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Será que tinha alguma placa na área penal?

Duras críticas têm sido feitas ao futebol brasileiro nos últimos tempos. Como afirmou o zagueiro corintiano Paulo André, estamos numa encruzilhada, tentando observar as engrenagens dos motores holandeses, espanhóis, portugueses e alemães. As críticas são feitas, pois sabemos o enorme potencial que temos, porém, que é subaproveitado por inúmeros fatores culturais, administrativos e técnicos.

Diante disto, a busca por um bom futebol passa necessariamente pelo acompanhamento de jogos do continente europeu, mais especificamente do melhor campeonato de clubes do mundo. E numa semana de clássico pela Uefa Champions League 2011/2012 entre Milan e Barcelona, acompanhar as prévias para este jogo seria a atitude mais racional.

No entanto, como estas equipes são mais comumente analisadas pelos resultados conquistados e, por isso, estão em maior evidência, o meu olhar se volta ao Olympique-FRA que, juntamente ao Apoel-CHI, é a surpresa das quartas de final da competição.

Para isso, a observação dos jogos da equipe francesa contra a Inter-ITA, válidos pelas oitavas de final, foi feita para compreender alguns princípios de jogo ofensivos e estimar o desempenho dos comandados por Didier Deschamps na sequência da competição.

É importante mencionar que a coluna foi iniciada antes do confronto contra o Bayern-ALE, porém, encerrada após o conhecimento (sem acesso às imagens) da derrota por 2 a 0.

O Olympique-FRA está estruturado na plataforma 1-4-2-3-1, como pode ser observado na figura abaixo:

 

O elenco que participou da primeira partida, vencida pelos franceses por 1 a 0 foi: Mandanda; Azpilicueta, Diawara, N’Koulou e Morel; Diarra e Cheyrou; Amalfitano, Valbuena e Ayew; Brandão.

No jogo de volta, em que os italianos venceram por 2 a 1, Cheyrou e Brandão deram lugar a Mbia e Remy, respectivamente.

O início da construção ofensiva do Olympique-FRA impressiona: amplia muito bem o espaço efetivo de jogo, tem boa circulação e chega com a bola dominada com progressão em velocidade no último quarto do campo. E é nesta parte do terreno, onde deveria impor comportamentos de jogo que são tendências nas equipes de alto nível do futebol mundial, que a equipe de Marselha simplifica (e banaliza) seu bom futebol.

As características dos jogadores permitiriam uma sequência de combinações ofensivas bem diferentes das que foram predominantemente observadas durante os jogos analisados.

Azpilicueta poderia manter a circulação da posse com os volantes e com Valbuena; Morel poderia aproveitar suas movimentações em diagonal e se aproximar dos setores de finalização, Valbuena poderia potencializar seus recursos técnicos no corredor central com tabelas, dribles e assistências em penetrações de Amalfitano, Ayew ou Remy.

Com os apoios constantes dos laterais, as movimentações dos meias abertos poderiam ser mais efetivas se gerassem superioridade numérica em setores mais perigosos ao adversário. Ainda é possível mencionar a possibilidade de maior participação dos volantes neste momento (e terreno) do jogo, o recuo entre linhas de Brandão para dificultar a marcação adversária e um maior aproveitamento de Remy, que sai bem da área, porém, não é acionado.

O que se viu nos dois jogos nos últimos 25 metros do campo se resume nos vídeos abaixo:

 


 

Apesar de apresentarem bons princípios de jogo para os demais momentos e até para boa parte da organização ofensiva, a maneira que o Olympique-FRA busca cumprir a Lógica do Jogo não condiz com o bom e belo futebol.

Como o jogo é imprevisível, pode ser que um chutão despretensioso termine em gol, como o que Brandão fez e classificou a equipe francesa para as quartas de final.

Para terminar, menciono o comentário de Vítor Frade em uma de suas aulas (daquelas que tenho gravadas) que ouço com regularidade.

Ele afirma que em alguns jogos de futebol parece que colocaram a seguinte placa na área penal: “É proibido tocar a bola no chão”.

Será que Deschamps a colocou e eu não a vi? Como vemos, não são só as equipes brasileiras que precisam rever alguns conceitos.

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

 

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Joao Pesquero, coordenador do “Atletas do Futuro”

Desde que dava os primeiros passos em sua infância, João Bosco Pesquero nunca se contentou com explicações superficiais. O tempo passou, e durante a faculdade costumava falar com os amigos que tinha o desejo de descobrir os segredos do universo. Pouco depois, o olhar deste cientista inato se voltou aos mistérios da vida. Por isso ele acabou migrando para a área biológica.

“Sempre achei que a Medicina era uma coisa muito atrasada, e eu entendia que deveria haver uma integração maior entre a área básica, que produz o conhecimento, e a área clínica, mais aplicada. Via uma lacuna muito grande entre esses dois pontos, e aqui, no nosso departamento, tentamos criar uma ponte entre eles”, explica Pesquero, nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol.

Químico de graduação na USP e com pós-graduação em Ciências Biológicas e Medicina Molecular pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Instituto Max-Delbrück para Medicina Molecular na Alemanha, Pesquero foi chefe do Departamento de Biofísica e diretor do Centro de Desenvolvimento de Modelos Experimentais para Medicina e Biologia (Cedeme) da Unifesp. E atualmente também coordena o projeto “Atletas do Futuro”.

Trata-se de um grupo de pesquisadores de diferentes ambientes acadêmicos brasileiros ligados à área de genômica, proteômica, bioinformática e fisiologia do exercício. O alvo comum: consolidar no Brasil estes conhecimentos com aplicação ao ambiente esportivo.

“Hoje, a genética está envolvida em todas as áreas do ser humano, e ainda temos uma noção pequena disso. É o futuro. A influência será geral”, avalia Pesquero. “O jovem pode não ser um atleta de elite, mas deve ter a opção de um treinamento adaptado para que se beneficie e não tenha prejuízos na vida”.

O projeto pretende usar todas as informações retiradas da parte genômica e associar com as mais diversas modalidades. Quanto maior o banco de dados, melhor a ferramenta a ser desenvolvida.

“As pessoas devem perder o medo e participar disso [do projeto]. Quero que meu filho tenha sucesso e que ele se desenvolva bem dentro do esporte, com base e orientação, independentemente de ser um atleta de excelência”, acrescenta Pesquero, que está à frente do pioneiríssimo 1o Simpósio Brasileiro de Genômica e Esporte, a ser realizado no fim de junho.

Além do anseio de criar uma condição para manter crianças no esporte e atrair mais jovens a ele e, por consequência, melhorar a saúde da população e desenvolver atletas de elite, o “Atletas do Futuro” também agregou o futebol. E o Palmeiras foi o primeiro clube a aceitar participar dos testes cedendo os jogadores do departamento profissional.

“No clube, a ideia é trabalhar mais intensamente na área de lesões. Eles têm alguns atletas com problemas constantes, e estamos analisando alguns marcadores que predispõem lesões para ver se conseguimos usá-los na melhora do próprio treinamento, prevenção e reabilitação”, finaliza Pesquero.

Genômica e Esporte: a importância do tema no cenário científico e tecnológico do país

 

Universidade do Futebol – Em que patamar se encontra a aplicação da Biologia Molecular no futebol?

João Bosco Pesquero – Diagnóstico molecular é algo muito incipiente no Brasil, inclusive na área médica. Existem muitos estudos na área de genética que temos de mandar para fora. No nosso laboratório, fazemos [análise de] 10 a 15 doenças diferentes. Não é nada. São milhares de doenças determinadas geneticamente, e não temos diagnóstico genético para isso.

Demora meses para termos um retorno. E se é um caso crítico, como câncer de mama, em que a mulher necessita saber da resposta urgentemente, ela corre o risco de morrer.

Existe um medo da universidade em interagir com essa parte comercial. Passar esse desenvolvimento para os laboratórios é necessário. Temos conhecimento, está dentro da universidade. Os pesquisadores geralmente estão muito envolvidos com seus projetos e se esquecem de que temos problemas práticos.

Baseado nisso, começamos a fazer o que chamamos de genotipagem. Iniciamos com uma doença, a demanda começou a crescer, viramos referência e hoje fazemos mais de 15 doenças. A amostra do paciente é olhada na parte genética e verificamos se há alguma mutação que possa significar problema médico. Ou o SUS não paga se não houver a comprovação molecular.

Você tem de achar a parte molecular que explique aquela correlação molecular com a doença. O gene é algo complicado. Nos apegamos a uma “parte”. E muitas vezes olhamos para a “parte” errada. É necessário olhar o RNA, os “pedaços grandes” que foram apagados. E com os exames básicos que fazíamos, não conseguíamos detectar.

Podemos nos deparar com marcadores que achamos que podem estar ligados a determinada lesão, mas não podemos afirmar. Você tem de ter um estudo com muitos atletas para se ter noção e confiança do que se fala. E quando houver determinada alteração característica, conseguimos determinar alguns perfis e protocolos.

Grandes ídolos do esporte participam do projeto “Atletas do Futuro”, como os judocas João Derly e Márcia Martins da Costa, e o tenista Gustavo Kuerten (centro)

 

Universidade do Futebol – Do que se trata o projeto “Atletas do Futuro”?

João Bosco Pesquero – O projeto surgiu com a parte médica, que está muito ligada ao esporte. Ao criar este banco de dados de conhecimento da parte genômica, muitas vezes verificamos não apenas uma vantagem esportiva, mas também uma desvantagem.

Há um caso chamado Síndrome de Marfan. As pessoas que sofrem dela são mais altas, com seus membros alongados. E faz parte desta síndrome um acometimento cardíaco.

Ao olhar para a altura daquela pessoa e ao colocá-la para jogar determinada modalidade, pode haver o risco de ela ter uma parada cardíaca em quadra. É um exemplo.

Não se pode colocar qualquer pessoa para fazer qualquer esporte. É importante cada um saber dos riscos. Em muitos casos, marcadores dão uma predisposição a você ter um problema cardíaco. E a pergunta é: por conta desta probabilidade eu vou deixar de fazer este esporte? É importante saber. É uma faca de dois gumes, pois pode te impedir de determinada atividade física. Ter conhecimento para se prevenir é o ponto primordial.

Costumo citar um exemplo de Hepatite C. As pessoas querem saber se têm Hepatite C ou não? Hoje em dia é quase obrigatório fazer este teste. Trata-se de uma doença silenciosa. Se você demorar a descobrir, seu fígado pode estar tão comprometido que você tem de ir a um transplante e pode morrer. E muita gente está morrendo disso, pois o exame preventivo não é feito e nenhum tipo de cuidado com a alimentação é tomado.

Para muitas doenças que não têm cura será que eu quero saber? Eu quero para poder prevenir e tomar algumas medidas para minimizar os efeitos ou retardar o aparecimento da doença. Quero saber também pensando no futuro: e meus filhos? Vou querer passar esse legado para eles? São algumas questões éticas que temos de discutir e devem ser levadas à tona.

Esse também é um dos motes do nosso simpósio relacionando a genética e o esporte. A ideia não é excluir, mas incluir. Estimular o debate nesta área crescente.

Criar não apenas uma predisposição a coisas boas, mas também olhar marcadores para prevenção. Isso é muito importante. O jovem pode não ser um atleta de elite, mas deve ter a opção de um treinamento adaptado para que se beneficie e não tenha prejuízos na vida.

