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Perdeu? Demite o técnico!

A nossa gestão do futebol, por mais que estejamos com enormes boas intenções de elevar o nível da nossa capacidade de gerir esse negócio sensacional, não resiste a algumas derrotas e uma ameaça real de descenso à Série B.

Bastam alguns momentos de instabilidade e insucessos repetidos que tudo aquilo que já tenha sido realizado seja passado remoto e, assim sendo, permaneça esquecido na memória dos executivos do futebol.

Em momentos como este, talvez, a solução mágica que todos estão acostumados no futebol brasileiro, a troca de técnico, não esteja mais fazendo o efeito e muitos executivos perguntam-se o que fazer.

Torna-se muito claro que muitas equipes, mesmo com bons elencos, não conseguem os resultados desejados por falta de confiança e ansiedade elevada durante as partidas. São falhas antes não cometidas, uma infinidade de gols incrivelmente perdidos que levam a equipe a derrota inesperada e a destruição da autoconfiança dos atletas.

Hoje, já é mais do que uma realidade os benefícios do trabalho de coaching no mundo corporativo e o esporte também tem colhido resultados com esse trabalho. Sendo assim, o que me parece faltar para apoiar na busca por objetivos comuns, desenvolvimento de equipes colaborativas, correções de rumo ou mudanças de rota de uma equipe de futebol é um trabalho de coaching sério e sustentável que proporcione alguns dos benefícios abaixo citados.

– Para os atletas e as equipes

• Aumento de performance
• Controle emocional
• Concentração
• Aprendizado e melhoria contínua
• Capacidade de recuperação

– Para técnicos e executivos

• Melhora o relacionamento interpessoal
• Aumenta relação de confiança
• Agrega novas competências de liderança
• Autoconsciência
• Autodisciplina
• Motivação
• Empatia

Um trabalho adequado de coaching pode contribuir como mais uma disciplina no universo do futebol, complemento este que pode potencializar, em conjunto com as demais disciplinas, o desempenho esportivo das equipes de futebol.

Novos caminhos são construídos com avaliação de novas disciplinas e novas alternativas na busca do desempenho de alta performance através da promoção de um comportamento diferenciado de todos os envolvidos no futebol, como os atletas, técnicos e os próprios executivos do futebol.

Infelizmente o futebol só recorre a novas iniciativas em momentos de desespero por uma situação de risco do descenso ou na iminência de alguma possível grande perda para o clube.

Mesmo sabendo que um trabalho de coaching para sustentar uma verdadeira transformação precisa ser feito de maneira evolutiva e construtiva, se faz necessário atender a esse chamado velado do futebol por novas disciplinas que possam contribuir com as já existentes, para promover um ambiente de performance elevada e maturidade de gestão nos clubes; e o com certeza o coaching é uma dessas novas disciplinas para o futebol.

E você, amigo leitor, também acredita que o trabalho de coaching pode contribuir com a melhoria de performance e a consequente redução no troca-troca precipitado e desenfreado de treinadores nos clubes de futebol?!

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O futebol, alegria do povo, já não é mais popular

O futebol no Rio de Janeiro nunca mais será o mesmo — e o modelo pode predominar no resto do país. De carona no "padrão Fifa de qualidade", o Maracanã, o único estádio do Estado capaz de abrigar grandes públicos, foi reformado, arrendado e agora está subjugado a novas regras de negócio e comportamento. A elitização é inevitável.

Depois da reforma para a Copa do Mundo, em que foram gastos mais de 1 bilhão de reais, o Maracanã foi arrendado pelo consórcio Complexo Maracanã Entretenimento S.A, formado pela Odebrecht, IMX e AEG, por 35 anos. Durante esse prazo o consórcio terá que pagar R$ 5,5 milhões por ano e investir R$ 594 milhões em obras no entorno — e pretende faturar, líquido, mais de R$ 1 bilhão.

Mas, tem direito a estabelecer as regras de uso. Assim, o consórcio acaba de fechar um negócio com o Fluminense, que deverá mandar seus jogos no estádio pelos próximos 35 anos. Segundo o acordo, o clube não terá que pagar "nada", mas só poderá faturar com a venda de 43 mil ingressos, correspondentes a 56% da capacidade no Maracanã. São os piores lugares. Os melhores e que dão mais lucros, como os camarotes vendidos a empresas, são do consórcio — e a empresa já estabeleceu que o preço mínimo dos ingressos será de R$ 100.

Mais do que isso, vai divulgar, em breve, um Termo de Ajuste de Conduta, estabelecendo regras para a torcida que frequentar o estádio. Nelas, estão previstas a proibição de instrumentos musicais e o hábito carioca de assistir aos jogos sem camisa — além de limitar o tamanho das bandeiras. O consórcio quer cobrar caro e só ter "gente fina" no estádio.

