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A fim de atacar melhor

É de conhecimento de todos que existem diferenças muito significativas entre a marcação/defesa zonal e a marcação/defesa individual. Se na primeira temos como grande referência-alvo de marcação os espaços considerados valiosos, na segunda temos a movimentação dos adversários. Porém, sem muito embasamento teórico para isso, tem-se uma “impressão geral” que defesa zonal é uma forma passiva de marcação, o que não concordo. Além de não ser, este tipo de marcação te dá a possibilidade de atacar melhor. Estar em permanente equilíbrio posicional te traduz na ocupação cuidada e inteligente dos espaços no ataque, no sentido de permitir uma reação rápida e eficaz à perda ou ganho da posse de bola. Trata-se de assegurar a permanente gestão coletiva do espaço e do tempo no jogo, com vista ao domínio dos momentos de transição ofensiva.

De acordo com isso, levanto uma questão: se na defesa individual a movimentação do opositor é a grande referência defensiva de posicionamento e marcação, como fechar os espaços quando os adversários estão em constante movimentação, principalmente abrindo no campo para receber a bola no espaço ou para abrir a defesa (procuram ocupar os corredores e dar profundidade e amplitude ao jogo)?

Na resposta, estão as ideias basilares da “marcação/defesa zonal”, uma vez que a grande preocupação é “fechar como equipe” os espaços de jogo mais valiosos, o mesmo não podemos dizer da “defesa individual”, pois as referências defensivas são individuais e os espaços são subvalorizados. Ou seja, caracterizando-se essa forma de organização defensiva por uma soma de ações individuais com referências à movimentação dos oponentes (o tal “jogo dos pares” onde a equipe procura “encaixar” no adversário).

Alguns autores citam que joga-se melhor ofensivamente contra equipes que façam “marcação individual”, na medida em que isso nos permite levar os jogadores rivais para zonas que nos interessam e assim criar espaços livres. Afirmam também que, com essa forma de organização defensiva, estamos a dar uma vantagem à equipe adversária, pois em vez de sermos nós a oferecermos e bloquearmos os espaços, é o adversário que usa o espaço da forma que quiser, ou pelo menos tem a sua disposição essa possibilidade.

Neste aspecto uma excelente vantagem da defesa a zona, é a manipulação defensiva do oponente (aqui algumas pessoas falam sobre “jogar no erro do adversário”, ou pelo menos se explicam assim). Neste tipo de marcação a preocupação é o espaço a ser ocupado e não a movimentação dos atletas adversários. Espaço que podemos controlar sem a bola, ou seja, podemos influenciar aquele que está com ela e aquele que irá recebê-la, assim o é, pois temos o controle do espaço, do território a ser ocupado, ou pelo menos podemos tê-lo.

Quando estamos a defender, temos que, quem tem a bola, mais quer o espaço para progredir. E quem defende deve gerir/reduzir/tirar esse espaço. Porém, ás vezes, é melhor dar determinado espaço para que possamos atrair o adversário, para que ele vá aonde queremos que ele vá. O que pretendo exemplificar com o exemplo abaixo (percebe-se claramente que o adversário oferece a linha de passe e induz o portador a passar a bola. Com isso intercepta-se o passe e retoma a posse de bola):

Manipular é a palavra-chave de defender bem, e todas as equipes de alto nível sabem e o fazem constantemente. O atleta que está fazendo a cobertura defensiva daquele que está realizando a pressão ao adversário com a posse; ou uma cobertura ofensiva sobre aquele que está fazendo cobertura defensiva daquele que está fazendo a pressão, pode oferecer uma linha de passe ao adversário, mas uma linha de passe que ele sabe que tem a total condição de interceptar a trajetória da bola, e obtê-la com o menor “custo energético”.

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Sinceridade

Há duas imagens especialmente emblemáticas de Neymar na decisão do torneio de futebol masculino dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. O dono da camisa 10 e da faixa de capitão da seleção brasileira anotou um gol de falta no empate por 1 a 1 com a Alemanha e executou com perfeição a cobrança que definiu a vitória de seu time por 5 a 4 nas cobranças de pênaltis, mas não são essas as cenas mais relevantes que ele protagonizou no Maracanã. Os feitos do jogador em campo podem dizer muito sobre seu repertório técnico, mas a faixa usada na comemoração e uma discussão com um torcedor revelam traços de personalidade muito mais densos.

Neymar tem 24 anos. É pai, é jogador de seleção há pelo menos seis temporadas e já esteve entre os três melhores do mundo em eleição realizada pela Fifa. Defende o Barcelona, clube que está entre os maiores faturamentos do planeta, e representa marcas que igualmente se encaixam entre as mais poderosas do mundo. É um dos rostos de empresas como Nike, Ambev, Procter & Gamble, Panasonic e Unilever. O comportamento dele representa muito mais do que atitudes individuais.

Por tudo isso, é injusto avaliar as ações de Neymar como se ele fosse qualquer outra pessoa de 24 anos. Neymar não é apenas um moleque ou apenas um homem imaturo. É alguém que carrega enorme responsabilidade – e que é muito bem pago por isso, diga-se. Muitas apostas de empresas e instituições estão alicerçadas na imagem do atacante.