“Não se pode colocar qualquer pessoa para fazer qualquer esporte. É importante cada um saber dos riscos“, avalia Pesquero

 

Universidade do Futebol – Quais são as peculiaridades desta proposta?

João Bosco Pesquero – O início do projeto foi mais ou menos baseado na história da nossa experiência com a parte de diagnóstico molecular para a área médica. Hoje, a genética está envolvida em todas as áreas do ser humano, e ainda temos uma noção pequena disso. É o futuro. A influência será geral.

O que vou comer? Minha carga genética indica que eu digiro melhor determinado tipo de alimento – é o que chamamos de nutrigenômica. O que eu vou passar de cosmético, uma substância que interage com alguns genes e aumenta a produção de elastina e colágeno? Isso acontece e pode ser que eu tenha marcadores que me predispõem a responder melhor a uma destas substâncias – daí pensar em um cosmético personalizado, para que eu tenha menos problemas de envelhecimento, etc. Isso é genética e está presente no cotidiano. A farmácia genômica é outro ponto interessante. Será a genômica personalizada. E rumamos também para o esporte.

Acreditamos nisso, a ideia nasceu, e tentamos criar algo dentro do esporte de modo integrado com a medicina esportiva para tentarmos promover uma evolução dentro da área, aproveitando obviamente a época propícia que nosso país vive.

Queremos usar todas as informações que pudermos tirar da parte genômica e associar com as mais diversas modalidades. Quanto maior nosso banco de dados, melhor a ferramenta a ser desenvolvida.

As pessoas devem perder o medo e participar disso [do projeto]. Quero que meu filho tenha sucesso e que ele se desenvolva bem dentro do esporte, com base e orientação, independentemente de ser um atleta de excelência.

O alvo é criar uma condição para manter crianças no esporte e atrair mais crianças a ele. Por consequência, vamos melhorar a saúde da população e desenvolver atletas de elite.

Universidade do Futebol – Como se deu o contato com o Palmeiras e o ingresso no clube para o desenvolvimento deste projeto?

João Bosco Pesquero – Temos vários colaboradores na Unifesp e a ideia é agregar. Ninguém faz nada sozinho, temos plena noção disso, e chamamos várias pessoas de modalidades esportivas diferentes para participarem do plano, começando pelo judô.

Os professores Fúlvio Alexandre Scorza e Ricardo Mario Arida tinham feito um trabalho específico com o Douglas, medalhista de prata em Los Angeles. Expliquei a ideia, e ele abriu as portas com outros judocas. Ele, Aurélio Miguel, Edinanci, etc., participaram.

O Paulo Correia, que trabalha na fisiologia e é ex-atleta, também aprovou a sugestão e tinha uma proximidade com o Paulo Zogaib, fisiologista do Palmeiras. A partir daí as portas foram abertas.

No clube, a ideia é trabalhar mais intensamente na área de lesões. Eles têm alguns atletas com problemas constantes, e estamos analisando alguns marcadores que predispõem lesões para ver se conseguimos usá-los na melhora do próprio treinamento, prevenção e reabilitação.

Você pode coletar as informações a partir do sangue, da urina, do cabelo, da pele, e da saliva – na realidade, as células da mucosa, com um cotonete, as quais contêm material genômico do atleta para análise. É um procedimento simples, nada invasivo, e muito fácil de ter a cooperação dos pacientes.

Para fazer o que pensamos, uma análise metabolômica, pós-genômica, como costumamos falar (análise de proteínas, carboidratos, lipídios), a fim de determinar um perfil do atleta de elite, vamos precisar de outros referenciais. Buscamos padronizar isso para desenvolver um tipo de teste, ampliar o estudo e ter uma ferramenta muito confiável.


No alto, Edinanci Silva; no centro, Aurélio Miguel; abaixo, Ricardo Arida, Joao Bosco Pesquero, o medalhista olímpico de Los Angeles Douglas Vieira e Fulvio Scorza

 

Universidade do Futebol – Qual é o diferencial deste trabalho de recolhimento genético e de cruzamento de dados com o que é realizado em outros clubes de grande expressão no mundo, como o Real Madrid?

João Bosco Pesquero – A diferença é que nosso projeto é muito mais amplo e queremos criar uma ferramenta muito mais confiável. E para isso é necessário um “N” muito grande de atletas e das mais variadas modalidades. Porque queremos associar marcadores genéticos com performance esportiva em diversos esportes.

Além disso, o objetivo é poder orientar crianças no esporte em geral. E para isso precisamos pegar atletas de elite de todas as modalidades que existem.

No caso do Palmeiras, temos o olhar para o futebol profissional. E seria muito interessante contar com a participação de outros clubes para aumentar este lastro de informações.

O Palmeiras está sendo pioneiro com a abertura desta possibilidade de criar uma ferramenta que mais tarde irá servir para todos os rivais do Brasil.


 

Universidade do Futebol – Por que os clubes só estão dando os primeiros passos agora nesta interação com estudos ligados à biologia molecular?

João Bosco Pesquero – Eu acredito que haja muita falta de informação. Esta área de genômica esportiva no Brasil é muito pouco desenvolvida. Daí nasceu a idéia de criar o simpósio para trazer os grandes nomes do mundo e discutir com nossos pesquisadores.

É algo muito precoce em nosso país, e nossos especialistas que trabalham com esporte têm muito pouco conhecimento e noção da parte genética e genômica e suas implicações. Por conta disso, estamos tão atrasados com esse tipo de estudo.

Demos o primeiro passo e pretendemos levantar a discussão, em uma época em que estamos no centro das discussões sobre o esporte. Está mais do que na hora, se quisermos melhorar as capacidades esportivas de nossos atletas. É importante debater.

Universidade do Futebol – A relação custo e benefício de um projeto envolvendo a genômica é um impeditivo para que os clubes e federações passem a investir nisso, ou você diria que é mesmo a falta de informação certificada?

João Bosco Pesquero – Eu acredito que realmente falta aos dirigentes ter a devida noção de que há um benefício a partir destas informações genéticas no ambiente esportivo. Isso não é algo claro, mesmo em termos globais.

As discussões sobre uso de determinado marcadores estão ocorrendo, mas aos poucos isso está começando a se concretizar, bem como a correlação da genômica com o desempenho esportivo.

Vamos deixar o mundo se caracterizar para depois entrar no debate e criar um banco de dados nosso? Vamos olhar para os marcadores e compará-los com os da Europa, da China, da África?

Ao desenvolver um projeto como este, passamos a ter um olhar próprio, brasileiro, da nossa população, e vamos comparar as diferenças entre o nosso povo.

A base de dados com quem você compara a sua população normal deve ser a própria. E não a da Índia. Aí, sim, poderemos afirmar que se a criança tiver determinada característica, ela vai te dar alguma diferença para determinado esporte.

Referências no Atletismo, André Domingos, Marilson dos Santos e Joaquim Cruz também participam do projeto

 

Universidade do Futebol – É possível chegar em um equilíbrio da predisposição genética de uma criança para determinado esporte relacionando-se a aspectos mais globais (culturais, maturacionais, psicológicos, sociais, comportamentais, psíquicos, etc.)?

João Bosco Pesquero – Acho que no futuro vamos conseguir utilizar isso como mais um parâmetro. Mas genética não é tudo. O atleta pode ter toda a parte genômica privilegiada para desempenhar um tipo de esporte, mas o psicológico, o cognitivo deste cidadão não ajuda.

Não adianta colocar uma criança, por exemplo, em um ambiente no qual ela não se sinta bem. Apesar de uma estrutura físico-muscular consolidada. E ela não se beneficiará disso.

A alimentação, as relações humanas, o conjunto, etc. é o que irá moldar o atleta. São vários os fatores que interferem no desenvolvimento para se tornar um atleta de elite que vão determinar o sucesso ou não.

E às vezes, mesmo a pessoa não tendo uma estrutura determinada pela genética, ela possui valências psicológicas, uma força de vontade gigantesca, que fará com que ela compense as deficiências e se torne um grande judoca, por exemplo.

O que falamos é pegar pessoas que têm estrutura ótima e colocá-las para fazer o esporte “certo”. Em um ambiente interessante. Trata-se de um ajuste de caminho.

Você pode fazer com muito esforço um pangaré vencer uma corrida. Mas ele nunca se tornará um cavalo de corrida. Mas se pegar um cavalo de corrida, com predisposição genética, e treiná-lo bem, certamente ele pode se tornar um vencedor. Com menos exigência do que seria com o primeiro.

Universidade do Futebol – Guardadas as devidas proporções, e levando o contexto para o futebol, podemos exemplificar com o Messi: “baixinho”, com dificuldade de chute e passe com seu pé não dominante, mas que apresenta características incríveis?

João Bosco Pesquero – Ele é o maior do mundo. Esse tipo de jogador é raro. Se você pegar atletas excepcionais das mais diversas modalidades, eles são raros. A ferramenta tem a intenção de fazer aparecer mais atletas de excelência.

Pegá-los como parâmetro, os top, é o ideal. Eles percorreram todo um caminho e chegaram ao ápice em suas profissões. Muitos casos vão destoar dos outros. Porque muitos vão “negar” as predisposições genéticas e revelarão que conquistaram seus resultados positivos muito por conta de outros fatores.

Queremos pegar coisas comuns na maior parte dos atletas. Por isso queremos cada vez mais contar com mais atletas e nos tornarmos um facilitador na escolha da modalidade esportiva.


 

Universidade do Futebol – O trabalho desenvolvido no Palmeiras irá considerar aspectos pedagógicos, técnicos, táticos, motivacionais, nutricionais, além de vários outros fatores que interferem no máximo desempenho de um jogador de futebol?

João Bosco Pesquero – O futuro irá dizer. Dependendo da confiança das informações a partir dos estudos iniciais, a ideia é que se parta para um treinamento personalizado, para uma nutrição personalizada. Você olhar para o atleta como um indivíduo e adaptar todas as componentes do jogo àquelas características particulares. É como eu vejo o futuro.

Quanto tempo isso irá levar? Depende de quanto esforço vai ser colocado neste tipo de estudo para que tiremos conclusões aplicáveis.

 

Pioneiro, Palmeiras abriu as portas para os estudos e montagem de um banco genômico/metabolômico; rivais poderão se beneficiar 
 

 

Universidade do Futebol – Como você enxerga a inserção do bioquímico e do biotecnólogo no ambiente de um departamento de futebol profissional, em se considerando a necessidade de um trabalho interdisciplinar?

João Bosco Pesquero – Seria extremamente importante ter dentro de um clube uma pessoa com esse tipo de visão, para nortear os treinamentos e os conhecimentos daqui para frente. Esse tipo de informação deve ser levada aos clubes.

Universidade do Futebol – As universidades já conseguiriam ofertar esse tipo de profissional mediante a demanda do mercado esportivo?

João Bosco Pesquero – Acredito que sim. O conhecimento acerca da área é pequeno, mas as pessoas provenientes da academia têm capacidade de entender rapidamente o contexto e promover um maior desenvolvimento da área.

É importante os clubes se abrirem e manterem esse tipo de visão e interação. O desenvolvimento do esporte passa por isso.
 

