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Clima de Ano Novo

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Coincidentemente, coube a mim escrever a última coluna do ano. Como de praxe, resolvi olhar para trás e eleger um tema que retome fatos ocorridos no ano de 2010 e nos faça refletir para o ano de 2011.

E o tema eleito foi a sustentabilidade, com o gancho da visita do Presidente do COI Jacques Rogge ao Brasil. Em uma de suas declarações, disse ele que o Brasil deve atentar para arenas modernas a fim de evitar o risco dos chamados elefantes brancos (estádios construídos ou reformados por meio de pesados financiamentos, e que são sub-utilizados no período do pós-evento).

Esse tema em muito se relaciona com a questão do legado nos mega eventos que estão por vir no Brasil, i.e., Copa e Olimpíadas. O legado para a população local, em vários aspectos, é a única razão que nos permite imaginar o grande gasto público e privado em torno desses eventos. Sem a preocupação em legado sustentável para a população, seria melhor investir esses recursos em outras demandas sociais que urgem.

Recentes eventos, até mesmo em países desenvolvidos, mostram que o risco de sub-utilização dos complexos esportivos são reais e, em alguns casos, prováveis.

No âmbito esportivo, é preciso que se tenha um planejamento muito bem estudado, principalmente com as federações e clubes locais. Contar que apenas eventos esporádicos devam promover o retorno do investimento é um erro comum. É preciso que se tenha garantia de jogos certos e programados para as novas arenas, como os oficiais de campeonatos estaduais e nacionais. Além disso, é preciso se dimensionar o potencial de renda de tais jogos, com estudo sobre os valores dos ingressos, viabilidade de vendas de camarotes e comercialização de espaços publicitários.

Mas além da questão esportiva, é preciso que esses empreendimentos levem em consideração outros aspectos sociais, econômicos (potencialização de investimentos vindos do exterior ou mesmo de outros estados brasileiros), impactos ambientais e desenvolvimento de indústrias que utilizem energia e matéria prima limpas e renováveis, etc.

É mesmo hora de olharmos para trás, e projetarmos ações sustentáveis para o futuro. Mega eventos são oportunidades únicas para, acima de tudo, promovermos uma melhora das condições de vida da população local. Por outro lado, podem representar um desastre sócio-econômico.

A hora é de reflexão. Mais do que na hora de pensarmos em sustentabilidade e legado. Para evitar que elefantes aproveitem o momento do réveillon e vistam suas roupas brancas.

Feliz Ano Novo para todos nós e que venha 2011!

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br  

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Sobre 2010

2010 foi uma coisa para a indústria do futebol no Brasil e outra coisa completamente na indústria do futebol europeu.

Na Europa, o momento foi de estagnação, ainda consequência da crise econômica desencadeada dois anos atrás. Tirando uma coisinha aqui e outra ali, clubes investiram pouco em transferências e focaram em se adequar ao processo de licenciamento da Uefa, o que implica em um investimento significativo nas categorias de base. Não à toa, profissionais das categorias de base de clubes que revelam muitos atletas começaram a ser valorizados e a se transferir para mercados mais desenvolvidos.

Para piorar, o efeito Copa do Mundo fechou a porta para mercados estrangeiros, sob a desculpa do velho, batido e mentiroso argumento de que a presença excessiva de jogadores de outros países na liga doméstica afeta a qualidade dos jogadores locais. Uma inverdade que produz grandes efeitos, mas que tem tudo para ser pouco sustentável.

Isso tudo acabou tendo um impacto no Brasil, que não conseguiu transferir jogadores na mesma frequência de outrora. Jogadores saíram, é verdade, mas por valores baixos ou até de graça. Grandes transferências são e deverão continuar relativamente raras.

A pouca demanda externa aliada ao fortalecimento do Real em relação ao dólar, euro e libra, e ao ainda fortalecimento dos grupos de investidores, acabou gerando uma queda nos valores de transferências que acabou gerando imediatamente um aumento nos salários dos jogadores do mercado brasileiro. Com isso, clubes tendem a gastar mais, se endividar mais e se comprometer mais com receitas futuras.

Os efeitos disso tudo ainda não foram muito percebidos em 2010.
Que venha 2011.

Um ótimo ano novo.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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And the future goes to…

Chega o fim de ano e tudo a mesma coisa: todos falando sobre o que devem fazer nos próximos 365 dias, o que irá mudar no novo ciclo que se inicia, como poderá ser uma pessoa melhor no futuro, como pode contribuir mais para a sua empresa e nação e por aí vai…

Na realidade, percebo que pouca coisa ou absolutamente nada muda nas pessoas. Não é o sol se pôr no ocidente mais uma vez que faz com que as coisas sejam diferentes. Ao ler a 25ª edição do livro do Prof. Ms. João Paulo Medina (“A Educação Física cuida do corpo… e ‘mente'”), escrito na década de 1980, é possível constatar a queixa do professor sobre a validade de seus argumentos mesmo quase 30 anos depois da primeira edição.

O prefácio do próprio Medina faz a análise de ambos os lados: por um, o orgulho pessoal de ver sua obra reeditada por mais de 20 vezes. Por outro, o fato de pouca coisa ter evoluído naqueles conceitos apresentados na época. E percebemos a cada dia o quanto os profissionais da área insistem em fechar os olhos para o contexto das ciências humanas aplicadas à área do treinamento desportivo.

Mas a busca a essa referência é apenas um exemplo de tantos que poderíamos citar pela relação direta com a necessidade de evolução na área da educação e, mais especificamente, da educação física. Estamos falando de um país que quer crescer, mas possui uma filosofia de desenvolvimento antiquada e que, por conseguinte, é repetida pelo pensamento da sociedade como um todo.

Se olharmos para o ambiente do futebol, verificamos que as ações para promoção e qualificação de profissionais para o mercado e para a área científica ainda fazem parte de projetos isolados, sem que haja uma evolução significativa no âmbito dos clubes e das federações. Prevalece ainda o coronelismo e a cultura de passado, o que desdenha a evolução da indústria como um todo.

