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Futebol Olímpico: ame-o ou deixe-o

Os Jogos Olímpicos são a maior celebração do esporte mundial. Entretanto, por divergências políticas e, principalmente comerciais, o futebol masculino não participa efetivamente dessa celebração.

Isso ocorre porque a FIFA, temerosa de que o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos faça frente à sua principal competição (produto), cria uma série de limitações à participação dos atletas e, principalmente, não inclui a competição em seu calendário oficial.

Até os Jogos de 1984, somente atletas amadores, sem contrato de trabalho, poderiam participar.

Nas Olimpíadas de 1988 e 1992 permitiu-se a inscrição de atletas profissionais desde que não tivessem participado em Copa do Mundo.

A partir de 1992, as seleções puderam contar com três jogadores acima de 23 anos, independente de terem ou não disputado mundiais, permitindo-se 3 atletas acima da idade.

Ocorre que a FIFA, que poderia obrigar a liberação de jogadores para o torneio olímpico, apenas recomenda que os clubes cedam os atletas para as seleções. Ou seja, na prática, os clubes cedem os atletas se quiserem, razão pela qual as seleções não terão seus principais jogadores nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Apesar disso, a FIFA não retira o futebol masculino dos Jogos Olímpicos para não perder a vitrine e a visibilidade e, o COI, por seu turno, acaba aceitando as migalhas do futebol para não perder os patrocinadores e o alcance mundial que a modalidade proporciona.

Entretanto, o sucateamento do torneio olímpico de futebol masculino vai acabar por afastar o público e trazer um marketing negativo tanto para o futebol, quanto para os Jogos Olímpicos.

Pelo status alcançado pelo futebol, as Olimpíadas não terão, para a modalidade, a mesma representatividade dos outros esportes, o que não justifica a preocupação da FIFA.

Por outro lado, comercialmente, uma competição mundial a cada dois anos pode pulverizar os patrocinadores.

Assim, o torneio olímpico de futebol masculino pode ser uma

grande competição de novos, permitindo-se a inscrição de jogadores que nunca participaram de Copas do Mundo (como em 1984 e 1988) e, desde que, incluída no calendário oficial da FIFA com consequente obrigatoriedade dos clubes liberarem os atletas.

Caso uma atitude não seja rapidamente tomada perderão a FIFA, o COI, os Jogos Olímpicos e, principalmente, o futebol que será representado na grande celebração do esporte mundial por uma competição sucateada, sem credibilidade e alijada do público.

Se a FIFA não quer uma grande competição olímpica de futebol masculino, que o retire dos Jogos e abra espaço para as suas modalidades no salão (futsal) e na praia (beach soccer).

Portanto, ou tratem o futebol de campo masculino olímpico com respeito, ou o retirem de vez dos Jogos Olímpicos.

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O milagre português

No espaço de uma curta semana, dois títulos europeus – o último em hóquei. Com uma enorme, abissal, diferença, porém: desta vez, ninguém saiu à rua com bandeiras e cachecóis.

Por isso, se impõe uma primeira nota: que coisa tão especial tem o futebol que atira para a rua e para as praças multidões em delírio, desde Melgaço a Dili, em contraste com um mesmo título do stick e sobre rodas, com o natural entusiasmo confinado ao espaço acanhado do pavilhão do feliz evento?

Que é por ser um desporto improvável e transgressivo, ao jogar-se com a parte mais surpreendente e negligenciável do corpo, os pés? Sim, claro. Que é por ser uma modalidade cuja normatividade constitutiva se faz de regras que todos conseguem entender à primeira? Também.

Mas o que tem o futebol, para além disso, que o transforma em elemento catalisador tão impressivo de identidade – uma identidade para lá do marco jurídico das diferentes nacionalidades?

Será a sua antropológica ressonância bélica que induz a uma incontida e inebriante projecção de um ínvio poder que se impõe pela via de um aluvião de emoções?

Talvez seja por isso tudo – e muito mais: algo excedente que se furta, porém, a uma qualquer tentativa de análise racional! E é por ser do domínio do irracional, do lado dionisíaco de nós, que nos surpreendemos nessa doce dependência estetico-agonística desse fascinante jogo do pontapé na bola que se torna em redondo ingrediente de prazer e êxtase quando o herói logra introduzi-la no espaço mágico da definitividade – a baliza.

É talvez o fascinante e intrigante arsenal gestual do futebol conjugado, no caso português, com a sua real e efetiva aptidão para conseguir vitórias, isto é, gerar manifestações simbólicas de poder, que mexe com a alma de todo um povo, potenciando espaços de pertença, que uma história de fraternal convívio propicia.

De facto, ao observar o planetário eco da recente vitória de Portugal na França, o que impressiona e interpela até os mais céticos e distraídos é o seu índice de apropriabilidade, isto é, a quantidade de povos que sentiram essa vitória como também sua!

