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O atleta de futebol diabético

1 – Introdução

Os profissionais envolvidos no futebol, principalmente na área da Preparação Física recebem poucas informações sobre as limitações físicas dos diabéticos durante seu processo de formação. Sendo o diabetes hoje uma patologia que atinge uma porção considerável da população é de suma importância um conhecimento mais profundo desta doença, até mesmo porque não é raro encontrarmos casos de atletas portadores do diabetes. Sem o conhecimento da doença, de suas características e variação, se torna muito difícil obter uma otimização nos treinamentos e acima de tudo, manter a integridade física do atleta. Muitos são os aspectos que os profissionais ligados ao esporte devem levar em consideração e conhecer a respeito do diabetes:

– Tipo de Diabetes;
– Alimentação;
– Tipos de treinamentos;
– Monitoração da glicose sanguínea;
– Composição corporal do atleta;
– Saber reconhecer os sintomas de hipoglicemia e hiperglicemia;

2 – Definições

O diabetes é uma disfunção metabólica, originada pelo comprometimento na produção e/ou utilização do hormônio insulina. O grau de comprometimento de sua produção, de sua ação, do número ou da resposta dos receptores à insulina, assim como a idade, tempo de aparecimento e tipo de terapêutica são indicadores do aparecimento da doença. (CANCELLIÉRI, 1999, p.23). Para Martins, (2000, p.43), existem dois tipos de diabetes: o tipo 1 ou diabetes mellitus insulino-dependente, denominado antigamente de infanto-juvenil, por acometer indivíduos mais jovens. Está relacionada a uma absoluta deficiência de insulina e de outros hormônios pancreáticos. O tipo 2, também chamado de diabetes mellitus não-insulino-dependente , tende aparecer no início da maturidade.

Com a evolução da medicina esportiva, hoje esta doença pode ser controlada de maneira eficiente na maioria dos casos, possibilitando que o atleta diabético tenha uma vida esportiva relativamente normal, podendo atingir até o alto rendimento, tornando-se atleta profissional. Hoje nos clubes de futebol profissional exames clínicos são realizados com freqüência, permitindo assim a detecção de doenças como o diabetes. Aparelhos de glicemia permitem a análise rápida da glicose sanguínea do atleta; nesta análise, por exemplo, pode-se verificar um estado de hipoglicemia ou hiperglicemia, fazendo com que as devidas medidas sejam tomadas o quanto antes.

3 – Benefícios

Segundo Colberg (1963) o exercício físico regular fornece diversos benefícios ao diabético:

– Melhora na sensibilidade à insulina, que resulta em uma diminuição na quantidade necessária para manter o nível sanguíneo normal de açúcar.
– Diminuição nos fatores de risco cardiovascular, com aumento no HDL colesterol (lipoproteína de alta densidade) e uma redução no LDL colesterol (de baixa densidade) e nos triglicerídeos circulantes.
– Ênfase na fibrinólise (aderência reduzida das plaquetas sanguíneas e menos possibilidade de formação de coágulos, eu levam ao infarto ou acidente vascular cerebral).
– Melhora no estado psicológico e na administração do estresse associado ao diabetes ou a outros fatores.
– Aumento na massa muscular e redução na gordura, que contribuem com uma melhora na sensibilidade à insulina.
– Melhora em potencial no controle glicêmico geral, se o açúcar sanguíneo for monitorado e se forem feitos ajustes na dieta e nas medicações.

4 – Riscos

Ainda que os exercícios regulares possibilitem benefícios a seu praticante, tanto na prevenção como no tratamento do diabetes, estes só são alcançados se realizados de maneira adequada, caso contrário o diabético está sujeito a riscos indesejáveis e desastrosos, onde Cancelliéri (1999, p.71) dentre os quais cita:

– Hemorragia retiniana em retinopatia proliferativa e exarcebação de quadros de nefropatia, incluindo microalbuminúria;
– Hipertensão;
– Neuropatias autonômicas e/ou periféricas e doenças cardíacas e articulares degenerativas, além da exarcebação desses quadros patológicos existe a possibilidade de angina pectoris, arritmias cardíacas e infarto do miocárdio;

A possibilidade de ocorrência destas complicações é grandemente associada à prática errônea dos exercícios, prescrição inadequada ou não observância do atual estado de saúde.

Saber reconhecer estes sintomas é importante durante a prática de exercícios físicos, pois há um risco aumentado de ocorrer principalmente hipoglicemias, condição esta potencialmente perigosa para o diabético.

Dentre os sintomas mais comuns encontramos:

– tontura;
– tremores;
– visão turva;
– fome;
– irritabilidade ou mudança de comportamento;
– suor excessivo e palidez

Hiperglicemias também são indesejadas, variando desde os sintomas clássicos até coma, que são mais comuns nos diabéticos tipo 1, mas podem ser evitadas se houver monitoramento diários das taxas glicemicas. Os sinais e sintomas de hiperglicemias são:

– sede excessiva;
– urinar com freqüência e abundância;
– teste de glicemia positivo;
– fome;

5 – Adaptações

Algumas adaptações do sistema cardio-respiratório e circulatório sofrem influência direta do esforço a que o organismo é submetido durante a atividade física ou treinamento, no caso de atletas de futebol.

O aumento no peso e no volume do coração proporciona diminuição da freqüência cardíaca de repouso e da freqüência cardíaca máxima, pois o coração passa a contrair e bombear sangue mais eficientemente. O aumento do glicogênio hepático e muscular contribui para minimizar os efeitos das hipoglicemias. (DRUMMOND, F. A. Exercício Físico e Diabetes. Medicina Esportiva 2002).

Colberg (1963), fala que no futebol dependendo da posição que se joga, essa atividade é uma combinação de movimentos de parar e recomeçar, movimento de potência como chutes e arremessos e corridas de longa distância. Os médios volantes podem fazer uma corrida mais prolongada, enquanto os zagueiros e goleiros correm distâncias mais curtas. O atleta precisará de mudanças na insulina e na ingestão de carboidratos durante as partidas de futebol, que variam de acordo com sua posição e a duração da atividade. No entanto, se nenhuma mudança for feita na insulina para os jogos e os treinos de futebol, a suplementação de carboidratos (30 a 45 gramas por hora) será necessária para todos os regimes insulínicos, dependendo do nível de insulina circulante, da intensidade e da duração do jogo.

A intensidade (frequentemente determinada pela posição do jogador), a duração do jogo e o nível de insulina circulante durante a partida são os fatores que afetam a resposta do açúcar sanguíneo ao futebol. O jogo prolongado causa uma redução maior nos depósitos de glicogênio muscular e no nível de açúcar sanguíneo e, portanto, requer uma ingestão maior de carboidrato combinada com reduções na insulina, antes e possivelmente após o jogo. A posição (que pode envolver corridas contínuas ou apenas ocasionais) é o fator que mais determina a intensidade do jogo. Um médio volante que faz corridas mais longas durante um jogo de uma hora precisará reduzir a insulina e aumentar a ingestão de alimentos muito mais do que um goleiro, que ocasionalmente chuta ou arremessa a bola sem correr muito.

