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Desenvolvendo um microciclo de treinamento

Frequentemente sou questionado pelos leitores sobre qual a melhor maneira de construir/planejar os treinos. Com o objetivo de desenvolverem grandes equipes e obterem êxito no futebol, professores e treinadores em diferentes áreas de atuação questionam-me sobre as sessões de treinamento, os tipos de exercícios, as características e objetivos das atividades, além de perguntas sobre a quantidade e finalidade de algumas regras.

Quem acompanha minhas publicações, sabe que sou adepto a uma periodização de jogos embasada na metodologia sistêmica. Neste modelo de periodização, com exceção dos exercícios funcionais e proprioceptivos (aplicados em sessões independentes do trabalho de campo), todo exercício criado é jogo. Para desenvolvê-los, alguns elementos são indispensáveis e serão apresentados na sequência desta coluna.

1- Nível de jogo atual
É ele quem norteia a semana de atividades. Geralmente estabelecido a partir do último jogo oficial, em que os comportamentos individuais e coletivos podem ser analisados qualitativa e quantitativamente, evidenciando pontos fracos e pontos fortes do sistema/equipe nos diferentes momentos do jogo.

2- Nível de jogo pretendido
Determinado pelas (utópicas) ideias de jogo do treinador. A partir do “jogo jogado na cabeça do treinador” e daquele apresentado anteriormente, é possível planejar quais são as necessidades da equipe e como elas serão trabalhadas através das sessões de treinamento.

3- Próximo adversário
Conhecer o Modelo de Jogo do adversário para inserir, ao longo do microciclo, situações-problema semelhantes as que serão encontradas no jogo.

4- Conteúdos do Currículo
Compreensão dos conteúdos práticos do Currículo desenvolvido no Paulínia FC em 2009 (Lógica do Jogo, Competências Essenciais do Jogo, Referências do Jogo, Conteúdo Estratégico-Tático, Funções no Jogo e Relação com companheiros). Os jogos são elaborados a partir de cada um dos conteúdos, temas e sub-temas.

5- Objetivo de cada jogo
Apesar de cada atividade manter a totalidade do jogo, logo, manter os seus quatro momentos, é fundamental saber o que se quer com o treino para direcionar as intervenções e as resoluções dos problemas ao que precisa ser aperfeiçoado. Espera-se o domínio da intervenção pretendida com a atividade, seja ela individual, grupal, setorial, intersetorial ou coletiva. Não há problema algum ter vários objetivos numa mesma atividade. Irá depender, obviamente, do nível de compreensão/aplicação em que a equipe se encontra em cada conteúdo do jogo.

6- Criação dos Jogos
A criação do jogo implica a definição das regras, que modificarão a Lógica do Jogo se comparada ao futebol; do número de participantes, que deixará a atividade mais ou menos complexa; além do espaço; do tempo e do metabolismo predominante, que poderá ser alático, glicolítico ou aeróbio.

A partir destes elementos, está preparada a sessão de treino. Seu resultado será o produto da aplicação do jogo, das suas intervenções ao longo da atividade e do feedback pós-treino. O começo, o meio e o fim da sessão devem fazer sentido e os jogadores terem a total compreensão dos porquês de cada atividade. Caso contrário, tudo não terá passado do jogo pelo jogo, ou seja, um ambiente pobre de aprendizagem num cenário em que treinar jogando deixará de maximizar os benefícios e potencializará os riscos. Falemos sobre isso numa outra oportunidade.

Para concluir, os itens supracitados compreendem o pré-requisito para a discussão de colunas futuras que abordarão uma proposta de microciclo de periodização com jogos para ser aplicada em equipes sub-20 e profissionais.

Aguardo a opinião dos leitores sobre estes elementos, elencados a partir de inúmeras leituras direta ou indiretamente relacionadas ao futebol, e também aceito sugestões para o aperfeiçoamento diário que deve ser nossa atuação profissional.

Bons treinos a todos!

 

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

 

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Marcos Duarte, físico e autor do livro “Física do Futebol”

Quando se fala em futebol, é impossível dissociar a prátics da modalidade da componente física. O jogo do esporte coletivo mais popular do mundo é movimento, mas não uma série de ações quaisquer, sem ordem ou leis.

O executor – no caso, o atleta – protagoniza a criação de um cenário com preceitos determinadas antes do apito inicial. Cada passo ou passe do jogador tem uma intenção, que é, em parte, moldada pelas leis do futebol. E pelas leis da natureza.

Da mesma forma como é impossível prever o quadro de um pintor a partir da aquarela dele, a tomada de decisão de um jogador é, em princípio, também impossível de prever, mesmo com o conhecimento de tudo o que rege as normas naturais.

Isso torna o futebol tão apaixonante? O que é ser criativo em campo. Marcos Duarte, em “Física do Futebol”,  procura não causar uma rasura nesse encanto, ou ensinar alguém a jogar melhor. Mas vai ajudar a compreender um pouco mais esse jogo fascinante.

“Para quem quer compreender as leis do movimento, estudar a Física do futebol é a maneira mais descontraída de fazê-lo. Este é o objetivo desta obra: mostrar para os boleiros e curiosos da Física, a Física que há no futebol”, revela o autor.