Trata-se de um caso único no mundo e talvez devamos buscar algumas hipóteses de explicação no desapego que caracteriza as relações deste país, atlântico, mediterrânico e continental, que espreita o mundo muito mais com o desejo de dar-se do que com avareza de pilhar. E, depois, tem essa particularidade: a doçura e encanto dos pequeninos. Enfim, Portugal é demasiado pequeno no tamanho e na ambição para gerar suspeita, medo ou ódio: Portugal é muito mais uma feliz ideia, uma emoção, uma egrégora espiritual, do que um território, que o é apenas como locus de uma saudade do mundo todo e do céu, como era o caso de Bartolomeu dos Mártires.

Há de facto algo de miraculoso na história deste pequeno  e «amorável» país: desde logo, é milagre a improvável sobrevivência desta nesga do ibérico torrão à fúria anexante de Castela, como miraculoso parece ter sido o percurso de guerrilheiro furtivo nesta disputa do campeonato de Europa: a equipa, em vez de voar alto, exposta aos radares e à artilharia anti-aérea dos adversários, adoptou um voo rasante, um voo subtractivo, furtando-se à acção prevenida dos radares dos oponentes – e, assim, quando deram por nós, estávamos acampados, com todas as nossas armas, em pleno «Estádio de França».

Mesmo o terceiro lugar no grupo, facto sem dúvida pouco encorajante, ajudou a alimentar o low profile da nossa selacção e a aumentar o efeito surpreza. Ao mesmo tempo que nos desviava da rota dos tubarões – uma navegação tranquila e serena.

Mais: o alarmante episódio da lesão do nosso General, em vez de lançar o pânico nas tropas, provocou o toque a reunir – e as fraquezas se tornaram a nossa inexpugnável fortaleza.

Os milagres só acontecem quando neles se acredita, porque o real autor da maravilha não é uma qualquer entidade sentada nas nuvens, quase sempre surda aos nossos gemidos e gritos: o autor é cada um de nós – como o foi Fernando Santos, um homem de fé.

Aqui, talvez seja útil um paralelo com 2004: porque então também houve muita crença. Com uma decisiva diferença, porém. Nessa altura, o seleccionador pôs todo o país de bandeirinha na mão e nas janelas – um país em festa antecipada que exigia a pé junto o caneco: as expectativas vinham de fora para dentro e os jogadores sentiam o insuportável peso dessas expectativas e da responsbilidade de corresponder ao clamor popular. E bem sabemos o que acontece quando todas as expectativas são colocadas sobre os nossos ombros: arreamos.

Ou seja, enquanto em 2004 a motivação foi exógena, de fora para dentro, desta vez ela foi endógena – foi o técnico e jogadores a acreditar, mesmo quando escasseavam motivos que tal crença alimentassem. Os jogadores, em vez de se sentirem pressionados pelo entusiasmo popular, eram eles mesmos a fonte abastecedora desse entusiasmo: estavam estabelecidos e garantidos os requisitos intencionais para que o milagre acontecesse – e aconteceu, através de um outro imprevisto e solitário crente: Éder!

Nós admiramo-nos que os milagres possam acontecer porque confiamos só nas pontas dos nossos dedos e nos nossos olhos: mas «os olhos ninguém os vê» (Vergílio Ferreira) e «vê mal quem só vê o que se vê bem»!

Este «Europeu» talvez tenha tido o condão de despertar os incautos e os cépticos para o valor acrescentado que seria de facto para os clubes integrar na sua estrutura um Gabinete de Inteligência Competitiva que acolhesse no seu seio um coach, ou assessor motivacional.

O Benfica ensaiou a experiência, mas infelizmnte achou que havia outras prioridades.

Mas, meus amigos, a prioridade das prioridades tem um único nome: consciência!

A confiança e certeza no resultado foi o verdadeiro responsável pelos cinco penaltis marcados contra a Polónia.

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Rogério Micale – treinador da seleção masculina sub-20 e sub-23

O treinador da Seleção Masculina de Futebol, Rogério Micale, falou em conversa aberta para os alunos do Curso Gestão Técnica no Futebol, sobre os pontos fortes que o time apresentou no Mundial da Nova Zelândia, e a principal característica da seleção que deve ser explorada para a conquista do ouro Olímpico.

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Assista a seguir os melhores momentos desse bate-papo.


 