Durante o treino, o nível de atividade entre posições pode ser mais semelhante se todos os jogadores do time fizerem corridas contínuas ou manobras de arremesso. O nível de insulina circulante durante o jogo também afeta a necessidade de suplementação de carboidrato. Se foi tomada a insulina de ação curta três a quatro horas antes da atividade, é mais provável que o n
ível de glicose cairá do que se apenas uma quantidade basal de insulina estiver presente no seu corpo durante o jogo de futebol. Na temporada de jogos o atleta provavelmente precisará reduzir a dose de insulina basal (insulina de ação intermediária ou longa ou a taxa basal na bomba) mais do que na época de treinos.

6 – Suplementação

Todo dia o mercado lança diversas marcas e variedades de produtos de suplementação que prometem uma melhora rápida e considerável no desempenho dos atletas; Mas é preciso ter um cuidado muito grande com estes produtos, pois nem sempre exercem o efeito espero, e em alguns casos pode causar danos irreparáveis ao atleta diabético.

No site www.diabetes.org.br podemos encontrar uma lista de suplementos benéficos e que podem ser prejudiciais.

Lista de suplementos potencialmente benéficos para atletas:

* Antioxidantes (vitamina C, E, beta-caroteno e selênio): redução do dano oxidante às membranas celulares, induzido pelo exercício e/ou pela hiperglicemia.
* Carboidrato: ingestão de quantidades adequadas de carboidratos antes, durante e após o exrcício impede a hipoglicemia resultante do exercício.
* Cromo, vanádio e zinco: melhora na sensibilidade à insulina (especialmente as pessoas com diabetes tipo 2).
* Glicerol: previne a desidratação durante o exercício e quando a hiperglicemia esta presente.
* Bebidas esportivas: prevenção de hipglicemia (caso a bebida ontenha frutose ou glicose), e do desequilíbrio dos eletrólitos durante a atividade física prolongada, especialmente no calor. As bebidas esportivas também podem causar hiperglicemias se a ingestão de carboidratos for maior que o necessário. Lembrar que a ingestão destes produtos não elimina a necessidade de ingestão de água.
* Água, reposição de líquidos: prevenção de desidratação, especialmente devido à hiperglicemia ou exercício no calor.

Lista de suplementos que podem ser potencialmente prejudiciais:

* Suplemento de aminoácidos: desequilíbrio do aminoácido no corpo, aumento do esforço dos rins devido ao excesso de excreção de nitrogênio.
* Cafeína: perda excessiva de água e desidratação, especialmente no calor.
* Carga de carboidrato: hiperglicemia antes, durante e/ou após a atividade física. Também reduz a sensibilidade à insulina. Pode levar à hipoglicemia caso seja consumida antes do exercício e se tomar muita insulina em relação a caboidratos. A carga de carboidratos também pode ser benéfica para garantir uma reposição proveitosa do nível de glicogênio muscular e hepático, antes e depois do exercício. Uma quantidade adequada de insulina deve estar disponível para impedir a hiperglicemia e facilitar a captação da glicose pelo músculo.
* Creatina: aumenta o esforço dos rins, especialmente se uma doença renal estiver presente, devido ao excesso de eliminação da creatina pela urina. A creatina provoca o mais intenso esforço renal durante o período inicial de carga (cinco dias). Durante o período de manutenção, o esforço dos rins pode ser mínimo caso o seu funcionamento seja normal.
* Carga de gordura: índices mais lentos de absorção do carboidrato durante o exercício, se consumido antes ou durante da atividade, resistência elevada à insulina, produção de corpos de cetona e obesidade em longo prazo.
* Suplemento de proteína: sobrecarga dos rins em razão do excesso de excreção do nitrogênio, especialmente na presença de uma nefropatia.

7 – Considerações finais

Tanto no esporte de alto rendimento como o futebol, quanto na “pelada de final de semana”, a importância de se conhecer o verdadeiro estado clínico dos participantes é fundamental para se prevenir diversos situações de desconforto. Com a avanço da tecnologia ligada a área esportiva, mais especificamente na medicina, a facilidade em constatar distúrbios de qualquer natureza é grande, mas de nada nos adianta a constatação, o mais importante é saber como lidar com essas situações, saber quais os procedimentos a serem tomados e em quais circunstâncias.

O apoio ao atleta de futebol diabético é de responsabilidade de todos os membros das comissões técnica e médica da equipe; Deixar o atleta bem a vontade, mostrando que a doença é uma barreira que pode ser superada apenas com controles até certo ponto simples fará com que os resultados aparecem com muito mais facilidade e segurança.

8 – Referências Bibliográficas

CANCELLIÉRI, C. Diabetes e Atividade Física. São Paulo: Fontoura, 87P, 1999.
CORLBERG, S. R., 1963 – Atividade física e diabetes / Sheri Colberg [ tradução Maria de Lourdes Giannini; revisão técnica Roberto Fernandes da Costa]. – Barueri, SP : Manole, 2003.
DM Martins – Exercício físico no controle do diabetes mellitus – Phorte, 2000.
DRUMMOND, F. A. – Exercício Físico e Diabetes. Medicina Esportiva 2002).
www.diabetes.org.br – Atividades física para atletas.

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Lesão do ligamento cruzado anterior em atletas profissionais e recreativos

Sim, há diferença na incidência da lesão em diferentes grupos de atletas. Dependendo do esporte praticado, aumentam as chances de lesão, que decorre de uma entorse do joelho. Acontece também que o noticiário esportivo dá grande destaque para os profissionais do futebol lesionados, mas não revela o grande número de pacientes “comuns” que procuram diagnóstico e tratamento para a mesma lesão. Os atletas profissionais ou competitivos podem estar mais sujeitos se considerarmos a intensidade da prática esportiva ou, por exemplo, o empenho numa disputa de bola no futebol profissional. Também, o tipo de tratamento escolhido pelo ortopedista pode variar entre esses grupos de esportistas, ainda que na maioria dos casos a decisão é pela cirurgia e a colocação de um enxerto no lugar do ligamento.

Porém, em se tratando de diagnóstico por imagem, na prática diária do radiologista músculo-esquelético, o que se vê é uma grande quantidade de pacientes com ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho. Geralmente, estes pacientes são atletas recreativos, que praticam futebol de salão (futsal), futebol society, ou alguma outra modalidade informal do futebol. Obviamente, essa lesão esportiva não é exclusividade do futebol. Vários são os esportes que podem causá-la, e a gravidade da lesão independe do tipo de esporte ou qualificação do atleta. Um exemplo recente: após as férias de julho, vários esquiadores recreativos brasileiros voltaram da montanha com a mesma lesão, decorrente de alguma entorse do joelho (geralmente queda com o esqui travado na neve), cujo mecanismo é praticamente o mesmo daquele observado no futebol (girar o corpo com o pé fixo ao solo, torcendo o joelho).

