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Análise do Jogo: Brasil 2-0 Sérvia

https://vimeo.com/277646322

Confira a análise dos gols da partida (o vídeo acima contém imagens da emissora Mediaset e FIFA)

 
O último jogo da seleção brasileira na fase de grupos seguiu a tendência dos anteriores: defensivamente sofreu poucos sustos, neutralizando os pontos fortes do adversário e ofensivamente criou várias chances de gol (seja em ataque organizado, contra ataque e bola parada), frente à uma seleção que precisava vencer para ir às oitavas de final.
Não foi um jogo de domínio avassalador como contra a Costa Rica, de ataque contra defesa. No primeiro tempo houve uma leve vantagem na posse de bola a favor do Brasil (58%) e mais chances reais de gol para os brasileiros. No segundo tempo, a seleção sérvia cresceu e principalmente com jogadas de fundo e cruzamentos, encurralou o Brasil por cerca de 10 minutos, fazendo Alisson trabalhar pela primeira vez na Copa do Mundo.
A substituição de Tite, colocando Fernandinho no lugar de Paulinho aliado ao 2º gol de Thiago Silva, fez com que o panorama do jogo mudasse completamente, com a Sérvia perdendo força e capacidade para agredir um Brasil melhor postado e mais intenso defensivamente. Assim, após o 2º gol, o Brasil dominou completamente o adversário, não sofreu riscos e poderia ter marcado o terceiro gol.
Atacando as costas da Sérvia:
 

A seleção sérvia marcou posicionada no sistema 4-4-1-1, dando a Ljajic a tarefa de fechar as linhas de passe pelo meio (mantendo posicionamento por trás do centroavante) e, quando necessário, se somar ao Mitrovićpara fazer uma pressão mais adiantada num 4-4-2.
Embora tenha adiantado sua marcação para apertar a saída de bola do Brasil nos tiros de meta, o padrão de marcação foi um bloco médio, pressionando a seleção a partir de sua intermediária, com boa compactação, protegendo seu espaço entre-linhas, mas deixando espaços nas costas da defesa, artigo de luxo nesta Copa do Mundo para as grandes seleções.
Os espaços que deixava nas costas de sua linha defensiva passaram a ser um problema, especialmente quando os meias e atacantes não conseguiam exercer uma boa pressão no homem da bola e a linha de trás permanecia alta.
Diante deste cenário, o Brasil passou a lançar a bola neste espaço, com os atacantes movimentando, “fazendo o facão” e pedindo a bola no ponto futuro.
O primeiro gol do jogo aconteceu desta forma, mas poderia ter surgido em três ocasiões similares: duas com Paulinho e uma com Gabriel Jesus, conforme mostra o vídeo abaixo.

Para ler a análise na íntegra, clique aqui.

 

 
 

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Entre a FIFA e o mundo na Rússia

Bem-vindos ao fechamento do nosso especial Copa do Mundo” aqui no “Entre o Direito e o Esporte”. Nessa última coluna do mês de junho aqui na Universidade do Futebol vamos conversar sobre o que o torcedor pode e não pode fazer nos estádios da Copa do Mundo FIFA®de 2018 na Rússia. Ou seja, vamos dar uma olhada juntos no “Código de Conduta para os Estádios” lá do outro lado do mundo.
E, para deixar tudo em ordem antes de começar, já deixo aqui a linha do nosso dia de hoje: vamos começar com o que é e para que serve esse “Código de Conduta”; depois vamos ver o que os torcedores não podem levar ao estádio; e vamos dar uma olhada em algumas coisas que os torcedores não podem fazer nos estádios. A regra geral aqui vai ser sempre a mesma: o que o torcedor pode fazer em um estádio na Rússia.
Bora lá?
Afinal, o que é mais esse código? O “Código de Conduta para os Estádios” serve como um guia para o torcedor na Copa do Mundo FIFA®de 2018 na Rússia. Lá o torcedor vai achar seus direitos e suas obrigações– em inglês. E todo torcedor que vai ao estádio assistir a uma partida reconhece que leu (mesmo quando não leu), que entendeu (mesmo quando não entendeu), e que aceitou (mesmo quando não aceitou) as regras e condições que estão nesse código.
Em outras palavras, o torcedor tem que seguir e saber todo esse manual antes, durante e depois de um jogo de Copa do Mundo. E aí a gente vai achar um pouco de tudo. E nesse “um pouco de tudo” vamos começar pelo começo. Ou seja, como os torcedores entram em um estádio lá na Rússia.
O checklist do torcedor tem que incluir um jeito de ir para o estádio (se vai precisar de estacionamento lá ou não), uma hora para chegar no estádio, quais documentos precisa levar e o que não pode levar. O torcedor pode entrar no estádio até 3 horas antes do início da partida e no estacionamento do estádio até 4 horas antes da bola rolar. Até aí, tranquilo!
Uma vez lá, se parou no estacionamento precisa dos documentos do veículo (moto, carro, charrete…) e passar por revista pessoal e do veículo. Agora, se foi de transporte público ou a pé direto para o estádio, vai precisar passar pela revista pessoal também (e por outros “procedimentos de segurança necessários” – aqueles detectores de metal e por aí vai). De qualquer jeito, o torcedor precisar ter em mãos o seu ingresso e a sua Fan-ID.
Basicamente isso aqui:

Divulgação: FIFA e Fan-ID

 
Agora, é só ter isso e pronto? Quase lá, amigo! Nessa revista pessoal tem algumas coisas que o torcedor não pode levar para dentro dos estádios russos. A regra geral do que não pode levar é simples: “qualquer coisa que possa ofender ou coloque outra pessoa em perigo – torcedor ou não.
Beleza, na prática, o que o torcedor não pode levar lá para dentro do estádio? A lista é gigantesca (sério), então vou trazer alguns exemplos que vão do óbvio (como sinalizadores e drones) até o mais curioso (pau de selfie e bicicletas). Que tal? Aliás, e para facilitar, vou deixar em fotos de dentro desses estádios durante os jogos da Copa do Mundo FIFA®o que a gente não pode (aham) levar (piscadinha).
Os torcedores não podem levar “instrumentos musicais que produzam sons altos”
Divulgação: Flickr Lucas Figueiredo/CBF)

 
Os torcedores não podem levar “nenhum tipo de roupa ou acessório que cubra o rosto”
Divulgação: Instagram oficial da Copa do Mundo FIFA de 2018 na Rússia