Neste âmago, quando nos queixamos do amadorismo dos dirigentes, das atitudes nefastas de alguns líderes do esporte ou do monopólio exercido por algumas empresas, é bom entendermos que se estes lá chegaram é porque ninguém melhor capacitado ou mais competente conseguiu barrá-lo. É porque alguns ou muitos assistiram passivamente o seu crescimento.

Esse emaranhado de palavras que, aparentemente, estão jogadas sem nenhum contexto, serve para dizer que as pessoas não mudam drasticamente de um ano para o outro. As organizações, que são formadas por pessoas, também não. A cultura muito menos…

“Ah sim, grande novidade, caro autor. Só falta dizer que Papai Noel não existe…”

O fato é que, na tão propalada era do conhecimento, precisamos investir em CONHECIMENTO. Para mim é esse o único fator de mudança capaz de uma transformação real das pessoas e dos setores da economia a qual estamos vinculados – neste caso, a indústria do esporte.

Há uma enorme ferida, com medida ainda não mensurada, aberta anos atrás no seio do esporte brasileiro. Agora, essa ferida está sendo apenas estancada e seguirá assim até 2016, depois de findada as Paraolimpíadas de 2016.

Se o legado desse período não for na área da educação, da informação e do conhecimento, formaremos o maior e mais bonito castelo de areia já visto no mundo, que será derrubado na primeira ressaca do mar.

Assim, termino o ano com a esperança de que aqueles que detêm maiores e melhores informações coloquem em suas metas para 2011 a perspectiva de gerar em qualidade e quantidade o conhecimento para o maior número de pessoas possível, contribuindo para a união de valores e desenvolvimento do esporte como um todo. E que isso sirva para a construção, em um futuro não muito distante, de uma indústria pujante ligada ao entretenimento.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Tópicos para reflexão sobre a identificação e desenvolvimento de talentos

“Um domingo sem futebol, transforma-se, para muita gente, num episódio burlesco, porque já não sabe viver sem a dialética tensional e criadora do desporto-rei” (SÉRGIO, 2008a, p. 138)

Na tentativa de detectar e desenvolver, com sucesso, jogadores que são mais passíveis de ser tornarem estrelas no futuro, isto é, meras esperanças a jogadores de elite, os clubes investem significantes quantias de dinheiro, sendo essa identificação realizada, por vezes, numa idade prematura como os 6-8 anos de idade (HELSEN et al., 2005). Esta situação decorre da ideia de que tal desenvolvimento pressupõe que os jogadores recebem treino especializado que, por seu turno, acelere o processo de desenvolvimento de talento (WILLIAMS e REILLY, 2000).

Desta forma, teoricamente, não seria de prever que os clubes mais ricos tivessem sempre os melhores jogadores, por exemplo, quando chegam à categoria de sub-19? Se um clube compra muitos jogadores, significa que os seus processos de observação e/ou desenvolvimento não são os mais corretos? Mas porque será, no caso da Europa, necessário ir buscar tantos jogadores a África e à América do Sul, havendo tantos jovens que praticam futebol no continente europeu?

Talento somente inato ou somente adquirido?

O termo “talentoso” é usualmente utilizado como sinônimo de “dotado”, verificando, portanto, um dom ou talento que se possui, não se aprende a ter, mas a verdade é que nunca se encontraram indicadores de predição seguros, que garantissem, antecipadamente, o desempenho excepcional na alta competição (ARAÚJO, 2004).

Como se explica o fato de muitos atletas excepcionais nunca terem manifestado sinais precoces de um talento incomum? E entre aqueles jovens que os tenham manifestado, porque é que muitos deles nunca chegaram a peritos, ou a atletas de alto nível? Por exemplo, o Professor João Barnabé referiu no 1º Seminário organizado pelo Núcleo de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, que o ex-internacional português Luís Figo (127 internacionalizações e melhor jogador do mundo em 2001), surgiu no Sporting Clube de Portugal com 12/13 anos, com cerca de 1,30 metros, 30 quilogramas, não tendo sido referenciado por nenhum observador (acompanhava um amigo ao treino). O treinador nunca imaginou que o atleta poderia vir a atingir o nível que atingiu, enquanto, pelo contrário, afirmou ter tido esperança em outros jogadores que não atingiram o alto nível referindo que, possivelmente, tal não aconteceu devido a “outros fatores” intermédios dos quais o processo está dependente.

Processo de identificação e desenvolvimento e indicadores de talento

A identificação de talentos, no desporto, é um fenômeno que existe desde os anos 60′ e início dos anos 70′, que se acredita ter levado à obtenção de resultados estrondosos durante os Jogos Olímpicos de 1972, 1976 e 1980, por parte de países do “Bloco de Leste Europeu”, sendo que, por exemplo, 80% dos medalhistas búlgaros nos jogos de 1976 foram resultado de um processo de identificação de talentos (WOLSTENCROFT, 2002). Os mesmos autores afirmam que, esta aproximação tradicional acabava por ser uma “seleção natural de indivíduos já implicados num dado desporto”. Mas pode-se criticar estes processos? Se sim, numa análise mais objetiva, não foram conseguidos os objetivo finais, que se remetiam ao alcance de medalhas? Se não, deixamos de abrir espaço para outros atletas que simplesmente não dispõem das condições suficientes para praticar desporto, ou excluímos do processo atletas tidos com potencial, mas que simplesmente são maturalmente menos evoluídos? Será importante obter um equilíbrio entre o sim e o não?

Na perspectiva física

Os indicadores físicos de talento, relacionados com o desempenho, assentam em indicadores antropométricos, como por exemplo, a estatura, o peso, a composição corporal, o diâmetro ósseo, o perímetro dos membros, entre outros. As implicações da predição de futuros jogadores de elite, com base nestas medições podem ser irrealistas, nos grupos mais jovens, pois o desempenho poder ser diferenciadamente afetado pela taxa de crescimento físico e maturação dos jogadores (HELSEN et al., 2005; WILLIAMS e REILLY, 2000). Desta forma, modelos que assentem em medidas físicas e antropométricas apenas resultariam, se as medições das variáveis chave ocorressem assim que se soubesse que os valores relativos de medição entre indivíduos eram estáveis (WOLSTENCROFT, 2002).

