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O grito do gol

A determinação da toda poderosa Federação Internacional de Football Association, Fifa, com relação à limitação das expressões de alegria em campo a meros cumprimentos formais, nas ocasiões de comemoração de gols, momento supremo do jogo de bola, é muito mais significativa do que desejam alguns que a defendem como instrumento coibitivo dos excessos, tais como os beijos e abraços, nas horas dos gols,

posicionamento este no mínimo de alto significado machista.

 

Na verdade está em jogo nada mais nada menos do que a própria liberdade de expressão do indivíduo, de cunho, neste caso específico, totalmente popular, dada a presença do futebol como parte integrante da cultura popular brasileira.

 

Se, como era de se esperar, pronunciamentos das autoridades responsáveis pelo futebol nacional, não foram ouvidos (pois é lógico o interesse que a eles, o controle das manifestações populares, desperta, fazendo-as permanecerem sob seus domínios), é digno de aplausos os diversos depoimentos de atletas de destaque no cenário futebolístico brasileiro, que com palavras refutaram tal deliberação, dando na prática a verdadeira e merecida resposta a tão repugnante imposição:

 

Gols, cada qual mais festejado do que nunca!

 

Este recente episódio de autodeterminação dos atletas brasileiros nos reporta a um outro ocorrido nos idos de 1927, e detalhado no livro de Mário Filho, O negro no futebol brasileiro, e que pedimos licença aos leitores para, neste artigo, passar a narrar.

 

… Cinqüenta mil pessoas comprimidas nas arquibancadas gerais, de pé, batendo palmas para o Presidente da República. Era gostoso receber uma ovação daquelas, nada preparado, tudo espontâneo. Washington Luís descobria, ao mesmo tempo, a força e a beleza do esporte. Subitamente o jogo pára, não continua… O juiz tinha marcado um pênalti contra os paulistas, os paulistas iam abandonar o campo. Washington Luís fica sério, dá uma ordem a um oficial de gabinete. Era a ordem para o jogo continuar, uma ordem do Presidente da República.

 

E lá desce o oficial de gabinete… A notícia se espalha, Washington Luís tinha mandado acabar com aquilo… O jogo ia recomeçar. O oficial de gabinete entra em campo debaixo de palmas, vai até Amílcar e Feitiço. E de cara amarrada dá o recado: – O Presidente da República ordenava o reinício do jogo. A resposta de Feitiço, mulato disfarçado, que nem era capitão do escrete paulista, foi que o doutor Washington Luís mandava lá em cima – lá em cima sendo a tribuna de honra… Cá embaixo – cá embaixo sendo o campo – quem mandava era ele. E para mostrar que mandava mesmo, que não era conversa, fez um sinal, os jogadores paulistas saíram atrás dele. Washington Luís, Presidente da República, não teve outro remédio, senão ir embora, ofendidíssimo.

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br

*Lino Castellani Filho é Doutor em Educação, docente da Faculdade de Educação Física/Unicamp, pesquisador-líder do "Observatório do Esporte" – Observatório de Políticas de Educação Física, Esporte e Lazer – CNPq/Unicamp, e foi Presidente do CBCE (1999/2003) e Secretário Nacional de Desenvolvimento do Esporte e do Lazer/Ministério do Esporte (2003/06)
 

 


 

[1] Publicado na seção opinião do diário O Jornal – São Luis, MA – do dia 14 de outubro de 1981, quinta feira. 

 

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O experimento “quase científico” de uma vitória

Dia desses fiz um experimento “quase científico” em uma partida realizada pela equipe que dirijo. Era um jogo amistoso, parte dos preparativos para uma competição futura.

Sob a perspectiva organizacional do jogo, as duas equipes iniciaram a partida com a organização defensiva adequada para controlar as organizações ofensivas adversárias. A minha buscava a recuperação da posse da bola na “linha 1”; a adversária, impedir progressão a partir da “linha 3”.

Os princípios operacionais de ataque das duas equipes não eram os adequados para desequilibrar as organizações defensivas propostas.

Obviamente que com poucos minutos de jogo ficava evidente a necessidade de uma intervenção que mudasse o princípio operacional de ataque dominante (tanto da minha equipe, quanto do adversário).

Ficávamos com a bola, controlávamos o jogo, ocupávamos melhor os espaços e não corríamos risco algum de sofrer um gol (mas também não chegávamos nem perto de “assustar” o goleiro adversário).

Exceção feita aos princípios operacionais de ataque (e de transição ofensiva), todas as outras dimensões de controle estavam apropriadas ao jogo e sendo bem executadas (tarefas de ação, plataforma de jogo, princípios estruturais, norteadores da ação, etc) na direção do cumprimento da lógica do jogo.

Todas as evidências apontavam para a necessidade de alteração dos princípios operacionais de ataque; mas…

Resolvi mexer em todas as variáveis “alteráveis” menos nos princípios operacionais de ataque e observar mudanças que isso desencadearia.

