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O jogo se vence nos detalhes

Como venho dizendo (de formas diferentes), o jogo de futebol incita um grande número de pessoas, dos “grandes especialistas” aos mais desavisados torcedores, a fazer algum tipo de leitura sobre as coisas que nele acontecem. “Martelarei” mais uma vez (missão não impossível!) que o jogo de futebol; artístico e imprevisível, é também Ciência.
A Ciência constrói hipóteses, as avalia, discute, cria teorias e busca explicações que defendam uma “tese” qualquer. Ela está presente na concepção de um carro de fórmula-1, na conservação prolongada de algum tipo de alimento exposto nas prateleiras do supermercado, nas cirurgias do coração ou na explicação do comportamento humano. Em resumo, hoje, com o grande avanço na qualidade e quantidade do conhecimento disponível, é improvável que os braços da Ciência não estejam encostados em alguma coisa.
O futebol não é “Ciência Biológica”, não é “Ciência Humana”, não é “Ciência Exata” (ingênua divisão das áreas). O futebol é Ciência Biológica, é Ciência Humana e é Ciência Exata ao mesmo tempo, o tempo todo (o futebol é Ciência “BioHumExa-HumExaBio-ExaBioHum”; e por aí vai…).
A Ciência no futebol, e em qualquer outra área, precisa estar empenhada a resolver problemas do dia-a-dia; da prática; pois se fosse apenas para um “teorizar” desvinculado da prática, não se faria útil. Então, vamos abrir os olhos para esse fato: ou buscamos conhecimentos; construtos científicos para entender e explicar melhor a prática, “praticando-a melhor e em altíssimo nível”, ou vamos ficar bem para trás (acreditando que Ciência é “teorizar por teorizar”).
Nessas duas últimas semanas no “Café dos Notáveis” (Café onde se discute diariamente futebol em alto nível) algumas discussões ganharam repercussão acentuada. Uma delas girou em torno da frase conhecida de treinadores e especialistas: “o futebol hoje é decidido nos detalhes”. A outra, dos gols de contra-ataque que “não se pode sofrer” jogando “fora de casa”. Como no Café dos Notáveis discute-se futebol cientificamente, façamos hoje, algumas observações sobre a primeira dessas duas discussões.
Seguimos então com a primeira questão: você concorda que hoje o futebol é decidido nos detalhes?
É fato muito comum que algumas partidas de futebol apresentam um nível de equilíbrio tão sólido que às vezes “amplifica-se” o argumento de que no futebol a defesa sobressai ao ataque. A alternativa dada pelos especialistas para resolver esse equilíbrio “inabalável” (inabalável?) são “as jogadas de bola parada”.
Ainda que pese o fato de que as bolas paradas são eventos em que o sistema defensivo “parte” de uma situação de equilíbrio (pois os jogadores podem estar onde quiserem, com tempo considerável para sua organização em campo), em competições internacionais os gols oriundos dessa situação representam em geral 30% do total.
É um número representativo se considerarmos que hoje o acesso a informação poderia permitir uma “pré-visão” das armadilhas preparadas por uma equipe nas jogadas de bola parada, diminuindo consideravelmente as chances de êxito do sistema ofensivo numa situação desse tipo. Então, para explicar os 30%, poderíamos levantar hipóteses (lembrem, para fazermos Ciência precisamos levantar hipóteses para explicar um problema) sobre pelo menos três direções: 1) Talvez os treinadores e equipes, com todas suas potencialidades, elaborem estrategicamente, contundentes variações para as jogadas de bola parada, de tal forma que possam realmente surpreender o adversário (que ao esperar uma coisa, se defronta com outra). 2) Outra hipótese, é a de que as equipes não variam pontualmente suas armadilhas, mas o adversário, mesmo sabendo o que virá pela frente, não seja capaz de se preparar adequadamente para tal situação. 3) Por fim, a terceira hipótese,é a de que uma equipe pode ou não variar suas estratégias nas jogadas ofensivas de bola parara, mas a outra não consegue, em tempo hábil saber quais são as armadilhas características do seu adversário (em outras palavras é como se uma equipe não tivesse informações sobre a outra).
Independente de qual seja a hipótese correta, o fato é que das três possibilidades apresentadas, a que mais depende da equipe executante (que ataca) na bola parada, é a primeira (grande variação de jogadas – executadas sobre a mesma plataforma – discutiremos isso em outro texto). Lamentável a constatação de um dos notáveis do Café, de que uma equipe brasileira que vem analisando, está fazendo a mesma jogada em uma situação de bola parada, em seus jogos nos últimos três meses (e ainda vem fazendo alguns gols nessa situação). Como isso é possível?
O jogo de futebol realmente poderia e deveria ser resolvido nos detalhes. Porém, vejo uma outra perspectiva de detalhes que não é explorada, por se aceitar que não “há mais o que inventar” taticamente no futebol. Sinceramente jogos demasiadamente equilibrados não podem ter como única alternativa de desequilíbrio “detalhes de bolas paradas” e muito menos de erros de fato, do próprio adversário em um momento de lapso.
Se não deixarmos passar despercebido o fato de que nas jogadas de bola parada a defesa adversária “parte” de uma condição de equilíbrio e que isso não é verdadeiro em muitos momentos do jogo com a bola “rolando”; o que estaria sendo mal aproveitado; as jogadas de bola parada ou as dinâmicas com a bola em movimento?
Se (mais uma vez eu repito) o sistema defensivo sobressai ao ofensivo em uma partida de futebol (muitos seqüências ofensivas para pouco aproveitamento do ataque), não é necessário a presença de grandes estrategistas para não levar gols. São necessárias sim compreensões básicas iniciais por parte dos jogadores. Mas para se desvencilhar de sistemas defensivos bem equilibrados e armados, desequilibrando-os; não tenham dúvidas, é necessário profundo conhecimento de uma série de conceitos e princípios táticos que compõe o jogo de futebol.
Com a bola rolando, por diversas vezes, o sistema defensivo se desequilibra (às vezes por frações de segundo). Estar habilitada taticamente para ter essa leitura e se aproveitar dela poderia ser uma arma muito útil nesse futebol do “nada de novo tem pra se inventar”.
Então, ou acreditamos nisso e deixamos “as forças do destino e dos deuses do futebol” resolverem para onde vamos, ou busquemos nós mesmos a “direção” do nosso avião tático; o jogo de futebol.
PARA ENTENDER MELHOR; A TEORIA DA BALANÇA:< /div>

