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Futebol e futsal: possibilidades e limitações da prática pedagógica em escolinhas

O livro é uma forma de entender o papel pedagógico, reavaliando certas práticas, frutos de uma historicidade enraizada, eliminando noções equivocadas e introduzindo novas, capazes de promover um desenvolvimento mais harmonioso entre a prática de esporte.

“Futebol e futsal: possibilidades e limitações da prática pedagógica em escolinhas” é uma crítica sutil e, ao mesmo tempo, uma coerente avaliação das práticas pedagógicas nas escolinhas de futebol e futsal. Levando-se em conta que o esporte é uma atmosfera enraizada na cultura da humanidade, fala-se sobre a importância da sua utilização para o aprendizado.

A obra trata as escolinhas não só como algo voltado para as competições, a busca e formação de talentos, mas sim como verdadeiras escolas, com uma maneira lúdica de educar.

A publicação contextualiza-se num tempo informatizado, quando, segundo os autores, estamos preocupados demais em nos tornarmos sujeitos funcionais, aptos a assimilar cada vez mais as demandas do processo civilizatório, esquecendo-nos de abrir espaço para a reflexão, para a ponderação e para a crítica.

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Futebol e cerveja… Ou seria cerveja e futebol?

Tudo começou quando me deparei com uma matéria cujo título me chamou a atenção: “Atletas deveriam beber cerveja todo dia, diz estudo“. Seu subtítulo afastava possíveis desconfianças dos mais incrédulos: “Além de matar a sede e relaxar, a cerveja ajuda na recuperação após a prática esportiva”, dizia.
 
Não havia dúvidas. O Conselho Superior de Investigação Científica (CSIC), da Espanha, avalizava o estudo “Idoneidade da cerveja na recuperação do metabolismo dos desportistas” que, baseado em relatórios e pesquisas de especialistas em medicina, fisiologia e nutrição da Universidade de Granada, defendia o consumo moderado da cerveja para os atletas como fonte de hidratação diária.
 
A tese, de autoria do cardiologista e ex-jogador de basquete da seleção espanhola, Juan Antonio Corbolãn – medalha de prata nas Olimpíadas de Los Angeles (1984) -, afirmava que o consumo diário de três tulipas de 200ml de cerveja para os homens e de duas para as mulheres, favorecia a recuperação do metabolismo hormonal e imunológico depois da prática esportiva de alto rendimento, além de também prevenir dores musculares.    
 
Tomei conhecimento dessa matéria no sábado ao final da manhã, em casa, quando já começava a pensar o que iria bebericar antes do almoço, já que o joguinho de futebol da tarde estava irremediavelmente prejudicado pela chuva que insistia em não parar desde a noite anterior.
 
Mais do que depressa quis levar ao conhecimento de meus colegas da Unicamp o “grande achado” e, no espírito recomendado (não só) para um fim de semana, fiz saber a todos que eu estava fazendo a minha parte! O que não sabia e, portanto, não esperava, era que tão ingênua mensagem fosse gerar tamanha – e distinta – repercussão…
 
A primeira delas veio reforçar minha euforia pela “descoberta”:
 
“Ah! Mas eu também considero da maior relevância social isso, afinal, a minha bebida preferida agora torna-se, definitivamente, também meu remédio e, além de tudo, uma poderosa arma para a melhoria do desempenho fisico ! eh eh eh. Isso é o máximo!”.
 
A segunda veio enaltecendo uma modalidade esportiva que, em nosso país, vive à sombra do futebol, para desespero do missivista:
 
“Vi esse cardiologista jogar algumas vezes. O Corbolãn foi um dos melhores que já vi jogar. Ele jogou dois campeonatos mundiais pelo Real Madrid e era espetacular, daqueles armadores clássicos. Só podia ser mesmo um armador basqueteiro para fazer uma pesquisa de tamanha relevância social”.
 
Já a terceira, me pegou no contrapé…

Surpreendi-me com o conteúdo de seu e-mail. Pertinente a matéria tratada, a OMS difunde os benefí­cios da alcoolemia relativa à ingestão moderada do vinho às pessoas já dependentes da bebida, mas esclarece que não recomenda aos não usuários. Sabendo que os libares chamados “sociais”, como o álcool e cerveja, são porta aberta para ingestões massivas, e inclusive de drogas pesadas, e, modéstia a parte, da relevância dos impactos de nossas posições de médico e educadores fí­sicos, e, portanto, intelectuais formadores de opinião, estou tomando a iniciativa de, frente ao material acima mencionado, solicitar manifestação a respeito da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas – www.abead.com.br.
 
Ademais, considerando os vultuosos lucros do grande capital cervejeiro, fico curioso em ver as declarações de ausência de conflitos de interesses dessa divulgação internacional de polí­tica pública fundamentada em 16 observações”.
 
Senti-me na obrigação de, antes de abrir a garrafa de vinho (a chuva e o frio me convenceram de sua pertinência naquele momento, em detrimento da cerveja), a dar sequência à conversa, o que fiz da forma retratada abaixo:
 
Confesso pra você que meu “‘espí­rito”, ao encaminhar a mensagem em questão, estava todo comprometido com a idéia do feriado, disposto a não ficar chateado pelo fato de que a maioria de nossos colegas não fizesse a menor idéia do que estamos, nós, paulistas, homenageando nesse fim de semana prolongado por conta do dia “9 de Julho”. Levando a sério a notí­cia, você está coberto de razão em chamar a  atenção para a possibilidade da mensagem/pesquisa aludida conter o “dedo” da máfia das indústrias cervejeiras. Não descarto essa possibilidade, até porque a tese da neutralidade da pesquisa cientí­fica nunca fez parte daquelas por mim defendidas.

Por outro lado, procuro também não ignorar a “máfia” da indústria farmacêutica, a qual o filme “o jardineiro fiel” tão bem retratou, “produzindo” doenças e testando medicamentos em pessoas, delas fazendo os “ratinhos” de plantão.
 