Quando foi comemorar o maior título que ele já conquistou com a seleção brasileira, contudo, Neymar ignorou todo esse repertório. Colocou na cabeça uma faixa com a inscrição “100% Jesus” e ficou com o adereço durante toda a festa no Maracanã. Toda personalidade – e toda pessoa, aliás – tem direito de ter suas crenças e professá-las como achar mais conveniente. A discussão aqui não é sobre liberdade religiosa, mas sobre representatividade: quando está ali, Neymar não é apenas um indivíduo; representa os ideais e os valores de marcas e instituições que apostaram nele. E nem todas essas marcas são 100% Jesus.

A religião, porém, foi apenas uma das facetas de Neymar após o ouro olímpico. A outra foi uma discussão acalorada com um torcedor na saída de campo. Exaltado, o atacante ofendeu e ameaçou alguém que estava na arquibancada do Maracanã. Ao contrário dos palavrões ditos pelo camisa 10, os motivos para isso não ficaram claros.

Neymar não é obrigado a ser uma personalidade laica. Tampouco assumiu compromisso de ouvir calado os impropérios de todo mundo e de reagir com sorrisos a todo tipo de provocação. Neymar é humano, e como humano ele pode ter reações individualistas e desconectadas do contexto.

Nesse aspecto, o grande problema é a falta de sinceridade. Não é por acaso que uma série de bad boys do esporte “vende” melhor do que o principal jogador da seleção brasileira. A questão aqui é que a blindagem de clubes, instituições e marcas em torno do jogador cria uma imagem de que ele está evoluindo ou de que existe da parte dele um compromisso com os fãs.

Neymar é hoje o principal garoto-propaganda do esporte brasileiro. Ainda assim, também tem um nível de rejeição assustador para alguém com tantas conquistas em tão pouco tempo de carreira. E essas restrições à imagem do atacante têm relação direta com a falta de sinceridade na comunicação.

Ninguém é obrigado a ser uma personalidade modelo ou cumprir todos os pontos da cartilha de um porta-voz ideal. Ninguém é obrigado a pensar em contexto, pesar cada atitude e fazer as coisas de acordo com valores das marcas que representa. O problema, no caso de Neymar, é passar uma falsa impressão disso.

Seria muito mais genuíno se Neymar assumisse os problemas de personalidade e se comportasse como alguém moldado por esses aspectos. Se lidasse melhor com a imagem de alguém falível e evitasse a falsa ideia de que pode ser o líder que tantos cobram dele. Depois dos Jogos Olímpicos, o camisa 10 da seleção deu um importante passo nessa direção ao abdicar da faixa de capitão.

É possível comunicar qualquer tipo de personagem ou marca. É possível obter sucesso com perfis absolutamente dicotômicos, desde que exista sinceridade na transmissão dessas mensagens. Neymar tem uma série de virtudes, mas ainda precisa de maturidade para admitir esses traços de personalidade. As frustrações sobre Neymar são quase sempre resultantes de expectativas que não são condizentes com o que ele realmente apresenta.

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“Seja mais político”

Esta é uma expressão/conselho que provavelmente você já ouviu (direcionada ou não a você) no ambiente do futebol. Para dar sequência ao texto solicito, primeiramente, um breve exercício:

Registre, como e onde quiser, 10 palavras ou expressões associadas à política e/ou aos políticos brasileiros.

Peço, em seguida, uma reflexão:

Como você se sentiria se a imagem que o mercado do futebol tem sobre você fosse composta por todas essas palavras/expressões ou, ao menos, por boa parte delas?

O mesmo exercício proposto a você foi feito também com alguns companheiros de profissão. Corrupção, injustiça, desonestidade e malandragem foram termos comuns mencionados por eles.

A coluna desta semana pretende trazer alguns apontamentos sobre a conduta e a convivência no complexo ambiente do futebol, repletas de relações e interações humanas em todos os seus níveis.

Da comunicação com a comissão técnica e jogadores, ao posicionamento perante à diretoria, o profissional do futebol está sujeito à situações que deve expor sua opinião e/ou tomar decisões que evidenciam sua personalidade e a forma com que lida com os problemas do cotidiano.

Para tentar deixar mais tangíveis as reflexões, proponho, agora, mais um exercício. Peço que imagine, de acordo com a sua função (exercida ou almejada) qual seria sua conduta em cada um dos problemas hipotéticos listados a seguir:

  • Um dos principais jogadores do time, vinculado a um grande empresário, tem apresentado um comportamento individualista e egoísta
  • A diretoria quer intervir no seu programa de treinamento
  • Um membro da sua comissão técnica tem se dedicado menos do que o ideal em sua opinião
  • No clube, tem surgido algumas fofocas/conversas em relação a sua pessoa e as suas atitudes
  • Você discorda de um posicionamento da diretoria
  • Lhe oferecem uma boa quantia em dinheiro para a aprovação de um jogador no elenco
  • Você quer se manter no cargo e percebe que para isso precisa bajular algumas pessoas

Para quem está no dia-a-dia do futebol, seguramente, já deve ter vivenciado situações semelhantes ou, inclusive, mais complexas que as supracitadas. Também seguramente, suas respostas a estes problemas devem ter seguido seus princípios e valores. É momento, então, para outra reflexão: sua conduta segue o ritmo/status quo das pessoas e do ambiente que você está inserido ou você tenta, de alguma forma, transformá-los?

A transformação (propósito da Universidade do Futebol) é uma palavra com imenso significado para os contextos político e futebolístico atuais. Ela não vem, no entanto, sem estar somada às altas doses de debates, divergências, conflitos, trocas de conhecimento e opiniões.