Vejamos atentamente as balanças abaixo. Na posição A existe um equilíbrio entre seus dois lados. Na posição B ela apresenta pequenas oscilações que se alternam, com pequenas quedas para cada lado. Na posição C há um grande desequilíbrio, fazendo a balança pender acentuadamente para um dos lados.
              
 
Na concepção “tradicional”, um jogo equilibrado representaria a balança A, onde os dois lados (adversários) estão invariavelmente estáveis. O fato é que na realidade essa situação de equilíbrio estático não ocorre dessa forma no futebol (a não ser no início do jogo, antes do apito do árbitro; ou no posicionamento inicial de uma jogada de bola parada, também antes de um apito do árbitro).
No jogo o que acontece é uma constante oscilação entre equilíbrios e desequilíbrios que se alternam de uma lado para o outro, o tempo todo (balança B); ou seja, o equilíbrio que existe é dinâmico.
Nos jogos muito equilibrados, essas oscilações também ocorrem o tempo todo, em mesmo volume, mas com menor amplitude (os pratos da balança na verdade “micro-balançam”).
Uma equipe consegue levar vantagem sobre a outra quando essas oscilações geram um grande desequilíbrio que faz com que um dos lados sobressaia ao outro (balança C).
Há portanto a necessidade de se refletir sobre o que é mais fácil: causar desequilíbrio (tirar da inércia) acentuado na balança que está totalmente equilibrada (situação de bola parada – balança A) ou causá-lo em momentos de oscilações (em que se pode aproveitar o movimento a favor da inércia)?
Se assumirmos a idéia “tradicional”, continuaremos acreditando que nada de novo pode ser inventado taticamente (o que pode aumentar o investimento nas bolas paradas – e quem sabe também, aumentar o número de gols oriundos dessa possibilidade).
Se resolvermos “tomar a pílula vermelha” (referência ao filme Matrix – em que o personagem Neo deveria escolher entre tomar a pílula azul – que o manteria “cego” para coisas do mundo – e a pílula vermelha – que o libertaria para a realidade) talvez consigamos novas perspectivas para os desequilíbrios e equilíbrios do jogo, e ao invés de enxergarmos a balança A, possamos abrir os olhos para a balança B.
Para interagir com o aoutor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br
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O risco moral do futebol

Você sabe o que quer dizer “risco moral”? Caso desconheça, não se assuste. Não é um termo muito utilizado por aí, muito menos por pessoas que atuam ou acompanham o mercado futebolístico brasileiro. Deveria, pois.
 
O risco moral é derivado do mercado de seguros e surgiu no século XIX. Servia, a princípio, para classificar as pessoas não muito indicadas para quem se vender uma apólice de seguro. Essas pessoas eram aquelas que possuíam uma moralidade questionável e, portanto, tenderiam a tentar burlar e se aproveitar do sistema de seguros. Ao invés de fazer um seguro para tentar diminuir uma eventual perda, fariam o seguro pensando na receita proveniente da compensação pelo risco. Por exemplo, uma pessoa de caráter dúbio poderia adquirir uma apólice contra incêndios para sua casa e logo depois fazer uma fogueira no meio da sala, sem se preocupar com o risco de incêndio. Em último caso, o indivíduo poderia até atear fogo à própria residência propositadamente para receber o valor da cobertura. Como os vendedores de apólices da época não tinham como elaborar maneiras mais apropriadas para calcular o valor do seguro conforme as características de cada indivíduo, eles eram instruídos pelas seguradoras a não firmar contrato com pessoas com esse tipo de caráter, uma vez que essas pessoas apresentavam um risco moral.
 
A partir disso, surgiu a teoria do risco moral, que resumidamente sugere que ‘menos perdas por uma perda significa maiores perdas’, ou seja, que aqueles que possuem maior segurança cobrindo seus riscos tendem a tomar decisões mais arriscadas. Se você vai esquiar sem um seguro de saúde específico para esportes radicais, por exemplo, a tendência é que você tome mais cuidado ao descer a montanha, uma vez que qualquer tombo pode acarretar em uma fratura grave. Como o resgate nessas situações é feito na maioria das vezes por helicóptero, um acidente pode acabar custando muito caro. Se você vai esquiar com seguro, porém, a tendência é que você não se importe tanto em se machucar e desça do jeito que melhor lhe convier, uma vez que você não vai gastar dinheiro em caso de acidente.
 
O conceito de risco moral eventualmente saiu dos limites das apólices de seguro e hoje é bastante difundido no meio econômico, principalmente nas análises de investimentos bancários. Bancos, em geral, tendem a possuir o risco moral, uma vez que muita gente depende de seu funcionamento, o que acarreta em um posicionamento especial em relação ao mercado. Dificilmente um banco vai à falência, já que é provável que o governo da localidade na qual ele se encontra acabe o socorrendo. A quebra de um banco implica em graves conseqüências para todo o sistema financeiro, e por isso ele precisa ser protegido. Essa proteção, entretanto, permite que um banco faça apostas financeiras mais arriscadas, uma vez que o risco da operação não será necessariamente assumido completamente por ele. Isso é uma clara demonstração do conceito de risco moral.
 