Por exemplo, uma diferença na idade relativa de 12 meses pode resultar em variações antropométricas significantes que verifica haver em jovens jogadores (2175) de 10 países da Europa uma sobre-representação de jogadores nascidos no primeiro quarto do ano de seleção (de janeiro a março) para todas as seleções nacionais jovens, dos sub-15 aos sub-18, e os autores concluíram que os jogadores com maior idade relativa (tendo em conta as diferenças em relação ao mês de nascimento), são, provavelmente, mais identificados como “talentosos”, devido às prováveis vantagens físicas que têm sobre os seus colegas relativamente mais “novos” (HELSEN et al., 2005). Estas diferenças foram menos notórias no futebol feminino, presumivelmente, devido ao fato de as mulheres maturarem mais cedo do que os rapazes, tornando as assimetrias nas distribuições das datas de nascimento das jogadoras menos aparentes.

No futebol, outros fatores como a tomada de decisão diminuem a significância das variáveis físicas que, apesar de fazerem parte da totalidade de uma realidade que se tenta compreender, é incapaz de distinguir as diferenças entre vencedores de uma final (WOLSTENCROFT, 2002), por exemplo, da Liga dos Campeões.

Na perspectiva fisiológica

Referindo-se a estudos que encontram superioridade fisiológica em relação ao aporte máximo de oxigênio (VO2máx), potência anaeróbia, força do tronco, volume cardíaco (absoluto e relativo), em jogadores de sucesso (11 a 17 anos), comparando com jogadores da mesma faixa etária de menor sucesso, Williams e Reilly (2000), referem que há possibilidade de que nesses estudos, parte da superioridade fisiológica dos jogadores de sucesso se tenha ficado a dever a uma passagem dos jogadores por uma abordagem mais sistematizada do treino, antes da introdução dos mesmos nas equipas jovens especializadas.

Vejamos agora um ponto de vista diferente, que o treinador José Mourinho dá, relativamente à velocidade, referindo-se a um famoso velocista português Francis Obikwelu (medalha de prata nos 100 metros dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004), e ao jogador Deco:

“É muito rápido [Obikwelu] e não conheço nenhum jogador de futebol que o consiga igualar numa corrida de 100 metros. No entanto, numa partida de futebol, 11 contra 11, julgo que o Obikwelu seria o mais lento! (.) Se o colocássemos [Deco] numa corrida de 100 metros com os homens do atletismo ele faria uma figura ridícula. É descoordenado a correr, não tem velocidade terminal, muscularmente de certeza que está carregado de fibras de contração lenta e nada de fibras de contração rápidas. No entanto, num campo de futebol é um jogador dos mais rápidos que conheço, porque a velocidade pura não tem nada a ver com a velocidade no futebol. (.) Nesta forma de analisar a velocidade, um jogador lento do ponto de vista tradicional é, afinal, um jogador rápido numa perspectiva complexa, porque se vai deslocar numa altura em que os outros não esperam, num momento correto, num momento em que o companheiro com a bola precisa que ele se desloque” (LOURENÇO, 2010, p. 42).

Na perspectiva psicológica

Os investigadores ainda não identificaram um inventário psicológico que ajude a selecionar jogadores com maior ou menor potencial, sendo improvável que qualquer simples inventário tenha um completo poder preditivo, pois as habilidades psicológicas podem estar altamente propensas a modificação, por meio de treino especializado (WILLIAMS e REILLY, 2000). Verifica-se também que nos casos em que existem diferenças de maturação física entre jogadores, como resultado do efeito da idade relativa, estas podem coincidir com uma maior maturidade psicológica dos mais avançados, relativamente aos seus homólogos (HELSEN et al., 2005).

Num estudo sociológico efetuado com oito treinadores das seleções nacionais jovens da Dinamarca, Christensen (2009) examinou o modo como os mesmos identificavam o talento e verificou que as qualidades pessoais, relativas ao ver e conhecer o jogador como pessoa, eram vistas como significantes para um posterior desenvolvimento de talento (ex.: de um treinador: “Vi tantos talentos que eram realmente tão bons, mas que não tinham o mentalmente necessário ou apenas não o desejavam o suficiente (.). Tens que estar disposto a colocar outras coisas de parte para te tornares verdadeiramente bom, tens que ter alguma humildade, em geral, face ao jogo (.) olhar um pouco mais para a frente, que apenas para o próximo jogo”. Pertencia ao construto dos treinadores a ideia de que o talento ideal é possuidor de uma “personalidade autotélica” (CSIKSZENTMIHALYI in CHRISTENSEN, 2009), isto é, tem a habilidade de se concentrar e focar no desempenho imediato, “jogar seriamente” e ser treinado independentemente das “boas” ou “más” percepções das estratégias de ensino que os treinadores possuem. Apesar desta possível existência de uma “personalidade autotélica”, imagine-se a quantidade de diferentes personalidades presentes num típico clube profissional de topo e o potencial histórico-cultural que lhe está subjacente! Cada atleta tem as suas vivências, é único. Diz o professor Manuel Sérgio (2008a, p. 138), referindo-se ao “diálogo” existente num jogo de futebol, mas que pode ser transferida para o diálogo dentro de uma mesma equipa: “Um jogo de futebol, como qualidade relacional, diz-nos isto, precisamente: o outro existe e deve ser respeitado como outro!”.

