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A necessidade da polêmica

Palmeiras e Ponte Preta fizeram, em São Paulo, a mais chocha final de campeonatos estaduais pelo Brasil. Nada como o eletrizante Cruzeiro 5×0 Atlético-MG, ou como os emocionantes Flamengo 1×0 Botafogo e Juventude 1×0 Inter, na bacia das almas.
 
E a imprensa em São Paulo entrou no clima. Ficou chocha, não discutiu, não criou polêmica, não teve o que discutir diante de um jogo em que o Palmeiras foi bem na primeira etapa, sofrível na segunda e, mesmo assim, deixou claro o óbvio: será campeão estadual após 11 anos.
 
A polêmica não existiu, as mesas redondas não tiveram nenhum lance questionável na insossa partida para debater. O jogo não teve algo de diferente. Resultado: vamos falar dos outros Estaduais!!!!
 
Pois é: o domingão das mesas redondas ganhou um espaço para a depenada do Galo em Minas, para o cada vez mais polêmico Flamengo x Botafogo no Rio, até para o Ba-Vi na Bahia! Existe uma necessidade pela polêmica na imprensa esportiva que não há espaço para aquilo que é banal.
 
Ok, também somos assim quando estamos no nosso dia-a-dia. Prova disso foi o recente tremor de terra em cinco estados brasileiros. Quem sentiu o tremor sem dúvida contou em todos os detalhes o que viu, o que sentiu, o que pensou naquela hora.
 
É da mente humana querer fugir do que é o banal, do que é o dia-a-dia, do que é o cotidiano insosso. A imprensa age da mesma forma. Se Palmeiras e Santos (ou Corinthians) estivessem definindo o título paulista, mais uma vez os outros estaduais seriam ignorados pelas emissoras paulistas. Assim como, no Sul, as resenhas ficaram em cima da vitória no minuto derradeiro do Juventude. Ou, no Rio, só se discutiu a entrada decisiva de Obina no clássico.
 
Não tem como. A imprensa, assim como as pessoas, sente necessidade pela polêmica. E, num domingo em que não se teve polêmica no estado de São Paulo, o jeito foi buscar outros lugares para dar pano à discussão.
 
Ainda se o Valdívia tivesse levado o terceiro amarelo num lance discutível…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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A taça do mundo ou a medalha de ouro?

Para quem gosta de futebol, 2008 é ano do quê? Bom, por ora, acompanhamos os desdobramentos finais dos campeonatos regionais, o começo da Libertadores, vamos palpitando sobre como será o Brasileirão, e, para os espíritos de porco, um gostinho a mais quanto aos participantes da segundona deste ano. Além do que acontece com os clubes, as atenções estarão voltadas pra saber se o time de Dunga finalmente emplaca nas eliminatórias. E… bem, também tem o torneio de futebol do Jogos Olímpicos. Mas basta ir a qualquer boteco pra saber que o lamento do torcedor antes as derrotas do Brasil nas últimas Copas é solenemente maior que eventuais eliminações, derrotas ou mesmo não-classificações do selecionado olímpico.

E o porquê disso? Se, de acordo com Martinez (2000), o futebol no Brasil é elemento de identificação, sendo possível detectar nesse esporte uma relação do brasileiro consigo mesmo, por que as referências que temos no imaginário coletivo de torcedores no tocante às atuações da seleção de futebol são em sua maioria relacionadas à Copa do Mundo, e quase nada em alusão aos Jogos Olímpicos?

Seguem algumas reflexões para que tenhamos mais elementos para compreender o fenômeno.

Lidamos com a perspectiva de que as décadas de 30 e 50 do século XX foram cruciais para a popularização da seleção nacional de futebol no Brasil. Em 1938, na França, o time brasileiro, apoiado como nunca o fora pelo governo brasileiro (na ocasião, Getúlio Vargas), alcançou o terceiro lugar, e teve seu desempenho ecoado para muitas partes do país pelas ondas do rádio. Popularidade, até então, inédita (PEREIRA, 1938). Já na década de 50, sediar a Copa de 1950 e vencer, na Europa, a de 1958, foi bastante contributivo para a popularidade do futebol no Brasil.

Até aqui, sem grandes novidades. Mas se as Copas do Mundo propiciavam essa condição ao futebol aqui por nossas terras, a quantas ia a participação brasileira do futebol nos Jogos Olímpicos? Bem modesta. O primeiro resultado expressivo do futebol brasileiro nos Jogos surgiu na nada remota década de 80 – mais precisamente, nos Jogos Olímpicos de 1984, disputados em Los Angeles.

O contexto geopolítico era o da Guerra Fria: a então União Soviética liderou um bloco de países do Leste Europeu que boicotaram os Jogos, como revide ao boicote liderado pelos EUA quatro anos antes, nos Jogos de Moscou (RUBIO, 2006, p.127).

Além disso, o Movimento Olímpico, após quase um século de considerável sucesso, começava a entrar na berlinda nos anos 80. Os Jogos Olímpicos foram idealizados no final do século XIX, tendo como propósito a realização de disputas esportivas entre nações para promover a congregação entre as mesmas sob uma perspectiva pedagógica. E essa prática esportiva estava fundamentada em duas premissas: o amadorismo e o fair play (RUBIO, 2006, P.60).

A partir dos Jogos de Los Angeles, o que já não era novidade para o futebol começava a ser realidade também dos outros esportes: o profissionalismo. Contudo, a adesão a essa nova realidade por parte do Comitê Olímpico Internacional (COI) foi gradual e marcada por algumas peculiaridades que, não raro, soavam contraditórias. Como o movimento olímpico lidou então com tal questão? E, especificamente no tocante ao futebol, o que foi feito?

Antes dos Jogos de Los Angeles, portanto, participava dos Jogos Olímpicos quem fosse atleta amador. Com a condição de profissionais por parte dos jogadores de futebol cada vez mais estabelecida aqui no Brasil, aparecia aí um empecilho para a participação desses nos Jogos Olímpicos. Contudo, o mesmo não se podia dizer sobre os atletas do chamado “bloco soviético”:

“Diante da alegação da socialização dos meios de produção vivida com a revolução, os países do bloco socialista negavam a existência de profissionais do esporte e afirmavam a condição amadora de todos os seus atletas, que estavam a serviço do Estado. Com isso, a mesma seleção de futebol que participava das Copas do Mundo, evento tão prestigiado e rentável quanto os Jogos Olímpicos – chegando a provocar, entre os dirigentes do futebol, um movimento de exclusão dos Jogos como forma de não comprometer o sucesso das Copas – participava da celebração olímpica, levando uma grande vantagem sobre os times compostos de atletas não profissionais, tanto do ponto de vista da capacidade física como da experiência acumulada pelos anos de prática” (RUBIO, 2006, pp. 196-197).

A solução adotada pelo COI foi, a partir dos Jogos de Los Angeles, permitir a participação de atletas profissionais, contanto que esses não tivessem participado de Copas do Mundo. Para atender às novas exigências do Comitê Olímpico, o time brasileiro que garantiu a classificação pros Jogos de Los Angeles foi dissolvido, e procuraram substituí-lo por um time que atuasse profissionalmente no Brasil, entrosado, que pudesse, com o pouco tempo disponível, garantir uma boa representação. O time do Internacional de Porto Alegre recebeu e aceitou a missão de representar o Brasil nos Jogos Olímpicos de 1984. Resultado: medalha de prata, conquistada depois de uma vitória diante da Itália nas semifinais – a mesma Itália que, dois anos antes, eliminara o Brasil da Copa.

Temos aqui um grande exemplo de como as atuações da seleção em Copas do Mundo adquiriram na memória coletiva brasileira uma maior repercussão que as dos Jogos Olímpicos. Nesse caso, não é difícil de se explicar; afinal, ao contrário do que aconteceu na Copa de 82, nos Jogos Olímpicos de 1984, era o time do Internacional se apropriando (legitimamente, que se diga) da camisa da seleção.

Nos Jogos Olímpicos seguintes, disputados em Seul, a base da equipe era formada pela seleção de juniores – base essa que, em 1994, traria o tão esperado quarto título da Copa do Mundo para o Brasil. Mais uma medalha, mais uma de prata.

Os Jogos de Barcelona foram marcados pela presença de atletas profissionais em vários esportes, sendo o basquete, o tênis e o ciclismo os exemplos que mais adquiriram repercussão. Contudo, no tocante ao futebol, a restrição aos atletas profissionais permanecia. Em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, COI e Fifa entraram num acordo quanto ao torneio de futebol dos Jogos: cada seleção poderia ter até três atletas profissionais em suas equipes. Usufruindo de tal regulamento, o Brasil conquistou a medalha de bronze em Atlanta e foi desclassificado nas quartas-de-final em Sydney.

Para os Jogos de Atenas, o time que já era antecipadamente tido como favorito ao ouro ficou na promessa: a equipe sequer conseguiu classificar-se.

Profissionalismo: talvez seja esse o ponto-chave que explique a grande popularidade das atuações da seleção brasileira nas Copas do Mundo, e a baixa, se comparada com essa, nos Jogos Olímpicos. Desde a década de 30 do século passado os clubes de futebol já resolveram o impasse “amadorismo x profissionalismo” (impasse cujos principais instigadores eram os sportmen do começo do século XX que, grosso modo, foram os responsáveis pela introdução da prática do futebol no Rio e em São Paulo, e que se enxergavam como os verdadeiros e únicos detentores de legitimidade para praticarem a modalidade).

Logo, os jogadores convocados para a seleção brasileira eram os profissionais – que, dentre outras coisas, recebiam maior atenção do público e da mídia. Enquanto isso, nos Jogos Olímpicos, a questão do profissionalismo só foi ser resolvida nos anos 90, sendo que, em relação ao futebol, a solução encontrada foi primeiro restringir a participação de atletas profissionais, depois restringir o número de atletas da categoria adulta – para ir ao encontro dos anseios do Movimento Olímpico (que insiste em aludir os preceitos de sua fundação, mais de um século depois) e da Fifa (que, obviamente, não quer que os Jogos Olímpicos se sobreponham em re
percussão à Copa do Mundo).

2008 também é ano de Jogos Olímpicos em Pequim. Mais uma oportunidade para quem se interessa em fazer análises sócio-culturais do Brasil pela ótica do futebol verificar quais as peculiaridades deste evento, sua ressonância em nosso país, e quais as possíveis contribuições do time olímpico na já vasta memória do brasileiro sobre as atuações de sua seleção.

* Paulo Nascimento é membro do GIEF.

Bibliografia

MARTINEZ, C. B. Driblando a perversão: futebol, subjetividade brasileira e psicanálise. Tese de doutorado. Programa de Psicologia Clínica. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo: 2000.
PEREIRA, Leonardo A. de M. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro – 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
RUBIO, Katia. Medalhistas olímpicos brasileiros: memórias, histórias e imaginário. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

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Defender com bola

Em uma das muitas e boas discussões científico-futebolísticas no Café dos Notáveis, ressurgiu uma das questões mais divergentes desde os tempos da inauguração do Café: a posse de bola.
 
Há tempos estudos científicos em todo o mundo, avaliando competições profissionais de futebol em diversos países, apontam para o fato de que o tempo de posse de bola de uma equipe em um jogo não tem boa correlação com o resultado da partida (nem com o número de gols feitos por uma equipe).
 