No Brasil, é possível dizer que o futebol também possui risco moral, afinal é notável o papel que o futebol desempenhou na formação da sociedade brasileira atual, principalmente durante o século XX. Como o Estado se apoiou no futebol, e mais especificamente na seleção brasileira, para atingir alguns dos seus objetivos, é natural que o futebol ganhasse uma importância distinta para o povo e os governos brasileiros. Daí, inclusive, a sugestão de que a seleção deveria se tornar um patrimônio cultural brasileiro.
 
Tamanha importância do futebol no país acaba sendo refletida também nos maiores clubes, como Flamengo, Corinthians, Vasco, São Paulo, Palmeiras, Cruzeiro, Grêmio e afins, uma vez que se entende que esses clubes desempenham um papel fundamental na manutenção do status do futebol dentro do território nacional. Não obstante, os clubes possuem um funcionamento mercadológico, e como tal estão sujeitos às regras do mercado. Porém, assim como os bancos, os clubes de futebol no Brasil são importantes demais para simplesmente fecharem as portas, e acabam sempre sendo socorridos pelo dinheiro público.
 
O exemplo mais atual disso é a Timemania, que nada mais é do que um instrumento proveniente da esfera pública para tentar equilibrar o caixa dos clubes de futebol. Caso funcionassem como uma empresa qualquer, boa parte dos clubes de futebol do Brasil – quiçá do mundo inteiro, já teriam fechado as portas há tempos. Como eles possuem risco moral, entretanto, sempre se dá um jeito para solucionar os problemas.
 
As conseqüências do risco moral, entretanto, são graves. Na medida em que organizações possuem as conseqüências dos seus riscos assumidos por terceiros, elas tendem a embarcar em situações de riscos ainda maiores. Nos bancos, esse fenômeno pode ser observado principalmente através de empréstimos internacionais em excesso. No futebol, o fenômeno pode ser enxergado na manutenção de uma falsa estrutura financeira, manifestada principalmente através do pagamento de transferências e salários acima do valor com o qual um clube realmente pode arcar.
 
Enquanto o governo brasileiro continuar a enxergar os clubes do futebol como organizações que possuem risco moral, pouca coisa vai mudar no cenário atual. Na atual situação, os clubes continuarão a adotar estratégias arriscadas e o mercado continuará desequilibrado.
 
Fechar um clube de futebol, entretanto, não é coisa fácil. Você aceitaria ver o seu time encerrando suas atividades por conta de dívidas financeiras? O risco para o governo é muito grande. E no final das contas, para tomar uma atitude dessas, com o perdão do trocadilho contínuo e infame, é preciso que o governo tenha muita moral.
 
Coisa essa que, convenhamos, está um pouco em falta.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Volantes que guiam

Hernanes era meia-esquerda do júnior quando estreou pelo São Paulo, no BR-05. Naquela vitória simples contra o Botafogo, no Morumbi, foi escalado por Paulo Autuori como ala-esquerdo. Hábil e abusado, ambidestro raro, deu algumas pedaladas pelo canto esquerdo. Mostrou serviço e predicados. Naquele São Paulo multicampeão de 2005, teve pouco espaço, e foi emprestado, em 2006.

Voltou ao Morumbi como opção de elenco. Sem Mineiro, sem Josué, sem Fredson, sem uma boa reposição de valores para a cabeça da área, Hernanes foi testado por Muricy como volante-esquerdo, na vitória magra sobre a Ponte Preta, no SP-07. Marcando pela esquerda, ao lado de outro meia improvisado na função (Souza), Hernanes foi eficiente. Mas só ganharia peso, corpo, espaço e um lugar no time do outro lado, fazendo dupla com Richarlyson – ou com Jorge Wágner, dependendo do jogo, e do jogador a ser marcado na ala esquerda são-paulina.

Richarlyson é outro que começou a ganhar a vida como ala-esquerdo do Santo André. Rodou Brasil e o mundo da bola buscando um lugar em campo. Foi meia. Foi até zagueiro com Muricy (tem ótima impulsão e invejável preparo físico). Tem sido bom lateral, com mais obrigações defensivas. Mas vai melhor mesmo como volante improvisado, fazendo excelente dupla com Hernanes. Combinando alterações táticas com Jorge Wágner, outro misto de meia-ala-lateral-volante tricolor.

Os improvisados-definitivos Hernanes e Richarlyson fazem parte do sistema defensivo mais próximo da eficiência neste Brasileirão – e com chances reais de ser em todos os campeonatos, a partir de 1971. “Sistema defensivo”, por favor, e não “defesa”. Por mais que Rogério Ceni seja a bandeira que é, por melhor que sejam Breno (que futuro!), Miranda (que zagueiro!), Alex Silva ou André Dias (que presentes!), todo o São Paulo marca. Começando por Aloísio e Dagoberto (ambos entre os dez atacantes que mais desarmam no BR-07, pelas contas do Footstats), passando pelo suor de Leandro, e, se os adversários conseguirem, passando por um time que pouco deixa passar.

É um São Paulo que também bate. Está quase sempre entre as quatro equipes mais faltosas do BR-07, e nem sempre entre as quatro que melhor desarmam. Hernanes e Richarlyson estão entre os que mais caçam bolas e canelas nas mesmas proporções. Mas o melhor da dupla improvisada (definitiva) é que eles têm marcado como tantos volantes desgovernados que pululam pelos campos, mas também sabem armar, criar e chegar para finalizar como meias de caderneta. No caso de Hernanes, finalizando com rara felicidade com os dois pés.