O negócio não agradou ao Flamengo que, sem estádio, vai perambular pelo Brasil afora para mandar seus jogos no Campeonato Brasileiro. Principalmente em Brasília, no estádio Mané Garrincha, cujo consórcio gestor (formado pela Andrade Gutierrez e Via Engenharia) oferece condições melhores nas negociações.

Estão, na verdade, caçando times para jogar no estádio que foi construído para a Copa do Mundo e que promete ficar às moscas. O Botafogo deverá fazer um acordo de curta duração porque pretende mandar seus jogos no Engenhão, depois que for reformado.

O arrendamento dos estádios municipais é uma realidade aparentemente inevitável — e com ele a elitização definitiva. Há ainda resistências, mas baseadas exclusivamente nas condições das negociações. O Atlético Mineiro, por exemplo, recusa-se a jogar no Mineirão, arrendado pelo Consórcio Minas Arena S.A. (Construcap, Egesa e Hap) porque concluiu que irá "sustentar a empresa gestora", segundo seu presidente Alexandre Kalil.

O Cruzeiro fechou negócio com o consórcio, mas já está em vias de quebrar o contrato por ter concluído que só poderá ter lucro a partir de 10 mil pagantes por jogo.

Uma realidade muito diferente do passado, quando os clubes pagavam taxas de uso dos estádio municipais referentes apenas aos custos, sem precisar gerar lucros para empresas gestoras. O Maracanã, por exemplo, cobrava de 20 a 40 mil reais por jogo, dependendo da importância do evento.

A privatização dos negócios do estádio leva a uma majoração nos preços dos ingressos e, em consequência, à necessidade de oferecer confortos a um público mais exigente. Em outras palavras, uma "europeização" do futebol.

"Os consórcios olham para uma operação europeia que ainda não chegou.Impor o padrão Fifa inviabiliza o futebol no Brasil", diz o diretor-executivo do Botafogo.

*Roberto Amado é jornalista e editor do site Poucas Palavras

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Soluções paliativas

Final de ano e começam a aparecer as "soluções salvadoras" e, naturalmente, paliativas para os problemas das organizações ou do futebol como um todo. Surgem, por assim dizer, as ideias que prometem resolver, mas que no fundo só diminuem o incêndio que não se apaga efetivamente.

Duas destas "soluções" chamam atenção, por combinarem com fatos recentes: (1) a troca de técnicos no final do ano para tentar livrar algumas equipes do rebaixamento; (2) os debates sobre o calendário do futebol brasileiro.

Na primeira, das atitudes mais comuns em clubes brasileiros. Mostra a total falta de planejamento e de análise sobre prós e contras ao tomar tal decisão. Na realidade, os dirigentes não percebem que ao fazer esta mudança na reta final da competição apenas chamam para si a responsabilidade de eventual fracasso, ao invés de compartilhar com todas as pessoas envolvidas – principalmente com o próprio treinador e jogadores, que poderão resolver de fato a manutenção.

No fim das contas, os treinadores, tanto o anterior quanto o novo (este último que poderá sacramentar o rebaixamento), acabam "lavando as mãos". O antigo acaba justificando que não teve tempo para contornar a situação. O novo dirá a mesma coisa, respaldado na famigerada "herança maldita".

Ao invés de endossar o comprometimento de um grupo (que começa pelo seu treinador e vai até seus comandados, incluindo todo o staff da equipe) que tem trabalhado o ano todo em prol de um resultado e que poderia assumir para si o intento de mudança, acabam por deixar no ar as responsabilidades sobre o descenso.

Quanto ao calendário, apesar do amplo e positivo debate que o grupo "Bom Senso Futebol Clube" tem procurado gerar nas últimas semanas com vistas a melhoria do futebol brasileiro como um todo e, impactando, necessariamente, no calendário – mas tendo outros anseios em voga – surge uma notícia nesta terça-feira que assusta: http://www.espn.com.br/noticia/365751_decisao-da-cbf-por-limite-de-jogos-pode-fazer-clubes-esvaziarem-os-estaduais-entenda.

A reportagem mostra que se reduziu o contexto do problema do calendário simplesmente ao número de jogos, quando a questão que se está levantando é muito mais ampla. Limitar a quantidade de jogos por atleta não resolve o problema dos jogos pouco atraentes mercadologicamente.

Pelo contrário: continua afastando o torcedor pela excessiva oferta de partidas ao longo do ano, assim como da cobertura da mídia, que se torna enfadonha e desgastante. Também não protege de forma eficiente o atleta.

