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Mourinho e as transições ofensivas

Não é de hoje que escrevo sobre as transições (defensivas e ofensivas) no futebol. Não é de hoje também que alguns treinadores europeus dão a elas foco destacado nos seus modelos de jogo.

Chamam muito a minha atenção as transições das equipes de José Mourinho. Especialmente as ofensivas.

Que muitos treinadores entendam a importância delas no futebol moderno e que tantos outros desenvolvam estratégias e lógicas ímpares para a sua execução, isso é inegável. Mas as das equipes de José Mourinho têm algo especial.

Basicamente quando uma equipe está a tentar recuperar a posse de bola deve ter bem definidas as formas coletivas para tal. Ao recuperá-la, de imediato, o 1º e/ou o 2º jogador (normalmente) tem rapidamente que decidir e definir qual curso dará a bola. Sua ação é decisiva para a organização de jogo da equipe.

Essa ação está (didaticamente) atrelada a quatro possibilidades imediatas na transição defesa-ataque:

1)    Manter a bola na zona de pressão sem progressão da jogada em direção do alvo (o que não costuma ser muito produtivo);

2)    Buscar rapidamente a progressão coletiva da jogada em direção à meta (mesmo que não haja diminuição considerável da pressão sobre a bola);

3)    Tirar horizontalmente a bola da zona de pressão (para depois avaliar qual a seqüência mais apropriada);

4)    Tirar verticalmente a bola da zona de pressão, afastando-a da meta ofensiva e aproximando-a da meta defensiva.

Não é muito difícil imaginar que isso não seja nenhuma novidade para muitos treinadores de 1ª linha. E se não é novidade, não deve haver também grandes questões para serem acrescentadas ao tema, correto?

Nem tanto (ou melhor, nem um pouco!).

Ter quatro opções realmente não é um problema. Problema é ter coletivamente bem definida qual a melhor opção a ser escolhida para cada situação de recuperação da posse da bola no jogo.

Ainda que se tenha como parâmetros a região da recuperação da posse da bola (em suas coordenadas verticais e horizontais), o número de jogadores próximos a ela, a fase de organização do jogo adversário que ela fora recuperada, os princípios operacionais de defesa e ataque predominantes do adversário (e da própria equipe), qual o jogador que recupera a bola e/ou qual adversário que a perde; determinar com maiores chances de êxito, qual a melhor estratégia de transição ofensiva imediatamente após a recuperação da bola necessita de um refinamento, de uma capacidade coletiva de ler as situações-problema e de uma “experimentação” por parte dos atletas as tais situações-problema extremamente grandes e ricas (em qualidade).

E isso (qualidade), podemos notar nas equipes do treinador português.

Fora assim nos pouquíssimos jogos que tive acesso em sua época de Porto, fora assim no inglês Chelsea e já se mostrou assim em tão pouco tempo no Internazionale de Milão no jogo contra a Roma (especialmente no 1º tempo).

Evidente que Mourinho encontrou uma lógica para tal que confere à elas (as transições ofensivas) uma qualidade especial.

Mais evidente porém, é que o seu jogar treinando e o seu treinar jogando possibilita aos seus atletas as mais diversas situações-problema possíveis – e logo aumenta consideravelmente a capacidade deles, de tomar decisões.

Como a lógica da sua transição ofensiva (da de Mourinho) é inerente ao seu modelo de jogo, todos da equipe, coletivamente passam a ler o mesmo jogo o tempo todo (a partir daí as chances de acerto só tendem a aumentar).

Então, é necessário se destacar que possivelmente não esteja apenas no como (onde?, por quê?, quem?, quando?, o quê?) proceder nas transições ofensivas o caminho para torná-las mais eficazes.

O que é possível e também provável, é que um dos “grandes segredos” de tal eficácia esteja sim no como (onde?, por quê?, quem?, quando?, o quê?) construir os treinos para conduzir a equipe ao entendimento da lógica que orientará o modelo de jogo.

Como hoje no futebol as coisas vão meio no “não sou eu quem me navega; quem me navega é o mar (…)” (bela música “Timoneiro”, de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho), e como o mar ainda parece estar mais para “Cymbospondylus” (réptil marinho primitivo) do que para submarino inglês, creio que os tripulantes da “embarcação futebolesca” ainda vão demorar um pouco para perceberem que estão na direção contrária.

E até lá, muitas vitórias daqueles que estão remando contra a maré…

Leia mais:
A tática, o coletivo e o José Mourino: uma questão de(o) português!

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Pais ajudam ou atrapalham na formação de um atleta de futebol?

Quando o assunto é “pais”, logo pensamos em família unida, amor, carinho, segurança, exemplo, educação etc. O amor envolvido em uma relação saudável de pais e filhos é incondicional, único, adimensional, divino até. Talvez seja por isso que quando ouvimos alguma notícia sobre pais que maltratam ou até mesmo matam seus filhos (como o triste caso da menina Isabela), ficamos revoltados, enfurecidos com tamanha atrocidade. É nesse ponto que vem nossa indagação àqueles que são pais: até que ponto eles não estão “matando” o futuro de seus filhos?

