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O papel da genética no processo de seleção, formação e detecção de talentos no futebol

Após o mapeamento do genoma humano, o interesse em saber a influência do genótipo (informações contidas em nosso DNA) sobre o fenótipo (característica manifestada) cresceu substancialmente não só na área da medicina para a cura de várias doenças, mas também no esporte como tentativa de predição de desempenho.

O primeiro estudo que relacionou o desempenho a algum tipo de gene foi realizado por Montgary et. al. (1998), que verificaram prevalência do alelo I (inserção) tanto homozigoto (II) quanto heterozigoto (ID) do gene da enzima conversora de angiotensina (ECA) em montanhistas que acendiam até 7000 m de altitude sem necessidade de suprimento extra de oxigênio.

Segundo Oliveira et. al. (2004) o gene da ECA localiza-se no cromossomo 17 e esse polimorfismo (responsável por cerca de 50% da ECA circulante) corresponde a Inserção (alelo I) ou Deleção (alelo D) de 287 pares de bases no intron 16 do gene. Os indivíduos homozigotos DD apresentam maior concentração de ECA circulante que os heterozigotos ID e homozigotos II e teriam maior vantagem em tarefas relacionadas com força, enquanto os homozigotos II teriam maior vantagem em tarefas aeróbias.

Com o avanço tecnológico e a evolução da Biologia Molecular, vários outros estudos foram conduzidos na tentativa de encontrar genes “alvo” como possíveis marcadores de desempenho esportivo.

Atualmente, além do gene da ECA, os que parecem ter mais relação com o rendimento são: BDKRB2 (-9/+9), ACTN3 e R577X, GDF-8K153R, E164K, P198A, I225T, CCL2 e CCR2, AMPD1 C34T, CKMM, BMP2, HIF1A P582S, MSTN e FST, CNTF e INSIG2.

Mais especificamente no futebol, alguns estudos interessantes já têm sido conduzidos com o intuito de verificar se há algum polimorfismo, alelo ou gene que explique de forma satisfatória o rendimento.

Juffer et. al., (2009), por exemplo, verificaram em 54 jogadores profissionais do gênero masculino maior frequência de alelos ID da ECA e de CT da AMPD1 e menor frequência do gene GDF-8 K153R. Esses dados indicam que jogadores de elite tendem a apresentar um genótipo favorável para o desenvolvimento de força e potência musculares ao invés de resistência aeróbica. Vale lembrar que o alelo II do gene da ECA causa uma troca de um aminoácido no angiotensinogênio atua

O mesmo foi verificado por Santiago et. al. (2008) que investigou a distribuição de frequência do genótipo R577X da ACTN3 em jogadores de futebol profissional da Europa. Ao comparar a expressão gênica de 52 jogadores, os autores verificaram que 85% deles possuíam o alelo R da ACTN3, sendo 48,3% homozigóticos RR, 36,7% heterozigóticos RX e apenas 15% homozigóticos XX. Estes dados também evidenciam que jogadores com relativo sucesso possuem genótipo favorável para o desenvolvimento da força e da potência musculares.

Apesar dos estudos apresentados nesta coluna darem indícios de que dentro de um período de tempo relativamente curto será possível mapear os genes de um recém nascido e saber quais modalidades ele teria mais chance de se desenvolver, vale ressaltar que aspectos pedagógicos, técnicos, táticos, motivacionais, nutricionais, além de vários outros fatores que interferem no máximo desempenho de um jogador de futebol jamais poderão ser desconsiderados.

Outro ponto importante que deve ser lembrado é que mesmo com o conhecimento advindo da Biologia Molecular auxiliando na investigação de diferentes genes que estejam associados ao desempenho de alto rendimento no futebol, esta forma de identificação jamais deverá ser utilizada de forma isolada para seleção, formação e detecção de talentos. Ela poderá, sim, dar melhores direções para o sucesso ou fracasso em determinada modalidade, mas jamais deverá tirar o poder de escolha do praticante ou desconsiderar os demais aspectos necessários para o sucesso.

Para interagir com o autor: cavinato@universidadedofutebol.com.br

Referências bibliográficas

Juffer P, Furrer R, González-Freire M, Santiago C, Verde Z, Serratosa L, Morate FJ, Rubio JC, Martin MA, Ruiz JR, Arenas J, Gómez-Gallego F, Lucia A. Genotype distributions in top-level soccer players: a role for ACE? Int J Sports Med. 2009 May;30(5):387-92.

Montgomery HE, Marshall R, Hemingway H, Myerson S, Clarkson P, Dolley C, Hayward M, Holliman DE, Jubb M, World M, Thomas EL, Brynes AE, Saeed N, Barnard M, Bell JD, Prasad K, Rayson M, Talmud PJ, Humphries SE, Human gene for physical performace. Nature 1998 393: 221-2.

Oliveira EM, Ramires PR, Lancha-Júnior, AH. Nutrição e Bioquímica do Exercício. Rev paul Educ Fís 2004 18: 7-19.

Santiago C, González-Freire M, Serratosa L, Morate FJ, Meyer T, Gómez-Gallego F, Lucia A. ACTN3 genotype in professional soccer players. Br J Sports Med. 2008 Jan;42(1):71-3.

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Investimentos sustentáveis: realidade ou apenas um sonho?

O mercado milionário do futebol está em alerta. Investimentos descontrolados e pouco planejados colocam em risco a sustentabilidade do negócio. Lendo, na manhã da última terça-feira, o artigo de Erich Beting, intitulado “O mercado do esporte em 2017”, comecei a refletir sobre como o esporte, mais especificamente o futebol, está sendo pensado para os próximos cinco anos, por exemplo.

