escalação que jogou a última partida? Porque existem poucas dúvidas ou parecem ser tão óbvias as respostas das primeiras partes das perguntas e tão distantes as respostas das segundas partes? As respostas passam por entender como estas “lembranças”, de modo significativo, foram sendo enaltecidas e marcaram os torcedores dos clubes de futebol, permanecendo em suas memórias.

O retromarketing, se bem trabalhado, tem essa capacidade de enaltecer o que se deve ser enaltecido, marcar o que deve ser marcado e estimular o consumo no presente daquilo que já existe de potente no passado das organizações (AYOZIE, 2013; BROWN, 2001a, 2001b; BROWN; KOZINETS; SHERRY JR, 2003a, 2003b). Neste caso, entendemos os clubes de futebol como organizações que devem ser eficientemente geridas, também de olho em se manter financeiramente saudáveis e objetivando o lucro, sem se esquecer de que as demandas e o consumidor desse mercado são peculiares e específicos (MAZZEI; BASTOS, 2012).

Trocando em miúdos, trata-se de um mercado regulado por essências, formas, aspectos e sentidos diferentes e exclusivos de qualquer outro mercado. Só no mercado da bola, os consumidores protestam na porta da empresa cobrando resultados positivos ou comemoram o alcance de metas em praça pública até o nascer do dia.

O retromarketing no futebol deve trabalhar, portanto, estimulando as memórias afetivas dos torcedores- consumidores para que a ação possa gerar resultados satisfatórios (GRANJA, 2015). Entretanto, alguns cuidados devem ser tomados quando um clube deseja trabalhar as memórias em uma ação de marketing.

O roteiro para que um clube utilize as memórias no marketing são:

  1. Considerar as memórias coletivas de seus consumidores;
  2. Entender a tradição do clube e o que os seus consumidores consideram como tradicional no clube;
  3. Trabalhar aquilo que seus consumidores indiquem ser a identidade do clube;
  4. Buscar aquilo que provoca a nostalgia nos consumidores do clube e;
  5. Escutar e por em prática as considerações que os consumidores têm a fazer sobre o consumo de produtos, bens e serviços do clube (GRANJA,2015).

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Embora seja possível verificar que os clubes de futebol no Brasil já lançam mão das memórias em suas ações de marketing e no relançamento de produtos, bens e serviços, só é possível aplaudir raríssimas exceções de ações executadas até hoje. Na maioria dos casos, as ações são feitas sem considerar nenhuma dessas particularidades acima listadas, se esquece do relacionamento com o torcedor-consumidor e dificilmente percebe-se o “que” da memória está se extraindo nas ações executadas.

Lançam-se camisas de diversas cores e de gostos duvidosos a todo tempo justificando que aquela cor escolhida tem elo com a história do clube. Empurram esses produtos “guela” abaixo, sem ao menos se preocuparem em explicar didaticamente o período histórico que a cor fez parte e os motivos de lançarem, ou relançarem, aqueles produtos naquele momento. Perde-se a oportunidade de aproximar o torcedor-consumidor de viver, ou reviver, memórias essenciais da história do clube pelo qual torce. Estas pequenas ações têm o poder de criar vínculos duradouros ou até mesmo eternos. Vai me dizer que toda vez que alguém te contou uma história bem contada isso não te marcou?

Chamam-se ex-atletas dos clubes para lançarem produtos, bens e serviços que nada tem a ver com a época em que o atleta atuou naquele clube, constroem-se e reformam-se museus dos clubes e mal oferecem historiadores nestes locais para reforçarem a importância de tudo aquilo que está ali exposto. E, por fim, promovem, inauguram, lançam, vendem um monte de coisas do passado sem vincular ativamente estes eventos com os momentos históricos que o torcedor-consumidor viveu. É preciso contar a história, envolver e seduzir aqueles que escutam uma história antes de querer que eles acreditem, repassem e/ou consumam.

É ou não é sem igual achar aqueles R$ 20,00 no bolso de uma calça que está no guarda-roupas há meses? Milton Neves que o diga. Será que o gestor de marketing de um clube de futebol tem motivos pra revirar os guarda roupas empoeirados? Parece que sim. Pode ser que exista muito mais lá do que os poucos trocados que você possa encontrar naqueles velhos jeans rasgados e carcomidos que estão no fundo do seu guarda-roupa.