Isso em outras palavras quer dizer que ter a bola sob posse da equipe por mais tempo durante os diversos momentos do jogo não será garantia de vitória na partida.
 
Claro, estou eu aqui generalizando o conceito “posse de bola”, não “destrinchando-o” de acordo com as regiões do campo em que ocorre, nem com a circunstância temporal da partida (por temporal entenda-se momento do jogo).
 
O fato é que, ela que já foi vedete de narradores e “especialistas” desportivos, tem no Brasil uma variedade de treinadores com propostas distintas de modelo de jogo relativas ao seu conceito.
 
Aí recorro então a um velho colega, que por seus afazeres nunca pode freqüentar as reuniões dos notáveis do Café: sir Istvi. Ele gostava de dizer aos seus alunos da faculdade de educação física que não utilizassem apitos em aulas e treinos de esportes em geral. Dizia que isso seguia na contramão da história porque resgatava tempos de repressão política em que as pessoas de não tinham liberdade para expressarem seus pensamentos.
 
Ora, quanto poder sir Istivi julgava ter um apito? Obviamente em nossas conversas eu tentava mostrar a ele que o problema não estava no objeto em si, mas qual o uso era feito dele. Um dia acabou por se render à minha fala quando combinei com um grupo de alunos seus uma intervenção prática daqueles argumentos que eu usava.
 
Gosto de lembrar essa história para falar sobre a posse de bola porque é exatamente o mesmo problema conceitual: ela e a questão do uso do apito.
 
A posse da bola em um jogo já foi tida como variável determinante do atacar e do defender. Em outras palavras, pesquisadores e especialistas brasileiros, franceses, portugueses e espanhóis sempre atribuíram o estar atacar às equipes com a bola sob sua posse, e o defender para as que não a tinham em seu poder.
 
É claro, somos tentados e induzidos a pensar assim. Mas pensar assim é não compreender o jogo em sua complexidade. Sem ter que me aprofundar nisso neste momento, posso dizer que novas frentes de pesquisa são contrárias a essa fragmentação conduzida pelo estar ou não estar com a bola.
 
Estar com a posse da bola pode ser uma estratégia de controle do jogo. Não necessariamente para buscar atacar e fazer o gol. Mas também para “descansar” enquanto se joga e para se defender através da posse da bola.
 
É claro. O desgaste físico-técnico-tático-emocional de uma partida pode ser influenciado pelo ritmo do jogar. E o ritmo do jogar, pode se bem incorporado a estratégia e ao modelo de jogo, ser controlado pela equipe que tem a posse de bola (independente desta estar ou não a buscar o ataque).
 
Da mesma forma, para fazer um gol a bola precisa ser “atirada” de alguma forma contra ele (o gol, a meta, etc.). Se partirmos do pressuposto de que os jogadores da própria equipe não farão isso contra sua própria meta, então o adversário só o conseguirá fazer se algum dos seus jogadores puder “tocar” na bola. Se a equipe conseguir, para tanto, manter a posse da bola sem necessariamente buscar o ataque, poderá estar eficientemente se defendendo com a bola.
 
Esse conceito já pode por diversas vezes ser visto com sucesso no futebol inglês, em alguns momentos do jogo, em algumas equipes comandadas por treinadores não ingleses. Obviamente, essa não é a única forma de se defender ou “descansar”. Mas é uma proposta diferenciada dentro dos modelos de jogo que normalmente vemos por aí.
 
Estou certo, porém, que desenvolver tal conceito não é tarefa das mais fáceis dentro da cultura “futeboleira”. Nem tão pouco é assunto totalmente “pacífico” em ambientes como o Café dos Notáveis. O fato é, que dentre as tantas coisas que dizem que não podem ser mais “inventadas” no futebol (porque nele já não há mais nada a se inventar – segundo os “boleiro-especialistas”) está aí um conceito com espaço para ser desenvolvido.
 
É claro que, como tantas outras questões tático-estratégicas do futebol, paira sobre a idéia de que a posse de bola nessa perspectiva pode deixar o jogo desacelerado e menos interessante; argumento com o qual não posso concordar.
 
O conceito de se defender com a bola, como vejo, não preconiza o simples ficar por ficar com a bola. Incentiva sim a percepção e a significação do estar coletivo e individual com a posse da bola. E perceber e dar significado possibilita a todo tempo ler o jogo para tomar qualquer decisão que promova o jogar bem (que é diferente do jogar bonito, mas não o exclui). E isso quer dizer que a qualquer desequilíbrio adversário a possibilidade de se buscar mais um ataque é parte da estratégia.
 
Para perder um jogo, talvez tenhamos quatro possibilidades conceituais (que se ramificam). Ou perde-se por erro de estratégia, ou por qualidade do adversário (individual e/ou coletiva), ou por erro na ação (individual do jogador ou coletiva da equipe), ou por fatores externos à lógica do jogo (exemplo, erro da arbitragem).
 
 
O erro de estratégia tem relação direta com a qualidade do adversário (individual e coletiva) porque a elaboração da estratégia deve levar em conta a tal “qualidade”.
 
As ações individuais e coletivas também podem ter relação com a atuação do treinador, mas não necessariamente com sua estratégia de jogo. Então a estratégia do treinador e a qualidade do adversário são variáveis diretamente relacionadas e dependentes da atuação do treinador através de sua estratégia de jogo (e portanto, da sua leitura do jogo).
 
A ação individual e coletiva de seus jogadores e equipe também estão atreladas a atuação do treinador, porém mais ao seu modelo de treino e processo de trabalho.
 
A última grande variável “fatores externos a lógica do jogo” é aquela de menor ou nenhuma responsabilidade do treinador e sua estratégia de jogo (ainda que particularmente poderia contestar essa afirmação – deixemos para outro momento).
 
Em resumo, das quatro grandes varáveis, duas (50%) têm relação direta com as decisões do treinador sobre sua estratégia de jogo. Os outros 50%, aparentemente ainda denotam a ele menor responsabilidade (mas volto a dizer: isso pode mudar!).
 
Defender-se com bola é uma estratégia dentro do modelo de jogo – que é proposto pelo treinador e que pode potencializar erros no início do processo. Os erros quando aparecem, são muitas vezes suficientes para fazer com que o planejamento tome outra direção. Mas o que deveria ocorre
r na verdade é o correto entendimento do processo para diagnóstico exato dos porquês dos erros. Somente assim eles podem ser corrigidos; e somente assim a vitória virá.
 

Mais uma vez eu insisto: quando não se sabe por que se ganha, também não se saberá por que se perdeu. E aí, o fundo do poço é o limite…

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Associação entre ‘shuttle run’ e ‘shuttle run’ com bola

Resumo

Os objetivos do estudo foram: verificar a associação entre os testes de agilidade “Shuttle Run” (SR) e “Shuttle Run” com bola (SRB) em jogadores de futebol em diferentes categorias, posição de jogo e estágios maturacionais; e determinar a associação entre o SRB e o desempenho do passe em partida oficial.

Metodologia

96 meninos, entre 10 e 17 anos, divididos em quatro categorias: pré-mirim, mirim, infantil e juvenil, considerando ainda a posição de jogo (laterais, zagueiros, volantes, meio-atacantes e atacantes); e estágios maturacionais: pré púbere, púbere e pós púbere. Foram analisadas as variáveis: peso, estatura, maturação sexual, agilidade (SR) e agilidade específica para jogadores de futebol (SRB). Foi determinada a correlação entre a agilidade dos praticantes e o desempenho do passe na partida, mediante a avaliação de 4 jogos (2 vitórias e 2 derrotas).

Resultados

Quando analisados todos os jogadores, encontramos uma correlação moderada significativa (r = 0,66) entre os testes SR e SRB. As associações encontradas em todas as posições variaram de baixa (r= 0,34) a alta (r = 0,81), evidenciando correlação alta e significativa nos zagueiros (r= 0,81), moderada significativa nos atacantes (r= 0,51), laterais (r= 0,58) e volantes (r= 0,68).

Correlação baixa não significativa foi encontrada somente entre os meio-atacantes (r= 0,51). Foi evidenciada alta correlação entre SR e SRB na categoria juvenil (r= 0,78) e moderada nas categorias infantil (r= 0,63), mirim (r= 0,64) e pré-mirim (r=0,64), todos os valores foram significativos.

Nos estágios de maturação sexual foram evidenciadas correlações moderadas significativas entre os testes, pré-púbere (r= 0,56), púbere (r= 0,61) e pós-púbere (r= 0,63). Os resultados encontrados mostraram correlação negativa, moderada e significativa (r= -0,40) entre o teste SRB e o desempenho do passe bom com coeficiente de determinação de 16%.

Conclusão

O conjunto dessas informações permitiu concluir que o teste de SRB mede dimensões de agilidade que o teste de SR comum não alcançou, sugerindo, desta forma, que o SRB possa estar medindo uma agilidade mais específica, ou mais própria para o futebol. A associação significativa entre SRB e o desempenho do passe bom indica que o SRB pode predizer a qualidade do passe em situação real de jogo no futebol.

Introdução

O futebol foi criado oficialmente em 1863, na Inglaterra (1), onde em pouco tempo passou a ser a atividade recreativa mais praticada pelas massas urbanas daquele país. No Brasil, o futebol teve início em 1894, ano em que Charles Miller, filho do cônsul britânico em São Paulo retornou ao país após jogar na primeira divisão do futebol inglês. O futebol, sem dúvida, é o esporte mais popular e mais praticado no Brasil segundo o Atlas do Esporte no Brasil (1), sendo que no ano de 2002 havia por volta de 7 milhões de praticantes, 11 mil jogadores federados, 800 clubes federados além de 13 mil times amadores participando de jogos organizados.

O futebol vem sendo o alvo de diversos estudos (2,6,15,16), na tentativa de estabelecer o perfil de jogadores de futebol em diversas idades e níveis de competição. Fuenzalida e Matsudo 1987 (6), tentando identificar o per-
fil da aptidão física de jogadores de futebol da primeira divisão do estado de São Paulo através da estratégia Z Celafiscs, encontraram que futebolistas profissionais possuíam em relação a população menor porcentagem de gordura (Z= -0,53), índices mais elevados na potência aeróbica (Z= 1,43) e encontraram também que as variáveis neuromotoras apresentavam as maiores diferenças (Z=
2,66).

Esses dados foram corroborados por Silva e Duarte (15), que ao analisarem o perfil da aptidão física de jogadores da seleção brasileira de futebol sênior (38,6±3,3 anos), encontraram valores mais elevados do índice Z nas variáveis de força de tronco (Z= 4,46) e potência aeróbica (Z= 2,06), sendo a agilidade a terceira variável que mais se destacava (Z= -1,75). Soares et al. (16), estudaram o perfil de futebolistas em diferentes posições de jogo, onde encontraram diferenças significativas apenas entre as variáveis antropométricas (peso e estatura) entre todas as posições, e uma tendência de superioridade na potência aeróbica entre os zagueiros (VO2 máx 57,23 ±14,33) e meio-campistas (VO2 máx 68,73 ±13,23).

Araújo et al. (2), determinaram o perfil de futebolistas do gênero feminino encontrando diferença significativa entre a média populacional e as futebolistas nas
variáveis metabólicas e neuromotoras.

Entre os temas abordados destacaram-se também aqueles que visaram identificar as variáveis que poderiam determinar o sucesso de jovens atletas (9, 11). Segundo Seabra et al. (14), futebolistas e não futebolistas de uma mesma idade e gênero poderiam apresentar diferenças significativas nos aspectos antropométricos, neuromotores e em testes de habilidades específicas no futebol, sendo parecidos apenas nas variáveis metabólicas.