Por isso, mais do que direcionarmos o foco das mudanças nas coisas (nos métodos, nas estruturas, nas competições ou nas instituições), deveríamos direcioná-lo às pessoas, principais responsáveis pela transformação da política, do futebol ou de qualquer outro produto da sociedade.

E quando a imagem predominante da política brasileira for marcada por expressões como transparência, revolução, oportunidade, competência, honestidade, crescimento, desenvolvimento, coragem, igualdade e justiça, indubitavelmente será prudente, para sua conduta no futebol (e na vida), seguir o conselho como o do título do texto.

Abraços e até a próxima!

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"Seja mais político"

Esta é uma expressão/conselho que provavelmente você já ouviu (direcionada ou não a você) no ambiente do futebol. Para dar sequência ao texto solicito, primeiramente, um breve exercício:
Registre, como e onde quiser, 10 palavras ou expressões associadas à política e/ou aos políticos brasileiros.
Peço, em seguida, uma reflexão:
Como você se sentiria se a imagem que o mercado do futebol tem sobre você fosse composta por todas essas palavras/expressões ou, ao menos, por boa parte delas?
O mesmo exercício proposto a você foi feito também com alguns companheiros de profissão. Corrupção, injustiça, desonestidade e malandragem foram termos comuns mencionados por eles.
A coluna desta semana pretende trazer alguns apontamentos sobre a conduta e a convivência no complexo ambiente do futebol, repletas de relações e interações humanas em todos os seus níveis.
Da comunicação com a comissão técnica e jogadores, ao posicionamento perante à diretoria, o profissional do futebol está sujeito à situações que deve expor sua opinião e/ou tomar decisões que evidenciam sua personalidade e a forma com que lida com os problemas do cotidiano.
Para tentar deixar mais tangíveis as reflexões, proponho, agora, mais um exercício. Peço que imagine, de acordo com a sua função (exercida ou almejada) qual seria sua conduta em cada um dos problemas hipotéticos listados a seguir:

  • Um dos principais jogadores do time, vinculado a um grande empresário, tem apresentado um comportamento individualista e egoísta
  • A diretoria quer intervir no seu programa de treinamento
  • Um membro da sua comissão técnica tem se dedicado menos do que o ideal em sua opinião
  • No clube, tem surgido algumas fofocas/conversas em relação a sua pessoa e as suas atitudes
  • Você discorda de um posicionamento da diretoria
  • Lhe oferecem uma boa quantia em dinheiro para a aprovação de um jogador no elenco
  • Você quer se manter no cargo e percebe que para isso precisa bajular algumas pessoas

Para quem está no dia-a-dia do futebol, seguramente, já deve ter vivenciado situações semelhantes ou, inclusive, mais complexas que as supracitadas. Também seguramente, suas respostas a estes problemas devem ter seguido seus princípios e valores. É momento, então, para outra reflexão: sua conduta segue o ritmo/status quo das pessoas e do ambiente que você está inserido ou você tenta, de alguma forma, transformá-los?
A transformação (propósito da Universidade do Futebol) é uma palavra com imenso significado para os contextos político e futebolístico atuais. Ela não vem, no entanto, sem estar somada às altas doses de debates, divergências, conflitos, trocas de conhecimento e opiniões.
Por isso, mais do que direcionarmos o foco das mudanças nas coisas (nos métodos, nas estruturas, nas competições ou nas instituições), deveríamos direcioná-lo às pessoas, principais responsáveis pela transformação da política, do futebol ou de qualquer outro produto da sociedade.
E quando a imagem predominante da política brasileira for marcada por expressões como transparência, revolução, oportunidade, competência, honestidade, crescimento, desenvolvimento, coragem, igualdade e justiça, indubitavelmente será prudente, para sua conduta no futebol (e na vida), seguir o conselho como o do título do texto.
Abraços e até a próxima!

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Rogério Micale

Há uma década, mais ou menos, um pensar novo começou a atuar efetivamente no futebol brasileiro. A porta de entrada das boas ideais foram principalmente as Categorias de Base dos nossos clubes.

Frequentada por uma geração de profissionais curiosos e pesquisadores, uma avalanche de conhecimentos invadiu a formação de talentos e a ciência da construção do jogo no futebol brasileiro. Há pelo menos vinte anos o mundo respira novas formas de conceber o treinamento e as táticas no futebol. No Brasil, foi principalmente a “meninada da Base” quem correu atrás!

Como os setores de formação dos clubes brasileiros são sempre mal falados, o futebol dos adultos ficou meio distante deste novo pensar. Não raro, achamos aqui no Brasil que o talento nasce pronto e os formadores são quem os “estragam”. Por isso também os departamentos de Base e Profissional ficam de costas um para o outro em seu modo de gerir o projeto futebol nos clubes. Infelizmente, ainda continua assim em grande parte deles. São raríssimas as exceções!

Só se fala em Categorias de Base no Brasil quando mais um jovem craque desponta em nossa vitrine. Mesmo assim, valorizando somente o talento e não considerando a bagagem de trabalho realizada para que o craque chegasse àquele ponto.

E o Rogério Micale? Onde ele se encontra nesta reflexão? Afinal de contas é o personagem principal do nosso post.

Pois bem, o professor Micale se mostra ao Brasil e ao mundo como grande representante da nova, já bem experiente, geração de treinadores e formadores do talento nacional brasileiro. Rogério Micale com seus dez a quinze anos de treinador de categorias de base, saiu do seu “humilde espaço” para contribuir nobremente com a conquista brasileira do ouro Olímpico do futebol. Eu sempre digo, que quando quero aprender algo diferente e moderno no futebol me recorro à “garotada da Base”, treinadores e outros profissionais. Não me arrependo nunca!

