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O Corinthians e sua má fase generalizada

Nenhum sucesso e nenhum fracasso podem ser explicados por um único motivo. No futebol e na vida. O todo é maior que a soma das partes. Sempre. Por isso, tentar resumir o conturbado momento do Corinthians por um ou até mesmo por dois fatores me parece que não traduz muito o que de fato vem acontecendo no clube.
A dificuldade na implementação de ideias e mecanismos ofensivos é o que mais chama a atenção de todos. É inegável que o treinador Fábio Carille não tem conseguido criar maneiras eficazes de levar a bola até o gol adversário. Ele já tentou mudar a escalação, trocar a plataforma de jogo, mas parece que nada fortalece os elos de ligação da equipe no momento de atacar. Aqui moram problemas individuais e coletivos. Nunca é só um motivo e/ou um fator. O treinador não está conseguindo fazer as peças se complementarem e as individualidades não estão entregando o máximo da sua performance técnica, física e mental em favor de um bem coletivo e tático maior.
O ambiente que se gerou com os últimos resultados e até mesmo com algumas declarações de Carille também não está propício a vitória. Expor os jovens atletas e fazer um mea culpa público e sincero do mau futebol da equipe não potencializa em nada o aumento de produtividade. Não quero fazer nenhuma especulação de que o técnico falou o que falou com alguma segunda intenção de sair no ano que vem porque esse não é meu foco aqui. O que quero ressaltar é que uma instabilidade na gestão das relações entre o grupo tem efeito prático e direto no que acontece dentro de campo. Torcida e diretoria são termômetros do que se passa entre comissão técnica e atletas e quando a situação foge muito do controle como está hoje no Corinthians dificilmente há uma arrancada final.
O Corinthians não está em um mau momento apenas por um fator. Não é só Fábio Carille, não são só os jogadores e nem só os dirigentes. E nem vou considerar aqueles que falam que falta ‘raça’. Afinal, o que é raça? Correr errado feito louco em campo só para mostrar ao torcedor uma falsa vontade de vencer?!
Vejo o futebol como algo complexo, sistêmico e transdisciplinar. Tudo conta. O jogo é tudo, ao mesmo tempo: técnico, tático, físico, emocional e se quisermos ir além, é social, espiritual, antropológico, etc. Quem comanda o Corinthians terá que ser cirúrgico para tomar as primeiras atitudes para virar esse jogo. A avaliação passa pelas competências de Fábio Carille e pelo perfil psicológico do elenco. Um bom comandante e jogadores fortes mentalmente são fundamentais para o sucesso no futebol.
 

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Sobre o culto à intensidade e a falência da pausa

Alex: houve quem dissesse não ser um jogador ‘intenso’. (Foto: Reprodução/UOL)