No entanto, nem sempre essas diferenças puderam ser atribuídas ao treinamento, variabilidade entre os estágios maturacionais ou métodos utilizados no processo de seleção para a modalidade.

Alguns estudos (9,11) apontaram o fato de que a maturação biológica estaria influenciando diretamente a capacidade funcional de jovens jogadores de futebol da faixa etária de 13 a 15 anos, sugerindo que o sucesso dos atletas jovens estaria relacionado à seleção daqueles com uma maturidade biológica precoce, que resultaria em uma maior estatura e massa corporal nessa fase, podendo auxiliar em seu desempenho em uma situação real de jogo. Entretanto, Seabra et al. (14) também demonstraram que a influência do treinamento sobre a agilidade foi mais importante do que a maturação em futebolistas de 12 a 16 anos. Em estudo realizado por Garganta et al. (7), entre jovens atletas de futebol de níveis diferentes (elite / não elite), em teste de agilidade, encontraram valores significativamente melhores para os futebolistas de elite, levantando a hipótese de que especialização da modalidade influenciaria no desempenho da agilidade de atletas de futebol nas categorias mais elevadas.

No futebol, enquanto modalidade esportiva, seria interessante avaliar o atleta de forma específica, utilizando testes que se aproximassem ao máximo do gesto motor utilizado na prática da modalidade. A agilidade, caracterizada pelos deslocamentos em várias direções, com ou sem bola, sempre em velocidade (8,11), pode ser considerada uma das variáveis mais importantes para a prática do futebol. Segundo Comas et al. (12), quando analisaram jogadores profissionais participantes do campeonato estadual do estado de São Paulo, a agilidade foi a quinta variável que mais se destacou, com índice Z= 1,25, sendo as quatro primeiras variáveis que mais se destacam: potência aeróbica (Z= 4,02), força de membros inferiores (Z= 3,31), velocidade (Z= -1,89) e potência anaeróbica (Z= 1, 63) (12).

As ações de alta velocidade são de suma importância para o desempenho no futebol e podem ser categorizadas naquelas que requerem acelerações máximas ou agilidade.

Segundo Little T (8), a aceleração, velocidade máxima e a agilidade são qualidades independentes uma das outras, sugerindo uma avaliação específica dessas três capacidades ao trabalhar com jogadores de futebol. Em 1993, Caicedo et al (3), propuseram um novo teste para avaliar de forma mais específica a agilidade de jogadores de futebol e analisaram também a correlação entre a performance no novo teste e o desempenho do passe em situação real de jogo, utilizando jogadores profissionais e encontraram uma correlação moderada significativa (r = 0,59 – <0,01) entre o teste de "Shuttle Run" e o novo teste "Shuttle Run" com bola e correlação alta negativa significativa (r= -0,89) entre o desempenho do passe bom performance no teste de agilidade específica, indicando o novo teste como um instrumento mais específico para se avaliar a agilidade entre futebolistas, podendo trazer uma perspectiva da qualidade do passe em partida oficial. O presente estudo teve como principal objetivo determinar a associação entre os testes de agilidade “Shuttle Run” e “Shuttle Run” com bola em jogadores de futebol de 10 a 17 anos de idade em diferentes categorias, posição de jogo e estágios maturacionais. O segundo objetivo foi determinar a associação entre o teste “Shuttle Run” com bola e o desempenho do passe durante um jogo oficial. Material e método

O estudo foi baseado em uma amostra não casual, por conveniência, envolvendo 96 alunos do sexo masculino de uma escolinha de futebol situada na zona leste da região metropolitana de São Paulo, com idade entre 10 e 17 anos (12,8 ± 2,0 anos) e tempo médio de prática de 6,1 ± 2,4 anos.

Os alunos foram divididos em quatro categorias, de acordo com critério adotado
pela Federação Paulista de Futebol: pré-mirim (10 e 11 anos), mirim (12 e 13 anos), infantil (14 e 15 anos) e juvenil (16 e 17 anos). Em relação à posição de jogo (função), foram ainda divididos: laterais (LAT), zagueiros (ZAG), volantes (VOL), meio-atacantes (MEIAS-ATC) e atacantes (ATC); e quanto aos estágios maturacionais em: pré-púbere, púbere e pós-púbere. Não foram analisados os goleiros devido ao baixo número de jogadores nessa posição.

Foram analisadas as variáveis: peso, estatura, maturação sexual através dos pêlos axilares e agilidade mediante o teste de “Shuttle Run” (SR) segundo padronização do Celafiscs (17), aplicados em quadra com os avaliados usando tênis. O teste “Shuttle Run” com bola (SRB) proposto por Caicedo ET al. (3), específico para mensurar a agilidade de jogadores de futebol, foi aplicado no campo de grama, realizado de chuteira. No teste de “Shuttle Run” com bola, foram utilizadas duas bolas número 4 para os jogadores de até doze anos de idade, e duas bolas número 5 para os jogadores acima de doze anos de idade.

Todas as equipes apresentavam freqüência semanal semelhante de treinamento (4x/sem), compostos de treinamentos físicos, técnicos e táticos, com sessões de 90 minutos. Cada categoria treinava separadamente das demais e realizava um jogo por final de semana, no campeonato estadual da associação paulista de futebol em que estavam inscritas.

Para determinar a reprodutibilidade do teste “Shuttle Run” com bola, os praticantes foram submetidos a uma segunda avaliação nas mesmas condições, com o mesmo avaliador, oito dias após a primeira avaliação. A reprodutibilidade encontrada no teste de “Shuttle Run” com bola neste estudo foi moderada e significativa (r = 0,68 – p<0,01). Para avaliarmos a correlação existente entre a agilidade dos praticantes e o desempenho do passe em situação real de jogo, foram assistidos quatro jogos, através de observação direta realizada por apenas um avaliador, nos jogos aconteceram duas vitórias e duas derrotas, sendo que os passes foram mensurados por análise de jogo (scouting) (11), seguindo os critérios descritos por Caicedo et al. (3) como sendo: a) BOM: quando o passe foi realizado de forma clara e precisa entre os jogadores, ou seja, se a bola chegava a seu destino sem interferência e cumprindo aparentemente o objetivo proposto pelo jogador que o executava para o jogador que o recebia;
b) NORMAL: quando o passe foi feito em sentido lateral ou para trás, sendo classificado assim porque não apresenta grande exigência e participação da variável neuromotora agilidade para sua execução, mas que se apresenta com grande freqüência nos jogos;
c) ERRADO: quando, ao ser realizado o passe, a bola não chegava ao destino, existindo interferência e deixando de cumprir o objetivo proposto pelo emissor para o receptor. Também foram considerados nesta categoria aqueles passes em que a bola termina fora do campo de jogo.

Análise estatística

Para análise estatística dos dados foram utilizados correlação linear de Pearson (r) e coeficiente de determinação (R). Foi adotado o nível de significância de p< 0,01.

Resultados e discussão

As características antropométricas e de tempo de prática dos jogadores estão descritas em média e desvio padrão na Tabela I. Quanto aos estágios maturacionais, 36,4% da amostra foi classificada como pré-púbere, 36,4% como púbere e 27,1% com pós-púbere.

Quando analisados todos os jogadores, uma correlação moderada significativa (r = 0,66) foi encontrada entre os testes “Shuttle Run” (11,27 ± 0,70 seg) e “Shuttle Run” com bola (11,68 ± 0,86 seg).

Os coeficientes de correlação encontrados entre SR e SRB variaram de alta (r = 0,81) a baixa (0,34) associação em todas as posições, evidenciando correlação alta e significativa nos zagueiros, moderada significativa nos atacantes, laterais e volantes. Foi encontrada correlação baixa não significativa somente entre os meio-atacantes.

Os dados apresentados na Tabela III demonstraram correlação alta entre SR e SRB na categoria juvenil e moderada nas categorias infantil, mirim e pré-mirim, sendo significativas (p<0,01) em todas. Observou-se que os resultados do coeficiente de determinação indicaram que 40% do desempenho no teste de SRB poderia ser explicado pelo desempenho no SR nas três categorias pré-mirim, mirim e infantil. Nossa hipótese é que nessas categorias o SRB estaria medindo uma agilidade mais específica, pois nessas faixas etárias as habilidades naturais exerceriam maior influência. Tal idéia poderia ser reforçada pelo coeficiente de explicação da categoria juvenil (R= 0,60), o qual sugere que a habilidade específica aumenta proporcionalmente com o tempo de prática, o que poderia representar maior influência da especialização da modalidade. Quando analisados os dados em termos absolutos (Figura I) são encontrados desempenhos superiores de acordo com passar das categorias, mostrando evolução no desempenho da agilidade conforme avanço nas categorias. Matsudo e Seabra (10,14) estabeleceram que no futebol variáveis neuromotoras tendem a melhorar com o aumento do tempo de prática, dados esses apoiados por Sanches et al. (12), que demonstraram que a agilidade avaliada pelo teste de “Shuttle Run” em atletas de futebol de quatro categorias diferentes (infantil, juvenil, juniores e profissional) melhorava de acordo com o avanço das categorias, corroborando os achados no presente estudo.

A reprodutibilidade do teste SRB encontrada foi moderada e significativa (r =0,68),
inferior a do estudo de Caicedo et al. (3) que, quando analisaram a agilidade de atletas adultos profissionais observou r = 0,89 significativo. Este fato poderia ser explicado porque atletas profissionais já teriam passado pelo processo de seleção da modalidade e possuiriam capacidade técnica mais estável.

Para Schmidt (13), dentre os vários fatores que aumentam a capacidade de performance em habilidades específicas, destacaria a experiência, tempo de treinamento e anos de prática, porque os atletas de alto rendimento teriam altos níveis de performance devido a quantidade de tempo nos treinamentos e anos de prática dedicados a modalidade.

Foram encontradas correlações moderadas significativas entre os testes SRB e SR nos diferentes estágios de maturação. Quando analisados os coeficientes de determinação e introduzida a bola no teste de agilidade, os resultados entre os estágios de maturação do teste SR estariam explicando entre 31% e 39% dos resultados do teste SRB, indicando que a associação entre os dois testes não aumenta com o nível maturacional.

Alguns estudos na literatura (9,14) apontaram para o fato de que a maturação biológica embora com grande importância nas variáveis de aptidão física geral, parece não influenciar significativamente nas habilidades motoras específicas. O treino e os anos de prática de futebol parecem ter uma ação positiva na melhoria destas habilidades. Vrijens e Van Cauter (18), não encontraram associação entre maturação e habilidades específicas do futebol, mas quando analisados o treino e anos de prática as associações foram significativas.

Seabra (14), analisando a aptidão física de escolares e jovens atletas de futebol encontrou superioridade no desempenho da agilidade em favor dos futebolistas, existindo entre eles também uma maturação mais precoce em relação aos escolares, podendo esta ser uma variável que resultaria no sucesso dos jovens atletas futebolistas nas categorias iniciais no futebol, pois quando removido o efeito da maturação as diferenças estatisticamente significativas desaparecem tornando o desempenho dos grupos parecidos.