É o sonho de nove em dez treinadores: um jogador que marque como zagueiro sem a bola, e jogue como atacante com ela aos pés. É um dos tantos “segredos” conhecidos do grande líder do BR-07. Do time que só não tem o melhor ataque do campeonato porque o Cruzeiro ainda tem o futebol mais ofensivo, envolvente e bacana do Brasileirão. Mérito do treinador Dorival Júnior (um volante de ofício, nos anos 80 e 90). Ele soube extrair de um elenco descompensado a força ofensiva que o levou muito além do encomendado:

“O principal para acharmos a equipe ideal do Cruzeiro foi nos voltarmos para aquilo que tínhamos de melhor. Vimos que tínhamos vários meias e atacantes muito bons no elenco. Se temos um elenco mais ofensivo que defensivo, vamos jogar assim. Ainda não temos o equilíbrio necessário para buscar a liderança. Mas fico feliz porque estamos achando um jeito de jogar um futebol mais alegre. Confesso que estou muito satisfeito com o time, pelo modo dele jogar. Prefiro estar jogando esse tipo de futebol a estar mais próximo do São Paulo, com um time mais defensivo”.

Júnior optou pelo ataque até pela falta de outras opções a partir do meio-campo. A dupla hoje titular (Charles e Ramires) segue a linha de jogo da anterior (Léo Silva e Ramires). São segundos volantes com pés de meias. Para não dizer que são meias com funções de volantes. Se a defesa fica vulnerável (até pela falta de maior qualidade dos zagueiros celestes), quem precisa se proteger são os rivais, detonados por meias e atacantes de qualidade e apetite insaciável, e por meias que chegam a todo momento, com intensidade louvável.

No frigir das bolas: o melhor time do Brasil marca como nenhum outro sem volantes de cabeceira e de cabeça-de-área; o melhor ataque do Brasil joga sem volantes.

E por que diabos ainda tem tanta gente recheando suas equipes de cérberos descerebrados, optando por medusas táticas de vários cabeças descabeçados de área?

Voltaremos ao tema, falando mais do Inter de 1975-76. O de Falcão, Batista e Caçapava. O melhor time do Brasil nos anos 70.

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Por que não mudar?

O São Paulo é o virtual campeão brasileiro de 2007. Será o primeiro pentacampeão nacional sem qualquer contestação na Justiça (lembre-se do Flamengo de 1987, que ganhou; mas, para a CBF, não levou). Será o primeiro bicampeão da era dos pontos corridos. Pode ser o primeiro campeão dessa era com muitas rodadas de antecedência, ao contrário das outras quatro edições, quando o título foi decidido faltando no máximo três rodadas.
 
Não pairam dúvidas sobre a conquista iminente do São Paulo. Só que, por incrível que pareça, ainda surgem questões, fomentadas pela imprensa, sobre o sistema de disputa do campeonato por pontos corridos.
 
Os proféticos do apocalipse dizem que o campeonato perdeu a graça, que o torcedor não vai ao estádio, que ninguém dá bola para a competição. Como explicar que, nesta última rodada, tivemos mais de 30 mil pessoas para Botafogo x Fluminense; quase 20 mil em Palmeiras x Corinthians e por aí vai?
 
Os pontos corridos coroam o time que é mais regular, que tem o melhor planejamento, que procura ter os melhores jogadores para oito meses de competição, que se prepara um ano inteiro para ser melhor. A chance de imprevisibilidade é muito menor nesse formato de disputa, vide a falta de discussão, desde 2003, sobre injustiças na conquista, à exceção do título nacional de 2005, manchado pelo escândalo do apito.
 
O São Paulo campeão é o mesmo que era criticado no início do torneio após as quedas na Libertadores e no Paulistão. Era o time que não poderia ter Muricy Ramalho em seu comando por se tratar de um treinador que não sabia escalar o próprio time. Para variar, a volatilidade da imprensa é a mesma que se observa com alguns clubes neste Brasileirão…
 
Mas além da questão esportiva vale lembrar também algumas alterações, às vezes não perceptíveis ao torcedor (mas que devem estar escancaradas ao profissional do futebol), que revolucionaram o futebol brasileiro desde 2003.
 
Hoje só existe um clube na Série A sem patrocinador na camisa. E esse clube é o Vasco, sempre muito associado a Eurico Miranda. Ou seja, 19 equipes contam com a verba de uma empresa que investe para ter exposição na camisa.
 
Hoje não existe um clube que pare de jogar em setembro/outubro e só volte às atividades em janeiro. Ou seja, o fluxo de caixa não está estagnado e os atletas continuam a receber salários para realizar sua atividade-fim.
 
Hoje o Campeonato Brasileiro tem um patrocinador principal, a Nestlé, que paga para realizar ações promocionais em alguns jogos. Somente com o campeonato por pontos corridos, em que se sabe, desde novembro do ano anterior, quais são os jogos até dezembro do ano seguinte, que é possível um patrocinador investir no campeonato.
 
Hoje a média de público, obviamente turbinada pela Nestlé, é maior do que a média de todos os campeonatos disputados nesta década.
 
Por que não deixar tudo como está? Deixemos a imprevisibilidade do mata-mata para Estaduais, Copa do Brasil, Sul-Americana, Libertadores…

Para interagir com o colunista: erich@universidadedofutebol.com.br

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O bom passe e a estratégia de contra-ataque

“Tenham como princípio que só se pode ser vencido por erro próprio e que só se atinge a vitória por erro inimigo” (Sun Tzu – A Arte da Guerra).
 
Pois bem. No jogo de futebol, as situações que levam a gols e que potencialmente podem levar à vitória ocorrem basicamente de duas formas: pelo erro (desequilíbrio) defensivo de uma equipe, gerado e induzido por uma ação do adversário, ou de uma segunda forma, pelo erro próprio, de fato, da própria equipe.
 