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Convicção

Vanderlei Luxemburgo era o técnico do Cruzeiro no Campeonato Brasileiro de 2015. Reformulou o elenco, mudou a forma de a equipe jogar, perdeu seis partidas seguidas e foi demitido. Mano Menezes assumiu, terminou o torneio nacional e começou a pensar no que seria do time mineiro para a temporada 2016. Antes disso, porém, preferiu trocar a Toca da Raposa pelo futebol chinês. Deivid foi a aposta da diretoria para esta temporada, mas não resistiu a um início claudicante e à eliminação no Estadual. Foi substituído pelo português Paulo Bento, outra novidade promovida pela cúpula celeste, que chegou perto do início do Nacional e comandou outra revisão no grupo de atletas. Afundado na penúltima posição e na zona de rebaixamento, contudo, o Cruzeiro demitiu seu quarto treinador em um ano. Fazer futebol, assim como fazer comunicação, é praticamente impossível se não houver convicção.
É totalmente contraditório o Cruzeiro, time que fez duas apostas em treinadores na temporada 2016, ter demitido Deivid e Paulo Bento antes que essas novidades tivessem tempo para provar qualidades ou espaço para desenvolver suas ideias. O técnico ideal da diretoria no início do ano não resistiu a uma campanha ruim no Mineiro, e a melhor opção para o atual cenário caiu antes de completar sequer um turno no Brasileiro.
Entre Luxemburgo, Mano, Deivid e Paulo Bento, o Cruzeiro buscou quatro perfis diferentes e quatro visões diferentes de futebol. Mais do que isso, jogou um peso a seus cofres por ter interrompido precocemente os trabalhos – o português receberá até o fim de 2017, por exemplo, e vários atletas contratados nessas gestões mudaram de status no clube durante essas transições.
O Cruzeiro não deu apenas demonstrações de que dá pouca estabilidade a seus técnicos. Com tantas mudanças, escancarou incertezas sobre seu próprio elenco e reconheceu ter feito apostas erradas em contratações ou escalações. O que fica para o torcedor, depois de tudo isso, é um enorme ponto de interrogação sobre as próximas medidas da diretoria celeste. Como confiar em alguém que não confia no próprio trabalho?
Não existe sucesso sem convicção. E não existe convicção se não houver clareza de objetivos e processos. São etapas fundamentais no processo de comunicação, e o futebol é apenas um exemplo escancarado disso.
Quando o Campeonato Brasileiro começa, por exemplo, há 20 times dizendo que sonham com o título. Cinco ou dez rodadas depois, mais da metade ainda fala em condição de taça ou em vencer todos os próximos rivais. No discurso, a verdade é que nos acostumamos com um futebol de enganação e de ilusões.
É assim que construímos falsos craques, falsas verdades e falsas expectativas. É assim também que buscamos culpados quando essas pretensões não são atingidas. Paulo Bento virou culpado por um desempenho negativo do Cruzeiro, mas o que a diretoria esperava de um elenco que foi remodelado com o Brasileiro em curso? Qual era o objetivo do clube para o atual estágio da competição e quanto o português ficou devendo em relação a isso?
Não defendo aqui que alguém cometa sincericídios e faça qualquer tipo de propaganda negativa sobre seu clube. Não defendo aqui que os clubes esvaziem seus jogos, diminuam o sonho de seus torcedores ou desrespeitem o nível de suas tradições.
Defendo, isso sim, que os clubes entendam que futebol se faz com processos. Que não há sucesso no esporte que seja unicamente baseado em imediatismo e mudanças abruptas de direção. É preciso definir um caminho, planejar um tempo para percorrê-lo e fazer cobranças paulatinas de acordo com a relação entre rendimento e meta.
Comunicação também se faz assim. Que tipo de futebol você deseja para seu time? Quais são os processos até que esse nível seja alcançado? Quanto tempo isso demora? Como você vai comunicar isso aos torcedores sem esvaziar jogos no caminho ou reduzir o interesse do público pelo produto?
É por isso que a comunicação no esporte não pode viver apenas de resultados. Não há como vender apenas vitórias ou derrotas, ou essa relação com os resultados vai criar um cenário incerto para todo o trabalho. Comunicação no esporte precisa contar histórias, humanizar, e esse é um trabalho que deve permear a vida de todos que trabalham no segmento.
Pode ser difícil sonhar com médio ou longo prazo num ambiente de tanta pressão e de tanto escrutínio público quanto o futebol brasileiro. Enquanto o cenário for esse, porém, não adianta termos qualquer tipo de surpresa com mudanças como as demissões de técnicos. Enquanto faltar convicção eles vão seguir sofrendo.

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Princípios relacionados ao modelo de jogo – sugestão de reformulação dos constructos técnicos, baseando-se em quatro princípios

O futebol é um esporte de natureza complexa, onde a diversidade e singularidade dos acontecimentos surgem a partir do confronto de dois sistemas concorrentes. O sistema é caracterizado pelo conjunto de agentes em interação, que cooperam, com objetivos e comportamentos comuns, buscando criar uma ordem e estabilidade nesse contexto caótico de desordem e instabilidade permanente (JOSÉ GUILHERME, 2014).

Na tentativa de diminuir a imprevisibilidade dos acontecimentos durante o jogo, as equipes procuram atender leis e princípios do jogo que norteiam as ações coletivas e individuais, buscando uma melhor gestão espacial do jogo, aqui entendido como tática.

Os princípios táticos são definidos como conjunto de normas comportamentais sobre o jogo que proporcionam aos jogadores a possibilidade de atingirem rapidamente soluções táticas para os problemas advindos da situação que defrontam (GARGANTA, PINTO, 1994).

Na literatura especializada diversas conceituações e terminologias são utilizadas, e todas convergem para uma ideia similar com três constructos teóricos: princípios gerais, operacionais e fundamentais.

Os princípios gerais, (i) não permitir a inferioridade numérica, (ii) evitar a igualdade numérica e (iii) procurar criar a superioridade numérica, se pautam nas relações espaciais e numéricas entre os jogadores da equipe e os adversários, nas zonas de disputa pela bola (QUEIROZ, 1983; GARGANTA; PINTO, 1994).