Os resultados encontrados mostraram correlação negativa, moderada e significativa (r = -0,40) entre o teste “Shuttle Run” com bola e o passe bom, com coeficiente de determinação de 16%. Essa foi uma relação interessante, pois quanto melhor o desempenho no teste de agilidade com bola, maior foi o número de passes certos em situação real de jogo (Tabela V).

Os dados apresentados mostraram correlação moderada e significativa (Tab. V), entre o desempenho no teste SRB e o passe bom em situação real de jogo. Entretanto, os presentes achados foram inferiores aos de Caicedo et al (3), que encontraram r = -0,89*, corroborando os achados por Campos et al.(4), que revelaram melhor desempenho de habilidades específicas em jovens atletas do futebol de acordo com o aumento do tempo de prática. Por outro lado, Tomas e French (17) relataram ser a experiência no esporte fator fundamental para o desempenho de habilidades motoras específicas.

Os dados apresentados no presente estudo mostraram uma relação positiva entre o desempenho do teste e a qualidade do passe em situação real de jogo em jovens atletas.

Novos estudos que analisem de forma longitudinal o desempenho desta variável seriam importantes, acompanhando desde seleção até as categorias mais altas do futebol. No entanto essa abordagem é extremamente complicada e cara.

Conclusão

Os presentes achados evidenciaram que 50% da performance no teste “Shuttle Run” com bola não puderam ser explicados pelo desempenho no teste “Shuttle Run” em meias-atacantes, atacantes, laterais e volantes; sendo que entre os zagueiros esse valor foi de 34%.

A associação entre os testes “Shuttle Run” com bola e “Shuttle Run” foi significativa, de moderada a alta em todas as categorias. O coeficiente de determinação demonstrou que na categoria juvenil 40% dos resultados do teste “Shuttle Run” com bola não podem ser explicados através dos resultados do teste “Shuttle Run”. Nas categorias pré-mirim, mirim e infantil os resultados do “Shuttle Run” não explicam 60% do desempenho no teste “Shuttle Run” com bola, evidenciando que outros componentes além da agilidade simples estariam determinando o resultado do teste.

O nível de maturação biológica pareceu não influir no resultado da associação entre os dois testes. O conjunto dessas informações permitiram concluir que o teste de SRB mede dimensões de agilidade que o teste de SR comum não alcançou, sugerindo que pode estar medindo uma agilidade mais específica, ou mais própria do futebol.

Quando analisada a associação existente entre o teste de “Shuttle Run” com bola e o desempenho do passe em situação real de jogo, os dados evidenciaram correlação negativa, moderada significativa para o desempenho do passe bom, concluindo que o desempenho no teste de específico de agilidade possa predizer de forma muito interessante a qualidade do passe em situação real de jogo.

Bibliografia

1. Araújo TL, Junior AJF e Ferreira M. Perfil de aptidão física de jogadoras de futebol de feminino. In
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e sua correlação com o desempenho do passe em situação real de jogo. R. Bras. Ci e Mov. 1993; 7: 7-15.
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Londrina. 1992, 7: 51-57.
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9. Malina RM, Eisenmann JC, Cumming SP, Ribeiro B e Aroso J. Maturity associated variation in the
growth and functional capacities of youth football (soccer) players 13-15 years. Eur J Appl physiol.
2004; 91: 555-562.
10. Matsudo VKR. Efeitos do treinamento nas características de aptidão física de futebolistas adolescentes e adultos. In CELAFIsCs dez Anos de Contribuição as Ciências do Esporte, São Caetano do Sul, 1986; 298-302.
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12. Ré AHN, Teixeira CP, Massa M, Böhme MTS. Interferência de características antropométricas e de aptidão física na identificação de talentos no futsal. R. Bras. Ci e Mov. 2003; 11: 51-56.
13. Sanchez EC, Pereira MHN, Matsudo VKR. Comparação da aptidão física de jogadores de futebol de quatro categorias diferentes. APEF Londrina. 1992; 7: 44-50.
14. Schmidt R. Motor learning e performance. From principles to pratiples. Champaing : Humam Kinetics 1991.
15. Seabra A, Maia JA, Garganta R. Crescimento, Maturação, Aptidão Física, Força Explosiva e
Habilidades Motoras Específicas. Estudo em Jovens Futebolistas do Sexo Masculino dos 12 aos 16 anos de Idade. Revista Portuguesa de Ciências do desporto. 2001; 1: 22-35.
16. Silva SC, Duarte MFS. Perfil de aptidão física da seleção brasileira de futebol sênior. In XV simpósio de Ciências do Esporte, p 30, 1987.
17. Soares AS, Junior AJF, Ferreira M. Perfil de aptidão física de jogadores de futebol de campo em
diferentes posições de jogo. In XV Encontro Mineiro de Atividade Física. p 35, 1993.
18. Matsudo VKR. Testes em Ciências do Esporte. Ed Midiograf 2005.
19. Thomas JR, French KE, Humphiries CA. Knowledge develpment and sport performance: directions for motor behevior. Journal of sport Psychology. 1986; 8: 259-279
20. Vrijens J, Van Cauter C. Physical performance capacity and specific skills in young soccer players. In Brinkhorst R, Kemper H, Saris W (eds.) International series on sport science – Children and exercise.

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Associação entre 'shuttle run' e 'shuttle run' com bola

Resumo

Os objetivos do estudo foram: verificar a associação entre os testes de agilidade “Shuttle Run” (SR) e “Shuttle Run” com bola (SRB) em jogadores de futebol em diferentes categorias, posição de jogo e estágios maturacionais; e determinar a associação entre o SRB e o desempenho do passe em partida oficial.

Metodologia

96 meninos, entre 10 e 17 anos, divididos em quatro categorias: pré-mirim, mirim, infantil e juvenil, considerando ainda a posição de jogo (laterais, zagueiros, volantes, meio-atacantes e atacantes); e estágios maturacionais: pré púbere, púbere e pós púbere. Foram analisadas as variáveis: peso, estatura, maturação sexual, agilidade (SR) e agilidade específica para jogadores de futebol (SRB). Foi determinada a correlação entre a agilidade dos praticantes e o desempenho do passe na partida, mediante a avaliação de 4 jogos (2 vitórias e 2 derrotas).

Resultados

Quando analisados todos os jogadores, encontramos uma correlação moderada significativa (r = 0,66) entre os testes SR e SRB. As associações encontradas em todas as posições variaram de baixa (r= 0,34) a alta (r = 0,81), evidenciando correlação alta e significativa nos zagueiros (r= 0,81), moderada significativa nos atacantes (r= 0,51), laterais (r= 0,58) e volantes (r= 0,68).

Correlação baixa não significativa foi encontrada somente entre os meio-atacantes (r= 0,51). Foi evidenciada alta correlação entre SR e SRB na categoria juvenil (r= 0,78) e moderada nas categorias infantil (r= 0,63), mirim (r= 0,64) e pré-mirim (r=0,64), todos os valores foram significativos.

Nos estágios de maturação sexual foram evidenciadas correlações moderadas significativas entre os testes, pré-púbere (r= 0,56), púbere (r= 0,61) e pós-púbere (r= 0,63). Os resultados encontrados mostraram correlação negativa, moderada e significativa (r= -0,40) entre o teste SRB e o desempenho do passe bom com coeficiente de determinação de 16%.

Conclusão

O conjunto dessas informações permitiu concluir que o teste de SRB mede dimensões de agilidade que o teste de SR comum não alcançou, sugerindo, desta forma, que o SRB possa estar medindo uma agilidade mais específica, ou mais própria para o futebol. A associação significativa entre SRB e o desempenho do passe bom indica que o SRB pode predizer a qualidade do passe em situação real de jogo no futebol.

Introdução

O futebol foi criado oficialmente em 1863, na Inglaterra (1), onde em pouco tempo passou a ser a atividade recreativa mais praticada pelas massas urbanas daquele país. No Brasil, o futebol teve início em 1894, ano em que Charles Miller, filho do cônsul britânico em São Paulo retornou ao país após jogar na primeira divisão do futebol inglês. O futebol, sem dúvida, é o esporte mais popular e mais praticado no Brasil segundo o Atlas do Esporte no Brasil (1), sendo que no ano de 2002 havia por volta de 7 milhões de praticantes, 11 mil jogadores federados, 800 clubes federados além de 13 mil times amadores participando de jogos organizados.

O futebol vem sendo o alvo de diversos estudos (2,6,15,16), na tentativa de estabelecer o perfil de jogadores de futebol em diversas idades e níveis de competição. Fuenzalida e Matsudo 1987 (6), tentando identificar o per-
fil da aptidão física de jogadores de futebol da primeira divisão do estado de São Paulo através da estratégia Z Celafiscs, encontraram que futebolistas profissionais possuíam em relação a população menor porcentagem de gordura (Z= -0,53), índices mais elevados na potência aeróbica (Z= 1,43) e encontraram também que as variáveis neuromotoras apresentavam as maiores diferenças (Z=
2,66).

Esses dados foram corroborados por Silva e Duarte (15), que ao analisarem o perfil da aptidão física de jogadores da seleção brasileira de futebol sênior (38,6±3,3 anos), encontraram valores mais elevados do índice Z nas variáveis de força de tronco (Z= 4,46) e potência aeróbica (Z= 2,06), sendo a agilidade a terceira variável que mais se destacava (Z= -1,75). Soares et al. (16), estudaram o perfil de futebolistas em diferentes posições de jogo, onde encontraram diferenças significativas apenas entre as variáveis antropométricas (peso e estatura) entre todas as posições, e uma tendência de superioridade na potência aeróbica entre os zagueiros (VO2 máx 57,23 ±14,33) e meio-campistas (VO2 máx 68,73 ±13,23).

Araújo et al. (2), determinaram o perfil de futebolistas do gênero feminino encontrando diferença significativa entre a média populacional e as futebolistas nas
variáveis metabólicas e neuromotoras.

Entre os temas abordados destacaram-se também aqueles que visaram identificar as variáveis que poderiam determinar o sucesso de jovens atletas (9, 11). Segundo Seabra et al. (14), futebolistas e não futebolistas de uma mesma idade e gênero poderiam apresentar diferenças significativas nos aspectos antropométricos, neuromotores e em testes de habilidades específicas no futebol, sendo parecidos apenas nas variáveis metabólicas.

No entanto, nem sempre essas diferenças puderam ser atribuídas ao treinamento, variabilidade entre os estágios maturacionais ou métodos utilizados no processo de seleção para a modalidade.

Alguns estudos (9,11) apontaram o fato de que a maturação biológica estaria influenciando diretamente a capacidade funcional de jovens jogadores de futebol da faixa etária de 13 a 15 anos, sugerindo que o sucesso dos atletas jovens estaria relacionado à seleção daqueles com uma maturidade biológica precoce, que resultaria em uma maior estatura e massa corporal nessa fase, podendo auxiliar em seu desempenho em uma situação real de jogo. Entretanto, Seabra et al. (14) também demonstraram que a influência do treinamento sobre a agilidade foi mais importante do que a maturação em futebolistas de 12 a 16 anos. Em estudo realizado por Garganta et al. (7), entre jovens atletas de futebol de níveis diferentes (elite / não elite), em teste de agilidade, encontraram valores significativamente melhores para os futebolistas de elite, levantando a hipótese de que especialização da modalidade influenciaria no desempenho da agilidade de atletas de futebol nas categorias mais elevadas.