O papel da genética no processo de seleção, formação e detecção de talentos no futebol

 

 

Universidade do Futebol – Em uma entrevista, você comentou sobre sua formação em Química, com especialização em Ciências Biológicas e Biologia Molecular, e revelou que partiu para esta área para “descobrir os segredos do universo”. É isso mesmo?

João Bosco Pesquero – É mais ou menos isso (risos). Desde pequeno, nunca me contentei com explicações superficiais. E na época da faculdade costumava falar com meus amigos que tinha o desejo de descobrir os segredos do universo. E depois passei a querer descobrir mais os mistérios da vida. Por isso fui para a área biológica.

Sempre achei que a Medicina era uma coisa muito atrasada, e eu entendia que deveria haver uma integração maior entre a área básica, que produz o conhecimento, e a área clínica, mais aplicada. Via uma lacuna muito grande entre esses dois pontos, e aqui, no nosso departamento, tentamos criar uma ponte entre eles.

Somos especialistas em Biologia Molecular e desenvolvemos conhecimento para que a área médica clínica se beneficie dele. A ideia da minha carreira era essa.

Uma coisa que me preocupa muito é desenvolver a área médica. Somos muito atrasados e dependentes da tecnologia estrangeira. E poderíamos fazê-lo aqui. Estamos em uma zona de conforto. Temos capacidade. E tenho comentado muito a respeito de empreendedorismo aos meus alunos. Falar na universidade destas questões comerciais era algo que sempre causava muito medo.

Hoje tenho uma visão de que esta parceria é muito importante. Para o país é importante ver a universidade fazendo o desenvolvimento e passando à empresa, que irá comercializá-lo e disponibilizá-lo à população. Consequentemente, todos iremos nos beneficiar.
 

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Mais uma tragédia

No ultimo fim de semana, o torcedor brasileiro assistiu estarrecido à mais uma tragédia. Em um confronto envolvendo cerca de 300 torcedores de Corinthians e Palmeiras, o torcedor do clube alviverde, André Alves Lezo, de 21 anos, foi baleado na cabeça e morreu. Tal fato trouxe à tona a efetividade do Estatuto do Torcedor no combate à violência.

Importante destacar que o Estatuto do Torcedor tem a função primordial de estabelecer uma série de direitos a um consumidor específico, ou seja, o consumidor de eventos esportivos. Dentre estes direitos encontra-se o direito à segurança nos estádios.

Tenho analisado as leis antiviolência nos países sulamericanos e não há duvidas de que a legislação brasileira tem a melhor e mais completa redação. Mas, é preciso conferir aplicabilidade ao Estatuto do Torcedor para que ele tenha legitimidade e produza maiores resultados.

O Estatuto do Torcedor trouxe uma série de conquistas, especialmente, no que diz respeito à proibição das gerais e da instalação de cadeiras em todo estádio. Por outro lado, ainda há muito o que fazer, como a implantação de centrais de atendimento ao torcedor, entre outros.

No caso específico, ocorrido no último domingo, o clube mandante e a Federação Paulista possuem responsabilidade objetivas pelos danos causados aos feridos e à família do torcedor morto. Para tanto, é indispensável que cada torcedor lesado acione o Poder Judiciário.

A conscientização e o conhecimento da Lei pelo torcedor são os maiores instrumentos para o aumento do respeito aos seus direitos e, por consequência, para o fim da violência nos estádios.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br
 

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AC Milan vs FC Barcelona: as relações sistêmicas e os elementos do jogo

Apoiando-me em algumas ideias do professor português Julio Garganta, publicadas em 1998, sobre os jogos desportivos coletivos, vou tentar traçar uma análise um pouco diferente a respeito do jogo entre AC Milan e FC Barcelona pela 1ª partida das quartas de final da Uefa Champions League 11/12, jogada na Itália – que terminou empatada sem gols.

Com um olhar sistêmico sobe o jogo de futebol, gostaria então de me fixar nas relações (e interações) entre alguns elementos básicos para a dinâmica do jogo: o jogador, a bola, os companheiros, os adversários e o alvo.

Esses elementos, segundo o professor português Julio Garganta, produzem relações distintas, que, para o aprendizado e a evolução do jogar, podem ser enunciadas em relação "eu-bola" (centro na familiarização, controle e ação do jogador com a bola), relação "eu-bola-alvo" (centro no objetivo final do jogo através do arremate), relação "eu-bola-adversário" (centro na combinação de habilidades, na conquista e manutenção da bola; além da busca à finalização quando transformado em “eu-bola-adversário-alvo”), relação "eu-bola-colegas-adversários" (combinação de habilidades, com transmissão da bola e exploração de conceitos de defesa e de ataque) e relação "eu-bola-equipe-adversários" (com aproximação do jogo formal e exploração de princípios de jogo, de defesa e de ataque).

Dentro do objetivo máximo do jogo (não confundamos com lógica do jogo) está a necessidade de se fazer gols.

Então, em linhas gerais, independente das relações que são criadas e mais praticadas no desenvolvimento de jogadores e equipes (relação “eu-bola”, relação “eu-bola-adversário”, etc.), é fato, que em algum momento do processo de treinamento, toda “relação” previamente criada deverá interagir com o alvo (“eu-bola-alvo”, “eu-bola-adversário-alvo”, etc.).

Pois bem.

A equipe do FC Barcelona apresenta, faz alguns anos, uma relação muito forte com a bola. Ela (a equipe) quer muito tê-la sob o seu controle. Seus jogadores centram suas ações em recuperá-la o mais rápido quanto possível, para a partir daí fazê-la circular pelo campo de jogo.

Para fortalecer a relação que gosta de ter com a bola, o FC Barcelona também fortalece a relação “eu-companheiro”.

Enquanto o “eu-bola” constrói e desenvolve a relação individual do jogador com a bola, o “eu-companheiro”, acaba por centrar o desenvolvimento dos jogadores na percepção das ações de seus colegas de equipe.

Isso quer dizer o seguinte: dentro do jogo, a ação dos jogadores da mesma equipe é simultânea e interfere e influencia na movimentação uns dos outros. Cada jogador precisa, o tempo todo, perceber e interpretar a ação do seu companheiro – enquanto ele e os outros fazem o mesmo.

Jogadores “emitem” sinais a partir da maneira como agem, e esses sinais devem ser desvendados o tempo todo pelos seus pares.


 

Pois bem.

O que o FC Barcelona faz para fortalecer o “eu-bola” é transformá-lo, ao invés de um “eu-bola-companheiro” (o que é mais comum), em um “eu-companheiro-bola”. Ele inverte a ordem das relações.

E como o objetivo final é ter controle sobre a posse da bola, a relação “eu-companheiro” é toda construída em função disso.

O problema (que não nunca tem sido problema) se tornou virtude. Fortalecer em demasia o “eu-companheiro” pode acabar (como aconteceu na equipe catalã) gerando um “eu-companheiro-bola” mais forte do que um “eu-bola-alvo” ou um “eu-bola-companheiro-alvo”, tornando muito distante a relação entre o “eu” e o “alvo”.

Não que o FC Barcelona tenha problemas com o alvo – o que pode dever-se (ou não) ao fato de ter um ou dois jogadores, com ótima e mais forte relação sistêmica com o gol, do que com os companheiros.

O fato é que no jogo contra o AC Milan (que defensivamente parece ter uma forte relação “eu-companheiro-bola”), o FC Barcelona em muitos momentos decisivos privilegiou o “eu-bola” e até o “eu-bola-alvo” (muito mais do que o habitual).

Outra coisa importante é que a equipe italiana conseguiu em uma fração significativa do jogo, quando da marcação em bloco alto, mostrar forte relação do seu “eu-bola” (o que não lhe parece típico, como mencionei no parágrafo anterior).

Como está mais acostumada a enfrentar equipes que não se mostram fortes no “eu-bola” defensivo (principalmente em bloco alto), a equipe catalã teve dificuldades para fazer valer seu “eu-companheiro-bola” para chegar até o alvo – o que a influenciou algumas vezes a quebrar essa sua forte relação sistêmica.

Outra coisa importante a se destacar é que a equipe do Milan apresentou ao FC Barcelona relações do tipo “eu-bola-alvo” e “eu-bola-companheiro-alvo” muito mais fortes do que a equipe catalã está acostumada a enfrentar.

Como, dentro destas relações, o time italiano conseguiu otimizar a distância e o tempo entre o “eu” e o “alvo”, teve chances reais de fazer um gol.

E o que será do segundo jogo?

Sob seus domínios, com a grama milimetricamente aparada, torcida contagiante, e cabeça no lugar para dar “força” às relações que realmente são “fortes”, provável que aconteça o de sempre: no mínimo, um excelente espetáculo…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br  

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Terceirização de atividade fim

O tema desta semana guarda relação com a reportagem da Gazeta do Povo (talvez o principal jornal do Estado do Paraná), publicada no dia 20 de março com o título “Dívida atrela Paraná à Base por 10 anos”.

Explicando sinteticamente: o Paraná Clube terceirizou suas categorias de base há pouco mais de quatro anos para uma empresa chamada “Base”, que construiu um Centro de Treinamento e operava o seu departamento, trabalhando desde a captação de atletas, à formação e comercialização dos mesmos.

O modelo, que já foi testado inúmeras vezes em outros clubes no passado e nunca funcionou, parece, quase que invariavelmente, aos olhos dos dirigentes, algo espetacular: “ora, deixo de ‘gastar’ com os garotos e ainda ganho um troquinho lá na frente se um deles vingar. Transfiro o risco do negócio para terceiros e posso investir toda a minha ‘fortuna’ no time principal”, pensam os “sabidões”.

Acontece que, depois de um tempo, começam a surgir conflitos de interesse. O investidor a querer se desfazer rapidamente dos primeiros talentos, para obter retorno financeiro rápido, passando a negociar atletas inclusive com clubes rivais.

O clube a reclamar que os jovens atletas não são aproveitados na equipe profissional passando a pensar que poderia ganhar muito mais se tivesse preparado bem o processo de transição da base para o time de cima.

O resultado acaba sendo o mesmo em todos os casos que acompanhei: um grande passivo para o clube e um eterno recomeço para as categorias de base – lembrando que um trabalho decente e sério de formação de atletas tende a dar seus primeiros frutos a partir do seu 10º aniversário (fazendo um cálculo rápido para ilustrar: se identificarmos um potencial talento aos 10/12 anos, o mesmo será trabalhado ao longo do tempo até os seus 20/22 anos, quando tende a despontar na equipe profissional, completando o ciclo de 10 anos mencionado…).

Por fim, os dirigentes têm dificuldade em entender a importância das categorias de base além da venda de direitos federativos dos jogadores no futuro – negócio este que passa hoje por um período “conturbado” em razão da crise do mercado mundial e do início de um controle mais rígido da Uefa ante os clubes europeus, com a instituição do “Fair Play Financeiro”.

Investir em atletas tem um valor intangível fundamental, que vem desde a formação não só de jogadores, como também de novos torcedores no caso de o trabalho ser bem implementado com crianças e adolescentes.

Da mesma maneira, o atleta formado no clube tende a guardar uma relação emocional de maior valor com o mesmo, facilitando sua identificação com a torcida.

Enfim, terceirizar atividade fim, além de ilegal, é um péssimo negócio no longo prazo para quem o faz. Valendo lembrar que tenho acompanhado alguns noticiários de outros clubes de pequeno e médio porte a seguir a insana atitude de terceirizar um de seus maiores patrimônios: as categorias de base.