Em tese, as “alterações desnecessárias” deveriam alterar um pouco (bem pouco!) a dinâmica do jogo, mas não “resolvê-la” (pois os problemas que estavam associados à dinâmica daquele jogo, naquele momento, não teriam correlação alta com as mudanças que eu estava realizando).

O tempo foi passando. Terminou o 1º tempo. O jogo continuava apresentando o “mesmo rosto”. Insisti no experimento. Não alterei o que precisava ser mudado e aguardei ansioso para saber quais seriam as “mexidas” do meu companheiro de profissão do “banco ao lado”.

Cinco minutos de algum desequilíbrio (mudei jogadores de posição e dei funções que normalmente não eram as deles) e lá voltou o mesmo jogo do 1º tempo.

A lógica do jogo pedia, para seu cumprimento, alterações nos princípios de ataque.

O jogo caminhava para o zero a zero. Quando faltavam 15 minutos para o término da partida, fim do “experimento”; veio então a grande substituição da minha equipe no jogo: saía o princípio operacional de ataque “manutenção da posse da bola” e entrava a “progressão ao alvo” (terminava o jogo em largura, com muitos passes horizontais, de circulação da bola sem intencionalidade clara de progressão, e começava o jogo de profundidade, vertical, mas sem bolas alongadas, com “desapego” a manutenção da posse da bola, e com chegada rápida ao alvo).

O jogo se mudou completamente.

Como o adversário manteve sua organização de ataque da mesma maneira, o jogo se transformou em um “ataque versus defesa”. Resultado: vencemos por um a zero.

Poderia ter terminado zero a zero (assim como, antes da grande alteração, a partida já pudesse estar com um ou dois gols para uma das equipes). O fato é que quando fora alterada pontualmente aquela variável que estava comprometendo a dinâmica ofensiva de minha equipe no jogo, ele (o jogo) se transformou por completo.

Nesse caso em especial, a alteração de um princípio operacional gerou uma grande alteração no jogo em direção ao cumprimento de sua lógica. Mas nem sempre é assim. Algumas vezes o problema para o cumprimento da lógica do jogo não está no cumprimento ou alteração deste e daquele princípio.

E é bom que isso fique bem claro, porque, equivocadamente, treinadores, pesquisadores e equipes dão maior valor ao cumprimento de um princípio operacional do jogo, em detrimento do cumprimento da lógica do jogo.

A lógica do jogo deve ser sempre a meta a ser cumprida. Princípios operacionais, estruturais, etc e tal, são meios para alcançá-la (a lógica do jogo).

Equipes de futebol devem ser preparadas para o cumprimento da lógica do jogo (e isso é o “jogar bem”).

Cumprir a organização defensiva, por exemplo, de acordo com um modelo de jogo, pautada em determinado princípio, só fará sentido se isso for feito para se alcançar o cumprimento da lógica do jogo.

Caso determinada variável do modelo de jogo não esteja adequada em uma partida (ou momento da partida), é ela, a variável, que deve ser alterada.

Porém, o que tenho notado, é que muitas decisões acabam sendo tomadas para mudar não as variáveis do modelo de jogo, e sim a lógica do jogo.

Como ela (a lógica do jogo) é imutável, decisões erradas fazem com que, na tentativa de se aproximar do jogo e da vitória no jogo, muitos treinadores, pesquisadores e equipes têm cada vez mais se distanciado do próprio jogo e da conquista da vitória.

E aí, o de sempre. Equipes continuarão ganhando e perdendo sem saber exatamente porque.

Para interagir com o autor: rodrigo@149.28.100.147

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Vencemos! Vencemos?

Em 1990 ficou célebre a declaração do Lazaroni, então técnico da nossa seleção, de que seu objetivo era conquistar o título, pouco lhe importando se isso se desse através de um gol feito com a mão, aos 49 minutos do segundo tempo e em completo impedimento! Não ganhamos… E ele foi crucificado.

 

A Geração Dunga, como ficou batizada, passou a carregar o estigma de incompetente, descaracterizadora dos valores que davam luz própria ao futebol brasileiro, onde a habilidade técnica estava em perfeita sintonia com um jogo de alto padrão estético, plástico e lúdico no qual Garrinchas, Pelés e Tostões desafiavam a lógica da vitória, em muitos momentos preterida por um chapeuzinho a mais, uma bola por entre as canetas dos joãos que ousavam nos enfrentar.

 

É esclarecedor o sentimento – triste, mas de peito lavado – vivenciado por todos nós nas duas Copas anteriores à de 90, nas quais mesmo eliminados prematuramente da competição, nos sentimos confortados pelo reconhecimento internacional de nosso ímpar valor.

 

Nesta Copa de 94, Parreira e Zagalo reproduziram, em dose dupla, a lógica de Lazaroni e de uma elite que tem no aforismo o importante é levar vantagem, certo, difundido pelo canhotinha de ouro da Copa de 70, o princípio ético (?) norteador do projeto histórico de sociedade que querem para o país.