Doutor em Física pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutorado na Universidade da Pennsylvania (USA) e pesquisador e professor no programa de Engenharia Biomédica da Universidade Federal do ABC, Marcos Duarte revela que o livro não só ensina Física, mas também as próprias regras do futebol e tudo o que nele acontece relacionado à Mecânica.

Os conceitos de Mecânica são descritos de forma a cobrir todo o conteúdo normalmente abrangido no currículo de Física do primeiro ano do ensino médio, em um texto regido em parceria com Emico Okuno.

Nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol, no Museu do Futebol, onde até o mês de abril estará aberta a exposição “Será que foi, seu juiz?”, Marcos Duarte, consultor da mesma, fala ainda sobre efeitos de ilusão de ótica e experiências visuais, a magia do gol de bicicleta, e relembra lances excepcionais de cobrança de lateral e falta.

Física do Futebol

 

Entendimento da física para uma melhor compreensão do jogo

A Bicicleta

Gol de falta de Roberto Carlos – Brasil x França (1997)

O Pênalti

O lateral com cambalhota

Leia mais:
Rodrigo Gonçalves Dias, pesquisador do Instituto do Coração
João Pesquero, coordenador do “Atletas do Futuro”
Fernando Catanho, especialista em Bioquímica e Fisiologia
A Bioquímica do exercício em exercício

Arbitragem, a equipe esquecida

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Direito de Imagem e Direito de Arena são a mesma coisa?

A lei 9.615/98 (Lei Pelé) é a Lei Geral do Desporto que traz peculiaridades em relação aos direitos trabalhistas do atleta profissional.

Nessa relação peculiar, além do salário, o atleta profissional possui outras fontes de renda como o direito de arena e o direito de imagem.

Mas, o direito de arena e o direito de imagem não se confundem.

O direito de imagem é um direito personalíssimo e negociado diretamente entre o jogador (ou a empresa que o detém) com a entidade desportiva (clube de futebol), por meio de valores e regras livremente estipulados entre as partes, assegurado pelo art. 5º, XXVIII, "a", da Constituição Federal.

O direito de imagem ocorre em virtude da exposição pública do atleta profissional na condição de protagonista do espetáculo de futebol. A remuneração recebida pelo clube para expor publicamente as habilidades futebolísticas do atleta é de natureza acessória ao vínculo contratual.

O direito de imagem é previsto pelo art. 87-A, da Lei Pelé:
Art. 87-A. O direito ao uso da imagem do atleta pode ser por ele cedido ou explorado, mediante ajuste contratual de natureza civil e com fixação de direitos, deveres e condições inconfundíveis com o contrato especial de trabalho desportivo. (Incluído pela Lei nº 12.395, de 2011).

O direito de arena, por seu turno, está previsto no art. 42, § 1º, da Lei 9.615/98 (Lei Pelé) e é oriundo da participação do atleta nos valores obtidos pela entidade esportiva com a venda da transmissão ou retransmissão dos jogos em que ele atua como titular, ou reserva, ou seja, trata-se de uma cláusula contratual oriunda da própria lei.

Art. 42. Pertence às entidades de prática desportiva o direito de arena, consistente na prerrogativa exclusiva de negociar, autorizar ou proibir a captação, a fixação, a emissão, a transmissão, a retransmissão ou a reprodução de imagens, por qualquer meio ou processo, de espetáculo desportivo de que participem. (Redação dada pela Lei nº 12.395, de 2011).

§ 1º Salvo convenção coletiva de trabalho em contrário, 5% (cinco por cento) da receita proveniente da exploração de direitos desportivos audiovisuais serão repassados aos sindicatos de atletas profissionais, e estes distribuirão, em partes iguais, aos atletas profissionais participantes do espetáculo, como parcela de natureza civil. (Redação dada pela Lei nº 12.395, de 2011).

§ 2º O disposto neste artigo não se aplica à exibição de flagrantes de espetáculo ou evento desportivo para fins exclusivamente jornalísticos, desportivos ou educativos, respeitadas as seguintes condições: (Redação dada pela Lei nº 12.395, de 2011).

I – a captação das imagens para a exibição de flagrante de espetáculo ou evento desportivo dar-se-á em locais reservados, nos estádios e ginásios, para não detentores de direitos ou, caso não disponíveis, mediante o fornecimento das imagens pelo detentor de direitos locais para a respectiva mídia; (Incluído pela Lei nº 12.395, de 2011).

II – a duração de todas as imagens do flagrante do espetáculo ou evento desportivo exibidas não poderá exceder 3% (três por cento) do total do tempo de espetáculo ou evento; (Incluído pela Lei nº 12.395, de 2011).

III – é proibida a associação das imagens exibidas com base neste artigo a qualquer forma de patrocínio, propaganda ou promoção comercial. (Incluído pela Lei nº 12.395, de 2011).

§ 3o O espectador pagante, por qualquer meio, de espetáculo ou evento desportivo equipara-se, para todos os efeitos legais, ao consumidor, nos termos do art. 2º da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990.

Assim, salvo acordo em contrário, 5% do valor total da autorização para transmissão dos jogos será distribuído, em partes iguais, aos atletas profissionais participantes do espetáculo ou evento, tenham eles atuado em campo ou presentes no banco de reserva.

Este valor é repassado pela TV que adquire o direito de transmissão diretamente ao sindicato dos atletas que repassa aos jogadores ao final do ano de forma proporcional ao número de partidas utilizadas.
Apesar de muito parecidos, correspondem a institutos distintos. Arena é a palavra latina que significa areia.