Vejamos agora o que o jogador internacional português Deco relata, da sua visão da gestão psicológica que José Mourinho fazia do seu grupo de jogadores: “ele conseguia ter a percepção de como cada um funcionava e usava isso em prol do grupo.” (LOURENÇO, 2010, p. 146). O jogador refere-se também a um caso concreto, daquilo que pensa ter sido a gestão de Mourinho em relação ao jogador internacional português Maniche:

“Antes de um jogo importante (.) em que o Mourinho sabia que precisava dele, porque era um jogador fantástico (.) um ou dois jogos antes, no campeonato, Mourinho tirava-o da equipe e sentava-o no banco. O Maniche era um jogador muito explosivo e ficava ‘cego’ por ir para o banco, resmungava, dizia mal da vida e do treinador (.) Mourinho queria provocar o Maniche, e o fato é que conseguia sempre o efeito pretendido. O Maniche ficava ‘cego’ e depois, na altura de regressar, revoltado com a situação, ia sempre com a ideia de fazer o melhor jogo da sua vida.” (LOURENÇO, 2010, p. 145-146)

Inteligência de jogo e habilidade do jogador

Vejamos o ponto de vista do treinador José Mourinho, referente à diferença entre velocidade de corrida (ex.: 100 metros) e velocidade no futebol:

“A velocidade no futebol tem a ver com a análise da situação, de reação ao estímulo e capacidade de identificá-lo. No futebol o que é o estímulo? É a posição no campo, a posição da bola, é o que o adversário vai fazer, é a capacidade de antecipar a ação, é a percepção daquilo que o adversário vai fazer, é a capacidade de perceber que espaço é que o adversário vai ocupar para receber a bola sozinho (.) o homem é um todo complexo no seu contexto.” (LOURENÇO, 2010, p. 42)

Numa análise em que se investigue o grau de coordenação perceptivo-motor e se verifique como o mesmo faz emergir padrões de movimento refinados e eficazes, é notório, que o desempenho perito surge como consequência de anos de treino intenso e sistemático e que, com os anos, esse desempenho fica mais constante e eficiente, e menos centrado nos aspectos motores (mais “automático”) (ARAÚJO, 2004). Desta forma, talvez deva ser dada maior atenção às habilidades técnicas e táticas, quando da seleção de jogadores, em oposição à dependência excessiva nos indicadores físicos, como a altura, (HELSEN et al., 2005) pois é a capacidade do indivíduo detectar e usar a informação contextual para alcançar os seus objetivos, que torna a sua ação eficaz num dado contexto (ARAÚJO, 2004).

Na perspectiva sociológica

Williams e Reilly (2000) referem que, por exemplo, famílias financeiramente estáveis tendem a fornecer maior suporte financeiro e maior mobilidade e flexibilidade de transporte, aos seus filhos ou familiares. De fato Côté (1999) referiu que o apoio dos pais e uma atitude positiva face ao envolvimento da criança no desporto parecem ser muito importantes durante todo o período de crescimento.

Outros atores sociais do contexto do crescimento dos talentos são os professores e os treinadores. Christensen (2009) desafiou a assunção, usualmente aceite, que a identificação de talentos por parte dos treinadores é um processo racional ou objetivo, enquanto Williams e Reilly (2000) afirmam verificar-se que os clubes profissionais assentam na avaliação subjetiva dos observadores e/ou treinadores, suportada por uma espécie de “lista de compras” de critérios chave como [abreviaturas do Inglês] TABS (Técnica, Atitude, Equilíbrio, Velocidade), SUPS (Velocidade, Compreensão, Personalidade, Habilidade) e TIPS (Talento, Inteligência, Personalidade, Velocidade).

Christensen (2009) perguntou a um dos treinadores do seu já referido estudo, o que normalmente tem escrito no final dos jogos, ao que o mesmo respondeu que “normalmente, apenas nomes e nada sobre qualidades”. Os detalhes e as qualidades permaneceram um sentimento (feeling) e uma experiência perceptiva na qual ele baseou o julgamento do jogador. Em particular, os treinadores utilizaram frases como “eu consigo ver” e “eu vi”, quando descreviam a forma como selecionavam jogadores talentosos. Para estes treinadores, o talento é algo que parece bem. Um treinador afirmou que “é essencial que tenhas algumas fotos (mentais) que de alguma forma evoquem uma resposta; algo que te lembre do que o Michael Laudrup fazia quando tinha 16 anos quando o vi a jogar pela primeira vez. Algo que viste antes e que foi bom. A isso é o que eu chamo ter uma visão”.

Reflexão

Pode-se dizer que muitos dos estudos que existem não são adequados do futebol e bastará verificar essa situação nos exemplos de José Mourinho, que no entender de Sérgio (2008a, p. 140) implantou uma grande mudança de paradigma no treino desportivo através da “operacionalização do todo”, tendo entrado “no futebol altamente competitivo como uma rajada impetuosa de metodologias inovadoras”.

Os treinadores das seleções dinamarquesas do estudo de Christensen (2009) referiram que para além das qualidades pessoais e das competências de jogo, a inteligência de jogo é uma variável a considerar, mas não pode ser medida isoladamente ao jogar o jogo e está relacionada com as escolhas inteligentes em contexto de jogo formal ou reduzido. Verificamos que estes contextos são incertos, mas não os poderemos apelidar cientificamente de “acasos” só porque a ciência tem dificuldades em isolar as suas variáveis, pois a verdade é que é neles que os desempenhos dos jogadores ocorrem, da mesma forma que não poderemos apelidar de “acaso” ao mundo em que vivemos e também ele é complexo e caótico. Morin (1999, p. 85-87) considera que “uma grande conquista da inteligência seria de poder enfim se desembaraçar da ilusão de predizer o destino humano (.). O futuro chama-se incerteza”.

De fato, Williams e Hodges (2005) referem que é mais fácil avaliar a efetividade dos programas de condicionamento da aptidão física, alterações nas capacidades aeróbia e anaeróbia e características antropométricas como a composição corporal e o peso, do que intervenções ao nível comportamental. “Acasos” são as “determinações econômicas, sociológicas, e outras no curso da história” que se encontraram imersas numa crença de um futuro repetitivo e progressivo e numa “relação instável e incerta com os acidentes e riscos inumeráveis que fazem bifurcar ou desviar o seu curso” (MORIN, 1999, p. 85). Mas a verdade é que acontecimentos como, por exemplo, a catástrofe econômica de 1929, apelidada de “Black Tuesday” ou “Wall Street Crash”, apareceram sem pedir licença!