 

Tão logo Baggio chutou aquela bola para longe da meta defendida por Taffarel, saímos às ruas festejando o tetra, mas… Engraçado… Por que, lá no fundo, nos sentimos constrangidos, com um gosto amargo na boca, como que se estivéssemos festejando a vitória de uma seleção que não é nossa, de um país que não é o nosso, que não reflete o sentimento de milhões de miseráveis absolutos que silenciosamente sonham, também eles, poder participar de um Brasil de fato vitorioso?

 

Vencemos! Vencemos? Esse futebol de resultados (qualquer semelhança com outras coisas de resultado não é mera coincidência) sinaliza para a vitória de um projeto de sociedade brasileira que não é nosso, pois aponta para a derrota de um povo solidário, sofrido mas orgulhoso de sua cultura e que quer o futebol, portanto, resgatado em toda a plenitude de sua riqueza, colocando por terra – de uma vez por todas – a falsa idéia de que para vencermos temos que, necessariamente, abrirmos mão daquilo que nos identifica enquanto brasileiros.

Para interagir com o autor: lino@universidadedofutebol.com.br

*Lino Castellani Filho é Doutor em Educação, docente da Faculdade de Educação Física/Unicamp, pesquisador-líder do “Observatório do Esporte” – Observatório de Políticas de Educação Física, Esporte e Lazer – CNPq/Unicamp, e foi Presidente do CBCE (1999/2003) e Secretário Nacional de Desenvolvimento do Esporte e do Lazer/Ministério do Esporte (2003/06)


 

[1] Publicado no folheto semanal Destaque, do Diretório Regional – São Paulo – Do Partido dos Trabalhadores, nº 187 (ano IV), 06 a 13 de agosto de 1994.

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O experimento "quase científico" de uma vitória

Dia desses fiz um experimento “quase científico” em uma partida realizada pela equipe que dirijo. Era um jogo amistoso, parte dos preparativos para uma competição futura.

Sob a perspectiva organizacional do jogo, as duas equipes iniciaram a partida com a organização defensiva adequada para controlar as organizações ofensivas adversárias. A minha buscava a recuperação da posse da bola na “linha 1”; a adversária, impedir progressão a partir da “linha 3”.

Os princípios operacionais de ataque das duas equipes não eram os adequados para desequilibrar as organizações defensivas propostas.

Obviamente que com poucos minutos de jogo ficava evidente a necessidade de uma intervenção que mudasse o princípio operacional de ataque dominante (tanto da minha equipe, quanto do adversário).

Ficávamos com a bola, controlávamos o jogo, ocupávamos melhor os espaços e não corríamos risco algum de sofrer um gol (mas também não chegávamos nem perto de “assustar” o goleiro adversário).

Exceção feita aos princípios operacionais de ataque (e de transição ofensiva), todas as outras dimensões de controle estavam apropriadas ao jogo e sendo bem executadas (tarefas de ação, plataforma de jogo, princípios estruturais, norteadores da ação, etc) na direção do cumprimento da lógica do jogo.

Todas as evidências apontavam para a necessidade de alteração dos princípios operacionais de ataque; mas…

Resolvi mexer em todas as variáveis “alteráveis” menos nos princípios operacionais de ataque e observar mudanças que isso desencadearia.

Em tese, as “alterações desnecessárias” deveriam alterar um pouco (bem pouco!) a dinâmica do jogo, mas não “resolvê-la” (pois os problemas que estavam associados à dinâmica daquele jogo, naquele momento, não teriam correlação alta com as mudanças que eu estava realizando).

O tempo foi passando. Terminou o 1º tempo. O jogo continuava apresentando o “mesmo rosto”. Insisti no experimento. Não alterei o que precisava ser mudado e aguardei ansioso para saber quais seriam as “mexidas” do meu companheiro de profissão do “banco ao lado”.

Cinco minutos de algum desequilíbrio (mudei jogadores de posição e dei funções que normalmente não eram as deles) e lá voltou o mesmo jogo do 1º tempo.

A lógica do jogo pedia, para seu cumprimento, alterações nos princípios de ataque.

O jogo caminhava para o zero a zero. Quando faltavam 15 minutos para o término da partida, fim do “experimento”; veio então a grande substituição da minha equipe no jogo: saía o princípio operacional de ataque “manutenção da posse da bola” e entrava a “progressão ao alvo” (terminava o jogo em largura, com muitos passes horizontais, de circulação da bola sem intencionalidade clara de progressão, e começava o jogo de profundidade, vertical, mas sem bolas alongadas, com “desapego” a manutenção da posse da bola, e com chegada rápida ao alvo).

O jogo se mudou completamente.

Como o adversário manteve sua organização de ataque da mesma maneira, o jogo se transformou em um “ataque versus defesa”. Resultado: vencemos por um a zero.