A questão, é claro, tem um cunho figurativo e dirige-se especificamente ao futebol competitivo de base (já que é esse o contexto em que nós autores estamos envolvidos!). Peguemos um exemplo prático: qual é a atitude esperada por um pai, quando seu filho, que faz parte do elenco de uma determinada equipe, é orientado a treinar em outra posição que não a sua habitual? Opção 1 – Ficar contente com a possibilidade do filho aprender uma nova função? 2 – Apoiar a decisão do treinador em detrimento da sua própria (caso seja contrário a isso!)? 3 – Ficar enraivecido, questionando o treinador de forma infundada não dando direito à réplica, tachando-o de “burro”? Infelizmente, a opção “3” é, sem sombra de dúvidas, a mais presente.

O que nos conforta (ou não!) é o fato de esse comportamento não ser adotado para outras áreas nessa mesma intensidade. Caso contrário, teríamos um aumento de demanda no sistema de saúde público. Afinal, já pensou se toda vez que esses mesmos pais fossem ao médico tratar seus filhos e o doutor recomendasse um remédio que o jovem nunca usou, o pai tivesse o mesmo comportamento? Por que a atitude do pai é diferente com o médico e com o profissional de educação física?

Infelizmente, temos que admitir que nós, profissionais da área de educação física, somos um tanto quanto culpados por isso, afinal é grande o número de maus profissionais trabalhando com futebol de base (grande parte deles não graduados!). Todavia, quase nunca o conhecimento teórico e experiência profissional, (independente do quão profundo sejam) vencem esse tipo de pai. Em nosso exemplo, o pai não se sente no direito de discutir com o médico, afinal o doutor estudou, se formou e sabe o que está falando, não tendo o pai conhecimento suficiente para questionar. Porque no futebol tem que ser diferente? O pai estudou futebol? Sabe de pedagogia, treinamento, fisiologia, biomecânica, processo maturacional, tática, etc? Ou apenas repete o senso comum e se sente o dono da verdade? Paradoxalmente, esse mesmo pai “questionador” deixa seu filho ir morar longe de casa com apenas 15 anos (para não falar dos casos de 12 ou 13 anos!) sem saber em quais condições ele ficará hospedado e quem serão seus responsáveis, sujeitando sua prole a condições insalubres, pedofilia, etc.

Passada essa fase introdutória, faremos agora uma classificação dos “tipos de pais”, relacionando-os com o futuro de seus respectivos “filhos-atletas”. É importante ressaltar que essa classificação é totalmente arbitrária e baseada em nossa experiência prática.

1- Pai Desinteressado: aqueles que nunca assistem a um jogo ou treino do filho e, pior do que isso, (afinal, às vezes, a condição social ou mesmo a distância, impedem que isso seja possível) nunca se preocupam em saber como “as coisas estão”.
2- Pai Treinador: aqueles que praticam ou praticaram o mesmo esporte que o filho e sentem-se no direito de orientar o mesmo, sobrepujando a função do técnico. Geralmente, cumprem essa tarefa nos horários extra-campo. O jovem sente-se confuso sobre quem seguir (o técnico ou o pai), atrapalhando o trabalho do profissional e do atleta. A quantidade de informações conflitantes e a pressão exercida por esse tipo de pai são responsáveis pela desistência de muitos jovens talentos.
3- Pai de Alambrado: clássicos! Ficam no alambrado esbravejando enquanto os filhos jogam. Dispõem de enormes cordas vocais e vocabulário “nobre” para indicarem as melhores jogadas durante a partida. Narram o jogo e endoidecem quando seus filhos não fazem aquilo que foi ordenado. Normalmente atacam a arbitragem inescrupulosamente.
4- Pai Fanático: nunca aceitam a decisão do treinador. Não estão nem um pouco preocupados com o desenvolvimento da equipe. Se os seus filhos estiverem entre “os onze”, está tudo ótimo: afinal, seus filhos são craques!
5- Pai Frustado: a Psicologia já tem um consenso acerca desse tipo de pai – “Projeção”. Tentaram ser atleta profissional um dia e não conseguiram. O problema é que mesmo adultos continuam tentando através de seus filhos. Fazem de tudo para que seus filhos sejam jogadores de futebol, muitas vezes coagindo os jovens a continuar treinando.
6- Pai Consciente: casos raros. Buscam o melhor para o filho, tanto em relação aos profissionais que estão formando-o, quanto em relação à filosofia de trabalho da Instituição que o mesmo está vinculado. Preocupam-se com o futuro do filho, exigindo que o mesmo estude. Aceitam de forma saudável a admiração que seu filho passa a ter pelo comandante (se esse fizer por merecer é claro!) dentro de campo. Limitam-se a torcer pelo filho e a responder perguntas que lhe são feitas acerca da partida. Nunca jogam o técnico contra o filho e orientam-no a questionar em caso de dúvidas e/ou insatisfações. São porta-vozes para a comissão técnica acerca do contexto do jovem em outros ambientes que não o futebol (escola, família, saúde, problemas financeiros). Evitam paralelismo com o esporte profissional (não alimentando ilusões). Não interferem naquilo que o treinador pediu, comemoram êxitos sem euforia desmedida e fracassos desportivos como aprendizagem para a vida. Ajudam a formar cidadãos dentro e fora do campo, dando exemplo de comportamento e educação, respeitando os árbitros os adversários e os colegas de seus filhos.