 
Dia desses, assistia ao primeiro jogo da semi-final da UEFA Champions League 2005/06, Arsenal x Villarreal – quando o Arsenal ainda jogava naquele belo estádio que era o Highbury. Como os amigos sabem, o Arsenal se classificaria com alguma crueldade, eliminando a equipe então treinada pelo chileno Manuel Pellegrini, hoje no West Ham.
Os primeiros minutos deste jogo são bastante assustadores do ponto de vista do tempo, uma alternância doentia da posse e pressings intermináveis, como dois pugilistas que não param de socar um ao outro. Aliás, me lembrou o jogo entre Juventus x Ajax, jogado neste ano, que citei outro dia. Nos dois casos, foi preciso que um ou mais jogadores, de pensamento diferente, trouxessem a pausa, baixassem o ritmo – ou o jogo engoliria a todos. No segundo caso, quem cortou o ritmo do jogo foi o goleiro Onana. Mas naquele Arsenal x Villarreal, quem baixava o ritmo era outro jogador: Juan Roman Riquelme.
O fato de ser Riquelme o jogador que fazia as síncopes, que cortava o tempo do jogo, me fez lembrar desta recente entrevista do espanhol Albert Puig, ex-diretor de formação do Barcelona, hoje assistente do New York City. Aqui, ele fez uma reflexão interessante sobre o atual estado do futebol argentino (também citando o brasileiro), especialmente do ponto de vista da formação, que cito em tradução livre: “Países como Argentina e Brasil têm um problema mercantilista. Eles tentam conseguir jogadores para vendê-los. Como forma de obter um benefício econômico, digamos. Os grandes talentos se destacam dos jovens, mas com físicos não tão desenvolvidos. Nos países vendedores, pretende-se que um garoto de 17 anos chegue rapidamente à Europa para obter um benefício econômico. Com um físico pequeno, eles deixam de lado os talentos e investem mais tempo em outros tipos de jogadores, mais fortes fisicamente, mas com menos talento. Isso acontece em muitos países. Os processos são avançados. A metodologia usada é vencer. Tudo está focado no desenvolvimento apressado. Se adicionarmos intensidade à vitória, estamos perdendo um pouco o Norte. Não sendo um grande conhecedor de como trabalhar na Argentina, não consigo refletir tão profundamente, mas acho que a chave é ter uma ideia muito clara, criar regras para proteger jovens jogadores e clubes e voltar ao que é o futebol. Não acredite que intensidade sem sentido esteja acima do ensino e da metodologia. O que eu acho é que na Argentina eles não devem copiar o europeu, mas defender seu próprio estilo. O jogador de futebol argentino possui um talento natural e isso deve ser aprimorado.”
O trecho em negrito é destaque meu. Lendo esta entrevista, quase que de imediato, me lembrei de uma outra passagem, das melhores que li neste ano, do ótimo Jorge Valdano, no seu livro Fútbol: El Juego Infinito, em que ele reflete sobre os males da normalização (ou mesmo do culto) a isso que nos acostumamos a chamar de intensidade. Em tradução livre, Valdano diz o seguinte: “Se o bom da intensidade é que apazigua as consciências, o ruim é que arruinou um dos conceitos que mais contribuíram para o bom futebol: a pausa. Para jogar bem, é preciso correr, é claro, mas também há que saber parar, pois isso está se enchendo de jogadores que, em sua ânsia de serem intensos, se movem a uma velocidade acima do que podem se permitir, o atentado à precisão é permanente. Se não há precisão, a jogada não tem continuidade e, se não houver pausa, não há surpresa. A precisão e a pausa sempre foram os componentes essenciais do grande jogo, e a intensidade vai contra os dois conceitos. Assim, vamos começar a colocar a palavra “intensidade” como sinônimo de eficácia. Seria como pensar que um relógio é bom porque está se movendo mais rápido do que os demais.”
Faço as citações por dois motivos. Primeiro, porque o tema da intensidade realmente me interessa muito, tanto do ponto do treinamento (volume/intensidade), como desse ponto de vista meio sagrado, que está presente no debate atual (e que carece de uma certa reflexão, sobre o que escrevi aqui e aqui). Depois, porque assim como assinalou o Albert Puig ali em cima, realmente parece haver uma relação muito próxima entre o culto à intensidade (ainda que não se saiba ao certo o que se chama de intensidade) e a carência da pausa no jogo jogado. Não por acaso, jogos num ritmo mais ‘baixo’, ou mesmo jogadores que eventualmente se criaram num ritmo mais ‘baixo’ (exemplo: Paulo Henrique Ganso), são imediatamente tidos como inaptos, inadequados para jogar o futebol que se joga hoje em dia. Ao mesmo tempo, vamos formando e nos acostumando (como treinadores e profissionais do futebol em geral) com levas e mais levas de jogadores que não cultivam a pausa, que não sabem o que é a pausa, que não sabem porque é preciso parar, que querem apenas a rapidez, o movimento, e que sabem se não se moverem, se não tiverem (ou se não mostrarem que tem) isso que se chama de intensidade, provavelmente serão escanteados.
Repare que meu ponto não é um discurso saudosista ou romantizado, não é disso que se trata. O que ponho em questão é em que medida nós estamos realmente refletindo sobre a normalização deste futebol (tido como) intenso, em que medida isso tem afetado os tipos de jogadores que formamos e formaremos no médio prazo e, especialmente, em que medida não estamos tentando apenas reproduzir um certo jeito de fazer futebol ao invés de analisar criticamente os conceitos que importamos e, então, adaptá-los à nossa cultura futebolística. Da minha parte, como treinador, não estou preocupado se a minha equipe é intensa. Estou preocupado se minha equipe joga bem futebol. Se jogar bem e for intensa, ótimo! Se for intensa e não jogar nada, algo está errado. No fim das contas, temo que nossos jogos, em maior número, sejam exatamente como aquele Arsenal x Villarreal – com a diferença que, talvez, não exista um jogador como Riquelme para brincar com o tempo do jogo.
Também não me surpreende que este discurso intenso apareça em um momento histórico em que tudo é tão tenso, que as pessoas estão tensas, com corpos sempre tensos, contraídos, que se esqueceram de como relaxar, sempre ansiosos e exaustos – mas intensos. Daí que um outro futebol, um futebol que misture contração e relaxamento (e não apenas contração e contração e contração) seja possível, desde que venha junto de um outro mundo, e que um outro mundo seja possível, desde que venha junto de novas almas, mais relaxadas e presentes.
Daí que o futebol seja prática da vida.
 

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Vamos aprender sobre futebol com humildade?

A dança dos treinadores é uma constante no futebol brasileiro. Sempre surgem estatísticas de quantos técnicos foram demitidos no Brasileirão e o número de trocas é invariavelmente muito próximo do número de rodadas. Há inúmeras análises, explicações e até conclusões que podem ser tiradas a partir disso, mas quero focar aqui em uma desconfortável zona de conforto que isso cria nos técnicos mais medalhões e o quanto o sucesso de profissionais estrangeiros por aqui pode ajudar a mudar isso.
Veja algumas trocas recentes por aqui: Mano Menezes saiu do Cruzeiro e foi para o Palmeiras. Rogério Ceni saiu do Fortaleza, foi para o Cruzeiro e voltou para a equipe cearense. Zé Ricardo estava no Fortaleza e agora no Inter. Esse é um pequeno exemplo, de algumas semanas atrás. Se formos a fundo acharemos um universo ainda maior dessa ciranda nefasta do futebol brasileiro. Qual a motivação para evoluir, estudar e buscar novos conhecimentos que um treinador tem sabendo que ele vai ter emprego rapidamente assim que for demitido?
O que pode (ou deveria) incomodar esses técnicos acomodados – muito por conta da estrutura do futebol brasileiro, em que ainda imperam dirigentes omissos e despreparados – é o sucesso de profissionais de fora do país. Ver Jorge Jesus brilhando no Flamengo e Jorge Sampaoli no Santos deveria doer na alma daquele profissional que consegue até ter um excelente salário, mas pouco ou quase nada cresce e evolui na sua performance profissional. Além de não ter mercado em grandes centros do futebol mundial os técnicos brasileiros estão perdendo até o espaço doméstico.
E vale um testemunho: tenho acompanhado in loco muitas entrevistas. E a diferença do entendimento de jogo de Sampaoli para os demais profissionais é absurda, gritante, um tapa na cara. As explicações dele sobre cada acontecimento da partida são de uma riqueza impressionante.
Podemos achar que esses “gringos” não tem nada o que nos ensinar. Afinal, ganharam o que?! Ao passo que nós somos pentacampeões do mundo. Ou podemos calçar as sandálias da humildade, abrir os olhos, os ouvidos e o coração para aprender com eles. Caso contrário, nossos treinadores daqui a pouco, ao invés de não serem cotados no Barcelona, no Manchester United…, não serão nem mais cotados em Flamengo, Santos e outros etcs.
 