Poderia ter terminado zero a zero (assim como, antes da grande alteração, a partida já pudesse estar com um ou dois gols para uma das equipes). O fato é que quando fora alterada pontualmente aquela variável que estava comprometendo a dinâmica ofensiva de minha equipe no jogo, ele (o jogo) se transformou por completo.

Nesse caso em especial, a alteração de um princípio operacional gerou uma grande alteração no jogo em direção ao cumprimento de sua lógica. Mas nem sempre é assim. Algumas vezes o problema para o cumprimento da lógica do jogo não está no cumprimento ou alteração deste e daquele princípio.

E é bom que isso fique bem claro, porque, equivocadamente, treinadores, pesquisadores e equipes dão maior valor ao cumprimento de um princípio operacional do jogo, em detrimento do cumprimento da lógica do jogo.

A lógica do jogo deve ser sempre a meta a ser cumprida. Princípios operacionais, estruturais, etc e tal, são meios para alcançá-la (a lógica do jogo).

Equipes de futebol devem ser preparadas para o cumprimento da lógica do jogo (e isso é o “jogar bem”).

Cumprir a organização defensiva, por exemplo, de acordo com um modelo de jogo, pautada em determinado princípio, só fará sentido se isso for feito para se alcançar o cumprimento da lógica do jogo.

Caso determinada variável do modelo de jogo não esteja adequada em uma partida (ou momento da partida), é ela, a variável, que deve ser alterada.

Porém, o que tenho notado, é que muitas decisões acabam sendo tomadas para mudar não as variáveis do modelo de jogo, e sim a lógica do jogo.

Como ela (a lógica do jogo) é imutável, decisões erradas fazem com que, na tentativa de se aproximar do jogo e da vitória no jogo, muitos treinadores, pesquisadores e equipes têm cada vez mais se distanciado do próprio jogo e da conquista da vitória.

E aí, o de sempre. Equipes continuarão ganhando e perdendo sem saber exatamente porque.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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O órgão regulador de clubes

Caros amigos da Universidade do Fubebol,

Transparência na gestão de clubes, dívidas com o fisco, clubes perdendo para o exterior jogadores de talento, valores de transferências cada vez mais elevados. Esses são alguns dos temas polêmicos recorrentes no mundo do futebol. Nos dias de hoje, essas questões acaloram-se com (i) as recentes aquisições de clubes na Europa (Inglaterra principalmente) por parte de empresários milinários, (ii) o envolvimento de empresas na propriedade de clubes, e direitos sobre jogadores, e (iii) a atual crise financeira. 

O futebol, como estamos cansados de saber, é diferente dos demais negócios. 

A concorrência entre clubes é peculiar. Um concorrente precisa do outro para obter sucesso. A “quebra” de um grande clube no Brasil certamente prejudicaria o sucesso de seus concorrentes. 

Mas não é só o concorrente que deve se preocupar com a saúde do outro clube. As autoridades públicas também. É claro que não se pode abrir mão de exigências legais aplicáveis às atividades dos clubes. Porém, é interesse de ordem pública a existência dos clubes de futebol. Com a grande popularidade desse esporte, os grandes beneficiários do jogo são as comunidades locais que, para além do entretenimento, também podem utilizar os clubes como modo de inserção social, oportunidade de emprego, enaltecimento da dignidade humanda, e por aí vai.

Nesta medida, muito se discute sobre qual seria a justa medida de se ajudar os clubes a manterem-se vivos, saudáveis e, acima de tudo, cumpridores de suas obrigações legais e contratuais.

Na Europa, centro e precursora dessas discussões, está sendo plantada uma semente. A criação de um órgão continental de controle de gestão de clubes. Seria uma espécie de órgão fiscalizador, mas com uma grande contribuição consultiva.

Para o sucesso dessa iniciativa, todos os “stakeholders” seriam chamados para compor sua administração: ministros do esporte, representantes de ligas, clubes, federações e jogadores.

A idéia seria orientar os clubes, de forma harmonizada, a como agir, como gastar seus recursos, e como melhor administrar seu dia-a-dia.

Uma questão importante seria o alcance desse órgão e para que competições sua “licença” seria indispensável. Campeonatos continentais, nacionais (e, no caso do Brasil, estaduais)?

Essa discussão teve lugar no fórum de ministros esportivos da Europa que acaba de acontecer em Biarritz, na França.

Mas, como toda discussão democrátiva, as opiniões não são unânimes. Há países que concordam, outros que incentivam, outros que não tem opinião formada, e outros ainda que já são radicalmente contra (uma vez que esse órgão poderia ferir a soberania dos órgãos nacionais).

Importante é acompanharmos os debates, e sempre aproveitar a oportunidade para refletirmos se isso poderia ser aplicado no Brasil, ou na América do Sul.

Para isso, temos que levar em consideração as distintas realidades. Aqui ainda mais distintas ainda, uma vez que a realidade do Mercosul é profundamente distinta da União Européia.