Para finalizar, voltemos à pergunta inicial: “Os pais podem ‘matar’ o futuro do seu filho?”. Infelizmente, pelo exposto, fica claro que sim. Todavia, a recíproca não é verdadeira e um “pai consciente” (de acordo com a nossa classificação) não garante o sucesso do atleta dentro de campo. A opção a ser escolhida está nas mãos dos pais e deve ser pensada com carinho, afinal, está por definir o futuro da pessoa que o mesmo mais ama. Um abraço a todos!

*Renato Buscariolli de Oliveira é Bacharel em Treinamento Desportivo e mestrando em Biologia Funcional e Molecular – Unicamp 

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Planejamento dos clubes e as janelas de transferência de jogadores

Caros amigos da Universidade do Fubebol,

A transferência internacional de jogadores é um tema bastante frequente nas épocas de meio e final de ano. O mercado do futebol fica agitado em que muita especulação ganha espaço na mídia.

E, como sabemos, o futebol tem a sua peculiaridade também no que se referei à transferência de empregados (jogadores) de um clube para outro. Diferentemente do que ocorre em outros ramos de atividade, os clubes somente podem “vender” os direitos sobre seus jogadores, e comprar o de outros clubes, em determinadas épocas do ano.

Pelo regulamento da FIFA, as federações nacionais devem escolher dois períodos, por ano, para que os clubes daquela jurisdição possam transferir jogadores. 

Em primeiro lugar, importante mencionar que existe discussão jurídica na Europa vis-à-vis a legislação comunitária. Restringir o período em que um clube pode contratar jogadores fere o princípio da liberdade de movimento de cidadãos e/ou o do direito ao acesso ao trabalho? Ou tal restrição se justifica no âmbito do escopo da especificidade do esporte?

Para além dessa questão, temos também a de ordem prática a ser ressaltada. Os clubes precisam ter a exata informação das chamadas “janelas de transferência” de outros países, em linha com a sua política estratégica de formação e dissolução de elenco. Principalmente aqueles clubes que tem como objetivo a formação de jogadores e a sua colocação em outros mercados como fonte legítima e alternativa de receita.

Por exemplo. Muito se fala em “janela de transferência européia”. O que é isso? Quando começa e quando termina? Na verdade, esse termo não existe legalmente. O que existe é um período entre 1 de julho a 31 de agosto, em que a federação da marioria dos países europeus escolhe como período de transferência de jogador. 

No entanto, não é regra para todos os países. Dentro do princípio da subidiariedade, amplamente reconhecido na esfera desportiva e também nos tribunais europeus, a competência para a decisão de tal matéria cabe à Federação à nível nacional. 

Na Suécia ou na Irlanda, por exemplo, a janela terminou no final de julho. Na França, a janela foi aberta em maio. Durante o período de interrupção das competições no inverno, a dicrepância entre os países ainda é maior. A grande maioria tem a janela durante o mês de janeiro. Na Finlândia, porém, a janela de transferência abre apenas em março, fechando em abril.

Esses são apenas alguns exemplos, dentre diversas peculiaridades que cada país europeu apresenta com relação aos seus períodos de transferência.

Cada vez mais o sucesso dos clubes está relacionado a um planejamento organizado, que deve sempre ser embasado em informações precisas e acuradas, em um ambiente em que haja a devida segurança jurídica. Só assim o profissionalismo pode de fato ser estabelecido no futebol e, em especial, na gestão de nossos clubes.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Fast Ûber Alles

Quando se fala em exemplo de futebol para o mundo, logo se menciona a Europa, claro.

E quando se fala em exemplo de futebol Europeu, logo se menciona a Inglaterra, logicamente. Afinal, qual é a liga mais rica do mundo? Onde estão os melhores jogadores? Os maiores patrocinadores? A maior atenção do mercado? Inglaterra, claro.

Entretanto, porém, todavia, um novo fenômeno mercadológico vem tomando forma e despertando a atenção de todos quando se fala de desenvolvimento futebolístico: a Bundesliga.

A liga alemã vem, ano após ano, exibindo franco desenvolvimento e um modelo administrativo mais sustentável do que qualquer outro existente por aí. E os números comprovam. Hoje, a Bundesliga só perde em receita para a Premier League inglesa. No último relatório da Deloitte, a Bundesliga gerou 1,379 bilhões de euros contra 1,32 e 1, 16 da Primera Liga e da Serie A, respectivamente. A Premier League vai longe, com 2,2 bilhões de euros.

Logicamente que existem alguns fatores impulsionando a Bundesliga em relação aos campeonatos espanhol e italiano. Primeiramente, a Alemanha ainda está sob o efeito da Copa de 2006, que deve durar pelo menos mais uma temporada. Esse efeito aumenta o número de pessoas dentro do estádio, o que permite que a Bundesliga registre uma média de público de mais de 37 mil pessoas por jogo, a maior da Europa pela quinta vez consecutiva. Com isso, aumenta o potencial comercial dos clubes, fomentado pelos novos estádios construídos para a Copa. 

Além disso, a decadência do campeonato italiano, que enfrenta sérios problemas de público e de credibilidade após os recentes escândalos de arbitragem, e a concentração do poder comercial do campeonato espanhol na mão de dois clubes, Real e Barcelona, permitem que a Bundesliga consiga se sobrepor dentro do cenário.