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Sobre o futebol como prática da vida

Diego Simeone, enquanto jogador: o jogo jogado (e treinado) é a vida vivida. (Foto: Reprodução/Football Whispers)

 
Nós já falamos algumas vezes, neste mesmo espaço, sobre a potência pedagógica e sobre a potência existencial do futebol. Por sinal, aqui me ocorre aquela frase (que poderia ser mais famosa) do conhecido Albert Camus, que dizia: ‘O que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem, eu devo ao futebol’. Bom, não acho que ele foi o único.
Repare como uma frase dessas tem um movimento de ida e volta: por um lado, ela mostra como o futebol é capaz de ensinar e como os saberes que aprendemos nele (bons ou ruins) são levados para a vida vivida. As fronteiras que separam a vida que se vive do jogo, que se joga são muito pequenas, muito frágeis, e talvez estejam dispostas em pelo menos duas grandes formas: nas ações individuais, que muito antes de tratarem de coisas táticas, técnicas ou físicas, tratam de coisas humanas (embora façam isso escondidas, nos detalhes, o que exige ler além das linhas) e nas ações coletivas, que para muito além de coisas táticas, técnicas ou físicas, tratam de alguma forma do estado de espírito de uma determinada equipe (veja este Flamengo, por exemplo). Só que o estado de espírito de uma equipe, assim como o nosso próprio estado de espírito, não apenas não depende só da gente, como não pode ser capturado. Daí que mesmo os mais precisos dados, mesmo milhões de informações sejam, por vezes, muito pouco para captar os sentidos do humano. As coisas subjetivas não são incômodas por serem “menos confiáveis”, mas são incômodas porque não se deixarem ser inteiramente vistas e medidas, são sempre oblíquas, e tudo aquilo que não pode ser visto e medido, tudo aquilo que causa alguma ambiguidade, tudo aquilo que causa dúvida, também causa um certo pânico – muitas vezes não admitido. Se você tem dúvidas, repare para onde têm ido essas discussões sobre o VAR.
Mas por outro lado, saber sobre a vida é saber sobre futebol. Porque se as fronteiras que separam o futebol da vida (como as fronteiras que separam a teoria da prática) são tão pequenas, ou melhor, se o futebol é uma dessas ilustrações tão fieis da vida, da nossa pequenez perto da vida (e do jogo), das oscilações da vida (e do jogo), da coragem de que precisamos para viver a vida (e jogar o jogo), da solidariedade que precisamos no jogo (e na vida), da amizade em que nos apoiamos no jogo (e na vida), da dor que vai aparecer no jogo (e na vida) e da humanidade que ainda temos neste jogo – que é sempre único – e nesta vida, que talvez seja única, se tudo isso está tão próximo, se essas coisas são as mesmas coisas, só que de outro jeito, então não é possível pensar na formação de um atleta que não esteja se formando para a vida, não é possível pensar em uma equipe que não seja equipe para vida, não é possível separar teoria e prática (pois o jogo que se joga é a vida que se vive), não é possível separar o jogo da vida. Tudo é um.
Não sendo possíveis essas separações, então temos que fazer perguntas e assumir responsabilidades. Quais são as teorias que sustentam a minha prática? Qual é a coerência entre o meu discurso e meu ato? De que forma o meu modelo de jogo representa quem eu sou e de que forma isso permite fazer dos meus jogadores e equipe melhores do que estão? Quem sou eu e para onde vou neste exato momento (pergunta mais difícil do que parece)? No que eu posso melhorar como treinador neste exato momento? No que eu posso melhorar como jogador, para chegar em um nível mais alto? Quais são os meus limites, como jogador, como treinador, como profissional do futebol em geral, até onde eu posso ir e o que me diferencia dos outros? Por que eu faço o que faço hoje, por que uso meu tempo da maneira como uso, por que jogo do jeito que jogo, por que vivo do jeito que vivo e o que poderia fazer para jogar e para viver de outra forma? O que me aproxima e o que me separa dos outros?
E quando falamos de linha de quatro, quando falamos de amplitude, quando falamos de bloco alto ou baixo ou de microciclo estruturado, quando falamos de CK ou percepção subjetiva de esforço, quando falamos de jogos conceituais ou contextuais, quando falamos de metabolismo anaeróbio alático ou lático ou aeróbio, quando falamos de 4-3-3 e 4-4-2 e 2-3-5 e etc, quando falamos dessas coisas que falamos, penso se lembramos do jogo que se joga, portanto da vida que se vive, se não nos esquecemos disso e se ainda faz parte da nossa humanidade.
 