No momento do diagnóstico por imagem, através da realização de um exame de ressonância magnética, os joelhos que sofreram entorse e lesão do ligamento cruzado anterior podem ser muito parecidos, independentemente do esporte praticado pelo paciente. Em muitos casos, apesar de os testes clínicos revelarem claramente ruptura do ligamento, convém que o paciente seja examinado com ressonância magnética. Isso porque o ortopedista especializado em medicina esportiva deseja saber se há outras lesões associadas no joelho e aí saber antes da cirurgia a real gravidade da lesão. É o que chamamos de lesões associadas. A principal lesão é realmente a ruptura do ligamento cruzado anterior, mas esta pode ser acompanhada de lesão meniscal (geralmente menisco medial), lesão do ligamento colateral medial (tibial), derrame articular, contusões ósseas no fêmur e na tíbia, e lesões da cartilagem articular. Menos frequentemente, podemos diagnosticar lesões musculares na região posterior do joelho e lesões do canto póstero-lateral (ligamento colateral lateral, tendão do bíceps femural, tendão poplíteo). Todas essas de grande importância para que o ortopedista tome conhecimento.

Além do diagnóstico da lesão aguda (recente) a ressonância magnética pode ser empregada para avaliar um joelho com ruptura crônica do ligamento, que por algum motivo, não fora diagnosticada ou tratada anteriormente. Aí, esse excelente exame de imagem poderá mostrar a lesão do ligamento (que nesse caso tem um aspecto de imagem um pouco difrente da lesão aguda) e complicações, como a presença de osteoartrose (degeneração articular) secundária à instabilidade que se instalou desde o episódio de entorse.

A ressonância magnética será útil também nas avaliações pós-operatórias que se seguirão ao longo do tratamento e mesmo após a alta definitiva. Ela avaliará, por imagem, a integridade do enxerto e, havendo por azar uma nova torção, demonstrar se houve ruptura do enxerto e novas lesões associadas.


 
* Milton Miszputen é radiologista músculo-esquelético – Site Radiologia do Esporte (www.milton.com.br/esporte) – radiologia@milton.com.br

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Como o sódio contribui para manter os atletas hidratados

O fundamental sobre o teor de sódio em uma bebida esportiva é que esse não deve ser nem alto nem baixo demais. Estudos mostram que o acréscimo de determinadas quantias de sódio a uma bebida aromatizada aumentam a ingestão voluntária e contribuem para evitar a desidratação.

A ingestão inadequada durante a atividade física pode resultar na desidratação e comprometer o desempenho do praticante de atividade física. Durante atividades físicas intensas, os atletas não costumam ingerir a quantidade de líquidos suficientes para reposição do volume perdido, o que causa a chamada “desidratação voluntária”. Como a ingestão da quantia adequada de líquidos durante e após exercícios intensos é a primeira linha de defesa contra a desidratação, as bebidas esportivas devem ser formuladas de maneira adequada para estimular a ingestão voluntária.

De acordo estudos científicos, o sódio adicional nas bebidas esportivas pode incentivar a ingestão de líquidos e ajudar a reidratação após a prática de exercícios físicos.

Wemple e col. estudaram o efeito de três teores diferentes de sódio em uma bebida que contém carboidratos e eletrólitos (como uma bebida esportiva), a ingestão voluntária e a reidratação após atividade física intensa. O teor de sódio nas bebidas testadas foi de 0,575 e 1.150 mg/L.

As pesquisas revelaram:

– Pequenas quantidades de sódio acrescidas a uma bebida aromatizada e doce aumentou a ingestão e melhorou a reposição de líquidos após o exercício intenso.
– A reposição de líquidos perdidos foi mais rápida com uma bebida com baixo teor de sódio que com uma bebida sem sódio ou com alto teor desse mineral.
– De maneira surpreendente, o teor mais elevado de sódio não estimulou um aumento da ingestão, resultado atribuído a uma rápida recuperação do volume sanguíneo, o que diminuiu a vontade de beber.

Quantidades adequadas de sódio em uma bebida esportiva também podem ajudar a realçar o sabor e aumentar a quantidade de líquidos que atletas desidratados vão beber para repor as perdas de líquidos.

www.gssi.com.br

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Imposto de renda de pessoa física e o futebol

No Brasil, o imposto sobre a renda está definido, em um primeiro momento, na Constituição Federal, artigo 153, inciso III, seguido pelo Código Tributário Nacional, precisamente no artigo 43 e posteriormente regulamentado pelo decreto 3000 de março de 1999 (Regulamento do Imposto de Renda), determinando, em síntese, que a partir do momento em que haja renda ou proventos de qualquer natureza, guardados os limites estabelecidos para a isenção, deve o sujeito passivo pagar o imposto de renda para o governo federal.

O imposto de renda incidente sobre salários sofre retenção na fonte, que é determinada pelo artigo 624 do regulamento retro mencionado, casos em que se recebe o salário já descontado da parcela que deve ser paga ao governo federal. Para o jogador profissional de futebol a regra é a mesma. Porém, a dificuldade aparece quando há transferência para clubes do exterior.

Ao entrar na esfera da tributação da renda de um atleta que irá jogar em clubes no exterior deve-se, em um primeiro momento, analisar sob quais princípios do direito tributário internacional essa possibilidade está norteada. Como principais, podemos citar os Princípios da Territorialidade e o da Universalidade.

O princípio da territorialidade, ou “Source Income Taxation“, estabelece que toda a situação jurídica que originar a produção de renda deve ser tributada no país em que ocorrer, sendo através de pessoa nacional ou estrangeira, ou seja, uma vez que o jogador não mais resida no Brasil, sua renda, como provenientes do país no qual está residindo, nele será tributada.

Já o Princípio da Universalidade, também conhecido como “World-Wide Income Taxation” previne contra o não pagamento do imposto de renda dos ganhos auferidos no exterior por pessoas que residem no país, ou seja, tanto os ganhos obtidos dentro do território como aqueles auferidos no exterior encontram-se dentro do campo de incidência do imposto de renda, guardadas algumas especificidades como os acordos para evitar a dupla tributação.

A simples saída do jogador do país não estabelece que ele automaticamente adquira a condição de não-residente e conseqüentemente não necessite mais pagar imposto ao governo brasileiro sobre os rendimentos auferidos tanto no Brasil como no exterior.

Para que o jogador adquira a condição de não-residente, para fins de pagamento do imposto de renda, dentre outros requisitos, deve-se retirar em caráter permanente do território nacional, e, na data de sua saída física, entregar a Declaração de Saída Definitiva do País abrangendo o período de 1º de janeiro até a data de saída do país. Nessa ocasião, deve requerer a Certidão Conjunta Negativa de Débitos Relativos a Tributos Federais e a Dívida Ativa da União junto à Secretaria da Receita Federal.