Os torcedores não podem levar “materiais de protesto”
Divulgação: Associated Press via Indian Express

 
É nos estádios da Copa do Mundo FIFA®de 2018 na Rússia que a gente vê os efeitos desse “Código de Conduta”, onde um monte de coisa que faz parte do nosso dia a dia de futebol deixa de fazer parte (pelo menos de maneira “oficial”) do espetáculo. Faz parte do jogo um guia obrigatório para o torcedor, agora nem tudo que está lá deveria ficar fora desse espetáculo!
Ainda mais quando a gente vê em um mesmo lugar uma explosão de cores, línguas, e culturas diferentes que são a base do nosso futebol. Essa diversidade de todos num mesmo lugar em harmonia. Essa diversidade que é onde a gente aprende lições para trazer para casa depois. Essa diversidade de lições que dão bons exemplos a todos, como nesses dois jogos da primeira rodada dessa Copa do Mundo:
Divulgação: ChinaSmack via Says e TyC Sports via Daily Times

 
Essas “boas ações” que poderiam se tornar cotidiano no nosso futebol são exemplos do que o torcedor pode fazer durante o campeonato mundial organizado pela FIFA, que nem sentar no local demarcado no ingresso e não jogar objetos em campo, em outros torcedores, e no banco de reserva – coisas que não vemos por aqui, né?
Aliás, entre as “obrigações” do torcedor dentro dos estádios da Copa do Mundo FIFA®de 2018 na Rússia está a máxima confirmada pelas fotos da torcida do Japão e do Senegal: “tratar todos os torcedores e demais participantes do evento com respeito”, e não só as pessoas como as coisas (a mochila do amigo do lado, as cadeiras do estádio e a toalete).
Essa ideia de respeito e de harmonia dentro dessa diversidade que essa competição mundial traz para as nossas casas de quatro em quatro anos pode ser resumida com algumas fotos dessa Copa do Mundo que resumem esse “Código de Conduta para os Estádios” russos em 2018. E termino o nosso mês de julho com esses três últimos exemplos de respeito e harmonia dentro e fora de campo:
Divulgação: Fonte: Instagram oficial da Copa do Mundo FIFA de 2018 na Rússia

 
Divulgação: Galeria de fotos no site oficial da Copa do Mundo FIFA de 2018 na Rússia

 
Divulgação: Galeria de fotos no site oficial da Copa do Mundo FIFA de 2018 na Rússia

 
Espero que tenham gostado do nosso especial sobre a Copa do Mundo FIFA®de 2018 na Rússia no “Entre o Direito e o Esporte”! Fico por aqui hoje, e nos vemos na próxima sexta-feira para começar um novo mês, o mês das transferências no futebol. Combinado? Deixo meu convite para falarem comigo por aqui, pelo meu LinkedIn ou pelo meu Twitter. Até mais!
 

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Posturas e resultados definitivos em tempos de Copa

Normal os olhos do mundo se voltarem para o futebol em tempos de Copa do Mundo. É claro que vivo essa modalidade doze meses por ano, porque amo e trabalho com isso. Mas me interessa muito ouvir e tentar compreender, em períodos como agora, o olhar de quem não está tão inserido no jogo como eu.
E como já diria o filósofo antigo, o futebol imita a vida. Precisamos de heróis. Culpados. Guerreiros. Vilões. Seja fora ou dentro das quatro linhas. E me chama a atenção como grandes personagens do futebol estão indo do céu ao inferno em questão de minutos nessa Copa. Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo, Tite, o VAR (sim, personificando aqui essa polêmica, mas necessária, situação) são colocados como deuses ou bandidos em um piscar de olhos. O meio termo passa longe. O bom senso nem se fale. O 8 ou 80 prevalece.
Como negar as virtudes futebolísticas de Neymar? Ele é o melhor de nossa geração. Desde os craques do penta em 2002 não tínhamos um jogador como ele. Mas seu comportamento é descabido e infantil em diversos momentos. Quando sente que é o ‘rei do pedaço’ como é na seleção e no PSG (mas não era no Barcelona) ele passa dos limites. Aqui, portanto, não tem em meu ponto de vista um ou ame ou odeie. Tem características. Algumas boas outras nem tanto: é um excelente jogador, que muitas vezes não tem controle emocional.
Messi não tem nenhum grande título com a seleção argentina. Ok. Isso é um fato. Uma constatação. Porém, em nada apaga o que ele fez com a camisa do Barcelona. É o maior jogador que vi jogar em meus 32 anos de vida. Mesmo não tendo grande destaque pela seleção do seu país. Valeria aqui um parenteses gigantesco de como a bagunça do futebol argentino como um todo induz a baixa performance de Messi, mas o ponto aqui deste texto é outro.
Para terminar, vamos falar de Cristiano Ronaldo. Aquele que para muitos é mascarado. Para outros, por outro lado, um exemplo de profissional dedicado.Suas habilidades técnicas e transformação como jogador durante os anos trazendo a tona suas melhores habilidades não entram muito na discussão popular. E sim enumeram quantas vezes ele olha para o telão para checar o penteado.
Entendo a sociedade atual. Muitas vezes percepção é tudo. Só que isso deturpa a realidade. Ou enaltece demais ou derruba vorazmente. Parar e observar com mais profundidade e entender contextos, circunstâncias e ambientes é fundamental. Mas não agora, né?! Afinal, Copa é só de 4 em 4 anos…
 

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Entre o jogo, os sonhos e a procura: uma breve apresentação

