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Pep Guardiola quase reverte a “pirâmide”

De tempos em tempos presenciamos transformações impactantes nos desenhos táticos e nos estilos de jogo de times e seleções. Da valorização do improviso do futebol brasileiro, inserido cada vez mais num jogo taticamente organizado, às modificações do futebol inglês, que passou de um jogo de ataque direto a um jogo de ataque combinado, podemos observar diversas identidades de jogo que vão se multiplicando num mundo globalizado onde a informação trafega em alta velocidade.

Quando ainda não havia a regra do impedimento, o jogo se caracterizava por um comportamento técnico-tático mais individualizado, sendo o drible uma manifestação técnica frequente, ficando a cooperação através do passe e as preocupações defensivas relegadas a um segundo plano (Wilson, 2009, p. 11, tradução minha).

A regulamentação da regra do impedimento em 1863 (fonte: Wikipedia.org) provocou ajustes na forma das equipes se organizarem. Posteriormente, outras modificações das regras gerais do jogo influenciaram a construção dos modelos de jogo hoje observados.

Os desenhos táticos, ou plataformas de jogo, foram afetados, não somente pelas alterações das regras, como também pelas diferentes formas de abordar o treinamento, pelas modificações das sociedades das diferentes épocas, e principalmente pela qualidade dos principais recursos humanos disponíveis – os jogadores.

Em Wilson (2009, p. 16), no primeiro encontro internacional entre Escócia e Inglaterra, realizado em Glasgow em 1872, a equipe inglesa apresentou como desenho tático o 1-1-2-7, uma “pirâmide” com a sua base constituída pelos jogadores de frente. A Inglaterra jogou com Barker; Greenhalgh; Chappell e Welch; Brockbank, Cleff, Kirke-Smith, Ottaway, Chenery, Maynard e Morice.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

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O que realmente fará a diferença no futebol?

Olá a todos! Neste artigo iremos refletir sobre o que realmente pode fazer diferença no futebol ao conseguir aumentar o máximo possível a probabilidade de vitórias e, consequentemente, diminuir as derrotas. Segundo estudos (ANDERSON & SALLY 2013), o futebol é o esporte com menos probabilidade de que os favoritos consigam vencer (52%) em relação aos demais esportes coletivos – basquete 66%, beisebol 60%, futebol americano 65%, handebol 71%.

Nos dias de hoje, devido a tecnologia e o vasto conhecimento em diversas áreas dos aspectos humanos, tivemos uma evolução de forma exponencial, nos últimos 20 anos, na performance dos atletas chegando quase ao seu limite no que diz respeito as suas capacidades específicas para a modalidade (físicas, técnicas e táticas). A seguir vamos analisar alguns aspectos:

Para as capacidades físicas, hoje através de sistemas GPS e treking das partidas podemos entender exatamente como se movem os jogadores com distâncias, acelerações, desacelerações, diferentes velocidades de corrida, mudança de direção, dentre outros dados durante os treinamentos. Isso permitiu o estudo detalhado e programações específicas de treinamentos para cada atleta em suas equipes nas diferentes posições no campo.

Nos aspectos tático-técnicos (tática vem primeiro do técnico pois a capacidade de escolha é a tática individual vindo antes do gesto técnico a ser realizado) através de scout numéricos, observação livre e análises vídeo, é possível entender os comportamentos de uma equipe em diferentes fases do jogo para detectar pontos fortes e vulneráveis do time, setor ou jogadores adversários. Este conhecimento permite treinamentos estratégicos (individuais e coletivos) para que sua equipe reconheça o mais breve possível os movimentos do adversário e tenha um determinado comportamento pré-estabelecido para combater e/ou aproveitar a situação enfrentada.

Devido a tantos estudos, conhecimento e especificidade dos aspectos humanos ligados ao futebol, em qual área poderíamos e devemos nos aprofundar cada vez mais? De acordo com as novas tendências do futuro do esporte, esta área seria a do aspecto mental-emotivo dos jogadores. Como diz Pep Guardiola, em sua entrevista a Aspire Academy: “ O jogador hoje é capaz de chegar cem vezes ao fundo do campo para cruzar uma bola, mas a questão é: quando ele vai chegar? Um segundo antes? Um segundo depois? Ele tem que saber chegar no timing certo nem antes e nem depois, e isso define a inteligência no futebol”.

O fator mental, apesar de ser considerado muito importante, sempre foi menos trabalhado dentre os outros aspectos e capacidades devido a sua difícil compreensão e aplicação durante os treinamentos. A visão de um psicólogo em um staff técnico, já é muito conhecido geralmente cobrindo um papel de interlocutor e motivador mas pouco voltado para a atuação do atleta durante uma partida. O desempenho de um jogador durante uma partida pode-se resumir de acordo com a equação (GALLWAY 2013): “Desempenho Real = Desempenho Potencial – Interferências internas e externas”. Ou seja, o real trabalho de um psicólogo esportivo é compreender e exercitar aspectos mentais de cada atleta, como exemplo: a concentração, velocidade de pensamento e capacidade de escolha junto ao aspecto (talvez o mais importante), a gestão das emoções de acordo com os diferentes momentos do jogo, como: resultado vigente, importância do jogo, tempo de jogo, força do adversário, torcida, objetivos e problemas pessoais, entre outros.