Em outras palavras, uma equipe constrói sua vitória desequilibrando o adversário com estratégias ofensivas e defensivas, ou vence por “incompetência” do adversário, que gera seus próprios desequilíbrios (ou “se faz as brechas ou se aproveita as que aparecem”).
 
Notório que no jogo de futebol as jogadas que resultam em gols têm em sua maioria um tempo muito pequeno de duração (alguns segundos). Essas “jogadas rápidas” acabam sendo maciçamente originadas em situações de “erro próprio”, erro que, aproveitado pela outra equipe desencadeia contra-ataques. Os contra-ataques, com igualdade, desvantagem ou vantagem numérica são, segundo pesquisas científicas (das mais antigas até as mais recentes), proporcionalmente à sua ocorrência (e excluindo-se as jogadas de bola parada), a melhor maneira para se chegar com perigo à meta adversária.
 
Uma equipe, quando está tentando recuperar a posse da bola, pode, segundo sua estratégia, buscar essa recuperação de forma direta ou de forma indireta. Na forma direta, busca-se o confronto rápido e ativo. Na forma indireta, busca-se fechar os espaços e espera-se o erro adversário.
 
Equipes com bons passes (com média pequena de erros nesse fundamento em suas partidas) são aquelas que raramente sofrem contra-ataques. Como eles (os contra-ataques) são seqüências ofensivas perigosas e eficientes que podem resultar em gols, acabam acontecendo em menor freqüência contra essas equipes (de bons passes).
 
Em outras palavras, como os contra-ataques em sua maioria ocorrem depois de erro do adversário (erros de condução, drible, passes, etc.) e é o passe o fundamento que mais ocorre no jogo, equipes que passam melhor tendem a sofrer menos contra-ataques. Se sofrem menos contra-ataques, reduzem as chances de sofrerem gols.
 
É claro, e que fique mais claro ainda, que não é só de contra-ataques que vive uma partida de futebol. Jogadas de bola parada, ataques posicionais (aqueles construídos a partir de um número maior de toques na bola, com maior duração), ataques rápidos e reposições são estruturas tão importantes e estratégicas quanto os contra-ataques, e com ele compõem as “formas” e dinâmicas do jogo de futebol. O ponto chave é que em comparação com outras situações de bola em jogo, jogadas de contra-ataque são mais eficientes e eficazes.
 
Notemos, no entanto, que o contra-ataque (pois nada impede que seja assim) poderia ser oriundo de uma forma direta de recuperação da posse da bola (e não necessariamente indireta) – aliás, deveria ter em sua maioria início a partir de uma forma direta de recuperação.
 
Como muitas vezes jogadores e treinadores não estão acostumados com a aplicação prática do conceito de sistema defensivo (em sua essência), acabam não observando a possibilidade de criar estratégias para não mais aguardar o erro adversário, mas sim induzi-lo diretamente a isso.
 
O São Paulo (primeiro colocado na tabela do Campeonato Brasileiro de 2007) é uma equipe de excelente qualidade de passes. Erra muito pouco. Trabalha bem a bola. Sofre poucos contra-ataques. Toma poucos gols (é a defesa menos vazada da competição). E de raros os gols sofridos pela equipe, só em um jogo, contra o Boca Juniors, sofreu dois. E o que a equipe argentina fez que equipes brasileiras que jogaram contra o São Paulo não fizeram estrategicamente (nos lembremos antes de responder que nos últimos confrontos com equipes nacionais o São Paulo defendera um pênalti no fim do jogo contra o Atlético-MG e depois de algumas partidas sem tomar gols, sofrera um do Santos)?
 
A resposta: dificultou o passe são-paulino. Como? Marcando pressão a saída de bola da equipe, forçando-a diretamente ao erro. E o que mais? Uma lição de como se marca em zona no meio campo defensivo (com sete jogadores voltando para fazer a marcação, e não oito, nove ou dez) e outra de como se pode arriscar com inteligência (subindo com os dois laterais ao mesmo tempo para o ataque e alternando cinco a sete jogadores dentro do meio-campo ofensivo, participando efetivamente da construção das jogadas).
 
A equipe brasileira, pouco acostumada a receber esse tipo de marcação, ainda se esforçou para manter o controle e sair jogando com toques rápidos em vez do tradicional “chutão’ para se livrar da bola. Mas como tudo que é bom dura pouco (não devemos acreditar nisso!), com 15 minutos de jogo já estavam os jogadores brasileiros investindo nos chutes (e não lançamentos) para frente. Com 20 minutos já eram maioria.
 
No “maior tratado de guerra de todos os tempos”, A Arte da Guerra de Sun Tzu, infere-se que “a invencibilidade repousa na defesa”. Não perder é garantir equilíbrio defensivo o tempo todo; é não errar.
 
Então, buscar estratégias para garantir que o adversário não seja capaz de se manter em equilíbrio defensivo o tempo todo é o ponto de partida para que ao se atingir o “não perder” uma equipe seja capaz de alcançar o “ganhar”. O futebol é um esporte em que a defesa sobressai ao ataque. São muitas seqüências ofensivas e poucos gols (diferente, por exemplo, do basquete). Então, teorizar sobre a facilidade de não se perder parece mercadoria fácil de se comprar. Mas isso está errado, pois ao se admitir esse pressuposto fechamos os olhos para as possibilidades de se ir contra ele.
 
É a preguiça do pensar que está fincada no futebol. É a “inércia acomodativa da involução”.
 