Mais impressionante, porém, é o fato da Bundesliga ser também a liga mais rentável entre os principais campeonatos europeus. Mais, até, do que a Premier League. O lucro da Bundesliga na temporada 06/07 foi de 250 milhões de euros, 78% maior que o lucro da Premier League, que foi de 140 milhões de euros. Aos olhos dos investidores, portanto, é natural que a Bundesliga comece a tomar um lugar de destaque no mercado.

Naturalmente, esse cenário de grandes margens de lucro vem com um preço. Boa parte do lucro da Bundesliga é proveniente de uma forte política de controle de salários para jogadores. A Alemanha, de um modo geral, não consegue segurar jogadores mais qualificados porque não consegue competir no mercado. Como essa é uma situação comum à grande maioria dos clubes, ela não apresenta problemas internamente. Externamente, porém, é outra história. Grandes lucros internos significam pouca performance externa. Não é de se estranhar, portanto, que sejam raros os casos de clubes alemães que conseguem alcançar estágios mais avançados da Champions League, uma vez que as suas folhas salariais não se equiparem aos padrões ingleses, italianos e espanhóis.

Na indústria do futebol, como em quase qualquer outra coisa que existe, tudo que acontece tem um preço. Inclusive o lucro. Resta o velho dilema: ganhar dinheiro ou ganhar um jogo?

Typisch.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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TPJO (Tensão Pós Jogos Olímpicos): “Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo”

Sempre que se encerram os Jogos Olímpicos nós, amantes do esporte, sentimos aquele vazio, aquela tristeza, o famoso TPJO (Tensão Pós Jogos Olímpicos), o que fazer até passarem-se quatro anos ?  Afinal para quem vive do, pelo e para o esporte e nas horas vagas se entretêm com ele sem dúvidas vive um momento mágico.

Torcer, como um povo sofrido pelo sentimento de união da nação, de força, de superação. Criticar, como observadores, o planejamento, a falta de investimento, o desvio de verbas, o descaso com a ciência. Misturar entre tantos outros sentimentos, orgulho, frustração, indignação, alegria e emoção com o hino nacional raramente tocado. É sem dúvida uma complexa relação que estabelecemos com os jogos, para alguns excessiva, para outros natural, enfim opiniões tão diversas como as possibilidades de reflexão que se abrem.

Modernidade, organização, precisão, imagens sensacionais, não dá para esquecer da famosa imagem em “câmera ultra-lenta”, nem tão pouco das falhas como o sumiço da vara, que transformou a atleta Fabiana Murer em verdadeira protagonista de uma tragédia Grega.

Faço minha reflexão, com muito receio, pois dei uma repassada nos textos anteriores, e gostaria de ser menos pessimista e ranzinza com as questões tecnológicas no esporte nacional, sobretudo no futebol, mas sou brasileiro e não desisto de trazer em textos futuros boas novas para a torcida brasileira eternizada na voz do saudoso Fiori Giglioti, (que fico aqui imaginando como ele teria narrado o ouro de Cesar Cielo), mas enquanto isso tento me ater nas condições sob aquilo que conduz meus olhares.

Sempre ouvimos ao término dos jogos, o discurso de reflexão, de aprendizado, de evolução do esporte nacional, e ficamos numa análise mais racional desapontados com a distância que nossa estrutura está em relação as demais. Ouvimos promessas, expectativas de evolução fenomenal para o próximo e tão orgulhosamente chamado ciclo olímpico, mas o fato é que parece um discurso gravado numa fita cassete e transposto para um CD ou DVD, e provavelmente na próxima, esse discurso já esteja gravado no BLU-RAY (para alguns, a evolução do DVD).

Mas o amigo da Cidade do Futebol pode se perguntar o que dizer do Cesar Cielo ? Com muito orgulho e emoção vibrei com a conquista desse fantástico nadador brasileiro que treinou ou treina nos Estados Unidos com um técnico australiano, e que por sorte nossa não desistiu de representar seu país natal, que acredito pouco ter contribuído com o desenvolvimento desse campeão olímpico.

As cortinas foram fechadas, e é mais do que necessário para aqueles que defendem e atuam no esporte de competição em alto nível , que mais do que os batidos discursos, de nossos dirigentes, pós jogos olímpicos temos que observar profundamente as razões de tais diferenças. E esse observar vai muito além de por um óculos para enxergar melhor.

Nos aspectos tecnológicos a frase Alan Kay em destaque no inicio dessa coluna, representa um ponto importante no qual precisamos refletir.

Enquanto para nós o show de imagens é o marco da invenção tecnologia que fica desses jogos, para outros países habituados a tecnologia, que nasceram ou fizeram nascer deles inúmeros recursos, o desempenho esportivo é fruto de nada mais nada menos que um cotidiano de planejamento , de investimento (e isso falta no nosso pais, e não só no aspecto financeiro, mas também no aspecto de prioridade dos profissionais e capacitação para lidar e exigir tais condições).

Um cotidiano que leva o treinamento de um Michael Phelps para túneis de água e recursos biomecânicos para aproveitar sua estrutura corporal aos melhores e mais adequados movimentos dentro da água, que leva aos atletas o treinamento numa Hydro Physio Lifestyle Water Resistance, equipamento de treino resistido na água, que estuda ação dos adversários em busca do melhor proveito como a técnica da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos, enfim poderíamos aqui enumerar uma gama de recursos e possibilidades que pudemos observar no decorrer desses jogos, mas seriamos extremamente repetitivos.