Dessa forma, uma vez apresentada essa declaração, fica estabelecido que o atleta realmente não reside fiscalmente mais no Brasil, e que, conseqüentemente os rendimentos por ele auferidos no exterior somente poderão ser tributados no país em que fixar residência, caso tal país tribute a renda e proventos de qualquer natureza.

No entanto, qualquer rendimento que o jogador vier a receber no Brasil continuará sendo aqui tributado, porém com alíquotas diferenciadas (em geral 25% – sem utilização da tabela progressiva – e em casos como aluguel, a alíquota de 15%) como por exemplo nas hipóteses de recebimento de salário, bichos, direito de arena, publicidade em camisas, bônus, resgate de previdências e aplicações financeiras no Brasil, aqui será tributado.

Portanto, quando o individuo se torna não-residente fiscal, os rendimentos que aufere no exterior não mais serão tributados no Brasil. Somente o que recebe aqui é passível de tributação conforme a legislação nacional.

A maior dificuldade encontrada pelos atletas se dá em casos de transferência para clubes no exterior, uma vez que, nos casos em que não são instruídos a entregarem a declaração definitiva de saída ao deixarem o país, permanecerão com suas obrigações fiscais no Brasil.

O jogador de futebol que se retire em caráter permanente do Brasil sem a entrega da Declaração de Saída Definitiva do País ou em caráter temporário é ainda considerado como residente fiscal no Brasil durante os primeiros 12 meses consecutivos de ausência, sendo considerado não-residente fiscal somente a partir do 13º mês consecutivo de ausência.

Dessa forma, podemos concluir que, por um período de 12 meses, ficará o atleta sujeito tanto ao pagamento do imposto sobre a renda no Brasil como também no país em que irá jogar, se for aplicável, pagando uma quantia desnecessária para o governo brasileiro, apenas por ser mal instruído em relação aos aspectos fiscais de sua carreira.

Exemplificando, imaginemos que um jogador fora contratado para jogar em clube de futebol da Rússia por um período de três anos. Uma vez não apresentada a declaração de saída definitiva do país, o jogador será considerado residente para fins do pagamento do imposto, devendo pagar, nos próximos 12 meses, tanto o imposto de renda devido no Brasil (27,5% conforme limites da tabela progressiva) como o devido na Rússia (13%). A não apresentação da declaração do imposto de renda para comprovar a regularidade fiscal em nosso país deixa o contribuinte sujeito ao pagamento de multa por atraso de 1% ao mês sobre o imposto devido, observando o valor máximo de 20% sobre esse imposto.

Devemos abrir aqui uma exceção em relação a essa cumulatividade de pagamentos, qual seja, nos casos em que o Brasil possua acordos para evitar essa dupla tributação ou que tenha reciprocidade de tratamento nesses aspectos (os dois têm o mesmo efeito legal) com outro país, isso é, hipóteses em que o imposto já foi pago no exterior e poderá ser compensado com o imposto devido no Brasil o montante lá fora pago, limitado ao imposto devido em nosso país.

Com base na hipótese acima, se um jogador for transferido para um clube do futebol francês (país que possui o acordo com o Brasil para evitar a dupla tributação através do Decreto Legislativo 87/71), e conforme a tabela progressiva do imposto de renda desse país, se um jogador receber rendimentos anuais acima de 65.000 euros (o que corresponde à média de um jogador no exterior) o imposto devido corresponde, de uma forma geral, a uma alíquota de 40% sobre esses ganhos. Como no Brasil a alíquota máxima é de 27,5 % e, com base no acordo ente esses dois países, o jogador não será devedor do imposto de renda no Brasil, pois já desembolsou 40% dos seus rendimentos para o governo francês, ou seja, o imposto devido no Brasil poderá ser compensado com o imposto federal pago na França (não remanescendo saldo de imposto de renda a pagar).

Já nos casos em que a alíquota do imposto de renda do país com o qual o Brasil possua o referido acordo para evitar a bitributação seja menor, como na Eslováquia, cuja alíquota é de 19%, deve o atleta que se enquadrar na situação de residente fiscal pelos próximos 12 meses da data em que deixar o país pagar, no Brasil, a título de imposto de renda pelos seus rendimentos, o diferencial entre esses dois países, ou seja, 8,5%.

O Brasil possui acordo para evitar dupla tributação com os seguintes países: África do Sul, Argentina, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, China, Coréia, Dinamarca, Equador, Espanha, Filipinas, Finlândia, França, Holanda, Hungria, Índia, Israel, Itália, Japão, Luxemburgo, México, Noruega, Portugal, República Tcheca e Eslováquia, Suécia e Ucrânia.

Não podemos esquecer os países que a legislação brasileira considera como países de tributação favorecida, quais sejam aqueles que não tributam a renda ou que a tributam à alíquota inferior a 20% (art.24, §1° da Lei 9430/96).

Esses países estão relacionados n
a Instrução Normativa da Receita Federal de n° 188/02 e entre eles estão os Emirados Árabes Unidos, destino de vários atletas nos últimos anos, onde não há tributação sobre a renda, sendo de grande vantagem para o jogador a observância das normas pertinentes a não-residência fiscal no Brasil a fim de se evitar maiores prejuízos.

Por fim, devemos lembrar que a sonegação de imposto aqui no Brasil, além de estar sujeita a multa, também poderá ser considerada como violação penal. Dessa forma, necessário que o jogador esteja bem assessorado juridicamente para fins de tributação de seus rendimentos, a fim de evitar que corra risco de praticar irregularidades no Brasil, que trarão conseqüências indesejáveis.

* Consultor na área tributária e integrante do Gedaf

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O êxodo e a Copa

Sexta-feira se fecha a janela de transferências de jogadores de futebol para clubes europeus. Isso não significa necessariamente o fim do êxodo de jogadores dos times brasileiros, uma vez que a Uefa corresponde a pouco mais da metade do destino dos atletas. A CBF ainda não divulgou números oficiais, mas o meu chute permanece acima dos 900. 907, para ser mais preciso.
 
Lula não gostou muito do número. Para ele, e para muitos, o êxodo de jogadores é um problema e precisa ser combatido, melhorando a estrutura do futebol nacional. Discordo. O êxodo não é um problema por si, ele é pura e simplesmente uma conseqüência. Ele só acontece por conta de uma série de problemas de fato, pertencentes um tanto a problemas ambientais e outro tanto a problemas de dentro da esfera do futebol.
 
Ao se combater o êxodo por si, você estará combatendo na verdade a livre vontade de um profissional evoluir na vida, e isso jamais pode ser negado a um indivíduo. Eu, você e o cara aí do seu lado almejamos por melhores condições de vida, e é assim que tocamos a nossa vida profissional.
 