Publico estas breves linhas poucas horas antes que os artistas de ofício escrevam a verdadeira história do dia, razão pela qual me contenho. Primeiro, porque não acho que possa disputar com os fatos. Depois, porque não quero fazê-lo.
Mas posso contar uma história: há exatos vinte anos, o último jogo do Brasil na fase de grupos foi contra a Noruega, em Marselha. Aquele foi um dia que começou e terminou triste. O Brasil perdeu – o que é raríssimo na primeira fase. O gol da vitória norueguesa aconteceu em um pênalti aparentemente obsceno, não captado por nenhuma das dezesseis câmeras oficiais, em um tempo distante em que as câmeras eram apenas os olhos dos espectadores ausentes. Horas depois, descobriu-se que elas não veem o essencial.
No fim do jogo, ainda triste, desci para uma espécie de garagem que tínhamos em casa, onde eu me habituei a organizar meus próprios jogos e campeonatos, mesmo que estivesse sozinho. Ali, o resultado podia ser outro. Eu era o atacante e, no encontro entre a bola e a parede, podia ser o defensor: podia ser o Rivaldo ou o Schmeichel, podia ser o Boban ou o Desailly, podia ser o Bergkamp ou o Simeone, podia ser um dos irmãos Laudrup. Podia ser quem eu quisesse! Todos aqueles que vivem o futebol desde a mais tenra idade já se imaginaram em um outro corpo, em um outro lugar, no lugar dos nossos ídolos. O mundo do jogo, afinal, é bastante particular. É uma licença poética do real.
Pois foram exatamente o jogo e os sonhos que me conduziram vida adentro, nos jogos conceituais/contextuais da adolescência e da vida adulta, aos quais todos nós nos sujeitamos. Veja bem: o jogo de futebol é um microcosmo do universo. As leis que regem o cosmos também regem o jogo. A existência dessas leis não significa que podemos conhecê-las. Ao mesmo tempo, elas devem ser procuradas. Mas repare que procurá-las apenas no jogo não basta: é preciso sair do jogo para encontrá-lo!
Foram o jogo, os sonhos e a procura que, um dia, me levaram até à Cidade do Futebol, para onde, virtualmente, me mudei. Mais tarde, ela se tornaria Universidade, o campus oficial de um mundo em nada onírico, mas que fazia minha imaginação tilintar, pois ali o jogo deixou de ser o que era e passou a ser outra coisa. Foi pela Universidade do Futebol que eu, um jovem sonhador, conheci João Paulo Medina, Manuel Sergio, Alcides Scaglia, Rodrigo Azevedo Leitão, Eduardo Barros, conheci muita gente. Conheci as referências em que deveria me apoiar enquanto jogava pelos campos da vida. Ao contrário dos pequenos jogos da infância, agora não me bastava sonhar: era preciso cruzar a fronteira para o real. Afinal, é possível estar perto dos grandes, mesmo que não sejamos como eles.
É por isso que, quando recebi o convite para o espaço que aqui inauguro, me senti como aquela criança, que jogava bola alegremente na infância. A diferença é que, neste caso, me sinto na responsabilidade de continuar uma tradição.
Afinal, de tempos em tempos o futebol clama por novos olhares, pede para ser oxigenado. Como se houvesse jogos dentro do jogo. Neste momento, me parece que o jogo a ser jogado é o jogo do humano. Precisamos discutir sobre o significado da humanização do treino e do jogo, os recursos de que dispomos para fazê-la, os meios de operacionalizá-la dentro e para além do jogo. Antes de recorrermos à máquina, é necessário esgotar as possibilidades do humano.
É o debate que esperamos construir aqui. Juntos, como fazem as boas equipes. Aos poucos, no tempo certo. Em movimento, porque tudo flui e quem ontem sonhava jogar, hoje joga de verdade.
E joga sério. Como deve ser.
 

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Onda Verde (e amarela)

Escrevo esta coluna antes do jogo entre Brasil e Sérvia. Impossível saber o que vai acontecer. O desejo deste colunista é que a seleção brasileira vá até o fim e conquiste a taça. Até lá o caminho é longo e se torna mais difícil. Simultaneamente, a cobertura da Copa pelos veículos de comunicação é incansável e incessante, cada segundo é precioso em busca da atenção de milhões de torcedores. As mais diversas temáticas, análises, questões e levantamentos de polêmicas. Cobertura completa, a abranger todos os níveis dentro de um espectro entre o que há de mais negativo e o que há de mais positivo.

Vamos atentar ao lado positivo. Muito se fala do distanciamento da seleção com o torcedor. Percebe-se pela TV que está havendo uma boa interação – dentro dos padrões de segurança atualmente permitidos – do plantel com os brasileiros que estão na Rússia. Os cânticos originais e que celebram a história do ‘Escrete’. As recepções nos hotéis. O próprio “Canarinho Pistola”. A recente situação de ele ser barrado pelos seguranças de um hotel, em uma representação típica da de um comum torcedor brasileiro, contido por um agente da força pública a pedir para maneirar nas comemorações. Simbolicamente, o mascote da seleção de futebol é mais um “dos nossos”.

“Canarinho Pistola”, o mascote da seleção brasileira. |Foto: Divulgação

 

Que bom que isso está acontecendo. Pena que só agora. Entretanto, há de se reforçar: que bom que está acontecendo! Há muita coisa com que não se concorda, há. Muita coisa que podia ser diferente, sim. Não se deve fechar os olhos a isso. No entanto, ao mesmo tempo, tem vários detalhes e exemplos que têm dado certo no que diz respeito à gestão da seleção brasileira (equipe) e no trabalho dela no âmbito do marketing e comunicação. Criticar sim. Torcer contra ou a favor, também sim. É direito de todos. É perceptível um certo esforço por parte da opinião pública em valorizar os pontos positivos do trabalho da equipe brasileira, e incentivar uma cultura de bom senso, espírito coletivo e otimismo, o que não é nada ruim! Obviamente, sem “fechar os olhos” para o que está errado. Está dentro deste bom senso saber quando posicionar-se em relação aos pontos negativos e também aos positivos.

Aos poucos percebo uma “onda verde e amarela” a ganhar corpo. E a coluna desta semana pode não fazer tanto sentido caso o Brasil perca para a Sérvia ou fique fora da Copa do Mundo. Que ao menos o movimento de bom senso, de cultura coletiva e associativista, positiva e otimista ganhe força dentro da sociedade brasileira.

Com tudo isso, assim como foi em 1958, que a atmosfera da seleção do Brasil possa servir de exemplo ao país, de trabalho executado com profissionalismo e excelência. Desta vez, de que todos juntos, se vai mais longe. Que isso aconteça agora, já no Mundial.