Para mim, Rogério Micale é a prova inequívoca que o futebol de Base brasileiro é competente e uma grande escola formadora de profissionais. Nem pareceu que ele nunca tinha sido treinador de equipes adultas. Conduziu com sabedoria a grande missão que lhe foi atribuída. Seu perfil de treinador faz parte da nova geração que poderá representar a virada em campo dos “7X1” que nos incomoda!

Não serei injusto com os “coroas”, treinadores brasileiros mais experientes, que também abraçaram essa linha de pensamento e trabalho que concebe o futebol moderno.

Tite talvez seja o mais destacado representante desse grupo seleto de treinadores do nosso mercado. Não parou no tempo e não se conteve a uma visitinha ao território europeu como “estágio profissional”. Fez um ano de profundos estudos para argumentar seu inovador método de trabalho. Além disso, ele sabe, assim como os profissionais da base, que a literatura moderna está ao alcance de todos, e pelo que percebemos, mostra ser um assíduo degustador desse saber.

Rodrigo Leitão disse certa vez: não é preciso atravessar o Atlântico para saber como o Barcelona joga e/ou constrói a sua forma de jogar. Jorge Sampaoli construiu um Chile rico em conceitos táticos modernos, praticamente sem sair da América do Sul.

As ideias e a fala do professor Tite são sempre compatíveis à qualidade de jogo das suas equipes. Para o bem do futebol brasileiro, tomara que o novo treinador da Seleção Canarinho consiga bons resultados para fazer valer a importância desses pensamentos que povoam a nossa escola.

Outros nomes importantes da nova geração, além de Micale e Tite, merecem ser citados: Róger Machado, João Burse, Eduardo Baptista, Enderson Moreira, Osmar Loss, Adilson Batista, Fernando Diniz, José Ricardo, Paulo de Castro, Sandro Fórner, Lucas Macorin, Leo Condé, Rodrigo Leitão, Felipe Surian, Gustavo Silva, Diogo Giacomini, Max Sandro, Maurício Barbieri, Carlos Amadeu, Paulo Autuori, Jorginho, Doriva, Marquinho Santos, Ney Franco, Dado Cavalcanti, Bruno Pivetti, Ricardo Gomes…, dentre outros.

A maioria deles com passagens pela Base em seus currículos. Estes profissionais, acompanhados de todas as necessidades subjacentes à construção do jogo moderno, são e/ou serão grandes protagonistas do alavancar do futebol brasileiro nos próximos anos. Me desculpem outros nomes que fazem parte desse grupo especial e que não deixam de ser tão importantes por não terem sido citados neste espaço.

Aos leitores que não conhecem o passado dos treinadores que mencionei, não há distinção entre eles quanto à formação que tiveram. Temos ex-atletas e acadêmicos, todos com ótimos perfis para o mercado do futebol moderno. A competência é que deve regular a trajetória destes profissionais, assim como acontece em todas as profissões. Uma coisa é certa: a maioria deles, senão todos, passaram ou estão passando pelos cursos de formação de treinadores da CBF. Será que o Brasil está se encontrando em uma nova fórmula de reimplantar Escola Brasileira de Futebol?

Parabéns aos amigos da comissão técnica que participaram competentemente da conquista do ouro Olímpico, especialmente ao Rogério Micale, um grande comandante! Parabéns aos jogadores que neste torneio já jogaram um jogo brasileiro parecido às necessidades do futebol moderno! E isso sem perder traços importantes da escola brasileira. Estamos no caminho!

Forte abraço e até breve…

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Entrevistas

Luiz Gustavo dos Santos – Preparador Físico da Seleção Brasileira de Paracanoagem

A Paracanoagem é a modalidade paralímpica da Canoagem, sendo uma das novidades nos Jogos Paralímpicos do Rio-2016. Semelhante as disputas da canoagem Olímpica, as embarcações podem receber adaptações de acordo com a deficiência dos atletas. Os barcos que são utilizados nas provas são os caiaques, representados pela letra K, e as canoas, pela letra V.

As provas têm um percurso de 200 metros de extensão em linha reta, podendo ser disputada por homem e mulher, individualmente ou por ambos em um barco misto. Os atletas com deficiências físico-motoras competem na paracanoagem.

Em 2010, em Poznan, na Polônia, aconteceu o primeiro mundial de paracanoagem, disputado por atletas de 31 países. A partir desse ano, o mundial passou a ser disputado anualmente.

Com mestrado em Atividade Física Adaptada pela FEF/UNICAMP, Luiz Gustavo Teixera Fabricio dos Santos, atualmente fisiologista do Centro de Treinamento de Paracanoagem (CTP), começou sua carreira na Faculdade Educação Física da Unicamp (FEF), em 2008, e no ano seguinte integrou o projeto de Rugby em Cadeira de Rodas. Durante esse tempo passou a frequentar os campeonatos do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

Em 2011, assumiu a equipe de Esgrima em cadeira de rodas, na Unicamp, onde ficou até 2013.  Com a vivência com o paradesporto e a experiência com o Rugby e a Esgrima em cadeira de rodas, Luiz Gustavo, chegou ao CTP para contribuir com o crescimento da modalidade no país.

Confira a seguir a entrevista concedida pelo Preparador Físico da Seleção Brasileira de Paracanoagem à Universidade do Futebol.