É fato, porém, que o próprio êxodo em si é superestimado. O fato de oitocentos e poucos jogadores terem saído do país no ano passado não representa a raiz da preocupação em si. Muitos desses jogadores sairiam de um jeito ou de outro, uma vez que o futebol brasileiro não comporta tanta produção de atletas. Por isso, entre outras tantas razões, que jogadores saem jovens. Não tem time suficiente no país pra todo mundo. Com tanta produção, serão cada vez mais comuns casos de jogadores nascidos no Brasil jogando em seleções de outros países, como Deco, Pepe e Eduardo da Silva. O problema não está nos oitocentos e poucos jogadores por ano, mas sim nos cinqüenta ou sessenta que saem da primeira e da segunda divisão, o que eventualmente diminui a já pouca identificação da torcida com o time e a também já bem baixa qualidade do jogo apresentado.
 
Mas se Lula se preocupa tanto assim com o alto número de jogadores brasileiros se transferindo para mercados internacionais, os oitocentos e pouco, ele pode colaborar em reduzir esse número. Basta diminuir a produção de jogadores. Para isso, é só melhorar as condições educacionais do país e as possibilidades de evolução social dos indivíduos, principalmente dos jovens de baixa renda. Dessa forma, os mesmos jovens que hoje focam seus talentos no jogo de futebol podem eventualmente focar os seus talentos em fazer do Brasil um lugar melhor pra se viver. Essa nova filosofia, porém, reduziria drasticamente o número de bons jogadores de futebol do país.
 
Obviamente que isso implicaria em criar um embate pro Estado, uma vez que ele teria que escolher entre o melhor para a sociedade brasileira como um todo ou o melhor para a seleção brasileira de futebol.
 
Pelo conjunto histórico da obra e pelo jeito que está sendo conduzida a candidatura da Copa de 2014, não é muito difícil prever qual o lado que o Estado iria escolher.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Laranjas desportivos: uma contribuição de “pioria” da Lei Pelé

Intolerantes e retóricos críticos da CBF, sempre pródigos em argumentos desarrazoados e juízos estigmatizantes, têm acusado a entidade dirigente do futebol brasileiro de “privilegiar o modelo exportador de pé-de-obra que há mais de uma década caracteriza o futebol brasileiro”, atribuindo-lhe a responsabilidade maior pela crise do desporto-identidade do Brasil. Contudo, à evidência, os malefícios foram trazidos e implantados pela Lei Pelé (Lei nº 9.615/98), urdida e aprovada com lastro em razões ocultas e inconfessados interesses, cada vez mais visíveis e escancarados. Por exemplo, todos os atletas da seleção brasileira na Copa América 2007, sem exceção, estão “prisioneiros” de empresários neste processo que alguém já denominou de “canibalismo desportivo”.

Antes da Lei Pelé o “passe” dos atletas profissionais pertencia aos clubes. Depois da deletéria lex sportiva, a “posse” dos atletas, de fato, passou para agentes e empresários, ou, como averba Ives Gandra Martins “a nova lei simplesmente tirou os jogadores dos clubes e os repassou para os empresários”. E os clubes que sempre foram celeiros de craques transfiguraram-se, na maioria dos casos, em “laranjas” dos empresários. Com efeito, com poucas exceções, estes agentes atuam como “atravessadores desportivos”, quer dizer, autênticos “senhores feudais” dos atletas, “apropriando-se” deles como se fossem “res” e induzindo-os a “mercenarização” desportiva motivada por contratos em dólares ou euros.

Referindo-se ao empresário desportivo o acatado jurista português João Leal Amado assinala que se trata “de uma profissão de reputação algo duvidosa: práticas especulativas, falta de transparência e de escrúpulos, parasitismo, comportamentos atentatórios a ética desportiva, dinheiro fácil…”. Demais disso, constantemente, os agentes desportivos estão a motivar a quebra contratual pelos atletas na medida em que não “levam vantagem” econômica, caso os contratos de trabalho profissional desportivos sejam integralmente cumpridos. A propósito, ressalta Albino Mendes Baptista que “o empresário é muitas vezes o mais forte adversário do pacta sunt servanda, princípio que gostam muito pouco, porque nada lhes adianta, enquanto que rupturas ante tempus, com a conseqüente outorga de novos contratos com clubes terceiros, gerarão circulação de dinheiro e, portanto, lucro para a sua actividade”.

Com supedâneo em sua experiência vivenciada na Fifa, o advogado e ex-Diretor do Departamento de Transferências de Jogadores do ente internacional G. Monteneri já advertiu que “the direction of capital flows in professional football has considerable changed. Instead of circulating between clubs, more and more money ended up in agents pockets”. Reponte-se, nesse passo, que a riqueza gerada no futebol não pode escoar-se para um “ralo” fora dele, pois antes, deve servir para nele reinvestir, hipótese rara e até inconcebível pela maioria dos agentes de futebol. E mais, se um clube paga e tem direitos sobre o atleta, deve ser ele a usufruir deles, e não os outros.

Desse modo, para que o futebol brasileiro não continue a sofrer dilapidação em decorrência da atuação corrosiva dos agentes de jogadores, urge aprovar-se uma normatização rigorosa, inclusive, pela falta reiterada de transparência detectada em tais atividades que acabam, muitas vezes, servindo de “biombo” para encobrir fraudes fiscais e lavagem de dinheiro.

Observe-se, por relevante, que antes da Lei Pelé e na vigência da Lei nº 6.354/76, quando da venda do passe, o atleta tinha “direito a parcela de, no mínimo, 15% (quinze por cento) do montante do passe, devidos e pagos pelo empregador cedente” (art. 13, § 2º). Atualmente, os “direitos federativos” (um neologismo criado após o fim do passe para determinar quem teria a propriedade do atleta, como lembra o jurista desportivo Luis Felipe Santoro) decorrem do registro do contrato de trabalho desportivo atleta/clube na entidade desportiva diretiva da modalidade respectiva gerando um vínculo desportivo. E, na praxis, tais direitos federativos passaram a ser negociados e materializados sob a nomenclatura de “direitos econômicos”, ou, mais precisamente, pela via do contrato de “cesión de beneficios económicos futuros derivados de la venta o préstamo de los derechos federativos de los futbolistas” para usar definição consagrada no Derecho Deportivo alienígena.

Aprofundando a diferença entre “direitos federativos” e “direitos econômicos” note-se que os direitos federativos são privativos dos clubes e só podem ser ostentados por eles perante a respectiva Confederação, proibido a terceiros serem titulares desses direitos. Já os direitos econômicos que derivam dos direitos federativos, de fato, podem ser exercidos tanto pelos clubes, como podem ser adquiridos por empresários ou por empresas que realizam uma operação de risco buscando o lucro futuro quando da transferência dos direitos federativos do atleta para outro clube. Vale dizer, “los derechos económicos, representan el porcentaje que adquiere un tercero (Club, Sociedad o persona física) sobre la utilidad de una futura venta de los derechos federativos”. Esclareça-se que, tais direitos econômicos que correspondem ao conteúdo patrimonial dos direitos federativos, não raro submetem-se a um “fatiamento” ou rateio entre clube (detentor dos direitos federativos) e empresários (detentores dos direitos econômicos), e, por ocasião da cessão onerosa do atleta o empresário (e não mais o jogador) é quem embolsa de 10% a 20% do valor auferido pelo clube de origem. Em suma, os 15% que antes beneficiavam os atletas, hoje, como conseqüência da Lei Pelé, constituem ganho dos empresários.