No futebol, enquanto modalidade esportiva, seria interessante avaliar o atleta de forma específica, utilizando testes que se aproximassem ao máximo do gesto motor utilizado na prática da modalidade. A agilidade, caracterizada pelos deslocamentos em várias direções, com ou sem bola, sempre em velocidade (8,11), pode ser considerada uma das variáveis mais importantes para a prática do futebol. Segundo Comas et al. (12), quando analisaram jogadores profissionais participantes do campeonato estadual do estado de São Paulo, a agilidade foi a quinta variável que mais se destacou, com índice Z= 1,25, sendo as quatro primeiras variáveis que mais se destacam: potência aeróbica (Z= 4,02), força de membros inferiores (Z= 3,31), velocidade (Z= -1,89) e potência anaeróbica (Z= 1, 63) (12).

As ações de alta velocidade são de suma importância para o desempenho no futebol e podem ser categorizadas naquelas que requerem acelerações máximas ou agilidade.

Segundo Little T (8), a aceleração, velocidade máxima e a agilidade são qualidades independentes uma das outras, sugerindo uma avaliação específica dessas três capacidades ao trabalhar com jogadores de futebol. Em 1993, Caicedo et al (3), propuseram um novo teste para avaliar de forma mais específica a agilidade de jogadores de futebol e analisaram também a correlação entre a performance no novo teste e o desempenho do passe em situação real de jogo, utilizando jogadores profissionais e encontraram uma correlação moderada significativa (r = 0,59 – <0,01) entre o teste de "Shuttle Run" e o novo teste "Shuttle Run" com bola e correlação alta negativa significativa (r= -0,89) entre o desempenho do passe bom performance no teste de agilidade específica, indicando o novo teste como um instrumento mais específico para se avaliar a agilidade entre futebolistas, podendo trazer uma perspectiva da qualidade do passe em partida oficial. O presente estudo teve como principal objetivo determinar a associação entre os testes de agilidade “Shuttle Run” e “Shuttle Run” com bola em jogadores de futebol de 10 a 17 anos de idade em diferentes categorias, posição de jogo e estágios maturacionais. O segundo objetivo foi determinar a associação entre o teste “Shuttle Run” com bola e o desempenho do passe durante um jogo oficial. Material e método

O estudo foi baseado em uma amostra não casual, por conveniência, envolvendo 96 alunos do sexo masculino de uma escolinha de futebol situada na zona leste da região metropolitana de São Paulo, com idade entre 10 e 17 anos (12,8 ± 2,0 anos) e tempo médio de prática de 6,1 ± 2,4 anos.

Os alunos foram divididos em quatro categorias, de acordo com critério adotado
pela Federação Paulista de Futebol: pré-mirim (10 e 11 anos), mirim (12 e 13 anos), infantil (14 e 15 anos) e juvenil (16 e 17 anos). Em relação à posição de jogo (função), foram ainda divididos: laterais (LAT), zagueiros (ZAG), volantes (VOL), meio-atacantes (MEIAS-ATC) e atacantes (ATC); e quanto aos estágios maturacionais em: pré-púbere, púbere e pós-púbere. Não foram analisados os goleiros devido ao baixo número de jogadores nessa posição.

Foram analisadas as variáveis: peso, estatura, maturação sexual através dos pêlos axilares e agilidade mediante o teste de “Shuttle Run” (SR) segundo padronização do Celafiscs (17), aplicados em quadra com os avaliados usando tênis. O teste “Shuttle Run” com bola (SRB) proposto por Caicedo ET al. (3), específico para mensurar a agilidade de jogadores de futebol, foi aplicado no campo de grama, realizado de chuteira. No teste de “Shuttle Run” com bola, foram utilizadas duas bolas número 4 para os jogadores de até doze anos de idade, e duas bolas número 5 para os jogadores acima de doze anos de idade.

Todas as equipes apresentavam freqüência semanal semelhante de treinamento (4x/sem), compostos de treinamentos físicos, técnicos e táticos, com sessões de 90 minutos. Cada categoria treinava separadamente das demais e realizava um jogo por final de semana, no campeonato estadual da associação paulista de futebol em que estavam inscritas.

Para determinar a reprodutibilidade do teste “Shuttle Run” com bola, os praticantes foram submetidos a uma segunda avaliação nas mesmas condições, com o mesmo avaliador, oito dias após a primeira avaliação. A reprodutibilidade encontrada no teste de “Shuttle Run” com bola neste estudo foi moderada e significativa (r = 0,68 – p<0,01). Para avaliarmos a correlação existente entre a agilidade dos praticantes e o desempenho do passe em situação real de jogo, foram assistidos quatro jogos, através de observação direta realizada por apenas um avaliador, nos jogos aconteceram duas vitórias e duas derrotas, sendo que os passes foram mensurados por análise de jogo (scouting) (11), seguindo os critérios descritos por Caicedo et al. (3) como sendo: a) BOM: quando o passe foi realizado de forma clara e precisa entre os jogadores, ou seja, se a bola chegava a seu destino sem interferência e cumprindo aparentemente o objetivo proposto pelo jogador que o executava para o jogador que o recebia;
b) NORMAL: quando o passe foi feito em sentido lateral ou para trás, sendo classificado assim porque não apresenta grande exigência e participação da variável neuromotora agilidade para sua execução, mas que se apresenta com grande freqüência nos jogos;
c) ERRADO: quando, ao ser realizado o passe, a bola não chegava ao destino, existindo interferência e deixando de cumprir o objetivo proposto pelo emissor para o receptor. Também foram considerados nesta categoria aqueles passes em que a bola termina fora do campo de jogo.

Análise estatística

Para análise estatística dos dados foram utilizados correlação linear de Pearson (r) e coeficiente de determinação (R). Foi adotado o nível de significância de p< 0,01.

Resultados e discussão

As características antropométricas e de tempo de prática dos jogadores estão descritas em média e desvio padrão na Tabela I. Quanto aos estágios maturacionais, 36,4% da amostra foi classificada como pré-púbere, 36,4% como púbere e 27,1% com pós-púbere.

Quando analisados todos os jogadores, uma correlação moderada significativa (r = 0,66) foi encontrada entre os testes “Shuttle Run” (11,27 ± 0,70 seg) e “Shuttle Run” com bola (11,68 ± 0,86 seg).

Os coeficientes de correlação encontrados entre SR e SRB variaram de alta (r = 0,81) a baixa (0,34) associação em todas as posições, evidenciando correlação alta e significativa nos zagueiros, moderada significativa nos atacantes, laterais e volantes. Foi encontrada correlação baixa não significativa somente entre os meio-atacantes.

Os dados apresentados na Tabela III demonstraram correlação alta entre SR e SRB na categoria juvenil e moderada nas categorias infantil, mirim e pré-mirim, sendo significativas (p<0,01) em todas. Observou-se que os resultados do coeficiente de determinação indicaram que 40% do desempenho no teste de SRB poderia ser explicado pelo desempenho no SR nas três categorias pré-mirim, mirim e infantil. Nossa hipótese é que nessas categorias o SRB estaria medindo uma agilidade mais específica, pois nessas faixas etárias as habilidades naturais exerceriam maior influência. Tal idéia poderia ser reforçada pelo coeficiente de explicação da categoria juvenil (R= 0,60), o qual sugere que a habilidade específica aumenta proporcionalmente com o tempo de prática, o que poderia representar maior influência da especialização da modalidade. Quando analisados os dados em termos absolutos (Figura I) são encontrados desempenhos superiores de acordo com passar das categorias, mostrando evolução no desempenho da agilidade conforme avanço nas categorias. Matsudo e Seabra (10,14) estabeleceram que no futebol variáveis neuromotoras tendem a melhorar com o aumento do tempo de prática, dados esses apoiados por Sanches et al. (12), que demonstraram que a agilidade avaliada pelo teste de “Shuttle Run” em atletas de futebol de quatro categorias diferentes (infantil, juvenil, juniores e profissional) melhorava de acordo com o avanço das categorias, corroborando os achados no presente estudo.

A reprodutibilidade do teste SRB encontrada foi moderada e significativa (r =0,68),
inferior a do estudo de Caicedo et al. (3) que, quando analisaram a agilidade de atletas adultos profissionais observou r = 0,89 significativo. Este fato poderia ser explicado porque atletas profissionais já teriam passado pelo processo de seleção da modalidade e possuiriam capacidade técnica mais estável.

Para Schmidt (13), dentre os vários fatores que aumentam a capacidade de performance em habilidades específicas, destacaria a experiência, tempo de treinamento e anos de prática, porque os atletas de alto rendimento teriam altos níveis de performance devido a quantidade de tempo nos treinamentos e anos de prática dedicados a modalidade.

Foram encontradas correlações moderadas significativas entre os testes SRB e SR nos diferentes estágios de maturação. Quando analisados os coeficientes de determinação e introduzida a bola no teste de agilidade, os resultados entre os estágios de maturação do teste SR estariam e
xplicando entre 31% e 39% dos resultados do teste SRB, indicando que a associação entre os dois testes não aumenta com o nível maturacional.

Alguns estudos na literatura (9,14) apontaram para o fato de que a maturação biológica embora com grande importância nas variáveis de aptidão física geral, parece não influenciar significativamente nas habilidades motoras específicas. O treino e os anos de prática de futebol parecem ter uma ação positiva na melhoria destas habilidades. Vrijens e Van Cauter (18), não encontraram associação entre maturação e habilidades específicas do futebol, mas quando analisados o treino e anos de prática as associações foram significativas.

Seabra (14), analisando a aptidão física de escolares e jovens atletas de futebol encontrou superioridade no desempenho da agilidade em favor dos futebolistas, existindo entre eles também uma maturação mais precoce em relação aos escolares, podendo esta ser uma variável que resultaria no sucesso dos jovens atletas futebolistas nas categorias iniciais no futebol, pois quando removido o efeito da maturação as diferenças estatisticamente significativas desaparecem tornando o desempenho dos grupos parecidos.

Os resultados encontrados mostraram correlação negativa, moderada e significativa (r = -0,40) entre o teste “Shuttle Run” com bola e o passe bom, com coeficiente de determinação de 16%. Essa foi uma relação interessante, pois quanto melhor o desempenho no teste de agilidade com bola, maior foi o número de passes certos em situação real de jogo (Tabela V).

Os dados apresentados mostraram correlação moderada e significativa (Tab. V), entre o desempenho no teste SRB e o passe bom em situação real de jogo. Entretanto, os presentes achados foram inferiores aos de Caicedo et al (3), que encontraram r = -0,89*, corroborando os achados por Campos et al.(4), que revelaram melhor desempenho de habilidades específicas em jovens atletas do futebol de acordo com o aumento do tempo de prática. Por outro lado, Tomas e French (17) relataram ser a experiência no esporte fator fundamental para o desempenho de habilidades motoras específicas.

Os dados apresentados no presente estudo mostraram uma relação positiva entre o desempenho do teste e a qualidade do passe em situação real de jogo em jovens atletas.

Novos estudos que analisem de forma longitudinal o desempenho desta variável seriam importantes, acompanhando desde seleção até as categorias mais altas do futebol. No entanto essa abordagem é extremamente complicada e cara.

Conclusão

Os presentes achados evidenciaram que 50% da performance no teste “Shuttle Run” com bola não puderam ser explicados pelo desempenho no teste “Shuttle Run” em meias-atacantes, atacantes, laterais e volantes; sendo que entre os zagueiros esse valor foi de 34%.