De uma forma ainda não muito difundida, os chamados psicólogos esportivos começam a ter mais espaços nas equipes tendo como fundamental objetivo o entendimento dos comportamentos mental-emotivos da equipe e jogadores propondo exercícios para que, através de uma melhor gestão emocional durante toda a partida, isto possa ajudar a melhorar ou a manter o maior tempo possível a sua velocidade de pensamento e capacidade de escolha que vão influenciar diretamente no resultado de uma partida.

Em tempo de equivalência física, tático e técnica, o “famoso” jogador inteligente é aquele capaz de resolver problemas criando imprevisibilidade através de seu pensamento criativo. Este jogador pode ser goleiro com ótima capacidade de leitura da trajetória da bola, um zagueiro com perfeita antecipação ao lance ou com coragem de comandar o jogo com uma condução dentro das linhas adversárias; um meio campo que através de um passe é capaz de quebrar linhas em uma perfeita leitura tática; um atacante que se move no momento certo para receber um passe ou simplesmente criando superioridade numérica através de 1 vs 1 criando a instabilidade defensiva procurada em cada ação de ataque.

O futebol é somente e exclusivamente dos jogadores então, o investimento em um trabalho direcionando o reconhecimento e a gestão das emoções durante a partida, será a real diferença no futebol.

Segundo vocês, como podemos trabalhar o aspecto mental-emotivo com especificidade na performance do jogador durante as partidas?

Um abraço!

 
Referência Bibliográfica:
ANDERSON C.; SALLY D.; Os números do jogo: Por que tudo o que você sabe sobre futebol esta errado. São Paulo: Schwarcz, 2013
GALLWAY T.; The Inner Game: A essência do jogo anterior. São Paulo: NEWBOOK, 2013

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O exercício de treino

Perceber o futebol como um feito simples, cultural, uma maneira de sentir, viver ou puramente um jogo, está cada vez mais complicado nesses dias atuais. Compreender que os exercícios de treino devem ser cenários para algumas interações e para que as coisas surjam de forma natural, espontânea e construída também.

Infelizmente, o futebol está cheio de modismo, ideias preconcebidas com alguns preceitos instalados, principalmente na construção de exercícios que tomam conta da mente coletiva dos treinadores pela proliferação dos meios de comunicação. Quatro perguntas vêm à tona: todos devem treinar como todo mundo treina? Os exercícios de um treinador profissional em um clube são específicos a outro? Os exercícios vistos no profissional podem ser copiados na base? Os exercícios com múltiplas regras e adornos tiram o essencial do jogo?

Analisando essa tese e respondendo as perguntas acima por experiência própria, os exercícios copiados ou com múltiplos adereços, inicialmente parecem carregar informação e modernidade, mas com o passar do tempo, demonstram trajetórias traçadas com pontos cíclicos ou atalhos processuais que inibem aspectos cruciais para a teia relacional da dinâmica de jogo.

Fazendo isso, de certa forma, nos comparamos muitas vezes, sem saber, a outros contextos, e negligenciamos o básico que é o processo e o instante dele. O grande desafio é perceber que cada processo é único, e carrega consigo o desconhecido, as dúvidas e confianças que cada jogo proporciona.

Claro, prescrever regras e condições estruturais-funcionais gera possibilidades interessantes, mas influem no tempo e espaço do jogo e do jogar que podem por vezes, se excessivas, retirar o caráter real da competição que nada mais é que a máxima adaptabilidade às interações dos jogadores e do jogo.

E há que reconhecer essas características, ou seja, reconhecer realmente o que é jogo. Ir mais além de qualquer conceito ou cópia, esse é o verdadeiro conteúdo do exercício. E os exercícios nessa ideia, nada mais são que cenários de interação para agir e antecipar com mais facilidade o que virá adiante. Desta forma, engloba libertar a rigidez vista, não vista, sentida, não sentida, e permitir que mutações e variações aconteçam a todo instante.

Se conservarmos exercícios abertos e livres, imaginando que todo dia uma tela em branco deva ser pintada pelos jogadores, conseguiremos obter uma perspectiva complexa e compreender a natureza desse fenômeno futebol. É preciso tentar manter essa pureza e causar naturalmente circunstâncias que estão acima do alcance apenas do que o treinador pretende.

O treinador Português Vítor Pereira, no congresso sobre Periodização Tática na última semana, abordou essa temática de forma relevante, vejamos abaixo:

Os meus exercícios hoje são muito mais simples do que aqueles que quando comecei a treinar. Estive cinco anos na formação do FC Porto e tive oportunidade de fazer, errar, refletir. Quando cheguei ao futebol sênior sentia-me preparadíssimo, mas não por ler livros de exercícios. Aquele livro dos mil e um exercícios que nos oferecem no terceiro ou no quarto nível de treinador… nunca lhe tirei o plástico.

Os exercícios têm de ser meus, da minha cabeça. Tenho que andar sempre com um bloco ou com um guardanapo, ou o que for, para assentar tudo quando estou sentado a pensar, a beber a minha cervejinha, se for possível.

Para mim, jogar o jogo é controlá-lo do princípio ao fim, em todos os momentos. Mas reconheço que, por exemplo, no Santa Clara, tinha uma equipa muito organizada, mas faltava criatividade e liberdade. Por exemplo, o Hulk, sempre que jogávamos em um ou dois toques, ele tinha grandes dificuldades, mas sem isso ele se destacava. Ou seja, o exercício não pode ser castrador, tem de se expressar por si próprio. Se vocês têm necessidade de interrompê-lo muitas vezes, é melhor refletirem sobre o exercício.