Também busco estar atento à  miopia do conceito de saúde que orienta – sem medo de errar – mais de 90% da formação em educação física nos  cursos superiores de nosso país, totalmente alheia e distante do conceito de saúde ampliada defendida por nossa política pública de saúde…

Fato concreto é que o Esporte – nos termos que a sociedade moderna a ele atribuí ­-, além de se fazer de simulacro do rendimento fí­sico necessário ao processo produtivo no modo de produção que pauta nossa organização societária, e à revelia dos que observam no  ócio, tempo e espaço nocivos aos interesses dessa lógica organizativa de sociedade, também se associa àquilo que “Baco” representa: festa,  alegria, prazer, regado a vinho e, por que não… À cerveja”.
 
E encerro a mensagem dando vazão a um sentimento que muito aflige aos que, pela ótica das ciências humanas e sociais, desenvolvem estudos e pesquisas no campo da área da Educação Física:
 
“Continuemos essa sadia reflexão, distante do campo acadêmico tão preocupado em produzir seus “papers” e, lógico… Publicá-los em periódicos “A” internacional”.
           
Pois não é que o assunto ainda trouxe a participação na conversa de outros colegas! Um deles, nos dando uma verdadeira aula sobre a origem da cerveja (vocês sabiam que ela teria nascido, ao acaso, há mais de 10.000 anos?), não sem antes nos alertar para o fato de estarmos “mergulhados em uma pobreza afetiva, marcada pelo higienismo e eugenismo do mundo contemporâneo, essa onda hiper conservadora e moralista, especialmente nos paises periféricos e com baixa densidade intelectual como o Brasil”.
 
E não deixa por menos:
 
“É evidente que sou totalmente a favor das interdições legais de publicidade de bebidas alcoólicas, de fumo e também de comida, desse estimulo estúpido em assoc
iá-las a ser bem sucedido/sucedida, bonito/bonita e sedutor/sedutora e é evidente que já assinei mil listas e me comprometi e me comprometo todos os dias contra o aviltamento da mulher, do corpo feminino na publicidade da cerveja no Brasil e de outros produtos… Mas, é preciso atenção, delicadeza e cuidado para não nos transformarmos em pequenos fascistas, policiais de uns e de outros, com atitudes completamente avessas à vida pública que é sempre política, à vida democrática”.

Já o outro, para não deixar dúvidas sobre o que me motivou a escrever, colocando a conversa de volta ao espírito de um sábado regado à cerveja e a futebol, e nos brindando com a lembrança de um outro componente inseparável dos dois acima, qual seja, a amizade que permeia a enxurrada de jogos e jogadores de final de semana dos clubes e várzeas dispersos por este país afora:
 
“Depois desta saudável chuva de e-mails, que acompanha este úmido final de semana, aproveitei a dica para deliciar-me com uma maravilhosa cerveja escura (negra, bock, malzebier, cafeinada, ou como queiram denominar).
 
Não poderia deixar de contribuir nesta ocasião com um estudo quase-científico realizado recentemente por um coletivo de amigos que se reúne numa chácara em Americana-SP para celebrar a amizade. Fizemos uma pesquisa a cegas com 12 marcas de cerveja, buscando identificá-las, junto a 14 especialistas (daqueles que possuem calos no cotovelo devido às inúmeras horas no balcão dos bares). Resultado: o que mais acertou conseguiu identificar 3 marcas.
 
Conclusão: A quantidade não necessariamente leva ao conhecimento profundo do assunto. Perspectivas: continuaremos nos aprimorando na arte de degustar desta bebida, moderadamente sempre”.

Não sei por que me lembrei de um filme (ou seria livro?) chamado Samba, suor, futebol e cerveja... Pois é… Para muitos, incompatíveis; para outros tantos, inseparáveis… E para você?
 
 
Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br
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Treinar jogando: a Zona de Desenvolvimento Proximal como mais um argumento!

O maior motivo de reclamação das equipes de futebol (o excesso de jogos) acaba sendo o principal meio para a evolução do jogar que elas acabam tendo

Em um jogo de futebol, durante o confronto das duas equipes que o disputam, há um sem número de situações-problema, que ocorrem o tempo todo, aleatoriamente, de maneira imprevisível, em cada milímetro dos 7000 metros quadrados que correspondem ao campo de jogo.

Vencer o jogo significa resolver melhor essas situações. Resolver melhor essas situações significa tomar as melhores decisões a cada ação, sob o ponto de vista individual e coletivo.

Na tomada de decisão, a intenção na ação e as estruturas criadas a partir de experiências anteriores podem colaborar para melhores decisões em uma situação-problema qualquer. Para tanto, a experimentação de situações desafiadoras, diversificadas e ricas, específicas do jogo, aumentará cada vez mais as chances de quem joga de tomar decisões acertadas.

A inteligência humana é um mecanismo móvel, imprevisível, versátil e circunstancial, que, diante dos problemas dispõe ao sujeito um leque de possibilidades, que, se for amplo (o leque), diversificado e rico, contribuirá para que sejam escolhidas as melhores opções disponíveis para cada circunstância.

Então, o treino de futebol deve levar em conta que, para se estar habilitado para jogar, deve-se treinar, jogando.

Nessa perspectiva, vale ressaltar que a possibilidade de aprender a partir de estímulos que desencadeiam processos de assimilação e acomodação – e de, portanto, formar novos esquemas cognitivos – deve estar adequada à fase de desenvolvimento do sujeito que recebe o estímulo (e isso inclui o seu nível de compreensão e ação no jogo). Em outras palavras, só é possível interagir com problemas se esses forem adequadamente superiores ao conhecimento prévio necessário para tal (não pode ser excessivamente superior, nem inferior!).

Sobre isso, Vygotsky descreveu a existência de uma área potencial de desenvolvimento cognitivo definida como uma “área” que rodeia o desenvolvimento real atual do indivíduo (que é determinado pelo seu nível atual para resolver problemas sem auxílio de outras pessoas) e pelo nível de desenvolvimento potencial (que é determinado através da resolução de problemas que precisa ser “guiada”).