Universidade do Futebol – Na Canoagem existem vários tipos de modalidades. Na paracanoagem também é assim? Quais são as principais diferenças entre essas modalidades?

Luiz Gustavo – A Paracanoagem é a modalidade paralímpica da Canoagem. Dentro dela há divisões entre canoas e caiaques e provas com distâncias diferentes (200 e 500 metros). Mas, sempre dentro da mesma modalidade.

Universidade do Futebol – Os atletas da paracanoagem podem utilizar adaptações tanto para a segurança ou para melhorar o desempenho. Quais tipos de adaptações são permitidas e quais suas funções?

Luiz Gustavo – Sim, eles podem. Os principais são o banco para os atletas que tem  lesão da medula espinhal, a fixação do leme, para quem não tem acometimento dos membros inferiores, além da largura do barco, que é maior, já que há comprometimento do tronco. Essas adaptações são importantes para que o atleta se sinta pertencente ao barco, aplicando melhor a força sem dissipar energia.

Universidade do Futebol – Como são realizados os treinos e a preparação física dos atletas para as competições?

Luiz Gustavo – Existe a parte específica de água e a neuromuscular. Uma equipe multidisciplinar formada por diversos profissionais da saúde traça um plano de treinamento de acordo com o objetivo firmado para o atleta. Logo, há casos específicos de acordo com cada organismo ou resultado pretendido. Alguns exercícios são específicos para a modalidade, como a remada unilateral com remo e tração.

Universidade do Futebol – Os atletas possuem algum acompanhamento psicológico?

Luiz Gustavo – Sim. Atualmente o sistema funciona de forma individual e a profissional atende de acordo com as demandas dos atletas. Também existe o objetivo de orientá-los antes das competições para que o acompanhamento psicológico colabore para o desempenho do atleta assim como os treinos e a preparação física.

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Universidade do Futebol – A Paracanoagem possui três classes funcionais: LTA, Classe TA e Classe A. Em quais dessas classes a seleção possui representante e quais são as diferenças e similaridades entre elas?

Luiz Gustavo – Em 2015 essas classes mudaram de nomenclatura, passando para L1, L2 e L3, subdivindido-as entre canoa (VL1, VL2 e VL3) e caiaque (KL1, KL2 e KL3).

A Grosso modo na L1 estão os atletas que utilizam somente os braços na remada, já na L2 braços e tronco auxiliam no desempenho e, na L3, braços, tronco e pernas ajudam na movimentação do barco. Isso varia de acordo com a deficiência de cada atleta.

Para os Jogos Paralímpicos Rio 2016, a Seleção Brasileira de Paracanoagem conta com representantes homens nas três classes e mulheres na KL2 e KL3. O Brasil conquistou cinco das seis vagas disponíveis e é um dos países a levar mais atletas na modalidade. Nesta competição não há provas de canoa, somente de caiaque.

Universidade do Futebol – Quais são os principais objetivos e benefícios da Paracanoagem para os atletas com deficiência?

Luiz Gustavo – É importante que o atleta se sinta integrado e que a Paracanoagem o faça sentir em pé de igualdade com competidores da modalidade olímpica. Que a deficiência não seja a principal característica, e sim o desempenho de alto rendimento de um atleta paralímpico. Além disso, o contato com a natureza e a integração das provas de Paracanoagem e Canoagem nos campeonatos Brasileiro e Mundial auxiliam nesse trabalho de equidade. E claro, não podemos esquecer os benefícios ao condicionamento físico.

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Universidade do Futebol – Como ocorre a seleção dos atletas que representarão o Brasil nas Paralimpíadas? Quantos são e quem são?

Luiz Gustavo – Todos os anos o projeto da Equipe Permanente de Paracanoagem lança um Plano de Trabalho que rege os objetivos da modalidade, a seleção de atletas para as competições internacionais, controles nacionais e critérios para composição da Equipe Permanente.

A definição dos atletas para compor a delegação participante dos eventos internacionais é determinada pelo Comitê de Seleção da CBCa, com base nas provas indicadas no boletim de competição (como o Campeonato Mundial de Paracanoagem) e de acordo com as metas estabelecidas. Entre os critérios de seleção estão a análise histórica do atleta, levando em consideração a evolução técnica nos controles seletivos, eventos nacionais e internacionais. Essa análise será confrontada com os índices internacionais, levando em consideração as metas estabelecidas no Plano de Trabalho.

Para os Jogos Paralímpicos Rio 2016 a Paracanoagem conta com cinco atletas, sendo eles: Luis Carlos Cardoso (KL1), Igor Tofalini (KL2), Caio Ribeiro (KL3), Debora Benevides (KL2) e Mari Santilli (KL3).

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Universidade do Futebol – Quais são os principais campeonatos da Paracanoagem?

Luiz Gustavo – Nacionais são a Copa Brasil e o Campeonato Brasileiro de Paracanoagem. Já no âmbito internacional, estão o Campeonatos Mundial, Sul-americano e Pan-americano de Paracanoagem. Além dos Jogos Parapan-americanos.

Universidade do Futebol – A primeira participação da Paracanoagem será nos Jogos do Rio de Janeiro. Quais são as expectativas para o evento e quais são as chances de medalhas para o Brasil?

Luiz Gustavo – Neste ciclo paralímpico a modalidade desempenhou um grande trabalho em busca de bons resultados e ao longo das últimas competições internacionais pudemos ter uma avaliação positiva, vide a conquista de cinco das seis vagas disponíveis para os Jogos Paralímpicos Rio 2016. O Brasil é um potência paralímpica e queremos fazer parte disso. Estimamos, pelo menos, três medalhas, mas os nomes serão descobertos pela torcida  durante a competição para aumentar a expectativa até lá.