O que se vê é uma gestão do futebol pensando nos “incêndios” do próximo dia, ações mal planejadas e sem visão sistêmica do futuro. Talvez, a aparente desorganização seja uma forma simples de sucumbir gestões pouco qualificadas e não profissionais. Um balanço social bem elaborado certamente vai apontar as falhas que lá existem.

Chiavenato (2004) é enfático quando explica que o “mundo dos negócios” está sendo alterado com uma rapidez incrível. Além disso, o autor continua dizendo que a velocidade e a profundidade são características marcantes neste processo de mudança, mas, apesar da profunda mudança, o processo está se tornando descontínuo. A descontinuidade causa uma grande ruptura com relação ao passado.

Aproximo o termo descontinuidade, utilizado por Chiavenato, à desconfiança que as empresas demonstram ao decidir pelo investimento no esporte. Como muito bem falado por Beting, o volume de investimentos tem aumentado, mas este crescimento está na mesma proporção em que os proveitos multiplicaram.

Para se ter uma ideia do mercado esportivo, vamos pegar dois exemplos a título de comparação: o primeiro nos remete ao Banco Itaú que, de acordo com a Época Negócios (10-jun-2011), é a marca mais valiosa do Brasil, tendo um crescimento de 18% em seu valor de 2009 para 2010; o segundo se refere ao Corinthians, que a mesma Época Negócios aponta para um crescimento sobre seu valor de marca na ordem de 24% no mesmo período.

Aproximadamente 749,8 milhões de reais foi o valor mensurado para a marca alvinegra, segundo números do estudo da Crowe Horwarth RCS, divulgado no jornal O Estado de S. Paulo em dezembro de 2010.

Caracterizado por KHAUAJA (2005, p.23-24), uma marca sólida e valiosa:

É lembrada pelos consumidores potenciais;
Possui benefício(s) forte(s) e diferenciador (es) para o consumidor-alvo;
É considerada relevante para atender às necessidades e aos desejos de um grupo;
Mantém-se relevante para o consumidor em longo prazo;
É considerada diferente das demais pelos consumidores-alvo;
Possui uma imagem condizente com a identidade transmitida pela empresa;
Seu portfólio ajuda a construir sua imagem;
Possui percepção de qualidade adequada às expectativas dos consumidores-alvo das ações de marketing da empresa;
Cria um vínculo de fidelidade com seus consumidores-alvo;
Garante a lucratividade da empresa ou pelos menos da unidade de negócios;
Possui valor patrimonial elevado.

Trabalhar para a construção de marcas sólidas e valiosas deve ser o objetivo de um clube que pretende conquistar, fidelizar e reter bons investidores. Por isso ainda digo que os investimentos sustentáveis no futebol ainda não passam de um sonho.

*A redação desta coluna é de autoria de Douglas Strelow, após um pedido especial do colunista Geraldo Campestrini.

Douglas está no último ano do curso de Educação Física na UNIVILLE (Universidade da Região de Joinville) e desde o primeiro ano de faculdade se dedica a estudos, pesquisas e experiências relacionadas à gestão e ao marketing esportivo.

Contato: douglas@agon.esp.br.

Referências

Chiavenato, Idalberto. Administração nos novos tempos. 2. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

KHAUAJA, D. M. R. Fatores de marketing na construção de marcas sólidas: estudo exploratório com marcas brasileiras. 2005. 239p. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo.

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Desafios para o profissional do futebol: transformar dados em resultado

Na última segunda-feira, no portal Terra, uma notícia estava em destaque. Não era relacionada ao futebol, mas seu teor é de suma importância para aqueles que trabalham envolvidos com os centros de inteligência e informação desportiva.

Embora ainda seja um termo relativamente estranho ao futebol, tais centrais, às vezes, chamadas de “datacenter”, têm começado a brotar em alguns clubes brasileiros, conforme já comentamos na coluna do dia 14 de junho (Ao superar barreiras tecnológicas, é necessário definir rumos).

A notícia com o título “Volume de informação e disponibilidade são desafios de TI” trata da dificuldade que o universo tecnológico enfrenta com o excesso de dados que ele mesmo produz. É como se a tecnologia aplicada para gerar dados possa em pouco tempo entrar em colapso, tamanha a sua capacidade de captação de dados sem que seja acompanhada por uma eficaz utilização e conhecimento prático desses. Em síntese, a afirmação de Mark Beyer, vice-presidente da empresa de consultoria que faz o alerta, explica bem esse paradoxo:

“Os lideres de TI devem educar as empresas para ter certeza do grau de controle e de que o montante de dados não se tornem caos”.

Essa preocupação deve estar presente no futebol através dos profissionais que estão inserindo os recursos tecnológicos no seu cotidiano. Não basta coletar dados, não basta armazená-los. É preciso interpretá-los, mas também não podemos encerrar nisso, criando apenas um armazenamento de interpretações de dados. É imprescindível transformá-los em conhecimento.

Nesse aspecto é que um termo da frase dita por Beyer ganha notoriedade: “educar”. É preciso educar, isto é, capacitar e tornar aptos e hábeis os profissionais na arte de transformar dados em conhecimento e intervenção, evitando assim excesso de dados desnecessários e não compreendidos que serão perdidos.