Os princípios operacionais são relacionados a conceitos atitudinais para as duas fases do jogo, sendo defensivos: (i) anular as situações de finalização, (ii) recuperar a bola, (iii) impedir a progressão do adversário, (iv) proteger a baliza e (v) reduzir o espaço de jogo adversário; e ofensivos: (i) conservar a bola, (ii) construir ações ofensivas, (iii) progredir pelo campo de jogo adversário, (iv) criar situações de finalização e (v) finalizar à baliza adversária (BAYER, 1994, p.145).

Por sua vez, os princípios fundamentais representam um conjunto de regras que orientam as ações individuais e coletivas a fim de desequilibrar a organização da equipe adversária e estabilizar a própria organização, em função ao que está ocorrendo no epicentro de jogo (local onde a bola se encontra num determinado instante “T” do jogo) e no centro de jogo (delimitado por um raio de 9,15 a partir do epicentro) naquele momento (COSTA et al., 2010). Na defesa os princípios são: (i) contenção, (ii) cobertura defensiva, (iii) equilíbrio, (iv) concentração e (v) unidade; e no ataque: (i) penetração, (ii) da mobilidade, (iii) da cobertura ofensiva, (iv) espaço e (v) unidade. (WORTHINGTON, 1974; HAINAUT; BENOIT, 1979; QUEIROZ, 1983; GARGANTA; PINTO, 1994; CASTELO, 1999; COSTA et al., 2010).

Temos também os princípios relacionados ao modelo de jogo, conceito utilizado por diversos autores, ainda que com nomenclaturas diferentes, e que se caracteriza como padrões de ação tática, de intencionalidades e regularidades, que a equipe e os jogadores devem manifestar nas diferentes escalas, durante os diferentes momentos de jogo de acordo com as ideias de jogo do treinador (GARGANTA, 2012; QUEIROZ, 1983; CASARIN et al., 2011). Essa operacionalização dos princípios ocorre em todos os níveis do jogo, individual, grupal, setorial, intersetorial e coletivo.

Desta forma, acreditamos na existência de 4 constructos teóricos, mantendo-se os supracitados princípios gerais, operacionais e fundamentais, e considerando os princípios relacionados ao modelo de jogo como um quarto constructo, como podemos observar na tabela abaixo.

Baseado nos referidos estudos, o Centro de Formação de Jovens Futebolistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (CEFOR-UFJF), acredita na eficiência e eficácia de se criar uma sequência progressiva e pedagógica do modelo de jogo das suas equipes de formação, e, consequentemente, dos princípios relacionados aos mesmos. Este material está em fase final de produção e será apresentado em detalhes nas próximas postagens.

PRINCIPIOS RELACIONADOS AO MODELO DE JOGOO

A operacionalização dos princípios supracitados refletem o modelo de jogo da equipe, e que devem ser disseminados no ambiente de treino e de competição ao longo do processo de formação do futebolista. É necessário distribuir os conteúdos do jogo de maneira sistematizada ao longo do tempo, respeitando as características de crescimento, desenvolvimento e maturação biológica dos jogadores (BALYI et al., 2013; WEIN, 2004).

Uma vez que o cumprimento dos princípios de jogo pode se diferenciar durante os anos de formação, se faz necessária a adaptação da sua presença, ou seja, do modelo de jogo de forma condizente a zona de desenvolvimento em que os atletas se encontram (TAMARIT, 2007; GOMES, 2008).

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PROMOÇÃO 13o ANIVERSÁRIO UNIVERSIDADE DO FUTEBOL

Na semana de Aniversário da Universidade do Futebol quem ganha presente é você! Participe de nosso mini-campeonato e concorra a prêmios diários!!
COMO FUNCIONA 
Durante a Semana de Aniversário da Universidade do Futebol (entre os dias 25 a 29 de Julho) serão publicados em diferentes horários, 3 vídeos no Facebook, com integrantes da equipe da Universidade do Futebol fazendo perguntas relacionadas com futebol e com a Instituição (todas as respostas são encontradas no nosso site e redes sociais).
Somente pontuarão os 20 primeiros que responderem corretamente cada pergunta lançada.
Os 5 primeiros ganham 10 pontos
Do sexto ao décimo ganham 7 pontos Do 11o ao 15o ganham 4 pontos
E do 15o ao 20o ganham 2 pontos
Dessa maneira, quem obtiver a maior pontuação ao final do dia irá receber o premio. Caso haja empate, a rapidez em responder será critério de desempate (as respostas das publicações no Facebook, sempre tem a hora exata).
PRÊMIOS
1 (um) CURSO POR DIA
– De segunda-feira (dia 25) à sexta-feira (dia 29).
O prêmio será entregue à pessoa que mais pontos fizer entre as 3 respostas do dia. Não necessariamente devem ser respondidas as 3 perguntas, se com apenas uma ou duas respostas ela obter maior pontuação que os demais, poderá receber o prêmio.
Os pontos não são acumulativos de um dia para outro. Cada dia é uma nova pontuação que começa do zero.
Dia Prêmio – Cursos Valor 
25/julho Gestão em Marketing I R$129,90
26/julho Análise de Jogo I R$129,90
27/julho Treinando através de jogos: o Passe R$400,00
28/julho Jogos Reduzidos e Adaptados no Futebol R$500,00
29/julho Modelo de Jogo R$600,00
– O prêmio, uma vez concedido, é pessoal e intransferível.
– Os alunos que estão realizando algum curso da Universidade do Futebol, regularmente matriculados até a divulgação desta política, não são elegíveis às regras e condições ora ofertadas para o curso que realiza.
– Alunos que tenham estudado algum curso na Universidade do Futebol e que realizaram trancamento de suas matrículas, ou desistiram do curso, sem solicitação formal de cancelamento, não são elegíveis as regras e condições ora ofertadas.
– Já os alunos que cancelaram formalmente sua matrícula até 22/07/2016 são elegíveis as regras e condições ora ofertadas, desde que não possuam débito ou inadimplência com a Universidade do Futebol.
– Para fazer jus ao benefício do prêmio, a matrícula para inicialização nos cursos, deverá ocorrer, obrigatoriamente, até o final de 2016 (31 de dezembro).
Os prêmios serão oferecidos somente para os participantes que seguem nossa página no Facebook.
O cancelamento, desistência ou trancamento do curso não exime o aluno beneficiado da responsabilidade de comunicar a interrupção dos estudos por escrito e formalmente à Instituição. Ocorrendo qualquer uma das hipóteses acima listadas ou, ainda, ocorrendo o abandono do curso, o desconto promocional será cancelado automaticamente.