O termo é usado nos meios esportivos, tendo em vista que, na antiguidade, no local onde os gladiadores se enfrentavam, entre si ou com animais ferozes, o piso era coberto de areia.

Dessa forma, o direito de arena corresponde à imagem do espetáculo, ou seja, à exposição coletiva dos atletas durante a partida e sua titularidade pertence às entidades de prática desportiva, que podem negociar, proibir ou autorizar, a título oneroso ou gratuito, a transmissão da imagem do espetáculo ou evento desportivo que participem.

Já o direito à imagem é de titularidade do próprio atleta e refere-se à sua utilização em situações além da partida como álbum de figurinhas, banners ou comerciais.

Por fim, urge destacar que o direito de imagem não pode ser vendido, mas apenas cedido, eis que personalíssimo e sua natureza é civil. Por outro lado, o direito de arena possui natureza controvertida, eis que a doutrina e os tribunais divergem quanto à sua natureza ser cível ou trabalhista.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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Gestão no futebol brasileiro: os princípios do modelo Taylorista/Fordista

A área do saber denominada Administração é datada do início do século XX, de forma oficial. Esta área do saber tem seu marco inaugural com a publicação do livro "Princípios de Administração Científica", de Frederick Taylor, em 1911.

Taylor orientou seus trabalhos para o funcionamento das fábricas das empresas. Entendia que, com o melhor aproveitamento do trabalho fabril, através de boa gestão, as indústrias incrementariam sua produtividade e, em consequência, sua produção.

Para tanto, preconizava que deveria ser executado um planejamento detalhado do trabalho fabril. Este deveria ser composto, por um lado, por uma ótima sequência de tarefas fabris e, por outro, pela padronização da realização de cada tarefa. O método foi denominado organização racional do trabalho (ORT).

Os princípios tayloristas não se resumiam, no entanto, à estruturação das tarefas industriais: seria necessário, igualmente, motivar os colaboradores – operários, no caso; segundo a visão de Taylor, a motivação dava-se através de dinheiro, seria a oferta de valores pecuniários que estimularia os empregados a produzirem mais e melhor (o salário por peça e o prêmio de produção), sendo esta a visão econômica do ser humano, conhecida como homo economicus.

Henry Ford foi um conhecido industrial do início do século XX, fundador das Ford Motor Company, ícone da indústria automobilística. Notabilizou-se por fabricar veículos automotivos em larga escala, o que propiciava a redução de custos por unidade produzida e, por decorrência, o barateamento dos preços de produtos finais.

Totalmente alinhado com os princípios de Taylor, Ford introduziu inovações fabris como a linha de montagem seriada, que revolucionou a escala de produção das indústrias da época.

Taylor e Ford possuíam ideias revolucionárias e complementares para a época e, assim, criaram as bases da gestão das indústrias, sendo que muitos dos princípios defendidos são válidos ainda nos dias atuais. O modelo Taylorista/Fordista permanece sendo útil em vários contextos, mesmo passado cerca de um século de sua inauguração.

E o futebol brasileiro em relação a isso tudo? Não se deve esquecer que muitos dos aspectos de funcionamento de qualquer organização repetem o padrão da indústria, e as organizações ligadas ao futebol não são exceção. Princípios do modelo Taylorista/Fordista são úteis à gestão de nosso futebol.

Exemplos? Alguns deles são:

• A base do aumento da produção é a repetição das tarefas, ou operações. Pense em um jogador de futebol que, tal qual o operário, repete à exaustão a execução de um fundamento, como cobranças de faltas, por exemplo. Um Zico, um Roberto Dinamite, um Rogério Ceni. Repetição gera perfeição. No futebol repetir exaustivamente os fundamento leva à excelência do jogo, que leva à satisfação dos torcedores, que leva ao aumento da assistência, que leva ao incremento do faturamento.

• O modelo preconizava que era importante, para o resultado final, a presença de ferramental apropriado para a execução dos serviços. Ora, os exemplos de ferramentais, que devem ser apropriados, são diversos: bolas, chuteiras, meias, calções, camisas, caneleiras, centros de treinamentos, centros de fisiologia, centros médicos, etc.

• Os autores defendiam ideias ligadas a produzir muito, para se vender muito. Vender muito é tudo que o futebol brasileiro de hoje precisa, tanto em termos de ingressos e público que aflui aos estádios, como em termos de gente que assiste pela televisão, aumentando as cotas de transmissão.

• Salário por peça e prêmio de produção são conceitos que podem ser adaptados ao futebol: no dia em que os clubes pagarem salários fixos menores e atrelarem parte substancial da remuneração à produtividade e aos resultados, dar-se-á um passo decisivo para a melhoria da estrutura organizacional dos clubes.

• Os autores preconizavam que o trabalho dividido e a especialização do operário gerava aumento de produtividade na fábrica. Será que, em se fazendo o mesmo no futebol, os resultados não são melhores?

Muitos consideram que, hodiernamente, Taylor e Ford são autores superados. Pode até ser, em determinados contextos. Mas será que em todos? Para os gestores do futebol brasileiro, fica a reflexão.

*Luis Filipe Chateaubriand é professor universitário na área de Gestão

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Vitórias, fãs e lucro

"Mais vitórias é igual a mais fãs que é igual a mais lucro, certo? Errado, errado e errado".