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Especialistas provocam reflexões no futebol: ‘precisamos de mudança’

Gestão e futebol devem andar de mãos dadas. Esta foi a mensagem passada a quem estava presente no auditório do Museu do Futebol, em São Paulo, durante o evento de abertura do curso Gestão Técnica no Futebol, nesta última terça-feira.

Com o intuito de trocar conhecimentos e ajudar no desenvolvimento do esporte mais praticado pelos brasileiros, especialistas discutiram sobre temas relevantes como a formação de jogadores e a transição base-profissional, assim como os principais desafios da gestão esportiva no Brasil. Para eles, a profissionalização de todos os setores em um clube é essencial para desenvolver uma conduta diferenciada no futebol brasileiro:

– A mudança tem que vir de dentro dos próprios clubes, quando um presidente assumir que não tem capacidade técnica para administrar um clube. Não adianta contratar um CEO, porque isso é uma certa doença do Brasil. Enquanto um presidente não admitir que ele não entende de tudo, de marketing, de jurídico, de RH, de gestão, nada vai mudar – afirmou Amir Somoggi, especialista em marketing e gestão esportiva, complementando:

– O Barcelona, por exemplo, gasta 27 milhões de euros com gestão e tem uma estrutura profissional em todas as áreas. Está certo que o Barcelona é uma referência, mas por que nós não podemos fazer o mesmo? A Espanha é um país latino e tem os mesmos defeitos que a gente. O poder que o executivo e o legislativo têm para fazer leis e criar uma mudança estrutural pode acontecer. Precisamos de mudanças – finalizou.

O professor João Paulo Medida, fundador da Universidade do Futebol, que ministra o curso, foi o responsável por conduzir a reunião. O encontro ainda contou com outros grandes profissionais como Agustín Peraita Serra, coordenador da Escola Barcelona em São Paulo, Rodrigo Leitão, coordenador das categorias de base da Ponte Preta e Marcelo Lima, gerente do Ituano.

André Mazzuco, diretor de futebol do Red Bull Brasil, José Francisco Manssur, vice-presidente de comunicação e marketing do São Paulo, e Cícero Souza, gente de futebol do Palmeiras, também estiveram presentes e deram suas visões sobre o cenário do futebol no Brasil e no mundo.

O curso terá duração de quatro meses e será conduzido através de uma plataforma online. O volante Elias, do Corinthians, e o goleiro Fernando Prass, do Palmeiras, estão entre os alunos matriculados.

Captura de Tela 2016-08-24 às 17.11.37

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Especialistas provocam reflexões no futebol: 'precisamos de mudança'

Gestão e futebol devem andar de mãos dadas. Esta foi a mensagem passada a quem estava presente no auditório do Museu do Futebol, em São Paulo, durante o evento de abertura do curso Gestão Técnica no Futebol, nesta última terça-feira.

Com o intuito de trocar conhecimentos e ajudar no desenvolvimento do esporte mais praticado pelos brasileiros, especialistas discutiram sobre temas relevantes como a formação de jogadores e a transição base-profissional, assim como os principais desafios da gestão esportiva no Brasil. Para eles, a profissionalização de todos os setores em um clube é essencial para desenvolver uma conduta diferenciada no futebol brasileiro:

– A mudança tem que vir de dentro dos próprios clubes, quando um presidente assumir que não tem capacidade técnica para administrar um clube. Não adianta contratar um CEO, porque isso é uma certa doença do Brasil. Enquanto um presidente não admitir que ele não entende de tudo, de marketing, de jurídico, de RH, de gestão, nada vai mudar – afirmou Amir Somoggi, especialista em marketing e gestão esportiva, complementando:

– O Barcelona, por exemplo, gasta 27 milhões de euros com gestão e tem uma estrutura profissional em todas as áreas. Está certo que o Barcelona é uma referência, mas por que nós não podemos fazer o mesmo? A Espanha é um país latino e tem os mesmos defeitos que a gente. O poder que o executivo e o legislativo têm para fazer leis e criar uma mudança estrutural pode acontecer. Precisamos de mudanças – finalizou.

O professor João Paulo Medida, fundador da Universidade do Futebol, que ministra o curso, foi o responsável por conduzir a reunião. O encontro ainda contou com outros grandes profissionais como Agustín Peraita Serra, coordenador da Escola Barcelona em São Paulo, Rodrigo Leitão, coordenador das categorias de base da Ponte Preta e Marcelo Lima, gerente do Ituano.

André Mazzuco, diretor de futebol do Red Bull Brasil, José Francisco Manssur, vice-presidente de comunicação e marketing do São Paulo, e Cícero Souza, gente de futebol do Palmeiras, também estiveram presentes e deram suas visões sobre o cenário do futebol no Brasil e no mundo.

O curso terá duração de quatro meses e será conduzido através de uma plataforma online. O volante Elias, do Corinthians, e o goleiro Fernando Prass, do Palmeiras, estão entre os alunos matriculados.