A associação entre os testes “Shuttle Run” com bola e “Shuttle Run” foi significativa, de moderada a alta em todas as categorias. O coeficiente de determinação demonstrou que na categoria juvenil 40% dos resultados do teste “Shuttle Run” com bola não podem ser explicados através dos resultados do teste “Shuttle Run”. Nas categorias pré-mirim, mirim e infantil os resultados do “Shuttle Run” não explicam 60% do desempenho no teste “Shuttle Run” com bola, evidenciando que outros componentes além da agilidade simples estariam determinando o resultado do teste.

O nível de maturação biológica pareceu não influir no resultado da associação entre os dois testes. O conjunto dessas informações permitiram concluir que o teste de SRB mede dimensões de agilidade que o teste de SR comum não alcançou, sugerindo que pode estar medindo uma agilidade mais específica, ou mais própria do futebol.

Quando analisada a associação existente entre o teste de “Shuttle Run” com bola e o desempenho do passe em situação real de jogo, os dados evidenciaram correlação negativa, moderada significativa para o desempenho do passe bom, concluindo que o desempenho no teste de específico de agilidade possa predizer de forma muito interessante a qualidade do passe em situação real de jogo.

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growth and functional capacities of youth football (soccer) players 13-15 years. Eur J Appl physiol.
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O futebol nas aulas de educação física

O avanço nas propostas metodológicas para o ensino do futebol nesse inicio de século foi significativo, considerando o número de trabalhos apresentados em revistas cientificas, periódicos e livros publicados. O problema é que ainda existe uma distância exorbitante entre o que se propõe e o que realmente se realiza na prática. As discussões tem se concentrado no como ensinar. Entretanto, existem outros elementos que compõem a prática educativa e que necessitam ser provocadas.

As discussões sobre o ensino do futebol, tanto nas aulas de educação e escolas de esporte, tem se concentrado na tentativa de se alcançar uma abordagem ideal ou suficiente. O problema em buscar por uma proposta, a qual em suas fronteiras seja suficiente (eficaz e eficiente), é que não existe uma única forma de aprender.

De inicio dizemos que nenhuma proposta metodológica ou método é suficiente. Por isso, temos defendido que ao invés de ficarmos limitados as fronteiras de um método ideal, devemos ser capazes de questionar os propósitos, as circunstâncias e a maneira que devemos utilizar os referenciais metodológicos. Contudo, a lógica didática deverá estar subordinada a lógica do jogo, assim como, aos objetivos pedagógicos propostos. Mas este tema será abordado em um próximo momento, para não correr o risco de ser insuficiente na exposição do que defendermos, e conseqüentemente, dar margem a interpretações indevidas.

O leitor não irá encontrar uma proposta metodológica para ensinar futebol. Nosso propósito é levantar algumas questões para ser objeto de reflexão, das quais em conformidade com a prática educativa de cada professor, possam ser referenciais no tratamento pedagógico dado ao conteúdo futebol nas aulas de educação física.

Desse modo, suspendemos momentaneamente a questão ‘como ensinar futebol’, para trazer a luz da reflexão: nossos alunos estão realmente aprendendo? O futebol é conteúdo?

Certamente, para aqueles que acreditam que futebol se ensina (e isso já é um avanço significativo), existem inúmeras justificativas um tanto convincentes. Mas será mesmo que nossos alunos estão aprendendo futebol nas aulas de educação física? Levantamos essa indagação sobre alguns argumentos nos quais há certo tempo tem suscitado algumas inquietações.

O primeiro aspecto de nossa argumentação esta relacionado ao tempo de aula. A aula de educação física, em escolas públicas ou particulares, tem uma carga horária que vária entre uma a três aulas semanais (de acordo com o estabelecimento de ensino) e com um tempo de aula entre 45 e 50 minutos, com turmas heterogêneas e volumosas. Seria cabível sustentar que conseguiríamos de forma significativa melhorar as habilidades especificas de nossos alunos para jogarem futebol? Temos dúvidas!

O segundo aspecto de nossa argumentação esta relacionado à sistematização do conteúdo futebol nas aulas de educação física. Existe uma confusão em relação às escolas de esportes e aulas de educação física.

Nas escolas de esportes o tempo de aula é bem maior, o aluno escolheu a modalidade que o agrada e o grupo de alunos se aproxima mais de uma homogeneidade (seja por gênero, idade ou nível de habilidade) e na maioria das vezes estão orientadas para um processo de formação esportiva. Nas aulas de educação física acontecesse justamente o oposto, e ainda, não podemos limitar as aulas de educação física a reprodução do esporte na escola para atender apenas aos objetivos de uma formação esportiva unilateral.

Então, como abordar o futebol nas aulas de educação física? Para essa questão ser respondida o professor tem que ter claro a função e o objetivo da disciplina de educação física a qual defende na escola, tendo o futebol como um dos seus conteúdos.

A educação física na escola que defendemos intervém mais no sentido de desenvolver conhecimentos do que transmitir verdades, advindos das relações entre as pessoas e seu mundo e do mundo com as pessoas. É a disciplina que na escola se responsabiliza pela sistematização de um conteúdo especifico, tematizando saberes relacionados às nossas práticas corporais, tendo como resultado a produção de um conhecimento original (irredutível) e complementar (produto da relação com o mundo) e o favorecimento da apropriação dos patrimônios culturais produzidos pela humanidade. (FREIRE; SCAGLIA, 2003).

O objetivo da disciplina de educação física que defendemos na escola é conhecer o que já foi produzido de conhecimento pelo homem relacionado às suas práticas corporais, contextualizar para compreender o contexto no qual o conhecimento foi produzido e facilitar um ambiente onde os alunos possam re-significar o conhecimento apropriando deles à medida que forem incorporando em suas vidas. Permitindo-os ampliar os conhecimentos relativos às nossas práticas corporais sistematizadas, possibilitando que apropriem criticamente e ao mesmo tempo sejam capazes de resolver problemas de corpo inteiro. (FREIRE; SCAGLIA, 2003).

De modo semelhante, Darido et al. (2006, p. 14) entende que a educação física escolar é uma disciplina que “introduz é integra o aluno na cultura corporal, formando o cidadão que vai produzi-la, reproduzi-la e transformá-la, instrumentalizando-o para usufruir dos jogos, dos esportes, das danças, das lutas e das ginásticas em beneficio do exercício crítico da cidadania e da melhoria da qualidade de vida”.

Portanto, com nos diz Darido e Souza Jr. (2007) “é preciso ir além do costumeiro jogar”. E ainda, não podemos reduzir as aulas de educação física a um único conteúdo – futebol. Mas também, não queremos dizer que o futebol não mereça receber um tratamento especial, considerando sua importância sócio-cultural.

O futebol nas aulas de educação física não poderá se limitar a reproduzir movimentos (seqüências pedagógicas) ou vivenciar uma infinidade de ‘joguinhos’ desprovidos de um contexto e de um ambiente facilitador capaz de provar nos alunos a apropriação do conhecimento à medida que são capazes de re-significar deixando seu próprio contributo.

Com relação ao desenvolvimento do conteúdo futebol nas aulas de educação física, existem basicamente três situações muito particulares:

a) rola a bola e deixa o jogo acontecer, até por que brasileiros são considerados “nascidos para jogar futebol”;
b) sistematização do conteúdo determinado pela categorização de fundamentos/habilidades e distribuídos de acordo com o desenvolvimento do aluno, desconsiderando as experiências/vivências que os alunos tiveram;
c) não existe uma progressão do conteúdo abordado, levando os alunos da 3ª série do ensino médio a terem as mesmas aulas que tiveram na 5ª série (chute, passe, drible…).

Entendemos que nas aulas de educação física não basta deixar jogar. Até por que se fossemos considerar apenas deixar jogar, os alunos aprendem muito mais fora das nossas aulas, frente o tempo disponível e as diversas possibilidades de experiências de corpo inteiro que têm ao brincarem nas ruas, subir em muros, escalar árvores. E também, temos de reconhecer que muito dos nossos alunos já chegam à escola sabendo jogar futebol.

A sistematização do conteúdo feito apenas pela categorização de fundamentos/habilidades e distribuída de acordo com a fase de desenvolvimento do aluno é adequada (ainda assim tenho minhas dúvidas) para as escolas de esportes. Mas se considerarmos apenas esses fatores em nossas aulas de educação física teremos problemas. Principalmente pelo fato de abarcar apenas as habilidades/capacidades, atendendo apenas uma das dimensões do conhecimento.

Na educação física, a sistematização do conteúdo futebol deverá abarcar o conhecimento de corpo inteiro (intelectual, sensorial, motor, social, afetivo, ético, estético, espiritual). Para isso,
no tratamento pedagógico, o professor deverá fazer algumas perguntas na elaboração do seu plano de ensino/curso, sustentadas sobre a função e objetivos da disciplina: quais as necessidades dos meus alunos? Por que esse conteúdo é importante para esse grupo? Como aplicá-lo? Como esse conteúdo se relaciona com os demais conteúdos da disciplina?

É importante ficar claro que não se trata de uma teorização das práticas corporais, nesse caso o futebol. Mas aproximar o fazer (procedimental) do conhecer (conceitual). Ou seja, aproximar o que se deve conhecer do que de dever saber fazer.

O conteúdo na dimensão conceitual responde a questão: o que se deve saber? Por exemplo, no futebol, conhecer sua história, as regras, principais fundamentos/habilidades e capacidades, temas emergentes (preconceito, gênero, trabalho, violência…), as mudanças que o futebol sofreu no Brasil e no Mundo etc.

O conteúdo na dimensão procedimental responde a questão: o que se deve saber fazer? Ou seja, além de conhecer e contextualizar temas como ‘mulher jogando futebol’, criar condições em que os alunos possam vivenciá-lo, por exemplo, jogar futebol de casal, vivenciar as principais habilidades requeridas para os jogos com bola nos pés.

O futebol abordado como conteúdo das aulas de educação física é provido de uma bagagem de temas, principalmente nas escolas brasileiras, que não o permite ser tratado de forma unilateral. Mas de forma multidimensional, atendendo aos propósitos de uma educação para o sujeito aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser. Nessa perspectiva, o futebol, sendo conteúdo, se torna ferramenta para nossos alunos aprenderem a aprender.

A partir da exposição de como entendemos o futebol nas aulas de educação física e dos problemas que o cercam, deixamos algumas questões que foram levantadas e não respondidas propositadamente, a fim de instigar o leitor a buscar pelas suas próprias proposições, por exemplo: como abordar o conteúdo futebol nas aulas de educação? Como ensinar futebol?

Em nossa próxima comunicação iremos explanar o referencial metodológico que defendemos para o ensino do futebol nas aulas de educação física e então apresentar alguns procedimentos, por meio da análise pedagógica de aulas desenvolvidas em diferentes turmas. Entretanto, nossa intenção não é convencer o leitor a reproduzir o que temos defendido para o ensino do futebol nas aulas de educação física. Mas trazer argumentos, sustentados na prática pedagógica que sejam suficientes para apoiar aos professores no tratamento pedagógico dado ao futebol enquanto conteúdo nas aulas de educação física.

Bibliografia

DARIDO, S. C. Os Conteúdos da Educação Física na Escola. In: DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação Física na Escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.
DARIDO, S. C. et al. Educação Física e Temas Transversais: possibilidades de aplicação. São Paulo: Editora Mackenzie, 2006.
DARIDO, S. C.; SOUZA JR., O. M. Para Ensinar Educação Física. Campinas: Editora Papirus, 2007.
FREIRE, J. B.; SCAGLIA, A. J. Educação Como Prática Corporal. São Paulo: Editora Scipione, 2003.