Este é o título de uma reportagem escrita por Ray Kennedy em… 1980, publicado na Sports Illustrated na edição de 28 de abril daquele ano (http://sportsillustrated.cnn.com/vault/article/magazine/MAG1123388/5/index.htm).

Kennedy consulta na matéria Matthew Levine, então presidente de uma consultoria esportiva, que rechaça que "apenas 25% da base de fãs acompanha uma equipe por conta da performance esportiva (…) agora, as equipes, mais do que nunca, devem ouvir e responder as demandas de seus respectivos mercados". Para chegar a esta conclusão, foram entrevistados mais de 300 mil torcedores de esporte.

Mais de trinta anos depois, aqui no Brasil, ainda vivemos um debate incipiente neste âmbito, o que é comprovado pela visualização da curva ascendente de preços dos ingressos que está inversamente proporcional ao número médio de torcedores que acompanham os jogos das principais equipes do Campeonato Brasileiro nos últimos anos (http://exame.abril.com.br/economia/noticias/ingresso-de-futebol-sobe-mais-que-salario-minimo?page=2). Vendemos apenas resultado esportivo!!!

Nós sequer fazemos pesquisas para tentar identificar os anseios dos consumidores – agora que começam a surgir os primeiros projetos mais bem estruturados de sócio-torcedor.

A demanda reprimida por consumir o futebol ainda é enorme. As pessoas que gostam, por vezes, não sabem ou não conseguem se relacionar com seus clubes.

Precisamos voltar muito no tempo a partir de benchmarking com outros países para poder acelerar como mercado de consumo de esporte e, então, passar a pensar em estratégias mais ousadas para a conquista de territórios e receitas.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Carta aberta ao doutor José Mourinho

Querido amigo,

Antes do mais, sou eu que devo agradecer-lhe. Em primeiro lugar, o convite que se dignou fazer-me, através da Senhora Presidente da Câmara, para participar na homenagem que o município da sua cidade natal hoje lhe presta.

Depois, as inúmeras entrevistas que venho dando a televisões dos cinco continentes, por esta única razão: porque o meu amigo me distingue, entre os seus professores no ISEF da Universidade Técnica de Lisboa.

Eu não deixo de dizer aos jornalistas, ávidos do meu pretenso saber, que o José Mourinho nunca aprendeu futebol comigo; que eu, em matéria de futebol, sou de uma aflitiva ignorância. Mas, eles acreditam mais no meu amigo do que em mim. E as entrevistas realizam-se, inevitavelmente, sob a cálida simpatia das suas palavras de apresentação.

Já o afirmei, no Chile, há seis meses atrás, na televisão também: O José Mourinho não é só um treinador, é acima de tudo um treinador genial! Por generosidade sua e do José Maria Pedroto e do Jorge Jesus e ainda por influência dos meus estudos, no âmbito da epistemologia, aprendi a ver o texto e a descobrir o contexto de um jogo de futebol.

O Sr. Pedroto era de uma curiosidade imparável. O seu fantástico sonho de um futebol de excelência deixava-nos a sonhar com um futebol que há-de nascer… um dia! Tenho pena de ter dialogado, com ele, tão poucas vezes!

No Jorge Jesus comove-me o sorriso benigno que se lhe derrete nos lábios, quando lhe explico o meu conceito de motricidade ou o de complexidade ou o de ciência hermenêutico-humana. Não esqueço o agradecimento a luzir nos olhos de um azul transparente e acariciador do atual treinador do Benfica, sob determinados aspetos um superdotado também…

O nosso comum amigo, prof. Luís Lourenço, na sua tese de mestrado, desceu aos abismos insondáveis dos meus papéis e encontrou os sumários das aulas que o meu amigo fez o favor de escutar-me.

Aí vai o resumo: a unidade prática-teoria; a complexidade presente, em todos os domínios da prática desportiva; o desporto como movimento em busca permanente da superação e como subsistema de uma ciência humana; a denúncia de uma preparação física, desinserida da totalidade do treino; o diálogo, aprofundado e constante, entre o desporto e as outras ciências humanas e da natureza; a expressão hegeliana "a verdade é o todo"; a necessidade de uma "revolução científica", nos cursos de treinadores e das licenciaturas em Desporto; o respeito pela pluralidade dos modos de conhecimento, devendo respeitar-se e estudar-se os treinadores e os jornalistas de grande prática e de sério estudo, mesmo que não licenciados em Desporto; o desporto é mais do que desporto. Tudo isto, há 31 anos!

Partindo daqui; da sua prática, no mundo do futebol; e das suas qualidades intelectuais, verdadeiramente invulgares (bem patentes no seu olhar de um brilho astuto), o meu amigo chega rapidamente à conclusão que é um especialista numa ciência hermenêutico-humana e desenvolve todo o seu trabalho, à luz não tanto de uma periodização tática, mas de uma periodização antropológica e tática.

Sem homens para a tática, não há tática. Aliás, não há saltos, há homens (e mulheres) que saltam; não há chutos, há homens (e mulheres) que chutam; não há corridas, há homens (e mulheres) que correm.

Se eu não compreender os homens (e as mulheres), jamais compreenderei os saltos e os chutos e as corridas. Esta é, ou não, a revolução que o meu amigo fez, no mundo do futebol? Não, a sua revolução não é tática. A sua revolução é humana. E, enquanto não se entender isto, jamais se entenderá o treinador de futebol, doutor José Mourinho.

