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Osmar Loss x Fábio Carille

Pegou todos de surpresa na semana passada a “paralisação” do técnico Fábio Carille de “abastecer” o Corinthians com os seus trabalhos. É claro que apesar dos rumores, não se esperava que em questão de dias o treinador bicampeão paulista e atual campeão brasileiro deixasse o Timão. Como consequência, também repentina, Osmar Loss assumiu a equipe. E na loucura do calendário brasileiro, dois jogos em quatro dias. Duas derrotas corintianas.
Não dá para traçar qualquer paralelo e relação dessas derrotas com Osmar Loss. Ele não teve tempo para treinar. Para colocar qualquer ideia em prática. Concedeu a entrevista coletiva de apresentação na quarta-feira, na quinta encarou o Millonários e no domingo pegou o Sport. É bem verdade que emocionalmente nunca é bom perder em estreias. Ainda mais duas derrotas assim na sequência. Mas cabe ao torcedor corintiano entender não só esse contexto de fatos inesperados, como também visualizar que o Corinthians sem Cássio, Fágner, Ralf, René Júnior e Clayson fica fragilizado. Independentemente do treinador.
Osmar Loss é muito prestigiado por todos que trabalham com categoria de base no Brasil. Seu currículo vencedor impõe respeito. Ele teve uma formação sólida no Internacional e vê o técnico Guto Ferreira como uma referência.
As equipes de Loss sempre foram fortes e organizadas defensivamente, procurando um ataque mais vertical e direto, mas principalmente com um futebol muito intenso e vibrante nos quatro momentos do jogo (ataque, defesa, transição defensiva e transição ofensiva). Se pegarmos a grosso modo, não foge muito das características do Corinthians campeão de Carille.
É claro que o ambiente do futebol profissional é bem diferente do da base. Loss precisa entender isso de uma maneira muito rápida e responder positivamente já no próximo jogo. E se a torcida e a diretoria corintiana derem tranquilidade, a adaptação dele será mais fácil.
 

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Sob controle: criação de subsidiárias para trabalhar o conteúdo multimídia do futebol

Recentemente o Bayern de Munique anunciou a criação de uma subsidiária que fará o controle multimídia do conteúdo gerado por todos os produtos do clube, seja ele para a TV, rádio, redes sociais e mídia impressa. Tudo isso para aprimorar seu conhecimento digital mas, sobretudo, ter o controle de tudo que é gerado pela instituição.  

Ao trabalhar neste sentido, o Bayern se projeta de maneira mais competitiva no mercado, em busca de manter e também ampliar o seu mercado consumidor. Ajuda no processo de internacionalização da marca e, a prazo, colabora em atrair novos investidores e patrocinadores. A televisão segue sendo importante, entretanto, há inúmeros outros meios, veículos derivados da TV que o clube tem mais autonomia para trabalhar. E tudo isso será transmitido com base na tradição, nos valores e histórico da instituição. Em outras palavras, a identidade do Bayern será divulgada, a cativar e atrair mais simpatizantes. Ademais, fornece um “know-how” que pode ser oferecido à indústria do esporte pelo mundo afora.

O conteúdo é vasto. Talvez infinito. A começar, uma organização esportiva (clube, liga, torneio, evento) possui história, palmarés, efemérides. Recintos esportivos memoráveis. Torcedores, simpatizantes e fãs. Um clube possui inúmeras categorias, quer seja a faixa etária e o gênero. Treinos, conferências de imprensa. Possui ídolos, que têm seus próprios ídolos. É bastante coisa que pode ser feita, trabalhada em diversas ocasiões, para os mais distintos públicos-alvo e em muitos idiomas.

Sede do FC Bayern de Munique |Foto: Divulgação/FC Bayern München

 

Portanto, faz bem o Bayern e organizações esportivas com semelhante iniciativa, a de terem uma empresa que tenha o controle multimídia do conteúdo gerado pela organização. De novo aqui neste texto a frase usada na coluna anterior: “Se a Disney fosse um clube brasileiro, venderia o Mickey Mouse e não os seus desenhos animados”. Pois bem, é o controle do “desenho animado” que o Bayern está a fazer.


 

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Introdução à Metodologia Antropológico-Tática