Antigamente, antes do exercício, eu explicava tudo: o exercício é este, o objetivo é este e os comportamentos que eu quero ver são estes. Já não o faço, sabem porquê? Porque eles conseguem sempre fazer mais do que aquilo que a nossa cabeça consegue imaginar.  

Um verdadeiro exercício dificilmente se estabelece por objetivos blindados ou excessivos, pois sempre surgem novas conexões ou aspectos mais pormenorizados mesmo que não queiramos. E a melhor forma de produzir conhecimento de treino está por meio de tendências práticas de cada contexto, desenhadas, praticadas e vivenciadas emotivamente pelos jogadores diariamente. O verdadeiro exercício de treino está nos jogadores.

Abraços e até a próxima quarta!

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Seleção Brasileira Global ou Nacional?

O título da coluna de hoje não visa analisar se a nossa seleção e, consequentemente, o futebol brasileiro permanece com destaque e respeito mundo afora. O objetivo central é mostrar os prós e contras de um panorama novo trazido com os dois jogos amistosos disputados pela seleção em excursão pela Oceania, contra a sua arquirrival Argentina e contra a equipe da casa Austrália.

Nos acostumamos a acompanhar a transmissão de jogos da seleção durante a últimas décadas pela TV Globo, seja em jogos oficiais, como também em qualquer amistoso. A Globo permanece com os direitos de transmissão dos grandes eventos que a seleção participa, como Eliminatórias da Copa do Mundo, a própria Copa do Mundo e Copa América. Porém, não havia adquirido os direitos desses amistosos na Oceania e, para surpresa do mercado em geral, não houve acordo entre a emissora e a CBF.

A confederação, por sua vez, ao não ficar satisfeita com a proposta apresentada pela Globo, resolveu abrir o seu leque e, de forma planejada ou por força do acaso, criou a primeira experiência da seleção brasileira utilizando um novo modelo de transmissão. A CBF comprou espaço na TV Brasil, além de ter acertado com a TV Cultura, UOL e Vivo. A transmissão ficou sob responsabilidade da própria confederação, através da CBF TV, incluindo a geração de imagens, narração e até mesmo comentários com a presença ilustre de Pelé.

Ainda é muito cedo para avaliar se a iniciativa foi positiva ou negativa. O fato dos jogos terem ocorrido no início da manhã em dias de semana e a seleção ter tido desfalques importantes, incluindo a grande estrela Neymar, impossibilitam o entendimento mais claro do tamanho da repercussão gerada.

Um fato é claro. A ausência da Globo, não somente durante a partida, mas também durante o noticiário pré e pós jogo, fez com que muitos torcedores nem soubessem que os jogos aconteceriam. A audiência, o alcance e também o costume da emissora trouxeram, de certa forma, um distanciamento entre a seleção e o seu usual torcedor. Se fosse um Brasil e Argentina jogado em alguma cidade brasileira, com a presença de todos os grandes craques, em um dia e horário comum ao existente, o barulho poderia ser diferente.

São muitas correntes opostas analisando esse fato. Uns que clamam pelo fim do predomínio da Globo em nosso futebol e outros que enxergam que é justamente a presença da emissora que enriquece o espetáculo, pela qualidade técnica de sua transmissão e pelo alcance inigualável da massa em todos os cantos do país.

Como qualquer fato novo, a discussão é válida. Apesar dos inúmeros erros e negócios obscuros realizados pela CBF durante as últimas décadas, culminando em seu completo descrédito, é justo dizer que a iniciativa embrionária foi corajosa e audaciosa. Mesmo se tudo retornar ao binômio Seleção Brasileira + Globo, a semente foi plantada para que todos saiam de sua zona de conforto e enxerguem que há um mundo novo e desconhecido a ser explorado.

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O segredo de Daniel Alves

Gostaria de ter publicado este texto na semana passada, mas tive de priorizar questões pessoais. Espero que o assunto não tenha se perdido no dinamismo esquizofrênico desse mundo que comporta cada vez mais conteúdo entre 140 caracteres e textões, mas paradoxalmente diminui constantemente a atenção a qualquer coisa.

Feito o preâmbulo de mea culpa, é importante dizer que a relevância do assunto não se perdeu. Trata-se de um texto publicado pelo lateral direito brasileiro Daniel Alves, 35, no site “Player’s Tribune”. Veiculado originalmente em inglês e intitulado “The secret” (“O segredo”, em tradução livre), o depoimento fala de quando o jogador trocou o Barcelona pela Juventus, da preparação que precede suas apresentações e de como isso tem a ver com a trajetória que o colocou ali. Todos os sentimentos expostos ali, como a relação com a família e o desejo de dar orgulho ao pai, despertam empatia quase imediata. É impossível ler sem entender o que o atleta sente, pensar no quanto ele é similar às “pessoas comuns” e como essa concepção é diferente das principais características que moldaram a imagem de Dani Alves nos últimos anos.

O texto de Daniel Alves é um exemplo do quanto a imagem do lateral foi mal trabalhada ao longo da carreira.

Daniel Alves é um jogador brasileiro de carreira tão longeva quanto prolífica no futebol europeu. Sobrevive há anos entre os principais da posição e já demonstrou repertório extremamente diversificado em aspectos como tática e técnica. Já disputou Copa do Mundo como lateral e como meio-campista. Já foi a principal válvula ofensiva de um Barcelona que ficará eternamente marcado como um dos times mais espetaculares da história.

O sucesso esportivo, contudo, é apenas uma faceta de Daniel Alves. O brasileiro também ama roupas, adora visuais extravagantes, é verborrágico, é nacionalista e tem outras tantas características que nós conhecemos pouco.