E pior, imputa mais uma conta aos clubes, que, conforme a reportagem citada, sugere que estes assumam a responsabilidade por mais uma conta, que é a contratação de mais jogadores para seus elencos – nunca é demais lembrar a antiga discussão sobre o elevado (e crescente) endividamento dos clubes e sua capacidade real de solução deste problema. Quer-se, com isto, aumentar ainda mais seus custos, sem que isto represente um retorno proporcional em receitas.

Enfim, resta torcer para que soluções paliativas diminuam em intensidade e escala. E que o movimento do "Bom Senso Futebol Clube" (e análogos) continue avançando e ganhando força para que, no futuro, tenhamos melhores soluções para os dois problemas levantados nesta coluna.

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Uma conquista, novos desafios

A conquista do Campeonato Paulista de Futebol Feminino 2013 premiou o time que teve uma campanha impecável na competição, a Ferroviária/Fundesport. Em 18 jogos, a equipe obteve 12 vitórias e seis empates, o melhor ataque com 75 gols feitos, a melhor defesa com 12 gols sofridos e a artilheira do torneio, Raquel, com 22 gols.

A final, disputada no Estádio Arena da Fonte, em Araraquara, foi contemplada por um bom público que, ansioso pelo título – não só do time, mas de toda a cidade –, foi recompensado com um excelente futebol e a costumeira determinação das atletas, demonstrados durante todo o campeonato. Chegar a esse momento tão especial não foi por acaso, muito menos algo imediato, pois demandou planejamento e um longo trabalho.

Os títulos são o principal objetivo de um time, pois a superação de marcas, metas e adversários é inerente ao esporte competitivo. Contudo, o desafio da Ferroviária/Fundesport era (e continua sendo) algo maior do que a conquista de títulos, por não querer que eles representem um fim em si mesmos.

Os títulos devem fazer parte do processo de construção da filosofia do clube, e esta sim, pela complexidade e quantidade de suas ações, capaz de transformar uma realidade. Dentro dessa linha, é óbvio que o objetivo era um clube vitorioso, mas também que ele tivesse identificação com os torcedores, formação de atletas, gestão eficiente e que fosse um modelo para o desenvolvimento da modalidade no país.

No início desse processo foram realizadas algumas parcerias, principalmente na parte de estrutura, que permitiram às atletas praticar e desenvolver o futebol de uma maneira eficiente e segura. O tripé treinamento, alimentação/descanso e recuperação física foi o primeiro pilar a merecer atenção, pois sem ele ajustado não seria possível obter qualidade durante o restante do processo. Importante salientar que durante esse tempo correções fizeram-se necessárias, pois algumas alternativas seguidas num certo momento, com o passar do tempo, não se mostraram eficientes como desejamos.

Nesse ponto é prudente estarmos aptos à adaptabilidade que a situação exigir, sermos rápidos na tomada de decisões e atentos às oportunidades que se apresentarem, para que a meta seja atingida e também melhor explorada. Um bom exemplo de oportunidade que se apresentou foi no pilar de treinamento, pois algumas ações, que no começo do trabalho não imaginamos necessárias, tornaram-se fundamentais devido a nossa buscar por excelência.

E, para isso, primeiro tivemos que reconhecer nossas limitações, já que apesar de nossa vontade teríamos que adquirir novos conhecimentos e conceitos para desenvolvimento do time. Nesse sentido, realizamos uma parceria estratégica com a Universidade do Futebol, por meio de um curso online para a comissão técnica e diretoria. A visão unificada dos conceitos e conteúdos estudados proporcionou, além do entendimento do que queríamos como modelo de jogo e consequentemente uma linha de trabalho técnica, incentivo para a procura constantemente de novos conhecimentos, mesmo após o término das aulas.

Essas e outras ações contribuíram, em maior ou menor grau, para o título alcançado – e mesmo que algumas delas não tenham seu efeito a curto prazo, são da mesma forma importantes para a construção da filosofia do clube.

Sabemos que a conquista tem a peculiaridade de trazer exaltação do trabalho, satisfação dos patrocinadores, reconhecimento à comissão técnica e confiança às atletas. No entanto, sabemos também que nesse momento nossa responsabilidade se renova: ela aumentou porque vencer um campeonato como o Paulista eleva nosso patamar de cobrança.

Contudo, a cobrança que teremos de todos esses atores será menor que nossa própria exigência. Nosso compromisso é colocar o clube em um patamar de excelência no futebol feminino e contribuir para a o crescimento da modalidade. Dessa forma, acreditamos que estaremos mais próximos de novas conquistas. Esse é nosso desafio.

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O técnico que eu quero

José Carlos Brunoro, que voltou neste ano à direção do Palmeiras, costuma contar uma história que ele vivenciou na primeira passagem pelo clube.