* Especialista em Pedagogia do Esporte Escolar
Universidade Adventista de São Paulo – UNASP Campus Hortolândia/IASP
Faculdade Adventista de Educação Física – FAEF
Contato:
riller.reverdito@unasp.edu.br

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Avaliação do perfil postural em atletas juvenis de futebol

O esporte é parte integrante da sociedade, e o corpo humano, principalmente o sistema musculoarticular, é o instrumento privilegiado dos esportes. Assim, a repetição de determinadas atividades, reproduções de semelhantes posições e movimentos habituais, períodos longos de treinamento e sobrecarga provocam processos de adaptação que podem resultar em alterações para a postura, com alto potencial de desequilíbrio muscular (RAGONESE,1987).

A postura humana tem sido objeto de interesse crescente em estudos em diversas áreas, uma vez que os desvios posturais, estruturais e funcionais, causam desequilíbrios, levando a compensações que podem provocar alterações na biomecânica normal (OLIVEIRA et al. , 1991). Segundo Kendal et al. (1991), a postura é a posição e a orientação espacial global do corpo e seus membros. Souchard (2003) trabalha o conceito de postura e movimento através das cadeias musculares, defendendo que estas são formadas por músculos denominados estáticos, por fornecerem sustentação ao corpo, e quando usados inadequadamente para realização de movimentos, a ponto de criar uma deformidade permanente, alteram o equilíbrio da postura.

O estudo da postura relacionado ao esporte vem crescendo e apresentando dados importantes para prevenção de lesões. Neto Jr. et al. (2004) apresentaram, alterações posturais em atletas de prova de potência muscular, evidenciando características específicas como hiperlordose lombar, anteroversão pélvica, protusão de cabeça. Ribeiro et al. (2003), analisaram a postura de atletas de futsal, e ressaltam maior incidência de entorses de tornozelo, presença de pés planos e lesões do joelho podendo ser relacionadas à proporção elevada dos atletas com joelho valgo. Neste contexto, ponto relevante volta-se ao entendimento das modificações corporais a que jovens vêm sendo submetidos durante os treinamentos e competições, sem descartar a predisposição biomecânica individual.

O objetivo do trabalho é esboçar um perfil postural de atletas juvenis de futebol e identificar os fatores músculo-esqueléticos responsáveis pelas possíveis alterações posturais.

Foram avaliados 20 atletas do sexo masculino, integrantes de uma equipe juvenil do interior de São Paulo, submetidos a uma avaliação postural estática, registrada por meio fotográfico (fig 1). O protocolo para coleta de dados foi elaborado com base nas propostas de Kendal et. al. (1995) e a discussão das cadeias musculares nos protocolos propostos por Souchard (2001) e Champingnon (2003).O material utilizado foi: Cimetrógrafo; Câmera digital Olympus® D-390 com software CAMEDIA® Master 4.1; Software: CorelDraw® 9; Tripé DIGIPOD® TR320; Maca; Fita métrica; Goniômetro CARCI®. Os procedimentos estatísticos utilizados para descrever as variáveis de interesse foram: medidas descritivas de posição e variabilidade; distribuições de freqüência absoluta e relativa; e Coeficiente de Correlação Linear de Spearman com nível de 5% de significância (NORMAN & STREINER, 1994).

Figura1: Analise Fotográfica da Avaliação Postural

A amostra apresenta idade media de 16,3 anos, peso entre 54,0 e 85,9 Kg e altura entre 1,66 e 1,90 metros. As variáveis investigadas foram: grau de inclinação da cabeça, com valor médio de angulação de 1,15°; flecha cervical com média de 9,54 cm, sendo o padrão de normalidade entre 6 e 8 cm, o que aponta um aumento em mais de 75% da amostra para uma anteriorização de cabeça seguida de hiperlordose cervical.

Com relação aos membros superiores, quanto aos valores de diferença de altura de ombros, mamilos e cotovelo, observa-se, nos valores médios elevação de 0,49 , 0,34 e 0,49 cm à esquerda, respectivamente. Na região lombar observa-se a flecha lombar com média de 5,43 , e valores de normalidade entre 4 e 6 cm, e ângulo pélvico (normalidade de 20° a 30°), com média de 17,95°, apontando uma amostra homogenia.

Quanto aos membros inferiores, observa-se no valor mínimo de 5° de hiperextensão, e máximo de 11° de flexão do joelho. Ao considerar normal zero grau de alinhamento, destaca-se o padrão de flexão de joelho em 75% da amostra. A distribuição das freqüências do comprimento da musculatura posterior de coxa (IQT), evidencia-se alto percentual de alongamento excessivo, 55%, sem correlação estatística significativa entre os dois dados apresentados. O valor mínimo da amostra aponta para 8° valgo em ambos os joelhos, e o máximo para 8° e 11° varo para direito e esquerdo respectivamente, nota-se que a amostra apresenta um aumento da angulação considerada normal, que é de 5° valgo.

Quanto à posição dos pés em ortostase, define-se por normalidade abdução de 8° à 10°, destacando-se valores superiores. A força de abdome superior apresenta valores mínimos dentro da normalidade e abdome inferior, verifica-se 50% dentro da normalidade.

No alinhamento anterior do corpo, 40% da amostra apresenta-se dentro da normalidade, e no alinhamento lateral, 95% da amostra apresenta desvio anterior. Por fim, com relação às medidas de associação entre as variáveis analisadas, nota-se significância estatística para as variáveis peso e altura, diferença de altura de ombros e mamilos e cotovelo, e alterações de joelho varo e valgo na associação bilateral.

Nota-se assim, em resumo, que os principais resultados das alterações posturais apontam para: abdução excessiva dos pés, semiflexão e varo de joelhos, alongamento excessivo de IQT, força de abdome inferior diminuída e superior acima da normalidade, diferença de altura de ombros, mamilos e cotovelo, aumento da flecha cervical, anteriorização do corpo na vista lateral.

Tal situação se assemelha à postura descrita pelo método GDS (DENYS-STRUYF, 1995), em que o corpo tende a inclinar-se para frente, mas por compensação o equilíbrio é recuperado pela semiflexão dos joelhos, flexão anterior da coluna vertebral em cifose com inclinação da cabeça para trás. Essa postura é considerada ativa pois mantém os membros inferiores em flexão, como molas tensas, prontas a serem ativadas pelo músculo quadríceps e passar da prontidão para ação. O equilíbrio adotado impulsiona o corpo anteriormente, apoiando-se no antepé e favorecendo a flexão do quadril ou joelho para recuperar o equilíbrio, caracterizando um trabalho excessivo dos músculos posteriores para impedir o desequilíbrio corporal. Assim, a postura adotada pelos atletas jovens justifica-se tanto pela obtenção de maior potência quanto pelo ganho de força muscular na ação esportiva.

Quando analisado os segmentos do corpo, ainda na perspectiva da manutenção do equilíbrio em cadeia, particularmente quanto aos pés, Bienfait (1995), condiciona toda a estática do corpo a este segmento, e na amostra observa-se alteração da abdução dos pés, mais precisamente do antepé, ultrapassando os 10° descritos pela literatura (KENDAL et al., 1995). Segundo Bricot (2001) o valgo de tornozelo com achatamento do arco plantar pode favorecer e acompanhar desordens posturais como: rotação interna da perna e coxa; patela medializada; tendência à flexão de joelho; aumento da lordose lombar; projeção da cicatriz onfálica; hipercifose torácica; plano escapular posterior; e hiperlordose cervical. A hiperextensão do joelho se origina da posteriorização do eixo do corpo, uma vez que a estabilidade do joelho é mecânica (TANAKA & FARAH, 1997).

Como descrito, a amostra do presente estudo apresenta anteriorização do eixo, mais precisamente do centro de gravidade, favorecendo as alterações em flexão dos membros inferiores. Bienfait (1995) relata que uma ligeira flexão bilateral é, em geral compensação de uma anteroversão pélvica e da lordose lombar, devido à insuficiência dos músculos estabilizadores pélvicos. Essas posições desequili
bram o tronco para frente, obrigando a uma lordose lombar como forma de recuar o centro de gravidade. Segundo o autor, retroposição do tronco leva o centro de gravidade para cima dos calcanhares, tornando o equilíbrio precário, assim o restabelecimento do equilíbrio acontece avançando a linha de gravidade para o antepé, como já discutido, com ligeira flexão dos joelhos, ao mesmo tempo em que leva a pelve em retroversão pela flexão dos quadris.

Dados semelhantes são apresentados por Ribeiro et al. (2003), com baixa incidência de hiperextensão de joelho, e por Watson et al. (1983), que relatam menos de 5% de alterações em hiperextensão de joelho em atletas de futebol. A amostra apresentou alongamento acima do nível normal para a musculatura de IQT e na postura estática uma flexão de joelho. O trabalho no inicio da flexão, tanto do músculo gastrocnêmio quanto do poplíteo podem interferir para uma postura de semiflexão, principalmente pelo primeiro ter importante função de suporte a cápsula posterior contra as forças de hiperextensão durante a sustentação de peso (KISNER & COLBY, 1998; KENDAL et al.,1995).

Com relação ao comportamento dos membros superiores e região cervical, observa-se na maioria da amostra um aumento da flecha cervical, correspondente à acentuação da lordose. Segundo Bienfait (1995), a adaptação da cabeça é imperativa, tanto na estática como no movimento, isso faz da tonicidade da região cervical a chave para as adaptações estáticas descendentes. O autor ainda aponta que os desequilíbrios da cabeça não podem ser compensados na região cervical, sendo que a mobilidade da região é orientada pelo olhar, assim os desequilíbrios só ocorrem no plano sagital, e descendem com relação ao plano frontal. Essa afirmação justificaria o alto grau de diferença de altura dos membros superiores, evidenciados pela associação entre as variáveis: ombros, mamilos e cotovelos. A análise das possíveis alterações posturais apresentam grande significância para o ganho e manutenção da performance atlética, e ainda, é importante ressaltar que essas alterações podem não somente ser decorrentes da pratica esportiva, mas principalmente da composição anatômica individual do atleta, assim como o estilo de vida e atividades funcionais da vida diária.

O paradoxo entre postura e lesão transcende a visão benéfica do esporte, colocando algumas vezes, erroneamente, os desequilíbrios musculares como efeitos maléficos do esporte. Portanto as alterações posturais são compensações naturais para manutenção de equilíbrio, o que nos proporciona uma atuação sobre a estática corporal sem alterar a dinâmica dos movimentos, objetivando assim a melhora da performance atlética, assim o perfil postural de atletas pode direcionar o preparo físico para melhor desempenho esportivo.