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Os tais “laterais invertidos”

No meu último artigo quando discutimos inovações táticas nas últimas décadas, mencionei o conceito dos laterais invertidos, introduzido por Pep Guadiola nos seus anos de Bayern de Muniche, e agora aperfeiçoado e difundido na sua versão mais recente no Manchester City. Como qualquer inovação, inicialmente questionada, contestada e até ridicularizada, a tática dos laterais invertidos começa a criar adeptos, mesmo deste lado do Atlântico. A Seleção Brasileira nas suas mais recentes apresentações contra Rússia e Alemanha, fez uso da prática, principalmente na primeira partida, onde esse posicionamento ficou bem evidente pela natureza daquele jogo (Brasil dominando a posse de bola na metade do campo adversário). O Palmeiras também, no segundo jogo contra o Santos na semifinal do Campeonato Paulista, posicionou seus laterais fazendo uso da estratégia dos laterais invertidos. Mas o que significa jogar com os laterais invertidos? Quais os benefícios dessa tática? E por que, e em que circunstâncias, uma equipe utilizaria os laterais posicionados dessa maneira? Evidentemente, como em toda e qualquer opção tática, a prática dos laterais invertidos tem que fazer sentido, ser coerente, dentro do modelo de jogo da equipe e das características individuais dos seus jogadores. Partindo-se desse princípio, vamos as suas particularidades.
É preciso estabelecer que quando me refiro a laterais, estou necessariamente assumindo que a equipe utiliza quatro jogadores na sua linha defensiva, os laterais sendo os membros externos dessa linha. A prática dos laterais invertidos se refere a uma formação tática utilizada na parte ofensiva do jogo, ou seja, quando a equipe tem a posse de bola. Essa formação se materializa no segundo e terceiro terços do campo. Em uma formação convencional, os laterais são utilizados abertos, na faixa exterior do campo, próximos a linha lateral, em geral não mais de 10-15 metros de distância dessa linha. Sua função ofensiva é oferecer a sua equipe opções de passes nessa faixa do campo (lateralidade), em algumas situações criando superioridade numérica nos extremos do campo, combinando forças com os pontas ou meias de beirada (um-dois e “overlap”).
Nesse sentido, uma de suas funções básicas é chegar na linha de fundo (ou perto dela) e municiar atacantes, meias e pontas com cruzamentos. Pois bem, jogar com os laterais invertidos significa mudar radicalmente a função ofensiva desses atletas. Nesse diferente “approach” os laterais jogam mais centralizados, a frente dos zagueiros centrais, posicionados a direita e a esquerda do volante. Como consequência desse novo posicionamento dos laterais, os pontas (ou meias de beirada), devem necessariamente se posicionar totalmente abertos, praticamente andando na linha lateral. Afinal a lateralidade é um dos princípios ofensivos do futebol, que sem essa é impraticável na sua fase de construção. Assim é condição indispensável para o bom funcionamento dessa tática que os pontas se mantenham abertos a todo momento. Disciplina na execução dessa função é inegociável. O novo posicionamento dos laterais também afeta os meias, que são projetados a frente, entre as linhas defensivas adversárias, também com mais liberdade para penetrar a última linha defensiva com infiltrações verticais e diagonais, e aproximando-se do centroavante para eventuais combinações.
Assim nessa nova formação a equipe essencialmente ataca com cinco jogadores (1-2-3-5), o que faz da formação estratégia ideal (na teoria) no enfrentamento de equipes com uma linha defensiva com cinco zagueiros/laterais (1-5-4-1). Dai a opção da Seleção Brasileira por essa nova formação, em face das dificuldades encontradas no amistoso anterior contra a Inglaterra (que utilizou uma linha defensiva com cinco jogadores), e antecipando desafios similares na Copa do Mundo (Suíça em particular). Mas quais são os benefícios dessa tática em comparação ao tradicional 1-4-3-3 com laterais posicionados convencionalmente?
Antes de discutir essa questão, é importante deixar claro que a opção de utilizar a tática dos laterais invertidos pressupõe um modelo de jogo de posse de bola e construção de jogadas (“build-up) versus um modelo de transições rápidas em contra-ataque. O “build-up” em geral é lento por natureza, uma vez que na missão de chegar ao gol adversário, as linhas defensivas adversárias precisam ser quebradas, sendo necessário criar espaços dentro delas e entre elas, o que somente pode ser atingido através de uma sequência inteligente de passes. Uma consequência básica desse modelo de jogo é a tendência da equipe adversária de apresentar um posicionamento compacto, com muitos jogadores entre a bola e o gol, e pouco espaço entre as linhas defensivas. Criar e encontrar espaços nessas circunstâncias é uma das tarefas mais difíceis no futebol moderno. A opção por usar os laterais invertidos vem no sentido de facilitar esse processo.
A tática dos laterais invertidos, ao adiantar os meias, tem como um dos seus objetivos fundamentais que esses se posicionem especificamente entre as linhas defensivas do adversário (por menor que seja esse espaço), se movimentando nas costas dos seus volantes, de uma maneira coordenada (isto é, sem que bloqueiem a linha de passe com o centroavante), no intuito de receber a bola em posição privilegiada para então servir o centroavante ou pontas, ou atacar o gol por si mesmos. Esse passe pode ser recebido 1- diretamente do volante, lateral ou zagueiro (ou seja, pré-requisito do sistema é a qualidade técnica e tática apurada dos jogadores nessas posições, o que nem sempre é costumeiro, zagueiros em especial)  2- o passe pode ser feito diretamente ao centroavante que serve o meia entre as linhas (ou atrás da linha defensiva de zagueiros e laterais, como o meia se projetando verticalmente). Por isso, é chave que os movimentos dos meias e centroavantes sejam coordenados e a linha de passe com o último não seja bloqueada pelo primeiro.
O grande benefício de ter os laterais centralizados, os pontas abertos e manter dois jogadores constantemente se movimentando entre as linhas defensivas adversárias é criar um estado permanente de instabilidade nessas linhas. Ao receber a bola nessa faixa do campo (é imprescindível que o meia esteja condicionado a receber a bola posicionando seu corpo de frente para o gol adversário), o meia força o zagueiro adversário a tomar uma decisão, 1- adiantar a marcação para aplicar pressão na bola ou 2- manter sua posição ou recuar em direção ao seu gol para protege-lo. Nas duas situações a defesa se torna vulnerável. Ao aplicar pressão no meia, o zagueiro cria espaço nas suas costas para penetração através do passe vertical ou diagonal, para o centroavante ou um dos pontas. Ao manter sua posição (ou recuar em direção ao seu gol), o zagueiro dá ao meia tempo e espaço para determinar sua próxima ação, seja ela o chute, passe ou condução de bola em direção ao gol (pontas adversários são confrontados com dilema similar – migrar para o meio do campo refletindo o novo posicionamento do lateral adversário ou manter a posição na linha e proteger o meu lateral?).
O meia também tem a opção de se movimentar mais lateralmente entre as linhas, se aproximando dos pontas, criando superioridade numérica naquela zona contra o lateral adversário. Esse movimento vertical dos meias só é possível pela sustentação gerada pelo novo posicionamento dos laterais, mais centralizados ao lado do volante, com essa linha de três jogadores oferecendo suporte constante ao jogador em posse de bola, criando múltiplas alternativas para triangulações, inversões de bola ou simplesmente a manutenção dela (quando a possibilidade de penetração vertical não estiver disponível), uma vez que a presença de cinco jogadores nesse área do campo invariavelmente possibilita superioridade numérica. A tentativa do adversário em se adequar ao “overload” no meio campo resulta no isolamento dos pontas em situações de 1×1, outro grande benefício do sistema. Dada a orientação dessa linha de três, o terceiro grande benefício dos laterais invertidos é um posicionamento estratégico (espacial e numérico) para pressionar a bola de forma imediata ao perde-la no campo adversário, eliminando o contra-ataque na sua origem. Mas deve-se utilizar esse posicionamento alternativo dos laterais em toda e qualquer situação?
Evidentemente a opção de utilizar os laterais em sua posição convencional ou invertidos é uma questão de preferencia pessoal do treinador. Filosoficamente, porém, parece predominar a corrente de que o treinador deve adequar a formação tática a ser utilizada por uma equipe, as características individuais dos seus jogadores, não o contrário (evidentemente no mais alto nível, onde treinadores tem o luxo de selecionar seus jogadores, essa dinâmica é ligeiramente alterada). A concepção do conceito dos laterais invertidos é fruto dessa lógica. Guardiola já expressou sua admiração por laterais com as qualidades técnicas, táticas e principalmente físicas para desempenhar sua função convencional. Porém, no futebol moderno de alta velocidade, para que essas funções sejam cumpridas com excelência no seu todo, o que quer dizer, nas quatro fases do jogo (ataque, transição do ataque para defesa, defesa e transição da defesa para o ataque), o lateral precisa ser um espécime física (naturalmente vem à cabeça a figura de Cafu e Roberto Carlos). Nesse sentido, é farta a oferta de laterais bons no apoio OU bons no aspecto defensivo do jogo. Raro são jogadores que executem as duas funções com primor. Esses jogadores são espécie em extinção, cada vez mais difíceis de serem encontrados. Assim, na ausência de jogadores com essas características, a opção pelos laterais invertidos surgiu como uma alternativa.
Uma vez que a função ofensiva do lateral invertido é simplificada em comparação a sua versão convencional, a grande questão relativa à utilização ou não dessa alternativa tática tem mais a ver com a presença de meias, pontas e centroavante com as qualidades necessárias para criar abundantes possibilidades de penetração. Especificamente, meias com a capacidade de se movimentar entre as linhas , executar o último passe, e se infiltrar na área adversária; pontas com a disciplina tática de manter sua posição aberta, alta capacidade no enfrentamento 1×1 e qualidade no cruzamento; e centroavante com alta capacidade de jogar de costas para o gol adversário (oferecendo a opção de parede ou pivô). Possui realmente a equipe jogadores com essas características específicas? Não sendo o caso, a efetividade do sistema fica absolutamente comprometida. Mencionei que o Palmeiras fez uso dos laterais invertidos no segundo jogo da semifinal do campeonato paulista contra o Santos. Porém, um dos seus meias (Bruno Henrique) não tinha características de meia.
É na verdade um volante com boa capacidade de distribuição e finalização de longa distância, mas não possui a característica de criação, confortabilidade  entre as linhas, rápida movimentação e último passe. Assim, o jogo do Palmeiras não fluiu ofensivamente no segundo tempo. No caso da Seleção Brasileira, que utilizou os laterais invertidos contra a Rússia, as peças utilizadas a frente da linha de três, certamente reuniam as características para que o sistema fluísse bem. Coutinho em particular se destacou, uma vez que preenche perfeitamente os requisitos do meia, e também Paulinho, que apesar de não ser um exímio criador, tem na capacidade de infiltração uma das suas principais qualidades. William, Douglas Costa e Gabriel Jesus foram taticamente brilhantes ao executar suas funções disciplinadamente.
Para finalizar, é fundamental notar que por causa da natureza dinâmica do futebol, os laterais invertidos podem em determinadas situações e circunstâncias de uma partida desempenhar também papel convencional (atacando pelas beiradas), ou ainda pode o treinador optar por um sistema hibrido, onde um dos laterais desempenhe a função invertida enquanto o outro jogue convencionalmente. A nova função ofensiva do lateral invertido, centralizado no seu posicionamento, também cria para o treinador a possibilidade de utilizar um meio campista nessa função, uma vez que a capacidade de distribuição e suporte passam a ser as principais prerrogativas da posição. Guardiola declarou certa vez que gostaria de ter 11 meio-campistas em campo. Será a tática dos laterais invertidos um passo nessa direção???
 