Mas há sempre considerações que seriam válidas se a discussão fosse levada ao nosso país. Temos que abrir discussões nesse sentido em nosso país. Estamos convencido de que os clubes brasileiros, se melhor estruturados, teriam a possibilidade de “segurar” grande parte de seus jogadores que atualmente vão ao exterior.

Os clubes precisam de ajuda, e o governo sabe disso. Não só pelos clubes em si, mas pelo “capital emocional” injetado na população brasileira, que leva o Brasil (principalmente o Brasil) a lucrar todos os anos com esse esporte.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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O papel do marketing no futebol

Eis que Alexandre Kalil, o novo presidente do Atlético-MG, resolveu dar uma reformulada geral no departamento de marketing do clube, aparentemente demitindo quase todo mundo e concentrando nas próprias mãos as negociações com patrocinadores e afins.

E eis que esse ato gerou um certo burburinho no mercado, onde não param de palpitar discussões sobre tal decisão. Alguns acham que foi certo, muitos acham que foi errado. E eu, que não tenho absolutamente nada a ver com isso, também não tenho absolutamente nenhuma conclusão a respeito do ato.

Na verdade, é tudo uma questão de ponto de vista.

Para justificar tal postura, o novo presidente do Galo aparentemente argumenta que as principais negociações sobre os principais canais de receita do clube, como patrocínio, negociação de direitos de transmissão e venda de jogadores, serão devidamente tocadas por ele mesmo, enquanto outras receitas menores, como licenciamento, franquias e afins, serão terceirizadas.

É uma filosofia justificada.

As principais receitas dos clubes de futebol, em sua maioria, são de fato negociadas por cargos mais importantes da escala hierárquica e dificilmente precisam de um projeto mais elaborado para aumentar a barganha da negociação. São receitas consolidadas com pouquíssima volatilidade. Um departamento de marketing de um clube de futebol não negocia jogadores, por exemplo. Esse processo raramente depende diretamente de uma estratégia comercial direcionada, sendo, na verdade, um processo muito mais reativo do que pró-ativo. Ter um departamento de marketing bem estruturado, neste caso, dificilmente implicará num aumento considerável no valor da transferência. Não que justifique toda a operação do departamento, pelo menos. O mesmo vale para os direitos de transmissão, que somados às receitas com transferências, compõem metade do total arrecadado por um clube.

Um bom departamento de marketing implica em custos bastante elevados, uma vez que é necessário pagar bons profissionais e abastecê-los com uma estrutura física e tecnológica condizente com o seu potencial.

Os resultados que esse bom departamento pode trazer é uma maior aceitação do mercado pela marca, o fortalecimento da imagem institucional e a organização e potencialização de alguns canais de receita sub-explorados. Fora isso, pouco pode se fazer além, uma vez que uma das máximas do marketing no futebol é que não existe ação de marketing melhor do que uma vitória. E vitória se constrói com futebol, e não com marketing. Um bom programa de marketing traz mais torcedores ao estádio. Uma boa vitória traz muito mais.

A questão é que para saber aproveitar todo o valor de um clube, é imprescindível que exista um departamento de marketing bem estruturado. Mas não adianta ter os melhores profissionais com a melhor estrutura se não tiver resultado dentro de campo para ser explorado. E isso, aparentemente, é o que o presidente do Atlético-MG pensa. 

A filosofia adotada parece ser simples: uma marca mais forte não implica diretamente em resultados dentro de campo, mas o resultado dentro de campo implica diretamente em uma marca mais forte.

Não é certo, tampouco errado. É somente uma perspectiva.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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O respeito à lógica do jogo e a hierarquização de princípios

Ao iniciar a construção de um Modelo de Jogo (MJ), o treinador de futebol deve ter claro quais são todos os elementos que farão parte do mesmo. Quase que simultaneamente, ele deve ordenar esses elementos em ordem de importância, ou seja, criar uma estrutura hierárquica. Porque tão importante quanto a quantidade de variáveis e, conseqüentemente de possibilidades que um MJ contém, é a forma organizada (podemos dizer também ordenada) com que essas variáveis se manifestam.

Para exemplificar, podemos imaginar uma equipe que entende o movimento coletivo necessário para realizar pressão na linha 5 (pressão em bloco alto), porém seus atletas não têm muito bem definidos quais os referenciais que ativarão essa busca pela bola (se um passe para trás ou a bola em determinada zona do campo), fazendo com que a equipe fique em estado de “confusão organizacional”, com os atletas tomando decisões que não respeitem à mesma orientação, aumentando a possibilidade do adversário livrar-se dessa situação pelos espaços gerados.

O neurocientista Antônio Damásio, em seu livro “O Erro de Descartes” (1994), propõe alguns conceitos interessantes para essa discussão. Concebendo a razão como sendo baseada na seleção automatizada, ele nos dá a seguinte solução:

1) se a ordem tiver de ser criada entre as possibilidades disponíveis, nesse caso elas terão que ser ordenadas;
2) se tiverem que ser ordenadas, então são necessários critérios;
3) os critérios são fornecidos pelos marcadores-somáticos, que exprimem, a qualquer momento, as preferências cumulativas que recebemos adquirimos.