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Ciclo PDCA

No mundo contemporâneo, cada vez mais pautado pela tecnologia e focado na organização, o espaço para amadores está ficando cada vez mais restrito. E o futebol, por mais que muitos ainda insistam em refutar, se torna a cada dia que passa um negócio mais sólido, carente de gestores profissionalizados e com ampla capacidade de planejar, organizar e controlar processos para alcançar receitas e resultados mais abrangentes dentro de campo. Com isso, as mais variadas teorias e ferramentas da administração, que tanto auxiliam empresas a moldar e alavancar suas organizações para auxiliar a gestão mais responsável e inteligente, surgem para fazer com que o futebol acompanhe esta evolução também como negócio. Entre esses inúmeros mecanismos está o PDCA, ciclo criado pelo norte-americano Walter Shewhart e aperfeiçoado pelo conterrâneo William Edwards Deming, conhecidos como “gurus da qualidade”.
A ferramenta é formada por quatro letrinhas mágicas que significam Plan (planejar), Do (executar), Check (avaliar) e Act (agir). O mecanismo é focado na melhoria contínua e pode ser utilizado tanto para ações corporativas, quanto para organização pessoal e uso cotidiano. Em breve resumo, significa criar objetivos, identificar problemas que possam se tornar percalços neste circuito, executar o plano de ação, acompanhamento de resultados – ou de fracassos que podem acontecer – e, por fim, agir sobre estes pontos positivos ou negativos, corrigindo falhas e implantando melhorias na execução.
Neste momento você deve estar se perguntando: e o futebol se encaixa onde nisso? Pois bem, explicado o PDCA e seu funcionamento, a grata surpresa é que ele não é uma novidade no esporte bretão. O ciclo não só foi utilizado como é um case de sucesso, que resultou no processo de reestruturação do futebol alemão, desde as perdas da Eurocopa de 2000 e da Copa do Mundo Fifa de 2002, até o tetracampeonato mundial, em 2014, em solo brasileiro.
Apenas um ponto e um único gol marcado no Europeu de Seleções foi o sinal de alerta. Em parceria com o Estado alemão, a DFB (Deutschland Fussbal-Bund) então iniciou a reestruturação com um projeto de longo prazo (10 anos para se tornar uma potência novamente) e um plano de reformulação. Surgiu então a primeira etapa do ciclo de Shewhart e Deming: o planejamento. A Alemanha colocou no papel a estratégia de reformular seu grupo, criar mecanismos de observação e monitoramento de atletas, e apostou na força da sua base para moldar novos talentos que fossem devolver a hegemonia do futebol do país. Isso tudo aliou-se à mudança da característica do futebol do país, conhecido por um jogo bruto, robusto e mais força do que técnica. A mudança deste estereótipo foi um dos mantras da nova formação alemã.
Com a criação de 366 centros de treinamentos espalhados pelo país, iniciou o segundo processo do ciclo PDCA: a execução. Assim o país iniciou mudanças drásticas no seu elenco, oportunizando novos talentos na seleção principal, que elevaram os resultados já nas competições seguintes: terceiro lugar nas Copas do Mundo de 2006 e 2010, além do vice-campeonato na Eurocopa de 2008.
O processo de checagem foi minucioso, feito do desempenho de atletas dentro de campo nestas competições, como Schweinsteiger, Lahm, Podolski, Thomas Müller, entre outros. Além disso, o plano de ação contou com a melhoria e crescimento dos departamentos de observação e captação de atletas, e, claro, de análise de desempenho. Afinal, observar adversários também faz parte do planejamento.
A implementação do plano de ação alavancou os resultados, mas ainda faltava a cereja do bolo. Era então a hora de agir para obter o principal êxito do processo. Em 2014, no Brasil, o time chegou totalmente reformulado com relação às Copas anteriores. Com um trabalho intenso de marketing fora de campo, conquistou o povo brasileiro e, com uma organização dentro das quatro linhas, conquistou o mundo.
O ciclo PDCA é contínuo e a etapa de ação serve para pensar em novos planos. Isso, claro, virou regra novamente para os alemães pós-fracasso na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, com uma eliminação precoce em um grupo relativamente fraco. Tanto que, o país manteve a estrutura da sua comissão técnica e iniciou uma nova reformulação no seu plantel principal, visando o novo ciclo que inicia com a Eurocopa de 2020.
O exemplo alemão foi o pioneirismo deste plano, tão pouco usado dentro do futebol, mas que pode agregar e muito para uma gestão mais eficiente e responsável dentro dos clubes e até mesmo de federações. Não é um exemplo único, visto que o PDCA pode ser executado mesmo que involuntariamente em ações pensadas, estruturadas e avaliadas. É mais uma ferramenta auxiliar, um princípio administrativo que pode e deve estar presente nas organizações. Tão próximos de abrirmos as portas para o novo com a flexibilização do formato clube-empresa no Brasil, é hora de nos prepararmos para fazermos um futebol cada vez mais sério e profissional, que tenderá a nos trazer bons frutos no futuro.
 

