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Ó vida, ó céus, ó azar.

Muitos devem lembrar da hiena Hardy, do desenho animado “Lipy the Lion and Hardy Har Har”, que proferia o famoso “Ó vida, ó céus, ó azar”, pelo seu eterno pessimismo, pois sempre esperava o pior nas circunstâncias do seu cotidiano e aventuras da dupla.

É assim que percebo muitos clubes que lamentam o ano de 2010 (ou os outros do passado). E, pelos cenários por eles próprios desenhados, vão continuar a colocar o braço na testa e a esperar o pior em 2011. Mas o pior é que o pior (desculpem a propositada redundância) é que a culpa raramente está na própria organização. Está sim em terceiros. Está no imponderável: no “monstro da televisão”, na “perseguição da CBF”, no “senhor diretor de árbitros”, na “Lei Pelé” e assim vai.

O pessimismo, nestes casos, tem explicação pela falta total de conhecimento e de planejamento do futuro. No quesito conhecimento, temos toda a componente relacionada com as informações inerentes à própria organização e ao mercado como um todo. O desconhecimento sobre o viés e as tendências que norteiam o ambiente da organização atrelado à falta de visão sobre aquilo que representa a própria instituição são fatores preponderantes para o insucesso.

O planejamento serve para perceber e descrever os rumos que se deve tomar, além de definir as estratégias para que tais anseios se tornem realidade. E planejar o futuro não é simplesmente dizer: “vamos ganhar todos os jogos em casa e ‘beliscar’ uns pontinhos fora de casa”. Passa, sim, por estudo, análise, projeção e engajamento de todos os setores ligados à organização.

Com as poucas palavras desta coluna, registro o anseio para que, ao término do próximo ano, tudo que ocorreu ao longo do mesmo passe a ser devidamente colocado sob uma métrica. Indicadores que possam aferir com precisão as virtudes e as falhas advindas da temporada, procurando soluções para as etapas vindouras. Assim, poderemos ter queixas e análises construtivas, e não simplesmente vazias, das organizações e das pessoas ligadas às entidades do futebol.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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A derrota do Inter: ver DVDs funciona no Brasil?

Olá, amigos!

Entendo que vocês não aguentem mais ver nada sobre o Mundial de Clubes, afinal como já identificaram os estudos sobre os meios de comunicação, a informação é tão intensa quanto efêmera.

Mas gostaria de analisar um pouco deste dito “vexame” do Internacional no torneio internacional.

Primeiramente considero um exagero tal alcunha, afinal, chegar ao Mundial, como sabemos, não é uma missão fácil. Por mais que possam dizer que uma vez lá, não tem o que se esperar de uma equipe que não seja da América do Sul ou da Europa. Creio que muitos gostariam de ver seu time sempre na disputa, pois isso representa conquistas nacionais e continentais.

Das sete edições do torneio, apenas três times (considerando Europa e América do Sul, como gostam a maioria) participaram duas vezes do torneio. Nenhum bicampeão. Será que isso indica um trabalho catastrófico?

Por outro lado, temos que concordar que a expectativa criada e o próprio potencial da equipe brasileira contribuíram para o sentimento de decepção que tomou conta do noticiário esportivo.

Por isso entro brevemente numa reflexão, não do jogo propriamente dito, mas da forma como uma análise poderia ter contribuído (lembrando que é difícil falar apenas com as informações à distância, sem estar lá para avaliar de maneira mais adequada o que de fato foi feito).

O Inter avaliou alguns DVDs do Mazembe. Eis a questão que sempre discutimos aqui: pode um DVD ser a principal fonte de análise de um adversário, tendo isso como o recurso tecnológico utilizado pelo clube?

Se hoje o discurso de que “não existe bobo no futebol” é cada vez mais presente, porque ainda temos situações precárias de análises? Me desculpem os que discordam e têm todo o direito e dever de fazê-lo, DVD não pode ser visto como tecnologia de ponta para o futebol de alto nível. Mesmo com o argumento de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Numa boa interpretação, isto é, informação armazenada, analisada, discutida, aprofundada, não valeria… Hum… ao menos uma vaga na final do Mundial?