Ironicamente falando: talvez estes tenham dificuldade em acessar o “Google” para checar o que aconteceu consigo mesmo no passado ou com outros clubes coirmãos que acabaram por sucatear a formação de atletas para entes alheios a sua agremiação.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:
Confira especial da Universidade do Futebol sobre trabalho desenvolvido nas categorias de base dos clubes brasileiros
 

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1ª pesquisa PLURI sobre o potencial de consumo das torcidas brasileiras

Quando decidimos fazer o estudo sobre o potencial de consumo das torcidas brasileiras, nossa principal motivação foi a de melhor qualificar as já conhecidas pesquisas de preferência de torcida, há anos feitas e divulgadas em nosso país. Mais do que saber qual a maior torcida, para os clubes é absolutamente essencial descobrir onde estão esses torcedores, quanto eles tem de recursos disponíveis, e qual a propensão a consumir parte de sua renda com produtos relacionados direta ou indiretamente ao clube.

Claro que, para o torcedor em geral, é motivo de orgulho saber que seu time possui o maior número possível de torcedores e simpatizantes, isso faz parte do orgulho de grupo que ajuda a definir a própria torcida em si. Todavia, não podemos esquecer que é a partir da relação com seus torcedores-clientes que os clubes obtêm os recursos que, ao longo dos anos, permitirão montar equipes mais ou menos competitivas.

Em resumo, é o gasto de seus torcedores, transformado em receita para o clube, que permite maior capacidade de competição dentro de campo. Claro que, alguns clubes são melhor geridos que outros, conseguindo mais resultados com menos recursos, mas é inegável que existe uma relação direta (e crescente) entre o poder econômico e a capacidade de competição dos clubes, daí a importância de saber qual a condição de renda e a predisposição do torcedor em gastar parte desta renda com produtos e serviços associados direta ou indiretamente ao clube do coração.

Na fase de maturação do trabalho, tínhamos em conta que, mais importante do que mensurar o tamanho de cada torcida (até porque esse é um tema objeto de inúmeras pesquisas feitas no passado), era se concentrar numa questão mais importante e cuja resposta tem sido apenas superficialmente arranhada: Qual a renda de cada torcida, e quanto ela está disposta a gastar com o clube de coração?

A informação sobre a renda dos torcedores é crítica na definição de patrocínios e contratos de transmissão, pois, mais importante do que saber quantas pessoas torcem para cada equipe, é descobrir quanto elas tem de renda disponível para consumir os produtos e serviços que lhe serão oferecidos pelos clubes e seus parceiros. Empresas que patrocinam os clubes podem investir de forma mais qualificada ao segmentar melhor o seu público, de acordo com a renda e outras características sócio-econômicas da torcida. E os clubes também podem aumentar seu poder de barganha tendo uma melhor estimativa do tamanho do bolso de seus torcedores.

Uma vez definido o objeto da pesquisa, passamos para outro desafio, o de definir a metodologia para quantificar isso. Há carência de estudos a respeito do tema não só no Brasil, mas em todo mundo, razão pela qual temos que adotar um certo grau de inovação no trabalho que desenvolvemos. E voltamos à questão: como determinar o tamanho da renda dos torcedores?

O primeiro passo para isso foi identificar onde residem os torcedores de cada clube. Por sorte, no Brasil podemos contar com a ajuda indispensável do IBGE (um dos melhores órgãos de estatística do mundo), cuja base de dados permite a mensuração de renda dos cidadãos e famílias Brasileiras por região, sexo, idade, faixa de escolaridade, etc. Portanto, a correta identificação da origem do torcedor é fundamental, pois possibilita aumentar o grau de confiança da estimativa.

Sabemos, por exemplo, que os torcedores que moram nos Estados do Sul e Sudeste tem, em média, uma renda bastante superior aos que moram no Nordeste. Também sabemos que, dentro do Estado de São Paulo, um torcedor que mora na Baixada Santista tem uma das rendas mais elevadas do País, contrastando bastante com moradores do Vale do Ribeira, região próxima, ainda no mesmo Estado.

Portanto, o cruzamento dos resultados apurados em nossa pesquisa com os dados do IBGE possibilitou chegarmos ao valor total da renda de cada torcida, o segundo passo para identificar qual o potencial de consumo de cada torcida.

Uma vez superada a tarefa de estimar a renda das torcidas, passamos para o desafio de mensurar o potencial de consumo delas. Ou seja, sabendo quanto os torcedores tem no bolso, precisamos descobrir que parte destes recursos eles estão dispostos a gastar com o clube do coração. Uma tarefa bastante complicada e que nos obrigou a fazer escolhas na hora de definir a metodologia.

Em nossa maneira de ver, o potencial de consumo depende basicamente de três condições:

1) Da Renda, cuja estimativa foi feita conforme explicado anteriormente;

2) Da disposição para consumir, que varia de torcida para torcida e é certamente a mais difícil variável de se mensurar. Apesar disso, sabemos que, em média, um torcedor que está próximo ao clube tem mais interesse por ele do que aquele que mora a centenas ou milhares de quilômetros de distância. Claro, sempre existem torcedores fanáticos espalhados pelo país, mas estamos tratando da média;

3) Da oportunidade de consumo, que depende da oferta e, portanto, da localização geográfica do torcedor. Ou seja, um torcedor que mora próximo ao seu time de coração terá mais oportunidades de consumo de produtos de seu time justamente em função desta proximidade. Por exemplo, ele pode ir ao jogo de seu time com muito mais freqüência, e encontrará uma oferta muito maior de produtos licenciados para comprar. Pode se tornar sócio-torcedor, comprar um camarote, etc.

Além disso, no ambiente do clube ele estará muito mais inserido no clima de rivalidade que por si só gera mais consumo. São os jornais, rádios e tv’s locais com seus vários programas que contribuem para manter o torcedor engajado no dia a dia do seu clube, incentivando-o a deixar claro de qual lado ele está perante os torcedores adversários, e uma das maneiras de se fazer isso é consumindo produtos do time (ingressos, planos de sócio-torcedor, camisas, produtos licenciados, etc.).

Por sua vez, um torcedor do mesmo clube, em uma cidade a 3 mil quilômetros de distância, tem muito menos condições de consumo, mesmo que tenha uma boa renda e um alto grau de paixão pelo clube. A começar porque ele dificilmente (ou nunca) poderá ir a um jogo de seu clube. Além disso, a possibilidade de consumir produtos de seu time é menor, pois há menos oferta (além de um índice maior de produtos pirateados) quanto mais longe se estiver da sede do clube. Também os planos de sócio e/ou sócio-torcedor oferecem, em sua maioria, poucos atrativos para torcedores de outros estados, e por isso geralmente tem pouca adesão por parte deles. Os exemplos são inúmeros.

Portanto, em nossa metodologia consideramos que o torcedor que mora no estado sede do clube tem um propensão a consumir consideravelmente superior ao torcedor que mora em outros estados. É verdade que possuir torcedores por todo o Brasil é um ativo de grande valor, devendo ser melhor aproveitado pelos poucos clubes que podem se dar ao luxo de contar com esses torcedores. Abrir lojas franqueadas é um bom exemplo, assim como ampliar a oferta de produtos licenciados.

Todavia, os clubes muitas vezes não fazem esse trabalho a contento por uma questão de custos, já que é mais barato (e gera um retorno maior) investir em ações junto ao público que está próximo à sede do clube.

Ao final do estudo, a principal conclusão que chegamos é que há um grande volume de recursos disponível em mãos (e bolsos) dos torcedores brasileiros, esperando para serem convertidos em receitas pelos clubes e seus parceiros. A questão é se está sendo oferecido ao cliente (lembrem-se, o torcedor é um cliente), um produto no nível adequado ao que ele espera. Portanto, não se trata de se perguntar se o torcedor tem ou não os recursos, e sim se ele está ou não disposto a pagar o que lhe pedem em contrapartida ao produto que é oferecido.

Para ler o
relatório completo, clique aqui.

*Economista, Especialista em Gestão e Marketing do Esporte e Pesquisa de Mercado.

Contato
: fernando@pluriconsultoria.com.br

Twitter: @fernandopluri

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Periodização Tática e a extinção do preparador físico. Será?

Ao passar dos anos novos métodos de aplicação de treinos surgem e com eles novos conceitos e crenças voltadas para a manipulação de exercícios e linhas de pensamentos relacionadas a visão do desporto ou até mesmo do mundo fitness.

Essas inovações percorrem uma linha tênue entre inovação ou atualização dos conceitos e métodos de aplicação de treino, ou até mesmo exercícios, aparelhos ou acessórios de treinamento.

No futebol, as atualizações e inovações estão sempre atrás do mercado de treinamento desportivo – na maior parte das vezes, quando algo novo é lançado e inserido no mercado, demanda muito tempo para os profissionais que norteiam o futebol aprenderem e buscarem coragem para aplicar esses métodos dentro do desporto.

Ao longo dos anos, diversos métodos de aplicação de treinamento iniciaram uma mudança nos métodos de preparação física dentro do futebol, especialmente dentro da aplicação dos treinos de força e do treinamento funcional.

Contudo, nas últimas décadas, praticamente não havia mudanças dentro dos treinamentos técnicos e táticos, e quando ocorriam as pequenas mudanças pouco se modificava dentro do panorama geral de treino.

Sob esse panorama, apareceu um novo método de aplicação de treinamento dentro do futebol conhecido como Periodização Tática. Formulada pelos portugueses, tendo como grande mentor Vítor Frade e como grande “garoto propaganda” o técnico José Mourinho.

Esse método é complexo e de grande valia e parte do princípio que tudo no jogo se resolve e dentro do sistema de jogo, através do treinamento e da postura tática dos atletas.

São formas fantásticas de organização dos sistemas ofensivos e defensivos com suas devidas transições que, na minha opinião, vieram revolucionar a forma ortodoxa como que o futebol era tratado dentro dos aspectos técnico e tático mundialmente.

Segundo os autores e seus seguidores, todos os componentes que regem o alto rendimento do futebolista moderno são treinados e solucionados com treinamentos complexos e voltados para o sistema de jogo. As características técnicas, cognitivas, de preparação física, entre outras são treinadas exclusivamente dentro do Modelo de jJogo.

Dentro dessa linha de jogo, nenhum treino nem exercício deve ser realizado fora do sistema de jogo, nem de forma complementar. Com isso todos os exercícios são executados dentro da postura tática determinada e traçada previamente pelo técnico e seus assistentes.

A inovação foi solidificada e com isso inúmeros seguidores começaram a aplicar esse método de treino e perceberam que conseguiam êxito dentro dos jogos e competições; por razões claras e óbvias, abriram mão dos treinos técnicos/ táticos gerais e inespecíficos e iniciaram uma aplicação totalitária de forma específica e com isso os resultados apareceram como um “passe de mágica”.

A intensidade do treinamento é algo determinante dentro desse complexo e bem elaborado método de treinamento. Todos os treinos são realizados de forma específica e intensa, com baixa duração do treino.

Através desse método, uma teoria básica do treinamento desportivo foi seguida: “aumenta a intensidade e diminui o volume”.