Enquanto na TI a preocupação é o que fazer com os dados, deveríamos no futebol nos focar além do que fazer com os dados naqueles que darão vazão e naqueles que transformarão dados em resultados através de sua metodologia de trabalho e intervenção.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Fast Track 2014

George W. Bush, durante seu governo nos EUA, fez uso do chamado Fast Track.

A tradução da expressão ao português significa Via Rápida.

Com isso, todos os acordos e tratados comerciais negociados pelo presidente não seriam submetidos à aprovação do seu teor pelo Congresso do país.

Uma vez negociado, caberia ao Congresso aprovar no todo, ou vetar no todo, o texto normativo.

Não havia ingerência do Legislativo sobre o Executivo. Não havia outorga de poderes e/ou limites de um Poder para outro Poder.

Os limites eram a Constituição e o ordenamento jurídico norte-americanos.

Preservava-se, com efeito, a autonomia do chefe do Poder Executivo para negociar em nome do país – o que permitiu grande expansão comercial dos EUA em tratados bilaterais e regionais, como com o Chile, ASEAN e outros.

No Brasil, o governo acaba de aprovar, em Medida Provisória, o Regime Diferenciado de Contratação Pública (RDC), para acelerar a licitação e execução das obras da Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016.

Suscitou polêmica o ponto que assegura sigilo na divulgação da estimativa de preço das obras no edital.

O governo alega que a postura serve para evitar superfaturamento e cartel de empresas. A ideia é inverter o pólo da negociação: não se sabe quanto tem no bolso do comprador; por isso, as empresas se esforçariam em apresentar melhor técnica e preço para vencer a licitação.

Ademais, os órgãos de controle interno e externo saberão de todos os detalhes referentes aos editais, incluindo o preço que o governo está disposto a bancar.

Uma mudança positiva levantada é a contratação de ponta-a-ponta, turn key (chave na mão) ou design and build (projete e construa). Todos, na prática, referem-se ao fato de que quem planeja e projeta a obra deve construí-la.

Isso facilita o processo licitatório e de fiscalização, além de inibir intermináveis aditivos contratuais, diante da divergência entre o projeto e a execução da obra.

Não podemos, simplesmente, tratar algo complexo e importante como a seriedade e transparência com o dinheiro público apenas na base da gritaria.

O RDC pretende, a meu ver, flexibilizar o processo de organização dos eventos esportivos que o Brasil receberá.

Obviamente, deve-se respeitar a legislação nacional e os princípios e boas práticas de gestão pública.

Portanto, ao trabalho quem tem que fiscalizar e tem competência técnica e obrigação funcional para tanto: Tribunal de Contas, Procuradoria, Ministério Público.

Fiscalizar tecnicamente é um grande problema brasileiro.

Não é minha função. Não é a sua.

Nem da imprensa sedenta por sensacionalismo.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br  

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Do jogo ao esporte e à competição – parte II

Huizinga (2001) foi um historiador que analisou a importância do papel do jogo no desenvolvimento da civilização. Segundo este autor o jogo é mais antigo que a cultura e por isso afirma que a civilização humana não acrescentou qualquer característica essencial à idéia geral de jogo, e, em certo sentido, o jogo é também superior ou pelo menos autônomo em relação a ela. No entanto, o jogo constitui uma das principais bases da civilização. Huizinga também considera que o jogo tem uma função significante, ou seja, no jogo há “[…] alguma coisa ’em jogo’ que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação”. (p. 04).

Para Huizinga (2001), as teorias do jogo partem do pressuposto de que o jogo se acha ligado a alguma coisa que não seja o próprio jogo, que deve haver alguma espécie de finalidade biológica. Mas a intensidade do jogo e seu poder de fascinação não podem ser explicados a partir da biologia. Pois é nessa intensidade, fascinação, capacidade de excitar, que reside a própria essência e a característica primordial do jogo.

Poderíamos acreditar que a natureza poderia nos ter oferecido todas essas funções úteis de descarga de energia excessiva, de distensão após um esforço, de preparação para as exigências da vida, de compensação de desejos insatisfeitos etc., sob a forma de exercícios de reações mecânicos. Mas não: ela nos proporcionou a tensão, a alegria e o divertimento.

De acordo com a definição de Huizinga (2001) seguem algumas características do jogo:

1. Atividade voluntária/livre: a atividade sujeita a ordens pode ser, no máximo, uma imitação forçada. Para o sujeito adulto é uma função que facilmente poderia ser dispensada, mas se torna necessidade urgente na medida em que o prazer por ela provocado a transforma numa necessidade. O jogo liga-se à condição de obrigação e dever apenas quando constitui uma função cultural reconhecida;

2. O jogo não é vida “corrente” nem vida “real”: trata-se de uma fuga da vida “real” para uma esfera temporária de atividade com orientação própria;

3. O jogo diferencia-se da vida “comum” tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa – o isolamento e a limitação: o jogo inicia-se em determinado tempo e chega a certo fim em outro. Há uma limitação do espaço, de maneira deliberada ou espontânea. E, assim como não há diferença entre o jogo e o culto, do mesmo modo o “lugar sagrado” – característica primordial de todo ato culto – não pode ser formalmente diferenciado do terreno do jogo;

4. O jogo cria ordem e é ordem: a menor desobediência à ordem “estraga o jogo”.

5. O jogo é tenso: a tensão causa incerteza e os jogadores, por sua vez, se esforçam para levá-lo até um desenlace positivo, ou seja, querem “ganhar” e acabar com aquela incerteza que gira em torno do mesmo. Contudo, quanto mais estiver presente o elemento competitivo, mais apaixonante se torna o jogo;

6. Todo jogo tem regras próprias: a desobediência às regras implica a destruição do mundo do jogo, uma vez que o árbitro apita e quebra o feitiço, retorna-se à vida “real”. No círculo do jogo as leis e costumes da vida quotidiana perdem validade. Essa supressão/omissão temporária do mundo habitual é inteiramente manifesta no mundo infantil, porém não é menos evidente nos grandes jogos.