Porque Daniel Alves, um dos jogadores brasileiros mais relevantes das últimas décadas, também é uma personalidade que nós conhecemos pouco?

Foi o lateral direito que disse que Guardiola queria treinar a seleção brasileira. Foi o lateral direito que cobrou da imprensa de seu país uma postura mais condescendente (e até torcedora) com a equipe nacional. Foi o lateral que falou tantas vezes sobre o que aprendeu (dentro e fora das quatro linhas) em sua passagem pela Europa.

Não faltaram aparições públicas a Daniel Alves. Não faltaram entrevistas, conversas com alguns dos veículos mais relevantes da mídia global. O que faltou foi um plano de comunicação que soubesse transmitir o que o texto publicado no “Player’s Tribune” transmite.

Fundado pelo ex-jogador de beisebol Derek Jeter, o site oriundo dos Estados Unidos já conseguiu publicar textos de algumas das personalidades mais relevantes do esporte mundial. A ideia é que os atletas apresentem seus sentimentos e falem sobre suas trajetórias – o conteúdo é transformado em texto por uma equipe tão competente quanto experiente.

É importante que exista uma plataforma disposta a ouvir os atletas e transmitir um pouco mais do que é percebido por mídia e público. Mas a necessidade de um canal assim só é tão grande porque faltam planos estruturados de comunicação para cada personalidade.

As características mais marcantes de Daniel Alves para uma parcela significativa do público no Brasil são coisas como “marrento”, “fala demais”, “só se preocupa com roupas”, “fútil”, “deslumbrado” e outras tantas coisas nada positivas. Também não é nada do que o texto mostra.

A maioria dos atletas do Brasil ainda confunde a existência de uma estratégia de comunicação com a contratação de uma equipe de assessoria de imprensa, de um profissional para gerenciar contratos de imagem ou com o tempo de exposição do personagem. Essa concepção é apenas um exemplo de como o erro, nesse caso, provém da base e não do processo de comunicação.

O que um atleta precisa é de um plano de comunicação que traduza com eficiência as características positivas que ele tem. Que potencialize o carisma e que melhore a relação dessa personalidade com o mercado, os fãs e os veículos de mídia. Assessoria de imprensa, nesse caso, é apenas uma parte do todo.

Já passou da hora de entendermos a necessidade de pensar o atleta como uma marca e de trabalhar para explorar de forma correta os pontos positivos dessa marca. A comunicação tem mudado no mundo todo, com uma dependência cada vez menor de meios tradicionais. O poder da narrativa não tem mais interlocutores ou intermediários. O segredo de Daniel Alves foi escancarar isso a todos.

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Detecção de Talentos – Parte I

Olá, leitor!

Diz um provérbio português que “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Este provérbio pode ser facilmente adaptado para realidade brasileira da seguinte forma: “de médico, treinador e louco, todo mundo tem um pouco”.  Vivemos em um país que respira, que vive o futebol intensamente, é fato inegável que a grande maioria da população, seja de que classe social for, consome o jogo de bola com os pés trazido por Charles Miller* ao Brasil.

Aliada a toda comoção que o jogo gera no Brasil, a maioria dos brasileiros se julga um “entendido no assunto”, sempre tem uma análise profunda do último jogo de sua equipe, dos erros que o técnico cometeu, do que o jogador deveria ter feito naquele lance… E, possuem um craque (seja ele a idade que for) em casa, no time do bairro ou da escolinha, esperando uma oportunidade de ser descoberto. O futebol é o esporte que mais atrai repercussão midiática e ingestão de recursos financeiros, visto que atualmente vivemos em uma sociedade que associa status e o poder econômico a ter sucesso e felicidade na vida, não fica difícil de compreender o porquê de tantos “olheiros”, pais, meninos (talvez este ainda sejam mais motivados pelo amor e prazer que o jogo propiciam) desejarem entrar no mundo do futebol de alto rendimento, cuja principal porta de entrada são as categorias de base dos clubes de futebol.

A maioria dos clubes formadores no Brasil inicia o seu processo de detecção e capitação de talentos bem cedo, em suas categorias sub-10, 11, 13 e 14 (os que possuem equipes de futsal começam ainda mais cedo). Os clubes que dispõem de maior estrutura, contam com observadores e parceiros (projetos, escolinhas, etc) espalhados por todo país (sem contar os que possuem fora do Brasil). De semana a semana são muitos os meninos que chegam aos clubes para serem avaliados pelas comissões técnicas, esporadicamente acontecem seletivas (as famosas peneiras) que reúnem vários aspirantes a jogador, e ainda são inúmeros os contatos diretos que os pais ou os próprios meninos fazem com os clubes no intuito de serem avaliados.

Sim, diferente do que muitos pensam, nos grandes clubes, existem muitas oportunidades e possibilidades (sobretudo para os mais novos) para que os meninos sejam observados e avaliados. Esta observação pode acontecer dentro ou fora do clube e, obviamente, não é um processo isento de falhas, mas somando-se a quantidade de clubes, parceiros e observadores, a margem de abrangência é muito grande. É um tanto injusto dizer que não há oportunidades.

Sendo satisfatória a oferta de oportunidades de avaliação, se faz necessário compreender que inversamente proporcional é a quantidade de vagas, há uma pequena demanda (vagas nos clubes) para uma grande oferta (meninos querendo preencher as vagas). A responsabilidade de quem avalia, de quem oportuniza, é muito grande, é necessário entender o que o clube busca, que características pretende encontrar nos jogadores, o diferente nível de exigência para cada idade, o potencial de evolução que este jogador demonstra, nível de maturação, estes e outros parâmetros quando bem diagnosticados tendem a diminuir a margem de erro, que invariavelmente vai acabar ocorrendo.