Então, o nível de desenvolvimento consolidado, que permite a utilização do conhecimento de forma autônoma, é o desenvolvimento real do sujeito. Ele não é estático e vai se alterando no processo de aprendizagem. A consolidação do desenvolvimento real gera também possibilidades menos elaboradas e não consolidadas que potencialmente podem ser construídas; esse é o desenvolvimento potencial. O desenvolvimento potencial tende a ser, com o processo permanente de aprendizagem, o futuro desenvolvimento real (FIGURA). 

Segundo Vygotsky, o processo de desenvolvimento não coincide com o processo de aprendizagem, porque há uma falta de sintonia (“assintonia“) entre os dois (o processo de desenvolvimento e o processo de aprendizagem que o precede). Dessa assintonia, que corresponde à área da “dissonância cognitiva” do potencial do aprendiz, surge a Zona de Desenvolvimento Proximal.

A Zona de Desenvolvimento Proximal é, então, em outras palavras, o campo intermediário do processo que liga o estágio atual de desenvolvimento com o próximo em potencial. Porém, o próximo em potencial a ser buscado, no caso do jogo de futebol, é o próprio jogar (melhor, mais elaborado, etc.).

Então, que sentido faz, no futebol, sessões de treinos, onde o cerne são os sprints, os saltos ou as longas corridas a que são submetidos os jogadores? Que próximo estágio de desenvolvimento potencial se conseguirá alcançar com isso?

O tempo para desenvolvimento do jogar no futebol é escasso. Muitos compromissos, jogos, competições viagens… E, mesmo assim, perde-se muito dele (oh, precioso tempo!), treinando justamente algo que não vai contribuir para que se alcance os novos níveis do jogar.

E aí, sabe quando é que a equipe acaba evoluindo seu jogar (ou no “futebolês”, adquirindo ritmo e consistência)? Jogando no meio ou fim de semana suas partidas oficiais.

Então, em outras palavras, o que se configura no maior motivo de reclamação das equipes de futebol (o excesso de jogos), acaba sendo o principal meio para a evolução do jogar que elas acabam tendo.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Números inventados

Esta provavelmente será a coluna de minha autoria mais lida na história. Uma estimativa minha, baseada no número de emails recebidos por conta da última coluna e na repercussão da publicação no digníssimo blogdojuca, indica que o número deverá septuplicar, chegando, superestimando, a 14 leitores, fora a equipe da redação da Universidade do Futebol.

O que, pro meu nível, já gera certa ansiedade. Ainda mais devido à infeliz ideia de deixar para escrever após o “Placar da Rodada”.

Nada sensato. Assim como não foi sensato mencionar o nome da empresa Itaiquara na última coluna. Não apenas pelo número de pessoas que me mandaram emails com receitas de bolo por email, fomentadas talvez por certa nostalgia em relação ao fermento, mas também pela infelicidade temporal.

Você viu a coletiva do René Simões, reclamando da empreitada ao vestiário da Portuguesa, não viu? Você notou a logomarca da Itaiquara logo acima da cabeça dele, indo um pouco pra direita, não notou? Talvez não. Mas eu notei. E só notei por causa da minha maldita última coluna. Não tivesse eu pesquisado a empresa, possivelmente não teria prestado atenção. Não tivesse você lido, também não. Citação errada, na hora errada, com publicidade errada.

A escolta armada lusitana não acabou só com as perspectivas da carreira do Edno no time. Acabou também com qualquer perspectiva minha de receber uma cesta de produtos da Itaiquara. Se o fermento for tão bom assim quanto as pessoas que me mandaram email disseram, eu vou ficar realmente frustrado.

Assim como ficaram frustradas algumas pessoas em se deparar com a pequenez relativa do futebol. Mas não se engane. Ser pequeno em termos financeiro não quer dizer necessariamente ser menos importante. Veja o Dado Dolabella, por exemplo. Ele é rico. E não é importante.

Um questionamento foi levantado por diversas pessoas astutas: afinal de contas, pode ser dito que o negócio do futebol é pequeno porque os clubes faturam pouco em relação ao que outras empresas arrecadam? O fato é que não, não pode. É um questionamento válido e que merece maior análise. Peguemos as quatro fontes de receitas relativas a clubes de futebol: mídia, patrocínio, licenciamento e estádio. Todas elas oferecem receitas para terceiros, ou seja, grana que não passa no caixa do clube. Mas que é do futebol.

A Globo arrecadou, com publicidade aberta e fechada, e mais o pay-per-view, uns 550 milhões de reais com o futebol em 2008. Cálculo grosseiro baseado em uma série de dados não confirmados, mas que indicam, pelo menos, um patamar. Somando a Band, totaliza uns 600 milhões. Acho. Não sei mesmo. Tô chutando, sem nenhuma vergonha.

É muito complicado atribuir um valor de receita gerada por patrocínio, por isso eu também vou inventar um número: 100 milhões de reais. Esse foi o dinheiro que patrocinadores geraram com o futebol. Número inventado com base na soma, também grosseira, dos valores de patrocínio dos clubes adicionados a um pequeno percentual de retorno sobre o investimento. E fazer soma com 100 é sempre muito mais fácil. Adicionemos mais uns 500 milhões de receita de patrocinadores de televisão e chegamos a 600 milhões. Sem fundamento algum, é claro.

O grosso da receita de licenciamento vem da venda de camisas. Uma camisa custa uns R$ 180,00, por aí. Dependendo da marca. Suponhamos que, no ano passado, um em cada 50 brasileiros tenha comprado uma camisa oficial de um clube brasileiro, o que eu acho uma estimativa otimista. Isso dá uma venda de 3,8 milhões de camisas oficiais, que gera uns 680 milhões de reais.