O conhecimento evolui e mesmo aquilo que é considerado uma “verdade científica absoluta” numa determinada época ou período histórico (noção de paradigma de Thomas Kuhn, 1991), pode não fazer sentido algum tempo ou vários anos depois. Um exemplo disso são as modificações das tendências táticas e conteúdos de treino do futebol ao longo do séculos. Os conteúdos dos livros técnicos vão caindo, na sua grande parte, em desuso e novas teorias vão surgindo, algumas sustentadas naquilo que já havia sido feito em algum momento do passado, outras são novos conceitos introduzidos provenientes da reflexão e do estudo sobre o jogo.
Por exemplo, em 1981 a afirmação do conhecido teórico e prático Teotônio Lima mostra qual era o pensamento vigente nessa época: “É no âmbito da fisiologia aplicada, fisiologia do trabalho muscular e fisiologia do exercício, que a metodologia do treino desportivo tem a sua fundamentação científica”.  
No Mundial de 1986, o título foi conquistado pela seleção Argentina de Diego Armando Maradona – El Pibe, que chegou ao título utilizando o sistema de jogo 1-3-5-2, estruturado por uma zaga forte, consistente e um meio-de-campo estável que dava liberdade e segurança para o craque Maradona deslumbrar com o seu futebol. Na seguinte Copa do Mundo da Itália em 1990, havia 24 seleções participantes e dessas, 20 utilizaram o sistema 1-3-5-2 com que a Argentina tinha vencido a Copa anterior. Esse sistema tático foi intensamente aplicado na Europa nos anos 90, e em vários clubes brasileiros também (MANTOVANI; FRISSELLI, 1999; MELO 2001). 
Nos anos 90, o futebol permaneceu em grande escala vinculado aos aspetos físicos e táticos, que alguns consideravam ser a Ciência do Futebol, devido aos estudos e investigações fisiológicas e análises táticas que dominaram essa década. Joseph Blatter comentou posteriormente a Copa de 90 com a seguinte afirmação: “O nível do Mundial foi mau e mostrou todos os problemas do futebol moderno, no qual os treinadores preferem não sofrer gols a fazê-los. Os treinadores de hoje preferem a preparação atlética à técnica, e as únicas equipes onde subsistem os gestos técnicos fundamentais são aquelas em que ainda não abundam as estruturas de treino e o futebol de rua continua vivo” (in TADEIA, 1992).
Ofamoso treinador italiano Arrigo Sachi aplicou o inovador conceito na época, o de inteligência coletiva. O AC Milan, que treinava, era conhecido pelo rigor defensivo do 1-4-4-2 de no qual os jogadores nunca estavam separados por mais de 25/30 metros entre si, que, como referia o treinador“onze jogadores ativos em todos os momentos da partida, seja na defesa, seja no ataque”. Nos famosos treinamentos de Sacchi, podiam-se observar muitas vezes partidas de 90 minutos sem bola, nos quais o treinador indicava pontos imaginários e os jogadores teriam que reagir e organizar-se de acordo com esses pontos, sempre compactos, com velocidade e intensidade elevadas e na busca da armadilha do impedimento (MENICUCCI, 2015).
 
Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

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A importância de lembrar que o atleta é humano

A imagem do esporte no último fim de semana foi o choro do goleiro Loris Karius, 24. Titular do Liverpool, o alemão cometeu duas falhas gritantes na decisão da Liga dos Campeões da Uefa e foi determinante para a derrota por 3 a 1 para o Real Madrid, que amealhou sua 13ª conquista na competição. O camisa 1 do time inglês pediu desculpas para os seus torcedores, mãos unidas e semblante emocionado. Desabou no gramado, chorou de forma acintosa e mostrou em poucos minutos o quanto é errado excluir de qualquer análise sobre o jogo o fato de todo atleta ser, antes de qualquer coisa, um ser humano.
“Não consegui dormir até agora. As cenas ainda estão correndo por minha cabeça de novo e de novo. Peço infinitas desculpas aos meus colegas de equipe, aos torcedores e a toda a comissão técnica. Sei que estraguei tudo com meus erros e decepcionei vocês”, escreveu Karius no domingo (27), um dia depois da decisão da Liga dos Campeões, em seus perfis oficiais em redes sociais.
O primeiro erro de Karius aconteceu aos 6min do segundo tempo, quando o placar ainda não havia sido alterado. O goleiro tinha a bola dominada em suas mãos, mas errou a reposição e arremessou nos pés de Benzema. Com a meta vazia, o francês só precisou desviar para as redes. O Liverpool chegou a empatar – gol de Sadio Mané –, mas Bale fez o segundo do Real Madrid de bicicleta, sem chance para o camisa 1 rival. O drama do alemão aumentou a sete minutos do fim, quando o mesmo Bale chutou de longe – e no meio do gol. A bola passou entre as mãos de Karius e selou o placar.
Karius está longe de ser unanimidade no Liverpool. Contratado do Mainz 05 em 2016, ganhou a posição do belga Mignolet na segunda metade da temporada 2017/2018, mas viu a diretoria da equipe inglesa seguir em busca de outro goleiro. O brasileiro Alisson, atualmente na Roma, foi um dos nomes procurados.
Os erros diante do Real Madrid fizeram muito mais do que alimentar a desconfiança. Pela proporção e pelo momento decisivo, é provável que afetem de forma definitiva os próximos passos de Karius no futebol. A repercussão das falhas atinge níveis individuais (a posição, a continuidade no Liverpool e o futuro no futebol) e coletivos – o alemão prejudicou as aspirações de seus companheiros, que (também) lutaram muito para chegar à decisão, e também sepultou as esperanças dos torcedores. Nesse contexto, importante lembrar: os ingleses já eram azarões e ainda perderam no início da decisão o atacante Mohamed Salah, sua principal referência técnica.
A proporção dos erros de Karius é gigante em qualquer âmbito. O choro, contudo, não se deve apenas a isso. Na hora, no calor do jogo, é até difícil imaginar que o goleiro conseguiu contextualizar suas falhas. É mais fácil imaginar isso numa comparação com a reação de Guilherme Mantuan, 20, lateral direito do Corinthians. O camisa 2 escorregou ao dominar uma bola no último domingo (27), aos 47min do segundo tempo, e ofereceu ao atacante Rossi o segundo gol do Internacional. Os gaúchos venceram por 2 a 1.
Assim como Karius, Mantuan chorou muito. Ainda em campo, foi consolado por companheiros e até rivais. O jogo não era decisivo, e um revés fora de casa não chega a ser um absurdo em uma competição de pontos corridos. A falha pode ter custado um ponto ao Corinthians, mas é bem mais fácil esconder isso no todo do que lidar com os erros do goleiro do Liverpool.
Um exemplo diferente aconteceu no jogo do Botafogo no último domingo. Jefferson, ídolo e um dos mais experientes do elenco alvinegro, errou em uma saída de bola e proporcionou o primeiro gol do Vitória. Não chorou, não reagiu de forma efusiva. Minutos depois, deu um lançamento longo que originou o empate dos cariocas.
O que Jefferson ensina a Karius e Mantuan é que o esporte, mais do que praticamente todos os outros segmentos, oferece incontáveis chances de reação e de apagar os erros. Ninguém precisa se limitar a um lance ou a uma partida.
O que os dois ensinam a todos nós é que esse processo de reação não é nada simples. Como qualquer pessoa, jogadores podem se abalar com erros no ambiente profissional. Podem sofrer, podem ter milhares de inseguranças em decorrência disso. E se não lidarem com uma comunicação clara sobre processos, metas e expectativas, podem se apequenar a cada falha.
Erros fazem parte de qualquer ambiente profissional. Como lidar com eles é um desafio de comunicação para qualquer pessoa – e não apenas para os gestores de grupo. Karius e Mantuan, quando choraram, também emitiram um pedido de ajuda. Os companheiros que preferiram reagir com críticas e revolta não estão errados, mas esgarçaram – talvez definitivamente – uma relação de grupo que pode ser importante no futuro.
 