Pode ser também verdade que, como foi referido na análise deste processo de identificação de talentos, que a categorização de algumas crianças como não tendo talento inato está a discriminá-las e que é injusta e desnecessária, impedindo jovens de seguirem um objetivo (ARAÚJO, 2004). Pode também ser verdade que dois jovens tenham condições idênticas para desenvolver o seu potencial e que um alcance a elite e o outro não. Mas o que é verdade é que em toda a sociedade acontece atualmente uma seleção natural. Não quero com isto dizer que é o correto, mas é o que acontece!

Se o que se tiver em conta for o crescimento ao nível de maturação dos atletas, será válida a afirmação de que se está a excluir os mais fracos? Mas um teste universitário não é também uma seleção dos aparentemente melhores? E a procura de emprego em que se faz a escolha, por vezes apenas de um candidato entre centenas, por meio do recurso a algumas entrevistas e/ou testes psicotécnicos, entre outros? A identificação e desenvolvimento de talentos, atualmente não é mais do que um espelho da nossa sociedade, da nossa cultura, do contexto “hipercientificado e hipermercantilizado” que também “está presente no desporto hodierno” (SÉRGIO, 2008b, p. 148).

O que acontece com a seleção de talentos é a pretensão de abonar os mais aptos com uma oportunidade de trabalho numa área que desejam. Não seria a tentativa de homogeneização um reprodutor de desigualdades na sociedade atual, ou será a homogeneização a desigualdade em si? Se o objetivo é marcar gols, dar espetáculo e ganhar medalhas, como é obter as melhores notas na escola e os melhores testes psicotécnicos na tentativa de ser selecionado para um emprego, que não se critiquem e que se mantenham os processos de identificação e desenvolvimento de talentos. Se o objetivo é educar através do desporto, eduquem na escola a “unidade complexa da natureza humana [o seu humano é em simultâneo físico, biológico, cultural, social, histórico] que está completamente desintegrada do ensino” (MORIN, 1999, p. 17)! Não descriminem nos empregos! Não falem em homogeneização e igualdade de oportunidades!

Os treinadores e observadores são os elementos que realizam a identificação de talentos na prática, são eles que guiam os seus projetos, nos quais investem milhares e milhões de euros, sendo obrigados pela sociedade a ter retorno imediato, tendo assim, o tempo reduzido para obter o seu retorno. São eles que jogam o seu prestígio no momento de mostrar “os seus jogadores”, sendo também eles os desacreditados e criticados socialmente se “os seus jogadores” não tiverem desempenhos ao mais alto nível.

De qualquer forma, como é possível que um treinador do estudo de Christensen (2009) tenha descoberto quem seria o homem do jogo em 4/5 minutos, após um jogador ter efetuado dois toques na bola, o que efetivamente aconteceu, tendo esse jogador sido considerado o homem do jogo? É a praxis! Este conhecimento é, antes de mais, autêntico! Aprende-se e desenvolve-se como resultado de uma lógica proveniente da sua esfera de ação, dentro da esfera maior que é o mundo. Os peritos sentem o jogo, sentem o que vai acontecer (CHRISTENSEN, 2009).

Assim sendo e apesar de no futebol as qualidades “certas” e “erradas” não serem identificadas por meio de alguns fatores únicos, mas sim de um conjunto de características multifacetadas (CHRISTENSEN, 2009), é necessário criar canais de diálogo entre a ciência e a prática, ou a ciência arrisca-se a funcionar num circuito fechado, para o qual os treinadores se podem tornar indiferentes.

A base é o humano e identifico-me nas palavras do grande mestre Manuel Sérgio (2008b) “O desporto por que me bato é um desporto de ideias, de extensa e sólida cultura humanista (.) em direcção a um mundo de Liberdade, de Verdade e de Justiça!”.

Bibliografia

ARAÚJO, D. A insustentável relação entre talentos e peritos: talento epigenético e desempenho emergente. Treino Desportivo, especial 6(Novembro), p. 46-58, 2004

CHRISTENSEN, M. “Na Eye for Talent”: Talent Identification and the “Pratical Sense” of Top-Level Soccer Coaches. Sociology of Sport Journal, v. 26, p. 365-382, 2009

CÔTÉ, J. The Influence of the Family in the Development of Talent in Sport. The Sport Psychologist, v. 13, p. 395-417, 1999

HELSEN, W. F.; WINCKEL, J. V.; WILLIAMS, M. A. The relative age effect in youth soccer across Europe. Journal of Sport Science, v. 23, n. 6, p. 629-636, 2005.

LOURENÇO, L. Mourinho – A Descoberta Guiada. Lisboa: Prime Books, 2010. 174 p.

MORIN, E. Os sete saberes para a educação do futuro. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, 130 p.

SÉRGIO, M. Futbolsofía: Filosofar a través del fútbol. In: Sérgio, M. (Ed). Textos Insólitos. Lisboa: Instituto Piaget, 2008a. P. 119-132

SÉRGIO, M. O desporto por que me bato. In: Sérgio, M. (Ed). Textos Insólitos. Lisboa: Instituto Piaget, 2008b. P. 143-151

WILLIAMS, A. M.; HODGES, N. J. Practice, instruction and skill acquisition in soccer: Challenging tradition. Journal of Sports Sciences, London, v. 23, n. 6, p. 637-50, 2005

WILLIAMS, A. M.; REILLY, T. Talent Identification and development in soccer. Journal of Sports Sciences, v. 18, p. 657-667, 2000

WOLSTENCROFT, E., ed. Talent Identification and Development: An Academic Review (A report for Sportscotland by the University of Edinburgh). Edinburgh: Sportscotland, 2002. Disponível em: http://www.sportscotland.org.uk/ChannelNavigation/Resources/TopicNavigation
/Publications/Talent+identification+and+development+programme.htm. Acesso em: 16 ago. 2010

* Licenciado em Ciências do Desporto e Mestre em Educação Física pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa; Trabalha com futebol de formação, tendo estado nas épocas 2008/2009 e 2009/2010 na Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica; em Julho de 2009 estagiou na Escola de Futebol Étoile Lusitana (Dakar, Senegal), clube vencedor da Milk Cup 2010 (escalão de sub-17)

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Coisas que não pedi ao Papai Noel

Olá amigos,

Nesta época entendo que você já deva estar cansado de mensagens bonitas e pedidos para o próximo ano. Mas gostaria de fazer algo diferente, uma lista de não pedidos, se bem que… um não pedido não deixa de ser um pedido, mas vamos em frente. Embora o natal tenha sido na semana passada e espero que todos tenham aproveitado, vou encaminhar minha lista de não pedidos para 2011 para o Papai Noel.