De acordo com a CBF, cerca de nove milhões de pessoas assistiram as séries A e B do Campeonato Brasileiro em 2008. Suponhamos que cada uma dessas pessoas tenha gasto uns R$ 10,00 nos estádios, já que não tem mais cerveja, e cincão pro tiozinho não riscar o carro, já que tem outros ocupantes do carro pra rachar. Isso dá uns R$ 135 milhões, com estádio. Dos quais, nesse meu cenário deturpado, R$ 45 milhões foram pra mão de flanelinhas. Se for verdade, já saiba o que fazer da vida.

Totalizando, as quatro principais fontes de grana do futebol geram um total de R$ 2 bilhões para terceiros. Vamos supor que os clubes brasileiros, mais as federações e a CBF, tenham gerado uns R$ 3,5 bilhões, o que é também superestimado. Tudo isso somado, e superestimado, dá R$ 5,5 bilhões. Se eu não estiver superestimando o suficiente, esse valor sobe para R$ 6 bilhões, o equivalente a 0,2% do PIB do Brasil em 2008. Se eu estiver meio certo, a fatia real chega a 0,4%. Se eu estiver um pouco certo, talvez chegue a 0,6 ou 0,7% do PIB. Mas não dá pra imaginar que seja mais do que isso. Nada que seja significativo para a economia nacional. Nada que se possa comparar com outros setores produtivos do Brasil. É isso. Puro e simples.

Talvez você esteja decepcionado. Eu certamente estou. Perdi a chance de receber uma cesta da Itaiquara.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Esporte, educação, Estado e sociedade

O esporte, com destaque para o futebol, muitas vezes foi utilizado como como força política. Mas quais são as consequências disso na sociedade? É o que apresenta essa obra, falando sobre outras modalidades também.

Além disso, a publicação realiza uma análise bastante interessante sobre os discursos disseminados dentro das diversas modalidades, o que, por vezes, possuem muito pouco de verdade.

Em suma, “Esporte, educação, Estado e sociedade” é um livro que aprofunda-se na análise sociológica dos esportes e quais são as consequências da sua utilização política.
 

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Tá no contrato…

Assistindo ao programa “Linha de Passe” da ESPN Brasil, na última segunda-feira, chamou-me a atenção a explicação que o jornalista José Trajano dava aos telespectadores sobre a transmissão dos jogos do Campeonato Espanhol pelo canal.

Dizia que, por contrato, o canal poderia transmitir, em rodadas alternadas, os dois melhores jogos – que, naturalmente, incluem Barcelona e Real Madrid – sendo um ao vivo e outro em VT.

E que no contrato isso, e aquilo…

Ainda mencionou a obrigatoriedade do canal em fazer referência, em jogos e em reportagens, à maior competição mundial de clubes como Uefa Champions League, e não como Copa dos Campeões da Europa ou outra denominação qualquer. Isso tudo porque “tá” no contrato.

Um dos princípios mais importantes previstos no conjunto normativo e regulamentar da Fifa diz respeito à estabilidade contratual. A partir dele, todos os protagonistas da “família futebol” – jogadores, clubes, agentes, associações nacionais – devem respeitar, mutuamente, aquilo que for negociado e pactuado por meio dos contratos.

Os contratos nada mais são do que acordos que racionalizam e formalizam a vontade das partes, sujeitando-as ao equilíbrio, transparência e previsibilidade quando da necessidade de invocar e exigir o cumprimento de obrigações reciprocamente assumidas.

Bastante apropriada parece a analogia à evolução dos princípios, das regras, das práticas e dos costumes ocorrida no comércio internacional, especialmente a partir do século XV e o que vivenciou o futebol internacional no século XX.

Da realidade das trocas comerciais efetuadas por povos de distintas nacionalidades, com costumes e práticas distintas, moedas e meios de troca diversos, além da discrepância normativa e da falta de mecanismos capazes de dirimir os conflitos, os protagonistas do comércio internacional trataram de criar soluções especializadas as suas necessidades.

O auge desta evolução e organização internacionais pode ser resumida na formação da Organização Mundial do Comércio, que baliza o relacionamento entre os Estados e também inspira as regras de conduta dos atos praticados entre os particulares da iniciativa privada.

Não à toa, a previsibilidade e segurança jurídica, que também passam por meios de solução de controvérsias adequados e especializados, aumentam e aceleram o intercâmbio internacional de negócios. E o futebol tem se beneficiado desta cultura regulatória internacional desde meados da década de 1990, a partir do estabelecimento dos Estatutos e Regulamentos da Fifa e sua Câmara de Resolução de Disputas e da invocação do Tribunal Arbitral do Esporte (CAS).

O fato de que a Liga Espanhola ou quem comercializa seus direitos de transmissão terem determinado quais jogos e quando poderão ser transmitidos não é à toa, aleatoriamente determinado. Isso é fruto do conhecimento profundo daquilo que se vende e do seu devido valor comercial agregado pela organização dos eventos – coisa que o futebol brasileiro ainda está engatinhando e sofre para vender seus campeonatos fora daqui.

A própria Uefa Champions League desenvolveu um trabalho extremamente minucioso de roteirização da competição, criando hino oficial, entrada e perfilamento das equipes em campo, logomarca, abertura das transmissões dos jogos, transformando seus eventos em experiência, não apenas em jogos de futebol. Daí a necessidade de preservar a identidade dos fatos com a marca e exigir esta observância dos parceiros em nível contratual.

Portanto, vale lembrar um ditado no Direito: quem entra num mau acordo, provavelmente acabará numa boa briga.

No meio disso, estão os contratos, justamente para equilibrar as forças dos que negociam e evitar maus acordos e, ainda mais, boas brigas.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Aplicação de uma proposta de metodologia de treinamento no futebol de alto nível

Se acompanharmos o dia a dia das equipes profissionais de futebol, encontraremos rotinas semelhantes, compostas por sessões de treinamentos físicos, com maior volume e intensidade no início das semanas em caso de jogos aos fins de semana e trabalhos quase sem intensidade nas semanas com jogos em seu meio.
 