Não é a primeira vez que os africanos cruzam o caminho do futebol brasileiro e saem bem sucedidos. E aí, o que nos diz os DVDs desses jogos?

Não acredito que esses DVDs tenham mais informações do que estudo e análises aprofundadas sobre o retrospecto brasileiro contra equipes africanas. Será que a ciência e a tecnologia não poderiam ajudar a compreender um pouco mais? E para quem acha que elas dariam respostas, lembrem, elas não estão aí para isso, e sim para ajudar a fazer as perguntas certas.

Por que o Inter perdeu para o Mazembe?

Por que Brasil perdeu o Mundial sub-20 para Gana em 2009?

Por que o Brasil perdeu o Mundial sub-17 para Gana em 2007?

Por que o Brasil perdeu para a África do Sul e para Camarões nas Olimpíadas em 2000?

Por que o Brasil perdeu para a Nigéria nas Olimpíadas de Sidnei, em 1996?

Será que só ver os DVDs ajuda?

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Querido Papai Noel…

Querido Papai Noel,

mais um ano vem chegando ao fim e, com ele, meus sinceros votos de que nós possamos ter um 2011 ainda melhor. Acredito que eu tenha sido um bom menino e, por isso mesmo, segue a minha listinha de presentes para este Natal. O senhor, como bom velhinho que é, verá que não peço nada material, apenas algumas melhorias para que o nosso futebol brasileiro seja ainda melhor, mais forte e, claro, traga mais alegrias para as pessoas.

Afinal, já que esse é o espírito que devemos preservar no Natal, porque não procurarmos ganhar de presente um montão de coisa que pode ajudar a termos um 2011 melhor?

Então, querido Papai Noel, segue aqui a minha listinha. Escolhi 11 presentes, já que um time de futebol que se preze precisa ter 11 jogadores em campo, e também o ano que vem é 2011. Ah, sei lá por que. Só veja se o senhor pode me ajudar, por favor.

1 – O senhor pode fazer com que a imprensa decida realmente só dar a notícia de que um jogador fechou com um clube quando de fato a negociação estiver concretizada? Não aguento mais o dever de informar ser suprimido pelo dever de vender jornal, de aumentar a audiência, etc. E o compromisso com o leitor, onde é que foi parar?

2 – Dê, para cada clube da Série A do Campeonato Brasileiro, uma mala de cada uma das cores existentes, por favor! Assim, quando chegarmos lá em novembro de 2011, todos colocam suas malas coloridas à venda. Quem sabe, desse jeito, vamos voltar a falar do que de fato interessa, que é o resultado dentro de campo, e não da maracutaia que pode, talvez, quem sabe, existir.

3 – O senhor tem alguma espécie de calculadora-punidora? Queria que o senhor presenteasse os clubes com ela. E não precisa ser só do Brasil, não! Funcionaria mais ou menos assim. Quando o dirigente fizer a conta e descobrir que ela vai ficar negativa, ele toma um choque. Acho que isso ajudaria a fazer com que os clubes voltassem a pagar os jogadores em dia, parassem de contrair mais dívidas e, finalmente, buscassem novas fontes de receita para ajudar a fechar o ano no azul. Não é assim que a gente tenta fazer lá em casa?

4 – É possível instituir uma regra que faça com que a Conmebol e a CBF resolvam não meter o bedelho em nenhuma competição do futebol na América do Sul e no Brasil? Veja só, querido Papai Noel, sei que esse presente deve ser o mais difícil de conseguir. Mas imagine só como seria mais legal se, em vez do interesse político, a gente buscasse deixar o campeonato o mais interessante possível equiparando todas as equipes e dando o maior senso de justiça para um torneio. Imagine só? O campeonato começaria e terminaria com a mesma regra, sem mudar o número de times classificados para este ou outro torneio, sem nenhuma bagunça…

5 – Papai Noel, este pedido aqui, se o senhor conseguir entregar esse anterior, pode riscar da lista. É o seguinte: tem como a gente reduzir de vez os Estaduais? Não quero acabar com eles, acho que eles têm a sua graça. Mas não com tanta gente! É mais ou menos como festa muito lotada. Perde aquele charme, não é mesmo? Não dá para deixar em 10 datas o Estadual?