Quem avalia está lidando com os sonhos de pais e meninos, com os objetivos a longo prazo do clube, portanto, este processo não pode ser algo simplesmente mecânico, puramente frio, que somente separa os “bons” dos “ruins”. Minimizar os erros deste processo é preciso, refletindo sobre eles poderemos promover uma detecção de talentos mais humana, justa e precisa, e esse assunto continuará numa próxima coluna. Até lá!

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A culpa é do treinador? “O balançar da roseira” no futebol brasileiro

Após a realização de mais uma rodada do Campeonato Brasileiro e, sobretudo, a demissão do treinador Dorival Junior, do Santos Futebol Clube, me senti motivado a dedicar uns minutos a escrever esse texto e tratar das frequentes, e equivocadas no meu entendimento, demissões dos treinadores do futebol brasileiro. Antes de entrar propriamente na minha análise, gostaria de ressaltar que este tema está contemplado em um dos capítulos da minha tese de doutorado – “O futebol profissional e o processo de formação de grupo” – defendida recentemente na Universidade de São Paulo (USP) e, portanto, minhas considerações se encontram sustentadas pelo estudo realizado.

Ao final da quarta rodada do Campeonato Brasileiro, foi demitido o treinador que há mais tempo estava no cargo dentre os clubes da série A. O agora ex-treinador do Santos Futebol Clube, deixou o comando da equipe após 189 jogos, 111 vitórias, 34 empates e 44 derrotas, obtendo, portanto, 65% de aproveitamento dos pontos disputados. Mais do que isso, vale ressaltar que o treinador conquistou nesta passagem pelo clube o título do Campeonato Paulista de 2016 e atualmente obteve a classificação, em primeiro lugar do grupo, na Copa Libertadores, e o acesso às quartas de final da Copa do Brasil. A título de curiosidade, o campeão brasileiro em 2016 obteve 70% dos pontos disputados e o vice-campeão, justamente a equipe comanda por Dorival Junior, o Santos Futebol Clube, conquistou 62% dos pontos, aproveitamento inferior ao obtido neste ano até o momento da sua demissão.

Poucas semanas atrás, foi também demitido o treinador Eduardo Batista com uma campanha, em 23 jogos no comando da equipe palmeirense, de 66,6% de aproveitamento com 14 vitórias. Penso também que o treinador Rogério Ceni, se não representasse o que representa para o clube e torcida, já teria sido demitido após as três recentes eliminações. Mas afinal, quais são as justificativas para demissão dos treinadores no futebol profissional?

Em entrevista à mídia esportiva, o atual presidente do Santos disse que precisava “balançar a roseira”, dar uma mexida no grupo. Em minha tese, após seis meses de observação e onze horas de entrevistas transcritas obtidas em investigação em três clubes profissionais do futebol brasileiro (séries A, B e C), constatei que além da ausência de resultados positivos/vitórias (apontado como maior motivo para as demissões), também foram mencionados como justificativa: a cultura do futebol brasileiro, que não dá o devido tempo para que as comissões técnicas desenvolvam seus trabalhos; a pressão sofrida pela torcida e mídia para que se realize a troca; o ambiente ruim entre jogadores e treinador e, consequentemente, a perda de comando/liderança por parte deste último.

Por que, afinal, pretende-se “balançar a roseira”, mexer o grupo? Espera-se com isso motivar o grupo de atletas a treinar e jogar mais, e melhor. Entretanto, ainda que não desconsidere o aumento da motivação em alguns casos, sobretudo dos atletas que não desempenhavam o papel esperado (de titular, destaque, de importância) na equipe, tal mudança provavelmente promoverá uma desorganização no funcionamento grupal, desequilibrando aquilo que já é conhecido e está conservado, fazendo emergir, mais do que a motivação, as ansiedades básicas relacionadas à aprendizagem: medo da perda e medo do ataque. Ou seja, o medo de perder a titularidade, o espaço (simbólico, inclusive) dentro do clube e equipe ou até o contrato de trabalho, bem como o medo de perder suas defesas diante do que virá pela frente e de não estar preparado para enfrentar esse desconhecido – um método de treino e esquema tático, por exemplo – trazendo ao grupo sentimento de insegurança, hesitação e insegurança para lidar com o novo.

Mesmo que a ausência de resultados positivos seja tida como a grande vilã no que se refere à demissão de treinadores, a relação entre elas – a troca de comissão técnica e produtividade – não pode ser estabelecida em condições de causa e efeito. Ainda assim, no entendimento de grande parte dos profissionais que pude entrevistar/conversar, essa relação se mostrou negativa, pois possivelmente impedirá a concretude do sentimento de pertencimento, prejudicará a comunicação entre os membros do grupo, bem como a elaboração do Esquema Conceitual Referencial e Operativo grupal – conceito trazido por Pichon-Rivière (2005) que, na leitura coloquial do futebol brasileiro, pode ser entendido como a “filosofia” -, cristalizará o desempenho e mobilidade dos papeis e promoverá a estereotipia da tarefa e aprendizagem.

Estou querendo com este texto afirmar que em hipótese alguma deve-se realizar a troca de treinador? Não! Mas espero com essas palavras esclarecer que os motivos para a troca de comissão devem extrapolar a relação direta e imediatista com o resultado. Conflitos são inerentes a qualquer relacionamento grupal e as mudanças, como geradoras de ansiedade, devem ser realizadas com cuidado e após muita reflexão e elaboração psíquica por parte do grupo.

