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Formar, vencer e um até breve

Dia 10/07/2011 eu iniciava minha caminhada dentro das colunas da Universidade do Futebol.

Em todos os meus textos sempre tinha como objetivo contribuir de alguma forma para a evolução e transformação de nossa prática esportiva, seja no âmbito socioeducativo, como no alto rendimento.

Duas perguntas me acompanharam ao longo das 53 colunas que escrevi e vão me acompanhar por um longo tempo. São elas:

“Como ganhar jogos?” e “Como formar atletas melhores?”.

Vocês têm as respostas?

Se alguém tiver, me envie e podemos discutir muito e através de inúmeras óticas.

Essas perguntas se reinventam a cada dia e quanto mais estudo, mais caminhos com novos desafios se abrem. A cada dia tenho um novo problema circunstancial para resolver, e isso me faz crescer como profissional e como pessoa.

Na primeira coluna que escrevi, falava sobre a dicotomia entre teoria e prática; hoje já vejo que essas partes são indissociáveis, e a única coisa que posso fazer é ter partes fractais do conhecimento teórico/prático sobre o jogo.

Conhecimento.

Teoria.

Prática.

Tempo…

Toda essa busca por conhecimento está ocupando meu tempo e pela necessidade das produções científicas deixarei de escrever as colunas semanais nos próximos meses.

É um até breve, e não um adeus!

Além disso, preciso tirar um tempo para assimilar e acomodar novos conhecimentos que estão borbulhando em minha cabeça – aguardem que, em breve, virão informações novas comprovadas no dia a dia de treino e de jogo.

Mesmo sendo um até logo, gostaria de agradecer a toda equipe da Universidade do Futebol.

Em especial ao Gheorge e ao Bruno Camarão, que me ajudaram em todos os aspectos da coluna e sempre entenderam minhas dificuldades de horário!

Ao Tega e ao Medina, sonhadores, que me inspiram a continuar nessa luta por um futebol melhor a cada dia.

Aos colegas de trabalho que sei que buscam a cada dia formar atletas de uma maneira integral!

Aos professores e amigos Leandro, Gustavo e Eduardo.

Ao mestre Rodrigo Leitão, pelos debates que me fazem crescer a cada dia. Inclusive tenho a honra de anunciar como o substituto de minhas colunas e com quem faço a parceria para a produção dos artigos científicos.

À Bianca, pelo amor e apoio incondicional.

A vocês, leitores, que fazem tudo isso acontecer!

Obrigado por todos os e-mails que pretendo responder o mais rápido possível.

E, como de praxe:

Até a próxima!

Para interagir com o colunista: bruno@universidadedofutebol.com.br
 

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Dirigentes e investidores: aprendam sobre a (boa) formação

Três notícias futebolísticas dos últimos dias, aparentemente desconexas, têm uma significativa relação. Por terem ocorrido coincidentemente em uma mesma semana motivaram-me a escrever sobre o que elas representam.

A primeira diz respeito à convocação de um atleta para a seleção brasileira sub-15, formada por jogadores nascidos em 1998, que se reuniu na Granja Comary para um período de treinamentos. É o início da preparação da categoria comandada por Emerson Ávila que, em 2013, estará no “ano bom”.

A outra notícia se refere à opinião de Seedorf em relação a um dos seus companheiros no Botafogo. Após orientá-lo defensivamente quanto à sua tomada de decisão para desarmes, o jogador holandês elogiou-o publicamente quanto ao seu jogo ofensivo: “é muito dinâmico e não enrola com a bola no pé”.

Por último, a contratação de um lateral direito pela equipe do Real Madrid. A princípio a contratação é para a equipe B, porém, como nem todos os atletas iniciaram a pré-temporada, o jogador, que tem sido convocado para os últimos jogos da seleção brasileira sub-20, está treinando com a equipe principal.

O primeiro atleta ainda é um adolescente e fez parte somente de uma convocação. No entanto, ter oportunidade de ser lembrado num momento em que a CBF tem divulgado a importância de um trabalho de base em longo prazo, que reflita positivamente no elenco principal, é considerável.

O segundo, em fase final de formação com apenas 20 anos, busca um espaço na equipe carioca. Neste momento, poder ter como conselheiro o experiente Seedorf pode cortar-lhe bons caminhos na busca pela titularidade.

Já o último, igualmente jovem, viveu em pouco mais de um ano uma ascensão profissional meteórica. Após a Copa São Paulo de 2011, o atleta foi negociado com o Fluminense, disputou as competições juniores daquele ano, a Copa São Paulo de 2012 e após a disputa do torneio Oito Nações pela seleção, foi transferido para o Rio Ave. Não ficou nem um mês em Portugal antes de ser emprestado por seis temporadas ao clube que tem Mourinho como treinador.

José Marcos, Gabriel e Fabinho. Três atletas em clubes e momentos distintos da carreira, mas com um ponto em comum: tiveram importante passagem pelo mesmo clube formador.

O primeiro por dois anos, durante 2010 e 2011 e os outros dois, por seis anos, de 2005 a 2010.

Frutos de uma boa formação, claro que sem desconsiderar as passagens pelos seus respectivos clubes posteriores, o posicionamento que cada um destes atletas tem atingido em suas carreiras evidencia o que é urgente e sabido por alguns profissionais do futebol, porém, desconsiderado pela grande maioria dos dirigentes e investidores.

Como nos orgulhamos em afirmar, no Brasil, somos cerca de duzentos milhões de treinadores. Entre esses duzentos milhões encontram-se muitos dirigentes e investidores que creem ter a fórmula certa para prosperar no futebol.

A partir dessa visão, contratam, dispensam, gerenciam, gastam, competem e investem sem critérios eficazes, o que em médio-longo prazo leva para a insustentabilidade.

A solução seria buscarem informações do que é tendência na ciência do treinamento em futebol para formarem equipes de trabalho capazes de agregar valor a cada um dos atletas em formação num determinado clube. Com um trabalho qualificado, invariavelmente, os resultados (promoção de jovens valores, negociações, sustentabilidade, retorno financeiro) apareceriam.