Diante desse quadro pintado com tintas fortes e negras é importante e urgente fixar limites e estabelecer restrições jurídicas aos contratos e atuação dos agentes de jogadores, tais como:

– impedir ou considerar nulas e de nenhum efeito jurídico a materialização das chamadas cláusulas abusivas ou desproporcionais;

– as licenças concedidas como agente Fifa devem ter duração limitada e sua renovação condicionada a uma avaliação criteriosa e aprovação em outro exame escrito;

– criar uma tabela de honorários dos agentes de jogadores com taxas fixas, acrescidas de valores por horas efetivamente trabalhadas e comprovadas;

– prestar de todas a informações a um órgão central do futebol (nacional e/ou internacional) indicando em cada nova transferência os valores envolvidos, a identificação das pessoas físicas e clubes pagantes e beneficiários, com os correspondentes valores que coube a cada um, para que a transparência passe da retórica para a praxis.

Somente assim poderá pensar-se em extinguir o tráfico milionário de escravos futebolistas negros e brancos, com decorrência, não raro, do conluio entre agentes, “empresários”, treinadores, dirigentes, pais e tutores que se integram numa “trama macabra destinada en muchos casos a potenciar el lucro posible con las ventas o transferencias de jóvens (cada vez más jovens) promesas del fútbol actual”.

Nesse contexto, é importante concretizar as sugestões que inserimos no PL nº 5.186/05, em tramitação na Câmara Federal, corrigindo os equívocos e danos trazidos pela Lei Pelé. E, no tocante aos empresários, este Projeto de Lei que arquitetamos prevê a nulificação de cláusulas de contratos e instrumentos procuratórios firmados entre agentes e atletas que resultem em vínculo desportivo, que estabeleçam obrigações consideradas abusivas ou desproporcionais, que se atrelem às receitas dos clubes decorrentes das transferências de atletas, que infrinjam princípios da boa-fé desportiva e do fim social do contrato, etc. Ou seja, na lege ferenda proposta procura-se blindar as relações atleta/clube da voragem do mercado, do oportunismo letal e da ação “predatória” de boa parte dos agentes desportivos que nada investem e só objetivam o lucro.

É urgente, então, “virar o jogo” tolhendo a ação nefasta de uma parcela de empresários desportivos geradora do êxodo massivo dos craques para o exterior, muitos deles ainda imberbes e arriscados a ficar “deformados” antes de ser integralmente formados pelos seus clubes de origem. São estes agentes, ainda, os maiores responsáveis por nivelar, por baixo, as competições nacionais hoje disputadas por clubes com jogadores na maioria desconhecidos, ou, quando conhecidos, em fim de carreira. É esse o caminho pavimentado por alguns ditames da Lei Pelé que está ajudando a conduzir o futebol brasileiro rumo às trevas da falência técnica e ao abismo do caos financeiro, impondo-se sua imediata “implosão”, sob pena de não haver salvação.

Adite-se, por derradeiro, que o ilusório e nocivo modelo gerado pela Lei Pelé é hoje sustentáculo de empresários ricos, atletas ciganos e clubes falidos, constituindo-se no maior estelionato jus-desportivo do país, na medida em que prometeu sonhos e entregou apenas pesadelos.

* Álvaro Melo Filho é advogado e professor de Direito. Autor de 40 livros e 160 artigos jurídicos. É membro do Gedaf

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Futebol: ciência e arte

Um tema sempre presente nas conversas dos bons apreciadores do futebol e também de seus profissionais é o do papel das ciências para a evolução desta modalidade esportiva.
 
A eterna discussão, por exemplo, em torno da prevalência do futebol-força em relação ao futebol-arte parece representar certo preconceito em relação à ciência, já que se subentende que estas duas dimensões são coisas opostas ou antagônicas. Ou se tem arte, representada pela técnica apurada, pelo estilo e plástica do jogo, ou se tem a força, representada pelo bom preparo físico, velocidade e disciplina tática.
 
Cria-se uma separação artificial muitas vezes prejudicial à melhor compreensão e desenvolvimento deste esporte.
 
Para aprofundarmos este assunto, talvez fosse interessante antes de qualquer coisa entender um pouco o que é ciência e o que é arte. O exato significado do que seja uma e outra tem sido um desafio para pensadores, cientistas e demais profissionais que se preocupam com o tema e o que se observa é que não há muito consenso entre eles.
 
Particularmente gosto da definição de ciência como a síntese provisória e possível do saber acumulado pela humanidade em um determinado período histórico. Como arte podemos entender a habilidade do ser humano de produzir algo belo ou estético. Ela se manifesta de diferentes formas através da música, dança, cinema, teatro, pintura, esporte etc.
 
Entendidas assim, ciência e arte, ao invés de ocuparem lugares opostos ou antagônicos, deveriam ser consideradas como dimensões complementares a serviço da nossa evolução e desenvolvimento.
 
Em especial no futebol, a exemplo de tantas outras manifestações humanas, seria maravilhoso se utilizássemos o conhecimento e inovações científicas para aprimorarmos a arte de jogar com habilidade, estilo e beleza, tornando esta paixão nacional e mundial cada vez mais atraente.
 
Pena que ainda nos atrapalhemos ao lidar com estas duas dimensões.

Para interagir com o autor: medina@universidadedofutebol.com.br

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Abre alas

Nem todo lateral é um ala. Nem todo ala foi ou poderá ser um lateral. Mas para mais de meio mundo do futebol do Brasil, ala é sinônimo de lateral. Pior: “invencionismo” dos professores pardais das pranchetas, ou dos pupilos-jornalistas metidos a entendidos da matéria (presente, mestre!).

Você que chegou a este parágrafo sabe que não é isso. Que Cicinho foi um senhor ala no São Paulo multicampeão de 2005, mas não necessariamente um bom lateral no Real Madrid e na seleção de Parreira. Que o romanista Mancini era um mal marcador no início de carreira como lateral, foi um ótimo ala-direito com Geninho, no Atlético-MG, até se transformar num meia “esterno” (e pela esquerda!) na Roma de Spaletti. Mancini pode voltar à seleção pelo que joga como meia-atacante. Jamais pelo que jogou como lateral. Ou mesmo como ala, no Brasil.

Mas que diabos é um ala? A grosso modo, os mais finos são meio-campistas que foram para os lados do campo e tanto sabem armar e atacar quanto tentam cercar e marcar. Um ala – moderno – não é jogador de defesa, e, sim, de meio-campo. Pode também ser um lateral que mais marca do que apóia. Ou até um ponta recuado, sempre disposto a dar um pé lá na frente.