E antes que nos conformemos que tudo isso é muito caro para a realidade brasileira, lembro que temos no Brasil, empresas e universidades que desenvolvem grandes trabalhos e pesquisas, que acabam achando mercado muito mais receptivo fora do nosso país, principalmente pela capacidade dos profissionais estrangeiros de priorizar tais recursos no planejamento e treinamento.

Fica a reflexão, fica o olhar, ficam os recordes e as medalhas, ficam as imagens, mas sinceramente espero que não fiquem os discursos. Espero que possamos nascer para o mundo tecnológico no esporte.

Para interagir com o autor: fantato@149.28.100.147

 

“A tecnologia só é tecnologia para quem nasceu antes dela ter sido inventada.”
( Alan Kay )

 

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TPJO (Tensão Pós Jogos Olímpicos): "Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo"

Sempre que se encerram os Jogos Olímpicos nós, amantes do esporte, sentimos aquele vazio, aquela tristeza, o famoso TPJO (Tensão Pós Jogos Olímpicos), o que fazer até passarem-se quatro anos ?  Afinal para quem vive do, pelo e para o esporte e nas horas vagas se entretêm com ele sem dúvidas vive um momento mágico.

Torcer, como um povo sofrido pelo sentimento de união da nação, de força, de superação. Criticar, como observadores, o planejamento, a falta de investimento, o desvio de verbas, o descaso com a ciência. Misturar entre tantos outros sentimentos, orgulho, frustração, indignação, alegria e emoção com o hino nacional raramente tocado. É sem dúvida uma complexa relação que estabelecemos com os jogos, para alguns excessiva, para outros natural, enfim opiniões tão diversas como as possibilidades de reflexão que se abrem.

Modernidade, organização, precisão, imagens sensacionais, não dá para esquecer da famosa imagem em “câmera ultra-lenta”, nem tão pouco das falhas como o sumiço da vara, que transformou a atleta Fabiana Murer em verdadeira protagonista de uma tragédia Grega.

Faço minha reflexão, com muito receio, pois dei uma repassada nos textos anteriores, e gostaria de ser menos pessimista e ranzinza com as questões tecnológicas no esporte nacional, sobretudo no futebol, mas sou brasileiro e não desisto de trazer em textos futuros boas novas para a torcida brasileira eternizada na voz do saudoso Fiori Giglioti, (que fico aqui imaginando como ele teria narrado o ouro de Cesar Cielo), mas enquanto isso tento me ater nas condições sob aquilo que conduz meus olhares.

Sempre ouvimos ao término dos jogos, o discurso de reflexão, de aprendizado, de evolução do esporte nacional, e ficamos numa análise mais racional desapontados com a distância que nossa estrutura está em relação as demais. Ouvimos promessas, expectativas de evolução fenomenal para o próximo e tão orgulhosamente chamado ciclo olímpico, mas o fato é que parece um discurso gravado numa fita cassete e transposto para um CD ou DVD, e provavelmente na próxima, esse discurso já esteja gravado no BLU-RAY (para alguns, a evolução do DVD).

Mas o amigo da Cidade do Futebol pode se perguntar o que dizer do Cesar Cielo ? Com muito orgulho e emoção vibrei com a conquista desse fantástico nadador brasileiro que treinou ou treina nos Estados Unidos com um técnico australiano, e que por sorte nossa não desistiu de representar seu país natal, que acredito pouco ter contribuído com o desenvolvimento desse campeão olímpico.

As cortinas foram fechadas, e é mais do que necessário para aqueles que defendem e atuam no esporte de competição em alto nível , que mais do que os batidos discursos, de nossos dirigentes, pós jogos olímpicos temos que observar profundamente as razões de tais diferenças. E esse observar vai muito além de por um óculos para enxergar melhor.

Nos aspectos tecnológicos a frase Alan Kay em destaque no inicio dessa coluna, representa um ponto importante no qual precisamos refletir.

Enquanto para nós o show de imagens é o marco da invenção tecnologia que fica desses jogos, para outros países habituados a tecnologia, que nasceram ou fizeram nascer deles inúmeros recursos, o desempenho esportivo é fruto de nada mais nada menos que um cotidiano de planejamento , de investimento (e isso falta no nosso pais, e não só no aspecto financeiro, mas também no aspecto de prioridade dos profissionais e capacitação para lidar e exigir tais condições).

Um cotidiano que leva o treinamento de um Michael Phelps para túneis de água e recursos biomecânicos para aproveitar sua estrutura corporal aos melhores e mais adequados movimentos dentro da água, que leva aos atletas o treinamento numa Hydro Physio Lifestyle Water Resistance, equipamento de treino resistido na água, que estuda ação dos adversários em busca do melhor proveito como a técnica da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos, enfim poderíamos aqui enumerar uma gama de recursos e possibilidades que pudemos observar no decorrer desses jogos, mas seriamos extremamente repetitivos.

E antes que nos conformemos que tudo isso é muito caro para a realidade brasileira, lembro que temos no Brasil, empresas e universidades que desenvolvem grandes trabalhos e pesquisas, que acabam achando mercado muito mais receptivo fora do nosso país, principalmente pela capacidade dos profissionais estrangeiros de priorizar tais recursos no planejamento e treinamento.