Como a solução praticada não é essa, temos que observar exemplos quase que cotidianos de equívocos técnicos permitidos por deficiências administrativas. Por exemplo, a opinião de Zinho ao mencionar uma das justificativas ao demitir Joel Santana. O dirigente disse que o Flamengo precisa de um treinador com ideias novas. A ideia nova não deve partir do treinador e sim da gestão da instituição. É ela quem deve saber o que é ou não atual.

Quanto àquele clube formador, que os resultados continuem aparecendo e os referidos atletas, além de outros também, se destaquem no mercado do futebol para que sirvam como bons exemplos aos questionamentos feitos por aqueles que são avessos ao conhecimento.

Espero, somente, que esses que são avessos ao conhecimento não digam que foram meras coincidências…

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br
 

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O olimpismo: uma lição de vida?

Depois da modernidade, poderá dizer-se, na esteira de Wittgenstein, que já se acumulou tanto conhecimento sobre o mundo e afinal está por criar uma sabedoria que nos ensine a viver. O Desporto surgiu, no século XIX, com inspiração elevada, como sabedoria de vida, através do olimpismo que Coubertin idealizou. Não há teórico, que se adentre nesta matéria, que não se confesse devedor ao pioneirismo deste aristocrata francês, discípulo do cónego Thomas Arnold e da filosofia moral tipicamente anglo-saxónica. Por outras palavras, eles dizem-lhe o que Dante disse de Vergílio: “Tu duca, tu signore e tu maestro”.
Em Les Assises Philosophiques de l’Olimpisme Moderne, que reproduz o texto de uma mensagem radiodifundida em 1935, Coubertin resume, em cinco pontos, a ideologia do olimpismo:
-O olimpismo é uma religião, a célebre religio athletae: “Cinzelando o seu corpo, pelo exercício, como o faz o escultor de uma estátua, o atleta antigo honrava os deuses. Fazendo o mesmo, o atleta moderno exalta a sua pátria, a sua raça, a sua bandeira”;
– O olimpismo supõe uma aristocracia dos atletas que compõem uma  elite baseada democraticamente na igualdade de oportunidades. Aqui se situa a famosa sentença: “Para que cem se entreguem à cultura física, importa que cinquenta pratiquem desporto; para que cinquenta pratiquem desporto, é preciso que vinte se especializem; para que vinte se especializem, bem é que cinco sejam capazes de surpreendentes proezas”.
-“Mas ser uma elite não basta, é preciso que esta elite seja uma  cavalaria”. E prossegue: “Mas ser uma elite não chega; é preciso ainda que essa elite seja uma cavalaria. Os cavaleiros são, antes de tudo, irmãos de armas, homens corajosos, enérgicos, unidos por um vínculo mais forte do que o da simples camaradagem”. O fair play é a sua regra.
-A ideia de trégua, “de generosa e pacífica emulação”.
-O culto da beleza. E assim os Jogos, com um suplemento artístico, ampliariam o seu projecto-esperança à complexidade humana.
Força é convir que, para 1935, as declarações de Coubertin não se revestiam de qualquer assomo de novidade. Elas reflectiam o espírito do tempo. Era então moda afirmar-se que a cultura física criava homens novos, de esplendorosas qualidades humanas. Recordo a minha leitura do livro de Houston Stewart Chamberlain, La Genèse du dix-neuvième siècle (tradução do alemão). Tratava-se de um livro de inspiração pangermanista, cuja tese rácica defendia que tudo o que na Europa havia de admirável, após o caos étnico da queda do Império Romano, era obra da raça pura dos germanos, dada a uma corajosa vida ao ar livre onde os jogos guerreiros predominavam.
O nacional-socialismo alemão tinha, neste livro, o seu “evangelho”. Mas já, anteriormente, outros escritores alemães, como Woltmam e C. Newman, tinham procurado explicar o Renascimento, com a infiltração do “fresco sangue germânico”.
Na minha pouquidade, sempre discordei, nas aulas que leccionei, no ensino público (e lecciono, hoje, no ensino privado), que a cultura física (e o desporto), por si só, fosse o factor de transformação individual e social. Já em finais da década de 60 eu sabia que qualquer fenómeno histórico resulta de uma complexidade de factores, agentes, ocorrências, condicionalismos. Na Revue des Deux Mondes (Février de 1902), em artigo intitulado «A força nacional do desporto », escreveu Coubertin : « O utilitarismo é a corrente dominante, na época que atravessamos”. E é mister que o Desporto nele se integre, “em nome das concorrências democráticas e do struggle for life”. Na Revue Universitaire (de 15 de Maio de 1892), não tergiversa: “Para mim, o verdadeiro herói olímpico é o adulto macho individual”. Como negar que Pierre de Coubertin procurou penetrar, no desporto, em determinado momento da sua vida, a corrente utilitarista inglesa?…
O utilitarismo clássico é obra, principalmente, de três filósofos: Jeremy Bentham (1748-1832), que escreveu An Introduction to the Principles of Morals and Legislation; John Stuart Mill (1806-1873), que deu à estampa On Liberty e Utilitarianism; e ainda Henry Sidgwick (1838-1900), que publicou The methods of Ethics. Segundo Gilbert Hottois, na sua História da Filosofia – da Renascença à Pós-Modernidade (tradução portuguesa do Instituto Piaget, 2003): “O utilitarismo inscreve-se na grande tradição do empirismo inglês, tanto do ponto de vista da concepção do mundo, da teoria do conhecimento, como do interesse crítico em relação ao político (…).
O utilitarismo só pode compreender-se com o desenvolvimento da Economia, que floresce em França e, mais ainda, na Inglaterra, a partir da segunda metade do século XVIII e no início do século XIX (Adam Smith e David Ricardo). A economia política, então a despontar, é uma das fontes mais importantes do pensamento moderno e contemporâneo” (pp. 189 ss.). Adam Smith, no seu célebre An enquire into the nature and causes of the wealth of nations, não vislumbra assomo de contradição na articulação entre os interesses individuais e os colectivos, numa sociedade onde a oferta e a procura possam actuar livremente, num mercado sem entraves.