Numa tentativa de resumir as características formais do jogo, Huizinga (2001, p. 16) coloca que este é:
 

[…] uma atividade livre, conscientemente tomada como “não séria” e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total. É uma tentativa desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter lucro, praticada dentro de limites espaciais e tempos próprios, segundo uma certa ordem e certas regras. Promove a formação de grupos sociais com tendência a rodearem-se de segredos e a sublinharem sua diferença em relação ao resto do mundo por meio de disfarces ou meios semelhantes.

Diferentemente de Huizinga (2001), Caillois (1990) considera o jogo a mola primordial da civilização e, por isso, o termo jogo designa não somente a atividade específica que nomeia, como também a totalidade de imagens, símbolos ou instrumentos necessários a essa mesma atividade ou ao funcionamento de um conjunto complexo. Por isso, o jogo combina em si as ideias de limites, liberdade e invenção, assim como exige atenção, inteligência e resistência nervosa. Para ele:
 

Os jogos são em número variadíssimos e de múltiplos tipos: jogos de sociedade, de destreza, de azar, jogos de ar livre, de paciência, de construção, etc. Apesar desta infinda diversidade, e com uma notável constância, a palavra “jogo” evoca por igual as ideias de facilidade, risco ou habilidade. Acima de tudo, contribui infalivelmente para uma atmosfera de descontracção ou de diversão. Acalma e diverte. […] A cada novo lance, e mesmo que estivessem a jogar toda a sua vida, os jogadores voltam a estar a zero e nas mesmas condições do início. (CAILLOIS, 1990, p. 9).
 

De forma resumida, são as características abaixo descritas que esse autor designa ao jogo. Uma atividade:

1. Livre: porque o jogador não é obrigado a jogá-lo e, por isso, o jogo se mantém divertido, atraente e alegre;

2. Delimitada: com limites de espaço e de tempo definidos, rigorosa e previamente definidos;

3. Incerta: seu desenvolvimento não pode ser determinado nem seu resultado obtido previamente, assim como é obrigatoriamente deixada à iniciativa do jogador certa liberdade na necessidade de inventar;

4. Improdutiva: uma vez que não gera bens, nem riqueza, nem elementos novos de espécie humana, e, salvo alterações de propriedade no interior do círculo dos jogadores, conduz a uma situação idêntica à do início da partida;

5. Regulamentada: sujeita a acordos que suspendem as leis normais e que instauram momentaneamente uma legislação nova, a única que conta;

6. Fictícia: acompanhada de uma consciência específica de outra realidade, ou de franca irrealidade em relação à vida normal.

Essas várias características do jogo são meramente formais, elas não consideram o conteúdo do jogo. Contudo, as regras são inseparáveis do jogo assim que este adquire aquilo que se pode chamar existência institucional. A partir desse momento, faz parte da cultura de um povo. São elas que o transformam em um veículo, e assim os jogos ilustram os valores morais e intelectuais de uma cultura, bem como contribuem para determiná-los e desenvolver.

Leia mais:
Do jogo ao esporte e à competição – parte I

Contato: taniabas@terra.com.br

Referências

CAILLOIS, R. Os jogos e os homens. A máscara e a vertigem. Lisboa: Cotovia, 1990.

HUIZINGA, J. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. 5ª. Ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.

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DVD’s: os “melhores momentos” dos jogadores de futebol

No ambiente corporativo, a contratação de bons profissionais passa inicialmente pelo crivo da seleção de currículos e, num segundo momento, iniciam as entrevistas e dinâmicas de grupo. Para jogadores de futebol, a criação do seu DVD é o seu currículo e, consequentemente, carta de apresentação para os procedimentos iniciais de uma possível contratação.

As contratações e negociações de atletas acontecem em todos os níveis do futebol, entre equipes de base e profissionais, em transferências no país ou internacionais, nas primeiras e nas últimas divisões nacionais, por intermédio de empresários, agentes, dirigentes e até por indicações de treinadores.

Para quem já teve oportunidade de assistir à edição de jogos de algum atleta, provavelmente deve ter se deparado com uma exacerbação de qualidades técnicas, com imagens fechadas em um ou dois jogadores na maioria das ações, com predomínio de jogadas individuais e ações exclusivamente com bola.

Nestas edições, os vídeos dos goleiros compreendem as ações diretas de defesa e algumas saídas do gol, os dos defensores, os desarmes, carrinhos, subidas de cabeça e interceptações e nos vídeos dos atacantes observam-se os dribles, finalizações e gols. Para cada posição, os vídeos resumem-se aos fundamentos técnicos mais utilizados pelas suas regras de ação.

Nos grandes clubes, que devem contratar bons jogadores ou então potenciais bons jogadores em atividade, conhecer a performance atual de um atleta é simples. Com um departamento de análise de desempenho, bons analistas, vídeos e relatórios de vários jogos do atleta pretendido, é possível definir se o jogador em questão atende aos interesses da diretoria e/ou comissão técnica em relação ao desempenho de jogo.