6 – Por favor, Papai Noel, arrume um jeito de entregar, na casa de alguns treinadores e de alguns jornalistas, um pó mágico, que faça com que eles sejam menos rancorosos neste 2011 que vem chegando. Quem sabe assim até as modorrentas entrevistas coletivas após os jogos sejam legais! Eu sei que é difícil, mas já que o senhor pode dar qualquer presente…

7 – O senhor pode entregar aos clubes uma camisa de futebol menos poluída? É como se o sonho do torcedor fosse realizado, entende? O que ele gosta é da camisa do time apenas com o escudo, nada além disso. Aí o pessoal, em busca de dinheiro, vende o manto sagrado para um monte de marca. E, o pior, é que as empresas acham que isso tá dando “retorno”. Poxa, Papai Noel, eu nem me lembro quem é que está na camisa do Real Madrid, que só tem um patrocinador, como é que vou lembrar qual é uma das sete marcas que estão estampada no uniforme do Timão? Sei lá como o senhor vai fazer, Bom Velhinho, talvez valha invadir a casa dos patrocinadores para resolver essa…

8 – O senhor pode dar um calendário de presente para o Ricardo Teixeira, para a presidente Dilma, para o ministro do Esporte (seja lá quem ele ou ela for), para o presidente da Infraero e para os governantes das 12 cidades-sedes da Copa de 2014? É que sabe como é, já foram três anos da escolha do Brasil e, até agora, parece que só os estádios começaram a ser arrumados para o torneio. E olha que estádio nem é tão problemático assim. Quero ver como fazer para deixar os aeroportos bons para a população, as ruas, o transporte público… Ok, vou parar por aqui! Só um calendário eu lhe peço, Papai Noel. Só isso!

9 – Por acaso o senhor tem um controle remoto poderoso, que faça com que a gente possa escolher para ver apenas os melhores momentos das mesas-redondas no domingo à noite? Sem aquela discussão vazia, que não leva a nada. Só o que de fato realmente interessa! Esse é um presente que faria feliz praticamente todas as famílias do Brasil! É sério, Papai Noel, o senhor seria recebido em carro de bombeiros toda vez que passasse por aqui depois dessa!

10 – Sei que já estou pedindo muito, mas sua fama é de quem torna os sonhos possíveis. Será que dá para ensinarmos um pouco mais de gestão para quem está no comando do futebol? Nem é muita coisa. Só mostrar para eles que não adianta ser torcedor quando você senta na cadeira da presidência. Lugar do torcedor é na arquibancada, no choro, na emoção. Quando o cara vai comandar o clube, ele tem de ser frio, especializado, pronto para cuidar com muito carinho da sua empresa. Esse pedido é interessante, Papai Noel, porque aí não preciso pedir um montão de outras coisas, como a mudança do horário dos jogos, o fim da dependência de uma só fonte de dinheiro dos clubes, a manutenção dos melhores atletas por aqui, etc. Viu só como eu sou legal?

11 – Por último, Papai Noel, gostaria de saber se tem como o senhor entrar em contato com o “pessoal lá de cima” para fazer uma mudança no Brasil. Tem como a gente instituir que o ano começa em agosto e termina em julho? É porque aí todas as competições de futebol começariam e terminariam juntas. Esse pedido é só em caso de máxima urgência. Se por acaso o senhor percorreu os outros dez presentes e se desesperou, talvez realizando esse daqui já tenhamos uma melhoria para o futebol no Brasil. Não é a solução, mas ajuda a melhorar…

Bom, é isso aí, Papai Noel. Espero que o senhor consiga me entregar alguns desses presentes. Sei lá, do jeito que estão as coisas, um deles já ajudaria bastante. Pode escolher qualquer um. Sabe como é, tem algumas coisas que acontecem hoje com o nosso futebol que dá dó de ver. Quem sabe o senhor, do jeito que é bondoso, abra os olhos dessa turma…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br  

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Vamos às compras!

O mês de dezembro costuma ser agitado pela efervescência natural do período, que envolve Natal, reflexões pessoais para o próximo ano, encontros e desencontros familiares, nostalgia do que passou.