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(Re) Estruturando o modelo de formação – Parte 2

A adaptação do jogo ao aluno/praticante passa pela ideia de que as experiências de aprendizagem devem ser recompensadoras e produtivas. Obviamente que num jogo há sempre aquele que obtém maior sucesso em detrimento do outro, mas um ponto importante para uma aprendizagem produtiva é o claro entendimento do que se deve alcançar, seja ganhando ou perdendo.
Então, como tornamos possíveis insucessos ou derrotas, recompensadores? A ideia fundamental neste caso é fazer com que o aprendiz possa participar ativamente e muitas vezes das situações que envolvem o jogo, transformando a atividade em algo motivador e proporcionando uma grande densidade de ações e decisões. Além do que, pessoas altamente motivadas dedicam maior esforço à tarefa, são mais atentas durante as sessões de treino e estão mais dispostas a praticar por maiores períodos de tempo.
De modo a complementar, a ideia consiste em fazer cada vez melhor o que se pode fazer no jogo, ou seja, melhorar 1) a ocupação do espaço de jogo; 2) as ações tanto com a bola quanto sem a bola; 3) a interpretação do que ocorre no jogo e suas decisões; 4) e aumentar as possibilidades de intervenção.
Scaglia et al (2013), ilustram bem esta ideia ao afirmar que:
“… estruturar o espaço num mini-campo de futebol é relativamente fácil para uma criança de 10 anos. Já um campo oficial requer muita habilidade dos jogadores que, transitando da iniciação à especialização, enfrentam o problema de dominar o espaço de um campo oficial de futebol”.
Ao mencionar que o espaço deve ser estruturado para o aprendiz, ou seja, o campo de jogo deve ser adaptado ao jovem futebolista e não o contrário, o autor acima vai de encontro a um pré-requisito muito importante para uma aprendizagem produtiva; isto é, transformar a atividade em algo mais desafiador, com objetivos realistas e perfeitamente atingíveis. Desta maneira torna-se mais possível conseguir executar as ações desejadas de forma adequada e eficiente.
Uma vez identificado que um aspecto estrutural do jogo (neste caso o espaço) interfere de forma relevante no que diz respeito à aprendizagem, devemos ter em conta que existem outros elementos estruturais que precisam da mesma atenção. Assim, quando nos referimos aos aspectos estruturais do jogo, estamos nos referindo aos elementos que definem a modalidade.
A partir daqui, devemos considerar dois tipos de estruturas e saber diferenciá-las:
– Estrutura formal ou lógica externa do jogo, constituída por uma série de características que tendem a ser comuns a todos os esportes coletivos (espaço de jogo, bola, baliza, tempo/duração do jogo, número de jogadores e suas regras).
– Estrutura funcional ou lógica interna do jogo, a qual também caracteriza os esportes coletivos e consiste em entender o jogo como resultado das interações entre jogadores de uma mesma equipe, com ou sem a bola, estando a equipe atacando ou defendendo, com a finalidade de atingir os objetivos propostos.
Isto nos leva a pensar em possíveis adaptações da estrutura formal para cada escalão. Uma ideia é a utilização de formatos de jogos de 3×3, 5×5 e 7×7, o que facilitaria o processo de aprendizagem já que todas as ações com bola ocorrem próximas aos jogadores e à baliza. Tal diminuição do espaço, somada à uma adequação do tamanho e peso da bola, além de se adaptarem às características do jovem futebolista, permitiria ao mesmo mover a bola com maior precisão, favoreceria a uma participação imediata e a uma melhor organização no espaço de jogo.
Parece compreensível que tais adequações somadas às do tamanho da baliza, do tempo/duração do jogo e das regras do jogo também se fazem necessárias, de maneira que estes aspectos não se convertam em um bloqueio ao desenvolvimento do jogo. Desta forma, estabelecer uma progressão adequada e adaptada na estrutura formal do jogo ajudaria no processo de aquisição de habilidades técnico-táticas que requer o jogo.