Já para todos os demais clubes (a grande maioria), que são os não tão grandes, os pequenos, os formadores e até os que nem sabem o que são, a realidade já não é a mesma. Departamento de análise de desempenho e analistas inexistem. No entanto, do menor ao maior clube, em todas as salas dos departamentos de Futebol espalhadas pelo Brasil, inúmeros DVD’s se acumulam semana após semana.

A questão é: os DVD’s existentes realmente mostram os “melhores momentos” de um determinado jogador de futebol? Infelizmente, não!

Com a precocidade das negociações do mercado atual e a repercussão gerada pela mídia, é bastante comum meninos de 13, 14 e 15 anos já terem seus “melhores momentos” editados em uma mídia e distribuídos pelos pais em diversos clubes e até postados na internet.

A partir dos 16 anos, a quantidade de DVD’s é espantosa. Distribuídos por agências, dirigentes e empresários, esses materiais chegam até aos clubes, para agregar valor ao produto jogador de futebol e despertar interesse de contratação.

O conteúdo, porém, não permite a identificação de todas as características de jogo de determinado atleta para além de sua relação com a bola. Um bom material deveria apresentar predomínio de imagens amplas, que visualizassem diversos jogadores na mesma ação e que possibilitassem a observação dos comportamentos não só individuais como coletivos para cada momento do jogo.

Independente da posição, um bom DVD deveria conter ações ofensivas, defensivas e de transições do jogador para ações com e sem bola.


 

No olhar tradicional, os “melhores momentos” são observados somente quando o jogador tem a bola sob seus pés (ou mãos, no caso dos goleiros), mas, quem já superou esse paradigma sabe que o tempo sem bola ao longo de um jogo é consideravelmente superior ao tempo com bola. Logo, muitos melhores momentos durante uma partida acontecem quando o jogador está exercendo alguma ação sem bola que identifica o seu nível de compreensão do jogo.

Com bons DVD’s em mãos, equipes profissionais com poucos recursos financeiros e equipes de futebol de base poderiam ser mais precisas nas contratações, reduzindo seus custos.

Exemplificando: para aquelas três vagas que existem no alojamento não precisam passar vinte atletas até três serem escolhidos pelo treinador e dirigentes para permanecer no clube. Uma pré-seleção a partir do DVD pode ser feita e seis ou sete atletas convidados para a segunda fase do processo seletivo.

Uma equipe apresenta carência em uma posição e o treinador precisa de um meio-campista que já tenha jogado aberto em uma plataforma 1-4-4-2 em duas linhas de quatro, faça diagonais com e sem bola em velocidade, tenha bom passe curto e longo, seja veloz na transição defensiva para passar a linha da bola e feche linhas de passe para marcar. Quando sua equipe recupera a posse, busca rapidamente a faixa lateral do campo. Um bom DVD lhe pouparia tempo para encontrar tal jogador.

Em relação às negociações, apresentar bons DVD’s aumentaria o poder de barganha para a negociação, sendo valorizado o currículo do jogador de futebol e apresentado com a maior fidedignidade possível o seu desempenho técnico-tático-físico-emocional.

Porém, antes de mudar os DVD’s existentes no futebol brasileiro, a visão do mercado sobre o atleta deverá mudar. Treinadores, dirigentes, empresários e agentes precisam enxergar de maneira ampliada as funções de um jogador de futebol, pois a produção dos “melhores momentos” atuais somente contribui para a manutenção de um pensamento reducionista, limitado as ações técnicas do jogo e que escondem muitas características de cada jogador.

Como para tudo na vida, a mudança não acontecerá na mesma velocidade e com todas as pessoas. Seguramente, aqueles que mais rapidamente se adaptarem terão maiores chances de sucesso no concorrido mercado futebolístico, seja para captar bons jogadores, ou então, para negociar o seu produto.

E se um dia todos mudarem, no período de recesso do futebol europeu, talvez não escutemos mais inúmeras declarações de jogadores brasileiros dizendo que os treinamentos por lá são muito diferentes dos treinamentos feitos por aqui, principalmente no que diz respeito à “parte tática”.

Você já viu um bom DVD?

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DVD's: os "melhores momentos" dos jogadores de futebol

No ambiente corporativo, a contratação de bons profissionais passa inicialmente pelo crivo da seleção de currículos e, num segundo momento, iniciam as entrevistas e dinâmicas de grupo. Para jogadores de futebol, a criação do seu DVD é o seu currículo e, consequentemente, carta de apresentação para os procedimentos iniciais de uma possível contratação.

As contratações e negociações de atletas acontecem em todos os níveis do futebol, entre equipes de base e profissionais, em transferências no país ou internacionais, nas primeiras e nas últimas divisões nacionais, por intermédio de empresários, agentes, dirigentes e até por indicações de treinadores.

Para quem já teve oportunidade de assistir à edição de jogos de algum atleta, provavelmente deve ter se deparado com uma exacerbação de qualidades técnicas, com imagens fechadas em um ou dois jogadores na maioria das ações, com predomínio de jogadas individuais e ações exclusivamente com bola.

Nestas edições, os vídeos dos goleiros compreendem as ações diretas de defesa e algumas saídas do gol, os dos defensores, os desarmes, carrinhos, subidas de cabeça e interceptações e nos vídeos dos atacantes observam-se os dribles, finalizações e gols. Para cada posição, os vídeos resumem-se aos fundamentos técnicos mais utilizados pelas suas regras de ação.

Nos grandes clubes, que devem contratar bons jogadores ou então potenciais bons jogadores em atividade, conhecer a performance atual de um atleta é simples. Com um departamento de análise de desempenho, bons analistas, vídeos e relatórios de vários jogos do atleta pretendido, é possível definir se o jogador em questão atende aos interesses da diretoria e/ou comissão técnica em relação ao desempenho de jogo.