Prezado Senhor Noel, não quero nada disso que está na lista a seguir, conto com sua compreensão, sei que as vezes sua boa alma o força a atender alguns pedidos, mas neste ano eu gostaria de não contar com sua interferência, grato.

Segue a lista:

Não quero jogadores contratados em janeiro que saiam do time antes do início do brasileiro.
Não quero ver meu time ser surpreendido por equipes mais fracas, por pura falta de desconhecimento ou informações.
Não quero que jogadores se transfiram da minha equipe por menos do valor de rescisão que consta no contrato, e que esse jogador não fique insatisfeito e entre na justiça do trabalho pelo direito de ir e vir, mesmo que sob contrato.
Não quero que as contas do meu clube fechem no vermelho.
Não quero reclamar do calendário.
Não quero reclamar de mala branca.
Não quero reclamar de arbitragem e erros de interpretação.
Não quero duvidar do profissionalismo de meus atletas.
Não quero demitir técnico porque não soube contratar.

Enfim

Não quero ser surpreendido por falta de um centro de informações avançado e gestão profissional do esporte.

É… se analisarmos bem… essas são coisas que não devemos pedir para o Papai Noel, afinal não podemos misturar a história do Gênio da Lâmpada com o Bom Velhinho, que dá um exemplo de gestão, logística, recursos humanos para qualquer dirigente de clube. Basta imaginarmos sua competência para entregar e atender aos pedidos e sonhos de tantas crianças mundo a fora. Não é uma operação fácil não.

Pensando bem, acho que vou precisar da interferência dele.

Ah… se em 2011 o Bom Velhinho fosse dirigente do meu clube…

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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O ciclo da década

Nos próximos dias celebraremos o final da primeira década do ano 2000. Como não poderia deixar de ser, até pela total falta de notícia da época, faço aqui uma breve revisão do que foi este período do ponto de vista da gestão, do marketing e do trabalho da mídia.

A primeira sensação que se tem é de que entramos, em 2011, numa espécie de ciclo da bola. Se, lá em 2001, o sentimento era de total abandono do futebol, especialmente no Brasil, agora a expectativa é totalmente diferente.

O Vasco x São Caetano que abriu o ano futebolístico em 2001 foi emblemático. Um jogo que foi adiado de 30 de dezembro de 2000 após a queda do alambrado de São Januário, encerrando de forma melancólica o mais melancólico dos Campeonatos Brasileiros da história recente. Nada contra o título vascaíno liderado por Romário, mas o fim da Copa João Havelange também começou a marcar, irônicamente, o término da liderança dos grandes monarcas do futebol nacional.

O ano de 2001 foi marcado por uma descrença total no futebol brasileiro. A virada de mesa da Copa JH teve como reflexo imediato a fuga de patrocinadores e a saída de dinheiro dos cofres dos clubes. O Brasileirão-01 teve diversos grandes clubes sem patrocínio na camisa (Santos, Palmeiras e Vasco foram alguns exemplos) e, mais do que isso, muitos poucos craques de bola dentro de campo. O torcedor, também descrente e com menos dinheiro no bolso pelo aperto da economia, relegou o consumo de futebol a um segundo plano.

Paralelamente a isso, as CPIs que corriam no Congresso e no Senado deixaram os dirigentes apavorados com seu futuro dentro do futebol, fazendo com que o foco deixasse de ser a gestão dos clubes para se tornar a permanência no comando. Foi nesse período que a mídia desempenhou papel fundamental para que as denúncias dos descasos dos cartolas tivessem efeito prático sobre o futuro do futebol nacional.

Em 2002, duas aberrações dentro de campo mudaram completamente a história de mudanças e reordenação da bola no país. O pentacampeonato mundial ganho pela seleção brasileira tirou o foco sobre Ricardo Teixeira na CBF, enquanto que o aparecimento de Robinho e Diego no Santos campeão nacional fez desaparecer o sentimento de “abandono” que tomava conta da produção de atletas no país.

Fora de campo, a maior contribuição para a evolução da gestão dos clubes vinha sendo dada pela criação do Estatuto do Torcedor, obrigando os dirigentes a colocarem o torcedor como prioridade em algumas questões relacionadas ao conforto do principal cliente do futebol.

Ainda com os reflexos de CPIs e Estatuto do Torcedor na cabeça, o ano de 2003 começou com uma lufada de novos tempos. A entrada do governo Lula, sancionando a Lei do Torcedor e a Lei de Moralização (que prevê o confisco de bens dos dirigentes por má gestão), mudou de vez a forma como os cartolas monárquicos tratavam o futebol.

O surgimento do Brasileirão em pontos corridos mudou de vez a cara do futebol brasileiro. Somou-se a isso a decisão de não se virar a mesa, mantendo Palmeiras e Botafogo, rebaixados no ano anterior, na Série B. Finalmente a seriedade voltou a dar o ar de sua graça na gestão dos clubes de futebol no Brasil, e isso foi o princípio para que a bonança atingisse parte dos times nos dias atuais.

A definição dos pontos corridos como fórmula de disputa do Brasileirão foi, também, o “cala-boca” que a CBF conseguiu dar na mídia. Com o penta e o Nacional na fórmula que sempre foi a mais defendida pela mídia, não tinha mais do que se falar de descuido da CBF e de Ricardo Teixeira com o futebol no país.

O processo de reordenação do futebol nacional foi acompanhado pelo crescimento da economia do país. A combinação desses dois fatores fez com que, no período inicial de adequação aos pontos corridos, os times brasileiros arrumassem suas casas e olhassem de que forma conseguiriam ser competitivos interna e externamente.