Tabela 1. Exemplo de progressão das adaptações na estrutura formal do jogo para cada escalão

*Jogo de 3×3 sem goleiro

 
Ao adequar os formatos de jogo para cada escalão, permite-se que a estrutura formal tenha uma influência muito positiva na estrutura funcional do jogo. Fundamentalmente, o jogo passa a apresentar um aumento significativo de intervenções e um conjunto de situações mais simples que vão ao encontro das motivações dos praticantes, às suas características e ao seu nível de desenvolvimento.
Sustentando esta ideia, estudos realizados por Pérez e Vives (1996) e Casáis, Dominguez e Lago (2011), verificaram que o número de intervenções é maior quanto menor seja o formato de jogo utilizado, de forma que o número de ações como fintas, desarmes, finalizações ao gol, passes e condução de bola em formatos de jogo de 5×5 apresentem uma média de intervenções por minuto quatro vezes maior quando comparado ao formato de 11×11.

Tabela 2. Quadro comparativo entre os formatos de futebol de 7 e futebol de 11

Dados retirados de: Fútbol Base: El entrenamiento en categorías de formación

 
Aplicando a ideia de forma adequada, teríamos um aumento progressivo do campo de jogo e do número de jogadores de acordo com a idade e à medida que estes jogadores vão desenvolvendo suas capacidades no decorrer do processo de formação.
Seguindo a ideia, Ferreira (2013) cita que:
“Desta forma, os jovens futebolistas vão ter o jogo de futebol ajustado às suas características em termos de complexidade, fomentando o gosto pela prática e tornando o seu processo de formação mais estruturado, respeitando uma progressão pedagógica em termos de ensino na procura de um melhoramento a nível de jogo das crianças”.
 
Bibliografia
CASÁIS, L.; DOMÍNGUEZ, E.; LAGO, C. Fútbol base: el entrenamiento en categorías de formación. 2ed. MCsports, 2011.
FERREIRA, F. A transiçãod o futebol de 7  para o futebol de 11 de acordo com os princípios de jogo comuns. 2013. (Mestrado). Faculdade de Desporto, Universidade do Porto.
PÉREZ, L. A.; VIVES, E. V. La importância del fútbol 7 como passo prévio al fútbol 11. El entrenador Español, 70, 12-18, 1996.
SCAGLIA, A. J. et al. O ensino  dos jogos esportivos coletivos: as competências essenciais e a lógica do jogo em meio ao processo organizacional sistêmico. Revista Movimento, v. 19, n. 4, p. 227-249, 2013.

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Entre o Direito e a sua chuteira

Bem-vindos a nossa última coluna de maio aqui no “Entre o Direito e o Esporte”. Hoje vamos fechar o nosso mês do “marketingdo futebol”. E depois de ver nessas semanas o que a gente acha “Entre o Direito e o Marketing do Futebol” e falar um pouco sobre o direito do autor e os sinais distintivos no esporte, nessa sexta-feira vamos conversar sobre as “criações e os segredos industriais” no futebol.
Para deixar tudo do jeito que a gente gosta e mais organizado, segue o mapa do dia: vamos começar com o que é o desenho industrial e como isso aparece na chuteira que a gente acha na loja; depois vamos ver o que é a patente e como isso faz uma chuteira nova aparecer na loja; e fechamos com o segredo industrial e como isso faz com que aquela chuteira daquela marca® que você gosta seja diferente daquela cópia quase igual que a gente não deveria comprar naquele lugar, sabe?
Bora lá, então?

Fonte: www.footyheadlines.com

 
Só de olhar de cara eu te pergunto: o que essa chuteira (que o Pierre-Emerick Aubameyang usou um tempo atrás) tem de diferente da que ele usa hoje? Fácil, a resposta mais simples é “todo esse design chique aí”. E esse é bem o nosso primeiro ponto do dia, o desenho industrial! Que é “todo esse design chique aí” ou, em outras palavras, a forma e o padrão gráfico dessa chuteira.
Essa “cara” da chuteira pode ser protegida quando registrada como “desenho industrial”. Essa “cara” é o “jeitão” da chuteira (como ela aparece para a gente). Essa “cara” tem uma forma (aspectos tridimensionais, como o tamanho) e o padrão gráfico (aspectos bidimensionais, como as cores).
A forma e o padrão gráfico deixam essa chuteira “única”, como essa cor meio amarela (ou laranja?), verde e preta em umas formas diferentes (o swoosh da Nike, as estrelinhas, a forma do raio, e por aí vai) no tipo (Hypervenon) criado pela gigante do Oregon nos Estados Unidos.
Isso dá o valor de mercado ($) dessa chuteira e facilita o trabalho da Nike na hora de fazer o marketing da chuteira e vender para quem joga bola no final de semana, por exemplo. Sem essa proteção, tudo isso seria bem mais difícil.
Fonte: www.footyheadlines.com

Agora você me diz “beleza, concordo. Só que não é só isso que faz diferença nesse trem aí, amigo!”. E eu vou concordar com você, e te agradecer por me lembrar disso! Essa chuteira também é diferente porque ela é feita de alguns materiais específicos colocados juntos de uma maneira determinada (tipo para construir um muro, sabe? Tijolo, cimento, tijolo).
E aí que está o ponto principal! Isso tudo depende de dois tipos de “criações industriais”: a patente de invenção (como os materiais específicos) e a patente de modelo de utilidade (a maneira determinada de colocar esses materiais específicos). E o jeito “mais fácil” de ver isso é olhar bem embaixo da chuteira, olhar as travas da chuteira.
Essas travas são feitas com um material específico que alguém criou para resolver um problema técnico (“como fazer uma trava boa”) das chuteiras de futebol (patente de invenção). Essas travas têm esse material específico colocado de uma maneira determinada para melhorar a função de cada trava (“como melhorar o jogo de quem usa a chuteira”) quando alguém usa lá no gramadão (patente de modelo de utilidade).
Essas patentes novas, criativas e que podem ser copiadas para todas as chuteiras, servem como um dos melhores “jeitos” para diferenciar a chuteira daquela marca® que você gosta, daquela outra que você sente que não te cai bem na hora de dar uma caneta. Sabe?
Fonte: www.footyheadlines.com