Portanto, tendo várias possibilidades, elas têm que ser ordenadas. Para isso, são necessários critérios que são fornecidos pelos marcadores-somáticos, entendido? Até certo ponto, sim, mas o que me define os critérios que servirão de base para essa ordenação? O primeiro e essencial critério é colocar a LÓGICA DO JOGO como epicentro do processo de treino. Em nenhum momento pode-se subestimar a lógica do jogo como balizadora da construção do MJ. Como podemos acompanhar na figura abaixo, temos os Princípios Estruturais e os Princípios Operacionais se correlacionando, porém, sempre num nível subjacente à lógica do jogo devido às importantes funções que eles têm como ferramentas para cumpri-la da maneira mais eficaz possível.

Figura 1 – Nível primário de Hierarquia para construção do Modelo de Jogo

Para Amieiro (2005), ao se referir à organização defensiva, pensa que o todo, as relações a privilegiar entre as partes que o constituem (os jogadores), e as tarefas a realizar por cada uma delas isoladamente, serão diversos em sua manifestação, de acordo com as referências que se consideram e a respectiva hierarquização (estabelecimento de prioridades). Nesse trecho do referido autor, vemos claramente uma referência à necessidade de ordenação de princípios na estruturação do processo defensivo e como só assim é possível que um grupo de jogadores atue como uma equipe, com interdependência e inter-relação no jogar. Também se pode interpretar que o autor está referindo-se à hierarquia no nível apenas dos Princípios Estruturais e Operacionais e a relação entre os dois, não considerando a relação de ambos com a o cumprimento da lógica do jogo.

Para estruturar a hierarquia é necessário estabelecer critérios, prioridades, que serão definidos a partir do conhecimento que o treinador tem sobre o jogo, o que ele considera fundamental sua equipe realizar para vencer partidas. Jamais será garantia de vitória ter melhor amplitude ou bascular de forma mais equilibrada que o adversário, porque os princípios só ganham significado quando estão a serviço do cumprimento eficaz da LÓGICA DO JOGO. Nela, encontram-se as explicações para as vitórias e as derrotas, e o profissional do futebol que compreendê-la integralmente, provavelmente não mais perderá partidas (até que um segundo profissional realize o mesmo).

Bibliografia

Amieiro, N. (2005) Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar … bem, ganhando! Edição do Autor. 2005.

Damásio, A. (1994) O Erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras. 1996.

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Zezinho do Scout: Cruzeiro x Flamengo

Olá amigos, vamos, hoje, fazer uma análise do jogo Cruzeiro x Flamengo que embolou de vez a briga pela Libertadores.

Vamos avaliar a postura defensiva, lembrando sempre que nas nossas análises expomos algumas variáveis apenas, no intuito de explorar possibilidades interpretativas. Pois, mais uma vez, reafirmo que a diferença de um scout é a interpretação dada a informação e a sua conseqüente intervenção.

Avaliando no contexto geral a questão dos desarmes completos* duas informações nos remetem a importantes acontecimentos no decorrer do jogo. Observemos a tabela de ocorrências da concentração de ações dos jogadores. Percebam como a análise do número é vinculada a função do jogador, ou seja, não é uma simples leitura de número. Ela já esta sendo cruzada com outra variável (função), e mais adiante ainda incluímos uma terceira variável, o campo de jogo.

Henrique, Thiago Ribeiro e Ramires (que uns consideram volante, outros não) foram responsáveis por 50% da retomada da posse de bola da equipe do Cruzeiro, com ação direta sobre os adversários, enquanto que, nesse período, pelo Flamengo Juan, Leo Moura e Jailton, jogadores com atuação mais defensiva (ainda que os laterais flamenguistas apóiem bastante) se responsabilizaram por quase 65%.

   

Tal informação me chamou a atenção imediatamente em relação à capacidade de marcação da equipe do Cruzeiro no campo ofensivo. Pelos números de seus jogadores com participação ofensiva maior, em relação aos adversários, percebe-se um dado que nos remete ao posicionamento da equipe e à execução de funções defensivas mais a frente.

Indo para a visualização do campo nota-se como o Cruzeiro retomou mais bolas no campo ofensivo.

Com um posicionamento mais a frente e com o combate de seus volantes que saem muito para o jogo e do atacante Thiago Ribeiro, a equipe cruzeirense conseguiu segurar a criação do Flamengo desde lá de trás, impedindo na maioria das vezes uma seqüência de troca de passes, que não foi totalmente anulada, basta ver o segundo gol flamenguista com uma seqüência de cerca de 12 passes com participação de 8 jogadores diferentes, começando com o goleiro Bruno. Mas foi, sem dúvida, uma grande arma da equipe mineira.