E muita gente encontra conforto em traduzir os sentimentos dessa época oferecendo presentes aos que lhe são caros ou próximos.

Temos uma enxurrada de amigos-secretos no trabalho, na família, com os amigos.

E dá-lhe presentes…

Não é fácil encontrar o presente certo para as pessoas. Quanto mais se conhece, melhor fica, mas, ainda assim, não é fácil.

A base das melhores escolhas é a informação. Informação deve ser transformada em conhecimento, e conhecimento em sabedoria.

E a fonte primária de informação é sempre melhor. Mas fica difícil imaginar todo mundo perguntando a todo mundo o que gostaria de ganhar de presente.

O próprio encanto da coisa se perderia.

No futebol, porém, o encanto deve dar lugar à racionalidade.

Não basta o clube perguntar à torcida quem ela gostaria de ver contratado para o ano seguinte: se o Pelé ou o Mané.

O Papai Noel não entrega gratuitamente, e o preço que se cobra por escolhas equivocadas de presentes pode determinar o êxito ou fracasso do ano seguinte.

Reunir-se para comprar tem sido algo interessante, ao contrário de comprar para reunir.

A febre das compras coletivas pela internet chegou ao futebol. O São Paulo está vendendo ingressos para o Campeonato Paulista a preços irresistíveis.

Deve-se tomar muito cuidado para sair às compras no mercado de transferências do futebol.

Pra não comprar gato por lebre. Tampouco sair usando o cartão de crédito como se fosse revólver em mão de macaco.

Comprar por impulso natalino, para presentear a família e os amigos é espirituoso.

Mas, a partir de janeiro, a conta já começa a chegar.

Na nossa casa.

Ou no nosso clube.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Rafael Vieira, analista de desempenho

Mano Menezes capitaneia desde o fim de julho, quando recebeu o convite para assumir o comando da seleção brasileira principal, um importante processo dentro do futebol. Cabe ao treinador a tentativa de retomar a condição de “protagonista” da equipe nacional perante os principais rivais internacionais. Uma filosofia e um modelo de jogo próprios, representativos da cultura local, estão sendo levados em consideração por toda a comissão técnica montada. E um profissional que atua com o gaúcho há anos tem papel também relevante nisso.

Rafael Vieira é o analista de desempenho escolhido pela CBF para compor a nova estrutura. Com o aval de Mano, com quem já trabalhou nos departamentos de futebol de Grêmio e Corinthians, ele deu mais um passo em sua carreira dentro da modalidade, iniciada na década passada.

A base é científica. Rafael possui graduação em Educação Física, com especialização em Fisiologia do Exercício (ambos pela UFRGS). Acumulou experiência em escolinhas de futsal e futebol de Porto Alegre, sendo treinador de uma equipe de formação e assistente técnico na escala maior. Até que se firmou na função que desempenha atualmente.

“O analista de desempenho é o profissional auxiliar técnico especializado em analisar e interpretar os comportamentos da partida de futebol. Este profissional é responsável por oferecer subsídios e ferramentas de análise do adversário e da própria equipe para o técnico, bem como comportamentos individuais e de desempenho de performance técnica e tática”, explicou Rafael, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

O especialista discrimina de maneira clara o seu trabalho do realizado pelos editores de vídeo que muitos clubes possuíam anteriormente. No Grêmio, por exemplo, participou ativamente da criação da Central de Dados Digitais, que avalia adversários e desenvolve um banco de dados de atletas.

“Conseguimos juntar as pessoas em torno de um conceito muito legal de análise do jogo e também de integração de pensamentos, com objetivo de somar e desenvolver melhor o produto ‘jogador’ do clube”, relembra.

Mano atuava no estádio Olímpico à época. Hoje, a montagem dos treinamentos do técnico da seleção brasileira é planejado de acordo com as necessidades da equipe. E cabe a Rafael organizar os controles e fazer as avaliações dos treinamentos, facilitando o feedback do comandante para os atletas.