 
Agora, tudo isso parte de uma ideia só: para você proteger tudo isso, você precisar registrar cada uma dessas ideias. E registrar quer dizer que todo mundo vai saber o que você faz, com o que você faz e o jeito que você faz essa chuteira. E tem coisa que a gente não quer que todo mundo saiba, né?
Lembra aquela história da “fórmula da Coca-Cola”? Aquela história que quase ninguém sabe do que ela é feita. História que leva a ideia de “segredo industrial”. Isso quer dizer que a Coca-Cola não registrou com o que e o como ela faz o seu refrigerante, e o motivo é simples: se ninguém sabe o “que” e o “como”, não tem como copiar.
A mesma coisa pode acontecer no futebol e com as chuteiras. A Nike tem até um caso interessante sobre isso quando “processou” (lá nos Estados Unidos) três designersque saíram de lá e pularam o muro para a Adidas (que também tem um pé ali no Oregon). E “processou” justamente porque eles levaram alguns desses segredos para a rival, segredos que ainda eram conceitos e por isso não tinham sido registrados.
Esse know-how (o conhecimento técnico dos funcionários) é valioso e pode valer mais a pena deixar ali dentro de uma “porta fechada” do que registrado e numa redoma de vidro para todo mundo ver.
Bom, aqui chegamos ao fim do nosso mês de maio aqui na Universidade do Futebol – o mês de tudo o que a gente acha “Entre o Direito e o Marketing do Futebol”. E agora quando amanhã você for assistir a final da Champions League® já vai saber dizer como funciona toda aquela história do hino, do símbolo, e até daquele tipo novo de tecnologia de transmissão da partida no conforto do seu sofá. Né?
Fico por aqui hoje e nos vemos na próxima sexta-feira para começar um novo mês do nosso futebol aqui no “Entre o Direito e o Esporte”. O mês da Copa do Mundo! Combinado? Deixo meu convite para falarem comigo por aqui, pelo meu LinkedIn ou pelo meu Twitter. Bom final de semana para vocês, e vejo vocês no fechamento do mês de maio por aqui!

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A saída de Fábio Carille do Corinthians

Julgar a decisão de qualquer profissional de sair ou permanecer em um trabalho, é impossível. Cada ser humano carrega uma bagagem, uma história de vida e um modelo de mundo que nortearão suas tomadas de decisão.
Fábio Carille decidiu sair do Corinthians. Optou por encerrar sua trajetória de dez anos no Coringão. Preferiu ir para o Al Wehda, da Arábia Saudita. Respeito a decisão. Entendo a opção. E tento encontrar os argumentos que tomaram conta do diálogo interno dele em uma decisão tão complexa.
Primeiro, a questão financeira. Venhamos e convenhamos que nenhum clube da Arábia Saudita irá projetar Carille para a nata do futebol mundial. Mas o pagamento mensal em dólar será muito bom. O ex-técnico corintiano ainda não ficou rico no futebol. A chance é agora.
Depois penso no momento atual do Corinthians: atual campeão brasileiro e bi-campeão paulista. Carille apontado como o ‘cara’ dessas conquistas. Arriscar esses troféus buscando um bi do Brasileiro e mais uma Libertadores ou se resguardar pelas conquistas já realizadas? Ótima questão, já que há quem garanta que o atual presidente do Corinthians Andrés Sanchez não morre de amores por ele.
Em terceiro penso sobre o futuro promissor que Carille terá quando quiser sair da Arábia. Ele poderá escolher o clube que quiser para trabalhar. Todos os grandes do Brasil estarão o esperando de braços abertos. Ele voltará com outro status. Definitivamente, retornará como um técnico top. E isso independentemente de como forem seus resultados na Arábia.
Enfim, compreendo a lógica desses argumentos e imagino que todos são plausíveis e possam, de um jeito ou de outro, ter passado pela mente de Carille. Mas finalizo com minha maneira de ver e encarar o mundo: eu teria ficado no Corinthians. Não me importaria com os dólares. Buscaria ganhar tudo e mais um pouco com essa camisa. Para, na sequência, ambicionar seleção brasileira e/ou futebol europeu. Porém cada um é cada um.
Que Deus te abençoe, Carille.
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Por dentro dos padrões de jogo do Liverpool