Quem não vê, aqui, o liberalismo que Karl Marx meteu a ridículo? Ninguém contesta que o proletariado, no sentido que Marx deu à palavra, não existe já. Mas a extensão do poder do Estado, como hoje se verifica, não significa também, mesmo sem o subtil exercício dialéctico de alguns “fazedores de opinião”, que o neoliberalismo é, cada vez para mais gente, um venenoso perfume? Mas continuemos a resumir a filosofia do utilitarismo:
-A moral é uma disciplina empírica. O que é bem ou o que é mal é a  experiência a dizê-lo e não qualquer dedução, a partir de princípios.
– Os valores não são transcendentes. No utilitarismo, queimam-se  grãos de incenso ao relativismo cultural e histórico dos valores.
– São as ciências da natureza que permitem um cálculo rigoroso,  visando maximizar a felicidade e minimizar a infelicidade.
– Os actos avaliam-se, não pela pureza interior da intenção, mas pelas consequências que provocaram. Se tomarmos à letra a famosa distinção de Max Weber, entre ética da responsabilidade e ética da convicção, o utilitarismo assume declaradamente a primeira.
– Tendo Hume (1711-1776), o empirista e o agnóstico (e amigo íntimo de Adam Smith), como seu ascendente, o utilitarismo defende uma ética constatativa, uma ética do ser, do dado, do facto e não uma ética do dever-ser, do direito, da razão. Em Hume são as emoções, as paixões a grande fundamentação da ética. Ética do utilitarismo, precursora da de Bentham? Acima do mais, nascia a ética burguesa.
Ainda sobre David Hume, será de realçar que se trata de um filósofo atual: os representantes da fenomenologia, do neopositivismo e dos funcionalismos de vária ordem continuam a reclamar-se da sua paternidade. Porque o secularismo, o agnosticismo, o naturalismo e todas as reminiscências da religião das Luzes são hoje aceites e aprofundadas, por muitos homens da ciência e da política. John Stuart Mill, no seu Ensaio sobre a Liberdade, anuncia os primeiros clarões do liberalismo democrático: “O único objectivo pelo qual a força pode ser exercida legitimamente, em relação a um membro de uma comunidade civilizada, contra sua vontade, é com vista a impedi-lo ser nocivo aos outros”. Em que muito pese ao fundamentalismo socialista, o utilitarismo contribuiu ao reconhecimento dos Direitos do Homem, suas liberdades e garantias.
Mas o excesso de individualismo, uma declarada alergia ao papel do Estado na Educação, na Saúde, na Justiça, na Segurança, nas Finanças, no Trabalho, etc., deixaram os marginalizados, os excluídos, incapazes de entrar na competição em que o liberalismo (que é um capitalismo liberal) se movimenta. Poderíamos lembrar, a propósito, o darwinismo social que assenta na luta pela vida e no triunfo do mais forte, ou do mais apto, como expressão de efectivo progresso. Era a Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, no acto de gestação da democracia liberal e Pierre de Coubertin (1863-1937) olhava, para este sistema económico-político, com um sorriso de amena cumplicidade.
E, assim como o “homem livre”, segundo o Platão das Leis, deveria “viver, recreando-se, através de certos jogos e outras diversões”, sem alguma vez trabalhar – também o fair-play significa que são os nobres e a burguesia endinheirada os desportistas a que Coubertin se referia, por convicção própria, ou para escapar à ferina galhofa dos “desportistas” que o rodeavam. Para Coubertin, não existia senão um só Desporto, mas uma diferença insanável dividia, no dealbar do século XX, os desportos nobres (a equitação, a esgrima, o remo), praticados pelos “amadores”, que dispunham de ócio, e os outros desportos, onde os proletários e os camponeses auferiam algum dinheiro. Na vasta trajectória histórica do olimpismo, é de não esquecer o que aconteceu a Jim Thorpe que, nos Jogos de Estocolmo (1912), perdeu as medalhas ganhas, no atletismo, porque era profissional como jogador de baseball. Ele era índio, cumpria as suas tarefas agrícolas, com os vagares de quem é dono do seu tempo, mas o dinheiro era escasso.
Ser profissional de baseball arrancou-o à miséria. Em Estocolmo, o rei Gustavo V, maravilhado com o desempenho do Jim Thorpe, desceu ao terreno, segurou-lhe as duas mãos e, em voz emocionada, exclamou: “Você é o maior atleta do Mundo!”. Era, de facto, o maior atleta do Mundo e um homem, dizem, de trato fraterno e de saudável exuberância. Mas não era um gentleman…
José María Cagigal, no seu livro Oh! Deporte (anatomia de um gigante) editado em 1981, pela Miñon S.A., de Valladolid, reproduz o conceito de amador do Amatheur ,Athletic Club: “É amador o gentleman que nunca participou numa competição pública; que nunca defrontou profissionais, tendo recebido dinheiro por isso; que nunca foi professor, ou monitor, remunerado de exercícios deste jaez; que não seja operário, artesão ou jornaleiro”. Esta definição manteve-se até 1880, data em que a última clásula (ser operário, artesão ou jornaleiro) foi extirpada. Cagigal, no mesmo livro, sustenta que eram os companheiros de Coubertin os que deitavam um breve e desdenhoso aceno ao desporto profissional e não o criador do olimpismo moderno. De facto, trinta e cinco anos depois, Coubertin desabafava, nas suas Memórias Olímpicas: “Sempre o amadorismo! (…) Hoje, posso afirmar, francamente, que este assunto nunca me importou (…).
Vendo o interesse que lhe dedicavam os meios desportivos, dediquei-lhe a máxima atenção, mas sem grande convicção. O meu conceito de Desporto sempre se distinguiu de um grande número, talvez a maior parte, dos desportistas. Para mim, o Desporto é uma religião com igreja, dogmas, culto, mas sobretudo com sentimento religioso e, por isso, parecia-me tão pueril condenar o desportista que recebesse algum dinheiro pela prática do Desporto, como condenar, como incrédulo, o sacristão da paróquia porque tem um vencimento, para assegurar o serviço do santuário” (Publicaciones – Comité Olímpico Español, 1965, pp. 108 ss.). A cultura ocidental, vivendo sempre do sangue tumultuoso de novas experiências, distingue-se das demais culturas principalmente pelo seu grau de secularização… que eu defendo, embora ancião, com fogosa irrequietude. E por quê? Porque as demais culturas se colocam antes e por cima da condição humana. “ É aqui que a ilusão cultural provoca os maiores estragos: quando acreditamos que somos humanos apenas porque temos uma cultura e não por natureza, sempre que encerramos a dignidade do Homem na sua origem étnica, religiosa, nacional ou imperial. Deixamos então de entender a palavra cultura como um aperfeiçoamento livre de nós próprios, mas como uma entrega da consciência a um primado determinista” (Jérôme Bindé, Para onde vão os Valores?, Instituto Piaget, Lisboa, 2006, p. 60).