O meu caro colega (falo em termos universitários) nada me deve, no que ao futebol diz respeito. Com 80 anos, já não estou em idade de plagiar, nem de vestir o que não me pertence.

Mas, louvo-me de não ter faltado ao rigoroso compromisso que tomei de não deixar de realçar o que, no José Mourinho, deve ser realçado: o meu amigo é um grande treinador de futebol, porque é um gênio, intelectualmente falando. Repito-me: não, a sua revolução não é tática. A sua revolução é humana. E, porque é humana, o meu amigo é um vencedor.

De fato, o desporto é bem mais do que uma atividade física, é verdadeiramente uma atividade humana. Bem andou a Presidente da Câmara de Setúbal, na homenagem que lhe promoveu. O José Mourinho é o setubalense mais conhecido, no mundo todo. Eu disse "o setubalense"? Talvez devesse dizer “o português”…

Seu Manuel Sérgio.

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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Jogo de cena

A coluna é sobre futebol e o site é a Universidade do Futebol, mas peço licença para começar falando de outro esporte. A história que abre o texto aconteceu no último domingo, em Kuala Lumpur, no Grande Prêmio da Malásia de Fórmula 1. O evento também pode ser lembrado como o pódio mais triste da história do esporte.

Por motivos diferentes, Sebastian Vettel (Red Bull Racing), Mark Webber (Red Bull Racing) e Lewis Hamilton (Mercedes), os três primeiros da prova, exibiram no pódio expressões que em nada condiziam com o resultado. A sensação contraditória foi agravada por uma entrevista realizada durante a premiação.

O procedimento, aliás, é uma das inovações recentes da Fórmula 1. A categoria passou a entrevistar os pilotos que formam o pódio de cada etapa. A ideia era captar declarações efusivas, festas e emoção, mas o último domingo mostrou que o momento posterior a uma corrida também pode servir para desabafos e constrangimento.

A começar por Vettel, atual tricampeão do mundo, autor da manobra mais polêmica do GP da Malásia. Ele estava em segundo, atrás de Webber, e ignorou um pedido da Red Bull para que os dois pilotos reduzissem o ritmo. Enquanto o líder desacelerou, o alemão aproveitou e tomou a dianteira.

Na entrevista posterior à corrida, Vettel tentou contemporizar. O alemão admitiu ter errado e pediu desculpas a todos pela insubordinação. Em vez de comemoração, o que ele mostrou foi puro constrangimento.

Webber, jogado ao segundo posto da corrida, estava bem menos contido. Em vez de abatimento ou rubor, o australiano exalava indignação no pódio da Malásia. A sensação era de que faltou uma faísca – uma declaração atravessada de Vettel, por exemplo – para ele cobrar na festa a atitude do companheiro na pista.

O último componente do pódio era Hamilton. Mas, segundo ele mesmo, não por méritos. "[Nico] Rosberg devia estar aqui no meu lugar. Ele fez um trabalho fantástico", disse o inglês.

Nas voltas finais, Hamilton teve de economizar combustível e diminuiu o ritmo. Nico Rosberg, companheiro dele na escuderia Mercedes, estava atrás e tinha mais velocidade. Ele chegou a pedir que a equipe ordenasse uma inversão de posições. Contudo, pensando na classificação do campeonato, a diretoria rechaçou a ideia.

"Ele teve um ritmo melhor na corrida. Sendo honesto, acho que ele deveria estar aqui [no pódio]", completou Hamilton, evidentemente consternado.

São muitas histórias para apenas uma corrida, mas todos esses episódios servem para discutirmos conceitos fundamentais de comunicação. Afinal, a Fórmula 1 teve um embate duro entre o que deve ser falado e o que deve ser omitido.

Como qualquer produto de mídia, a Fórmula 1 depende de jogo de cena. Essa é a justificativa para a categoria não oficializar a existência de trabalho em equipe – a prioridade estratégica a um piloto é um acordo tácito, que a cúpula da disputa teima em não reconhecer.

Temos, então, um enorme jogo de cena. Por não admitir que as equipes podem controlar posições de seus pilotos e ordenar inversões em nome da classificação, a Fórmula 1 cria uma imagem falsa e extremamente frágil.

Por outro lado, temos um excesso de verdade nas declarações dos pilotos. Entrevistas feitas logo depois de competições sempre são suscetíveis a reações passionais ou exacerbadas.

Sobre isso, existe uma excelente passagem na autobiografia do tenista norte-americano Andre Agassi (Agassi, Autobiografia – Globo Editora, 2010). O ex-atleta admite que não se lembra de praticamente nada do que falou aos repórteres que o interpelaram na quadra. Preocupado com o jogo ou tomado por adrenalina, ele perdia o controle sobre a conversa.

É essa falta de controle que muitos repórteres buscam quando entrevistam atletas. O momento é uma explicação fundamental para tantos deslizes e tantas histórias engraçadas registradas assim.

A primeira coisa que a corrida da Fórmula 1 ensina é que é impossível mentir para o público. Se você trabalha com comunicação, é fundamental ser honesto. Ou parecer honesto, pelo menos. Construir um perfil ilibado com base em jogo de cena é um risco enorme para a credibilidade. E uma competição vende, antes de qualquer coisa, a própria credibilidade.