O executivo era o homem forte da Parmalat, co-gestora do futebol alviverde, e a cúpula da equipe divergia sobre o nome do novo treinador. Ele sugeriu, então, a realização de entrevistas com os dois principais candidatos.

O primeiro postulante ao cargo chegou à reunião no Palmeiras vestindo um agasalho do clube em que ele trabalhava. Falou pouco sobre planejamento e demonstrou interesse especial sobre a data da apresentação no ano seguinte. O técnico estava preocupado com uma reforma que pretendia iniciar no telhado de casa.

Depois foi a vez de Vanderlei Luxemburgo. Egresso do Bragantino, o treinador ainda era um desconhecido quando foi entrevistado pelo Palmeiras. Chegou ao clube de terno, foi pontual e baseou a conversa em uma meta clara: ele queria ser contratado porque queria amealhar títulos e chegar ao comando da seleção brasileira.

O Palmeiras, é claro, escolheu Luxemburgo. Assim começou a montagem do time que fez enorme sucesso no início da Era Parmalat – o time alviverde ganhou dois Estaduais e dois Campeonatos Brasileiros entre 1993 e 1994.

A história de Brunoro costuma ser usada pelo executivo para explicar a importância de decisões racionais. No caso da escolha do técnico, o Palmeiras buscou mais elementos para saber qual dos dois era o melhor candidato.

Assim como fazem muitas empresas, o clube optou pelo profissional que se apresentou melhor, teve um discurso mais alinhado com a proposta da instituição e mostrou mais ambição.

Até o último fim de semana, eu costumava concordar com Brunoro. No caso de um técnico, porém, a contratação não pode ter o roteiro de uma entrevista de emprego comum. O treinador é o líder de um grupo e de um projeto do clube. Mais do que visual, metas e ambições, é fundamental que a instituição entenda se a proposta dele é alinhada com o futebol que a equipe quer.

E aqui não se trata de supervalorizar a importância dos técnicos. Treinadores têm um papel fundamental, sim, mas as decisões em campo são tomadas pelos atletas.

O problema é: os atletas tomam decisões com base no cenário que eles encontram e no repertório que carregam. As duas coisas (cenário e repertório) são consequências de uma proposta de jogo. É aí que entra o treinador.

Mais do que conhecer o profissional, o currículo e as metas dele, o que um clube deve se perguntar ao escolher um treinador é o tipo de proposta jogo que essa contratação vai oferecer à equipe.

Foi esse o meu principal pensamento após assistir ao clássico entre Barcelona e Real Madrid, disputado no último sábado, válido pelo Campeonato Espanhol. Jogando no Camp Nou, o time catalão venceu por 2 a 1 – Neymar fez o primeiro gol e deu um passe para Alexis Sánchez marcar o segundo.

A vitória ratificou o bom momento do Barcelona, que ainda não foi derrotado na temporada 2013/2014. A pergunta é: ainda que vença tudo, é esse Barcelona que os torcedores querem ver?

O time desta temporada é comandado por Gerardo “Tata” Martino, argentino que foi escolhido para substituir Tito Vilanova – o ex-treinador precisou se afastar para cuidar da saúde. Em poucos meses, o novo comandante mudou de forma radical a proposta de jogo do Barcelona.

O estilo do Barcelona ainda é baseado em controle da bola e marcação pressão, é verdade, mas há diferenças sensíveis entre os times de Vilanova (e do antecessor dele, Pep Guardiola) e a equipe de Martino. O novo formato é mais incisivo, usa mais passes longos e trabalha com linhas de marcação menos compactadas.

Com Guardiola e com Vilanova, o Barcelona dava a impressão de concentrar todos os jogadores em pequenos espaços do campo. O time trabalhava com associações, curtos deslocamentos e movimentação constante. Era um estilo claro e que se tornou uma marca.

Ainda que tenha preservado quase toda a formação titular, Martino criou um time que não pensa assim. O Barcelona que venceu o Real Madrid é muito mais competitivo do que o time de temporadas anteriores, mas encanta bem menos.

Hoje, para falar apenas da Espanha, o Celta tem uma proposta de jogo que lembra mais o Barcelona de anos atrás do que o próprio Barcelona atual. É impossível comparar a qualidade ou a eficiência, mas a equipe de Vigo tem conceitos similares aos dos catalães: obsessão por passes curtos, movimentação constante e defesa alta, por exemplo. O comandante é Luis Enrique, ex-jogador do próprio Barcelona.

O Barcelona de Martino pode vencer tudo que disputar na atual temporada, mas nunca vai ter o perfil que o time se acostumou a apresentar em anos anteriores. Será que a diretoria considerou tudo isso quando escolheu o novo treinador?