 

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O futebol reflete uma (doentia) sociedade

Em jogo pelo apuramento ao campeonato europeu de seleções de futebol (Eurocopa) de 2020, a Inglaterra venceu a Bulgária, fora de casa, por 6 a 0. Era para que o placar e o bom futebol fossem celebrados. No entanto, a partida ficou marcada pelos insultos racistas de alguns torcedores búlgaros à seleção inglesa. No empate entre França e Turquia, os turcos comemoraram o gol com uma saudação militar em apoio a ação bélica das tropas do país na Síria. Em Pyongyang, nas eliminatórias para a Copa de 2022, um empate “oxo” entre as Coreias do Norte e do Sul, em um estádio “às moscas”.
É inaceitável que em pleno século vinte e um, o da inovação tecnológica, o da velocidade da informação, o do aumento do fluxo de pessoas e o da plena globalização, a humanidade ainda retroceda em casos de racismo, guerra e intolerância. Nas atividades cotidianas talvez isso passe desapercebido, velado. Mas não. O futebol escancara tudo isso. Como na tese de Marcel Mauss, do “fato social total”, o futebol o é. Por ele se entende a economia, a cultura, as relações humanas e a sociedade. Foi através do esporte-rei que se manifestaram os episódios de intolerância no Bulgária x Inglaterra, das restrições à liberdade no Coreia do Norte x Coreia do Sul e de apoio a ataques militares no França x Turquia.

Coreia do Norte e Coreia do Sul empataram em zero em estádio “às moscas” em Pyongyang. (Foto: Reprodução/AP)

 
Entende-se o porquê de o futebol ser palco de manifestações como esta. Em primeiro lugar, conecta-se com milhões de pessoas ao mesmo tempo. Representam identidades locais e regionais. Suas imagens correm o mundo todo e a opinião pública internacional dará julgamentos sobre cada episódio conforme o que é visto, como, por exemplo, avaliará a aproximação e abertura dos norte-coreanos se vissem um estádio repleto e com torcedores sul-coreanos. Como não foi isso o que aconteceu, talvez Pyongyang queira mostrar ao mundo que a sua abertura será muito mais lenta do que se demonstra em outros aspectos, como o político.
Entretanto, isso não justifica que o futebol deva ser espaço para estas manifestações. Muito pelo contrário. É preciso condená-las, puni-las severamente e relembrar a todos o porquê gostamos deste esporte: pela inclusão, pela união, pela alegria, pela partilha, pela universalidade, por ser um “idioma” único e compreendido por todo o mundo. Não há espaços para diferenças.
Assim sendo, há quem vai dizer que esta coluna está muito “romântica”. Pode ser que seja, sim. Há como mudar isso e esta mudança está na educação, no compartilhamento dos bons valores, do respeito, do jogo limpo. Os mesmos valores que lá no século XIX foram as bases para a criação do jogo de futebol.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Dizem que o futebol não tem nada a ver com a vida do homem, com as suas coisas mais essenciais. Não sei o quanto esta gente sabe da vida, mas de algo estou certo: não sabem nada de futebol”.
Eduardo Sacheri, escritor argentino

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Futebol de qualidade não se faz da noite para o dia

A troca constante de treinador é uma realidade impregnada no futebol mundial. Isso mesmo, no mundo todo. Aqui no Brasil acontece mais. Só que em outros centros também troca-se o comando se o resultado não aparece. O argumento dos dirigentes de que é mais fácil trocar o técnico do que todo o grupo de jogadores é até válido, porém superficial demais. Por trás disso está uma falta de convicção gigantesca na maioria das decisões tomadas. Simplifica-se todo o processo de planejamento, definição do modelo de jogo, verificação de forças e fraquezas do elenco e busca das peças certas para a implementação das ideias pretendidas, para no final o treinador ser trocado sem critério algum.
Pior do que trocar o comando técnico avaliando apenas resultado e não o trabalho em si é invariavelmente o perfil de quem é contratado para o lugar vago. Na maioria das vezes, chega um profissional com conceitos completamente diferentes de quem acabou de sair. Pode até acontecer um bom resultado no curto prazo. Mas após o caos inicial que a mexida no líder do processo causa vem a dura realidade traduzida na dificuldade em construir um jogo elaborado, por conta do famigerado ‘resultado a qualquer custo’.
O Flamengo, que hoje é o melhor time do Brasil, deve muito do seu sucesso a capacidade do português Jorge Jesus. Ele conseguiu criar boas ideias coletivas a partir da qualidade dos jogadores. Mas não dá para falar que foi algo pensado estrategicamente pela diretoria, já que nos meses anteriores passaram pelo clube Abel Braga, Dorival Júnior e Maurício Barbieri: profissionais antagônicos, contratados aleatoriamente.
O Palmeiras conseguiu ter um sucesso recente muito mais pela força da sua gestão, que criou boas condições estruturais, do que por um projeto de campo bem pensado. Os perfis de Marcelo Oliveira, Cuca, Eduardo Baptista, Róger Machado, Felipão e Mano Menezes mostram algum tipo de coerência para um suceder o outro? Ou seja, o projeto de futebol ainda é ‘temos que criar um fato novo’, ‘chacoalhar o vestiário’, ‘dar uma resposta a torcida’ e outros chavões que estão sempre na ponta da língua de dirigentes amadores e sem visão.
Eu poderia citar inúmeros outros exemplos que comprovam a aleatoriedade na escolha do treinador, indo do São Paulo, que não deixa ninguém trabalhar em paz, até o Corinthians que tem puramente um ‘achado’ com a similaridade entre Fábio Carille, Tite e Mano Menezes – comprovado pelas contratações de Cristovão Borges e Jair Ventura nesse meio tempo – mas é melhor pensarmos em soluções do que só ficar apontado o problema.
Dentro desse cenário caótico, o treinador tem que ter uma metodologia clara, que consiga extrair o que cada jogador tem de melhor rapidamente, potencializando o todo através da individualidade de cada peça. É preciso saber onde se quer chegar e como fazer isso através da leitura assertiva do ambiente e de um trabalho consistente, com métodos de treino bem definidos e que rapidamente criem padrões de ataque, defesa e de transições potencializando o que cada um tem de melhor.
Se não, continuaremos a ter trabalhos remendados, com um treinador aproveitando um pouco o que o seu antecessor deixou, tentando adicionar um ponto aqui, outro ali…futebol de qualidade não se faz assim. Ainda prefiro convicção nas ideias, respaldo diretivo e tempo para implementações dos conceitos. Quem sabe não tenhamos isso como premissa no futebol brasileiro daqui alguns anos?! Que comece, então, de ‘baixo para cima’, com os próprios técnicos mostrando aos dirigentes como se faz. Torço por isso.
 