*Paulo Canineu Neto é um dos diretores técnicos da Pennsylvannia West Soccer Association, braço estadual da Federação Americana de Futebol (United States Soccer Federation). Neto é Bacharelado em Educação Física e Gerenciamento Esportivo (Union College) com Mestrado em Administração (Lincoln Memorial University). Neto possui a Licença “A” da USSF e a Licença “A” da UEFA. Antes de mudar para os EUA, Neto jogou profissionalmente pelo EC Sao Bento (Sorocaba) e nas categorias de base de Corinthians (pré-infantil aos aspirantes) e Fluminense (juniores e profissional).

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Análise do Jogo: Brasil 2-0 Costa Rica

Confira a análise dos gols da partida (o vídeo acima contém imagens da emissora FS e FIFA).

 
A seleção brasileira conseguiu impor o seu futebol, dominando a Costa Rica praticamente o jogo todo. Jogou bem e não deixou o rival jogar. Teve volume, criou muitas chances e concedeu raríssimas (Alisson ainda não fez nenhuma defesa difícil na competição).
Como tem sido em quase todos os jogos das grandes seleções nesta Copa do Mundo, o jogo foi nervoso e dramático, gerando alto desgaste emocional. Os gols saíram após muita insistência, somente nos acréscimos do 2º tempo. Embora tenha feito por merecer abrir o placar muito antes, tamanho seu domínio em relação à Costa Rica, a seleção esbarrou numa grande atuação de Keylor Navas e na execução de um plano de jogo muito bem traçado pelo adversário.
Méritos para Oscar Ramirez que entendeu o funcionamento da equipe de Tite e soube neutralizar os pontos fortes do Brasil durante a maior parte do tempo.
Postura e Proposta da Costa Rica:
Diante de uma das melhores equipes do mundo, tanto coletiva como individualmente, a Costa Rica não quis se expor e jogou por uma bola (que teve e desperdiçou, logo aos 12 minutos).
Defendendo num bloco baixo muito compacto, em 5-4-1, deu campo e a bola para o Brasil. Com uma marcação zonal agressiva, sempre com superioridade numérica, coberturas e dobras de marcação, a seleção costarriquenha se aproveitou da pouca agressividade do Brasil em atacar espaços nas costas da sua última linha e acumulou jogadores de maneira muito organizada, negando os espaços à frente da área.