É claro, o estilo do Barcelona não foi moldado apenas por Guardiola e Vilanova. É o resultado de um projeto extenso, que envolve categorias de base e o perfil dos atletas do time profissional. Mas nada disso seria possível sem um catalizador adequado.

O exemplo do Barcelona faz pensar no futebol brasileiro. O que leva um time do país a contratar um treinador? Quais são os atributos que uma diretoria considera na hora de escolher um profissional?

Em 2013, o Grêmio contratou Renato Gaúcho pela identificação que ele tinha com a torcida por ter feito sucesso como atleta. O Internacional fez aposta semelhante com Dunga, e o São Paulo, com Paulo Autuori e Muricy Ramalho, escolheu técnicos que já haviam sido vencedores no clube.

Sem querer ser simplista ou reduzir as contratações a apenas um fator, é nítido que os históricos pesaram nessas apostas. E esses são apenas exemplos de algo comum no Brasil: nenhum dos técnicos foi escolhido pelo que defende como proposta de jogo.

O São Paulo é o mais claro exemplo disso. Quando Muricy Ramalho encerrou a passagem anterior pelo clube, a diretoria decidiu buscar alguém que tivesse mais abertura para a transição de garotos entre a base e o profissional. A ideia era reduzir a distância entre as duas realidades e criar um projeto integrado.

Muricy saiu do São Paulo, e o time não conseguiu ter estabilidade com nenhum outro treinador. Em 2013, a equipe fazia campanha ruim no Campeonato Brasileiro com Ney Franco, que havia sido contratado justamente pelo talento demonstrado na seleção brasileira sub-20. A diretoria escolheu Paulo Autuori. Depois de um período ruim com ele, resgatou o técnico tricampeão nacional. Difícil imaginar dois profissionais com leituras tão diferentes sobre o comportamento de um time.

A simples troca de um treinador carrega uma série de aspectos, mas uma pergunta é fundamental quando uma equipe decide fazer isso: qual profissional tem uma proposta de jogo que se ajusta mais ao que eu pretendo realizar?

O futebol brasileiro talvez não tenha profissionais com postura tão marcante quanto Guardiola, mas escolher um treinador também é definir uma forma de o time se comportar. E isso, é claro, tem relaç&at
ilde;o direta com comunicação.

Todo técnico é contratado para vencer, é claro, mas há vários caminhos para isso. Antes de escolher um profissional, é fundamental que a diretoria pense em qual imagem ela quer passar aos torcedores. Que tipo de time será mais agradável e condizente com o que os adeptos esperam?

No fim de 2013, o futebol brasileiro pode ter uma mudança de grandes proporções no comando de equipes da primeira divisão. Corinthians, Flamengo, Internacional, Santos e até o promovido Palmeiras são exemplos de times que ainda não definiram o comando para a próxima temporada.

Antes de pensar em qual técnico é mais vitorioso ou pode se dar melhor com o elenco, a pergunta é: que tipo de jogo esses times querem apresentar em 2014? A escolha do comandante do grupo vai influenciar diretamente nisso. O Barcelona está aí para mostrar o quanto.

O papel da comunicação é pensar na construção de uma marca e na relação dela com os consumidores. No caso de um time de futebol, essa relação é alicerçada no orgulho e na ligação emocional. Para isso, é fundamental que a equipe reproduza o que as pessoas esperam ver em campo. Escolher um treinador que não entregue isso é criar enormes empecilhos para o trabalho.

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A vida dele é você

Me chamo Vitória.

Nasci em 6 de junho de 2000. Terça-feira à noite. Se fosse menino, seria Marcos. Segundo meu bisavô, que escolheu Vitória, ele queria um nome de santo. Especialmente naquela noite. Não sei porquê. Só sei que minha bisavó, que torce pelo maior rival do time do meu bisa, queria Marcelinho se eu fosse menino. De raiva, ela falou que eu me chamaria Darinta se fosse menina e ela pudesse ter a chance de escolher. Também não sei o que significa esse nome. Mas sei que meu bisavô não quis nem saber.

Ele é beeeem velhinho. Tem mais de 90 anos. Moramos juntos em Perdizes. Ele diz que não tem lugar melhor. Cheio de altos e baixos. Parece a vida dele e da maior paixão dele. Mais que eu, os filhos e a minha bisavó. Amor que ele vive de
perto. Sempre.

Em 18 de novembro de 2012 ele caiu. Quebrou um monte de osso. Foi no final de uma tarde de domingo. Só sei que ele estava vendo TV, deu um monte de grito durante horas, mas só se machucou feio quase de noite. Quando daí eu não entendi nada. Ele não gritou e nem xingou. Nem chorou. Ficou quieto. E quebrado.