Podemos admitir então que Pierre de Coubertin desdenhou, por fim, a sociedade vertical, classista e hierárquica da Inglaterra vitoriana? Julgo que não! Ela perdura na composição dos vários COI’s, constelados de fidalgos e de nomes da alta burguesia… europeus! Depois, o facto de o olimpismo se apresentar como religião tal significa, como o assevera o Dalai-Lama, uma crença “que tem como um dos seus principais aspectos a aceitação de alguma forma de realidade metafísica ou sobrenatural, incluindo possivelmente uma idéia de paraíso ou nirvana” (Uma Ética para o Novo Milénio, Sextante, Rio de Janeiro, 2000). E aqui a metafísica ou a espiritualidade residem na Pátria, na Raça, na Bandeira, como vimos acima e, como em todas as religiões, na hierarquia que as proclama e as explica.
A linguagem habitualmente turibular com que o COI é incensado diz-nos que o culto da personalidade nele habita, como afinal nas demais religiões. Mas também a alta competição faz regressar, inevitavelmente, o utilitarismo que é, bem vistas as coisas, a filosofia do liberalismo e ainda um fair-play de clamorosa insensibilidade. Neste passo, transcrevo um texto do escritor brasileiro Rubem Alves, sobre os Jogos Olímpicos: “São um evento assombroso. Começa com aquela festa linda, comovente, festa de fraternidade e de paz. Norte-americanos e iraquianos desfilaram no mesmo desfile, sem que Bush tentasse matar os atletas do Iraque, como terroristas disfarçados. Ele estava jogando golfe. O grande símbolo: uma oliveira cheia de folhas! Dizem os poemas sagrados que a pomba que Noé soltou ao final do dilúvio voltou com um ramo de oliveira no bico. Que bom que seria se aquela oliveira anunciasse o fim do dilúvio de loucuras bélicas, que está destruindo o mundo! Algumas dessas festas ficam inesquecíveis.
Lembro-me do ursinho que marcou as Olimpíadas de Moscou. No encerramento, o ursinho chorou: lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Sei muito bem que o urso não tem rosto, urso tem é focinho, mas seria feio dizer: lágrimas escorriam pelo seu focinho. Do jeito como as coisas vão, em breve se dirá que os bichos têm rosto e os homens têm focinho. Aí chega o primeiro dia. Vai-se a fraternidade. Agora é briga. Briga pelo pódio. O pódio é motivo de briga. Nas Olimpíadas não há lugar para fraternidade, porque fraternidade significa todo mundo junto brincando de roda e nos Jogos Olímpicos não há cantigas de roda. No pódio só cabem três. Cada atleta quer mesmo é que o outro se dane. Ah! A suprema felicidade do velocista dos cem metros, quando sabe que o recordista baixou no hospital acometido de uma súbita cólica renal, na véspera das finais. E as ginastas rezam, enquanto as adversárias executam os seus números: Tomara que ela escorregue…” (ostra feliz não faz pérola, Planeta, São Paulo, 2008, p. 141).
Não sei se do legado literário que Coubertin nos deixou não possa fazer-se o resumo seguinte:
-O olimpismo é uma religião, um livre acto de consciência, responsavelmente assumido.
-O atleta olímpico faz parte de uma elite que resulta da igualdade de oportunidades.
-O olimpismo revivesce nos ideais de cavalaria, porque pretende reabilitar a coragem ao serviço de uma espiritualidade que lhe dá sentido.
-A trégua olímpica há-de reflectir um homem, fisica e psicologicamente ágil e forte, capaz de converter-se e de converter os outros à causa da Paz. Só os fortes constróem a Paz.
-O olimpismo, embora não queira crucificar a vida na cruz do conceito (acusação de Garaudy a Platão, no seu livro Palavra de Homem) não esquece que estará para breve o colapso do Desporto, se este não assumir os vários domínios da vida humana, incluindo a literatura e os outros meios de comunicação artística.
Só que o individualismo (e, por extensão, a alta competição) forma o código genético da filosofia utilitarista e da democracia neoliberal, em que estamos imersos. Faço minhas as palavras do Prof. Carlos Diáz, na sua Breve historia de la filosofía (Encuentro Ediciones, Madrid, 2002):
“La posmodernidad se mueve a gusto en lo que llama egoísmo asociativo, individualismo responsable o simplemente ética de los negocios. Buena ética, hacer buenos negocios, good ethics make good business, la bonne affaire de l’éthique y otros eslóganes similares abundan por Europa” (p. 260). A crise financeira que se abateu sobre o mundo todo mostrou que não há mesmo ética nos negócios. Até por esta razão muito simples: se o neoliberalismo rejeita, como discurso infecto ou bafiento, qualquer anseio totalizante e solidário do mundo social, tudo é visto de forma a reafirmar-se a autoridade indiscutível do capital sobre o trabalho e o seu direito a gerir e a governar a produção social das riquezas.
Um outro ponto me interessa salientar: o mercado apresenta-se, hoje, como o fundamento fiável da democracia e, assim, a política desliza para infrapolítica onde as preocupações com o bem comum são olhadas com um olhar lateral. A política como forma exigente de viver um compromisso sério, ao serviço dos outros, designadamente os mais necessitados, é bandeira que o neoliberalismo dificilmente desfralda.
Aqui, poderá levantar-se o olimpismo como contra-poder ao poder das taras dominantes, como foco irradiador de um mundo novo, que tente erradicar da face da Terra um individualismo sinónimo do mais empedernido egoísmo. Foi isso o que Coubertin tentou fazer, embora a “episteme” do seu tempo e as marcas de classe da sua prática. Façamos, com o espírito de Coubertin, o que Coubertin não podia, não sabia fazer…