Hoje, de forma bem simples encerramos nossa coluna trazendo esse toque sobre como dados sem muita complexidade podem ser trabalhados e interpretados. Lógico, existem muitas outras variáveis, mas aos poucos tentamos mostrar todas. Até a próxima.

Zezinho do Scout

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Nem o maior dos poliglotas fala o “Futebolês”

Olá, como você está? “Hello, how are you?” “¿Hola cómo está usted?” “Hallo, wie geht es?” “Ciao, como siete?” “Bonjour, comment vais tu?” “Mina san ohaio gozamashita. Yohoshico onegashimas.” “E aí parcero, beleza?”

Imagino que o leitor não tenha a mínima idéia do que esteja acontecendo! A começar pelo título, aparentemente fútil e que se utiliza de um neologismo. Para completar, um primeiro parágrafo misturando várias línguas sem uma justificativa clara. Você está curioso? Confuso? Se a resposta for “sim”, conseguimos atingir nosso objetivo até o momento. Mas, por quê? Por que deixar o leitor ávido por conhecimento em sua busca desenfreada pela capacitação, sem entender a essência do que está escrito? Caro leitor, isso tem um motivo. E é justamente sobre isso que discorreremos.

Segundo Gilberto Craidy Cury, co-fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Neurolinguística, é função do profissional de comunicação saber gerar o interesse público a partir de seu trabalho. O ato de escrever ou falar é um fato libertador, pois é uma forma de resgatar lembranças em processos de realização pessoal e profissional. A informação é a matéria prima da notícia, do fato em si. A comunicação é a forma pela qual será transmitida essa informação. É ai que reside o segredo do sucesso: Como transmitir essa mensagem, pois além de ser agradável para quem a recebe, a comunicação bem feita garante como retorno a credibilidade.

Fazendo uma parada nesta breve, porém profunda introdução de Gilberto Cury, indagamos: será que é função apenas do profissional específico dessa área ter conhecimento acerca da comunicação? Ou todos aqueles que diariamente “trabalham com pessoas”, “vendendo idéias”, possibilitando o aprendizado, deveriam se aprimorar em como transmitir uma mensagem? Será que apenas o conhecimento técnico e o uso rebuscado do português bastam? Ou precisa de um “algo mais”? Afinal, o que o futebol tem a ver com tudo isso?

Não é segredo para ninguém que o meio do futebol (assim como qualquer outro nicho social) possui peculiaridades que o distingue dos demais. Tais peculiaridades variam, desde a forma de se vestir até a forma de se comunicar. Como dito, tal fenômeno é natural da organização social humana e apesar de ser mais visível na adolescência (quando passamos a buscar de forma mais intensa nossa “identidade”), se estende por todas as fases da vida. Para exemplificar esses diferentes nichos e características, basta observar as peculiaridades do público em um show de rock; em um show de reggae; em um congresso médico em um encontro de motos etc.

Sabe-se que, por “linguagem” (uma das peculiaridades do nicho), deve-se compreender não só a palavra falada, mas também a postura corporal e o tom da voz de quem informa. De acordo com Albert Merabian, no seu livro “Silent Messages”, durante o ato de se comunicar, o poder de influência das palavras em si não passa de 7%, enquanto a forma (entonação de voz) e a comunicação não-verbal (gestual) representam 38% e 55% deste poder, respectivamente. Essa informação, mais a constatação de que um dos fatores que distingue um comunicador brilhante de um medíocre é o uso que se faz da linguagem e que uma característica comum a todos os grandes oradores (desde Abraham Lincon até Gandhi) é o carisma, avançamos um pouco mais naquilo que o texto ousa tratar.

A Programação Neurolingüística (PNL) pode ser resumida como um conjunto rico de ferramentas e técnicas de comunicação, através das quais o indivíduo aprende a se conhecer melhor, viver melhor e a atuar de maneira positiva nas situações que o cercam. O farto material que aborda a aplicação dos princípios da PNL propiciou o surgimento de um conceito simplista sobre o assunto. Muitos julgam erradamente que a PNL se restringe a um conjunto de fórmulas e meios fáceis para se atingir determinados objetivos. Refratária a essa idéia, a consultora Catherine Cudicio, em seu livro “PNL e Comunicação a Dimensão da Criatividade”, enfatiza o conceito de interlocutor criativo, afastando a PNL das abordagens mecanicistas da comunicação para aproximá-la da psicologia cognitiva. Em suma, as pessoas formam representações mentais de suas experiências, por que cada um de nós experimenta o mundo de forma única, individual, interpretando a realidade de nosso jeito. Interpretar, nesse caso, significa modificar informações sensoriais através de valores, critérios e objetivos que se tem no momento. Através da linguagem podemos entender uns aos outros nesse mundo onde as pessoas são tão diferentes.