Na outra ponta, a Fórmula 1 também ensinou que o organizador deve se preocupar com as histórias que o evento conta. Criar um procedimento de entrevista no pódio é legal para aumentar a exposição de patrocinadores, mas é um risco para o clima da festa.

A saída, nesse caso, é assumir um pouco mais o controle da interação com a mídia. A organização deve pensar no momento e nos assuntos ideais para abordar com os pilotos. Criar polêmicas e mostrar insatisfação dos atletas são posturas honestas, mas que podem arranhar a imagem do evento.

Atualmente, o Real Madrid tem mais jornalistas trabalhando no clube do que qualquer veículo que cobre o cotidiano merengue. O que justifica essa concentração é que a equipe tenta controlar o acesso à informação. Com mais gente produzindo conteúdo, é mais fácil blindar atletas e reduzir o contato entre eles e os setoristas. Assim, também é mais fácil disseminar "versões oficiais".

A comunicação depende de estratégia. Antes de falar, é necessário saber o que falar e como falar. Se um evento não pensa nisso e oferece todo tipo de fonte à mídia, é bom estar preparado para deslizes.

E o que o futebol pode tirar de tudo isso? Em primeiro lugar, é fundamental repensar o modelo de entrevistas que se tornou popular no Brasil. O acesso a jogadores depois de um jogo é cômodo para a imprensa, mas demanda um planejamento muito grande de quem faz a comunicação de clubes, entidades e campeonatos.

Jornalistas costumam reclamar da pasteurização da informação. Normalmente, usam o excesso de entrevistas coletivas e a dificuldade de acesso como argumentos para isso.

As coletivas e a informação oficial como base são um caminho irreversível. Clubes, entidades e campeonatos precisam zelar por patrocinadores e conteúdos que desejam ver na mídia. Para isso, precisam tentar controlar o material distribuído.

Não defendo, porém, que os repórteres se acomodem com isso. A blindagem do conteúdo é fundamental para garantir os interesses de quem organiza. Fazer jornalismo, invariavelmente, é contrariar isso.

Millôr Fernandes disse: "Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados". O problema é quando a imagem não é debelada por quem está na redação, mas pela própria mídia oficial.

Para interagir com o autor: guilherme.costa@universidadedofut
ebol.com.br

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26 anos

Quantos anos você tem? 17? 38? 70 anos?

Seguramente, já deve ter tido a noção de como o tempo é implacável e impacta nossas vidas. A sensação provocada pelo tempo é a mais variada e dependente das circunstâncias que nos rodeiam.

Pessoas ansiosas costumam viver com a cabeça no futuro e isso lhes gera muita preocupação, uma vez que, enquanto ele não chega, cria angústia. Os que se sentem deprimidos vivem presos ao passado, lamentando o que já aconteceu e, como não há como mudá-lo, também acarreta frustração e penúria.

Os especialistas e os filósofos de plantão defendem, pois, que se viva a vida, em sua plenitude, no presente, no hoje.

Se há alguém no mundo que aprendeu que a vida exige paciência, e que viver é um exercício diário, é o americano Dewey Bozella.

http://www.youtube.com/watch?v=yRHlWsGejIo

Lembro-me, também, de outros dois grandes homens que exercitaram a paciência na história recente: Nelson Mandela, em seus quase 30 anos de prisão, e Mahatma Gandhi, na sua resistência pacífica na luta pela independência da Índia frente à Inglaterra.

Mas, deles, falarei.

Bozella foi um jovem que se envolveu em pequenos delitos na adolescência. Sua vida, definitivamente, mudou, quando foi acusado – posteriormente, sabido que injustamente – de homicídio em um assalto.

Foi preso e condenado. Cumpriria 26 anos de reclusão. Percebeu que precisava fazer algo na prisão para cuidar do corpo, mente e espírito e domar o tempo e suas sensações. Assim, conheceu o programa de desenvolvimento do boxe no sistema penitenciário americano e começou a treinar, diariamente, com um objetivo: ao sair da prisão, lutar profissionalmente.

Foram muitos anos de preparação e concentração, enquanto via negados seus recursos judiciais para conquistar a liberdade e reparar o dano da acusação equivocada.

Tornou-se campeão da penitenciária. Ao sair, com 52 anos, continuou sua batalha para conquistar o direito de lutar e desafiar o campeão de sua categoria. Conseguiu o direito. Conquistou a vitória na única luta que fez na breve, mas valiosa carreira como boxeador.

Mas, 26 anos para apenas uma luta? Na verdade, essa era a grande meta. Sempre à vista, embora distante.

Bozella sabia que teria que seguir o caminho no dia-a-dia, preparando-se arduamente para quando chegasse. Não podia mais viver no passado, tampouco no futuro, embora os enxergasse e fizessem parte da sua vida.

Viveu intensamente o presente. E quando o futuro chegou, reconciliou-se, brilhantemente, com o passado, ganhando da vida o presente que queria: lutar boxe e vencer uma luta, além de provar sua inocência.

Venceu. Hoje, compartilha sua sabedoria e experiência com jovens em sua academia de boxe no Estado de Nova York.