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Da estratégia ao comportamento, da posição a função

Como relatei na coluna anterior, fazendo uma análise superficial dos sistemas estratégicos, na estreia da Premier League (13/08), das 20 equipes: 7 no 1-4-3-3 (Chelsea, West Ham, Liverpool, Bournemouth, Man.City, Swansea, Hull City), 6 no 1-4-2-3-1 (Arsenal, Man.United, Cristal P., Tottenham, Middlebrough, Stoke), 4 no 1-4-4-2, 2 linhas (Sunderland, Burnley, Bromwich e Leicester), 1 no 1-3-4-3 (Everton), 1 no 1-4-3-1-2, losango (Southampton) e 1 no 1-3-5-2 (Watford).

Comumente tem se falado que o Sistema Estratégico de uma equipe de futebol não diz como ela vai se comportar em campo. O que não concordo inteiramente! Penso que isso seria um conclusão errada, também simplista, da forma como enxergamos e de como tratamos o Sistema Estratégico no futebol (uma forma geométrica de ocupar o espaço de jogo, o problema que esquecemos das variáveis tempo, velocidade e adversário).

Esta simples e superficial análise demonstra (“superficialmente”) que o jogo nos aspectos físicos (principalmente, por enquanto) e técnico (talvez, de um “jeito” raso) vai cada vez mais ficar semelhante, ou pelo menos, várias equipes tendem a usar o mesmo “caminho” durante o jogo. Ao meu ponto de vista, o Sistema Estratégico, influencia determinado comportamento em determinada posição em campo: fechar a linha, cobertura defensiva, largura/profundidade, fechamento de espaço vertical/horizontal, etc. (Ps: estes exemplos partem do pressuposto de pensarmos de uma forma mais sistêmica do que linear (coletiva e não individual / racional e não energética/emocional).

O Sistema Estratégico se caracteriza por ser um precursor, um ponto inicial, de tudo que envolve o comportamento da equipe. Um ponto de partida para os comportamentos que idealizam e caracterizam a equipe. Comportamentos estes, colocados pelo treinador, que por sua vez precisa verificar a validade e a eficácia destes a partir da posição dos atletas em campo. Corroborando com isso, se torna necessário identificar as valências do atleta antes de coloca-lo em determinada posição em campo. Neste mesmo sentido, temos a diferenciação entre posição e função, determinado jogador com determinadas características (pode) ocupa(r) uma determinada posição, que prioritariamente não é a “dele”.

Sistema Estratégico é um facilitador, ou um “prejudicador” do processo. Não nos diz tudo que vai acontecer, mas nos diz alguma coisa. Se pretendemos determinado comportamento, temos que ter em mente que certo posicionamento em campo vai te ajudar a alcançar este objetivo, como também, determinada condição técnica e física do jogador. Sendo uma forma geométrica (uma disposição em campo) cada atleta, em cada posição, deve cumprir determinados requisitos tático/técnicos (função) a fim de se cumprir “bem” certas ações inerentes a posição dele no estabelecido sistema estratégico. Penso que devemos entender que cada Sistema, independente de qual seja (1-4-4-2, 1-3-5-2, etc.), tem sua virtudes e falhas estruturais intrínsecas, desde o nível mais baixo de rendimento ao mais alto. O que pretendo mostrar no vídeo abaixo:

Não podemos (não deveríamos) seguir e “adotar” determinados “princípios” (comportamentais ou não) somente por serem “belos e atraentes” (moda), ou pior, por terem dado “certo” (aqui podemos relembrar a coluna que falei sobre “o real valor da vitoria”). Este é um exemplo crasso das padronizações das ideias sobre o futebol. Se todos pensarmos as mesmas coisas sobre o jogo, treino, etc, jogaremos da mesma maneira. Podemos colocar aqui a equivocada interpretação dos tais “princípios”. A minha preocupação em demonstrar isto, está na padronização de uma determinada forma de jogar (“negativa” ou “positiva”).

Ao meu ver o que devemos olhar e observar é como tem-se evoluído o processo para se chegar em determinado lugar (ideia envolvida). Não simplesmente adotar uma estratégia (posição) ou tática (função), somente por ter dado “certo”. O porque determinada equipe/pessoa de TOP faz aquilo que faz? Pensar mais no processo do que no resultado. Devemos evoluir mais no treino cognitivo, na tomada de decisão, no pensar sobre o fazer, na leitura e interpretação do treino/jogo, na relação direta e indireta com o adversário. Pensar de uma forma mais aberta as relações das variáveis entre si. Ter uma organização de jogo mais complexa, do que rígida. Observar o jogo de uma forma original, eleger e criar os próprios exercícios e levar em conta a personalidade dos atletas, a cultura do clube e as expectativas. Assim criar uma forma de jogo própria.

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A necessidade de resiliência do futebol brasileiro

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças. ”

Leon C. Megginson

Olá!

Em minha primeira coluna “Crise Técnica do Futebol Brasileiro” busquei instigar os leitores a refletirem sobre o atual momento do nosso futebol, aproveitando a recorrente ideia de que “não possuímos mais tão bons jogadores como antigamente”, presente na maioria das discussões sobre o futebol brasileiro dos dias de hoje. A participação dos leitores tanto no site da Universidade do Futebol, como em sua página no Facebook, foi muito bacana, e a maioria dos comentários levam à conclusão de que nosso futebol necessita de mudanças em toda a sua estrutura.

Nestes tempos em que os Jogos Olímpicos têm dominado todas as mídias, me deparei com um vídeo muito interessante. Este apresentava a diferença entre as competições de ginástica da década de 1950 para a Olímpiada do Rio de Janeiro 2016.