Isso apesar de simples nos desportes em geral, no futebol era algo de difícil acesso, pois em via de regra quem sempre aplicou os treinos técnicos eram os treinadores, que copiavam os modelos de treino que fizeram na época que atuavam como atletas: volume alto e uma intensidade baixa.

Com isso se tornava um ciclo vicioso, onde todos sempre executavam os mesmo treinos sem inovação e mudanças, pois todos sempre faziam a mesma coisa, sem parar para analisar.

Com essa alta intensidade do treino com bola e a observação dos treinos equivocados e inespecíficos aplicados pelos preparadores desatualizados (corridas longas, intervaladas, entre outras….), os autores desse métodos e obviamente seus seguidores criaram uma nova linha de análise para o treinamento do futebolista moderno.

Segundo os adeptos dessa linha de treino, não existe mais o preparador físico, e sim os assistentes do técnico, que executarão os treinos apenas voltados para os sistemas de jogo, sem nenhuma carga inespecífica de treinamento.

Seria com isso a extinção do preparador físico?

Claro que não! Temos que analisar com calma e com discernimento, sem radicalismo, essa questão.

Poucos defendem a especificidade dentro da preparação física dentro do futebol como eu; penso que todos os treinos, independente da característica da carga (geral ou específica), deve seguir o princípio da especificidade. Treinos inespecíficos devem sim ser abolidos, e não a figura do preparador físico.

Outro detalhe relevante seria a análise da aplicação do sistema de jogo para o aprimoramento completo do condicionamento do futebolista que é defendido pelos seguidores do método.

A aplicação dos treinamentos com bola, com mini campos, jogos amistosos e jogos oficiais já são o suficientes para o ganho e manutenção da resistência específica do atleta de futebol (Sargentim e cols, 2008), já não é novidade há muito tempo.

Mas o ganho e a manutenção da força e impensável dentro desse método. Os autores afirmam (sem nenhuma base científica) que com a aplicação do sistema de jogo o atleta de futebol ganha força específica através das diversas mudanças de direção em virtude do ciclo alongamento encurtamento.

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Com todo o respeito que tenho pelo método, e o admiro muito, essa afirmação é um equívoco – aliás, é uma grande besteira. É impossível sem uma sobrecarga atingir o alto rendimento em qualquer linha de treinamento, em especial no que concerne a força.

O treino específico com bola é, sim, um grande ganho, porém caracterizado como transferência ao treinamento de força prévio realizado antes de entrar no campo de jogo.

Obviamente estamos falando de treino de força específica, com pesos livres, acessórios ou até mesmo o peso corporal; não estamos em nenhum momento citando, nem tampouco, propondo treinos em aparelhos de musculação, que além de não ajudarem, atrapalham o desenvolvimento da reatividade do futebolista.

Os treinos de força citados são atividades realizadas em cadeia cinética fechada, com ou sem saltos, contudo, sempre de forma específica ao desporto.

Um dos princípios básicos do treinamento desportivo é o princípio da sobrecarga, que em conjunto com o princípio da especificidade regem o treinamento moderno independente da modalidade.

Esse dois princípios que são respeitados pelos autores da Periodização Tática em que, através do sistema de jogo, aumenta-se o sobrecarga de treino, o deixando mais intenso e denso, proporcionando ao futebolista uma especificidade total na aplicação do treino com bola.

Contudo, o princípio da sobrecarga não é respeitado na aplicação do treino de força dentro desse método. Apenas adaptar o sistema neuromuscular do futebolista aos sistemas de jogo, por mais intenso que seja, não gera nenhuma sobrecarga para o ganho, nem tampouco manutenção de força; pelo contrário: se não for bem trabalhada, causa perdas significativas de força ao futebolista.

Para se gerar uma sobrecarga dentro do treino de força, deve-se colocar obstáculos para que o futebolista possa desafiá-los e vencê-los, que passam por levantar pesos, saltar, ou até mesmo tracionar obstáculos
como o trenó; depois desses exercícios, a transferência para o Modelo de Jogo seria, sim, o complemento para possibilitar ao atleta um ganho de força e posteriormente uma adaptação específica dentro do campo de jogo.

Com esse método bem sincronizado, o ganho de velocidade seria consequência natural, pois a junção de um treino de força bem equilibrado e uma transferência plena para o treino específico possibilitariam ao futebolista um ganho objetivo e imediato de velocidade específica de deslocamento em campo (mudança de direção).

Com isso, posso afirmar que como estão dizendo os autores e seguidores do método que o cargo de preparador físico esta em extinção, é um grande equívoco, pois esse cargo está em adaptação a uma nova forma de se treinar e atuar.

A função do preparador físico moderno cada dia mais será de treinar e possibilitar ao atleta de futebol um ganho equilibrado de força específica para, em campo, com o sistema de jogo através dos métodos específicos, seguir os conceitos da Periodização Tática e conseguir render em alto nível não apenas durante os 90 minutos, e sim ao longo de toda temporada competitiva.

Vale uma reflexão aos seguidores assíduos do método que por muitas vezes não analisam e apenas repercutem aquilo que leem e principalmente observam dentro dos treinamentos as falas das pessoas que defendem a Periodização Tática.

Não é possível um futebolista atuar mais de 50 jogos sem um treino de força que proporcione um equilíbrio muscular e um lastro de rendimento que suporte a temporada competitiva, por isso que clubes que seguem os princípios da Periodização Tática, como Barcelona, Real Madrid e Chelsea (para não citarmos mais) aplicam, sim, protocolos rígidos de treinamento de força para possibilitar o alto rendimento dos seus atletas.

Por mais que as pessoas que ditam a regra sobre o método digam que não, é uma inverdade: os treinos são executados, sim, e de forma completa ao longo da temporada competitiva.

O que certamente está se extinguindo é o preparador físico tradicional que apenas manda correr sem se preocupar com as decorrências específicas do treinamento do desporto. Cada dia mais o preparador físico no futebol é aquele que proporciona um equilíbrio muscular ao atleta de futebol através do ganho de força específica.

É necessária a atualização constante dentro do treinamento desportivo e em especial no futebol. A Periodização Tática veio ao encontro dessa necessidade, contudo afirmar que está acabando o cargo de preparador físico é um erro tão grande quanto a petulância dos criadores do método.

*Sandro Sargentim é preparador físico de futebol e autor do livro “Treinamento de força no futebol”. Além disso, é docente no curso de pós graduação em Treinamento Desportivo – UNiFmu/Gama Filho e Treinamento Funcional – Ceafi e coordenador da pós graduação em Ciências no Futebol – UniFmu.

Leia mais:
Bruno Pivetti, preparador físico do Audax São Paulo e autor do livro “Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios”
 

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Princípios estruturais: atividades práticas para compactação defensiva e bloco

Na coluna “Princípios estruturais: atividades práticas para apoio e mobilidade”, iniciei uma discussão que terá seu segundo capítulo nesta semana.

Esta série vem para discutir algumas atividades que podem ser utilizadas para o desenvolvimento de determinados princípios estruturais de jogo.

Discutirei nesta oportunidade a compactação defensiva e o bloco. Ambos se configuram como princípios de defesa e, como destaquei em coluna anterior, eles servem para deixar o campo “pequeno” quando a equipe está sem bola, dificultando, assim, as investidas do adversário.

Vamos à definição dos princípios:

A compactação defensiva, segundo Bangsbo e Peitersen (2002), Parreira (2005) e Leitão (2008) é a orientação espacial que tem por objetivo manter as linhas de marcação da equipe próximas umas das outras; em outras palavras, visa manter as linhas de defesa, meio-campo e ataque compactadas.

O objetivo desse princípio é evitar espaços entre as linhas de marcação e evitar assim a criação de apoios de adversário nessas regiões.


 

Já o bloco, segundo Leitão (2008) se refere à movimentação coordenada vertical (de linha de fundo à linha de fundo) de todos os jogadores da equipe a fim de manter a sua organização e evitar espaços entre suas linhas. Neste princípio, o objetivo é manter a organização das linhas de marcação nos momentos em que a equipe avança ou recua sua marcação no campo de jogo.

Vejam que os princípios se integram. Se a equipe não se movimentar em bloco, consequentemente perderá sua compactação defensiva. Já se não estiver compactada, o bloco ficará prejudicado.

Como sempre digo, tudo está conectado de uma forma complexa.

Pois bem, vamos para a prática!

Antes disso, vale ressaltar que cada atividade serve apenas para fins didáticos e as mesmas devem ser pensadas sobre a ótica da complexidade do processo.

Vamos lá!

Atividade 1

Descrição
– Atividade de 4 X 4 + 1 coringa; o objetivo da equipe que está fora do quadrado é manter a posse de bola utilizando o coringa colocado entre as linhas de marcação da equipe dentro do quadrado. Por sua vez, a equipe que se defende dentro do espaço é estimulada a pressionar o adversário mantendo sua estrutura organizada e compacta. Se a equipe recuperar a posse de bola, os papéis se invertem entre as equipes.

Regras e Pontuação
– Equipe marca 1 ponto quando trocar 5 passes.
– Equipe marca 2 pontos se fizer um passe certo para o coringa e o mesmo devolver o passe para qualquer jogador da mesma equipe.

Atividade 2

Descrição
– Atividade de 7 X 7 + 2 coringas; atividade realizada em meio-campo, em que o objetivo das equipes é explorar possíveis espaços entre as linhas de marcação do adversário. Os dois coringas jogarão sempre entre as linhas de marcação da equipe que está sem a posse de bola, estimulando, assim, a equipe a manter a sua compactação defensiva e jogar em bloco quando recuar ou avançar no campo de jogo para pressionar o adversário.

Regras e Pontuação

Ataque
– Equipe marca 3 pontos se fizer o gol.
– Equipe marca 1 ponto quando fizer um passe para um dos coringas entre as linhas de marcação do adversário e o mesmo devolver o passe para qualquer jogador da equipe.

Defesa
– Equipe marca 2 pontos se trocar 8 passes entre si.
– Equipe marca 1 ponto quando fizer um passe para um dos coringas entre as linhas de marcação do adversário e o mesmo devolver o passe para qualquer jogador da equipe.

Atividade 3

Descrição
– Atividade de 11 X 11, coletivo com regras adaptadas. O campo será dividido em 6 faixas. A equipe que se defende deve ocupar as duas faixas subsequentes à região da bola, ou seja, se a bola estiver na faixa 2, a equipe deve ocupar as faixas 2 e 3. Exceto quando a bola estiver na faixa 1 – neste caso, a equipe pode ocupar 3 faixas (1, 2 e 3).

Regras e Pontuação

-Equipes marcam 3 pontos quando fizer o gol.

– Equipes perdem 1 ponto quando não estiverem nas faixas corretas do campo.

Chegamos ao fim do segundo capítulo!

Criem os seus, agora, que a série continua!

Até a próxima!

Para interagir com o colunista: bruno@universidadedofutebol.com.br
 

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Entrevista Tática: Gilsinho, atacante do Corinthians

Com a ajuda de um preparador físico com experiência em muitos clubes do futebol brasileiro (Primavera-SP, São Bento-SP, Atlético-PR, São José-SP, Náutico-PE, Figueirense-SC, Ituano-SP, Americana-SP, Guaratinguetá-SP), Guilherme Bérgamo, publico a coluna desta semana que traz a opinião de Gilsinho, atacante do Corinthians de 27 anos, recém-contratado e que fez seu primeiro gol com a camisa corintiana na décima quarta rodada do Campeonato Paulista, contra o Comercial-SP.