Fica a reflexão, fica o olhar, ficam os recordes e as medalhas, ficam as imagens, mas sinceramente espero que não fiquem os discursos. Espero que possamos nascer para o mundo tecnológico no esporte.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

 

“A tecnologia só é tecnologia para quem nasceu antes dela ter sido inventada.”
( Alan Kay )

 

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Quem morreu?

“Que cara é essa, morreu alguém?”. Dessa maneira “delicada”, Dunga começou a entrevista coletiva de imprensa após a conquista da medalha de bronze pelo time de futebol do Brasil nos Jogos Olímpicos de Pequim.

Sim, o técnico da seleção, como bem colocou o repórter do “UOL” Bruno Freitas “surtou” quando foi atender à imprensa após o frustrante bronze na China. E o recado, segundo a reportagem, era para a TV Globo. Até o próprio Dunga confirmou isso:

“Aqui dentro tinha esquema. Comigo não tem. Acabei com o privilégio, e isso causa revolta”, disse o treinador, mostrando claramente que tentou dar nova cara ao relacionamento entre comissão técnica, jogadores e imprensa desde que assumiu o “trono” de técnico da seleção em 2006.

De fato Dunga não permitiu que o time do Brasil se tornasse uma espécie de figurinha carimbada da Globo, como havia acontecido com o time do Brasil de Parreira na Copa da Alemanha. Não que toda a invasão de privacidade fosse a única responsável pelo oba-oba exagerado em cima daquele time e, conseqüentemente, pela derrota apática para a França.

Só que, naquela ocasião, Dunga atuava como comentarista pelo BandSports. Da cabine do estádio em Frankfurt, viu o time de Parreira ser aniquilado por Zidane e Cia. E percebeu, na pele, a dificuldade que a imprensa “comum” tinha em conseguir alguma coisa com aquela seleção.

Quando assumiu o comando brasileiro, Dunga fez mais ou menos o jogo que acabou tornando-o figura abominável pela mídia em 1994. Sem regalias, sério, fechado, jogando duro. Assim começou a ser implantado o “estilo Dunga” na equipe do Brasil.

Só que, diferentemente de 1994, a seleção não ganhou o caneco, ou o ouro. Amargou o terceiro lugar, e com isso a paciência da imprensa com Dunga se esvaiu, assim como havia sido em 1990, quando ele virou o símbolo de uma geração derrotada em campo.

Agora, Dunga é sinônimo de insucesso fora de campo. Suas atitudes, que condiziam com aquilo que se considera bom jornalismo, acabaram se tornando sinônimo de antipatia e podem acabar por destruir o trabalho que começou a ser feito por ele (goste ou não goste, ele conquistou uma Copa América e um bronze olímpico).

Mas agora o buraco é mais embaixo. Dunga começou a atacar uma seara complicada. Envolve não apenas a mídia como um todo, mas uma das mais poderosas parceiras comerciais da CBF, que é a TV Globo. Afinal, ela é quem compra os direitos de transmissão das competições organizadas pela CBF. Ela é quem paga US$ 500 mil em média pelo amistoso do time nacional. Ela é quem muitas vezes tira alguns clubes da pindaíba, a pedido da própria CBF.

Será que Dunga está com a razão? Muitas vezes, sim. No caso do tratamento com a mídia, é notável que o trabalho ficou mais “justo”, permitindo a todos os veículos acesso a atletas e comissão técnica, sem papagaiadas de ficar acordado até tarde para dar “Boa noite” no Jornal Nacional.

Mas, sem a habilidade política que o cargo de técnico da seleção brasileira exige, quem será que vai morrer primeiro nessa história?

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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O treino tático e o conceito de processo

O que significa processo?
 
Estou eu aqui sempre a falar sobre o tal. Treinamentos exigem processo; educação exige processo; formação de atletas exige processo; resultados exigem processo. Das definições que o Moderno Dicionário Michaelis de Língua Portuguesa oferece, aquelas que melhor se encaixam naquilo que o “processo” que digo, se refere, vão todas na mesma direção.
 
Por exemplo: segundo o dicionário, processo pode ser a “sucessão sistemática de mudanças numa determinada direção”; pode ser “série de ações sistemáticas visando a certo resultado”, “ações ou operações contínuas que ocorrem de uma maneira determinada”, ou ainda “ação de ser feito progressivamente”.
 
Pois bem. Ainda que não nos prendamos nas definições, mas no conceito, continuará evidente que um treinador de futebol, profissional ou das categorias de formação, precisa (muito!) conhecer e entender sobre “processo”.
 
Na revista Soccer Coaching de dezembro/janeiro de 2008, em uma matéria sobre meu trabalho nas categorias de base, propus uma seqüência de exercícios referente a uma temática específica da marcação em zona.
 
É comum que me peçam algum exemplo de atividade para se trabalhar esse ou aquele conceito. O que é mais comum ainda é que na maior parte das vezes não há o entendimento de que esse ou aquele exercício, esse ou aquele treino, desvinculado do “processo”, não terá o efeito desejado e muito menos servirá para aquilo que fora destinado.
 
Hoje, então, apresentarei uma idéia, de como em dado período específico, do planejamento ou da periodização tática, pode-se construir (de forma processual) o conceito de marcação em zona (referente à linha de defesa e à de meio-campo) aplicada ao 1-4-4-2 em linha a partir da linha três (no fim do texto, veja o quadro explicativo que resume as atividades – use-o para acompanhar a leitura).
 