Foram meses este ano de 2013 em que ele ficou de cama. Mas sempre gritando. Principalmente de terça e de sábado. Quando ninguém podia entrar no quarto dele. Ninguém. Muitas vezes ele me chamava depois e contava muitas histórias de muitos amigos que ele diz ter. Mas acho que algumas são mentiras. Coisas incríveis. De super heróis.

Alguns nomes ele fala sempre. Outros ele não quer nem falar. Mas sempre ele fala deles. Como velhos conhecidos.

Nas últimas semanas ele começou a sair de casa. Passeou pelas ruas de cadeira de rodas. Toda hora passava alguém dIzendo que ele estava bem, voltando, retornando ao lugar dele. Ele abria o sorriso e dizia que isso era normal. Anormal era a queda que ele teve no ano
passado. Quando ele se quebrou todo.

E muita gente achou que ele já era. Que não iria mais se levantar. Era muito chato tudo isso.

Mas, neste sábado, exatamente 16h20, ele pediu para sair comigo. Estava um sol lindo em Perdizes. Eu fui empurrando a cadeira de rodas dele. Ele me falou de muitas coisas que viveu. Disse que vira na televisão um monte de amigos que ele gosta. Valdir, Edu, Rosemiro, Alfredo, Dudu, Ademir, Leivinha, César, Evair, Amaral, Edmundo, Marcos. Falou um monte de coisas deles. Tudo deve ser invenção. Mas eu quase acreditava nele. O brilho nos olhos do meu bisavô me fazia achar que tudo aquilo era possível.

Eu reparei que quando ia caindo o sol ele ficava mais inquieto. Não parava. Toda hora perguntava que horas eram. Eu respondia. Ele parava fazendo contas com os dedos. E toda hora que ouvia um rádio ligado ele pedia para eu ficar quieta.

Eu ficava. Mas ele não.

Quando era 18h11, meu bisavô pediu a hora. No mesmo momento a gente ouviu gritos, aplausos, palavrões. E logo aquela música que meu bisavô sempre canta todo dia. E ele sempre me disse que teve alguns anos quando ele cantou mais ainda. Eu até lembro quando foram. Em 1951. Em 1959. Um monte de vezes nos anos 60 e 70. Depois ele disse que durante uns anos essa música ele cantava sempre. Mas só ele.

Ele sempre me fala que ficou semanas seguidas em 1993 cantando e ouvindo. Só que, desde que eu nasci, em 2000, ele ouviu pouco.

Mas não importava. Porque essa era uma canção que sempre estava com ele. E ele disse que queria muito estar comigo nesta tarde.

Acho que entendi o porquê quando ouvi alguns carros buzinando. Não muitos. Um velho amigo dele o veio abraçá-lo na padaria.

– Parabéns, meu grande amigo!

Meu avô não disse nada. Apenas sorriu.

– Ufa! Agora vai! Estamos de volta!

Meu avô mal olhou para ele. Apenas ficou olhando pra frente. Segurou firme na cadeira de rodas. Levantou a cabeça. Se apoiou no braço da cadeira. E se levantou sozinho pela primeira vez desde que ele tinha caído e se quebrado todo em 2012.

Eu e o amigo dele não acreditamos. Ninguém imaginava que com mais de 90 anos ele ainda pudesse se levantar. Sozinho. Com a força das próprias pernas e braços.

Eu corri para ajudar. Como acho que todo mais jovem precisa ajudar quem nos ajudou a vida toda. Mas meu bisavô disse que não precisava.

– Eu caí sozinho. Eu me ergo sozinho.

E ele se levantou. Quem estava por perto ficou meio sem graça de aplaudir. Mas todos se emocionaram com ele. Até os que achavam que nada mais aconteceria com ele.

Meu bisavô foi até o balcão da padaria e pediu a mesma coisa que toda vez ele pede:

– Um cafezinho e um pouco de água pro meu São Marcos.

Eu não aguentei e falei:

– Bivovô, você estava fingindo, estava com preguiça, ou estava sem vontade de andar?

– Vitória. Nunca duvide das minhas histórias. Nem das minhas vontades. Eu posso já não ser o mesmo de antes. Mas eu ainda sou a nossa família. Eu acredito. Eu me supero.

Eu chorei. Tenho amiga que não tem bisavós, nem avós. Algumas nem pai. Eu sei que um dia eles não vão estar aqui. Morro de medo disso. E disse chorando pra ele:

– Bivovô, eu morro de medo de te perder!

– Vitória. Eu só morro se não lutar. Nunca perco amando. Só deixo de ganhar algumas vezes. Eu não sou eterno. Mas o meu amor é pra sempre.

E meu bisavô abriu um sorriso, gritou alguma coisa em italiano que parecia algo como cópia, escópia, sei lá. Berrou Palestra e só então sentou.