Segue o vídeo:

A diferença entre a ginástica praticada há mais de 60 anos para a atual é gigante! Ao longo dos anos a modalidade foi ganhando mais dinâmica, novos movimentos, novos métodos de treino, etc. Tudo conduziu para a modalidade se tornar o que é hoje, e a tendência é que ela continue se modificando…

Motivado por esse vídeo, decidi fazer o mesmo com o futebol, porém em um espaço de tempo de 20 anos. Para isso, resolvi assistir às finais das Copas de 1970, de 1990 e de 2010 para buscar identificar as mudanças mais visíveis na modalidade.

Seguem os vídeos:

1970


1990

2010

Ficam visíveis algumas diferenças no modo de jogo em cada um deles.

1970

1990

2010

Fase Ofensiva

Pouca mobilidade; troca lenta de passes (a bola quase fica parada); as equipes atacam com poucos jogadores no último terço do campo.

Maior mobilidade; troca de passes mais rápida; maior quantidade de jogadores chegando ao último terço de campo.

Grande mobilidade, principalmente no campo ofensivo; troca rápida de passes; praticamente todos os jogadores entrando no segundo e último terço de campo; utilização dos goleiros como opção de passe.

Fase Defensiva

Quase não se exerce pressão sobre o portador da bola até o último terço do campo (exceto nos atacantes); referências predominantemente individuais; os atacantes praticamente não participam desta fase do jogo.

Aumento de pressão sobre o portador da bola já no segundo terço de campo; há um misto maior entre referências individuais e zonas de marcação, os jogadores do ataque dão maior contribuição nesta fase do jogo; utilização do líbero.

Pressão constante e em todo o campo ao portador da bola; referências zonais de marcação bem definidas; todos os jogadores contribuem ativamente nesta fase do jogo; goleiros realizam coberturas constantemente.

Transições

São mais lentas e quase não há tentativas de recuperação imediata da posse de bola ou no campo ofensivo.

Já são mais rápidas tanto para atacar quanto para defender; mas ainda predominando a intenção de impedir que o adversário progrida imediatamente ao seu gol.

Muito rápidas tanto para atacar quanto para defender; já com uma intenção maior de recuperar imediatamente a posse da bola.

Além destes aspectos, destaco também:

  • Em 1970 são raras as marcações de impedimento, mais comuns em 1990 e 2010.
  • O contato físico entre os jogadores aumenta bastante em 1990 e 2010.
  • Os jogadores de defesa utilizam-se bastante da vantagem de poder recuar a bola, com os pés, para o goleiro pegar com as mãos em 1970 e 1990.
  • A distância entre as linhas das equipes, tanto para atacar quanto para defender, é muito grande em 1970, menor em 1990 e diminui muito em 2010. Os jogadores passam a estar mais próximos e as equipes mais compactas.
  • O jogo de hoje exige maior versatilidade dos jogadores.
  • As situações de 1×1 são menos constantes em 2010 do que em 1990 e 1970.

Uma análise mais profunda e detalhada poderia identificar outras inúmeras diferenças. Destaco estas por serem de mais simples visualização a partir dos vídeos e ficarem bem claras a qualquer um. Um dado interessante que se pode verificar em estudos científicos e na base de dados do site da FIFA, reforçando a crescente dinâmica do jogo, é o aumento da distância média percorrida pelos atletas e pelas equipes, o tempo efetivo de jogo (bola rolando) e a quantidade de passes trocados.

A intenção aqui não é julgar valor, não é dizer que o jogo de hoje ou de ontem é melhor, mas sim entender que o jogo mudou e continua mudando, este é o fato que não se pode negar. Sendo assim, estando o jogo em constante mutação, aqueles que não souberem acompanhar e se adaptar a estas mudanças, terão grandes dificuldades em se manter competitivos, aí entra a necessidade de resiliência do futebol brasileiro que mencionei no título desta coluna.

Ser resiliente não significa perder sua essência, suas raízes, mas entender como é a melhor forma de otimizar suas características no cenário atual. Acredito que nosso futebol tem sido pouco resiliente, tem sido resistente à muitas mudanças que ocorreram no futebol, principalmente no que tange a métodos de treinamento, capacitação profissional e gestão esportiva. O Brasil não acompanhou com a mesma velocidade estas mudanças no jogo, mas felizmente ainda é tempo, ainda possuímos matéria prima suficiente para sermos extremamente competitivos e vitoriosos e, como alguns leitores comentaram, não é simplesmente copiando o que se faz lá fora, mas entendendo e adaptando as nossas demandas, as nossas necessidades e capacidades. Isso é o que nossos adversários fizeram e continuam fazendo. O Brasil não pode ficar estagnado na ideia de que vivemos uma “crise técnica”, todo brasileiro aprecia um jogo plástico, com refino técnico, e esse jogo é possível de ser praticado!

Se desejamos continuar a ostentar a alcunha de “País do Futebol”, precisamos acompanhar e nos adaptar às mudanças do esporte e, para isso, não é necessário perdermos nossa essência, a qual esteve ao longo dos anos e ainda continua presente desde a Champions League até o famoso dez minutos ou dois gols.

Final de 1970 – http://www.dailymotion.com/video/x1ht8qc_fifa-world-cup-1970-final-brazil-vs-italy-full-match_sport
Final de 1990 – http://www.dailymotion.com/video/x1jo4iu_fifa-world-cup-1990-final-deutschland-argentinien-full-match_sport?GK_FACEBOOK_OG_HTML5=1
Final de 2010 – http://www.dailymotion.com/video/x2i3y2a_2010-fifa-world-cup-final-netherlands-vs-spain_sport