 
 
Em um primeiro momento, a lógica básica para a construção da marcação zonal em linha (das linhas de defesa e meio-campo) ocorre a partir do desenvolvimento do conceito da ocupação racional do espaço, independentemente da quantidade de jogadores adversários distribuídos em dado setor do campo.
 
Então, progressivamente, com poucos jogadores, podemos criar situações de igualdade e desvantagem numérica para a defesa, de tal forma que aumentando o número de jogadores cheguemos efetivamente nas duas linhas de quatro.

 
Como a idéia de início é construir o conceito da marcação zonal, é importante que os jogadores que estão defendendo tenham liberdade de ação e posicionamento, para que orientados pelo treinador comecem a perceber racionalmente qual a melhor ocupação do espaço em função da posição da bola, estando eles em igualdade ou desvantagem numérica.
 
 
 
Quando, na evolução das atividades, a defesa estiver efetivamente com oito jogadores realizando o exercício em igualdade e desvantagem numérica, há de se partir então para outro nível da construção dos conceitos: a formação efetiva das duas linhas.
 
 
 
Na concepção e apresentação das atividades desse novo nível, a construção das linhas inicialmente não é explícita na intervenção do treinador, mas ocorrerá em conseqüência da estrutura das próprias atividades.
 
Nesse novo nível, antes efetivamente do 11 contra 11 é necessária ainda a execução em igualdade e desvantagem numérica (figuras 11 e 12).
 
 
 
Depois do11 contra 11, outros níveis precisam ser alcançados até que o 1-4-4-2 em linha esteja bem organizado para responder ao maior número possível de situações-problema. A construção da orientação do espaço da linha de ataque também é algo que precisa ser inserido no desenvolvimento de todos os níveis de construção para se chegar efetivamente no “jogo formal”.
 
E esse, caro leitor, é o seu desafio. Como você faria para desenvolver o conceito de forma integrada com a linha de ataque? Se essa for fácil, pense então como faria para realizá-la de forma “pressionante”; ou ainda, como trabalharia para desenvolver esse conceito de marcação a partir da linha 1 (linha mais adiantada)?
 
Até a próxima…
 
Quadro resumo-esquemático:
 

Para interagir com o colunista: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Opiniões devidamente fundamentadas

Caros amigos da Universidade do Fubebol,

É muito comum ouvirmos que advogados e números não são muito amigos. Essa afirmação não deixa de ser totalmente falsa. Confesso que os números, cálculos, planilhas, etc, não são o meu forte. Nossa classe de advogados prefere as palavras aos números.

Entretanto, como tudo na vida, qualquer argumentação deve ser devidamente fundamentada. Palavras não passam de palavras a menos que por trás delas exista algo de concreto, que dê substância e credibilidade necessária à linha de argumentação desejada.

Essa breve introdução deve-se ao fato de ter sido recentemente publicado um estudo de fundamental importância para o ambiente do direito desportivo mundial. O Professional Football Players Observatory, sediado em Neuchatel, Suiça, acaba de publicar o Annual Review of the European Football Players´s Labour Market.

Esse estudo apresenta dados relativos às cinco maiores ligas europeias, relativamente ao movimento dos diversos jogadores inscritos pelos clubes afiliados a tais ligas. Esse estudo foi, ao final das contas, apoiado pela FIFA, uma vez que dá grande substância ao tão discutido projeto da lei do 6+5. Além disso, permite compararmos esse projeto com a regra da UEFA dos home-grown players.

Com números na mesa, conseguimos analisar melhor as propostas de alteração na regulamentação vigente, que tem por objetivo desenvolver jovens jogadores da Europa (em detrimento do crescente processo de imigração de jogadores estrangeiros à Europa) e também fortalecer as seleções nacionais européias.

Com esse estudo, a FIFA pode verificar que sua preocupação com o crescente número de estrangeiros no futebol do velho continente é legítima. E também que esse fato provoca um desestímulo para os clubes europeus formarem jogadores em suas categorias de base.

O estudo aponta que mais da metade de todos os gols da última temporada naquelas ligas foram marcados por estrangeiros. E que clubes com maior número de estrangeiros tem um rendimento superior, em média, do que clubes com maior caráter doméstico.

Por outro lado, países com maior número de estrangeiros em suas ligas possuem um rendimento médio inferior aos outros países. É o caso, por exemplo, da Inglaterra, que tem uma porcentagem superior a 60% de estrangeiros (sendo o Manchester Utd. detentor de mais de 80% de estrangeiros em seu plantel). E, coincidência ou não, a seleção nacional dos inventores do futebol moderno aparece apenas na 14ª posição no ranking da FIFA, não tendo sido sequer classificada para a Eurocopa deste ano.

Interessante notar, ainda, que clubes com maior porcentagem de “jogadores estáveis” leva nítida vantagem sobre aqueles clubes que contratam grande quantidade de novos jogadores todos os anos. Dos 10 clubes que menos contratam na Europa, 6 deles terminaram suas ligas entre os 5 primeiros colocados.

Esses são apenas alguns dos números que podem ser extraídos da versão final do estudo. Em uma primeira análise, podemos perceber que a motivação das propostas de alteração legislativa da FIFA e UEFA para um melhor desenvolvimento do futebol local são legítimas. Mas que, apesar disso, elas devem sofrer grande pressão no sentido contrário por parte dos clubes (principalmente dos mais poderosos), que não vão aceitar imposições que tirem os seus rendimentos dentro de campo.