Obrigado, Guilherme, pelo contato com o Gilsinho. Felizmente ainda é possível encontrarmos pessoas que se mantêm acessíveis mesmo com sucesso profissional.

Abaixo, a opinião do jogador:

1-Quais os clubes que você jogou a partir dos 12 anos de idade? Além do clube, indique quantos anos tinha quando atuou por ele.

Até aos 16 anos na escola de futebol do município de Américo Brasiliense-SP; dos 17 aos 18 anos no Marília-SP; no Ituano-SP dos 19 aos 22 anos; Paulista-SP com 23 anos; Júbilo Iwata-Jap, dos 24 aos 27 anos e atualmente estou no Corinthians-SP.

2-Para você, o que é um atleta inteligente?

Um atleta inteligente é aquele que tem um comportamento bom, dentro e fora de campo.

3-O quanto o futebol de rua, o futsal ou o futebol de areia contribuiu para a sua formação até chegar ao profissional?

O futebol de rua foi muito importante para minha formação, porque foi onde tudo começou e eu tive meus primeiros contatos com uma bola.

Quantas horas por dia você ficava na rua jogando futebol?

Jogava bola na parte da manhã, ia pra escola na parte da tarde e de noite jogava novamente. Acho que dava umas três ou quatro horas.

4-Em sua opinião, o que é indispensável numa equipe para vencer seu adversário?

Jogar como equipe e ter obediência tática.

Como é possível fazer com que uma equipe crie obediência tática? Quais podem ser os problemas caso ela não ocorra?

No grupo, todos devem pensar no mesmo objetivo e acreditar no esquema tático do treinador. Acho que assim aumenta a chance de desenvolver. Se algum jogador não exercer a função pedida pelo treinador, fica difícil. Por exemplo: o treinador quer marcar pressão, a equipe sobe a marcação, mas tem um jogador que não. Aí já complica.

5-Quais são os treinamentos que um atleta de futebol deve fazer para que alcance um alto nível competitivo?

Tem vários trabalhos que são importantes em minha opinião: trabalhos técnicos, força, velocidade e agilidade.

Quais são os tipos de treino que você mais gosta? Descreva-os:

Com bola ou sem bola?

O que você preferir.

De trabalho físico prefiro os curtos e não os longos. Tiros de 30 e 40 metros por causa da minha posição. Gosto também de trabalhos com bola, campo reduzido, joguinhos. Eu acho que condiciona.

Pode dar um exemplo de um treino que o Tite dá que te deixa bem preparado pra jogar?

Num espaço reduzido, ele divide o campo em duas partes. Na defesa só pode dar três toques e no ataque é livre. Acho que deixa o jogo rápido lá atrás e dá liberdade para jogar ofensivamente.

6-Para ser um dos melhores jogadores da sua posição, quais devem ser as características de jogo tanto com bola, como sem bola?

Com a bola, jogar com dribles e velocidade para criar situações de gol; sem a bola, recompor para esperar o adversário de frente.

7-Quais são seus pontos fortes táticos, técnicos, físicos e psicológicos? Explique e, se possível, tente estabelecer uma relação entre eles.

Como pontos fortes táticos, jogar ofensivamente e fazer recomposição rápida; técnicos, as jogadas individuais; e psicológicos, um nível de concentração alto.

Consegue fazer alguma relação entre eles?

Acredito que, para render, tem que estar bem com a cabeça. Nunca sofri nada muito contínuo que afetasse minha concentração dentro de campo.

8-Pense no melhor treinador que você já teve! Por que ele foi o melhor?

Porque com ele jogava quem estava melhor e passava muita confiança para seus jogadores.

9-Você se lembra se algum treinador já lhe pediu para desempenhar alguma função que você nunca havia feito? Explique e comente as dificuldades.

Sim, eu me lembro muito bem. No começo não gostei, mas depois me adaptei e vi que era importante desempenhar duas funções.


 

Você pode mencionar qual era a função e falar sobre a adaptação:

No Japão, os meias não estavam bem e tive que desempenhar esta função por uma temporada. Eu tinha que acompanhar o lateral quando a jogada estava do meu lado e fechar nas linhas dos volantes quando a bola estava do lado oposto. Não gostei porque exigia muito mais de mim na marcação e porque ficava mais longe do gol. Fisicamente, também exigia muito e me “abafava”. Depois me adaptei e fui bem.

Eram duas linhas de quatro?

Isso. Eu jogava de meia do lado esquerdo.

10-Qual a importância da preleção do treinador antes da partida?

A importância é que o treinador passa as informações do time adversário, relembra o posicionamento da equipe, e aumenta o nível de concentração.

11-Quais são as diferenças de jogar em 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3, ou quaisquer outros esquemas de jogo? Qual você prefere e por quê?

Eu acho que o esquema tático depende muito dos jogadores que o treinador tem em seu grupo, mas eu gosto do 4-4-2 porque o time fica mais consistente no meio campo.

12-Comente como joga, atualmente, sua equipe nas seguintes situações:

•Com a posse de bola: jogar com trocas de passes e atacar pelos lados.
Assim que perde a posse de bola: assim que perde a posse de bola, tenta recuperar, se não conseguir, todos voltam atrás da linha da bola.
Sem a posse de bola: jogar compacto e todos marcam para roubar a bola sem falta.
Assim que recupera a posse de bola: se tiver oportunidade para fazer o contra-ataque, faz; senão, faz a posse.
Bolas paradas ofensivas e defensivas: nas bolas paradas ofensivas, deixar o espaço para atacar a bola e, nas defensivas, manter a linha e marcar por setor.

13-O que você conversa dentro de campo com os demais jogadores, quando algo não está dando certo?

Tento motivar meus companheiros, para conseguirmos reverter uma situação difícil.

14-Como você avalia seu desempenho após os jogos? Faz alguma reflexão para entender melhor os erros que cometeu? Espera a comissão técnica lhe dar um retorno?

Eu fico relembrando os lances que aconteceram e pensando no que eu poderia ter feito naquela hora para que esses erros não venham a se repetir. Poder escutar a comissão técnica para um diálogo é muito importante.

15-Para você, quais são as principais diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu? Por que existem estas diferenças?

A diferença é que o futebol brasileiro é mais cadenciado e o europeu é mais dinâmico.

Fale um pouco do Barça:

São jogadores com muita qualidade e que jogam muito tempo juntos. Todos atacam e todos defendem, inclusive o Messi, que é o melhor jogador do mundo. Tem também muita movimentação.

Você jogou entre 2008 e 2011 no futebol japonês. Compare-o com o brasileiro:

Tecnicamente o futebol brasileiro é superior. Só que futebol
japonês é muito dinâmico, tem muita marcação, muita correria, tanto que alguns brasileiros não conseguem se adaptar lá. Quando eu cheguei, dominava a bola e em seguida tinha três ou quatro jogadores em cima.

16-Se você tivesse que dar um recado para qualquer integrante de uma comissão técnica, qual seria?

A comissão tem que ser amiga. Saber o que o grupo quer para tentar tirar o máximo de cada um dos jogadores, porém, sempre tem que ter autoridade.

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:
Entrevista Tática: Dante, zagueiro do Borussia M’Gladbach-ALE
Entrevista Tática: Nei, lateral-direito do Internacional
 

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Daniel Gamba, cônsul do Grêmio em Los Angeles (EUA)

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense possui representação consular em mais de 30 países ao redor do mundo, fazendo-se presente em quase todos os continentes. E Nos Estados Unidos – mais especificamente em Los Angeles – não poderia ser diferente. Na maior cidade do estado da Califórnia, Daniel Gamba trabalha diariamente para fazer com que o tradicional clube gaúcho se torne cada vez mais reconhecido, a partir do estabelecimento da marca própria.

A inserção deste gremista de coração no ambiente do futebol, porém, começou dentro das quatro linhas do campo de jogo. Ele atuou no São Paulo, clube amador de Bento Gonçalves-RS, passando a jogar mais tarde no Clube Esportivo de Bento Gonçalves e ainda no próprio Grêmio. Sempre em categorias de base.

Ao obter o diploma em Comércio Exterior pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, recebeu uma bolsa para estudar e jogar futebol universitário nos Estados Unidos. Lá, graduou-se em Gestão Esportiva na Alliant International University de San Diego, CA, e fez um estágio para uma marca de material esportivo na Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão em 2002.

Desde então, Gambá vem se aprimorando por intermédio de estágios e trabalhos em diversos projetos e eventos esportivos de grande porte relacionados ao esporte, mas principalmente ao futebol. Em 2009, ingressou na Cartan Global, agência que possui os direitos de comercialização dos ingressos para as Olimpíadas e dos pacotes de hospitalidade com ingressos para as Copas do Mundo da Fifa em diversos países, mas na grande maioria da América Latina – onde trabalha até hoje.

“Meu único objetivo sempre foi, e será, de colaborar com o Grêmio na medida do possível, através dos meus contatos no futebol mundial, sempre em busca de uma aproximação de marcas mundiais investindo no esporte com o clube, além de apresentação de novas oportunidades no exterior para expandir a marca Grêmio em novos mercados e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores”, afirmou Gamba, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

De acordo com ele, cada consulado do clube tricolor tem basicamente uma função representativa: em outras palavras, deveria ser a imagem do clube em respectivo país, estado e cidade nos quais os mesmos estão localizados.

A atuação de cada um destes núcleos varia, passando pela organização de eventos de confraternização, atividades em busca de novos sócios na comunidade local e até excursões para jogos oficiais do Grêmio. Tal planejamento estratégico, diz Gamba, depende unicamente do respectivo cônsul e de seus adjuntos, uma vez que em grande parte os consulados não recebe um aporte financeiro para a realização dessas ações.

“Infelizmente, até hoje, poucos projetos saíram do papel, em grande parte por falta de interesse do próprio Grêmio em explorar esses mercados no exterior. Recentemente, o atual departamento de marketing do clube demonstrou maior interesse em buscar novos mercados, sendo assim, já estamos buscando viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente aqui nos Estados Unidos”, revelou o especialista em marketing esportivo.

Gamba entende que o Grêmio deve, sim, buscar uma expansão de sua marca e conquistar novos sócios-torcedores nos países vizinhos da América Platina, mas o foco deveriam ser os “mercados emergentes do futebol” e potencialmente os de gigantesca força na economia mundial, como a China.

“As oportunidades estão batendo na porta dos clubes brasileiros, não só do Grêmio. Quem acordar primeiro e souber capitalizar isso o mais rápido possível estará abrindo uma vantagem considerável em se comparando aos outros times do Brasil”, acrescentou Gamba.

Relacionamento com a área esportiva: de cima para baixo, Gamba com Guardiola, Francescoli e Havelange

 

Universidade do Futebol – Daniel, em primeiro lugar, fale um pouco sobre a sua formação acadêmica e sua atuação profissional no ambiente do futebol.

Daniel Gamba – Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer à equipe da Universidade do Futebol pela oportunidade. Espero em breve ver mais entrevistas nesse sentido de proporcionar aos leitores uma visão diferenciada sobre os aspectos extra campo, mas que influenciam de uma maneira geral, o esporte mais praticado no mundo.