 
 

Bibliografia

AYOZIE, Daniel O. Retro-Marketing: The Art of Bringing Back to Life/Revatilising an Old Brand (Product) – The Nigerian Experience. Universal Journal of Management and Social Sciences, v. 3, n.3, 2013.

BROWN, Stephen. Postmodern marketing?. European journal of marketing, v. 27, n. 4, p. 19-34, 1993. ______. Retro-marketing: yesterday‟s tomorrows, today!.Marketing Intelligence & Planning, v. 17, n. 7, p. 363-376, 1999.______. The retromarketing revolution: l’imagination au pouvoir. International Journal of Management Reviews, v. 3, n. 4, p. 303-320, 2001a. _______. Marketing for Muggles: Harry Potter and the retro revolution. Journal of Marketing Management, v. 17, n. 5-6, p. 463-479, 2001b. _______. Marketing to generation®. Harvard business review, v. 81, n. 6, p. 16-17, 2003.

BROWN, Stephen; KOZINETS, Robert V; SHERRY JR, John F. Sell me the old, old story: retromarketing management and the art of brand revival. Journal of Customer Behaviour, v. 2, n. 2, p. 133-147, 2003a. ______. Teaching old brands new tricks: retro branding and the revival of brand meaning. Journal of Marketing, v. 67, n. 3, p. 19-33, 2003b.

GASPAR, Marcos Antonio, MORAIS, Diogo Martins G; JUNIOR, Ademar Caetano V; DEBIA, Cauê A. Marketing Esportivo: Um Estudo das Ações Praticadas por Grandes Clubes de Futebol do Brasil. Podium Sport, Leisure and Tourism Review e-ISSN: 2316-932X, v. 3, n. 1, p. 12-28, 2014.

GRANJA, Alex L. A utilização da memória pelo marketing de clubes de futebol. 2015. Dissertação (Mestrado Profissional em Administração- Gestão do Esporte)- Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2015.

MAZZEI, Leandro Carlos; DA CUNHA BASTOS, Flávia. Gestão do esporte no Brasil: desafios e perspectivas, Icone, 2012

*Alex Lopes Granja é Mestre em Administração- Gestão do Esporte

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Intervir menos

No Futebol temos alguns paradigmas que não são facilmente quebrados. Estão enraizados na cultura nacional e mundial. As dimensões envoltas desses paradigmas envolvem um imaginário conclusivo especialmente no papel da intervenção do treinador.

Esse aspecto que tem chamado minha atenção ao longo desses anos. Entendo intervenção como: “todos os dizeres verbais que inserimos nas interações individuais, grupais, setoriais, intersetoriais e coletivas dos jogadores nos treinamentos e nos jogos”.

Como treinador, confesso que não é fácil deixar de intervir nos jogos e especialmente nos treinamentos. Nos jogos tenho procurado diminuir muito acreditando que a potencialidade diária dos exercícios capacitam os jogadores a encararem o jogo. É um desafio diário.

E o grande quesito dessa questão está em três aspectos que considero basilares nesse emaranhado do conceito intervenção: o conteúdo e a quantidade da intervenção, o nível de dificuldade relativo ao processo ou idade e a localidade da intervenção.  

O conteúdo e a quantidade da intervenção: classifico como os jogadores percebem o jogo e o quanto reativo eles são a esses estímulos verbais. O excesso e o formato da intervenção podem mecanizar e gerar uma muleta mental aos jogadores desligando-os do contexto real. Esses dois aspectos são muito visíveis nos jogos da base quando os treinadores falam demasiadamente e com um conteúdo muito técnico, como: passa, toca, chuta, tira, marca e muitas outras coisas. Por mais que pareça irrelevante, os conteúdos dessas intervenções, que são simples, podem tirar a sensibilidade do jogador em perceber o jogo precocemente e viciar por toda a vida.   