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Lançamento do livro GOL DA ALEMANHA no Museu do Futebol

Hoje aconteceu o lançamento do livro GOL DA ALEMANHA, pela editora Grande Área. Escrito pelo jornalista espanhol, Axel Torres, junto com seu professor de alemão, André Schin, a narrativa é desenvolvida de modo que os dois autores vão trocando ideias como se estivessem conversando, um com o outro, para entender sobre o futebol alemão.

O lançamento aconteceu no Museu do Futebol, com a participação de João Paulo Medina (Universidade do Futebol), Rodrigo Capelo (Revista Época), Gustavo Vieira (diretor executivo do São Paulo F.C), Gerd Wenzel, André Kfouri e Leonardo Bertozzi (da ESPN Brasil) para um bate-papo sobre o livro.

O bate-papo sobre o futebol alemão e o brasileiro, contou com a participação do Professor João Paulo Medina e Gustavo Vieira, que falaram sobre o cenário atual do futebol brasileiro e as mudanças necessárias que devem ocorrer. Além da transformação que ocorreu no futebol alemão para chegar nos modelos atuais e como eles foram em busca dessa transformação.

Gerd Wenzel, André Kfouri e Leonardo Bertozzi, participaram da segunda etapa do bate-papo.

A seguir você pode conferir algumas fotos do evento.

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“Caso Riascos” e os caminhos da lei

A manifestação do atacante Riascos, do Cruzeiro, ao microfone da Itatiaia, repercutiu em toda a imprensa brasileira. Após a derrota para o Fluminense, o atleta disse “Não pode tirar minha felicidade pra (sic) jogar nessa merda aqui”.
Imediatamente, a diretoria do Cruzeiro afastou Riascos. No dia seguinte, o Presidente Gilvan de Pinho Tavares, adotou tom mais ameno e deu dicas de que a postura do Clube possa ser mais amena.
Nesta terça-feira, em nota oficial, a diretoria do Cruzeiro manteve o afastamento do atleta e informou que já estava negociando os direitos econômicos dele e que está agilizando o processo.
Analisando-se a legislação aplicável ao caso, em situações como a do atacante Riascos, todo cuidado é pouco, senão vejamos. Aos atletas profissionais de futebol aplica-se a Lei Pelé e, no que for silente, a CLT. Em caso de dispensa imotivada do atleta, o clube deverá pagar a cláusula compensatória desportiva que terá o valor máximo de 400 (quatrocentas) vezes o valor do salário mensal no momento da rescisão e, como limite mínimo, o valor total de salários mensais a que teria direito o atleta até o término do contrato. Ou seja, dispensa do atleta oneraria os cofres do Clube.
Para evitar o pagamento da cláusula compensatória desportiva, Riascos deveria ser dispensado com justa causa, cujas hipóteses estão previstas no art. 482, da CLT, a saber: a) ato de improbidade; b) incontinência de conduta ou mau procedimento; c) negociação habitual por conta própria ou alheia sem permissão do empregador, e quando constituir ato de concorrência à empresa para a qual trabalha o empregado, ou for prejudicial ao serviço; d) condenação criminal do empregado, passada em julgado, caso não tenha havido suspensão da execução da pena; e) desídia no desempenho das respectivas funções; f) embriaguez habitual ou em serviço; g) violação de segredo da empresa; h) ato de indisciplina ou de insubordinação; i) abandono de emprego; j) ato lesivo da honra ou da boa fama praticado no serviço contra qualquer pessoa, ou ofensas físicas, nas mesmas condições, salvo em caso de legítima defesa, própria ou de outrem;  k) ato lesivo da honra ou da boa fama ou ofensas físicas praticadas contra o empregador e superiores hierárquicos, salvo em caso de legítima defesa, própria ou de outrem;  l) prática constante de jogos de azar.
Analisando-se as hipóteses legais, percebe-se grande dificuldade de enquadramento do caso concreto. Importante esclarecer que por indisciplina/insubordinação entende-se insurgência contra ordem estabelecida.
Além da cláusula compensatória desportiva, em eventual demanda trabalhista, o Cruzeiro poderia ser condenado ao pagamento de indenização por assédio moral.
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Nos Tribunais brasileiros há diversas decisões no sentido de condenar o Clube ao pagamento de danos morais por assédio moral quando são afastados do grupo principal e colocados para “treinamento em separado”.
A tudo isso se soma o fato de Riascos ser um ativo do Clube com reconhecido valor de mercado (vale lembrar que o Vasco teve interesse na sua permanência) e eventual “depredação” pública da imagem do atleta traria desvalorização ao seu próprio patrimônio.
Não há dúvidas de que o melhor caminho será negociar os direitos econômicos do atleta e, consequentemente, evitar o pagamento de cláusula compensatória (e também eventual dano por assédio), bem como repor o investimento feito no atleta.
O grande ponto neste caso será a redução do valor do atleta no mercado, eis que é público e notório o interesse/necessidade do Cruzeiro em “se ver livre” do atacante.
De toda sorte, situações como esta devem ser analisadas de forma bastante racional, profissional e com vistas no mercado, despida de paixões, a fim de que a decisão não traga grandes prejuízos ao Clube.