E por falar nelas (a preguiça do pensar e a inércia acomodativa), o “Foca” (Kerlon) cruzeirense que se cuide. Os “preguiçosos” de plantão (postes parados no tempo – inércia do não movimento), como não querem pensar no como desarmar a jogada diferente, já fazem suas promessas e previsões – “o Foca vai ficar sem nariz”. Pois bem. Melhor sem nariz do que sem cérebro…

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Orientação nutricional no controle do peso competitivo

Somente a grande habilidade técnica não é requisito suficiente para atingir o sucesso no futebol. O controle de aspectos relacionados à composição corporal, principalmente o percentual de gordura, possibilita um melhor desempenho dos jogadores. Está evidenciada a incompatibilidade entre a excelência competitiva e os altos índices de adiposidade subcutânea.

Um dos fatores para este aumento no percentual de gordura corporal está relacionado com mudanças de comportamento após jogos e dias de folga em que, na maioria das vezes, se faz o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e a ingestão de lipídeos acima do limite estabelecido.

Para alcançar uma composição corporal ideal os jogadores costumam utilizar métodos não saudáveis, assim um trabalho de orientação nutricional se faz necessário já que é um aspecto fundamental para se conseguir obter o peso competitivo, fazendo o consumo de quantidades adequadas tanto de macro como de micronutrientes.

Uma dieta para redução de gordura corporal não poderá sofrer uma redução severa de calorias, uma vez que a mesma poderá diminuir o rendimento do atleta e automaticamente seu gasto calórico. A dieta deverá ter uma diminuição do consumo de alimentos ricos em gorduras, pobres em nutrientes e de alta densidade energética.

Um trabalho multidisciplinar também se faz necessário para que o jogador tenha consciência dos benefícios ao habituar-se a uma alimentação saudável regularmente.

* Victor Azevedo é nutricionista do Rio Preto Esporte Clube – vinutri@terra.com.br

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As nuances táticas ocorridas dentro de uma partida

O mundo parou para ver o futebol total de Rinus Michels com seu Carrossel holandês na Copa do Mundo de 74. As trocas de posições davam uma impressão de desordem em campo, mas que na verdade eram partes que se organizavam no todo, que é o jogo propriamente dito.

O tempo foi passando e a modernidade do futebol aumentando, ao ponto de se tornar mais físico do que tático no que se diz em novas tendências na área da educação física. Por isso, a proposta de várias mudanças no sistema tático em um jogo devem sempre ter uma grande e primordial preocupação, que é a chamada cobertura ofensiva. Quando se fala em termos ofensivos, sempre vem em mente as estratégias de assistências dos meias, cruzamentos dos laterais ou alas e por fim algum tipo de lançamento ou virada de bola dos volantes. Todas estas opções de ataque são essenciais para se ter um êxito dentro da partida. Mas o grande trunfo é compreender que na verdade quando um time ataca ao mesmo tempo ele se defende.

O nível de concentração de quem executa a cobertura deve ser muito grande, ao ponto de sempre estar por trás da jogada compromissado em desarmar um eventual contra – ataque. Usando o exemplo do Vôlei, sempre quando é feita uma jogada de ataque – no caso a cortada – o time deve estar posicionado para recepcionar o bloqueio do adversário. Para isto acontecer, tem de haver uma cobertura dos jogadores.

Tendo a organização de cobertura ofensiva, a equipe pode assim mudar de um sistema 3-5-2 para um 3-4-3 fazendo com que os alas virem atacantes, volantes se tornem meias, zagueiros serem alas e assim por diante. Mas para isto acontecer, o time deve estar bem treinado nas estruturações de espaços, pois se uma “peça” do contexto geral falhar no sistema, a equipe ficará vulnerável em uma armação do adversário. Isto ocorre por conta de um jogador marcar dois ao mesmo tempo, pois estavam mal posicionados no momento da posse de bola.

Logicamente que estas opções não são “receitas de bolo”, pois todo esquema tático, deve se adequar com o plantel que o treinador possui. Não adianta pensar em um esquema que use os alas para serem atacantes, se as opções são de jogadores que cadenciam mais o jogo. Ou então realizar trocas de volantes com meias, se eles forem de características mais defensivas do que ofensivas. Enfim, cada time deve ter seu sistema de jogo próprio como padrão.

Para se ter uma equipe compacta na hora de defender e dinâmica no momento de ataque, o time deve ter sabedoria de perceber o adversário, ou seja, se marcam pressão, em intermediária ou então atrás do meio-campo. Para isto acontecer, a comissão técnica deve estar integrada, pois é muito importante as presenças além do head coach o preparador físico e psicólogos (estes para assessorar o emocional do atleta que se eleva em um jogo), para se ter então um time de imensa concentração tática do começo até o fim de uma partida.

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Computação no futebol

“Computação não se relaciona mais a computadores. Relaciona-se a viver.”
Nicholas Negroponte

O mundo é complexo. Estudar o funcionamento de tudo é uma tarefa impossível. A fragmentação do conhecimento é uma maneira de se tornar o aprendizado mais simples. Pode-se notar melhor essa tendência analisando o crescente aumento dos cursos de graduação e pós-graduação no Brasil. Tal simplificação, por outro lado, complicou a compreensão de fenômenos mais complexos. Para esses casos existe a necessidade de integrar diferentes áreas para superar uma barreira, a tão discutida interdisciplinaridade. A computação, dada sua velocidade e precisão, possui excelente inserção como agregadora nestas situações.

Durante o processo de formação do profissional da computação, o mesmo é capacitado para desenvolver ferramentas que solucionem um problema. A principal dificuldade na solução de um problema passa pela definição do mesmo. Portanto a presença de especialistas que utilizarão essas ferramentas é primordial para o funcionamento da mesma, ou seja para o detalhamento do problema.

Na Scoutonline a presença de profissionais da área esportiva é intensa. A definição e o destrinchamento do problema é realizada toda por eles, sempre em contato com profissionais atuante da área. Cabe aos profissionais da parte de computação transformar a teoria em prática e desenvolver softwares (ferramentas) para facilitar a vida deles.