O nível de dificuldade relativo ao processo ou a idade: esse tópico vem de encontro com o de cima, pois algumas equipes mais velhas, no processo final da formação ou no profissional, já não precisam dessas intervenções cantadas simples o tempo todo, pois teoricamente já dominam muitas facetas do jogo, precisando apenas de questões mais funcionais e estratégicas. Em contra partida, o excesso de intervenções difíceis e abstratas para jovens jogadores, ou seja, dizeres complicados e excessivos para crianças, muitas vezes retira também a natureza aberta e complexa do jogo. Cuidar esses aspectos é um dos segredos para formar jogadores e equipes com maior grau de liberdade. 

A localidade da intervenção: seria a região dentro do campo que o treinador vai intervir. As regiões são específicas ao treinador e sua forma de confeccionar. Podem ser: o centro do jogo, o meio do jogo, o lado contrário, a zona de equilíbrio, as costas de última linha do adversário, entre outras. Mas o que se enxerga é o excesso de intervenções no centro do jogo habituando o jogador perder a referência das outras zonas e ficar passivo a intervenção. Então é primordial deixar de intervir toda hora no centro do jogo e incidir mais nas outras regiões que automaticamente serão o centro do jogo futuramente com a fluidez do jogo. 

Além disso, algumas vezes, a intervenção vai contra os conteúdos treinados, o que está realmente passando no jogo ou é demasiadamente alterada por opções estratégicas. Claro, a intervenção deve acontecer nos jogos vendo o instante jogo, mas não pode ir contra as relações criadas pelos jogadores.

Então, num ponto de vista funcional, seria melhor substituir a palavra intervenção por expressão, pois os jogadores precisam se expressar dentro de campo e o treinador deve proporcionar apenas isso. E, para isso acontecer é importantíssimo que exista uma comunicação específica singular e coerente durante todo o processo, não transformando os jogadores em fantoches.

Aos poucos, como treinadores, vamos melhorando, mas como disse anteriormente, e por experiência própria, não é nada fácil deixar de intervir, intervir menos e apenas permitir que os jogadores expressem o que sabem e o que treinaram. Creio que seja o próximo passo da evolução do treinador, o que acham? Utopia ou necessidade?

Abraços e até a próxima quarta!

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A Copa das Confederações e os torneios entre seleções

A Copa das Confederações teve início no último sábado na Rússia e, da mesma forma como ocorreu há quatro anos aqui no Brasil, serve de teste para a organização da Copa do Mundo que será disputada no país em 2018.

O torneio, criado há 25 anos, corre o risco de cair no ostracismo pela falta de interesse das seleções participantes, em especial as europeias. A Alemanha, atual campeã mundial, jogará com a sua equipe reserva, optando por dar férias aos seus principais astros que terão um calendário pesado na próxima temporada pelos seus clubes e com a disputa da Copa do Mundo.

A FIFA estuda mudanças em seus torneios e, a Copa das Confederações, por não ter alcançado o status que se esperava, pode ser a primeira a ser extinta do calendário ou completamente reformulada. O desinteresse não ocorre somente por parte das seleções europeias, mas também do público em geral. Em termos comparativos, os europeus olham para a Copa das Confederações da mesma forma que olham para o Mundial de Clubes da FIFA. Em contrapartida, dão muito valor para a EUROCOPA, da mesma forma que valorizam a Champions League.

A UEFA, sem sombra de dúvida e já citado em outras colunas, tem sido uma grande referência em termos de organização de eventos e de marketing. Além das consagradas EUROCOPA e Champions League, a federação europeia anunciou a criação de um novo campeonato entre seleções intitulado de UEFA Nations League.

O evento promete trazer disputas interessantes entre as seleções afiliadas e divididas em 4 ligas, com disputas durante as datas FIFA estipuladas para amistosos. Além de garantir um maior nível de jogos entre as suas seleções, também deverá despertar maior interesse por parte do público, garantindo maiores audiências e novas ações de marketing junto aos seus patrocinadores.

Seria muito interessante se a CONMEBOL, de preferência em conjunto com a CONCACAF, desenvolvesse algo similar que potencializasse a disputa dentro de nosso continente. Temos hoje seleções que podem disputar de forma equilibrada com Brasil e Argentina, prova disso é que nenhuma das duas conseguiu classificação para a edição atual da Copa das Confederações.

Em um futebol cada vez mais globalizado, com os maiores clubes do mundo sendo representados por verdadeiras torres de babel em seus elencos, a preocupação em realizar torneios interessantes entre países torna-se essencial para que os torcedores tenham essa identificação com as suas seleções nacionais.