Trataremos mais neste estudo de equipes que realizam seus jogos apenas aos fins de semana, tendo tempo hábil de aplicação dos treinamentos programados. O fator recuperação tem tido muita importância ultimamente, considerando 48 a 72h após o término da partida para que o atleta se recupere totalmente e possa enfrentar novamente altas cargas de treinamento(Citar). Alguns treinadores recuperam seus atletas com trabalho regenerativo no dia seguinte ao jogo, e outros dão a folga no dia seguinte, iniciando a semana de treinos após este dia livre. Aí está um ponto que servirá de discussão no nosso estudo: o início da semana, o tempo de recuperação, as cargas de trabalho no início da semana, etc.
 
Normalmente, quando se joga no domingo, após a folga de um dia, aplica-se uma sessão de treinamento físico na reapresentação. Com o auxílio de fisiologistas, isso tem diminuído, até porque não estamos falando apenas de equipes expressivas, e sim de todas equipes consideradas profissionais e juniores, pela carga de treinamento ser semelhante, e por nem todas equipes poderem contar com esse apoio, certos erros ainda continuam. Por exemplo: se o atleta folgou no dia após o jogo, na sua reapresentação, talvez ele não tenha cumprido nem 48h, que dirá 72h de descanso de que esse atleta precisa.
 
Uma carga alta de treinamento para determinado atleta pode atrapalhar o seu processo de recuperação, e o fato de treinar leve no dia após o jogo e deixar livre o outro dia mexe com o psicológico não só do atleta, mas também do profissional que trabalha com ele, tendo um desgaste emocional desnecessário.
 
Nosso trabalho não tem o intuito de discutir metodologias, e sim propor uma metodologia que muitos concordam e acham a correta, porém não aplicam, ou pensam que aplicam. Estamos falando em promover o desenvolvimento de métodos de treino que garantam uma maior especificidade e, portanto, superior transferibilidade (GARGANTA, 2001);no qual os treinos têm de ser específicos, treinando-se o que o atleta executará na partida.
 
Treinar a concentração, pois em determinados treinamentos o atleta deverá estar altamente concentrado e, podemos assim dizer, que determinado treino foi intenso porque os atletas se concentraram ao máximo durante toda a sessão.
 
Alguns treinamentos físicos fogem muito da especificidade. Corridas contínuas, intervaladas, feitas em bosques, ou mesmo em volta do campo, e outros tipos de treino que todos atletas se movimentam da mesma forma e quantificação, sem bola, entre outros tipos de treino, que o desgaste e a adaptação às cargas condicionam os atletas, porém, estar bem fisicamente não dirá que o atleta terá um bom rendimento no jogo, pois isso ocorrerá se o mesmo estiver bem adaptado ao sistema de jogo proposto e trabalhado nos microciclos, fazendo com que o atleta se movimente de maneira com que execute suas funções dentro da partida com excelência e harmoniosamente com os outros atletas. Assim, todos imprimem o volume de jogo ideal para o alcance do objetivo (Oliveira, 2006).
 
O método que implantamos atualmente nas equipes que trabalhamos é o seguinte: de acordo com as características dos atletas do grupo, trabalhamos em cima de situações que possam ser solicitadas nas partidas, como posicionamento, compactação, marcação, etc. A equipe é treinada desde a primeira sessão para que as posições desempenhem funções que futuramente executarão e todos os tipos de treino, inclusive os de caráter físico são realizados com bola e de acordo com o esquema proposto.
 
A comissão técnica trabalha em conjunto todo o momento – não existe muito a diferenciação do preparador físico para o treinador, pois a função do preparador, como a própria denominação coloca, é preparar fisicamente os atletas, e isso nem sempre se condiz ao treinar, e sim a deixá-los prontos para a partida, inteiros, descansados, de acordo com as condições de adaptação que foram impostas e adquiridas anteriormente.
 
A pré-temporada, ou período preparatório, que é a época que antecede o início da competição, é uma das grandes brigas de treinadores pela falta de organização no calendário brasileiro, que o tempo é curto e inadequado para se preparar o atleta, até porque muitas das equipes iniciam os macrociclos com sessões de treinamento físico, com o volume sendo maior que a intensidade no início, com atividades gerais, e com o passar do tempo isto vai se especificando, ou seja, a intensidade vai ultrapassando o volume e depois de certo tempo, os trabalhos físicos vão se diminuindo até entrar na competição e eles servirem de manutenção dos ganhos de condicionamento.
 
Nosso método coloca atividades com bola, logicamente com trabalho introdutório no início, e com gradativo aumento das cargas, sendo que as intensidades dos treinamentos são impostas por números de séries, dimensões do campo, número de jogadores no campo, etc. O sistema de jogo é implantado desde as primeiras sessões e, através da repetição, o atleta automatiza suas funções e consequentemente realiza-as com naturalidade.
 
O treinamento físico neste método consiste no jogador entender e executar sua função dentro de campo, consequentemente o mesmo aprenderá a percorrer trechos do campo com dosagens corretas de volume e intensidade, com locais e momentos de recuperação, momentos de maior intensidade de acordo com as jogadas ensaiadas e o sistema de jogo propriamente dito. Isso gera a dúvida sobre a não realização de treinamentos físicos. O simples fato de o atleta se movimentar dentro de campo já trabalha as capacidades físicas, de acordo com alguns itens que as diferem. Porém, nosso método trabalha a resistência de forma específica, melhorando o caráter de recuperação, etc.
 
Trabalha-se a resistência de jogo ou específica, como esse atleta se movimenta num caráter aeróbio ou misto dentro do jogo, no sistema, o próprio trabalho regenerativo é assim. A velocidade de jogo, em situações de curtíssima duração e altíssima intensidade para os atletas que necessitam mais dela, a resistência de velocidade em ênfase para posições de maior necessidade desta ramificação da capacidade, porém mensurar é complicado: pesquisas comprovam distâncias percorridas, número de ações, etc, e as médias podem se igualar, nas quais teremos valores médios e estes podem ou não ser usados na montagem de uma sessão, testes de controle acompanham ou não a evolução física individual, mas na maioria deles não são prescritivos. Tudo feito no campo de jogo, em especificidade.