O meu envolvimento e a paixão pelo esporte, principalmente o futebol, começou desde os cinco ou seis anos de idade jogando futebol nas categorias de base do São Paulo (um clube amador de Bento Gonçalves-RS, onde o Grêmio realiza suas pré-temporadas), passando a jogar mais tarde nas categorias de base do Clube Esportivo de Bento Gonçalves e ainda no próprio Grêmio.

Depois de obter o meu diploma em Comércio Exterior pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, recebi uma bolsa para estudar e jogar futebol universitário nos Estados Unidos. Estudei Gestão Esportiva na Alliant International University de San Diego, CA, e fiz um estágio para uma marca de material esportivo na Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão em 2002.

Desde então, eu venho me aprimorando através de estágios e trabalhos em diversos projetos e eventos esportivos de grande porte relacionados ao esporte, mas principalmente ao futebol. Além dos trabalhos de consultoria, eu estou desde o início de 2009 na Cartan Global, uma agência que possui os direitos de comercialização dos ingressos para as Olimpíadas e dos pacotes de hospitalidade com ingressos para as Copas do Mundo da Fifa em diversos países, mas na grande maioria da América Latina.

Universidade do Futebol – Como surgiu a ideia de criar um consulado do Grêmio nos Estados Unidos? Há outros consulados ligados às cores preta, azul e branca pelo mundo?

Daniel Gamba – Quando fiz minha mudança em definitivo aos Estados Unidos há mais de 10 anos, já havia alguns consulados do Grêmio por aqui. Anteriormente, eu, mesmo muito jovem, já era muito atuante no futebol no interior do Rio Grande do Sul, como cônsul adjunto do Grêmio em Bento Gonçalves-RS, minha cidade natal. Desde então, solicitei minha transferência para começar a representar o Grêmio aqui em Los Angeles, CA, onde estou vivendo já há alguns anos.

O Grêmio, um clube de reconhecimento mundial, possui representação consular em mais de 30 países ao redor do mundo, fazendo-se presente em quase todos os continentes.

Gamba na final da Copa do Mundo da África do Sul (acima) e na premiação dos melhores do Mundial do mesmo ano

 

Universidade do Futebol – O que representa um consulado ligado a um clube de futebol brasileiro em um país estrangeiro e qual é a sua função cotidiana à frente dele?

Daniel Gamba – Cada consulado do Grêmio ao redor do mundo tem basicamente uma função representativa – assim, deveria ser a imagem do clube em respectivo país, estado e cidade nos quais os mesmos estão localizados. O objetivo primordial é fazer do Grêmio um dos clubes mais reconhecidos do mundo, tendo sua marca presente nos mais diversos países.

Alguns consulados são muito mais atuantes do que outros, organizando eventos de confraternização, atividades em busca de novos sócios na comunidade local, e até excursões para jogos do Grêmio ao redor do Brasil e do mundo, entre outras diversas ações. Esse trabalho depende unicamente do respectivo cônsul e de seus adjuntos, uma vez que em grande parte os consulados não recebe um aporte financeiro para a realização dessas ações.

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre você, como representante oficial do clube, e a diretoria tricolor?

Daniel Gamba – No meu ponto de vista a relação é muito boa, não somente com a atual diretoria, mas também com diretorias de anos anteriores. A grande maioria dos clubes brasileiros é de grande influência de grupos políticos dentro do próprio clube. Imagino que, devido ao fato de eu não fazer parte de nenhum grupo político, posso ter esse diálogo aberto com distintas diretorias dos mais diversos e diferentes grupos políticos.

Meu único objetivo sempre foi, e será, de colaborar com o Grêmio na medida do possível, através dos meus contatos no futebol mundial, sempre em busca de uma aproximação de marcas mundiais investindo no esporte com o clube, além de apresentação de novas oportunidades no exterior para expandir a marca Grêmio em novos mercados e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores.

Infelizmente, até hoje, poucos projetos saíram do papel, em grande parte por falta de interesse do próprio Grêmio em explorar esses mercados no exterior. Recentemente, o atual departamento de marketing do clube demonstrou maior interesse em buscar novos mercados, sendo assim, já estamos buscando viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente aqui nos Estados Unidos.

A perspectiva é muito boa, uma vez que o mercado de marketing esportivo no Brasil vive um momento de muita euforia e entusiasmo com as possibilidades de crescimento nos próximos anos. Essa evolução do mercado deve-se a diversos fatores, dentre eles o mais importante é o iminente, e em alguns casos até já em andamento, fluxo de investimentos que serão gerados por conta da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, e de como os esses eventos globais podem impactar positivamente na geração de novos negócios no esporte brasileiro, principalmente no futebol.

Mas precisamos estar preparados com administradores capacitados para saber receber e tirar melhor proveito desses investimentos internacionais.

Em interação com dirigentes gremistas, Gamba revela que pretende viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente nos Estados Unidos

 

Universidade do Futebol – Ações ligadas ao departamento de marketing também são discutidas em conjunto?

Daniel Gamba – Na teoria, isso seria fantástico, mas na prática, lamentavelmente, não é bem assim com o consulado daqui em Los Angeles, e também com outros consulados com quem eu mantenho contato aqui nos Estados Unidos e no Brasil.

Imagino que possa haver uma consulta do departamento de marketing com o nosso departamento consular, o qual representa todos os consulados de um modo geral, mas isso não é o suficiente, nem representa o conhecimento local de cada consulado e suas respectivas regiões.

O ideal seria ter um diálogo aberto com os principais consulados em mercados emergentes do futebol de alto poder aquisitivo, buscando oportunidades de novos negócios nesses países.

Universidade do Futebol – Em recente entrevista, o Paulo César Verardi sinalizou que “quem é do Sudeste não tem muita ideia do tamanho do apelo que o Grêmio tem no país”, e previu uma expansão de marca – não apenas de lojas – na Argentina e no Uruguai. Como você avalia isso?

Daniel Gamba – De que a marca Grêmio é forte, eu acho isso indiscutível. Mesmo com a escassez de títulos de expressão nos últimos anos, basta você verificar as diversas pesquisas com o número de torcedores e de reconhecimento de marca publicadas nos mais diversos meios de comunicação do país, e você irá quase sempre constatar que o Grêmio é, de um modo geral, a quinta maior marca do futebol brasileiro, sempre como o primeiro clube fora do eixo RJ-SP.

Sendo assim, imagino que possa haver uma expansão da marca Grêmio, não apenas de lojas, na Argentina e no Uruguai, mas mesmo assim, na minha opinião, não vai ser muito significativa em termos de um aumento significativo em receitas para o clube.

O Grêmio deve, sim, buscar uma expansão de sua marca e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores nos países vizinhos da América Platina, mas o foco deveriam ser os mercados emergentes do futebol e potencialmente os mais opulentos na economia mundial, como os Estados Unidos e a China.

 

Universidade do Futebol – Nos Estados Unidos haveria espaço e mercado consumidor para ideia semelhante?

Daniel Gamba – Sem sombra de dúvidas o mercado americano é um dos mais propícios para isso, afinal o seu povo é altamente consumista. Como já falei anteriormente, uma boa estratégia de marketing, combinada a uma ação estratégica direcionada aos consumidores locais, tem tudo para na prática ser um sucesso.

Se a tudo isso pudéssemos agregar o fato de abrir franquias globais com a marca Grêmio no mercado local, combinada à negociação do licenciamento da marca Grêmio, atrelada a uma parceria com um clube local da MLS, além da realização de uma pré-temporada no exterior, a receita é, no papel, de sucesso.

As oportunidades estão batendo na porta dos clubes brasileiros, não só do Grêmio. Quem acordar primeiro e souber capitalizar isso o mais rápido possível estará abrindo uma vantagem considerável em se comparando aos outros times do Brasil.

 

 

Universidade do Futebol – A questão do licenciamento é uma cultura que não é forte no Brasil, muito pela dificuldade de negociação, dos pontos de venda e da pirataria. Como você avalia o trabalho desta ferramenta pelo departamento de marketing do Grêmio?

Daniel Gamba – Eu também acho que os clubes estão deixando de faturar, e muito, com o licenciamento no Brasil. Além dos fatores mencionados, de dificuldade de negociação dos pontos de venda e da pirataria, eu adicionaria o fator qualidade dos produtos licenciados como outro fator que também afeta esse processo.

Muitas vezes, certos produtos licenciados são de qualidade muito baixa, e em alguns casos até inferior a produtos similares que não são licenciados. Cabe ao clube supervisionar esses produtos, afinal, é a marca do clube que está em jogo, e na minha opinião, é inconcebível e inaceitável ver a marca dos clube mais populares do país atrelada a produtos de baixa qualidade.

O consumidor brasileiro tem poder de compra e está cada mais exigente, sempre em busca de produtos de qualidade – cabe ao clube exigir dos licenciados produtos de acordo com a grandeza do clube.

Em relação ao Grêmio, o clube vem fazendo um trabalho bom na área de licenciamento, mas assim como alguns outros clubes, alguns dos seus produtos licenciados, são de preços elevados e não condizem com a nobreza do clube, uma vez que são de acabamento de qualidade duvidosa e de baixíssima categoria.

 

Grêmio projeta expansão na Argentina e no Uruguai

 

Universidade do Futebol – O Grêmio prevê arrecadar R$ 100 mi anuais com sua nova arena – número este que engloba desde a venda de camarotes, cadeiras cativas e espaços comerciais para restaurantes e lojas, por exemplo, até ingressos. É possível alcançar este patamar?

Daniel Gamba – São números bem otimistas e em até certo ponto viáveis a longo prazo. Acredito que nos próximos três, quatro anos, o Grêmio possa alcançar esse patamar de faturamento com a sua nova arena, mas esse salto de faturamento, se comparado aos números atuais, não virá da noite para o dia, e sem um trabalho árduo.

Além da venda dos camarotes e dos espaços comerciais, a ideia é maximizar o uso da arena nos dias que não haja jogos, com distintas atividades. A receita do “matchday” também será importante, uma vez que o torcedor busca conforto e qualidade, e até não se importa em pagar bem por um serviço, se o mesmo for de qualidade.

O que me deixa tranquilo quanto a isso é o fato de que a Grêmio Empreendimentos, empresa gestora da nova arena em conjunto com a construtora OAS, possui um planejamento estratégico bem definido aliado a excelentes ideias e conceitos, além de ser administrada por vários profissionais capacitados.

A transição dos sócios do Olímpico para a Arena será uma tarefa árdua, mas tenho certeza de que num futuro muito próximo o clube ainda vai arrecadar muito mais com seus novos clientes sócios-torcedores, afinal, já é um fato evidente de que se o torcedor não for sócio, dificilmente assistirá a jogos na arena mais moderna do Brasil.

Os torcedores precisam se conscientizar de que não haverá espaço para todos e vale muito a pena se associar, afinal, além de estar colaborando com o clube do coração, o sócio-torcedor tem inúmeras vantagens e descontos com empresas associadas, além de estar adquirindo ingressos a preços mais acessíveis, sem depender dos “temerosos” cambistas em tempos de jogos decisivos.

Grêmio prevê arrecadar R$ 100 mi anuais com arena

 

Universidade do Futebol – Que paralelo você traça entre a Indústria do Futebol e a Indústria dos Esportes Americanos?