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Lucianinho, Gisele e a comunicação no mundo moderno

Você já ouviu falar de Lucianinho? Ele tem apenas 12 anos, mas já assinou contrato com uma agência de marketing esportivo e coleciona números que dizem muito sobre comunicação no mundo atual. Atleta de uma escolinha do Flamengo em Palmas (TO), o garoto protagoniza um vídeo que viralizou em redes sociais, com mais de 3,5 milhões de visualizações em 48 horas, e atingiu alcance global após ter sido citado por Neymar. Não precisou sequer de um time para se tornar o novo fenômeno da semana.

De Gisele Bündchen você certamente ouviu falar. A maior modelo do Brasil usou a rede social Twitter para questionar o presidente Michel Temer e a ONG WWF sobre as Medidas Provisórias 756 e 758, que o mandatário poderia vetar até esta segunda-feira (19). Em resposta, o político anunciou que havia rechaçado integralmente os textos.

Temer não recorreu a um grande veículo para dizer que vetaria as MPs. Aliás, não usou sequer um veículo. Preferiu o alcance de Gisele, uma das brasileiras mais influentes (também) no ambiente virtual. Uma resposta ao post dela teve um alcance potencial maior do que um comercial em TV ou uma coletiva de imprensa.

O presidente da República prefere dialogar com uma modelo do que responder a demandas de jornalistas e uma citação de um jogador do Barcelona transforma um garoto de 12 anos em astro global. São mudanças radicais de diapasão em relação ao modelo de comunicação estabelecido décadas (ou anos) antes, e é impossível ignorar isso.

O caso Lucianinho, por exemplo: o tio do garoto, que é publicitário, decidiu veicular em redes sociais um vídeo com os melhores lances do candidato a jogador, autor de 32 gols em sete jogos da Go Cup, competição para jovens realizada em Goiânia. Também pensou em mandar a peça a um dos “parças” de Neymar e pedir que o conteúdo fosse mostrado ao astro.

Neymar respondeu com uma mensagem de incentivo a Lucianinho. Foi o suficiente para o vídeo viralizar: segundo o tio do garoto, o conteúdo já foi assistido por mais de 20 milhões de pessoas em 40 países. As maiores audiências da Globo, emissora líder na TV brasileira, são inferiores a 12 milhões de espectadores.

Anos antes, o tio de Lucianinho teria de procurar uma equipe de comunicação e torcer para alguém julgar interessante o conteúdo. Só assim o vídeo do garoto seria veiculado em algum canal com alcance maior do que o boca a boca da própria família.

Os dois exemplos citados aqui mostram como Neymar e Gisele deixaram de ser figuras que dialogam com a mídia; os dois hoje são a própria mídia. Ambos conversam com públicos gigantescos e têm uma capacidade imensurável de formar opinião.

A publicidade percebeu isso há anos e mudou a estrutura de comerciais. Gradativamente, peças tradicionais perderam espaço para material feito por influenciadores. E isso, é claro, também gerou controvérsias sobre os limites do que é publicado em cada canal individual.

Se Neymar elogiasse Lucianinho, por exemplo, o jogador poderia ser o novo reforço do Real Madrid ou poderia ter sido ainda mais insuflado. Mas Neymar é uma celebridade que usa canais pessoais para fazer publicidade – vende espaço a seus anunciantes pessoais, por exemplo.

Outro problema é que essa transformação de influência em valor gera um consequente esforço para ludibriar o sistema. Se Neymar ou Gisele vendem seus espaços pessoais porque chegam a muita gente, é natural que isso desperte o interesse de gente com intenções ulteriores e que fomente burlas como perfis falsos ou “fazendas de redes sociais”.

O mercado de influenciadores é cada vez mais relevante na comunicação brasileira. Entretanto, não tem sido acompanhado de debates sobre limites, tampouco de esforços para que a regulamentação não dependa apenas do próprio mercado.

E se tem algo que as últimas delações da JBS têm ensinado é que deixar a regulamentação nas mãos do mercado é (quase) sempre a pior das opções.