Sabemos que nossos atletas se adaptarão e renderão no campo de jogo, porém não podemos prever se poderemos ter esse atleta sempre que precisarmos. Com isso, damos muita importância ao trabalho preventivo, no qual, juntamente ao departamento de fisioterapia, executam-se exercícios que são também introduzidos e trabalhados gradativamente no início ou final das sessões, entrando aí as capacidades flexibilidade e coordenação, sem destinar sessões inteiras para esse tipo de trabalho, mas sempre realizando com frequência. O baixo índice de lesões torna-se um diferencial no trabalho até porque a comissão sempre tem à disposição todo ou grande parte do elenco.

 
Como destacado acima, quatro capacidades físicas foram citadas. Faltou descrever sobre a força, uma capacidade importantíssima e que deve ser treinada com objetivo de prevenção e rendimento. Os tipos de força são treinados especificamente e com transferência imediata ao gesto motor e técnico. Assim, poderemos ter nossos atletas fortes diretamente dentro do jogo, pois estão adaptados a ações específicas da capacidade e serão solicitados no jogo.
 
Barreiras para saltos, agachamentos, cintos de tração, para-quedas e trenós são utilizados no próprio campo de acordo com o tipo de força a se treinar naquela sessão, de acordo com o planejamento do macrociclo, a sala de musculação é mais utilizada em atletas que estão retornando de lesões.
 
As semanas de treino são padronizadas e ajustadas de acordo com alterações na tabela, onde podemos ter como exemplo o microciclo abaixo:

 

 
Logicamente, as cargas de treinamento para os atletas que participaram menos da partida, ou não participaram, difere-se do restante para que os estímulos se assemelhem no caráter físico, ficando pendente o stress emocional muito alto de uma partida oficial.
 
Analisando a planilha, atribuímos volume e intensidade aos treinos como variável na prescrição, podendo ser alto?, moderado? ou baixo?, utilizando-se de acordo com o dia do jogo e recuperação. Um dos nossos diferenciais é o treinamento da concentração, no qual um treino se torna muito intenso quando o atleta destinou 100% da sessão para se concentrar no que estava sendo proposto e executar com excelência o trabalho em busca da excelência.

Esses trabalhos não são realizados apenas nos treinos de campo, e sim com trabalhos auxiliares de análise e estudo intenso e sistemático dos adversários por parte da comissão técnica visando achar pontos-chave para transpor aos atletas da melhor forma possível e adequando a teoria à prática durante a aplicação para sessão de treinamento. Nessa parte se adequa a utilização do treinamento mental (Elliott & Mester, 2000), de olho na melhoria da capacidade de concentração de nossos atletas.

 
Enfim, é um método que visa colocar a ciência do futebol em primeiro plano e ressaltar a importância do conhecimento da comissão técnica, planejando, planificando, reajustando as atividades, de acordo com as características dos atletas que se tem em mãos. É evidente que todos os treinadores gostariam de escolher a dedo seus jogadores, favorecendo, assim, a montagem do esquema de jogo, mas nem sempre é assim que funciona por fatores financeiros, etc. Muitas vezes precisamos nos adequar às limitações e características dos atletas e nosso treinamento, sim, se bem elaborado e aplicado, trará resultados importantes e satisfatórios nas competições de alto nível.
 
 
Bibliografia
 
ELLIOTT, B.; MESTER, J. Treinamento no esporte: Aplicando Ciência no Esporte. Guarulhos: Phorte, 2000.
 
OLIVEIRA, B; AMIEIRO, N; RESENDE, N; BARRETO, R. Mourinho: Porquê tantas vitórias?. Lisboa : Gradiva, 2006.
 
GARGANTA, J.A análise da performance nos jogos desportivos: Revisão acerca da análise do jogo. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto. 2001.

*Rafael Cotta é especialista em treinamento desportivo e preparador físico do Radium F.C. /Mococa-SP

Contato: rafael.cotta@yahoo.com.br

 

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Futebol, tecnologia e frases para refletir II

Olá amigos,

No texto I deste título, trouxemos a colaboração de Abraham Lincoln, Alphonse Allais e Arthur C. Clarke.

Hoje, buscando, nas celebres frases, inspiração para discutirmos algumas questões presentes no futebol moderno, contamos com a colaboração de outro trio de grande relevância no cenário nacional e mundial: Rui Barbosa, Jean-Jacques Rousseau e Nelson Mandela.

Um dos grandes intelectuais brasileiros do inicio do século passado, Rui Barbosa, disse certa vez:

“A miopia intelectual é a mais constante geradora do egoísmo”.

Confesso que essa frase por si só ilustra inúmeras situações e desperta, em cada um dos amigos, uma infinidade de interpretações, mas, como o propósito desse texto é justamente apresentar-lhes algumas das interpretações, vamos à conexão que faço desta frase com o futebol e a tecnologia.

Sendo sempre enfático sobre a necessidade de entender tecnologia como processo, lembramos da gestão de conhecimento, meio extremamente necessário nos clubes de futebol e que conta com a tecnologia e suas diferentes possibilidades como uma grande aliada para se tornar uma eficaz ferramenta de gestão.

Entretanto, abre-se a questão do grande egocentrismo que envolve muitos dos profissionais do futebol, e, até certo ponto, do esporte em geral. Para que uma gestão de conhecimento seja plausível, mais do que tecnologia, mais do que projetos e processos, é preciso admitir que outras pessoas, e não só uma, detêm diferentes níveis de conhecimento que se complementam, e mesmo quando aparentam ser incompatíveis, o embate ajuda a encontrar uma solução mais completa e embasada.