Com uma melhor ordenação fora de campo, e com mais dinheiro nas empresas do país, a segunda metade da década passou a ser de riqueza. Clubes com melhor poder de barganha para manter os craques dentro de seus clubes e empresas mais dispostas a investir no futebol para obter grande exposição na mídia.

Mas o que deveria ser o início de um ciclo virtuoso mostra, neste final de década, que pode ser o prenúncio de mais uma crise, ainda sem data para começar. A bonança dos altos patrocínios gerou, também, uma inflação no mercado do futebol do Brasil. Os clubes arrecadam mais, mas também gastam de maneira muito maior. A exemplo do que aconteceu no final dos anos 90, quando os grandes investidores entraram no futebol, levando os preços lá para cima, agora os clubes investem mais dinheiro para ter grandes jogadores.

Esse fenômeno, porém, não deve acabar tão cedo, uma vez que a Europa em crise financeira e o Brasil sendo a bola da vez por conta da Copa do Mundo de 2014 impulsionam para cá os investimentos.

Só que a dúvida que fica para a década que chega é essa. Até quando continuaremos a ter muito dinheiro no futebol? E quem não consegue acompanhar esse ritmo de evolução das receitas vai se endividar até quando para tentar manter o nível de competitividade?

São perguntas que a mídia deveria começar a fazer, em vez de se apegar apenas aos resultados dentro de campo. Essa é uma característica, porém, que não evoluiu ao longo da década, apesar de todas as mudanças no comando do futebol brasileiro.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br  

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A interferência da televisão no futebol brasileiro: ‘reapitando’ uma partida

RESUMO

Este trabalho analisa a interferência da televisão em uma partida de futebol, do ponto de vista dos erros cometidos pela arbitragem e mostra como esse veículo de comunicação pode modificar diretamente decisões da autoridade máxima em campo ou ainda substituir tal autoridade, “reapitando” os jogos eletronicamente e, às vezes, modificando o andamento dos campeonatos no Brasil. Tal interferência, que faz o árbitro quase sempre parecer incompetente aos olhos dos torcedores, rende ao “homem do apito” duras críticas da imprensa, de amigos e parentes, o que, muitas vezes, causa seu afastamento do convívio social, seja por vergonha, por medo de ofensas ou ainda por receber graves ameaças pessoais.

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Carta Aberta ao André Villas-Boas, treinador do F.C.Porto

Meu caro amigo,
esta carta parece, velada ou declaradamente, o resultado do mais puro oportunismo: o André é o mais que provável vencedor do Nacional de futebol da primeira divisão e, digo-o sem receio, da Liga Europa; lidera uma das melhores equipas do futebol mundial – e cá estou eu a exibir o virtuosismo de um conhecimento que já é acessível a qualquerportuguês amante do futebol. Ou seja, evitei prudentemente, meses atrás, um prognóstico difícil, sobre o seu futuro, como treinador de futebol, e venho agora falar, de cátedra, do actual treinador do F.C.Porto. Se assim fosse, as vozes dos profissionais da injúria não deixariam de retratar-me como personagem incómoda ou ridícula. Só que, contra a agressividade dos meus críticos, teria o André, ao meu lado.
De facto, trabalhava o meu amigo na Académica de Coimbra, muito antes dos convites do Sporting e do Porto, e já eu lhe escrevia, sustentando que, num clube com as condições necessárias e suficientes, o André surgiria como um treinador de excepcional relevo e manifestando até insuspeitadas potencialidades. Recordo que o surpreendeu o conteúdo da referida carta e foi lesto a telefonar-me: “Gostava de saber por que me vê com um futuro brilhante, na profissão de treinador de futebol?”. E acrescentou ainda: “É que eu sinto que tenho tanto para aprender!”.
Libertando-me de uma linguagem esotérica, frequentemente exibicionista, respondi-lhe: “Porque o meu amigo sabe liderar uma equipa, sabe comunicar com os jogadores que a constituem, sabe ler um jogo e vive de uma tensa e intensa vontade de vitória. Está aqui a base do êxito de um treinador de alta competição. Isto o que se vê, mesmo pela televisão. Com o apoio estrutural de um grande clube e com o que aprendeu com o José Mourinho, o meu amigo decuplicará o talento que mostra”. Há poucos dias, numa das nossas conversas telefónicas, o André chegou mesmo a dizer-me: “O professor até acreditou em mim, antes de eu acreditar!”. Não é bem assim. Eu vejo o desporto e os desportistas com uma teoria que elaborei e que me norteia. Para mim, esta área do conhecimento, mais do que uma actividade física, é uma actividade humana, onde o físico-biológico se encontra integral mas superado.
No futebol, portanto, o jogador deve desenvolver-se em equipa, sem ser reduzido à equipa. E assim o treinador, nos seus momentos de reflexão, poderá levantar, no mais íntimo de si mesmo, esta questão: qual o tipo de pessoa que eu quero que nasça dos jogadores que lidero? Reside aqui, no meu modesto entender, o momento essencial do treino.
É evidente que os livros de metodologia do treino (e são milhares, por esse mundo além) pouco se apercebem da intrínseca influência da preparação intelectual e moral de uma equipa. E, entre os factores de rendimento, dão ao físico-biológico lugar primacial. Ora, para mim, não só tudo é sistema, como só o sistema é real. Portanto, no treino, há que distinguir para associar e não separar para reduzir. Por isso, antes de tudo o mais, o jogador deve acreditar no que faz e transformar-se na expressão da fé que anima todo o clube, desde o mais humilde associado e funcionário até aos membros da direcção. A crença gera biologia. O jogador que acredita que é um dos aspectos fundamentais da alma de um clube tem mais força e mais velocidade e mais resistência e mais impulsão, etc., etc.
Meu querido amigo, não lhe falo de um anseio indefinido ou de uma superstição romântica – falo-lhe do espírito que deve animar um departamento de futebol profissional. Hoje, o próprio conhecimento científico é subjectivo-objectivo. O futebolista também está todo em tudo o que faz, mas o que dele sobrevive é a sua vontade de ser mais e de ser melhor.
Nada de novo lhe escrevi nesta carta. É verdade! Tudo isto o meu amigo sabe, designadamente através da sua prática diária. Eu não passo de um simples teórico mas que, há 42 anos, vem ensinando filosofia do desporto e aprendendo com o André e um ou outro colega seu, que fazem o favor de tentar dissipar muitas das minhas dúvidas.
O André está, entre os treinadores que eu conheci e conheço, ao lado dos que maior sensibilidade manifestam à necessidade de repensar o treino, à luz do pensamento complexo. Por isso, também no futebol a cultura é o primeiro factor de desenvolvimento. Leia um Camus, um Malraux, uma Hanna Arendt, uma Clarice Lispector, um Jorge Amado, uma Maria Zambrano, um Vergílio Ferreira, um Saramago, um Jorge Luís Borges e tantos mais; aprenda a saborear a arte de poetas como Pessoa, ou Sebastião da Gama, ou Sofia, ou Herberto Helder, ou Torga, ou Régio; escute atentamente a mensagem dos filósofos e dos sociólogos – e vai começar a saber mais de futebol!
O maior defeito dos técnicos da Fifa e da Uefa é abusarem de uma aturdidora profusão de palavras e sentirem-se incapazes das grandes sínteses que tentam compreender o humano. Ora, o futebol é, repito, uma actividade humana e onde, portanto, a vida tem mais força do que a lógica. Estudar futebol é, sobre o mais, aprender com a vida.
Por isso, meu amigo, se me der essa honra, vamos continuar a falar ao telefone. Para eu saber mais de futebol? Não sei se em Portugal haverá alguém que tenha lido mais obras, sobre futebol, do que eu. Só se for o Dr. Jorge Castelo. Na minha biblioteca de, em números redondos, 4000 livros, contam-se às dezenas! Eu consigo aprendo muito de futebol porque falamos de ciências de um novo tipo. Quando um jogo começa, qual a ciência que explica o que se está a passar no campo? Eu chamo-lhe ciência da motricidade humana. Mas há tanta gente que me lança um olhar misericordioso, quando me ocupo destes assuntos. Resta-me a sua compreensão e a de alguns amigos. No meu caso, pode crer, a sua compreensão revigora-me: é que eu estou convicto que está a nascer, no meu amigo, um dos grandes treinadores do futebol português – e, neste mundo globalizado, que é o nosso, do futebol internacional.
Por fim, não escondo que o F.C.Porto de Jorge Nuno Pinto da Costa é o melhor seminário para ampliar e aprofundar o muito que o meu amigo sabe e é. Aconteceu o mesmo com o Dr. José Mourinho. Parecendo que não, a história deste clube não é carismática, é estrutural.
Seu,
Manuel Sérgio.
*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.
Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.
Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