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Sobre os lugares do drible e outras ideias

Talles Magno: lembrança de um jogo que se perde aos poucos. (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

 
O drible maravilhoso do garoto Talles Magno, do Vasco, aplicado no último domingo em São Januário, pelo Campeonato Brasileiro, rodou páginas e mais páginas mundo afora. Um leve gingado, sem encostar na bola, seguido de uma lambreta (ou carretilha, ou qualquer outro nome) objetiva, em direção à área, interrompida pela falta que resultou na expulsão do atleta adversário. Certamente um dos pontos altos da rodada.
Ao mesmo tempo em que causou admiração, este lance também gerou um certo debate, tanto do ponto de vista ético quanto do ponto de vista mais técnico, digamos assim. Neste segundo caso, vem à tona o que se chama de um certo perfil do futebol brasileiro, um certo jeito brasileiro de se jogar futebol, uma certa carência do drible no egresso da base brasileira e etc.
É mais ou menos neste sentido que gostaria de escrever hoje.

***

Vamos começar com uma pergunta daquelas: o que é um drible? Como alguém que não gosta de definir coisas, eu diria de cara que não faço a mínima ideia. Mas como alguém que gosta de pensar em hipóteses, vamos pensar em hipóteses. Por exemplo: o drible é uma forma maravilhosa de afirmação individual. Quando digo isso, repare bem, não falo de afirmação do jogador, mas falo de afirmação da pessoa. O sujeito disposto ao drible é um sujeito disposto ao confronto, aos riscos do confronto e, portanto, às consequências do confronto. Mas para quem quer se afirmar, para quem quer superar a si mesmo, nada disso importa. Porque quem tem medo não dribla. Os dribles em geral (e os dribles bons, em particular) têm pelo menos duas características incorrigíveis: a primeira delas é a coragem. O bom driblador é corajoso.
A segunda característica, a meu ver, é a criatividade. Só que aqui nós começarmos a pisar em um terreno metodológico. Ou seja, será que a minha metodologia de treinamento estimula ou restringe a criatividade dos meus atletas para determinadas situações-problema? Porque se você concorda comigo que a coragem é um requisito importante para o drible, mas no nosso treinamento colocarmos nossas crianças para driblarem cones, temos pelo menos dois problemas: I) não é preciso coragem para driblar cones e II) não é preciso criatividade para driblar cones. Talvez então seja preciso criar situações (situações de jogo!) que façam com que as nossas crianças na iniciação esportiva, ou os nossos jovens da especialização, possam desenvolver-se como dribladores contra adversários reais, desafiadores, em um ambiente de jogo que permita a aprendizagem. Basta buscar o número de horas de futebol de rua jogados por todos esses exímios dribladores que temos e tivemos ao longo da história para perceber o que um ambiente de jogo pode fazer. Daí, aliás, a importância fundamental da Pedagogia da Rua.
Mas ao mesmo tempo em que é uma forma de afirmação, corajosa e criativa, o drible também é uma certa forma de subversão. O jogador obediente demais não dribla tanto assim. Quem dribla é o desobediente. Ou seja, o jogador que desobedece o tempo (porque usa um tempo diferente dos outros), que desobedece o espaço (porque usa espaços que fogem à regra), que desobedece, vez por outra, as convenções que estão postas (confiando nas suas próprias), que desobedece as ideias do adversário e, muitas vezes, que desobedece até a si mesmo (se pensarmos no caminho intuitivo de que falamos semana passada). Mas, veja bem, mesmo a maior desobediência é obediente ao jogo, e nem toda desobediência é contrária ao modelo. Nada está fora do jogo, nada está fora das regras (senão não seria jogo), tudo está posto, mas de um jeito próprio, surpreendente, fantasioso e, exatamente por isso chamativo. Quem se afirma chama as atenções para si.
Ou seja, talvez o drible seja uma expressão afirmativa corajosa, criativa… e desobediente.