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Demissão

O esporte é um mercado como qualquer outro, mas não há mercado como o esporte. Em que outro segmento profissional um funcionário expõe insatisfação durante a atividade, reclama publicamente (e veementemente) do lugar em que está, é demitido (também de forma pública e veemente), sofre ameaças de ações judiciais, vira alvo de extenso (e ambíguo) escrutínio popular e só depois tem sua situação verdadeiramente discutida? O caso Riascos é uma soma de problemas e tropeços, mas o cenário decorrente disso mostra uma série de características que fazem do futebol um ambiente único para quem trabalha com comunicação.
Duvier Riascos, 30, foi contratado pelo Cruzeiro em 2015. Enfrentou rejeição desde o momento em que a negociação foi concretizada – para a torcida alviceleste, o atacante colombiano era mais lembrado por um pênalti perdido na Copa Libertadores de 2013, quando defendia o Tijuana, em lance que podia ter eliminado o Atlético-MG do torneio. Nunca foi realmente aceito na Toca da Raposa.
Em maio de 2015, a despeito de ter contrato de três anos, Riascos foi emprestado ao Vasco. Não conseguiu evitar a queda da equipe carioca para a Série B do Campeonato Brasileiro, mas se consolidou. Virou referência também pelo estilo – as danças, o cabelo, o comportamento exacerbado.
A mudança parecia o melhor cenário para todos, mas o contrato de empréstimo terminou. O Cruzeiro queria dinheiro para que Riascos continuasse no Vasco, e o Vasco não quis bancar. O colombiano voltou à equipe mineira em maio, valorizado, com expectativa de finalmente conseguir espaço e aceitação.
Novamente, porém, a passagem de Riascos pelo Cruzeiro não teve nada disso. O atacante encontrou um elenco esfacelado, em transição, com troca de comando técnico e uma enorme quantidade de mudanças no elenco. Sucumbiu em meio a um grupo que tem colocado a equipe na parte inferior da tabela do Campeonato Brasileiro e escancarou tudo isso no último domingo (17), em derrota para o Fluminense. Ao ser acionado pelo treinador Paulo Bento, chamou mais atenção em campo pelas caras e bocas do que pelas jogadas. Foi vaiado pela torcida mineira e tomou um cartão amarelo por reclamação – a advertência, a terceira, suspendeu o atacante da próxima partida.
Ao sair de campo, Riascos foi questionado sobre a atuação e a evidente insatisfação. Em entrevista à “Rádio Itatiaia”, respondeu que estava infeliz e que havia sido retirado de onde estava bem “para jogar nesta m…”. Foi o estopim para uma bomba.
Em entrevista coletiva, logo depois do jogo, o diretor de futebol do Cruzeiro, Thiago Scuro, anunciou a demissão de Riascos. Desligou o jogador da delegação e avisou que o clube tomaria medidas legais para punir o atacante. Enquanto isso, torcidas das duas equipes que ele defendeu no Brasil inundavam redes sociais – os mineiros pediam a saída imediata dele, e os cariocas pediam a volta do colombiano.
O desabafo de Riascos foi desmedido, obviamente. O jogador pode até alegar que estava com a cabeça quente e que foi interpelado em um momento de pressão, mas a verdade é que esse tipo de exagero não contribui em nada para o contexto todo. A declaração dele colocou em xeque o trabalho e o nível dos profissionais da equipe mineira.
A reação de Scuro também foi forte, o que ele julgou necessário para proteger a imagem do clube e dar uma espécie de recado a outros jogadores. Institucionalmente, essa foi uma manifestação importante e teve um tom tão assertivo quanto o momento pedia. O problema, nesse caso, não foi cabeça quente ou um nível incontrolável de insatisfação. Nenhuma comunicação oficial desse tipo pode ser feita sem amparo de todas as áreas responsáveis.
Nesta segunda-feira (18), menos de 24 horas depois do episódio, o presidente do Cruzeiro, Gilvan de Pinho Tavares, foi bem menos enfático. Em entrevista ao portal “UOL”, lembrou que o jogador é um ativo do clube e que não vai simplesmente ser demitido. Houve um investimento para contratar o atacante, que ainda tem mais de um ano de vínculo e praticamente não deu retorno técnico à equipe mineira.
Depois de tudo que foi criado, contudo, o ambiente de Riascos no Cruzeiro parece extremamente inviável. É uma situação ainda mais grave do que a que está posta no Corinthians, que ainda tem até o fim do ano para administrar o problema que se tornou o atacante Alexandre Pato.
Num mercado comum, o profissional que chegasse a esse ponto simplesmente sairia da empresa. Tentaria um acordo amigável ou então romperia o contrato. Trabalho é uma parte importante da vida, mas não existe trabalho se o profissional estiver infeliz ou estiver em uma condição miserável – e essa infelicidade ou essa condição miserável não dependem de quanto a pessoa receba por mês, independentemente dos altos salários praticados no futebol; é uma questão de sensação e de relação com o entorno, e isso pode acontecer mesmo entre os mais bem remunerados.
No entanto, o futebol não é um mercado comum. É um segmento em que todas as decisões de qualquer profissional são submetidas a julgamento público e que têm consequências para processos maiores. Se simplesmente demitir Riascos, por exemplo, o Cruzeiro terá de administrar o rombo que isso causará no orçamento do clube.
Todo esse episódio reforça a importância de que estratégias de comunicação sejam pensadas e discutidas entre todas as áreas. O desfecho do caso Riascos afetará o Cruzeiro como um todo e não pode ser definido no futebol para depois chegar a áreas como diretoria e departamento jurídico. É fundamental que as pessoas funcionem como a engrenagem que um time deveria ser – e que a comunicação reflita isso. A cabeça quente não pode ser desculpa para atropelos em processos tão relevantes.