A miopia a que Rui Barbosa se refere é muito peculiar quando nos lembramos das fases da infância, nas quais a criança se vê como o centro de tudo, e tem dificuldades de reconhecer terceiros como parte importante do mundo em que vive. Essa comparação, um tanto quanto impensada, pode denotar que a gestão e os processos administrativos no futebol estão ainda na sua fase de infância, talvez, tentando chegar à adolescência, quando há a compreensão mais complexa do mundo e das relações sociais, ainda que prevaleçam alguns pensamentos imaturos.

Essa ideia pode ser complementada pelas palavras de Jean-Jacques Rousseau:

“Geralmente aqueles que sabem pouco, falam muito e aqueles que sabem muito, falam pouco”.

Para justificar o egocentrismo e a tal miopia intelectual, as palavras servem de escudo, protegendo quem as proclama, porém, muitas vezes, podem acabar servindo de obstáculo, seja pela miopia de Rui Barbosa, seja pela cegueira de Van Gogh, que dificulta, mas não impede (no máximo tarda) a chegada de novos rumos na administração do futebol.

“Quando um cego grita para outro cego, os dois tropeçam na mesma pedra”, disse Vincent Van Gogh.

E para não parecer que achamos que a culpa é única e exclusivamente de quem está aí fazendo o futebol há tantos anos, nos reportamos à frase do inquestionável Nelson Mandela, que ilustra muito bem aquilo que penso sobre como a ciência deve olhar para o futebol:

“Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração”.

Para tocar o coração do futebol, defendemos a ciência no campo, temos que transformar nossos sisudos discursos em uma linguagem que toque o coração dos “profissionais da bola”, uma linguagem que faça sentido e seja passível de trazer resultados. Mas, que resultados são esses…

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:
Futebol, tecnologia e frases para refletir I

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Fórmula e conteúdo

Os pontos corridos estão cada vez mais óbvios na mente da imprensa; mas e a adequação do calendário?
 
A fórmula do sucesso é, de fato, uma fórmula sem segredo. Ou, pelo menos, é o que mostra ser nesta primeira volta quase completa do Campeonato Brasileiro. Algumas palavras-chaves deveriam estar anotadas no caderno de cada dirigente.
 
Planejamento, pouca alternância de comando, elencos mais completos.
 
Essas três premissas já deveriam, com os pontos corridos entrando em sua sexta edição, fazer parte da cartilha de todo cartola. E da imprensa também!
 
Passada a primeira metade do campeonato, o espaço para surpresas é quase mínimo. Talvez Barueri e Avaí sejam as exceções do momento. O primeiro, pela campanha acima do esperado no ano de debute na elite do futebol. O segundo, pela melhora de desempenho sem grandes mudanças de elenco e de treinador. O que, talvez, explique essa arrancada.
 
O restante do campeonato não muda. Vai bem quem tem jogador de reposição, treinador com prestígio e calma para trabalhar no banco e, sobretudo, paciência dos dirigentes.
 
Palmeiras, Inter e São Paulo têm todas as condições para disputar o título, sendo que colorados e tricolores levam vantagem pelo fato de terem equipes com praticamente 15 a 16 jogadores, sem sofrer grandes oscilações quando sai um atleta considerado titular.
 
Esse talvez seja o grande ponto de interrogação sobre o futuro do Palmeiras no campeonato. Um time bem montado, eficiente na marcação, ainda tentando se encontrar no ataque, mas que, quando perde um jogador titular, fica sem o mesmo rumo.
 
A fórmula está pronta e já consagrou, nos últimos três anos, o São Paulo. Pontos corridos geralmente premiam quem é mais eficiente e, principalmente, quem tem mais fôlego para aguentar oito meses de campeonato com muitos jogos nos meios e finais de semana.
 
Até a imprensa percebeu isso…
 
Resta, agora, entender que a pergunta não é quando o calendário do futebol será unificado.
 
Antes disso temos tantos estaduais para serem resolvidos! Do contrário, a fórmula continuará a prejudicar o conteúdo.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Só preconceito, não. Discriminação, pelo menos! Por que não se discute o racismo no futebol brasileiro?

A cada caso de racismo no futebol brasileiro, aparece sempre um advogado para dar a sentença final, dizendo que o ato praticado por algum jogador não se configura crime de racismo, de acordo com a legislação brasileira. No caso ocorrido há poucas semanas e que envolveu os jogadores do Cruzeiro, Elicarlos, e do Grêmio, Maxi López, isto ocorreu mais uma vez.

Rodrigo Barros Oliveira, em texto publicado no blog do jornalista Juca Kfouri, argumenta que:

“O crime cometido pelo jogador argentino, caso a alegação do jogador Elicarlos se confirme verdadeira, não é crime de racismo. A conduta praticada pelo atacante Maxi Lopes configura sim crime de injúria qualificada, previsto no Código Penal. O atleta ofendeu a dignidade do outro e de maneira alguma tal prática configura o crime de racismo. Os crimes de racismo, previstos na Lei 7.716/89, são condutas muito diversas da praticada pelo jogador argentino. Racismo é dar tratamento diverso a alguém em função de sua raça, cor, etnia, ou nacionalidade, em situações em que estes devam ser tratados igualmente aos outros“. (OLIVEIRA, 2009, grifos do autor).

Ao ler este tipo de argumentação, sempre fico com a impressão de que se minimiza o ato hostil praticado, a sua importância na sociedade e, neste caso, no futebol brasileiro, e a discussão pública em torno dele. Além disso, o eixo do debate é deslocado das práticas sociais e culturais – o que é pra mim a parte fundamental da discussão – para a terminologia jurídica mais apropriada. A despeito do que a nossa legislação entende por racismo, ou seja, qual ato pode ou não ser caracterizado como crime de racismo, o jogador Elicarlos fez um uso popular de tal conceito, qualificando de racismo a atitude ou o comportamento agressivo por parte de Maxi López pelo fato de o volante cruzeirense ser negro.