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Fiz questão de citar a importância metodológica ali em cima, porque de fato esta é uma discussão importante. Há colegas que realmente acham que não temos carência de dribladores no futebol brasileiro. E usam como argumento os jogadores A, B ou C, geralmente atletas de nível internacional e/ou Seleção Brasileira, que seriam as provas de que os dribladores não estão em falta e etc etc.
Mas vejo pelo menos dois problemas aqui: I) existe uma diferença entre Seleção Brasileira e futebol brasileiro. Uma coisa não é sinônimo da outra. O fato de haver dribladores no mais alto é minimamente esperado, uma vez que o futebol brasileiro, ao longo da sua história, construiu-se muito a partir do drible, do inesperado, desta bela dança com a bola nos pés. Daí a dizer que isso representa todo o futebol que se joga no país me parece um equívoco. Os estímulos que nossos garotos recebem são muito diferentes de um passado recente e são diferentes de região para região. O resultadismo alojado no profissional já se diluiu para a base, os terrenos em que nossas crianças jogam hoje são muito diferentes, bolas e chuteiras são muito diferentes de uma época em que as bolas podiam ser pedrinhas e as chuteiras eram um privilégio. Alguns ideais pseudossistêmicos apostam que a força do coletivo está no silencioso assassinato da individualidade, e por aí vai. E talvez o drible tenha deixado de ser uma fantasia para virar um acessório, muito abaixo do passe, muito abaixo do espaço, em zonas específicas, que não pode ter tanta coragem, não pode ter tanta criatividade, não pode ser desobediente e, portanto, talvez não possa ser drible. Será que não criamos cópias incompletas daquilo que era tão nosso?
Daí, chegamos ao problema II) Não sei vocês, mas tenho a impressão de que o drible está profundamente associado ao prazer de se jogar futebol. É possível dar um passe e não sentir nada, é possível dar um chute e não sentir nada, mas não é possível completar um drible e sair indiferente. E de tanto driblarmos em campo (talvez pelos problemas que já tínhamos como pátria) causamos um espanto tamanho, que diversos outros países tiveram que inventar alternativas e mais alternativas para tirar nosso espaço, cortar nosso tempo, matar nosso drible. Só que quem faz isso não faz por prazer, faz por obrigação. Daí que seja assustador que, vez por outra, nós aceitemos tão passivamente uma ou outra ideia externa, que olha de cima para baixo as nossas culturas, as nossas identidades, o nosso povo, os nossos corpos. Será que não compramos como solução exatamente alguns dos antídotos que foram criados para nos frear? Não seria isso um dos mais claros exemplos de suicídio futebolístico? Se sim, talvez a questão não seja como adaptar o futebol brasileiro ao que se chama (muitas vezes, sem critério algum) de modernidade, mas sim como isso que se chama de modernidade, ainda que não se saiba ao certo o que se chama de modernidade, se adapte (e não anule) às raízes culturalmente construídas pelo futebol brasileiro.

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Daí que a surpresa e as reações causada pelo drible de Talles Magno sejam tão sintomáticas, de um futebol às vezes tão comportado, tão asséptico, tão apático, tão respeitoso (no sentido metafórico), que um breve traço de picardia, de coragem, de criatividade e de desobediência seja tão estranho, tão raro, seja uma lembrança tão distante de nós mesmos.
A saber se aquele futebol mata a fome de um povo.
 

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Imagem e Legado

Há uns dias o autor desta coluna conversava sobre a imagem que uma instituição esportiva quer que o mercado e o ambiente em que atua tenham dela, impressões que lhe sejam conferidas. Por imagem se entende como uma representação visual ou um domínio subjetivo. São, portanto, as representações mentais: visões, fantasias e esquemas. Em outras palavras: atributos.

Muito se falou dos amistosos recentes do Brasil em solo asiático, especificamente em Singapura. Especialistas falam que se trata da internacionalização da marca, o produto “Seleção Brasileira”, o lema “Nascido pra jogar futebol”, chamam a digressão de “Global Tour”, tal e coisa, coisa e tal. Muito disso tem como objetivo trabalhar a imagem da equipe nacional no Brasil pelo mundo, com base em toda a história construída, de títulos e ídolos sempre recordados, em como a “seleção” quer ser lembrada, o legado que ela constrói e deixa por onde passa.

Para que isso aconteça, não basta apenas jogar. Atuar, simplesmente, não deixará legado algum. Legado, segundo o dicionário, é o que é transmitido às gerações que se seguem. Para construí-lo, que está diretamente associado ao conceito de imagem tratado nesta coluna (representações mentais), faz-se necessário envolvimento, criação de vínculo, laços, relações próximas e estreitas. A exemplo do que houve na Copa do Mundo de Rugby, em que alguns jogos foram cancelados por tufão, uma das equipes que tiveram o jogo cancelado trabalhou na limpeza da cidade afetada pela tempestade. Outro exemplo – e vocês vão muito bem se lembrar – é o da Alemanha no Brasil durante o Mundial de 2014: a proximidade, as relações humanas construídas e o trabalho de relações públicas são até hoje mencionados e diretamente influenciaram na imagem da seleção e do futebol alemão.

Neymar durante amistoso do Brasil em Singapura e a placa “Brasil Global Tour” ao fundo. (Foto: Reprodução/Divulgação)

 

Assim sendo, internacionalizar uma marca esportiva, globalizar um produto não significa somente jogar em determinado lugar, fazer um ou outro gol, “dar autógrafo” e ir embora. Nos dias de hoje os vínculos são cada vez mais raros e o ser humano carece deles. São estes tipos de relações que permanecem, contribuem para a imagem e duram muito. Este é o legado.