Baseado em tudo aquilo que foi dito até então, vimos por meio desse fomentar uma discussão corriqueira em nosso cotidiano de trabalho. O cerne do nosso debate jaz na forma, ou seja, no como passar a informação na relação técnico-atleta. Será que se deve fazer obrigatoriamente uso de um português refinado, erudito, academicamente correto ou deve-se utilizar a linguagem mais eficaz no momento, nem que para isso o emissor reproduza palavras simplórias e “gírias” peculiares do nicho futebolístico? Se o objetivo é ser entendido e ter sucesso na comunicação com o intuito de ganhar a credibilidade do atleta, será que a linguagem não tem que se adequar ao público receptor?

Nesse sentido, cabe ao profissional responsável ter a sensibilidade e conhecimento suficiente para lidar com diversos tipos de atletas (desde aqueles que tiveram vasto estímulo educacional até aqueles que não possuem o básico), nunca perdendo de vista seu papel de educador, acima de tudo. Todavia, a distância entre o emissor e o receptor deve ser finamente ajustada no processo de comunicação, para que não ocorra, por exemplo, o que aconteceu com o leitor no início do texto, quando utilizamos a mesma expressão “Olá, como você está?” em diversas línguas (inclusive no “futebolês”!). Dependendo da situação, mesmo em português, alguns atletas podem ter a mesma sensação (de não entender nada!). Resumindo, tudo é uma questão de didática e, dependendo do contexto, mais vale um “vai dentro do zagueiro!” do que “utilize a relação 1 contra 1 e progrida individualmente em direção ao alvo”, ou mesmo “bate com a perna ruim, pô!”, do que “finalize com a perna não-dominate!”! Para finalizar, um comentário “futebolês” emitido por um atleta acerca do texto descrito:

“Que qué isso hein professa! Fera hein! Tah deitando…Que experi monstro…Tá fazendo um-dois com quem? Tah até metendo texto em site na net…Que estrutura é essa, rsrsrs!”.

PS: Qualquer dificuldade no entendimento da última expressão não é mera coincidência com o título do texto!

*Renato Buscariolli de Oliveira é Bacharel em Treinamento Desportivo e Mestrando em Biologia Funcional e Molecular – IB – Unicamp

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Em busca do motivo

A definição cada vez mais próxima do Campeonato Brasileiro pode representar um divisor de águas para o jornalismo esportivo no país. Mais do que desejo de um sonhador, a arrancada decisiva e definitiva do São Paulo, a persistência do Grêmio, a inconstância do Cruzeiro, a empolgação do Flamengo e o desalinho do Palmeiras mostram para o jornalista que o futebol hoje é algo muito diferente daquilo que ele acreditava há questão de cinco anos.

Quando a imprensa bradava a “europeização” do principal campeonato do país, o fazia em busca de alguma coisa que não entendia direito o que era. Calendário racional, mais dinheiro, estádios mais bonitos, platéias lotadas, craques em campo… No fundo, no fundo, a idéia era de que, ao ter um campeonato em pontos corridos, sem fórmulas malucas e com continuidade, teríamos um futebol brasileiro endinheirado e emocionante.

Agora, na sexta edição do Brasileirão por pontos corridos, corremos o grande risco de ter tido três deles com o mesmo campeão, algo inédito na história do país que se gaba ser o “do futebol”. E, numa típica mania brasileira, iremos perguntar em dezembro: “A culpa é de quem?”.

Por que temos sempre de tentar achar um “culpado” para quando acontece algo que não prevíamos ou, então, que não queríamos que acontecesse? E por que o Brasileirão por pontos corridos não é tão legal quanto parecia ser?

Pode ser porque continuamos a exportar nosso pé-de-obra, porque não melhoramos as condições em nossos estádios, ou então porque insistimos em tratar o torcedor como gado, e não como o mais precioso dos consumidores (é bem da verdade que muitos clubes já “descobriram” que a fórmula mágica é essa, e não a maneira como se disputa a competição).

Mas a verdade é que a aparente falta de “diversidade” que o Brasileirão por pontos corridos promove nada mais é do que a essência de sua fórmula. O mais preparado vence, não fica a mercê da oscilação nervosa de uma final, de um mata-mata.

Pergunte a quem joga qual modelo é melhor. A incerteza de uma decisão ou a constância dos pontos corridos? Ou, ainda, pergunte a quem gerencia um clube. É melhor não saber até quando o time tem de atuar ou é preferível saber todas as datas em que a equipe entrará em campo com mais de um ano de antecedência?

Os pontos corridos mudaram o conceito de muita gente no futebol. Falta a imprensa deixar de ter a mente tão tacanha, igual àquela que fez os pontos corridos serem obrigação para a CBF. O fato é que se aproxima uma mudança de conceito na cabeça da imprensa brasileira. E ela, necessariamente, passa pela arrancada são-paulina. Coroando um trabalho de continuidade, de manutenção de fórmulas que deram certo, de reposição de peças que não funcionam, de manutenção daquelas que fazem a engrenagem andar.

É hora de a imprensa olhar um pouco além do mero resultado. Não buscar o culpado, mas o motivo. Só assim as coisas evoluirão.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br