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.
Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal.
Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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O Brasil em Londres

Hoje é a abertura oficial do maior evento esportivo do planeta, as Olimpíadas de Londres. Para os brasileiros, estes Jogos trazem a peculiaridade de não serem transmitidos pela Rede Globo de Televisão – em TV aberta, a exclusividade é da Record.

Os valores envolvidos e o alcance midiático demonstram que os Jogos Olímpicos da era moderna tomaram proporções inimagináveis pelos gregos e até, até mesmo pelo Barão de Coubertin.

No Brasil, com o crescimento do investimento no esporte olímpico oriundos da Lei de Incentivo ao esporte, a expectativa é quebrar o recorde de medalhas.

A delegação brasileira tem chances de trazer medalhas em futebol, judô, atletismo, natação, vôlei, basquete, iatismo, hipismo e ainda surpeender em esportes como o boxe, o taekwondo e o tênis.

O futebol deve trazer medalhas no feminino e no masculino, tal como o vôlei de quadra e de praia. No basquete, depois de anos, a seleção masculina chega com coindições de beliscar um bronze.

No judô, o Brasil conta com campeões mundiais nas mais diversar categorias, o que ocorre também no iatismo.

O atletismo e a natação concentram as esperanças respectivamente em Maurren Maggi e Cesar Cielo, enquanto o hipismo tem em Rodrigo Pessoa seu maior expoente.

Com relação às surpresas, o boxe e o taekwondo despontam como fortíssimos candidatos.

A expectativa aumenta ainda mais quando nos damos conta de que os próximos Jogos Olímpicos serão no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro.

Até o momento, em Londres, já foram constatados problemas de transporte e segurança, o que é de se lamentar para uma grande metrópole europeia e que abriga as Olimpíadas pela terceira vez.

Espera-se que além do recorde de medalhas, o Brasil possa aprender com erros e acertos britânicos para realizar Jogos Olímpicos fantásticos. Que possamos fazer do Rio 2016 uma experiência sensacional como a desfrutada por Barcelona em 1992.

Terei a satisfação de aferir “in loco” e comentarei nas próximas colunas.

Por fim, além dos Jogos Olímpicos, merece destaque o acerto do Clube Atlético Mineiro na contratação do Ronaldinho Gaucho.

A cada rodada os jornais europeus têm dado notas de meia página destacando o resultado da partida e a atuação do jogador.

Assim, ainda que o Atlético não consiga o título brasileiro, os esforços enviados na contratação do polêmico Ronaldinho já valeram pelo marketing conquistado.

Conforme já destacado em outras colunas, um bom contrato desportivo pode trazer ao clube retorno desportivo e financeiro e, até o fechamento desta coluna, o Atlético tem desfrutado de ambas as conquistas.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br
 

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Nunca fui Santo

Em 16 de maio de 1992, o Palmeiras vence o Guaratinguetá por 4 a 0 num amistoso. Um jovem goleiro de 19 anos se ajoelha, ergue os dedos apontando para o céu e agradece a Deus. Nascia um ritual embaixo das traves ao mesmo tempo em que o futebol brasileiro via nascer um dos melhores arqueiros de todos os tempos. Seu nome, Marcos Roberto Silveira Reis, ou grandiosamente “Marcão”, que realizava o sonho de jogar pelo Palmeiras, ser o número 12 e o número 1 da história recente do clube alviverde.

De lá pra cá foram 532 jogos defendendo a camisa alviverde, alternando momentos de herói e vilão, às vezes num mesmo jogo. Mas que deixou, por trás das glórias e das decepções, um legado de garra, orgulho, lealdade, experiência, inspiração, raça e otimismo. Sua história de vida, longe e fora dos gramados, ou debaixo das traves, entre a linha do gol e a pequena área, é conhecida agora em depoimento inédito ao jornalista Mauro Beting, no livro Nunca fui Santo, da editora Universo dos Livros.

“Não é só um dos melhores goleiros que vi, mas uma das melhores pessoas que existem pra defender nossas cores e credos. Foram 20 anos pulando os tantos quilos pra nos fazer pular de alegria e orgulho e ficar de joelhos, agradecendo por seus milagres palmeirenses e brasileiros, campeões estaduais, nacionais, continentais e mundiais”, elogia o palmeirense Mauro Beting, na introdução do livro. 

Do interior de São Paulo à capital. Do seu time do coração ao oriente mais distante, Japão e Coréia do Sul, onde conquistou o pentacampeonato mundial pela seleção brasileira, em 2002. “Não dava pra eu jogar na frente, fui recuado pro meio. Depois pra zaga. Daí…”, lembra o goleiro. Vinte anos de carreira depois e muitas boladas, foram vários triunfos de um esportista que manteve a humildade, soube “baixar a bola e não se achar” e conquistou a admiração até de torcedores dos times rivais.

Nunca fui Santo é uma declaracão de amor ao Palmeiras, time que sempre admirou e torceu, contrariando o pai corinthiano. São causos engraçados dos bastidores do verdão e da seleção, contadas com o seu jeitão caipira e bem-humorado, dentre os quais o famoso pênalti defendido de Marcelinho Carioca, na semifinal da Libertadores, em 1999. Uma partida que lhe rendeu a “canonização”, e a partir de então suas defesas milagrosas seriam seguidas pelos locutores de rádio e televisão com um sonoro e vibrante São Marcos.