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Treinador não! Marcos Assunção estuda para seguir outro rumo dentro do futebol

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Foram 23 anos de carreira no futebol, de 1993 a 2016. Neste período, conquistou a Copa do Brasil, o Campeonato Italiano e a Copa do Rei da Espanha, entre outros títulos. No entanto, desde 11 de maio de 2016, Marcos Assunção é um ex-jogador de futebol.

O que não quer dizer, porém, que o ex-volante tenha se aposentado. Pelo contrário.

Desde então, Marcos Assunção tem se dedicado a se manter próximo dos bastidores do futebol. A meta: tornar-se dirigente esportivo. Para isso, tem realizado diversos cursos. Aprendeu sobre comunicação, organização financeira, coaching esportivo e gestão esportiva. Hoje, ao mesmo tempo em que cursa a Universidade do Futebol, faz estágio no XV de Piracicaba.

“Quero continuar no futebol, e como jogador de futebol já não dá mais”, contou Assunção, rindo, em conversa por telefone com o UOL Esporte. “Quero seguir. Não dentro das quatro linhas, mas sim dentro de um clube de futebol. Quero seguir a carreira de executivo do futebol. Para entrar sabendo do que acontece fora das quatro linhas, dentro de um clube, eu preciso me aprimorar, preciso estudar, preciso fazer cursos. Estou no terceiro curso de gestão esportiva”, acrescentou.

Apesar da experiência de mais de duas décadas no campo, Assunção percebeu que precisava aprender muita coisa sobre os bastidores. Aos 40 anos, troca as chuteiras pela gravata e quer entender como funciona um clube de futebol por dentro.

“Dentro das quatro linhas, vivi durante 23 anos da minha vida, então isso eu já sei. Quero me aprofundar nas leis, no que acontece. Depois, quando já estiver sabendo mais ou menos como funciona, já tiver feito alguns cursos importantes aqui no Brasil, vou procurar entrar em algum clube para começar a trabalhar. Estou fazendo os cursos, e juntamente com os cursos, vou procurar fazer meus estágios. Comecei na semana passada no XV. Pretendo ligar para alguns amigos que fiz durante a minha carreira de jogador, que foram meus diretores e que hoje estão em clubes de futebol, para que eu possa visitar também, ver como funciona o clube, me aprimorar bastante- para quando eu entrar em clube de futebol, saber tudo o que acontece”, descreveu.

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Hoje, Assunção diz que está “começando a aprender essas coisas de como funcionam os contratos”. A meta é se aprofundar em questões técnicas nos próximos meses e começar a trabalhar como dirigente de um clube já em 2018. E ele garante que começar em um clube de menos projeção não é problema.

“Eu já tenho uma grande experiência por ter sido jogador, então praticamente já estou mais que meio caminho andado. Preciso me aprimorar e aprender bem as leis, as contratações, as negociações. Até o final do ano, creio eu, vou estar bem estudado para começar a trabalhar. Independente de ser um clube pequeno ou um clube grande: para mim não vai ter problema nenhum, porque eu vou estar preparado”, explica o ex-meio campista, que vai além.

“Foi por isso que eu quis fazer todos esses cursos importantes aqui no Brasil. Quando chegar o momento, de repente, de pintar uma oportunidade grande, sem problema: mas se pintar a oportunidade em um clube pequeno e eu tiver que começar um trabalho, para mim, não vai ter problema nenhum. O que eu quero é ter tanto sucesso como diretor de futebol como tive como jogador. Isso, primeiramente, vai ser com atitudes corretas.

A meta, para Assunção, é clara. Se algum time precisar de um treinador, que não conte com ele – no máximo, para trabalhar na contratação de um profissional para a vaga. Segundo ele, a vida no futebol continua, sim – mas apenas do lado de fora do campo, bem longe de um banco de reservas.

“Treinar, não. Treinador eu não quero”, responde. “Nunca passou pela minha cabeça ser treinador. Eu quero ser diretor de futebol, quero ser um executivo do futebol. Estou estudando justamente para ser um executivo de futebol: participar de contratações, participar do dia a dia, participar dos problemas do clube, estar junto para resolver os problemas do clube. Não quero ser treinador”.

Veja a matéria: https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2017/06/19/aposentado-dos-gramados-m-assuncao-quer-seguir-no-futebol-como-dirigente.htm