No Brasil, por definição e determinismo futebolístico, o ala ataca. E o resto que se vire. Felipão, mesmo, adotou o 3-4-2-1 pentacampeão mundial, em 2002, por entender que os laterais Cafu e Roberto Carlos tinham mais era de apoiar o tempo todo, à mesma hora. Com três zagueiros na proteção, Cafu e RC podiam atacar. Como atacaram. Como o Brasil ganhou os sete jogos, na Ásia.

Em 2006, na Alemanha, isso já não era problema. Pela idade, e pela experiência na Itália e Espanha, Cafu e Roberto Carlos já eram muito mais laterais do que alas, atuando por tanto tempo em linhas de quatro, com mais obrigações defensivas; sabiam marcar melhor, e apoiar bem menos. Meias arriadas à parte, eram jogadores mais completos na Copa passada. Como explicou Cicinho, a respeito de Fabio Capello (que o ajudou, e a RC e a Cafu a se adaptarem ao ofício):

“Em vez de apoiar o ataque 10, 12 vezes, é melhor chegar duas ou três, mas na hora certa”.

Parece um certo exagero dar tanta bola a um ala? Então, reclame dos demais jogadores. Vamos aos números, sempre contestáveis e discutíveis. Mas, no caso, os dados do Footstats reconhecem algo plenamente visível: gostemos ou não de nossos alas / laterais, o fato é que não estamos sabendo viver sem eles. Ao final do turno, dos dez jogadores que mais tiveram a bola no BR-07, os que mais foram acionados, os que mais apareceram na defesa, no meio e no ataque, desses 10, oito são laterais ou alas.

AtletaClubePosiçãoMinutos por jogo (média)
Leonardo MouraFlamengoAla/lateral2min38s
JuanFlamengoAla/lateral2min19s
WilliamCorinthiansMeia-atacante1min58s
CoelhoAtlético-MGLateral1min55s
Jorge WágnerSão PauloAla/lateral/meia1min54s
JonathanCruzeiroLateral1min53s
Thiago FeltriAtlético-MGLateral1min52s
FernandinhoCruzeiroLateral1min51s
Renato AugustoFlamengomeia-atacante1min50s
JoílsonBotafogoala/meia1min46s

Dos dez listados, exceto os que atuam em Minas, quase todos foram muito mais alas que laterais – sem contar o caso especial de Joílson, mais meia que ala no móvel esquema de Cuca. Entre eles, um meia que virou lateral campeão da América no Inter, e tem sido um bom ala no São Paulo – Jorge Wágner.

Não é mera coincidência. O ala / lateral recebe bola de zagueiros e volantes, é opção de jogo pela ponta, quando não corta para dentro, entra pelo meio, faz a jogada em diagonal. O ala se apresenta tanto ao time que acaba atropelando o ponta, faz as vezes do armador, e ainda precisa que um zagueiro faça a cobertura dele.

Enfim, pode fazer três funções, e ainda obriga um jogador a fazer a dele.

Não é muita coisa para um só jogador?

Claro que é. Sobretudo quando um lateral não sabe apoiar e mandam que ele apóie. Ou quando ele só ataca e mandam que ele marque.

A culpa não é dele. É de quem passa a bola. Ou dá tanta bola a um só jogador que precisa jogar por três. Quando, alguns, não jogam nem por um.

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Ácido lático, lactato e os trotes pós-jogo: a saga continua… Continua?!

É com enorme prazer que, através deste texto, sejamos porta-vozes, dentre alguns do meio acadêmico-científico, a falar sobre a trama que se desenvolve unindo essas duas inofensivas palavras: ácido lático e lactato.

Inofensivas? Talvez seja certa petulância denominá-las assim, tendo em vista o poder de confusão e furor causado por essas palavras na prática esportiva há anos. Vamos aos fatos.

Na década de 30 já se pesquisava o poder energético do músculo-esquelético dos seres humanos. Desde então, já era sabido que existia, nesse mesmo tecido, uma tal via glicolítica, que acabou se tornando muito famosa não só pelo fato de se constituir em uma usina de força para exercícios intensos, mas também porque dessa famigerada via “nascia” um produto praticamente letal para nosso organismo: o ácido lático!

Espere um minuto! Pare e reflita! Será que nosso organismo (especialmente o músculo-esquelético) seria capaz de, ao buscar cumprir com um desafio metabólico, procurando funcionar cada milésimo de segundo mais e mais, produziria, ele mesmo, um “sujeito” que causaria fadiga, cansaço, dor, incômodo, incapacidade, gerando uma inibição do seu próprio funcionamento? Não soaria um tanto ilógico, caro leitor?

Obviamente não estamos aqui para discutir sobre os desígnios de Deus sobre uma de suas mais belas criações: o ser humano. Mas, segundo uma visão evolucionista, se algo foi criado por Ele para funcionar, deve haver uma (ou mais) forma(s) de funcionar. Logo, se o músculo-esquelético precisa muito estar “focado” na produção de movimento, graças ao magnífico estoque de glicogênio, por que produzir algo que lhe atrapalhe?

Caminhando para um olhar bioquímico, podemos nos consolar de certa forma. Por que? Bem, segundo a própria química, seria fisiologicamente improvável a existência de ácido lático em nosso organismo. Novamente, por que? Bem, imagine a seguinte situação: colocar um torcedor palmeirense “no meio” da torcida do Corinthians. A pergunta: existiriam condições favoráveis à sobrevivência desse pobre torcedor? Enfim, ao que parece, não existem condições fisiológicas favoráveis em nossas células, inclusive no músculo-esquelético, para a existência (e sobrevivência) do ácido lático. Logo, quem existiria? Bem, seu “algoz”, o lactato.

Um pouco mais além, utilizando-se dos achados de um brilhante autor chamado Robert Robergs, firma-se mais um capítulo no intento de desvendar os mistérios dessa novela. Segundo esse autor, quando o lactato (e não o ácido lático) é formado no músculo-esquelético, não há nenhum prejuízo para estas células. Ou seja, ao produzir lactato, não há, por causa deste, fadiga, cansaço, dor, incômodo e incapacidade. Pelo contrário, o lactato, por mais de uma razão, seria considerado como uma “salvação” para a célula, pois evitaria que um certo caos se instalasse nela. E mais, esse simples composto formado por três carbonos, inofensivo por natureza, ainda pode servir como energia para demais células do organismo, como o fígado e o coração.

Bem, confesso que esta é uma discussão ainda muito acirrada na literatura. Porém, muitas evidências surgiram e têm surgido inocentando o lactato, eximindo-o de grande parte da culpa que, outrora, fora atribuída ao ácido lático.

Nesse sentido, se nosso organismo não produz o tal ácido (que, na maioria das vezes, nos traz a imagem de algo ruim, destruidor, corrosivo) e, se o “mocinho” lactato é tão útil e versátil, fica uma indagação: será que a direção do treinamento físico que estamos seguindo é aquela que gostaríamos e pretenderíamos seguir quando considerando os “atores” dessa histórica, por vezes emocionante, novela?