Em mais uma demonstração de amor ao clube, Marcos recusou uma proposta para defender o time inglês Arsenal para continuar comandando o Palmeiras na segunda divisão do Campeonato Brasileiro de 2003. “Quebraria a perna pra ser campeão da Série B. Aquele campeonato valia mais do que a Copa do Mundo de 2002”. Na condição de líder do time, mandou seu recado aos que não quiseram continuar em 2003 para jogar a “Segundona” – “Esses estão na minha lista negra. Opa, quer dizer, na lista verde”.

Como não só de lances espetaculares vive o goleiro, Marcos relembra as falhas e as decepções – bola largada que originou o gol de Keane na final do Mundial Interclubes contra o Manchester United e a derrota para Boca Juniors na Libertadores de 2001.

Em Nunca fui Santo, Marcos revela os bastidores da concentração e o aprendizado com seus técnicos, em especial Felipão e Luxemburgo, e os treinadores de goleiros Carlos Pracidelli e Valdir de Moraes. E não deixa de lado o carinho que nutre pelos colegas de time e adversários, como Vampeta, e os goleiros e ídolos Velloso, Sérgio (que lhe ajudou muito no primeiro ano de clube) e seus reservas na seleção, Rogério Ceni e Dida.

Em 14 de janeiro de 2012, Marcos pendurou as luvas. Foram 532 partidas pelo Palmeiras. “Umas 510 pra lembrar e, pra falar a verdade, umas 10 pra esquecer.”, ressalta. As dores e o sentimento de não conseguir mais repetir as atuações dos anos anteriores, sem a mesma agilidade e reflexo, o fez abandonar a pequena área. O ídolo deixou os treinos e o gostinho de pisar em campo com milhares de torcedores gritando o seu nome em uníssono para se dedicar à clínica São Marcos – um centro de reabilitação e fisioterapia pra pessoas comuns e também pra profissionais sem condições financeiras. A família palmeirense, que lhe concedeu o título de embaixador do clube, sempre continuará no seu coração. Como ele mesmo ironiza, “não uso black-tie, só verde-tie.”


Trechos do livro Nunca fui Santo:

“O pessoal lá de trás é sempre o vilão. Não importa que o ataque não marcou, que o meio-campo não pegou na intermediária. A culpa será nossa. Precisamos defender a nossa meta e nos defender fora de campo também”.

“Uma honra? Uma roubada! Vai que eu entro só para a disputa e não cato nenhum pênalti? Quem seria o responsável pela derrota? Eu! Naquela época, não tinha esse cartaz todo. Era apenas o reserva de um grande goleiro como o Velloso. Eu já tinha sido chamado para a Seleção pelo Zagallo, em 1996, depois de 18 jogos como titular. Fui reserva do Zetti em Brasil 3 x 1 Lituânia, em Teresina, em outubro. Mas só isso. Quando o Velloso se recuperara da lesão, voltara a ser o número um. Com toda razão e merecimento. Embora eu tentasse cavar uma brecha, né? A gente costumava dividir o quarto em concentração. Eu sempre deixava o ar condicionado no máximo para ver se ele pagava uma gripe para então eu poder jogar. E o Velloso nem espirro dava! Eu tive de parar com a brincadeira por que achei que iria sobrar uma pneumonia pra mim.”

“Um dia a gente estava junto, no segundo andar do prédio onde morava, lá na Lapa. Tinha um cara empurrando um Monza. Estava garoando. Chamei o Zezinho para ajudar a empurrar o carro que parecia quebrado. O cara agradeceu quando o carro pegou no tranco e disse “obrigado, fica com Deus!”. A gente estava voltando para o apê quando chegou um cara correndo, dobrando a esquina: “Vocês viram um Monza passar aqui? É o meu carro que foi roubado!”.

Eu sempre tive bons reflexos: “Monza? Aqui? Não vi, não”.

Como eu ia falar pro cara que tinha ajudado a empurrar o carro dele que estava sendo furtado? Como eu iria saber que o cara que pedia ajuda era um ladrão?

Pelo menos era um ladrão bem educado que mandou a gente ficar com Deus“.

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A grande diferença entre arena e estádio

O texto desta semana visa desmistificar alguns termos muito utilizados atualmente e que nos deixam confusos. Muito se fala em arena e estádio, sendo que ninguém sabe ao certo a diferença entre eles.

Eu acredito que não tenha tanta diferença, funciona mais como uma ideia de inovação, de transformação de um estádio comum em um espaço de espetáculos, o que, arquiteturalmente falando, muda muito pouco.

Arena

A ligação do termo “arena” com os estádios surgiu dos anfiteatros romanos, em que a estrutura é basicamente a de um estádio comum, sem cobertura, com o centro de apresentação (jogos, shows, peças ou batalhas) no centro, no nível mais baixo das arquibancadas, que eram geralmente circulares ou ovais. Os anfiteatros tinham a grande intenção de abrigar um público grande. 

Estádio

O estádio foi criado para partidas esportivas e todos nós sabemos muito bem suas características: ele pode ser a céu aberto, semi coberto ou totalmente coberto.

Posteriormente, para bancar as necessidades financeiras, os usos começaram a aumentar com a realização de shows e eventos religiosos, como o recebimento do papa, por exemplo.

Recentemente, pela necessidade de mostrar que o estádio terá uso, não ficará ocioso, denunciando mau investimento, e garantindo também a sustentabilidade econômica do equipamento, a transformação de um mero estádio em uma “arena” traz a imagem de que o equipamento, assim como os anfiteatros, recebe um leque maior de atividades variadas.

No entanto, é mero discurso. A arquitetura não tem muita diferença, pois é costumeiro se pedir a tal “arena multifuncional”, como se o termo fosse o suficiente para definir conceitos, estratégias ou diretrizes arquitetônicas.

Embora o intuito de ter diferentes usos em um mesmo espaço seja interessante, a forma como é desenvolvida é muito vaga. Seria necessária uma definição mais focada para uma arquitetura específica e diferenciada.

A principal mudança que vemos com o termo é que os estádios (agora transformados em arenas) são necessariamente cobertos. No entanto, essa cobertura – cobrindo todos os assentos das arquibancadas e todos os anéis – se dá pela necessidade atual do público e exigência dos reguladores de campeonatos, como a Fifa, e nada tem a ver com o anfiteatro – este sempre a céu aberto.