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A interferência da televisão no futebol brasileiro: 'reapitando' uma partida

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Este trabalho analisa a interferência da televisão em uma partida de futebol, do ponto de vista dos erros cometidos pela arbitragem e mostra como esse veículo de comunicação pode modificar diretamente decisões da autoridade máxima em campo ou ainda substituir tal autoridade, “reapitando” os jogos eletronicamente e, às vezes, modificando o andamento dos campeonatos no Brasil. Tal interferência, que faz o árbitro quase sempre parecer incompetente aos olhos dos torcedores, rende ao “homem do apito” duras críticas da imprensa, de amigos e parentes, o que, muitas vezes, causa seu afastamento do convívio social, seja por vergonha, por medo de ofensas ou ainda por receber graves ameaças pessoais.

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Momento de união

Caros amigos da Universidade do Futebol,

é chegado o Natal, e com ele o espírito de nascimento, união e confraternização. É com esse espírito que escrevo a coluna desta sexta-feira.

Vivemos um momento crítico do futebol profissional no Brasil. Um momento em que precisamos vencer uma série de conflitos internos, problemas crônicos de nosso esporte, em vistas a organizar uma Copa do Mundo e de propiciar, em definitivo, uma melhor vida aos nossos torcedores e um melhor produto para nossos clubes e campeonatos.

É momento de união. Temos que superar diferenças históricas para juntarmos forças e termos um campeonato mais bem organizado, com estádios mais modernos.

Precisamos promover a segurança nos estádios. Para isso, não basta apenas um policiamento mais eficaz, mas também torcedores que respeitem as leis e normas e que não promovam a violência e o vandalismo. É preciso haver colaboração entre poder público e sociedade civil, para afastar as mazelas dos estádios.

Temos também que promover jogos mais atrativos, com nossos craques presentes em campos brasileiros. Para isso, CBF, federações locais e clubes devem se esforçar em conjunto para propiciar melhores condições para os nossos jogadores. Impossível manter todos os principais craques, isso é certo em qualquer profissão; mas o Brasil, com o atual cenário da economia local, tem condições de segurar e repatriar grandes nomes. Novamente a união é fundamental.

A mídia também desempenha um papel fundamental e deve funcionar como viabilizador de novos patrocinadores ao esporte (e não uma barreira para eles). O futebol precisa da mídia, mas o inverso também é verdadeiro e precisa ser reconhecido e refletido nos contratos. Para se chegar a um denominador comum, o diálogo é fundamental.

Resta ainda mencionar o poder público, que desempenha papel fundamental dentro do sistema do futebol. Esse esporte bretão possui uma função social importantíssima na sociedade brasileira, e é por isso que nosso governo deve continuar atento para que os atrativos financeiros existam, mas nunca desvirtuem a função de inserção social, lazer, entretenimento e, principalmente, educacional do futebol.

Enfim, que todos entrem em campo e joguem juntos, com o espírito natalino, para que o nosso futebol brasileiro possa ser o número um, não só dentro de campo, como também fora dele.

Vamos batalhar juntos para que a Copa do Mundo da Fifa de 2014 seja um catalisador de toda essa evolução.

Feliz Natal a todos!

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br