Chorando. Mas, desta vez, não de dor.

Acho que é isso que meus pais chamam de amor incondicional.


*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

 

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Futebol: criar mais oportunidades ou aproveitar melhor as chances criadas? – reflexões a partir da Lógica do Jogo

O futebol é um jogo de oportunidades criadas ou de chances convertidas em gols?

Não sei se a pergunta acima foi suficientemente esclarecedora para ilustrar o cerne da questão que a envolve.

Então, para não correr riscos, vejamos de outra forma.

Na Champions League 2011/2012, o confronto entre FC Barcelona e Chelsea, já pela fase eliminatória (semifinais) nos mostrou dois jogos muito parecidos, em que uma das equipes manteve a bola quase que a todo o tempo em seu campo de ataque, “sondando” a todo instante a meta adversária – gerando um número razoável de finalizações e chances de gol (inclusive um pênalti).

A outra, a equipe que saiu vitoriosa dos confrontos, defendendo-se a todo custo com todos ou quase todos seus jogadores, esperando um momento para ser implacável, um momento para ter uma chance, uma real chance que fosse, para fazer gols – (jogo 1: Chelsea 1 x 0 FC Barcelona / jogo 2: FC Barcelona 2 x 2 Chelsea / placar agregado: FC Barcelona 2 x 3 Chelsea).

Vejamos abaixo a figura com o número de finalizações de cada equipe nos dois jogos (dados retirados de www.uefa.com):

Podemos observar que nos dois jogos a equipe do Barcelona finalizou mais do que o Chelsea (totalizando 36 a 11). Diferença grande, que diminui quando olhamos apenas para aquelas que foram em direção ao gol (11 a 4).

Finalizações!

Mas quando observamos aquilo que realmente pode contar pontos na tabela – os gols –, o placar, no quesito arremates, favorável ao FC Barcelona, se inverte: 2 a 3 gols à favor da equipe inglesa.

No primeiro jogo entre as duas equipes, mais interessante ainda: o Chelsea teve apenas uma finalização correta (a do gol), e o FC Barcelona, com suas 19 oportunidades, nada.

Em um levantamento rápido que realizei na Champions League 2011-2012, na 2012-2013, e no Campeonato Brasileiro 2013 (esse último com o auxílio do notável do Café dos Notáveis “Panis Baguetes”) fica evidente que aquelas equipes que mais finalizam a gol ou fora dele nos jogos, tendem a fazer mais gols e a assumir um lugar melhor na classificação dos Campeonatos. Existe uma relação direta entre número de finalizações, gols e vitórias – direta, mas não de 100%.

E ela (a relação) fica melhor ainda, quando consideramos apenas as finalizações que foram em direção ao gol.

Pode parecer óbvio, mas não é.

Sob o ponto de vista da Lógica do Jogo (em maiúsculo, por se tratar da lógica inexorável do jogo de futebol), cumpre melhor com ela em uma partida, aquela equipe que vence – ou por dominá-la (circunstancialmente ou cronicamente) ou por compreender e utilizar melhor a imprevisibilidade ao seu favor.

De qualquer forma, e em outras palavras, isso quer dizer que o futebol é mais do que um jogo de oportunidades criadas. Ele é um jogo de chances concretizadas (convertidas em gol)!

Claro, analisando as competições que já mencionei, e outras de nível técnico-competitivo menor, fica muito evidente que quanto menos uma equipe finaliza à gol em uma partida, mais eficiente ela precisa ser nas suas finalizações, se ela almeja vencer.

Mais evidente ainda é que quanto maior o nível competitivo, menor é o desperdício no que diz respeito ao número de finalizações criadas e aos gols feitos (e aí, nesse caso, finalizar mais representa fazer mais gols).

E se o aproveitamento de chances construídas em um jogo é o que conta, não quero dizer, evidentemente, que uma equipe vencerá mais se finalizar menos (e nem necessariamente se finalizar mais). Ela vencerá mais se aproveitar melhor as oportunidades de gol criadas – desde que ela aproveite um número maior do que sua adversária!

Então, nos treinamentos, qual parece ser o melhor caminho para que jogadores e equipes cumpram melhor a Lógica do Jogo, e com isso vençam mais? Investir em criar mais oportunidades, e então melhorar seu aproveitamento? Investir em chances?

Analisando desta forma pode até parecer que estou fragmentando a análise das sequências ofensivas e das finalizações em um jogo. Mas, garanto, não estou!

A complexidade sistêmica das minhas indagações moram justamente na ideia de que de certa forma, não está à mercê do acaso o fato de equipes, como por exemplo a do Chelsea no exemplo acima, vencerem jogos mesmo finalizando em média 5,5 vezes por partida.