*Créditos: BeanyMan Sports
Arséne Wenger (então treinador do Arsenal)gosta de jogar futebol, de ter a posse da bola… É como uma orquestra, mas é uma música silenciosa. Eu gosto mais de heavy metal. Eu não posso treinar o Arsenal porque sou um cara diferente. Se você me olhar durante um jogo, eu comemoro quando pressionamos o adversário e a bola vai para fora. (…) Se o time do Barcelona (do Guardiola) fosse o primeiro que eu vi jogar quando tive quatro anos de idade… ganhando de 5 a 0, 6 a 0… eu teria jogado tênis. Desculpe, mas isso não é o suficiente para mim. Não é o meu esporte. Eu não gosto de ganhar com 80% de posse de bola.
Treinadores vão dizer que não é importante para o time deles correr mais e preferem fazer os jogos da maneira certa. Eu quero fazer jogos somente no jeito certo e correr 10 quilômetros a mais. Se você não precisa dar tudo e ainda ganha, o que seria isso? Você não gosta desse jogo? É como se fosse assim (Klopp boceja). Não é a estatística mais importante, mas eu adoro ler que corremos mais que o adversário. Você pode obter o respeito se fizer isso e você tem mais chance de ser bem sucedido”.
Poucas entrevistas definem tão bem um treinador e uma filosofia quanto esta que Jürgen Klopp concedeu, quando ainda era treinador do Borussia Dortmund, em 2013[1].
No Liverpool, Jürgen Klopp dirige jogadores que se encaixam e conseguem dar vida ao seu estilo de jogo heavy-metal: uma linha defensiva sólida e agressiva (Van Dijk, Lovren, Robertson e Arnold); um trio de meio-campistas de incansáveis trabalhadores (Milner, Wijnaldum e Henderson) e um ataque simplesmente avassalador composto por Salah, Firmino e Mané, que já entraram para a história da Liga dos Campeões por serem o trio de ataque mais goleador de sempre (29 gols até o momento). O Liverpool ainda conta com o melhor ataque da competição com 40 gols marcados (contra 30 do Real Madrid), sofrendo 13 (contra 15 do Real Madrid).

Jogando um futebol agressivo, de poucas pausas, verticalidade e muitos gols, o Liverpool leva o caos aos seus adversários de diferentes maneiras, sendo capaz de estar nas zonas de finalização após trocar apenas 3 ou 4 passes.
Baseado numa posse de bola curta, busca agredir os espaços centrais e as costas da linha defensiva adversária no menor tempo possível, com ataques rápidos e diretos: tanto pelo chão, tanto com bolas longas, utilizando a velocidade do seu trio ofensivo, o preenchimento de espaços e a capacidade física do seu trio de meio campistas.
Mestre em contra-atacar após recuperar a bola estando organizado defensivamente, Klopp deixa mesmo sua marca nas transições defensivas – extremamente agressivas e sufocantes que visam recuperar a bola no menor tempo possível: o chamado gegenpressing.
Gegen, em alemão, significa “contra”. Em uma tradução livre, podemos definir como “contrapressing”, uma pressão ao contra-ataque adversário.
Quando o Liverpool perde a posse da bola, a intenção da equipe é, sempre que possível pressionar prontamente o portador da bola, no intuito de recuperá-la no menor tempo possível. Em caso da recuperação ocorrer, logo após a própria perda, teoricamente apanhará o adversário saindo em contra-ataque, ou seja, haverá espaços para contra-atacá-lo imediatamente. Em termos práticos, esta é a essência do Gegenpressing para Jürgen Klopp.
Por visualizar sempre o contra-ataque, a equipe de Klopp busca na organização defensiva uma maneira de potencializar o seu trio de ataque para este momento, fazendo com que, na medida do possível, eles não precisem voltar tanto para marcar, especialmente Salah.
Assim, há momentos em que conseguem ter solidez defensiva e um bom contra-ataque após roubar a bola. Porém, há momentos em que, por conta do papel que os extremos exercem, assumem alguns riscos e podem se expor defensivamente.
Outra arma do Liverpool são as bolas paradas, com destaque para o escanteio ofensivo, com bons cabeceadores e bons cobradores.
Após longos 11 anos de espera, e sem protagonismo no cenário europeu, o Liverpool voltará a disputar uma final de Liga dos Campeões. Isso por si só, já é um motivo de sobra para tentarmos entender como esta equipe joga.
Por isso, eu e Jorge Sáez[2], após analisarmos os jogos das quartas-de-final e semi-final, preparamos um material mais detalhado, com mais informações, fotos e vídeos que ilustram nossas percepções sobre os padrões de jogo da equipe treinada por Jürgen Klopp.

Clique aqui para ter acesso ao material completo.

Foto: Reprodução Web

 
_________
[2]Jorge Sáez: Mestrando na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (Portugal), com ênfase em Futebol Alto Rendimento.
[1]http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-alemao/noticia/2013/11/klopp-diz-que-futebol-do-borussia-e-como-heavy-metal-e-critica-barcelona.html

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Futebol: indústria de mídia e entretenimento

É notório o investimento de clubes, ligas e federações para a criação de canais de comunicação para a divulgação dos seus produtos. Especificamente, na criação de canais de televisão e de emissoras de rádio próprias que geram conteúdo exclusivo, que os canais de televisão (aberta e por cabo) não possuem. Acessos privilegiados, entrevistas pontuais com convidados muitas vezes de difícil acesso. Quando permitido, narração e comentários bem parciais dos jogos. Algo inimaginável de se ver ou ouvir em emissoras de televisão e estações de rádio que estamos acostumados a assistir ou escutar.

Certa vez um comunicador brasileiro disse, em 2010: “Se a Disney fosse um clube brasileiro, venderia o Mickey Mouse e não os seus desenhos animados”. Oito anos depois, os “mickeys”  seguem sendo vendidos, mas os “desenhos animados” estão sendo mais aproveitados. Ao acompanhar o canal a cabo do Real Madrid é possível ter a dimensão do que pode ser conseguido, desde engajamento e fidelização do torcedor até o retorno financeiro. A programação é vasta, vinte e quatro horas do dia e os jogos pelo canal transmitidos são anunciados da seguinte maneira: “os comentários do seu ídolo, sem o clubismo de quem não é dos nossos”. Oras, um chamariz importante para aquele que leva este fator (clubismo) em consideração. Qualquer clube da primeira divisão do futebol do Brasil é capaz de gerar – sem sombra de dúvidas – muito mais conteúdo.