Para ler a análise na íntegra, clique aqui.

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Ocupação (racional!) do espaço de jogo

Sabemos que o domínio do espaço de jogo é algo muito complexo, principalmente aos mais jovens, e um dos principais problemas no processo de formação incide exatamente sobre o espaço que o jogador ocupa no campo no decorrer de um jogo. Inclusive, é muito comum observarmos nos escalões iniciais a tal da aglomeração junto a bola, o que reforça a ideia de que uma das principais funções do treinador/professor é fazer com que o jovem deixe de se preocupar somente com a bola e passe a ter atenção aos companheiros, aos adversários e ao espaço de jogo.
A ocupação do espaço representa uma das orientações fundamentais no processo formativo. Para auxiliar o jovem futebolista a atingir este domínio do espaço, é importante que o jogador tenha total conhecimento das linhas que demarcam o campo, bem como das zonas do campo (setores e corredores) que não possuem marcas reais, mas que servem como referência para uma distribuição coerente dos jogadores.
A linha que demarca o centro do campo nos permite visualizar a divisão do terreno de jogo em duas partes – meio campo defensivo e meio campo ofensivo. O restante da “divisão” do campo ocorre da seguinte maneira:
Três setores (setor defensivo, setor do meio-campo e setor ofensivo) no sentido transversal do campo.

Figura 1. Exemplificação dos setores do campo

 
Três corredores (corredor direito, corredor central e corredor esquerdo) no sentido longitudinal do campo.
Figura 2. Exemplificação dos corredores do campo

 
Percebemos então, que existe uma grande diferença entre jogar futebol e aprender a jogar futebol. Aqui evidenciamos a necessidade de compreender o jogo, de se ajustar ao que ocorre no centro de jogo mesmo estando distante e de perceber o que fazer em função de ter ou não a bola (fase ofensiva ou defensiva). Trata-se do ensino dos princípios de organização coletiva (Princípios Gerais, Princípios Específicos e Princípios Estruturais – ver tabela), ou seja, a parte previsível do jogo, aqueles comportamentos que tendem a ocorrer de forma predominante e que são treinados antecipadamente.
Neste sentido, a exercitação dos princípios específicos do modelo de jogo objetiva o modo como se pretende jogar. Trata-se do ponto de partida essencial e referencial, que estabelece linhas orientadoras e indica o caminho para a resolução das situações de jogo. Este aspecto é fundamental, pois é através dos princípios específicos do modelo de jogo que o treinador organiza os comportamentos da equipe e dos jogadores, promovendo uma forma de interagir e condicionando o modo como solucionarão os problemas do jogo. Por isso, compreende-se que devemos treinar os comportamentos que desejamos que ocorram de forma predominante em cada momento do jogo.
Para além disso, o desenvolvimento desse “modo de jogar” depende também da forma como os jogadores se posicionam no campo de jogo de acordo com a posição 1) da bola, 2) do adversário e 3) dos colegas de equipe. Estamos falando dos princípios estruturais, que servem de referência de posicionamento e configuração do jogo.
Tabela 1. Princípios de organização coletiva

 
Percebe-se então, que a finalidade dos princípios de jogo é dar sentido ao desenvolvimento do processo de ensino/treino, configurando-se como conteúdos centrais na busca de um padrão de comportamentos que evidencie a identidade da equipe.

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Entre a Mídia, o Marketing e a Copa do Mundo

Bem-vindos à nossa quarta coluna do nosso especial Copa do Mundo” aqui no “Entre o Direito e o Esporte” enquanto a gente espera, assiste ou comenta o segundo jogo da nossa seleção canarinho lá do outro lado do mundo – em São Petersburgo na Rússia! Hoje nós vamos conversar sobre o que a gente encontra entre a mídia, o marketing e a Copa do Mundo. Em outras palavras, hoje vamos ver porque o nosso canarinho fica cada vez mais pistola de não poder ir aos estádios com a nossa seleção!

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

 
Para deixar tudo organizado como a gente espera que a nossa seleção esteja em campo, já deixo aqui o nosso passo a passo dessa sexta-feira: vamos começar com o “Regulamento de Marketing e de Mídia” da FIFA e para o que isso aí serve; depois vamos dar uma olhada nos direitos de mídia e de marketing da FIFA e como isso aparece no dia a dia da nossa seleção canarinho; e terminamos essa sexta-feira conversando sobre tudo aquilo que acontece entre a “Copa do Mundo e a transmissão”.
Valeu? Começou!
E a primeira pergunta do dia, valendo um gol da seleção, é… sobre o que a gente vai conversar mesmo? A regra geral aqui é simples: tudo®na®Copa® do®Mundo®FIFA®é®da®FIFA®. E esse tudo é tudo mesmo, qualquer propriedade intelectual (que a gente já viu aqui o que é) que tenha a ver com a Copa do Mundo (FIFA®) é desse povo aí da Suíça que controla o futebol (FIFA®) no mundo – e, claro, todo o dinheiro que envolver isso tudo!
Em outras palavras, tudo o que é marca da competição é da FIFA®– e todo mundo tem que respeitar isso! Na prática, o que isso quer dizer? Isso quer dizer que a nossa seleção brasileira não pode chegar e simplesmente usar um “Copa do Mundo FIFA” do jeito que quiser (mesmo no uniforme de treino) e tem que cuidar para que ninguém por aqui use isso de um jeito “torto” (até mesmo em transmissão). Aliás… até aquele vendedor ambulante do centro da sua cidade (em tese) deveria ser fiscalizado pela Confederação Brasileira de Futebol, senão… isso mesmo, vai sofrer no “Tribunal da FIFA” (é, amigo, até a FIFA tem seu “tipo-STJD”).
Resumindo:na Copa do Mundo FIFA todas as marcas (e outras propriedades intelectuais) são da FIFA, e é a FIFA que pode “explorar” comercialmente ($) a competição e o que for relacionado (propriedade intelectual) à Copa do Mundo FIFA de 2018 na Rússia.
Agora, como que todos esses direitos da FIFA aparecem no dia adia da nossa seleção? Pois é, sabe aquelas fotos legais antes do primeiro jogo, a foto do time, o FIFA EA Sports®especial da Copa do Mundo… tudo isso vem daí! E a nossa delegação toda tem que cooperar nesse ponto! Tipo quando o Neymar tirou essa foto aqui:
(Foto: Getty Images)