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Em tempo mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“O Brasil precisa vencer pelo que ele tem de sua essência: pela alegria, pela criatividade, pela música, pela boa paz, pela generosidade e pelo amor. Vencer com o que há de pior no espírito humano é uma grande derrota. Afinal, somos ou não o tal país do futuro?”
Afonso Celso ‘Afonsinho’ Garcia Reis

 

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Um “Bola da Vez” especial – Tiago Nunes

Quem viu o programa da ESPN, ainda que sem olhos e ouvidos muito apurados, teve orgulho da Escola Brasileira de Futebol tão bem representada que foi por um de seus protagonistas. A vez era do treinador athleticano Tiago Nunes no “Bola da Vez”! Um profissional que passou por todos ou quase todos os estágios da formação até chegar ao alto nível e deu show de competência na narração da sua trajetória.

Olha que eu, consciente do tamanho da minha ignorância, sei apreciar qualidade quando o assunto é futebol.

Tiago Nunes discorreu sobre várias nuances do futebol, brasileiro e internacional, do Athletico em particular e da vida, enfim foram minutos de muito prazer, orgulho e aprendizado.

O ambiente do futebol brasileiro – gestão, calendário, êxodo de jogadores, estrutura de clubes, politicagem, dentre outros – é tão perverso que não consegue refletir mais naturalmente a competência dos seus profissionais que andam ali “perdidos”. São sempre julgados pelos resultados de campo e responsabilizados com exclusividades absurdas pelas mazelas do nosso futebol.

Se tudo fosse “redondo” no futebol brasileiro escancararíamos muita coisa boa para o mercado interno e internacional. Não tenho dúvidas.

– Estar na final da Copa do Brasil não tinha nada de absurdo para mim, pois chegar onde estou hoje como profissional do futebol já é o maior dos absurdos!

Foram mais ou menos estas as palavras do Tiago, quando perguntado sobre os seus sentimentos nos momentos que precederam a final.

Genial! Humildade dos grandes homens!

Não quero citar outros nomes brasileiros para confirmar minha certeza sobre a qualidade profissional da nossa escola de futebol. Vou acabar cometendo injustiça me esquecendo deste ou daquele. Quero ficar apenas no Tiago Nunes, até porque ele levantou taças importantes nos últimos dois anos e quero dar destaque a isso.

O Athletico, no entanto, não pode passar despercebido neste contexto. Citado várias vezes pelo próprio treinador, o “gigante paranaense” é um grande exemplo de estrutura clubista com “gestão esportiva” de alto nível.

Este clube está repleto de excelentes profissionais respaldados por aparatos científicos de ponta que dão importante suporte ao ambiente que todo treinador construtor de jogo precisa e gostaria de ter.

O presidente Mário Celso Petraglia é um mestre na valorização da modernidade científica do esporte, dentre outras coisas. Se me perguntassem qual é o diferencial do presidente athleticano em relação aos seus pares brasileiros, eu responderia:

 Gere o seu Athletico com “foco no clube e no jogo da sua equipe”! Ou seja, o seu modelo de gestão está totalmente apontado para o futebol!

Que novidade!!

Muita novidade sim! Por incrível que pareça, nós, futebol brasileiro, estamos sem foco esportivo em nossas ideias e atitudes, desrespeitando às instituições, aos profissionais, às ciências do esporte, etc.  Além disso, tudo e todos são mais importantes que o clube há muitos anos. E nisso o Mário Celso Petraglia não fraqueja: O crescimento do seu Athletico é prioridade sempre!

Voltando à competência dos nossos treinadores, outra demonstração de amor e respeito ao futebol brasileiro foi quando Thiago Nunes respondeu sobre a possibilidade de trabalhar no Continente Europeu:

– Quero um dia morar na Europa sim, mas muito por questões culturais. Conhecer e viver costumes e línguas diferentes. Acho que isso será enriquecedor para mim e minha família.

Totalmente na contramão do que se espera de qualquer profissional brasileiro em várias áreas do mercado de trabalho. Até compreensível porque nosso país está marchando, marchando e saindo pouco do lugar, o que estimula o êxodo em geral.

Personificado no que estamos vendo do grande trabalho do Thiago Nunes e do Athletico e ao contrário do que está no imaginário dos brasileiros, o nosso futebol não precisa de treinadores “donos de clubes”, como o passado e parte do presente produziu. Acho até que isso sempre foi efeito colateral da ausência de gestão esportiva competente. Muitos treinadores se sobressaíram ao longo da história porque souberam e/ou tiveram que ocupar o vazio de gestão técnica que sempre teve e continua tendo em muitos clubes de futebol no Brasil.

Thiago Nunes tem sido o treinador do Athletico e o Athletico um clube de futebol que oferece as condições necessárias ao trabalho do Tiago Nunes. Posso dizer isso sem medo de errar porque também estive no Athletico por três ótimos anos da minha vida profissional.

Tiago Nunes é um técnico raiz do futebol brasileiro, já que passou por duas dezenas de clubes pequenos até chegar a este ponto. Obrigado por ter sido campeão brasileiro e sul-americano como foi. Você fortalece e se faz referência da nossa escola que tem vários outros profissionais do seu nível em condições de aparecer.

Que continuemos ganhando com o respaldo das competências aqui citadas e outras que irão surgir.

Que o “complexo vira-latas” não nos tire a visão dos verdadeiros problemas e virtudes do nosso futebol! Lições para todos nós que fazemos o futebol brasileiro.

Parabéns à ESPN que produziu momento especial na televisão brasileira.

Até a próxima!