A definição da metodologia adotada é estudada, debatida, aplicada e constantantemente aperfeiçoada e, junto à coleta de dados em tempo real, sendo esta realizada pelos profissionais esportivos, após um intensivo treinamento. É primordial que para tal interdisciplinaridade exista uma sincronia e aprofundamento e exploração dos conhecimentos de cada área, trazendo à tona as habilidades e competências que se complementam.

A definição dos filtros (mecanismos e dinâmicas de consultas às informações) e imagens geradas através dos dados do jogo também é proposta pelos profissionais esportivos. Informações tais como: passes efetuados – para quem um jogador passa a bola – , passes recebidos – de quem um jogador recebe a bola, fluxo de passes, posicionamento tático por peso de ações, distribuição da posse de bola é toda realizada por tais profissionais. Cabe ao pessoal da computação criar os recursos necessários, o onde muitas vezes se torna necessário a criação ou adaptação de hardwares, para automatizar o processo.

O computador está cada dia mais presente nas nossa vidas como elemento facilitador. Ou será que você está tão acostumado a utilizar seu editor de textos favorito que não consegue mais perceber a quantidade de recursos que ele lhe oferece? Ou então experimente perguntar ao gerente do seu supermercado como era feito o controle de estoques antes dos computadores. Os softwares desenvolvidos na Scoutonline permitem analisar rapidamente os dados e gerar informações tais como imagens através das quais consegue se visualizar situações que não estejam claras à olho nu. Será que não vale a pena ampliar o número de softwares que você utiliza no seu dia-a-dia?

* Rodrigo Grassi Martins é mestre em Ciência da Computação responsável por projetos da ScoutOnline

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O que um treinador deve saber sobre psicologia do esporte para trabalhar no futebol?

O treinamento no futebol tem como objetivo aprimorar as capacidades físicas (força, velocidade, resistência aeróbica e anaeróbica, coordenação e outras), técnicas e táticas (individual, grupo e equipe) do rendimento. No entanto, os pretensos resultados dependem muito e diretamente da condição psicológica dos atletas.

Observa-se entre os envolvidos no futebol competitivo (atletas, técnicos, preparadores físicos, dirigentes, jornalistas e outros) a constatação da importância do fator psicológico dos atletas. No entanto, esses mesmos criticam a falta de treinamentos específicos para o desenvolvimento/ controle dos aspectos psicológicos.

A desarmonia psicofísica é fator inibidor do rendimento, e como o problema da preparação psicológica, faz do treinamento em futebol. Todo esforço deve ser feito para permitir aos jogadores responderem positivamente aos estímulos psicológicos que aparecerão nos treinamentos e jogos.

A psicologia do esporte facilita a preparação e dinamiza o rendimento do jogador de futebol. Devido à exigência de constante melhoria no rendimento (vitórias). Cabe à psicologia do esporte ajudar o jogador a desenvolver por completo sua capacidade de rendimento em potencial, de modo que ele seja capaz render satisfatoriamente no jogo. A psicologia do esporte tem como uma de suas tarefas ajudar técnicos e jogadores a transformar seus conceitos subjetivos irrealistas em objetivos realistas.

Dentro dos principais propósitos da preparação psicológica temos:

– determinação de objetivos realistas
– mobilização da energia psicofísica
– controle do estresse
– motivação para o rendimento
– aperfeiçoar o autocontrole
– desenvolvimento da concentração

A partir desse primeiro ensaio, serão apresentados alguns dos principais fatores psicológicos que influenciam diretamente rendimento no futebol e que necessitam ser conhecidos por jogadores e técnicos de futebol. Apresentaremos nos próximos artigos os temas motivação, concentração, ansiedade, estresse, autoconfiança, relaxamento e medo.

Bibliografia

Al Huang C, Linch J. O Tao do Esporte. São Paulo: Editora Best Seller; 1992.
Thomas A. Esporte: introdução à psicologia. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico; 1983.
Feijó OG. Corpo e Movimento: uma psicologia para o esporte. Rio de Janeiro: Shape; 1998a.
Samulski D. Psicologia do Esporte. Barueri: Manole; 2002.
Weinberg RS, Gould D. Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício. Porto Alegre: Artmed; 2001.
Miranda R, Bara Filho MG. Motivação no Esporte. Scape 2002; 1 (1): 53-62.
Cox RH. Sport Psychology Concepts and applications. Dubuque: Brown and Bench-Mark; 1994.
Bara Filho MG, Miranda R. Aspectos Psicológicos do Esporte Competitivo. Treinamento Desportivo 1998; 3 (2):75-84.

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Peripécias Indígenas

Ídolos

O jogo estava marcado, mas uma tribo ficou presa na estrada. Sem ter adversário para a primeira partida, os Kayapó entraram em campo para mostrar um pouco da sua cultura. Os índios chegaram calados, vestindo seus adornos e exibindo pinturas por todo o corpo. O chefe da tribo, que era também o treinador do time, chegou com uma bermuda jeans, descamisado, com o corpo todo pintado. A impressão inicial foi de que ele estava seguindo o protocolo; se estivesse na sua tribo, ele não teria vestido aquela bermuda. Em respeito aos “civilizados”, adotou o traje como sendo “oficial” para o evento.