 
É claro que não é só isso, esse regulamento também fala um pouco dos tais dos “direitos específicos de mídia e de marketing” da FIFA – adivinha a regra geral aqui? Sim, é tudo da FIFA®. E isso aparece no dia a dia da nossa seleção de um monte de jeito, como nas duas entrevistas por dia que alguém do time tem que dar para a equipe de televisão da FIFA (sim, eso ecziste) e até na roupa que o meu xará Firmino aparece chegando no hotel em Sochi (repara que agora nem logo tem na roupa, só o escudo da CBF!). Tipo aqui:
(Foto: CBF)

 
Aliás, isso aparece até nos treinos da seleção! Sabia que tem regra específica sobre o que cada delegação pode gravar para análise técnica? Pois é! A “equipe do Tite” pode gravar vídeos da nossa seleção em treinos e jogos (desde que não use para fazer dinheiro com isso depois) e dos jogos das outras equipes. Isso, só dos jogos! Senão fica que nem nessa foto em que um time da FIFA fica de olho para “abater os espiões” (sério) (juro) (sem brincadeira):
(Foto: Tossiro Neto)

 
Resumindo:na Copa do Mundo FIFA a nossa seleção brasileira tem que seguir à risca o “Regulamento FIFA de Mídia e de Marketing” senão pode dar ruim. E seguir inclui: gravações para análise técnica da nossa seleção canarinho e dos outros times, o equipamento e uniforme da delegação para ir aos estádios para os jogos, e até posar para fotos – entre um monte de outras “obrigações”.
Beleza, agora você me diz que: “entendi, tudo o que acontece no jogo da FIFA é da FIFA e a FIFA diz o que cada um que participa pode, ou não, fazer. Certo?”. E é bem isso! E, no melhor estilo comercial de televisão, eu já te aviso que… “e mais!”.
A FIFA também controla a cobertura da Copa do Mundo (FIFA®), e até aí era de se esperar – vai! Só que o que esse “controla” quer dizer na prática?
Ponto número 01: só as marcas da FIFA ou afiliadas à FIFA (patrocinadores) podem aparecer nas áreas de controle (como os estádios). E é bem isso que deixa o nosso tão querido Canarinho Pistola ainda mais pistola! Como não é uma marca FIFA®, ele não pode aparecer nos estádios da Copa do Mundo (FIFA®) na Rússia em 2018! – a palavra aqui é “área livre”.
(Foto: Instagram da Copa do Mundo FIFA)

 
Ponto número 02, a FIFA controla quem pode transmitir a sua Copa do Mundo – e isso inclui as entrevistas no estádio, sabia? E inclui tanto que esse regulamento fala que em dia de competição o técnico tem que “soltar” a escalação assim que o time chegar no estádio, que os atletas têm que dar entrevista na saída para o intervalo e, também, que o técnico e o melhor em campo têmque participar da entrevista coletiva! #ufacansei
(Fonte: FIFA)

 
Resumindo: esse regulamento da FIFA aparece até nas transmissões. E aparece nas transmissões de dois jeitos principais: o primeiro é no look das áreas controladas pela FIFA, como os estádios. E o segundo é na cooperação entre seleções, como a brasileira, e a mídia licenciada pela FIFA para cobrir a Copa do Mundo – como a “obrigação” do técnico e do melhor jogador em campo participarem da coletiva de imprensa depois da partida.
Como a gente viu, a FIFA e seus regulamentos tem mais cobertura que o meio de campo da França com o N’golo Kanté e quando a gente fala de “mídia e marketing” essa força de vontade de controlar tudo o que acontece na Copa do Mundo (FIFA®) vai da transmissão da partida até ao Gatorade que a nossa seleção toma na beira do gramado.
E é bem por isso que nós-atletas, nós-equipe técnica, e nós-torcedores temos sempre que ficar de olho no que acontece em campo (ou na telinha) e como isso aparece fora dos gramados– já que muitas vezes o jogo é muito mais do que as quatro linhas que a gente vê nesses 90 minutos, né?
Fico por aqui hoje, e agradeço a presença de vocês aqui comigo no nosso especial sobre a Copa do Mundo FIFA®de 2018 na Rússia no “Entre o Direito e o Esporte”! Nos vemos na próxima sexta-feira para fechar o mês com o último tema de junho: o código de conduta do torcedor nos estádios durante os jogos lá na Rússia. Fechou? Deixo meu convite para falarem comigo por aqui, pelo meu LinkedIn ou pelo meu Twitter. E #vaiBrasil!
 