Bibliografia

AMADIO, A.C. et al. Fundamentos biomecânicos para a análise do movimento humano. SP: EEFUSP, 1996.
BIENFAIT, M. Os desequilíbrios estáticos. SP: Summus,1995.
BRICOT, B. Posturologia. 2. ed. SP: Icone, 2001.
CHAMPIGNION, P. Aspectos biomecânicos: Cadeias Musculares e Articulares, Método G.D.S. Summus, SP, 2001.
DENYS-STRUYF, G. Cadeias Musculares e Articulares. Summus, SP, 2001.
KENDAL, F.P. et al. Músculos, provas e funções, com postura e dor. 4. ed. SP: Manole, 1995.
KISNER, C.; COLBY, L.A. Exercícios Terapêuticos. 3. ed. SP: Manole, 1998.
NETO JR, J. et al. Alterações posturais em atletas brasileiros do sexo masculino que participaram de provas de potência muscular em competições internacionais. Rev. Bras. Med. Esporte, v. 10, n.3, 2004.
NORMAN, G.R.; STREINER, D.L. Biostatistics – The bare essential. Mosby Year Book, St. Louis, 1994.
OLIVEIRA, L.F. et al. Análise da postura ortostática através de método posturograma. Ver. Bras. Ortop, v.26, n.3, p. 74-78, 1991.
RASCH, P.J.; BURKE, R.K. Cinesiologia e Anatomia Aplicada. Guanabara Koogan, RJ, 1987.
RAGONESE,G. Compensação muscular. Rio Claro: Unesp, Instituto de Biomecânica,1987.
RIBEIRO, C.Z.P. et al. Relationship between postural changes and injuries of the locomotor system in indoor soccer athletes. Rev Bras Med Esporte, v. 9, n.2, 2003.
SOUCHARD, P. Fundamentos do SGA. SP, 2001.
TANAKA, C.; FARAH, E. Anatomia funcional das cadeias musculares. Ícone, SP, 1997.
WATSON, A.W. Sports Injuries in footballers related to defects of posture and body mechanics. J Sports Med Phys Fitness, v. 35, n.4,1993.

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Basta ser jogo? Uma análise do jogo na pedagogia do futebol

Venho defendendo incessantemente em meus textos publicados a valorização do jogo como ferramenta necessária e central do processo pedagógico do esporte.

Em todo texto que trato do assunto, destaco a importância do jogo, uma vez que através de sua capacidade de ascensão ao lúdico, ele tornar o ambiente de aula desafiante, motivador e o que faz os alunos/atletas mergulharem dentro de sua lógica, buscando assim resolver os problemas impostos pelo jogo, a fim de conseguir alcançar êxito através do indissociável binômio técnica/tática inerente ao futebol.

No entanto, em recente discussão em meu ambiente (extremamente rico) de trabalho no “Projeto Campus Pelé” no qual faço de tudo um pouco – trabalho no setor de informação e inteligência, velejando pela área da pedagogia do esporte, desenvolvendo textos para a “universidade do futebol”, filmando treinos, analisando partidas – percebi a importância que a discussão sobre o jogo como ferramenta pedagógica deve ter, uma vez que a utilização de jogos pode servir apenas para tapar buracos metodológicos. Ou seja: “se não sei o que fazer, então vou lá e dou um joguinho”.

A tirinha do Calvin que inicia este artigo vem fazer a crítica a esse pensamento. Um jogo cuja razão de existir é sem importância para o jogador, cujas regras são mal construídas, cujos objetivos não tenham clareza com a proposta da aula, não terá em si a existência do apelo à ludicidade, a presença do desafio e da auto-superação. Portanto, o aluno não irá jogá-lo, ou, se o fizer, estará ali executando uma tarefa que não terá finalidade com o treino, ou seja, mesmo tendo a “cara de jogo”, será uma tarefa vazia de conteúdo.

Dessa forma, destaco com essa tirinha que não basta a atividade ter a estrutura do jogo, pois mesmo que o desafio seja lançado – “Estou pensando em um número entre 1 e 7 bilhões, tente adivinhar?” -, caso ele não seja realmente significante ao jogador, o interesse logo acabará e o jogo não mais existirá. O pensamento do professor que usou o jogo em sua aula será: “Qual é o problema, vocês não gostam de jogos?”.

Conclusão: o emprego equivocado do jogo, apenas como um momento isolado da aula, sem sua verdadeira função pedagógica, retornará uma resposta que poderá ser negativa para o planejamento da aula. Isso pode acarretar um julgamento precipitado de que “ensinar pelo jogo não dá certo”.

Ora, de quem será realmente o problema? Da metodologia ou do professor? Devemos nos atentar a isso, inclusive com nossa própria ação pedagógica.

Destaco, portanto: devemos usar o jogo, porém não fazendo dele parte isolada e descontextualizada da aula, mas sendo ele a aula em si, aproveitando o momento onde está latente a necessidade de resolver os problemas para propor novos desafios a partir da dimensão estratégico-tática do jogo.

Para isso podemos usar jogos adaptados do jogo formal, jogos pré-desportivos, espaços reduzidos ou amplificados, sobrecarga ou menor carga numérica de jogadores, diferentes tipos e quantidades de implementos, alvos, número de equipes. Enfim, é surpreendente como com toda a riqueza de possibilidades pedagógicas do jogo, ainda assim, somos capazes de deslizar e perder essa ferramenta tão importante na pedagogia dos esportes coletivos.

Portanto, não basta ser jogo, ele tem que fazer parte do processo pedagógico de maneira significativa e central.

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Mais do mesmo

Mais uma publicação nacional, dessa vez uma mais especializada – a Exame – ressalta os avanços das classes econômicas do país. Mais precisamente, a última edição da revista apresenta algumas tendências de padrão de perfil dos novos consumidores que surgirão caso o momento econômico atravessado pelo país se consolide. Farei, aqui, uma breve análise do reflexo que cada um desses perfis pode ter no futuro do futebol nacional:
 
Tendência 1: O avanço das mulheres no mercado
 
A coisa boa: Gera um novo público para o futebol, que tende a exigir maiores condições de conforto e segurança, além de também atrair mais o público feminino. Na medida que clubes reconhecem o valor econômico desse público, eles devem criar mecanismos para atraí-lo, o que acaba sendo bom pra todo mundo. Além disso, o reflexo na venda de merchandising pode ser muito poderoso.
 
A coisa ruim: Com maior poder de decisão econômica familiar concentrado na mulher, o futebol arrisca perder o público jovem caso não ofereça condições de segurança necessárias, além de substituir o estádio por um outro passatempo em família mais cômodo. Além disso, possíveis conexões com jogadores ícones podem fortalecer o mercado externo e estagnar o mercado interno.
 
Tendência 2: Mais casais jovens sem filhos
 
A coisa boa: Casais novos tendem a ter mais dinheiro disponível para gastar com lazer. Entretanto, esse lazer precisa privilegiar o casal, e não os indivíduos, portanto precisa oferecer condições básicas, também, de segurança e conveniência. Além disso, a união com o clube pode ser mais uma maneira de expressar a união do casal e de criar uma identidade própria.
 
A coisa ruim: Sem filhos, não existe muito a necessidade de repassar tradições, um importante componente da cultura do futebol. Casais jovens sem filhos também são mais descompromissados e podem preferir uma viagem a um jogo de futebol. Caso o casal vá a um jogo e não goste da experiência, dificilmente eles voltarão ao estádio.
 
Tendência 3: Cresce o número de pessoas morando sozinhas
 
Coisa boa: Indivíduos com mais tempo livre, o que acarreta na busca por algum tipo de passatempo, e o futebol é um dos principais existentes. Sem responsabilidade, o solteiro pode ir a um jogo de futebol para confraternizar com os amigos, além de buscar maiores laços de aproximação com o clube, principalmente através da compra de produtos.
 
Coisa ruim: Como o indivíduo está teoricamente mais livre, ele pode buscar outras formas de entretenimento. Além disso, ao morar sozinho, o indivíduo concentra todos os seus custos, o que diminui a parcela que eventualmente pode ser utilizada para gastar com o futebol.
 
Tendência 4: Mais consumidores de meia-idade com alta renda
 
Coisa boa: Quanto mais velho, para o futebol, melhor. Quanto mais dinheiro, também. Se o futebol conseguir se aproximar, ganha não só a receita direta, mas também através de patrocínio e direitos de transmissão, além de outras parcerias.
 
Coisa ruim: Quanto mais dinheiro, mais opções para entretenimentos mais refinados. Quanto mais idade, também. E futebol não é uma coisa exatamente refinada.
 
Tendência 5: Uma vida mais longa e melhor
 
Coisa boa: Quanto mais velho, como dito acima, melhor. Afinal, depois de aposentados, sobra tempo e espaço para preocupações na cabeça das pessoas. Tempo e espaço que o futebol preenche muito bem.
 
Coisa ruim: Quanto mais velho, mais exigente a pessoa fica, principalmente com relação a conforto, comodidade e segurança. E, como se sabe, o futebol brasileiro dificilmente consegue oferecer isso.
 
O Brasil vai mudar. Mudará também o futebol?

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Direção responsável

No final, deu a lógica. Dentro de campo, Palmeiras e São Paulo fizeram um jogaço, com grandes chances dos dois lados e vitória na bola. Sem polêmica de arbitragem, com emoção de sobra e vitória daquele que foi melhor no cômpito geral.
 
Fora de campo a lógica também prevaleceu. Inflamados a semana toda pela imprensa e pelos dirigentes remunerados de cada um dos clubes, o clássico decisivo foi cercado pelo amadorismo e hostilidade, incompatíveis com a profissionalização do futebol.
 
Spray de pimenta no olho dos outros é refresco. O que falaremos então sobre a luz “acabar” justamente quando o Palmeiras sacramenta sua vitória? Ou quando os dois times entram na proteção de um túnel para não sofrerem com a torcida?
 
Em 1942, Palmeiras e São Paulo decidiram o Paulistão. Na véspera da partida, o então Palestra Itália acabava de deixar de existi. Líder invicto do torneio, o clube era pressionado, principalmente pelos são-paulinos, a mudar de nome para não ser fechado, sob a acusação de ligação com o fascismo italiano. Pura balela, mas que obrigou o time da colônia a deixar de ser Itália. Naquele jogo, o Palmeiras ganhou na bola. Irritado com o árbitro que marcou um pênalti, o São Paulo decidiu abandonar o jogo, e o Palmeiras nasceu campeão.
 
Junto com ele nasceu uma das rivalidades mais estúpidas do futebol. Se, em 1942, poucos anos após o início do profissionalismo, já era ridículo um time abandonar o campo, o que diremos em 2008, com mais de um século de Campeonato Paulista, quando um time joga spray de pimenta no vestiário do visitante?
 
Já que os dirigentes não conseguem se profissionalizar, cabe à imprensa assumir a direção responsável. Mas parece que os jornalistas necessitam da superficialidade para fazer o seu trabalho. Vide o “caso Isabella”. A cobertura do julgamento do pai e da madastra da menina teve efetivo quase tão grande quanto o de policiais para o clássico paulista de domingo.
 
A troco de quê? Qual a necessidade de mostrar as pessoas entrando e saíndo da delegacia? Qual o impacto disso na vida dos outros? O máximo que se conseguiu foi atrair um bando de pessoas revoltadas para colocar em risco a vida de quem mais estivesse por lá.
 
As duas semanas que antecederam os jogos de Palmeiras e São Paulo foram marcadas por uma overdose de cobertura desnecessária dos jornalistas. Em vez de focar em quem jogaria ou como os times jogariam, a imprensa decidiu acirrar aquela rivalidade de 60 anos atrás.
 
E os dirigentes morderam a isca, fazendo de um dos jogos que mais marcou a volta do charme do Paulistão um festival de bobeiras e amadorismo completo. Se a imprensa não tivesse perdido tanto tempo com bobagens será que o espetáculo não teria sido outro?

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br