Os índios se espalharam pelo campo. Apresentaram algumas danças, entoaram seus cantos, e ali ficaram para verem e serem vistos. Além das pessoas que estavam trabalhando, havia em campo alguns moradores da cidade que foram assistir ao jogo daquele dia. Enquanto tentávamos entrevistar os índios para a nossa pesquisa, uma das crianças nos pediu uma caneta emprestada. Sem compreender o motivo, entregamos o objeto para a menina, que imediatamente virou para o nosso entrevistado e lançou a pergunta: “Me dá um autógrafo?”. Isso bastou para que dezenas de crianças viessem rodear o índio, com canetas e pedaços de papel na mão, esperando ansiosamente a preciosa assinatura. O índio rabiscava os papeizinhos rapidamente, sem entender direito o que estava acontecendo. Quando terminou de escrever pela última vez o seu nome, a criançada inventou de colecionar autógrafos, e atacou mais três índios. Dessa vez o espanto foi nosso, quando percebemos o orgulho deles em dar aqueles autógrafos. Estávamos mesmo diante de grandes ídolos?

Uma chegada triunfal

Os Kayapó esperaram o time adversário em vão. A tribo Gavião não chegou no primeiro dia.

Mais tarde, a história dessa viagem virou lenda. O ônibus vinha de Porto Seguro e quebrou quando passava por Governador Valadares-MG. Os índios tiveram que esperar uma providência: ou consertavam o ônibus ou mandavam outro ônibus para concluir a viagem. Resolveram consertar o ônibus para levar os jogadores o mais rápido possível até Juiz de Fora, porque eles estavam atrasados um dia para o campeonato.

A notícia de que eles já estavam a caminho aliviou os organizadores, que começaram logo a mudar a tabela para encaixar os jogos com a tribo. Mas os Gavião não estavam com sorte. Durante a viagem, o ônibus atropelou uma moto. A polícia apareceu e todos foram encaminhados para delegacia para esclarecer os fatos. Nos bastidores do campeonato todos tentavam imaginar a cena: quase trinta índios diante do delegado acusados de atropelar uma moto.

Finalmente, liberados da cadeia eles conseguiram chegar a tempo de jogar nos últimos dias. A história virou a lenda do campeonato e os índios deviam ter ganhado um troféu pela disposição de enfrentar tanta aventura.

Índios consumistas

No segundo dia da competição estava marcada uma partida para as cinco horas da tarde. Os organizadores e os jogadores estavam esperando o time adversário para iniciarem o jogo. Depois de uma hora, eles começaram a ficar preocupados com tanta demora. A dúvida sobre o que teria acontecido com a tribo Kanela era maior porque já tinha chegado a notícia de que eles não estavam mais no alojamento há muito tempo. Mas, se não estavam em campo, por onde andavam?

Foi então que aconteceu o inesperado. Sete táxis chegaram e trinta índios desceram dos carros carregados de sacolas de compra, exibindo os nomes de lojas do centro da cidade. Com total naturalidade, os índios pagaram os motoristas e se dirigiram ao campo para enfim começar a partida. Perplexos, os organizadores resolveram cancelar o jogo daquele dia e dispensar todos os atletas. Era preciso um tempo para assimilar a cena que tinham acabado de presenciar.

Como punição pelo impulso consumista, a tribo Kanela teve que jogar três vezes no dia seguinte. Mesmo eliminados da competição, devem ter ficado muito satisfeitos com o tour que fizeram em terras mineiras.

Impressões e devaneios

Talvez a pergunta mais recorrente durante os quatro dias do campeonato tenha sido esta: “Somos todos cidadãos de um mesmo Brasil?” Se já nos deparamos com essa dúvida em dias comuns, isso fica maior quando estamos diante de pessoas tão “diferentes” de nós. O impacto de conhecer cidadãos do seu país, que não falam a mesma língua que a sua, gera a incerteza de compartilharmos sentimentos patriotas. É claro que existem inúmeros modos de falar o português, mas com boa vontade todos são compreensíveis. Porém, o idioma utilizado por algumas tribos brasileiras é outro, nada semelhante àquele que usamos. O saldo positivo depois do choque de se ver inserido em uma sociedade muito mais diversa é saber que os índios tentam preservar sua cultura, continuando a usar a língua materna.

Curumim

Outro momento pitoresco aconteceu durante a manhã do sábado, terceiro e penúltimo dia da competição. A tribo Yawalapiti estava jogando, seus reservas estavam no banco torcendo, observando atentamente a partida e as instruções do treinador. Um deles estava acompanhado da mulher e do filho, um indiozinho de três anos. Ele não falava e não entendia nada de português, mas olhava curioso para aqueles estudantes que faziam tantas perguntas. O curumim era uma graça, pequenininho e gordinho, com o olhar curioso próprio de toda criança. E ficou ao lado do pai brincando com seus óculos escuros. A observação curiosa vinha da comparação entre a criança índio e as outras crianças “homem-branco” que estavam acompanhadas de seus pais para conhecerem o futebol indígena. Impossível imaginar a convivência entre mundos tão distintos, culturas extremamente diferentes.

Índios modernos

A lembrança final trouxe à memória o primeiro jogo. Não propriamente os lances futebolísticos, mas a chegada e a entrada em campo da tribo Xacriabá. Todos os jogadores estavam usando “Ray-Bans” e o treinador ouvia tranquilamente seu i-pod. Só faltou ele tirar do bolso um celular para se comunicar com algum auxiliar-técnico estrategicamente posicionado no topo da arquibancada, aderindo assim à moda dos grandes treinadores brasileiros.

Na memória

A imagem escolhida como a mais bonita foi a confraternização entre duas tribos. Primeiro, entraram em campo de mãos dadas, assim como fazem as estrelas do futebol mundial. Após a partida, cada tribo fez uma dança. Duas rodas separadas, duas cirandas em lados opostos. Um elo invisível entre aqueles que permitem a sobrevivência da cultura de nossos ancestrais, da nossa história.

* Débora Nobre Monteiro é membro do O Núcleo de Pesquisa em Comunicação, Esporte e Cultura da UFJF