Isso no Brasil tem tomado forma e quem ganha com isso é o torcedor. Não é preciso ser um canal a cabo ou com uma assinatura ainda mais exclusiva. E nem que o clube tenha milhões de torcedores. Basta que as próprias redes sociais do clube produzam este conteúdo e inclusive transmitam os jogos. Na minha cidade natal (bem longe de ser populosa), o clube faz isso: transmite os jogos pela rede social com o áudio de uma rádio local. O resultado é excelente: comentários em tempo real, engajamento e alcance nunca outrora imaginados. Ademais aproxima o torcedor à transmissão da rádio e aos trabalhos do clube, uma vez que o comentário fica lá registrado. A exposição dos patrocinadores aumenta e, consequentemente, o vínculo destas marcas com o clube. Tudo isso dentro de um planejamento estratégico que o clube estabeleceu a longo prazo. Toda a decisão tomada tem como base os princípios deste plano. A raiz deste plano, por sua vez, nasce – desculpem-me a repetição de ideias – em um começo: o estabelecimento de uma missão, uma visão e valores.

Apresentador e comentaristas prontos para mais uma transmissão da TV do Real Madrid. | Foto: Divulgação/Real Madrid

 

Com tudo isso, ações como estas estão ao alcance de todos os clubes, independentemente do tamanho, palmarés ou massa associativa. É um investimento que pode ser alto, mas se é uma tendência mundial, é porque tem dado certo. A concorrência na indústria do futebol tem aumentado e a instituição não quer perder torcedores para os seus similares. Sobretudo para os clubes europeus, que já produzem conteúdo em português do Brasil justamente para chamar a atenção de crianças e jovens.

 

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Operários da bola, colaborar no negócio futebol sim, porém, coordenar, gerenciar, dirigir ou presidir.

O objetivo aqui não é de forma alguma polemizar e sim trazer uma reflexão, sobre a trajetória e inserção do negro no futebol, valorizar sua história como protagonista ou não, considerar a complexidade do tema, que pode ser relevante para uns e para outros nem tanto, porém, é difícil ser indiferente a todas estas questões com envolvimento, histórico, cultural, racial, social e profissional que contribuíram na construção do nosso produto futebol.
O futebol surgiu no Brasil no fim do século XIX, trazido por Charles Miller na bagagem voltando da Inglaterra, era como esporte de elite, praticado por estudantes de classe alta. Eles se reuniam nos intervalos de suas atividades para praticar o esporte. Só podiam jogar os que fossem sócios do clube, diferenciava classes e raças, trazia um status e aceitação na alta sociedade. Mas aos poucos o futebol foi se popularizando, negros, mulatos, trabalhadores e desempregados foram se interessando pelo esporte.
O Bangu Atlético Clube, fundado por ingleses, mas formado por operários da fábrica de tecidos Bangu no Rio de Janeiro foi o primeiro clube no estado a escalar um negro em 1905 (Francisco Carregal).
O Vasco da Gama em 1923 causou polêmicas, pois tinha em seu elenco a maioria de atletas negros e chegou a ser campeão carioca. Porém, em seguida, os outros clubes formaram uma liga Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), entidade à qual o Vasco só poderia se filiar se dispensasse seus 12 atletas negros.
O primeiro ídolo do futebol brasileiro foi Arthur Friedenreich, mulato, filho de um alemão com uma negra brasileira, marcou o gol que deu o primeiro título continental ao Brasil, o Sul-Americano de 1919, para parecer mais branco, antes de entrar em campo ele esticava o cabelo junto ao couro cabeludo.
Outro jogador que marcou história foi Carlos Alberto no Fluminense em 1914, que passava pó de arroz no rosto para clarear sua pele. Durante o jogo – com o suor -, esse pó ia saindo fazendo com que a torcida o chamasse de pó de arroz, logo após, passando a ser o apelido dos torcedores do fluminense.
Com a entrada dos negros e mulatos nas equipes, o nível do futebol foi aumentando e os times sendo obrigados a inseri-los.
Os sócios do Fluminense externaram seu preconceito pois, não queriam que esses frequentassem a sede do clube. Para atender a essa reclamação e separar sócios de jogadores, o Fluminense empregou seus jogadores como assalariados fazendo com que entrassem no clube pela porta de funcionários e não como sócios de elite. Tudo isso se deu em 1930 colaborando então mais tarde em 1933 com o início da profissionalização.
Os atletas passaram a ser contratados e pagos conforme seu nível técnico, e a cor da pele deixou de ser preponderante. Com essa abertura de oportunidades surgiram grandes talentos negros, Leônidas da Silva destaque na Copa de 1938, até então a presença de negros na seleção ainda era mal vista. Outros grandes atletas surgiram como: Domingos da Guia, Barbosa, Nilton Santos, Pelé -o atleta do século-, entre muitos.
O tempo foi passando, o futebol se desenvolvendo e com ele as formas de racismo também. Dizem que o futebol é reflexo da sociedade, sendo assim o Brasil ainda não se viu livre do racismo. O negro com toda sua força e cultura participou da construção do Brasil, mesmo por um bom tempo de forma escrava, e mesmo conquistando a liberdade, ainda é visto como escravo por injustiças sociais oriundas de um racismo implícito, por vezes invisível e inconsciente. Da mesma maneira o negro com toda sua técnica participou do desenvolvimento do futebol, com um início sofrido de lutas e humilhações e mesmo conquistando a profissionalização ainda é vítima de um racismo que permeia todo o ambiente do futebol.
Ele pode ter uma discriminação mais suave se for uma celebridade, ter fama, dinheiro e demonstrar inteligência, ou seja, da forma como se apresenta para a sociedade.
Em meio as adversidades, pessoas conscientes com a problemática histórica sócio-cultural e envolvidas com a causa -sejam elas negras ou não-, mesmo de forma tímida sem muito apoio e/ou espaço na mídia e poucos parceiros, estão se mobilizando em prol de uma justiça social igualitária de direitos, deveres, oportunidades e desenvolvimento humano como um todo. Algumas ações e iniciativas, mesmo um pouco isoladas, debates, e estudos apontam caminhos e diretrizes trazendo ao conhecimento da sociedade fatos, casos, dados e números que representam essa realidade não só no futebol, mas no esporte de forma geral.
Uma iniciativa significante foi feita pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, com “O Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol2016” foi lançado em debate sobre racismo no futebol, no auditório do Ministério do Esporte, evento promovido pelos Ministério do Esporte e dos Direitos Humanos.
O 3º Relatório Anual da Discriminação Racial no futebol é uma análise sobre os incidentes classificados como casos de “racismo no futebol” brasileiro, com dados e informações sobre os desdobramentos dos casos, assim como suas respectivas punições aos envolvidos.
O Relatório 2016 apresentou cinquenta e seis (56) incidentes, destes: trinta (30) casos envolvem o futebol brasileiro; cinco (05) casos que aconteceram em outros esportes no território nacional; cinco (05) casos envolvendo atletas brasileiros no exterior e dezesseis (16) casos durante os Jogos Olímpicos Rio 2016. Dos trinta (30) casos que envolvem o futebol brasileiro; vinte e cinco (25) dizem respeito a discriminação racial; quatro (04) envolvem homofobia e um (01) xenofobia.
Outra iniciativa relevante foi realizada pela FIFA (esperamos maior envolvimento e efetividade) através do seu “Programa Antidiscriminação” com envolvimento do jogador da seleção da Costa do Marfim e do Manchester City, Yaya Toure, e parceria com a FARE -organização que tem uma vasta experiência no combate à discriminação no futebol e na utilização dos observadores em partidas de futebol. O Programa consiste em um sistema de monitoramento que relatam os casos de discriminação, iniciado na Copa das Confederações e também será aplicado na Copa da Rússia 2018. O sistema irá facilitar e complementar o trabalho dos árbitros e órgãos disciplinares da FIFA. O principal objetivo é otimizar os procedimentos legais para obter as provas necessárias para possíveis punições.
Com a globalização racial através de imigrações e povos refugiados que por diversos motivos deixam suas pátrias, seja por comércio escravo, por questões religiosas, ideológicas, ou simplesmente em busca de uma vida melhor e digna fez do futebol um universo miscigenado. Por todas essas questões houve então a chamada “Diáspora africana ou Negra” da Idade Moderna intensamente no século XIX e que perdura de forma mais branda até os dias atuais. O negro em sua maioria se espalhou pelas Américas do Sul (Brasil) e do Norte (EUA), e Europa.
E é notória a participação do negro não só no Brasil como já vimos, mas também nos principais centros econômicos e de visibilidade do futebol, conforme consta a participação de negros e mulatos nos elencos dos clubes, visualizado nos sites na última semana de 2017 e que nos apontam os números da classificação abaixo:
 