Se bem entendi as aulas que assisti e os textos que li do renomado antropólogo Kabengele Munanga, professor da FFLCH-USP, podemos distinguir os termos preconceito, discriminação e racismo da seguinte maneira. Preconceito é uma disposição afetiva imaginária, ligada aos estereótipos étnicos. Inconscientemente, a pessoa preconceituosa valoriza as diferenças entre o que se entende por “raças humanas”, as quais são baseadas principalmente pela cor da pele. Assim, esta pessoa, evita, sem exteriorizar seus pensamentos, determinados lugares onde a maioria é negra, por exemplo. Discriminação é um comportamento individual ou coletivo observável. Conscientemente, a pessoa que discrimina valoriza tais diferenças e estabelece uma hierarquia racial na qual o branco é, para ele, superior ao negro. Neste sentido, esta pessoa verbaliza ou assume em público, por exemplo, que não vai a determinado lugar porque lá tem maioria negra. Racismo é um discurso ou uma doutrina que tenta legitimar a crença na existência de raças naturalmente hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o intelecto, e o biológico e o cultural.  O racista registra de algum modo a sua crença ideológica quer para dominar, quer para inferiorizar negros, judeus ou pessoas de outras “raças”. Assim, o racista usa, por exemplo, uma camiseta com os escritos: “Não vou a determinado lugar porque lá tem negros!”.

Penso que mais importante do que a precisão jurídica ou mesmo conceitual para denominar o ato cometido por Maxi López é a discussão profunda na imprensa brasileira – não só a esportiva – das atitudes discriminatórias que vêm acontecendo de maneira recorrente no futebol nacional. Por que depois de Mario Filho houve um silenciamento por parte dos nossos jornalistas no tocante à questão? Será que depois da segunda edição de O negro no futebol brasileiro (1964) não há mais o que falar sobre as dificuldades enfrentadas pelos negros para a sua afirmação neste esporte (tanto no passado quanto no presente)? Será que depois de Pelé é besteira discutir atos discriminatórios no futebol brasileiro? Ou os negros deixaram de sofrer injúrias – se este é o termo correto – nas décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000?

Por que existem pouquíssimos árbitros, treinadores, jornalistas negros? E dirigentes negros? Se o nosso futebol é recheado de grandes craques negros, por que eles têm pouquíssimo espaço de atuação em outras profissões do universo do futebol? Seria impreciso entender a estrutura do nosso futebol como um racismo institucionalizado? O que acontece dentro de campo deve ficar dentro das quatro linhas? Ou o estádio é um espaço especial onde a legislação brasileira não deve ser aplicada? Chamar ou xingar um jogador negro de “negão”, “neguinho”, etc. é “normal” como pensam muitos brasileiros? É um xingamento igual a qualquer outro? Se um jogador negro “aceita” um apelido preconceituoso, então não há problema? Alguém perguntou a ele como se sente e se sentiu desde que começou a jogar bola? Até quando árbitros, treinadores, dirigentes, jornalistas, etc. e os próprios jogadores companheiros serão coniventes com atitudes discriminatórias que acontecem dentro e fora de campo? O que será que acontece nos vestiários, no dia-a-dia dos clubes? E o racismo velado através de indiretas, de “brincadeiras”, de ofensas comuns, de apelidos, de demissões com justificações outras que não a racial? Alguém já perguntou destas “sutilezas” aos negros do nosso futebol? O que falar, então, dos gritos das torcidas (“favela”, “pó-de-carvão”, “macacada”…)?

Por que a imprensa esportiva costuma abordar o racismo de forma sensacionalista? Por que quando um brasileiro é hostilizado no exterior a discriminação ganha muito mais evidência do que quando ocorre dentro deste país? Por que a injúria é super-exposta quando a mesma parte de um argentino ou de outro estrangeiro? Alguma autoridade policial averiguou quem atirou a banana com as inscrições “Grafite macaco” naquele amistoso entre Brasil e Guatemala? Ou foi um torcedor guatemalteco que a lançou para dentro de campo? Por que neste episódio a imprensa não deu a mesma atenção? Por que ninguém fala mais do que aconteceu entre os jogadores Elias (Corinthians) e Felipe (Goiás) no dia 14 de junho? Ou entre Cris (Brasiliense) e Márcio Alemão (Guarani) no último dia 7 de julho? Há diferença entre o “macaquito” e o “macaco”? Quando vem de fora é racismo e quando vem de dentro é apenas um xingamento, uma injuriazinha? Ninguém toca na questão porque aqui todos têm, como se diz popular e pejorativamente, “um pé na cozinha”, sendo todos mestiços, e porque somos um país onde não há racismo? Somos o país da democracia racial? Este é o nosso legado para o mundo? Afinal, aqui é o “paraíso racial”, não é? Ou este é um assunto “tabu” ou “menor” que não deve ser tratado pela nossa imprensa? Ou a opinião deste leigo – no tocante às minúcias da legislação brasileira – não serve para refletirmos a questão?

Bibliografia

CORRÊA, Lúcia Helena. Racismo no futebol brasileiro. In: DIEGUEZ, Gilda Korff (Org.). Esporte e poder. Petrópolis: Vozes, 1985.

MUNANGA, Kabengele. Teorias sobre o racismo. In: HASENBALG, Carlos A.; MUNANGA, Kabengele; SCHWARCZ, Lília Moritz. Racismo: perspectivas para um estudo contextualizado da sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 1998.

_____. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: BRANDÃO, P. Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 2004.

OLIVEIRA, Rodrigo Barros. Injúria, talvez, racismo, não! 2009. Disponível em: http://blogdojuca.blog.uol.com.br/arch2009-06-21_2009-06-27.html#2009_06-26_11_41_49-9991446-0. Acesso em: 26/06/2009.

VIEIRA, José Jairo. Considerações sobre preconceito e discriminação racial no futebol brasileiro
. Teoria e Pesquisa, São Carlos, n. 42-43, p. 221-244, jan./jul. 2003.

*Cientista social (UNESP), mestrando em história social (USP) e membro do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol), do MEMOFUT (Grupo de Literatura e Memória do Futebol) e do NEHO (Núcleo de Estudos em História Oral-USP). Contato: marceldt@uol.com.br