Portanto, arena e estádio são estratégias de vendas de um produto igual como se tivesse um conceito diferente. O mesmo acontece com outros termos frequentemente utilizados sem fundamento e sem justificativas, como “legado” e “sustentabilidade”. Puro discurso.

Nota sobre a coluna da semana passada:

A usina de Battersea foi vendida para uma empresa da Malásia, portanto, o sonho de estádio icônico do Chelsea não será concretizado ali.

Para interagir com o autor: lilian@universidadedofutebol.com.br
 

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Estamos preocupados com o futuro?

Às vezes me pergunto se estamos efetivamente preocupados com o futuro das marcas dos nossos clubes de futebol. Será que estamos atingindo efetivamente a cabeça (e o coração) das crianças e jovens da nova geração? Como está a comunicação voltada para este público? O que será dos clubes daqui 20, 30 anos, uma vez que as crianças que estão hoje na faixa dos 10 anos de idade pertencerão à faixa da população economicamente ativa até lá?

A reflexão veio da leitura da reportagem do Mundo do Marketing, intitulada “Quem são e por que as marcas não entendem os consumidores infantis”.

Percebe-se, pelo relato, a dificuldade que as marcas do meio corporativo têm para atingir o público infantil diante de um mundo cada vez mais digital, com reduzida fração no interesse por bens tangíveis para um apreço maior sobre as coisas virtuais. Isso que estas empresas estudam e procuram monitorar as preferências do seu público-alvo.

A mídia esportiva, em alguns casos, tem tentado esta aproximação, nomeadamente por meio dos “Fantasy Games” e pela interação em alguns programas com as redes sociais e a internet. Mas ainda são ações isoladas, sem um efetivo aproveitamento dos clubes.

A constatação serve apenas para efeito de reflexão, mesmo, uma vez que as mudanças e inovações tardam em muito por ser implementadas no futebol brasileiro.

E o motivo todos sabem: a única preocupação é se o clube deve ou não demitir o treinador no próximo domingo…

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br
 

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O crime não compensa quando o esporte é opção

Estava conversando com amigos meus sobre os rumos da eleição para a prefeitura de Curitiba.

Muita imaginação e adivinhação política por parte de todos nós.

Comentários sobre as articulações de bastidores, possíveis e improváveis coligações.

Um tanto de decepção sobre como os rumos de nossa democracia são maltratados no país.

Em boa parte por nossa culpa, sim, pois ficamos alheios a uma cobrança e participação popular mais ativa, que extrapole o direito de votar e ser votado.

Eis que a conversa começou a pender sobre como combater os altos índices de criminalidade e violência, atualmente também associados ao tráfico e consumo de drogas.

Disse, com firmeza, mas ressabiado da repercussão: “o esporte pode ser, sim, um grande vetor de mudança positiva desse cenário. Mas associado, obrigatoriamente, à educação”.

Vi que meus amigos se entreolharam e assentiram frente à sugestão.

Fui além e disse que a prática esportiva ajuda na integração por meio dos esportes coletivos; na concentração e disciplina a partir dos esportes individuais; a formação de valores e do caráter das pessoas resta favorecido; a produção intensa de adrenalina, endorfina, dopamina.

Sei lá, muito hormônio desses que literalmente “surravam” o corpo e a mente, fazendo com que as únicas coisas que eu queria fazer, ao chegar em casa dos treinos, era comer, ler e dormir.

A conversa foi ficando mais rica, na medida em que essa experiência democrática e participativa era alimentada com ideias para viabilizar a boa intenção, mas de maneira prática.

Aumentar e melhorar as instalações esportivas nas escolas e centros públicos e privados; investir na qualificação dos professores; criar programas de incentivo financeiro vinculados ao desempenho escolar e esportivo; envolver as comunidades e famílias locais.

Alguns se perguntam se, efetivamente, os indicadores do esporte, nesse contexto de prevenção e redução de problemas vinculados à criminalidade, são passíveis de mensuração.

Afirmo que sim, pois recebi de um amigo escritor e ativista social da Irlanda, Don Mullan, um relatório da Universidade de Chicago que ampara esta iniciativa.

A partir de um programa chamado World Sport Chicago and Youth Guidance, voltado para a redução da violência juvenil, o Laboratório de Criminologia da Universidade realizou estudo que comprovou que a terapia cognitiva comportamental associada ao aconselhamento e à prática esportiva teve significativo impacto no aumento do engajamento nos estudos e a redução da violência em 43%.

O estudo foi apoiado em jovens do sexo masculino de Chicago que vivem em áreas de alto risco social na cidade.

Gostaria de ver esse tipo de discussão qualificada nos debates e nos programas de governo/mandato nestas eleições.

Aliás, fiz um pouco da minha parte, ao sugerir a destinação do orçamento da cidade, para 2013, por meio do serviço oferecido à população para balizar a votação da Lei Orçamentária Anual.

Cobrar de maneira eficaz é o segundo passo para transformarmos o país – também por meio do esporte.

Só o primeiro passo – a indignação e reclamação – já não adianta mais.

O endereço era http://loa.curitiba.pr.gov.br/.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br 
 

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Paramos no tempo?

Queria começar a coluna desta semana com uma afirmação do treinador Levir Culpi no último programa “Bem, Amigos!” quando questionado se o mesmo estava ansioso para voltar a trabalhar no mercado nacional.

“Eu fiquei 5 anos no Japão e aprendi muito com o país. Agora que voltei (ao Brasil) estou ouvindo os comentários e fico impressionado como o futebol brasileiro não evoluiu”, afirmou Levir.

Alguma surpresa?

Estamos discutindo há algum tempo que precisamos evoluir e nos adequar à nova realidade do futebol mundial.

Sabemos que novos métodos de trabalho e novas formas de jogar vêm sendo discutidas e desenvolvidas há tempos em países como Espanha, Holanda, Alemanha, Portugal entre outros.

Sabemos muito bem disso.

A fala do treinador é a constatação de alguém que esteve dentro do processo, saiu do país, evoluiu como treinador e voltou esperando que nosso futebol tivesse acompanhado a evolução mundial. Mas isso não ocorreu.