*Rafael Moreno Castellani é doutor em psicologia social pela Universidade de São Paulo.

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Maria, Maria

Quais monumentos públicos, prédios, estruturas urbanas que homenageiam uma mulher?

Possivelmente você deve ter se lembrado de um prédio residencial, da sede de algum hospital… mas para por ai! São raras as mulheres que dão nome a viadutos, por exemplo. Trânsito, símbolo da masculinidade contemporânea. E de um prédio administrativo de um time de futebol? Nem pensar!

Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre. Recentemente a torcida anticapitalista Resistência Azul Popular lançou uma chamada no Facebook para um ato: reivindicariam a mudança de nome da Sede Administrativa do Cruzeiro Esporte Clube para Dona Salomé, torcedora símbolo do time, velha conhecida dos frequentadores assíduos do Mineirão.

A proposta pode parecer singela, mas, se vamos ser inteiramente honestos, para quem vive o futebol não é surpreendente que no meio boleiro haja resistência ou mesmo aversão ao nome, pura e simplesmente por ser substantivo feminino, essa dose mais forte e lenta de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta.

Logo surgiram as previsíveis reações na rede e, de forma geral, cruzeirenses se perguntavam o que os atleticanos diriam da torcida como um todo. Destaque-se: torcida esta que já carrega a pecha de “maria” em Minas Gerais, ofensa grave, que insinua atributos femininos ou afeminados ao lado azul do estado. Ao menos é este o conceito que se pode inferir da resposta cruzeirense, “franga” ou “gaylo”.

O embate pela defesa da masculinidade dos clubes seria, lamentavelmente, mais do mesmo, mas o episódio tem algo mais assustador, mais violento.

Explicamos:

O edifício no qual sugeriu-se a homenagem a Salomé, ostenta, atualmente, em letras garrafais de aço escovado, o nome Sede Administrativa Zezé Perrella. Sim, o senador.

Existe a possibilidade de que o ex-presidente e conselheiro do clube esteja envolvido em negócios escusos de grandeza internacional, a imagem do clube é vinculada às denúncias ao senador em horário nobre para todo o país ver, e o nome de Zezé continua não incomodando.

Seu retorno não é desejável, as notícias podem prejudicar a imagem do clube, nem declarações sobre o Cruzeiro se quer da boca de Zezé: por quê então o seu nome é uma opção tão natural e pacífica para a Sede, enquanto que Salomé causa alvoroço na opinião pública? Mas é preciso ter força. O que há de tão depreciativo na homenagem a ponto de que alguns prefiram ser associados a meia tonelada de pasta base de cocaína, a serem associados à torcedora?

A resposta, se é que é possível apontar para alguma, passa também pela compreensão do símbolo da mulher a quem se pretendeu homenagear. Dos atributos possivelmente relacionados a Zezé, vamos aos de Salomé.

Maria Salomé da Silva,  83 anos, traz no corpo a marca, Maria, Maria, mistura a dor e a alegria de quem deixou a labuta na lavoura em Bom Despacho para morar na capital mineira e se apaixonou pelo Cruzeiro. Ela gosta de contar que desde a inauguração do Mineirão, em 1965, esteve ausente de apenas 18 partidas. Figurinha batida no estádio, dona Salomé também se destaca pelo otimismo e fé inabaláveis. Sua autoridade é reconhecida e respeitada pelas organizadas e avulsos.

Aliás, falando em organizada, Dona Salomé circula no meio, viaja com as torcidas e acompanha aos jogos fora com frequência. É preciso ter graça: há relatos folclóricos de suas viagens e suas raposas de pelúcia, todas batizadas com nomes de jogadores. Somadas à cabeleira da torcedora, o look é sempre glamouroso e requisitado para fotos.

Mas, à parte de seu estrelato-torcedor, Salomé também é apenas uma de nós. O amor de Salomé pelo clube é o amor desinteressado da grande massa, na expressão de uma mulher que frequenta sozinha o estádio há mais de 50 anos.

Polêmicas recentes à parte, a torcida cruzeirense é, no fim das contas, muito mais Salomé do que Zezé. As notícias correntes só deveriam reforçar essa identidade. Resta saber se a reação exagerada por parte dos internautas se dá pelo menosprezo do feminino enquanto protagonista no futebol; ou, ainda, se no imaginário da torcida sedes administrativas não são lugar para o torcedor comum.

É difícil argumentar o contrário quando, na prática, não são mesmo. São poucas as mulheres no administrativo do clube, menos ainda atletas (apenas na modalidade de atletismo). Mas enquanto as mudanças não ocorrem nas instituições, não é demais lembrar que o fundamento do clube é a torcida, essa que possui a estranha mania de ter fé na vida. Essa torcida tem raça e amor e é composta por muitas mulheres e gays, como todas as outras torcidas.

Nesse sentido, ter vergonha de ser Maria, ainda mais em tempos de Zezé, é ter vergonha de si mesmo! Se essa correlação é tão difícil de se fazer, sinal do distanciamento do clube para com a torcedora, e do torcedor consigo mesmo.

Já há muito passou da hora de se poder ser maria com orgulho, dentro e fora do estádio!

Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!

Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!