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Teilhard de Chardin

O Padre Teilhard de Chardin, que uma oligarquia da mediocridade conseguiu expulsar da vida universitária, na Europa (Teilhard de Chardin faleceu, no dia de Páscoa de 1955, em Nova Iorque) é um dos que, hoje, mais se destaca, entre os autores que me aproximam, com inesperada pujança crítica, do cristianismo. Nasceu, em 1 de Maio de 1881, em Puy-de-Dôme (França) e, aos 18 anos, já na Companhia de Jesus, decidiu especializar-se em Biologia e Paleontologia. Cumprido o serviço militar, durante a Primeira Grande Guerra, onde deu provas de extraordinária laboriosidade e coragem, defendeu a sua tese de doutoramento em Biologia, sendo nomeado, de imediato, professor de Biologia, no Instituto Católico de Paris.
As suas aulas eram de tamanha erudição e de tão ampla visão prospetiva que alunos e meros ouvintes as ouviam com interesse, as discutiam com prazer e as analisavam com minúcia, o que irritou sobremaneira a esclerose dos integristas, o vácuo mental dos medíocres e a histeria dos invejosos. Enfim, foi tão barulhenta a chinfrineira que os seus “superiores”, na Companhia de Jesus, alarmados com as notícias que o davam como um perigoso herético, o afastaram de Paris e o enviaram para a China. Doravante, passará a vida em expedições longínquas, intervaladas de rápidas visitas a Paris, que os seus “superiores” abreviavam sempre, com receio da difusão das suas ideias, que aliás já corriam, policopiadas, pelas mãos ávidas dos estudiosos, dos admiradores e dos antigos alunos. A Segunda Grande Guerra surpreendeu-o na China, onde ficou bloqueado até 1946, o ano em que os seus críticos começaram a atenuar muitas das injúrias e dos despeitos, diante da monumentalidade dos aplausos que rodeavam Teilhard de Chardin, também distinguido, em 1947, com a promoção a Oficial da Legião de Honra. Mas, mesmo assim, os seus “superiores”, cega e teimosamente, obrigaram-no a recusar uma cátedra, no Colégio de França. E Teilhard de Chardin exilou-se nos USA…
“Hoje, Teilhard de Chardin é uma grande figura do pensamento mundial. Do domínio do reservado ele passou ao domínio público e, mesmo, do grande público; de interdito ele passou a ser aceite, se não pela totalidade, ao menos pela maioria; de expressão estranha, a sua linguagem, através de algumas das suas expressões chave (planetização, socialização, personalização, centração, convergência, etc.) a sua linguagem tende a converter-se na linguagem de uma época. Existiu até um fenómeno sócio-cultural Teilhard a que nem os sociólogos, nem os historiadores das ideias e das mentalidades colectivas podem subtrair-se” (Manuel Antunes,Grandes Contemporâneos, Editorial Verbo, Lisboa, 1973, p. 93). Após, durante a sua vida física, ter sido varrido pela inclemência, desabrida e dura, da inveja e da incompreensão, ninguém, nos nossos dias, deixa de reconhecer a inteligência e o esforço de Teilhard de Chardin a encontrar sentido no destino do ser humano, por tantos entendido como absurdo. O Padre Teilhard, nascido de família religiosa e ordenado, por vocação, sacerdote católico, considerava-se, como cristão, “Filho de Deus” e, por natureza, “Filho da Terra”.
Mas, para ele, a evolução é uma subida constante para o espírito. Há, de facto, momentos de descontinuidade, mas que não são obstáculos à continuidade do movimento ascensional. Desde a Litosfera (ou esfera mineral), passando pela Biosfera (ou esfera da vida) até à Noosfera (ou a esfera do psiquismo humano); desde o infinitamente pequeno (ou o domínio do Quântico), passando pelo infinitamente grande (ou o domínio da Relatividade) até ao infinitamente complexo, toda a sua obra pretende explicar a relação Matéria-Homem-Deus, a partir dos ditames da “lei de complexidade-consciência”.
Esta lei assim pode resumir-se: quanto maior for a complexidade de um organismo, mais elevado será o grau de psiquismo que o anima e norteia, bem patente, no ser humano, no fenómeno da cefalização, ou cerebralização. Se não laboro em erro grave, Teilhard é um dos pioneiros (o primeiro deles?) a conceber uma génese do Homem e da Vida, através de dados científicos e da sua fé religiosa, no Filho de Deus, Jesus Cristo. Com efeito, a Noosfera, ao complexificar-se, supõe o espírito e anuncia Deus. Englobando, num só traço, em permanente cosmogénese, a matéria, a vida e o espírito, isto é, a quimiodiversidade, a biodiversidade e a humanidade, a evolução prossegue, porque se sabe irreversível, imortal, a caminho do Ponto Omega. No ímpeto matinal de todo o seu ser, o Homem tende irresistivelmente para o Ponto Omega, ou seja, para Deus. Com o advento da humanidade, o social toma o lugar do biológico e a sociodiversidade substitui a biodiversidade e a teoria de Teilhard finda com um ato de fé num Ser Transcendente, Deus.
Portanto, neste paleontólogo, o ser humano é um ser natural, pode e deve ser  objeto de análise científica mas, nele, a matéria destila espírito, ou seja, em cada grão de matéria germina uma energia espiritual que o conduz ao termo Omega. Mas, se a evolução, em Teilhard, termina com um ato de fé, não deixa, nesse momento, de ser científica? Convém notar que, para Teilhard, a fé no Ponto Omega não sofre de irracionalidade porque é simplesmente transracional, do domínio da intuição, ou seja, para lá da razão, sem a dispensar ou negar. A matéria é una na cosmodiversidade; a vida é una na biodiversidade; a humanidade é una na sociodiversidade. E, por fim, todos seremos um, no Ponto Omega, como Corpo Místico de Cristo. Uma “fenomenologia” onde cabem perfeitamente a Razão e a Fé…
Ocorre-me, neste passo, a reflexão de Galileo (1564-1642): “A filosofia está escrita nesse grande livro que se encontra constantemente aberto diante dos olhos (refiro-me ao Universo), mas ela não pode ser apreendida se, primeiro, não apreendermos a sua língua e se ignoramos até os carateres em que se encontra escrita. Esta filosofia está escrita em língua matemática. Os seus carateres são os triângulos, os círculos e outras figuras geométricas, sem os quais é humanamente impossível apreender uma só palavra e sem os quais apenas se erra de forma vã, num obscuro labirinto”.
Esta citação evidencia que, para Galileo, só a matemática nos pode oferecer uma descrição exata do real. Tanto ele, como afinal também Isaac Newton (1643-1727) não poderiam supor que um cientista, Ilya Prigogine, Prémio Nobel da Química, escrevesse, mais de três séculos depois: “O universo clássico, infinito pelas suas dimensões espaciais, não deixa de ser fechado, no sentido em que a evolução e a novidade estão dele excluídas e de que qualquer evolução deve idealmente ser reduzida ao modelo dos movimentos periódicos” (Entre o Tempo e a Eternidade, Gradiva, Lisboa, 1990, p. 206).
Antes de Ilya Prigogine, já Teilhard de Chardin tinha adiantado uma dialética da natureza, onde a vida é e não é matéria, porque é espírito, e é e não é espírito, porque é matéria. Figura poliédrica, não só pela diversidade de géneros que abrange, mas também pela variedade e natureza das implicações que envolve, Teilhard de Chardin tudo (desde a ciência à religião) nos oferece restaurado, redivivo, dizendo-nos que, com o surgimento da Noosfera, a evolução biológica cedeu o passo à evolução cultural, por outras palavras: tudo sobe para o espírito – que se organiza, em virtude da força da simpatia e do amor. Competição? Sim! Mas uma competição-diálogo, que não se compraz, nem se identifica, com a violência labrega e feroz, nem com uma indisfarçável corrupção, muito frequentes, na alta competição desportiva. Também o desporto deve destilar espírito… de aceitação, de encontro, de comunhão!