Sabedoria que ensina que devemos ter serenidade para saber que as coisas acontecem a seu tempo e que favorecem quem sempre está preparado. No corpo, na mente e no espírito.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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O passe, a prática e a perfeição: o círculo virtuoso dentro do jogo

Segundo o neurocientista norte-americano Daniel Levitin (da McGill University, Canadá), pesquisas sobre a excelência na execução de tarefas complexas têm sugerido que, para se atingir um grau de destreza condizente a de um "expert" em determinada área (em nível internacional), é necessário um tempo mínimo de prática.

De acordo com Levitin, estudos realizados com compositores, desportistas, pianistas, escritores, dentre tantos outros em diferentes áreas, têm aceito, consensualmente, que esse tempo mínimo seria de algo em torno de 10 mil horas de prática.

Esse número (10 mil horas) ficou conhecido e ganhou maior repercussão no Brasil, especialmente no ano de 2008 com a publicação em português, do livro "Outiliers: Fora de série" do jornalista britânico Malcolm Gladwell – no livro, o autor dedicou um capítulo inteiro para debater as tais 10 mil horas.

Pois bem.

Que são ou não necessárias no mínimo 10 mil horas (número mágico como diz Gladwell) para se atingir a maestria em nível internacional na execução de determinada tarefa complexa, não sabemos exatamente ao certo (apesar dos diversos estudos que vêm sendo realizados).

O fato, que é consenso, é que a prática sistemática e sistematizada é o menor caminho para se atingir a excelência em algo.

E se "nós somos aquilo que fazemos repetidamente e a excelência, então é um hábito" (Aristóteles), parece fazer muito sentido que o tempo de prática deva ser algo realmente determinante para a melhor execução de determinada tarefa (tarefa complexa, como menciona o neurocientista Daniel Levitin).

O futebol, em sua existência dinâmica como jogo, é uma composição infinita de tarefas complexas. Essas tarefas estarão presentes a todo o tempo.

Modelos, meios e métodos de treinamento deverão, cada um a sua forma, garantir a prática dessas tarefas.

Porém, ainda que se tenha uma preocupação complexa com a especificidade do treinamento de jogadores de futebol, e que se criem nos treinos, ambientes de aprendizagem muito similares ao do jogo formal competitivo, é nele (no jogo formal competitivo) que o conhecimento se assenta e que a repetição da tarefa complexa ocorre em sua forma mais "pura" e rica – a forma do jogo 100% jogo.

Então, se no jogo formal competitivo, jogadores e equipes puderem repetir na essência aquilo que é fundamental no jogar, estarão ao mesmo tempo praticando e evoluindo as tarefas do jogo de futebol.

Por exemplo, na Uefa Champions League 12/13, o Bayern de Munique, realiza em média por jogo, 608 passes (acertando 77% deles). O Benfica, de Portugal (já eliminado), na mesma competição, em seis jogos passou a bola, em média 439 vezes (com aproveitamento de 62%) – dados disponibilizados pela Uefa.

Isso quer dizer que em média (apenas para efeito didático), considerando o goleiro, cada jogador do Bayern, realiza por jogo, 15 passes a mais do que os jogadores do Benfica – o que ao longo de uma temporada pode representar um número muitíssimo maior.

Vejamos por exemplo o FC Barcelona na mesma Uefa Champions League 12/13. A equipe catalã, em oito jogos, já realizou 6640 passes (com 84% de aproveitamento). Isso dá em média, por jogo, 830 passes.

São 222 passes a mais, em média, do que a segunda equipe que mais passa na competição (o Bayern). Então, enquanto os jogadores do time alemão praticam o passe, em média, 55 vezes por partida, os do time catalão, 75 (35 mais passes por jogador do que o Benfica).

Supondo que as médias se mantenham nas outras competições disputadas por essas equipes, em uma temporada com 70 jogos os jogadores do Benfica terão realizado em jogo, em média, 2794 passes, os do Bayern 3869 e os do Barcelona 5282!

Então, com o mesmo número de jogos, no time catalão os jogadores terão realizado em jogo quase o dobro de passes dos jogadores do time português e aproximadamente 36% mais do que os do time alemão.

Não estou eu aqui defendendo a maneira da "A" ou de "B" jogar.
O que estou chamando a atenção, é para o fato de que em 6300 minutos de jogo formal competitivo por ano, jogadores do Barcelona realizam mais vezes a tarefa de passar do que os de todos os seus adversários (dados da Uefa e da Liga Espanhola mostram isso).

Óbvio que isso é resultado de treino – resultado reforçado, trabalhado e desenvolvido também no jogo formal – mas sob o ponto de vista da tarefa de passar, é concreto o fato de que o jogo competitivo, nesse caso, também está contribuindo muito para a maior destreza na sua execução.

E apesar de ser um exemplo mais significativo, por ser o passe o fundamento técnico de maior incidência no jogo de futebol, isso pode valer para a execução de outros fundamentos e tarefas.

No exemplo que estou mencionando – no caso do FC Barcelona e do passe – é possível dizer que quanto mais a equipe catalã passa a bola, melhor ela fica para passar.

E quanto melhor ela fica, mais ela vai passar, porque menos vai perder a bola; o que a fará melhor cada vez mais nesse fundamento (não por acaso, o FC Barcelona tem o melhor aproveitamento de passes da Uefa Champions League – mesmo tendo um ritmo elevado de transmissão da posse da bola [1 passe a cada 3.1 segundos] – o mais alto dentre as equipes participantes).