Já para todos os demais clubes (a grande maioria), que são os não tão grandes, os pequenos, os formadores e até os que nem sabem o que são, a realidade já não é a mesma. Departamento de análise de desempenho e analistas inexistem. No entanto, do menor ao maior clube, em todas as salas dos departamentos de Futebol espalhadas pelo Brasil, inúmeros DVD’s se acumulam semana após semana.

A questão é: os DVD’s existentes realmente mostram os “melhores momentos” de um determinado jogador de futebol? Infelizmente, não!

Com a precocidade das negociações do mercado atual e a repercussão gerada pela mídia, é bastante comum meninos de 13, 14 e 15 anos já terem seus “melhores momentos” editados em uma mídia e distribuídos pelos pais em diversos clubes e até postados na internet.

A partir dos 16 anos, a quantidade de DVD’s é espantosa. Distribuídos por agências, dirigentes e empresários, esses materiais chegam até aos clubes, para agregar valor ao produto jogador de futebol e despertar interesse de contratação.

O conteúdo, porém, não permite a identificação de todas as características de jogo de determinado atleta para além de sua relação com a bola. Um bom material deveria apresentar predomínio de imagens amplas, que visualizassem diversos jogadores na mesma ação e que possibilitassem a observação dos comportamentos não só individuais como coletivos para cada momento do jogo.

Independente da posição, um bom DVD deveria conter ações ofensivas, defensivas e de transições do jogador para ações com e sem bola.


 

No olhar tradicional, os “melhores momentos” são observados somente quando o jogador tem a bola sob seus pés (ou mãos, no caso dos goleiros), mas, quem já superou esse paradigma sabe que o tempo sem bola ao longo de um jogo é consideravelmente superior ao tempo com bola. Logo, muitos melhores momentos durante uma partida acontecem quando o jogador está exercendo alguma ação sem bola que identifica o seu nível de compreensão do jogo.

Com bons DVD’s em mãos, equipes profissionais com poucos recursos financeiros e equipes de futebol de base poderiam ser mais precisas nas contratações, reduzindo seus custos.

Exemplificando: para aquelas três vagas que existem no alojamento não precisam passar vinte atletas até três serem escolhidos pelo treinador e dirigentes para permanecer no clube. Uma pré-seleção a partir do DVD pode ser feita e seis ou sete atletas convidados para a segunda fase do processo seletivo.

Uma equipe apresenta carência em uma posição e o treinador precisa de um meio-campista que já tenha jogado aberto em uma plataforma 1-4-4-2 em duas linhas de quatro, faça diagonais com e sem bola em velocidade, tenha bom passe curto e longo, seja veloz na transição defensiva para passar a linha da bola e feche linhas de passe para marcar. Quando sua equipe recupera a posse, busca rapidamente a faixa lateral do campo. Um bom DVD lhe pouparia tempo para encontrar tal jogador.

Em relação às negociações, apresentar bons DVD’s aumentaria o poder de barganha para a negociação, sendo valorizado o currículo do jogador de futebol e apresentado com a maior fidedignidade possível o seu desempenho técnico-tático-físico-emocional.

Porém, antes de mudar os DVD’s existentes no futebol brasileiro, a visão do mercado sobre o atleta deverá mudar. Treinadores, dirigentes, empresários e agentes precisam enxergar de maneira ampliada as funções de um jogador de futebol, pois a produção dos “melhores momentos” atuais somente contribui para a manutenção de um pensamento reducionista, limitado as ações técnicas do jogo e que escondem muitas características de cada jogador.

Como para tudo na vida, a mudança não acontecerá na mesma velocidade e com todas as pessoas. Seguramente, aqueles que mais rapidamente se adaptarem terão maiores chances de sucesso no concorrido mercado futebolístico, seja para captar bons jogadores, ou então, para negociar o seu produto.

E se um dia todos mudarem, no período de recesso do futebol europeu, talvez não escutemos mais inúmeras declarações de jogadores brasileiros dizendo que os treinamentos por lá são muito diferentes dos treinamentos feitos por aqui, principalmente no que diz respeito à “parte tática”.

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Camisa não ganha jogo. Mas quem veste, e como veste, faz toda a diferença

Saudações a todos!

Essa frase do título não é minha, mas ouvi do Rogério Ceni após o último jogo do São Paulo contra o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro. Concordo plenamente com ele e explicarei a razão.

Hoje, um assunto em evidência, pois afeta significativamente a ambição de crescimento de nosso país, é a falta de mão de obra qualificada, o “apagão profissional” no mercado de trabalho. Estamos vivendo uma fase que só esta começando. Por conta do foco para resolver um problema latente, as empresas estão esquecendo que um campo muito bem arado e pronto para a colheita é seu próprio campo. Poucas empresas sabem como blindar seus colaboradores em relação ao assédio de empresas concorrentes.

Retenção de talentos é manter na empresa os melhores colaboradores que se tem. Existem várias ações que a empresa pode fazer para manter seus funcionários engajados, no entanto, a empresa, para o funcionário, é na realidade o seu líder imediato.

Podem existir políticas e benefícios atraentes, mas sem uma liderança presente e motivadora nada se sustenta por muito tempo. Para reter colaboradores é preciso que o líder seja realmente apaixonado por pessoas e saiba como trabalhar os talentos individuais de forma a dar “corpo” a uma força inovadora que impulsione a empresa no caminho do sucesso. Ser líder é saber ouvir, manter e desenvolver os talentos.