Senhores e senhoras, por essas e por outras histórias relacionadas às condutas práticas quanto ao ácido lático e lactato, o alarme fisiológico deve ser dado, em alto e bom tom, pois o incômodo leva a tomada de providências. Gritar, berrar, saltar, discutir, espernear, resmungar, indagar, discursar, profetizar, dialogar. Sejamos parte integrante e ativa dessa novela!

Como exemplo e contextualizando, vamos analisar mais um capítulo dessa história logo a seguir. Peço a vossa preciosa atenção.

Espantoso como em um mundo globalizado (termo que até já parece meio “batido”), de acesso rápido a informação, ainda ocorrem no futebol profissional situações ultrapassadas, arcaicas que por imitação (um que vê o outro, faz igual e leva um outro a fazer também) se tornam mito; e o mito se torna MITO que se torna verdade; sem ser nem de longe, muito longe a tal “verdade”.

Uma prática comum de longa data no futebol é uma corrida leve (um trote) de 10 a 30 minutos logo após atividades competitivas. Em outras palavras, acaba a partida e o “preparador físico” logo vai organizando uma corridinha leve para “auxiliar”, “acelerar” a recuperação do atleta.

Justificativas? As mais variadas possíveis; mas todas elas norteadas pelo “ácido lático” (ácido lático?). Segundo os argumentos, o trote aceleraria a remoção de “ácido lático” do músculo e do sangue (já que seu acúmulo seria prejudicial e ele poderia deixar resíduos até o dia seguinte).

Trotar depois do jogo virou moda. Para os atletas a sensação de estarem se esforçando mais para defender a camisa de sua equipe. Para a torcida, a prova de que os atletas estão envolvidos com a preparação do time. Para o preparador físico, “o pulo do gato”; trabalho bem cumprido. E por virar moda (inevitável) a estratégia fora copiada por equipes de base (pobres atletas “adultos em miniatura”).

No final da década de 90, a tal prática foi “desmascarada” por cientistas, através de pesquisas que mostraram que o tal trote era um desperdício de tempo; um desgaste a mais, injustificável para atletas já cansados de 90 minutos de jogo intenso. O “ácido lático” que já sabemos nem é ácido lático, não levava, como argumentado, um dia para “desaparecer” do músculo ou do sangue; em repouso isso era questão de minutos (no máximo, na pior das hipóteses, em atletas mal condicionados, 120´). E o pior? Ele nem era o vilão da história…

Bom, passaram-se os anos e a moda que virou mito e então verdade, mesmo desmascarada, ainda é praticada pelos mais desatentos e desinformados treinadores e preparadores físicos. O problema é que hoje o desaforo atinge com mais força as categorias de base e vez ou outra ainda aparece na categoria principal.

E como se não bastasse a repetição do equívoco no futebol masculino, ele acabou aparecendo no futebol feminino e vem contaminando cada vez mais equipes (como se não bastasse a carência de investimentos e estrutura, ainda faltam pessoas capacitadas que “pensam” – pobre futebol feminino).

Senhores, estão aí a Fisiologia do Exercício, a Bioquímica do Exercício, a Nutrição do Exercício, as Teorias do Treinamento Desportivo e diversas outras áreas que compõem a “Multi-Transdisciplinaridade” das Ciências do Desporto, cheias de informação e conhecimento, “sedentas” para participarem da prática.

Então, o que precisamos fazer? Corramos em alta velocidade atrás do conhecimento, porque com esse “trotezinho” pós-jogo, ele (o conhecimento científico) está ficando lá na frente, muito longe.

Ao final, o devaneio

O sujeito acaba de fazer amor com a esposa, olha para o lado com um ar de “mandei bem” e pensa: “vai ficar uma semana sem querer sexo” (e ao mesmo tempo o eco da experiência soa em sua mente: “ufa, tomara mesmo, ando meio cansado, é bom ter uma folga”).

É, mas como às vezes nem toda experiência basta, a esposa se vira para o lado, olha bem no olho do marido e diz:

“Amor, foi muito bom… amanhã, amanhã eu quero mais… muito mais!!!”.

Já com todo cansaço acumulado do trabalho sentido no corpo (agravado pelos 90 minutos
de sexo) – e sem o vigor de antigamente – sem pestanejar, o sujeito se levanta, calça o par de tênis e – adivinhem-  sai para um “trotezinho” (“se dá certo pros atletas, vai dar certo pra mim também…”).

Se a moda pega…

* Professor Fernando Catanho (Labex-Unicamp) e professor Rodrigo Leitão (FEF-Unicamp)

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A dança dos deuses

A Dança dos Deuses: Futebol, Sociedade, Cultura
Autor:
Hilário Franco Júnior
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2007
Nº de págs: 448

Por acreditar que o futebol não é estudado o suficiente no Brasil, apesar de ser o esporte mais popular do país, o historiador especializado em Idade Média, Hilário Franco Júnior, decidiu escrever o livro intitulado “A Dança dos Deuses – Futebol, Sociedade, Cultura”, publicado pela Companhia das Letras.

A obra está dividida em duas partes: uma histórica e outra analítica. Do ponto de vista histórico, o autor mostra como o futebol não pode ser dissociado da história geral das civilizações, apresentando o início do futebol na Inglaterra e sua chegada ao Brasil, no final do século XIX.

Mostra sua propagação e rejeição, a partir da Inglaterra, onde foi recebido com naturalidade nos países que sofriam forte influência cultural inglesa, mas nunca devidamente incorporado em outras nações que constituíram o império, como Austrália e Canadá.

Segundo o autor, que é aposentado da USP e trabalha na École des Hautes Études, em Paris, a própria evolução das regras e das táticas do esporte responderam, é fato, a necessidades específicas do jogo, mas também só podem ser entendidas em contextos de adaptação do futebol às mudanças no mundo. Franco Júnior acredita que praticamente tudo o que existe hoje teve início no período medieval e que para se compreender o presente é necessário se estudar o passado. Como o futebol é um dos maiores fenômenos da sociedade contemporânea, ao estudá-lo, poderemos compreender melhores o mundo atual.

Na segunda parte do livro, o autor procura investigar o esporte como metáfora sociológica, antropológica, religiosa, psicológica e lingüística. Somos levados a pensar, por exemplo, sobre os diferentes usos políticos do futebol, seja por regimes autoritários ou democráticos, tanto uns quanto outros sempre abraçados ao nacionalismo. O autor nos convida a refletir sobre os sentidos ocultos em toda a ritualização do mundo esportivo, nos nomes dos times, nas cores das camisas, nos escudos, e ainda recorre a Freud para examinar a fascinação que o esporte exerce. Hilário Franco Júnior leva ao limite a idéia de que o futebol é uma imitação da vida.