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“Quem somos nós?”

Segundo o jornalista Paulo Cunha (A Bola, 2015/9/12), a polémica instalou-se em Old Trafford. “O capitão e o vice-capitão do Manchester United, os pesos-pesados Wayne Rooney e Michael Carrick, respetivamente, abordaram Louis van Gaal para, olhos nos olhos, questionarem uma série de opções do experiente técnico, de 64 anos”. Outros jogadores, como Falcão, Di Maria, Van Persie e alguns mais têm coincidido nos comentários ácidos, em relação aos métodos de van Gaal, demasiado ríspidos, desagradáveis, sem réstia de tolerância. Quando criei o paradigma (não estou a erguer-me nos bicos dos pés, podem crer) que, para mim, fundamenta o desporto (a motricidade humana, ou o movimento intencional e em equipa da transcendência) logo tentei responder às interrogações seguintes: trata-se de um paradigma positivista ou quantitativo? Interpretativo ou qualitativo? Sociocrítico ou hermenêutico? Para estudar e definir o ser humano, que o desportista é, todos me pereceram parciais e limitados. De facto, só com processos metodológicos empírico-analíticos, racionalistas, quantitativos; só com um árido clima de férrea disciplina; sem uma eloquente solidariedade com os jogadores; sem a linguagem simples, dinâmica e colorida do futebol – a liderança pode ser opulenta, de espetaculares efeitos mediáticos, mas normalmente não é assumida, nem vivida, nem aceite pelos jogadores. O George Steiner, no livro A Ideia da Europa diz-nos que “a dignidade do homo sapiens é precisamente esta: a percepção da sabedoria, a demanda do conhecimento desinteressado, a criação de beleza, incluindo a beleza moral. Fazer dinheiro (muito dinheiro) e inundar as nossas vidas unicamente de bens materiais não passa de uma paixão profundamente insana e vulgar. Só com números e sem coração, é bem possível que a Europa sinta a necessidade de gerar uma revolução contra-industrial como gerou a própria Revolução Industrial” (p. 53). Poucas linhas adiante observa o autor que, quando a Europa se libertar da sua ideologia falida, “o sonho pode e deve ser sonhado novamente” (p. 55).