Há alguns anos as empresas se diferenciavam pelas condições econômicas, tecnológicas e estruturais. E hoje? Atualmente, as empresas têm financiamentos mais acessíveis, os mesmos fornecedores de sistemas, máquinas e infraestrutura e trabalham praticamente com os mesmos processos, as “best practices”.

O motivo pelo qual as atenções se voltam aos recursos humanos (pessoas), portanto, não é por gratidão ou por retribuição. O que faz com que o diferencial entre empresas sejam efetivamente reais são as pessoas que compõem a empresa. As pessoas são as únicas “coisas” capazes de dar novas ideias.

E para o profissional, o que mudou?

Estes ficam em uma empresa, ou não, muito mais devido à relação com ao ambiente de trabalho do que com os benefícios que ela oferece, ou seja, as chamadas “algemas de ouro”. Se a empresa tem todas as condições de desenvolver seus colaboradores, mas não o faz em razão daquele gestor “chato”, está fadada ao fracasso em relação à retenção de pessoas.

Líder de fato dispõe entre 60% e 70% de seu tempo cuidando das pessoas sob sua liderança. Seja para resolver questões simples, como abono de falta ou férias, até questões mais complexas de desentendimentos entre membros da equipe ou prazos de entregas de trabalhos.

Segundo a Fundação Peter Drucker, de cada três decisões sobre pessoas tomadas pelos líderes, duas são equivocadas. Se um gestor financeiro de cada três aplicações errar duas, será demitido rapidamente, mas quando o assunto são pessoas ainda se é muito tolerante.

O desafio, então, é entender que a empresa não é apenas o que está escrito nos quadros de “visão, missão e valores”. Os principais executivos das organizações precisam saber que a liderança imediata, para seus liderados, é o “retrato real da empresa”.

Não existe uma fórmula para se estabelecer quem pode ser líder. No entanto, para ser líder é preciso perguntar a sim mesmo:

“- Gosto de gente?”
“- Estou pronto para explicar com clareza quantas vezes forem necessárias?”
“- Sei tratar as diferenças dentro de suas diferenças? Tratar as pessoas como únicas?
“- Sou chefe – apenas mando ou crio motivação para a realização?”

Lembre-se que as pessoas escolhem trabalhar em empresas que identificam nelas seu principal bem. Não adianta discursos ou dizeres motivacionais nas paredes. É preciso que a liderança saiba que a responsabilidade de motivar e reter talentos esta em suas mãos.

No esporte, os exemplos dessa mesma realidade, onde o líder faz toda a diferença, são muitos. Citarei dois. Há quatro anos, a equipe da Ferrari tinha um engenheiro que era responsável, entre outras atividades, pelos mecânicos de motores, e mecânicos que faziam os pits. Em determinado momento, a cúpula ferrarista achou que a estrutura poderia funcionar sem ele, pois era muito caro manter uma pessoa que cuidava “apenas” dos mecânicos de motores e de pits, afinal de contas, a própria estrutura fazia tudo funcionar tão bem.

A decisão foi tomada e desde então a Ferrari não ganhou mais nada; aliás, só perdeu. Felipe Massa perdeu um campeonato que estava garantido justamente por um simples erro no pit. Ou seja, quanto custou essa decisão? Tenho certeza de que o engenheiro demitido custava bem menos e que ele era um líder que antecipava problemas e evitava que eles acontecessem.

Outro bom exemplo da diferença que um líder nato faz está no futebol. Ele é Muricy Ramalho, hoje técnico do Santos. (Devido ao feriado, escrevo esta coluna antes do jogo final da Libertadores. Não sei se o Santos ganhou ou perdeu, mas independente do resultado, esse cara faz toda a diferença).

O São Paulo, assim como a Ferrari, em determinado momento achou que ele era caro e que a estrutura funcionava sozinha. Ele saiu do time e desde então o São Paulo não ganhou nem campeonato de botão. No Fluminense, ele chegou, arrumou a casa e foi campeão; saiu e de novo o clube desabou. Chegou ao Santos, quase fora da Libertadores, e o fez o time campeão.

Coincidências? Não! “Trabalho, meu filho”, como ele mesmo diz. Trabalho e o dom de ser um líder nato.

É isto pessoal. Agora, intervalo, vamos aos vestiários e nos vemos na próxima semana.

Abraços a todos!

Para interagir com o autor: ctegon@universidadedofutebol.com.br  

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Seleção, formação e detecção de talentos no futebol: quando a iniciação precoce pode atrapalhar

Continuando nossa discussão sobre os mecanismos envolvidos no processo de seleção, promoção e detecção de talentos no futebol, esta semana abrimos espaço para a iniciação precoce.

Alguns estudos apontam que para se tornar um expert em qualquer área são necessárias, em média, dez mil horas de dedicação. No esporte e mais especificamente no futebol, não deve ser diferente e, portanto, quanto mais tempo de qualidade o atleta tiver para praticar, mais chances ele terá de se desenvolver.

Um estudo realizado por Vayens et. al., (2009) demonstrou que o período de iniciação esportiva de atletas olímpicos varia em média dos sete aos 12 anos de idade e, em algumas modalidades, a iniciação ocorre antes mesmo dos sete anos. Outro estudo feito por Marques e Samulski (2009) em jogadores brasileiros aponta que a idade média de início de 186 jogadores profissionais foi de 8,95 anos e que dos 13 aos 20 anos tiveram carga horária de treino por volta de 5.555 horas (793 horas por ano de vida).