Não! Não é o acaso; são as circunstâncias…

Mas essa é uma outra e longa discussão que prometo retomar mais para frente…

Por hoje é isso!

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Público nos estádios durante a Copa das Confederações 2013

Público na Copa das Confederações 2013

Mesmo com todos os problemas com manifestações fora dos estádios, a Copa das Confederações foi um sucesso de público em suas 16 partidas.

O resultado coloca o evento no Brasil com a segunda melhor estatística de público da competição, somente ficando atrás do México em 1999.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

Leia mais:
As maiores receitas com estádios do futebol brasileiro
As finanças dos maiores clubes brasileiros em 2012
 

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Alguns erros e acertos táticos do Novorizontino sub-20

Dentre as 45 equipes que iniciaram a disputa do Campeonato Paulista sub-20, a equipe do Grêmio Novorizontino terminou entre as 16 melhores. Mesmo com a vitória por 2 a 1 no primeiro jogo das oitavas de final, a eliminação ocorreu após derrota por 1 a 0 em partida contra o Santos FC que, devido à melhor campanha nas fases anteriores, tinha a vantagem do empate.

Como já fiz em outra oportunidade, em que publiquei fotos da equipe principal do Novorizontino após a campanha do acesso à Série A-3, em 2012, repito o tema da coluna, desta vez como treinador e não como adjunto.

A comissão técnica do Novorizontino não possui um profissional específico para a análise de jogo. Sendo assim, todas as fotos no decorrer da competição foram tiradas pelo preparador de goleiros, Carlos Eduardo, que contribuiu significativamente para que o material fornecesse subsídios para intervenções individuais e coletivas visando à melhora do nível de jogo da equipe.

As 13 primeiras fotos referem-se aos problemas apresentados pela equipe, em que alguns deles foram solucionados/minimizados ao longo da competição e as 17 fotos restantes ilustram acertos circunstanciais relativos ao Modelo de Jogo.

Confira o material na íntegra clicando aqui.
 

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Betim Esporte Clube e a Justiça Comum

Apesar de contrariar a Fifa, o futebol brasileiro, para ser mais exato a Série C, está na pauta da Justiça Comum.

Trata-se ação com pedido de antecipação de tutela aviado por Betim Esporte Clube objetivando que a Federação Mineira de Futebol (FMF) e CBF – Confederação Brasileira de Futebol, restituam os 06 (seis) pontos conquistados no Campeonato Brasileiro da Série “C”, e possibilite, por consequência, o seu prosseguimento na competição.

O Betim alega que a punição imposta pela Justiça Desportiva viola a legislação brasileira, e por consequência, a soberania nacional, além de lhe causar graves prejuízos.

Em virtude da decisão Desportiva o Mogi Mirim herdaria a vaga nas quartas-de-final da competição e o Betim poderia até ser rebaixado para a Série D.

Atendendo ao pedido do Betim Esporte Clube, o Juiz da ss Vara Cível da cidade que dá nome ao clube concedeu a medida liminar para determinar que a Confederação Brasileira de Futebol e a Federação Mineira de Futebol restituam os 06 (seis) pontos retirados do Betim Esporte Clube, no Campeonato Brasileiro da Série C, sob pena multa diária de R$ 10.000,00, bem como se abstenham de aplicar outras penas do Código Brasileiro de Justiça Desportiva ao autor e seus dirigentes decorrente do objeto constantes destes autos, suspendendo, ainda, o jogo marcado para segunda-feira, 21/10/2013, que preteriu o clube mineiro, e designem, imediatamente, outra data para realização do jogo entre o Betim Esporte Clube, e o Santa Cruz/PE.

Nesse contexto, importante destacar os efeitos deletérios que decisões da Justiça Comum podem causar ao futebol brasileiro que podem ir desde suspensão de campeonatos, culminando-se com desfiliação da Fifa.

Destarte, ao se filiar à FMF, à CBF e, por consequência à Fifa, o Betim Esporte Clube aceitou uma espécie de cláusula arbitral na qual eventuais demandas desportivas seriam decididas pela Justiça Desportiva.

A busca pela Justiça comum corresponde, em tese, a uma espécie de descumprimento contratual do que o clube avençou para se filiar.

Assim, além de haver incompetência da Justiça Comum por aplicação análoga da Lei de Arbitragem, o clube deve ser punido por descumprimento das normativas que consentiu ao se filiar à FMF, CBF e Fifa.

Urge destacar a imensa insegurança que pode pairar sobre o desporto brasileiro caso os conflitos desportivos sejam levados à Justiça Comum, afastando-se patrocinadores e grandes atletas. Neste sentido, cabe aos operadores do Direito Desportivos auxiliarem a Justiça Comum na adequação de suas decisões aos princípios jusdesportivos.