O homem é um ser complexo (aliás, tudo é complexo). Nas palavras de Edgar Morin, compõe-se, numa síntese perfeita, de físico, de biológico e de antropossociológico. Mas dou a palavra ao próprio Edgar Morin: “os dois aspectos fundamentais da complexidade (…) são por um lado a natureza multidimensional dos problemas (o complexus é realmente aquilo que é tecido em conjunto) e por outro as contradições irredutíveis que os problemas profundos suscitam. Existem contradições fundamentais para o espírito e o facto de pensar ao mesmo tempo em duas ideias contrárias representa, em minha opinião, um esforço de complexidade. O físico Niels Bohr afirmou que o contrário de uma verdade profunda é outra verdade profunda. Encontra-se a verdade, ao unirem-se noções antagónicas mas complementares” (in Réda Benkirane, A complexidade – vertigens e promessas, Instituto Piaget, Lisboa, 2004, p. 22). Dada a multiplicidade das fontes, na análise da prática desportiva, e após o confronto crítico indispensável entre todas elas, a maior objetividade possível garante-se, quando o paradigma positivista e o qualitativo ou interpretativo e o sócio-crítico não se excluem, porque todos são necessários e se complementam.  Quando se dizia e ensinava que, na medicina e na educação física, o paradigma científico radicava apenas na fisiologia e se pensava que as leis do mundo físico eram, em tudo semelhantes, às do mundo social e humano, o conhecimento, como um pêndulo, oscilava entre a física e a matemática e a qualidade, com todo o seu ímpeto de força criadora, ficava esquecida na preparação do atleta. Alguns cientistas preferem, na investigação e até na prática profissional, a quantidade à qualidade, porque aquela pode ser testada, verificada, medida, experimentada e é de mais fácil manuseio; nesta, descobre-se mais cultura do que técnica, mais arte do que rendimento, mais ludismo do que eficiência, mais criatividade do que repetição, mais sabedoria do que saber, mais sentimento do que razão, um mundo enfim que não se reduz ao quantitativo, ao mensurável, não os dispensando embora.

O domínio da epistemologia positivista, no desporto, durante todo o século XX, dava indiscutível relevo às noções científicas de explicação, previsão e controlo, no treino e na competição de um ser (o ser humano), que procura (em grupo, em equipa) o significado e o sentido do que faz, em tudo o que faz, designadamente quando transcende e se transcende. Vou citar ainda o Daniel C. Dennet, no livro da sua autoria, A Liberdade Evolui (Temas e Debates, Lisboa): “Não há fonte de inquietação mais poderosa, quanto ao livre-arbítrio, do que a imagem das ciências físicas a tragarem todos os nossos feitos, bons ou maus, no caldo ácido da explicação causal” (p. 300). Gadamer adianta sem receio, no seu Truth and Method, que um “conhecimento objetivo”, como o positivismo o entende, não passa de uma grande quimera. “É evidente que, quando a pessoa é vista apenas na sua autonomia biológica, a sua identidade fica empobrecida e, neste sentido, é mais fácil manipulá-la e instrumentalizá-la” (in Alfredo Dinis, Brotéria, Fevereiro de 2003, p. 133). George Lakoff e Mark Johnson consideram que “a mente é por natureza incarnada (…), somos muito diferentes daquilo que a nossa tradição filosófica nos tem dito” (in Alfredo Dinis, Brotéria, Maio-Junho de 2003, p. 435). E, sobre o mais,  porque a nossa identidade pessoal é estruturalmente relacional. É principalmente na amizade, no amor, na vivência de uma grande paixão, de um grande ideal, que a ciência reconhece que, mais do que quantitativa, o ser humano deverá merecer uma abordagem interpretativa/qualitativa. Com efeito, no âmbito do humano, investigar supõe interpretar ações, factos e acontecimentos. Habermas fala-nos de uma “hermenêutica da suspeição” onde no desporto, por exemplo, a técnica, a tática e a estratégia estão sempre em tensão dialética com o húmus cultural e social donde nascem. Assim, o treinador desportivo competente é o que sabe descobrir a complementaridade entre o paradigma positivista e o interpretativo e o sócio-crítico, porque a complexidade do ser humano assim o exige. Uma visão unilateral não abrange a multidimensionalidade da natureza humana.

Quem somos nós? O desporto dá-nos a resposta: seres-de-relação e em permanente relação. Visando a superação, ou a transcendência.  No meu modesto entender, o desporto é um dos aspectos do movimento, intencional e em equipa, da transcendência (a motricidade humana). Fazendo desporto, o homem (a mulher) persegue, em equipa, a transcendência. E toma consciência, de forma original e expressiva, de que não é objeto da história, mas sujeito criador da própria história; de que não é apenas reflexo do mundo em que vive, mas projeto de um mundo possível; que é preciso lutar (com regras) para desfatalizar a história. Nenhuma realização, nenhuma práxis deverão considerar-se como o fim da história. Portanto, assim nos ensina o desporto: em grupo, em equipa, o homem e a sociedade são tarefas a realizar e a transformar. Na prática desportiva, no desporto federado ou escolar, o treinador e o professor não deverão realçar tão-só os benefícios físicos e fisiológicos da motricidade humana.  Há, no ser humano, no meu pensar (ajoujado de limitações, reconheço) uma estrutura biológica, uma estrutura psíquica e uma estrutura sóciocultural. Numa atitude prévia de compreensão do treino, tanto no desporto escolar como no desporto federado, depressa se conclui que nem todo o conhecimento se esgota na física, na biomedicina, na matemática. Como já há muitos anos aprendi, em Ortega y Gasset,  onde acaba a física não terminam as questões. Parafraseando o filósofo espanhol, onde acaba a técnica e a tática não terminam as questões no futebol. A essência do próprio terreno de investigação nestas áreas mantem-se oculto, para os que sabem muito de biologia do desporto, julgando que, asssim, dominam todos os segredos da prática desportiva. O desportista (ó suprema contradição!) não passa, neste caso, de mera abstração intelectual. Ciência, hoje, é o que permite ao especialista não abusar do seu saber. Só agora reparo onde me levou uma notícia sobre Louis van Gaal…