Daniel Gamba – O mercado de futebol nos Estados Unidos é o que mais cresce localmente. Além do número de praticantes aumentar a cada ano, a liga local, MLS, já ultrapassou a NBA em média de público por partida, sendo agora a terceira liga que mais leva público em média aos seus estádios.

A tendência é de que isso venha ainda a melhorar nos próximos anos, uma vez que a chamada “geração futebol” nos Estados Unidos, que cresceu vendo o desenvolvimento do esporte desde criança, está entrando num período de geração de novos consumidores, ou seja, as crianças e adolescentes da década de 90 já se tornaram ou estão se tornando pais, e os seus dependentes irão crescer num ambiente familiar futebolístico, uma vez que seus pais já cresceram vendo futebol, muito diferente das gerações anteriores.

O esporte nos Estados Unidos, assim como em diversos lugares do mundo, é uma tradição familiar, em que o fanatismo histórico dos torcedores dos times de beisebol e de futebol americano passa de geração para geração. Vejo essa “tradição” com bons olhos, e espero que o mesmo possa ocorrer com essa “geração futebol” que já está formando novos torcedores para dar sequência a essa filosofia.

 

A globalização do futebol brasileiro

 

Universidade do Futebol – Um dos problemas da gestão do futebol brasileiro é a falta de qualificação profissional no comando dos clubes. Ainda esbarramos na falta de administradores capazes de romper a barreira da saturação mercadológica local na busca da consolidação das estruturas e das marcas no exterior? Como avançar nesta questão?

Daniel Gamba – A política que impera nos ambientes futebolísticos do Brasil é um atraso para o nosso futebol. Sou ciente de que na teoria a política deveria ser eliminada do futebol, mas que para isso acontecer na prática é muito difícil, ou até impossível.

Atualmente, o futebol brasileiro movimenta bilhões de reais anualmente, e na minha percepção é inadmissível que o mesmo continue sendo administrado por “voluntários”. O futebol brasileiro tem que ser administrado por pessoas capacitadas, com diploma em suas respectivas áreas, sob o supervisão de um Conselho.

O ex-jogador de futebol quer assumir cargo executivo no clube em que ele atuou e foi ídolo pode fazer isso sem problemas, mas desde que ele vá primeiramente se aperfeiçoar e estudar para obter o conhecimento necessário para ser um administrador, afinal, a história dentro de campo foi de sucesso, mas é passado, e isso não significa que o mesmo ocorrerá fora dele.

Há vários casos de jogadores extraordinários dentro de campo, mas medíocres como treinadores ou gestores de futebol. A política atrapalha essa profissionalização, afinal, precisamos de pessoas capacitadas e especialistas em administração esportiva para comandar os nossos clubes. As mesmas, estariam sujeitos a normas e regras de uma empresa qualquer, onde o bom trabalho realizado é devidamente recompensado, enquanto que as falhas e os erros são cobrados perante risco de demissão.

A fórmula parece simples, mas o difícil é colocá-la em prática: o nosso futebol ainda é político demais para isso. Alguns clubes, já possuem executivos especializados em cada área administrativa, com cargos remunerados, mas a grande maioria deles ainda é “administrada” por voluntários, e enquanto isso for praxe, dificilmente conseguiremos mudar esse cenário. Quem mais perde com isso é o futebol brasileiro.

A política que impera nos ambientes futebolísticos do Brasil é um atraso para o nosso futebol”, acredita Gamba

 

Universidade do Futebol – Em um artigo de sua autoria, publicado na Universidade do Futebol –, você questiona a razão pela qual ninguém se preocupa em divulgar os clubes brasileiros em mercados emergentes, bem como explorar a captação de novos “torcedores” ou fãs. Por que isso ocorre e quais estratégias podem ser criadas?

Daniel Gamba – O mercado brasileiro no futebol está praticamente saturado. Quem nasce gremista, por exemplo, dificilmente trocará de time. E isso ocorre em diversos times em todo Brasil, onde o futebol é paixão, quase uma religião.

Você sempre vai encontrar algumas pessoas que no decorrer da vida até trocam de time, mas as chances de obter sucesso são maiores se você tentar conquistar novos consumidores que ainda não foram “tocados”. Consumidores os quais são apaixonados pelos atletas brasileiros, amantes da nossa seleção, mas de conhecimento quase nulo sobre o nosso campeonato local e os nossos times tradicionais.

Os clubes devem buscar novos mercados no exterior, e há muitos mercados emergentes no futebol ainda carentes de ídolos e de identidade com equipes locais, vide a América do Norte e a Ásia. Mas de nada adianta você contratar um jogador americano ou chinês na esperança de consolidar a sua marca nesses mercados, se não houver uma estratégia correta e forte de marketing.

Em minha opinião, o clube deveria primeiramente tentar conquistar os consumidores nesses mercados com ações voltadas especificamente a esses clientes potenciais, para depois fazer uma ação nesse sentido de contratar um jogador, dando sequência, assim, à ação inicial. A busca por um jogador de qualidade, também é muito importante. Não se pode esquecer que o objetivo é fortalecer a marca no exterior, mas não se pode ignorar que isso será mais viável, se a equipe for de qualidade e estiver disputando títulos.

Outro fator importante seria a adaptação ao mercado internacional. Parabenizo o pioneirismo e a iniciativa do Corinthians na contratação do chinês Chen Zizao, entretanto, tenho receio de que a iniciativa possa ser um tremendo sucesso. Primeiramente, achei equivocada a ação de colocar um apelido no atleta, “abrasileirando” o jogador, quando na realidade você teria que estar internacionalizando o Corinthians, adaptando o mesmo ao mercado asiático. Em segundo lugar, as informações que nos chegam pelos meios de imprensa é de que o objetivo do Corinthians é vender mais camisas no mercado asiático, mesmo que duvide da afirmativa.

Desde os tempos em que o Manchester United contratou o coreano Park, jamais os seus executivos e diretores falaram em uma aquisição para aumentar as receitas do clube nesses mercados, mesmo que na realidade era evidente que esse fora um dos objetivos primordiais. Além de ser um dos maiores clubes do mundo e de forte reconhecimento no mercado asiático, o United conseguiu contratar um excelente jogador e de qualidade diferenciada se comparada à de alguns de seus conterrâneos asiáticos.

O fato de o clube tratar a contratação do jogador como um acréscimo de qualidade ao seu elenco colaborou para aumentar a confiança e o reconhecimento do povo asiático com a agremiação, uma vez que os mesmos enxergavam os ingleses confiando no potencial do jogador asiático.

O clube brasileiro que souber capitalizar isso e focar em uma ação pioneira nesse sentido estará, de certa forma, ganhando presença vital em mercados importantes. Agora, se o projeto é contratar um jogador chinês, só com o objetivo de vender mais camisas no mercado internacional, realmente, não acho um esforço viável, nem recomendável.

Para Gamba, clube brasileiro que souber capitalizar e focar em uma ação pioneira com a contratação de um grande jogador estrangeiro estará, de certa forma, ganhando presença vital em mercados importantes; Zizao é o caso?

 

Universidade do Futebol – Certa vez, o Grêmio teve a possibilidade de realizar uma de suas pré-temporadas nos Estados Unidos, mas o processo acabou não sendo concretizado. Por quê?

Daniel Gamba – O que realmente ocorreu foi uma questão de datas, uma vez que a oportunidade chegou muito tarde ao Grêmio, e os investidores nos Estados Unidos precisavam de uma resposta imediata. Não foi possível no ano passado, mas a perspectiva pro futuro é boa.

A ideia seria incorporar a pré-temporada no exterior com um conjunto de ações voltadas ao marketing global do clube no respectivo país. Imagino que o departamento de marketing do clube esteja trabalhando para isso, e espero que em breve o Grêmio possa anunciar algumas novidades bem interessantes aos seus torcedores.

Universidade do Futebol – A rivalidade com o Internacional pode render frutos comerciais ao Grêmio, ou a animosidade potencializada por alguns dirigentes inviabiliza, por exemplo, ações administrativas e de marketing conjuntas entre estes clubes?

Daniel Gamba – Eu sou da opinião de que a rivalidade tem que ficar para a torcida e dentro de campo quando um esteja enfrentando o outro. Fora isso, os dois deveriam estar unidos. A grandeza de um só existe por causa das façanhas do outro.

Porto Alegre deveria se orgulhar do fato de ser a cidade brasileira, juntamente com São Paulo, com maior número de títulos (4) da Libertadores, o torneio mais importante em nível de clubes em toda a América, sem falar nos títulos mundiais e nas inúmeras conquistas nacionais dos dois clubes mais importantes da região Sul do país.

O que inviabiliza um maior investimento “estrangeiro” no estado, na minha opinião, é de certa forma o pensamento muitas vezes bairrista e provinciano do povo da região. Uma prova disso são os patrocínios regionais nas camisetas dos dois clubes desde 1995 – ou seja, há quase 20 anos os dois clubes expõem patrocínios regionais. De 1995 até 1997, o Inter teve o Grupo Aplub e o Grêmio as Tintas Renner como seus patrocinadores. A partir daí começaram os patrocínios em conjunto.

Para uma marca investir no futebol do Rio Grande do Sul é praticamente seguro afirmar que a mesma tem que estar fortemente associada com a cultura gaúcha. A partir da instalação de sua fábrica naquele estado, a General Motors se “tornou gaúcha” (numa visão do povo local), e a mesma passou a investir em patrocínio conjunto aos dois maiores clubes de lá de 1998 até 2000.

Desde 2001, os dois clubes gaúchos possuem o Banrisul, um banco regional, como seu patrocinador máster. Eu, na minha modesta opinião, não acho que os clubes gaúchos souberam capitalizar de uma melhor maneira a grandeza dos dois maiores clubes do Brasil fora do eixo RJ-SP. Se os dois clubes se unissem mais fora do campo, poderiam apresentar para as marcas “internacionais” com potencial de patrocínio um estado forte, de elevado poder aquisitivo (se comparado com algumas outras regiões do Brasil), com muito potencial vencedor (justificado pelo passado de muitos títulos importantes de ambos), onde mesmo fora da mídia nacional e apoio do eixo RJ-SP, consegue resultados fantásticos dentro de campo. Sem falar no fato de que o custo de patrocínio para uma marca no Rio Grande do Sul ser muito abaixo dos valores cobrados para cariocas e paulistas.

O potencial é grande, as oportunidades são muitas, e os resultados são quase garantidos; não se sabe se são as marcas “de fora” que não estão se dando conta do fato que o estado possui dois grandes clubes, sempre brigando por grandes títulos, com alta exposição na mídia nacional e mundial, além de um valor de patrocínio muito abaixo do mercado nacional; ou se são os clubes que não estão unidos o suficiente para fazer o seu “sales pitch” (espécie de argumento de venda) para essas marcas “multinacionais”.

É fato que devido a essa cultura provinciana que predomina no Rio Grande do Sul, dificilmente uma marca de fora investirá somente num clube, deixando de investir no outro. Os dirigentes da dupla precisam deixar a “corneta” para a torcida e focar em ações em conjunto que serão benéficas aos dois clubes. Exemplos ao redor do mundo não faltam (vide o Bayern Munich chegar ao extremo de doar dinheiro para evitar a falência do Borussia Dortmund há alguns anos, mantendo assim a alta competitividade da Bundesliga), mas para isso os dirigentes precisam deixar essa animosidade de lado e trabalhar coletivamente.

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