De qualquer maneira, temos que reconhecer que as propostas para novas legislações somente pode acertar o alvo em cheio, caso sejam feitas e confirmadas por estudos numéricos, que suportem as características das novas leis.

É nessa medida que nós, advogados, temos que nos render aos números. Eles são, de fato, literalmente fundamentais.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Uma coisa leva a outra

Globalização é um fenômeno engraçado. Você vê uma coisa em um lugar e, quando menos percebe, você descobre que essa coisa na verdade é conseqüência de um outro negócio que ta acontecendo em outro lugar, que por sua vez é também uma conseqüência de mais outra coisa, de mais um outro lugar, e assim por diante.

Ok, não é um negócio muito engraçado.

De qualquer maneira, isso é reflexo de um mundo com pouquíssimas fronteiras, com amplo desenvolvimento tecnológico, com redes de informações globalmente disseminadas e tudo mais. Por um lado é legal, porque o mundo fica maior e mais interessante. Por outro lado, é muito ruim, porque você começa a sofrer com problemas que não são de fato seus. É a tal da história da borboleta que bate a asa nos Estados Unidos e causa um furacão no Japão. Borboleta desgraçada. Sorte dela que ela é estadunidense. Se fosse o contrário, certamente os Estados Unidos dariam um jeito pra invadir o Japão.

Coisa semelhante acontece com o Brasil, apesar de ele não ser, obviamente, uma borboleta. Mais especificamente, com o futebol brasileiro. Ainda não dá pra ver com muita clareza, mas uma crise braba pode estar se aproximando. Uma crise daquelas.

Tudo porque uns bancos estadunidenses ficaram empolgados com o momento econômico favorável que o mundo estava passando até o ano passado e resolveram abrir o caixa pra qualquer um que aparecesse pela frente e emprestaram dinheiro para quem não devia, sem perguntar pra esse alguém se ele teria condições de devolver esse dinheiro emprestado. Ele não tinha. E começou uma crise de crédito gigantesca nos Estados Unidos. As pessoas começaram a parar de pagar os bancos, que, sem perspectiva de reaver a grana, executou os bens das pessoas, principalmente os imobiliários. Com isso aumentou a oferta de imóveis a tal ponto que o mercado imobiliário, um dos mais fortes por aquelas bandas, começou a se desvalorizar. Aí veio o desespero. E quando os Estados Unidos se desespera, o mundo tem um faniquito.

A crise de crédito se espalhou pelo mundo todo, dos países mais desenvolvidos aos países emergentes. Afetou, principalmente, a Europa. A Espanha tem no mercado imobiliário um dos grandes combustíveis para seu desenvolvimento. Esse mercado entrou em colapso, o que afetou a capacidade econômica espanhola, que deixou de importar produtos de outros países por aquelas bandas, como Alemanha e Inglaterra. De processo em processo, a Europa se encontra quase à beira da recessão econômica. Isso significa menos dinheiro disponível no mercado, o que significa menos dinheiro para o futebol.

Com essa situação, os clubes e ligas da Europa precisaram rever seus planos. Alguns projetos de novos estádios foram adiados. Nem as más condições do mercado e muito menos a valorização do petróleo servem como incentivadores de grandes investimentos no momento. E estádio é um grande investimento que dificilmente se justifica economicamente. Então segura o projeto, assim como segura outros investimentos maiores, o que pode ser perfeitamente subentendido como valores de transferências mais polpudos. Ninguém, fora os clubes que tem os donos bilionários, vai investir em jogador, porque os grandes investimentos em jogadores chegaram a um patamar absurdo. Não é qualquer dia que você acha 20 milhões de euros pra comprar um jogador que nem é tão bom assim.

E isso tem reflexo direto no Brasil. Se o mercado tava começando a se acostumar com a idéia de ter transferências de jogadores novos por dezenas de milhões de euros, como foi o caso do Robinho, Breno e Pato, é possível que ele tenha que reaver esse posicionamento. Faltando 10 dias pra fechar a janela, foram poucos os jogadores que saíram do país, principalmente para jogar na Europa. A ascensão do mercado árabe se justifica por esses parâmetros apresentados.

Se bobear, voltou mais jogador do que foi embora. Se bobear mais ainda, é possível que alguns clubes fiquem melhores no segundo turno do que no primero. O São Paulo, por exemplo, que, descontando o Adriano que era um caso a parte, se reforçou com o André Lima e Anderson, os dois repatriados. Alex Silva, Miranda e Hernanes, que todo mundo meio que achava que iam pra Europa no meio do ano, não devem sair. Porque ninguém está disposto a pagar. Só os árabes, mas esses não são jogadores para o mercado árabe. São para a Europa. Mas a Europa não tem dinheiro.

Como a transferência de jogadores responde por uns 20% daquilo que um clube arrecada, há de se perguntar como ficarão os clubes que dependem tanto desse canal de receita.

A crise de crédito dos Estados Unidos pode fazer a indústria do futebol brasileiro enfrentar uma crise sem precedentes. Pelo menos não é o contrário. Senão seríamos invadidos por faniquitos estadunidenses.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br