Isso gera um círculo virtuoso para a tarefa de passar a bola.
E ainda que alguém diga que 6300 minutos de jogo formal por ano represente quase nada perante aos 600 mil minutos (10 mil horas) apontados por Daniel Levitin, diria que devemos aí levar em conta sim, a qualidade da prática e o número de repetições da tarefa no tempo disponível para a sua exercitação.

Claro, não estou eu aqui descartando a importância do treino para se jogar o jogo que se deseja.

O fato, é que levando em conta a qualidade dos adversários e das competições que uma equipe como o Barcelona participa, não haverá melhor prática do que a do jogo competitivo.

Então, equipes que não têm bem definidos seus comportamentos de jogo, podem de certa forma, estar desperdiçando e negligenciando o próprio jogo formal como elemento para desenvolvimento e aperfeiçoamento de realização de tarefas.

É isso…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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A sequência de jogos, os suplentes e a carga de treinamento

Com a sequência de jogos no futebol profissional, em que frequentemente ocorrem duas partidas por semana, a comissão técnica tem uma difícil tarefa: manter os estímulos de treinamento adequados aos suplentes para, quando lhes surgirem uma oportunidade, terem condições (física-técnica-tática-mental) de atenderem a demanda que o jogo e o modelo de jogo os impõe.

Como sabemos, suspensões, lesões, maus resultados e baixo rendimento individual são os motivos que acarretam alterações na equipe. Quando feitas as mudanças, todo treinador tem a esperança de que os efeitos gerados no desempenho coletivo sejam positivos.

Quanto maior o conhecimento do treinador sobre o potencial atual de cada atleta e como sua presença (do atleta) entre o onze inicial altera o funcionamento do sistema, maiores são as possibilidades da equipe se manter organizada para o cumprimento do objetivo máximo do jogo.

Porém, será que todos os treinadores tem ideia do nível atual de cada um dos suplentes?

Se considerarmos um elenco com 32 jogadores, cerca da metade deles terão poucas oportunidades no decorrer da competição. Quando surgirem, (as oportunidades) devem estar prontas, pois no rotativo mercado do futebol, um mau resultado (talvez originado por suplentes despreparados) pode custar a demissão de toda a comissão.

Com os 32 atletas, numa semana hipotética com dois jogos na semana, o número de atletas à disposição ao longo do microciclo segue abaixo: (ainda hipoteticamente, podemos considerar dois atletas lesionados que não participam das atividades da semana).

Na segunda-feira (após o jogo do dia anterior), o treinador tem 19 atletas à disposição para treinamento.

Na terça-feira, véspera do jogo, 30 atletas estão à disposição para treinamento. Na quarta-feira, dia da partida, 11 jogadores estão à disposição para treinamento. Na quinta, após o jogo, 19 atletas estão à disposição para treinamento. Na sexta e no sábado, 30 atletas estão à disposição para treinamento.

No futebol de hoje, como a comissão técnica trabalha com quem vem sendo menos aproveitado? A carga de treino oferecida aos atletas é suficiente para deixá-los preparados para o jogo?

Uma alternativa muito utilizada pelos clubes é a realização de jogos amistosos um dia após o jogo oficial com o objetivo de "dar ritmo" àqueles atletas que não tem jogado, ou então, tem jogado pouco. É, sem dúvida, um excelente treino para preparar os suplentes, no entanto, corresponde a somente um dia do microciclo competitivo.

E o que se faz nos demais dias?

As segundas-feiras, quando não se faz um amistoso, a comissão técnica prepara uma atividade que dê uma carga de treino próxima a do jogo ou simplesmente elabora uma sessão de treino físico?

As terças-feiras, com o elenco todo à disposição e sem poder desgastar os titulares, treina-se fisicamente somente os não relacionados ou existe alguma preocupação (e por que não um risco) de aumentar a intensidade do treino (com jogo) também para os suplentes uma vez que somente três substituições poderão ser feitas no dia seguinte?

Na quarta-feira, com onze atletas à disposição, o profissional do clube que geralmente fica responsável por esta sessão de treino é o auxiliar de preparação física. Ele irá aplicar a sessão de treino a partir de uma conversa prévia com o treinador ou seguirá as recomendações do preparador físico? Será que, mesmo com o elenco reduzido, alguns comportamentos de jogo não podem ser estimulados?

Na quinta-feira, a comissão novamente tem 19 atletas disponíveis. O que treinar: jogos reduzidos com regras desconexas ao modelo de jogo ou jogos que incidam sobre as limitações individuais e coletivas que têm custado a titularidade a este grupo de atletas?

A sexta feira é o único dia da semana em que a comissão tem todo o grupo para um trabalho de caráter aquisitivo. É um dia que o pouco tempo que se tem para treinar deve ser muito bem aproveitado em especificidade. No sábado a situação é semelhante à terça-feira.

A comissão técnica deve buscar constantemente a fórmula ideal para a operacionalização do microciclo com dois jogos na mesma semana. É responsabilidade de o treinador gerenciar os conteúdos de treino que precisam ser aplicados visando a manutenção e/ou melhoria da performance coletiva.

Coerente será a comissão que enxergar nos suplentes um grupo de atletas que precisam ser mantidos motivados e, principalmente, preparados. Para finalizar, só mais uma pergunta: como você treina os seus reservas?

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br