Esses dados mostram claramente que o problema não é começar cedo demais, e sim como se começa. Se, por exemplo, uma criança passa a jogar futebol como experiência para desenvolvimento de suas habilidades e capacidades motoras, sem exigências de desempenho e até participa de competições, mas sem a cobrança imposta a um atleta profissional, provavelmente ela poderá participar de momentos especiais que preparem seu físico e sua mente para a exigência futura da modalidade.

Do contrário, a exigência por padrões motores pré-estipulados, excesso de treinamento físico-técnico-tático em conjunto com a pressão de familiares e do clube por máximo desempenho, podem gerar um estado estressor e sobrecarga excessiva que ao invés de possibilitar o desenvolvimento pleno do jogador poderão causar afastamento tanto por lesões quanto por desmotivação.

Já que diversos aspectos culturais em nosso país promovem massificação de praticantes de futebol em idades bem baixas, uma política formativa embasada em parâmetros físicos, motores, cognitivos, psicológicos, afetivos e sociais poderia aumentar as chances não só de formar mais e melhores jogadores, mas também de alongar a carreira de cada um deles.

Mas como é difícil prever o que pode ocorrer com cada jogador durante o período de formação, o ideal seria que os clubes tivessem o maior número possível de praticantes com chances de sucesso e construíssem políticas de formação nas categorias de base com critérios bem definidos para avaliar as reais condições de cada jogador para evitar perdas de qualquer natureza. Além disso, deveriam ser inseridos num modelo educacional adaptado às viagens e concentrações, mas com qualidade suficiente para colocá-lo no mercado de trabalho, pois aos que não se tonarem jogadores por qualquer razão, teriam condições de continuar suas vidas mesmo fora do futebol, já que este é um outro problema social daqueles que nem se profissionalizam e nem aprendem outra atividade.

Para interagir com o autor: cavinato@universidadedofutebol.com.br  


Referências bibliográficas

Marques, M P, Samulski, D M. Rev. bras. Educ. Fís. Esporte, 2009 abr/jun 23 (2): 103-19.

Vaeyens R, Güllich A, Warr CR, Philippaerts R. Talent identification and promotion programmes of Olympic athletes. J Sports Sci. 2009 Nov;27(13):1367-80.

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Discurso midiático

Um milhão e trezentos mil seguidores no Twitter; 237 mil pessoas “curtiram” ele no Facebook; mais de 20 milhões de ocorrências no Google; vários fãs-clube espalhados pelo Brasil e um só nome, de apenas 19 anos: Neymar Júnior.

No último fim de semana saiu reportagem no “Esporte Fantástico”, da Rede Record, que retrata todo o potencial de marketing e negócios que Neymar tem movimentado.

Todos estes números e repercussões me fazem lembrar um artigo do Prof. Dr. Giovani de Lorenzi Pires, de 13 anos atrás (quando Neymar tinha ainda apenas 11 anos e seus passos já começavam a ser seguidos nas categorias de base do Santos), que procurava explicar e discutir a relação sociológica com o esporte na abordagem a cinco processos distintos, dentre eles o de “Mercadorização do Esporte” e o da “Espetacularização do Esporte”.

Uma leitura atenta ao texto ajuda a entender como a mídia ajuda a transformar jogadores como Neymar em ídolos de proporção incalculável. A ideia, segundo Pires, é que “a mensagem publicitária veiculada por seu intermédio (o da Mídia) seja sempre e cada vez mais contundente”, ou seja, os meios de comunicação social dominam o conteúdo e os espectadores aguardam passivamente a mensagem que, em um círculo virtuoso, há de gerar consumo em relação a estes ingredientes.
 

A mediação passa a ser realizada pelos meios eletrônicos de comunicação (especialmente a televisão), o que exige a presença de novos especialistas em produzir o evento de forma a obter este pretendido aumento no número de consumidores/espectadores: o mass media de marketing esportivo, que passa a “pensar” o esporte como uma mercadoria simbólica, cuja imagem (movimentos corporais humanos, emoções, valores sociais e ideológicos) precisa vender, ainda, a “necessidade” de consumo dos produtos disponibilizados. (PIRES, 1998).

O que ocorre no esporte é semelhante ao que acontece na cultura. Nos filmes, por exemplo, a grande maioria das pessoas não se apaixona exclusivamente pelo enredo da saga, mas sim pelo personagem, identificando-se com o seu cotidiano particular e procurando imitá-lo em determinados momentos na vida real.

As redes sociais têm contribuído em muito para personificar e aproximar os astros das “pessoas comuns”. Sábias são as empresas e veículos de mídia que tem conseguido se apropriar desse viés para estreitar ainda mais seu relacionamento com os consumidores. E como tem sido importante a onipresença destes ídolos para alavancar a indústria do esporte como um todo.

Pela lógica do capitalismo, aos gestores esportivos e aos treinadores (formadores de atletas), cabe compreender as dinâmicas sociais para entregar ao mercado não só atletas com capacidade técnica “diferenciada”, como também “produtos” que atendam os anseios da mídia e complementem o imaginário das pessoas como “personagens-modelo”.

Pela razão ideológica… deixa pra lá, hoje é final da Libertadores e o “cara do momento” pode fazer história e virar herói para muita gente. Não vale a pena entrar no mérito!

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br  


Referência bibliográfica:

PIRES, Giovani de Lorenzi. (1998). Breve introdução ao estudo dos processos de apropriação social do fenômeno esporte. Revista da Educação Física-UEM, 9(1):25-34, 1998.