Lá Lá Lá Lerererê Lerererê

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Gestão do padrão semanal

Se uma equipe de futebol é uma organização brotada pela interação dos diversos companheiros de equipe, o padrão semanal das atividades deve desenvolver processos, sinergias e retroalimentações funcionais-dinâmicas harmônicas ao estado dos jogadores, da equipe, ao último jogo e ao próximo jogo.

A funcionalidade arredondada desse intercâmbio gera um estado de equilíbrio semanal, uma lógica que leva todo compêndio de conteúdos para o terreno de jogo. O papel da comissão técnica (treinador, auxiliar e preparador físico) é simplesmente facilitar, dinamizar e controlar corretamente esse processo sem exacerbar demasiadamente alguns aspectos.

E nesse processo, diferentes metodologias advindas de escolas distintas servem como referência para estruturar essa lógica semanal. Algumas com um conteúdo riquíssimo, algumas com conteúdos mais modernos, outras mais tradicionais, e algumas criadas pela mescla dessas tendências, mas todas válidas e utilizadas.

Nesse texto, o preceito da questão vai além de definir essas macro-preferências, que claro, deliberam uma identidade metodológica de cada comissão técnica, mas sim identificar um plano mais pormenorizado, ou seja, em como operacionalizar os detalhes gerais e específicos que ajudam a cimentar a equipe a ter possibilidades maiores de êxito com a correta gestão semanal dessas particularidades.

Além disso, cada equipe é formada por jogadores diferentes que condicionam planos de ação distintos em cada realidade e possíveis adaptações. Identificar isso é importante.

Também no futebol existem diferentes níveis competitivos e, mesmo no futebol formativo, nas categorias de base, o desenvolvimento do trabalho deve respeitar uma organização. No futebol formativo o ensaio-erro pode ser maior, e através do desenvolvimento semanal pode-se ir determinando o que vai bem ou o que não vai bem com maior facilidade. Alguns experimentos também podem ser realizados avaliando com maior paciência a lógica semanal. Isso enriquece o processo e a comissão técnica.

Fortalecendo essa tese com um caráter pedagógico, o preparador físico da equipe sub-15 do Palmeiras, Cyro Bueno, fala de preceitos importantes para a correta gestão do padrão semanal:

Primeiramente temos que saber que o futebol é uma modalidade essencialmente tática, o que nos faz pensar na enorme complexidade que cada decisão tomada trará do ponto de vista cognitivo. Num olhar ao viés físico, o mesmo acontecerá. Portanto, o padrão semanal deve estar atento às demandas comportamentais e físicas. 

Para correlacionar esses aspectos, devemos respeitar uma metodologia e um modelo de jogo criado e, estar sempre em consonância com o princípio da curva de supercompensação e sua adaptabilidade em semanas com um ou mais jogos. Seguir um padrão semanal dentro do processo de treino pode parecer utópico, mas não é tanto, desde que o contexto esteja fundamentalmente sustentado sob evidências e, o ambiente, rico de concepções claras, práticas e eficazes. 

E claro, independentemente da metodologia preconizada para conduzir o processo, e são muitas, o formato semanal deve levar em consideração alguns aspectos gerais que podem influenciar sua estrutura:

– O conteúdo das sessões de treino e a magnitude das cargas mentais e fisiológicas (estas sempre correlacionadas) aplicadas. Inevitavelmente, a carga interna de uma sessão afetará nas possibilidades seguintes para o decorrer da semana. Por isso, o padrão semanal muitas vezes não será padrão, mas de uma forma ou outra, deve ser o norte balizador organizacional;

– O processo ‘’estímulo-recuperação’’. Para que estejamos do ponto de vista orgânico funcionalmente aptos para as atividades, a alternância horizontal das cargas de treinamento e descanso devem estar adequadas. Além disso, deve-se respeitar as respostas individuais de cada atleta aos estímulos;

– A disposição dos conteúdos semanais na formatação geral do trabalho da equipe. Mesmo que muitas vezes seja impossível antecipar os cenários e as variáveis que inevitavelmente virão ao longo do ano, deve-se estar atento aos períodos das diferentes competições e a distribuição das cargas de treinamento.

Acredito que com uma correta gestão desses aspectos, relacionados com outros pormenores, conseguimos conduzir o processo semanal da melhor forma possível, deixando a equipe em condições ótimas para jogar o jogo, com seu maior patamar cognitivo e físico, dentro do modelo preconizado e nas adversidades que o adversário provoca. 

Já o preparador físico da equipe sub-17 da Chapecoense, Jardel Zamberlan, fala sobre o desenvolvimento de um processo mais específico:

Desenvolvemos um padrão semanal que considera as formas de fadiga. Com a correta gestão disso, conseguimos treinar corrigindo os erros cometidos pela equipe no último jogo, e ao mesmo tempo criar adaptabilidade através da análise do próximo adversário, do que não fizemos bem no jogo passado, tentando arrastar o mínimo de cansaço para o próximo jogo. 

A alternância de tempo, distâncias percorridas e recuperação nos exercícios, nos possibilita treinar controlando a fadiga periférica (física). No geral, muitas vezes o padrão semanal é pensado apenas no viés físico, negligenciando assim a fadiga central (cognitiva). Esta possui um peso muito grande quando projetamos nossa semana de trabalho.

No padrão semanal que acreditamos, o jogador deve tomar muitas decisões em alguns dias específicos da semana com trabalhos que envolvam interações intersetorais e coletivas, e também ao mesmo, em outros dias, com trabalhos de velocidade de execução (principalmente em treinos que antecedam o jogo), fazendo com que o jogador chegue à partida com um “frescor”, que o fará agir e tomar melhores decisões, de forma mais rápida, devido ao desgaste central menor.