  Classificação       Países              Porcentagem de negros no elenco

1º                       França                    53%

2º                       Brasil                      48%

3º                      Inglaterra                37%

4º                      Portugal                  30,5%

5º                      Holanda                   25%

6º                      Alemanha                16%

7º                      Espanha                  14%

 8º                     Itália                      12%

Concluímos a importante participação do negro no futebol mundial dentro de campo, porém, fora dele sua participação é praticamente inexistente é grande a falta de treinadores, dirigentes, presidentes nos clubes e, também, a não presença de pessoas negras como comentaristas, repórteres e apresentadores nos principais programas esportivos pelo Brasil e pelo mundo. A superação da desigualdade racial como um caminho para a construção de um futebol e sociedade mais justa e igualitária passa pela formação educacional, capacitação e oportunidade de trabalho gerando assim uma transformação social.
 
Referências:
Disponível em:  https://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/01/a-trajetoria-do-negro-e-do-racismo-no-futebol-brasileiro.html acesso em 22 de dezembro de 2017
Disponível em:  https://www.geledes.org.br/a-insercao-do-negro-no-futebol-brasileiro/?gclid=EAIaIQobChMIgsXd0oet2AIVFQSRCh14UgylEAAYASAAEgI1UPD_BwE acesso em 22 de dezembro de 2017
Disponível em:   http://observatorioracialfutebol.com.br/clipagem/relatorio-anual-2016/relatorio-anual-2016-parceria-federal/ acesso em 22 de dezembro de 2017
Disponível em:  https://historiadoesporte.wordpress.com/2015/01/04/o-negro-no-futebol-brasileiro/ acesso em 27 de dezembro de 2017
Disponível em:  http://observatorioracialfutebol.com.br/observadores-anti-discriminacao-para-as-eliminatorias-da-russia-2018/ acesso em 28 de dezembro de 2017
Disponível em:  http://farenet.org/acesso em 28 de dezembro de 2017
Disponível em:  http://observatorioracialfutebol.com.br/Relatorios/2016/RELATORIO_DISCRIMINCACAO_RACIAL_2016.pdf acesso em 27 de dezembro de 2017
* Graduado em Educação Física pela Universidade de Mogi das Cruzes, Pós-Graduado como Treinador Profissional de Futebol pela USP, Gestor Esportivo e ex-atleta de futebol.