A minha dúvida é: será que continuaremos parados no tempo? Até quando?

Essa estagnação é culpa do ambiente, da resistência ao novo, do continuísmo, do imediatismo e da própria evolução dos nossos conceitos.

Enquanto discutimos a tática como o centro das atenções e a Periodização Tática como a solução dos problemas, existem outras teorias mais recentes que já colocam por terra muitas coisas que achamos ser o suprassumo do processo.

O fato é que precisamos fazer algo e continuar lutando, pois não podemos ficar parados!

A fala do Levir Culpi mostra que essa estagnação está incomodando a todos. Só espero que esse incômodo gere algum tipo de atitude para a mudança.

Sei que isso já está acontecendo e há profissionais que estão à frente de seu tempo (se é que podemos dizer isso), mas o trabalho ainda é lento e desgastante.

Acredito que precisamos ser ouvidos e, quando isso acontecer, temos que estar preparados para ajudar na real mudança!

Ela vai acontecer, mais cedo ou mais tarde (Espero que seja o mais rápido possível).

Vamos nos preparar e buscar algo além! Não vamos ficar copiando de uma forma precária conceitos desse ou daquele autor, e sim inovar, propondo conceitos próprios.

Há muita coisa para se estudar e aplicar no jogo! Inove!

Para terminar, uma frase de Steve Jobs, considerado um dos maiores nomes da inovação:

“Você quer vender água com açúcar o resto de sua vida, ou quer uma oportunidade para mudar o mundo?”

Vamos inovar!

Para interagir com o colunista: bruno@universidadedofutebol.com.br
 

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As regras certas e a dinâmica do jogo: treinando a organização ofensiva – parte III

O tema desta semana se refere à sequência das colunas publicadas meses atrás relativas ao treinamento e, consequentemente, ao jogar de qualidade. Se você não teve oportunidade de ler a primeira ou a segunda partes, aconselho que retome a leitura a fim de que o texto não adquira uma conotação de “receita de bolo”, para ser reproduzida sem a mínima reflexão.

Conforme havia mencionado, as sugestões de regras apontadas nas próximas linhas favorecem o treinamento da organização ofensiva de sua equipe. Para continuar, outro conceito que não pode ser perdido na interpretação das regras e, obviamente, na elaboração e aplicação do treino diz respeito aos fractais, abordado noutra coluna semanas atrás.

Para treinar alguns Meios Táticos Ofensivos como Desmarques, Apoios, Mobilidade com ou sem Trocas de Posição, as seguintes regras podem ser utilizadas para compor o jogo:

•Dividir o campo de ataque em diversos setores e a equipe pontuar quando receber passes em setores desocupados pelo adversário. Esta regra força os jogadores da equipe que detém a posse de bola a buscarem constantemente os espaços vazios no campo de ataque do adversário;

•Dividir o campo de ataque em diversos setores e o atleta que fizer o passe deve mudar de setor, caso contrário, pontuação ao adversário. Esta regra faz com que o atleta que realizou o passe internalize o conceito de dar sequência a jogada mesmo após ter realizado uma ação direta com bola;

•Dividir o campo de ataque em diversos setores e a cada passe feito no campo de ataque todos os atletas que estão no campo ofensivo (com exceção do jogador que recebeu o passe), devem mudar de setor. Uma regra que favorece significativamente a mobilidade ofensiva, mas deve ser feita somente quando os atletas dominarem competências prévias relativas à movimentação da equipe, pois a desordem gerada no jogo devido às constantes mudanças de setores pode dificultar a aplicação do jogo;

•A equipe pontuar quando houver uma troca de posição entre dois jogadores no campo de ataque, em que um dos jogadores responsáveis pela troca receba um passe. Regra que implica que a equipe que possui a posse de bola execute trocas de marcação com o objetivo de dificultar e desorganizar a organização defensiva adversária. Como envolve somente três jogadores (o que faz o passe, além dos dois que realizam a troca), esta regra possui maior facilidade de aplicabilidade;

•A equipe pontuar ao trocar um número determinado de passes no campo de ataque sem poder devolver o passe para o jogador no qual o atleta o recebeu. Espera-se com esta regra que o atleta que fez o passe não seja o próximo a realizar o apoio e que demais atletas aproximem-se do que recebeu a bola, abrindo-lhe linhas de passe;

•Restrição do número de toques na bola por jogador. Regra bastante utilizada e propagada para acelerar o jogo ofensivo, logo, exigir maior mobilidade coletiva;

Para estimular o Meio Tático Ofensivo de Fintas e Dribles, como sugestões de regras:

•Delimitar um setor próximo à zona de risco em que um drible realizado precedido por um passe equivale a uma pontuação. Estimula os atletas a tentarem jogadas individuais em setores próximos ao alvo em que a equipe precisa manter a posse de bola;

•Gol precedido por drible em setores próximos à zona de risco ter pontuação maior que demais gols. Regra que privilegia o drible que antecede a finalização, ou seja, uma das poucas circunstâncias do jogo em que este recurso precisa ser utilizado;

•Dividir o campo em setores em que o drible é permitido. Executá-lo em setores não permitidos e a equipe perder a posse de bola, pontuação para o adversário. Regra que busca o aprendizado coletivo dos setores ideais para a realização do referido Meio Tático;

Lembre-se de dividir corretamente os pontos para o jogo ficar competitivo. Do contrário, a Lógica do Jogo criada pode privilegiar comportamentos coletivos distantes do que idealiza para a equipe.

Aguardo sugestões de como você treinaria cada um destes Meios Táticos. Esta troca de informações é muito enriquecedora.

Para finalizar, lembre-se também que as preocupações técnicas-físicas-mentais para o desenvolvimento do jogo devem acontecer. Por isso, o controle adequado do tempo de estímulo, tamanho do campo, ações técnicas predominantes e até a observação e intervenção diante de comportamentos individuais durante o jogo devem ser estabelecidas para que o seu TODO seja contemplado.

E ainda falam que o futebol (ensinar e jogar) é fácil…

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br