Nosso padrão se estrutura a partir de jogos apenas nos sábados. Como quarta-feira é o dia mais distante dos jogos, treinamos com as maiores distâncias de campo e maior número de jogadores. Sendo assim a fadiga (tanto periférica como central) é similar a que terá no jogo, já que as medidas do campo e a quantidade de interações com os jogadores são parecidas. Apesar de treinarmos com a intensidade máxima relativa sempre, a segunda e terça ainda tem um caráter recuperativo, pois ainda arrasta o cansaço do último jogo. Do mesmo modo que a quinta e sexta-feira trabalhamos como uma pré-ativação para o próximo jogo, delimitando conteúdos menores, conseguindo ter aquisição, deixando os jogadores aptos para ter um desempenho máximo ou próximo do ideal no jogo. Sendo assim, essa lógica se repete semanalmente, tendo em conta a distribuição dos conteúdos em cada dia, a evolução individual dos jogadores e da equipe. 

A responsabilidade de uma comissão técnica é criar uma lógica semanal sabendo primeiramente da realidade do contexto. Isso abarca saber do clube, dos jogadores, da equipe, da categoria, para depois gerir corretamente múltiplos fatores que instituem a semana. Essa sensibilidade vai propor a comissão, no contexto que tiver, um plano adaptável para as diferentes realidades, criando pontos chaves contextuais, mesclados com a organização semanal pretendida, que vai além de chavões, métodos ou fatos prontos. Por isso, um padrão semanal balizado por uma metodologia nunca vai elevar uma equipe ao seu máximo potencial se não for aberto, funcional e prático.

Abraços e até a próxima quarta!

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A Liga do Campeão

A final da Champions League realizada no último sábado em Cardiff, capital do País de Gales, trouxe elementos que engrandecem ainda mais esse que é o maior torneio entre clubes de futebol realizado no mundo. Dentro de campo, o Real Madrid levantou a taça pela 12º vez, consolidando a sua supremacia no continente e aumentando a sua já larga vantagem para os demais clubes. Enquanto isso, a Juventus terminou novamente como vice campeã, chegando pela 7ª vez em segundo colocado e ficando com o gosto amargo de quem quase chegou lá. Se o Real Madrid é o maior campeão, a Juve é a maior vice.

A cada ano, a organização do evento torna-se cada vez mais atraente e garante um espetáculo ainda mais agradável aos seus fãs, tanto aos que viajam para assistir a grande final, como também para quem acompanha de longe pela televisão e internet. Todo o ciclo envolvendo os pilares de marketing funcionam de forma harmônica, com os elementos se retroalimentando.

A audiência estimada de pessoas que assistiram ao jogo chega a 350 milhões de pessoas espalhadas por mais de 200 países. Em termos de comparação com o Super Bowl, trata-se do triplo de quantidade de pessoas ligadas durante a realização da partida. Sem dúvida, excluindo a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, é o maior evento esportivo do mundo. Com uma diferença crucial: esses dois eventos globais ocorrem uma vez a cada quatro anos, enquanto a Champions League acontece todo ano, durante 9 meses entre fases de classificação e finais.

Para a cidade que sedia a final, também é uma oportunidade de gerar receita para a economia local. Cardiff foi a cidade escolhida para a final desse ano. A pequena cidade com cerca de 320 mil habitantes, recebeu mais de 150 mil torcedores vindos da Espanha, Itália e de muitos outros países que viajaram para assistir ao jogo dentro do estádio ou simplesmente para sentir a atmosfera e aproveitar outras atividades proporcionadas pelo evento. Entre serviços e produtos consumidos, acredita-se que os valores movimentados tenham ultrapassado 50 milhões de euros.

Um ponto-chave para a expansão da Champions League são os excelentes cases de patrocínio que ocorrem a cada novo ano. A Heineken hoje possui uma plataforma de patrocínio tão especial e aclamada por conta de ativações realizadas nessa última década. Muitos começaram a seguir o seu caminho, criando ativações junto aos fãs com base em planejamentos detalhados e criativos, explorando a paixão que o futebol transmite e tornando o seu alcance exponencialmente maior na era das redes sociais.

Além da própria Heineken, ações de outros patrocinadores como Pepsi, Nissan e Lay´s geraram engajamento que ultrapassa muito as fronteiras do continente europeu.

A Lay’s, batata oficial da Champions League, realizou até mesmo uma ativação envolvendo Brasil e Argentina, reforçando o quanto esse evento é cada vez mais global. A ação buscou mostrar o quanto o futebol e, especialmente a Champions League, pode unir pessoas de diferentes culturas e nacionalidades que tem em comum a paixão por esse esporte. Vale a pena assistir ao vídeo:

A Pepsi, também dentro da mesma lógica de contar casos individuais que representam o sentimento de milhares, criou uma ação chamada “Troca de Memórias”, onde torcedores anônimos brasileiros eram entrevistados para falar de algum ingresso que guardaram de jogo memorável que foram assistir. A proposta era ver quais aceitariam trocar esse ingresso histórico pela chance de ganhar um ingresso para a final da Champions League. Porém, havia uma pegadinha e, ao invés de contar o final, compartilho o vídeo da ação:

A qualidade e a capacidade da UEFA em trazer algo de novo para cada nova temporada de seu principal produto é a prova do quanto é possível aliar a emoção do esporte com a razão dos negócios. Nesse caso, todos estão sagrando-se campeões.