“Evidentemente existem alguns padrões de observação que servem de parâmetros para análise, o cruzamento e a repetição das informações geram padrões táticos nas equipes. Acredito que aqui está a objetividade do analista em apontar uma ‘ideia de jogo’, que seria um comportamento tático que a equipe emprega, que a explica como um todo”, argumenta o analista de desempenho.

“Nessa ideia ou modelo estão presentes conceitos, princípios e características individuais e coletivas. Dessa forma, existe uma síntese de informação criando padrões e desenvolvendo mais o modelo de jogo”, completa Rafael, que revela as dificuldades para se formar novos profissionais de sua área e as principais diferenças em relação à realidade européia.

Nova comissão técnica da CBF atua de maneira integrada; Rafael Vieira revê parceria com Mano, Sidney Lobo e Francisco Cersósimo 

 

Universidade do Futebol – Sua formação é em Educação Física, com especialização em Fisiologia do Exercício. Como foi seu ingresso no ambiente do futebol?

Rafael Vieira – Completei minha formação de graduação na Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em janeiro de 2001, e neste mesmo ano iniciei o curso de especialização de Fisiologia do Exercício na UFRGS. Já no futebol, trabalho desde 1997, tendo começado minha carreira em escolinhas de futsal e futebol de Porto Alegre.

Minha primeira experiência com equipes de grande porte foi no Grêmio, em 1998 (escolinhas de futebol). Depois disso passei por clubes do interior gaúcho, como Aimoré de São Leopoldo (técnico infantil sub-15), Brasil de Farroupilha (auxiliar técnico profissional), São José, de Porto Alegre, até chegar novamente ao Grêmio em 2005, atuando como auxiliar técnico e analista de desempenho. Fiquei lá por cinco temporadas.

Por último, atuei no Corinthians, também como analista de desempenho, até o convite para a seleção brasileira.

Universidade do Futebol – À época em que você estava no Grêmio, foi criada Central de Dados Digitais do Grêmio (CDD), que avaliava adversários e montava um banco de dados de atletas. Poderia explicar um pouco melhor sobre a funcionalidade e o procedimento de uso dessa ferramenta?

Rafael Vieira – A CDD foi um grande sonho que se realizou. Em 2005, quando incorporei a comissão técnica profissional do Grêmio, vindo do juniores, iniciamos uma reformulação interna e estrutural, de equipamentos e conceitos. Tudo isso pensado pelo técnico Mano Menezes, com propósito de melhorar as condições de trabalho. Começamos com os equipamentos e treinamento de pessoal especializado – foi nesse momento que surgiu a função de analista de desempenho.

A ideia era ter um espaço central para que as informações fossem processadas e analisadas e principalmente discutidas entre os técnicos e membros das comissões técnicas. Contudo, era inovador no clube, pois conseguimos juntar as pessoas em torno de um conceito muito legal de análise do jogo e também de integração de pensamentos, com objetivo de somar e desenvolver melhor o produto “jogador” do clube.

Basicamente, a CDD faz banco de imagens de jogadores, análise de jogo para o profissional e demais categorias, banco de treinos, centro de informações ligado à rede interna e software de gestão do Grêmio.

Universidade do Futebol – Qual é o papel do analista de desempenho na seleção brasileira? Há alguma diferença em relação ao seu trabalho anterior, junto a clubes como Corinthians e Grêmio?

Rafael Vieira – Sim, há diferença. No Grêmio, meu trabalho foi de muito desenvolvimento, tanto estrutural como conceitual. Já no Corinthians, encontrei uma excelente estrutura com profissionais especializados, como o Fernando [Lázaro Rodrigues Alves], que atua com o que eles chamam de Tecnologia Esportiva. Então, a preocupação foi mais conceitual do que estrutural.

O analista de desempenho é o profissional auxiliar técnico especializado em analisar e interpretar os comportamentos da partida de futebol. Este profissional é responsável por oferecer subsídios e ferramentas de análise do adversário e da própria equipe para o técnico, bem como comportamentos individuais e de desempenho de performance técnica e tática. Isso é a descrição da função e acho importante ressaltar que as pessoas que são “analistas” são diferentes dos “editores de vídeo” que os clubes tinham anteriormente.

Os analistas são profissionais que advêm do campo – no meu caso, fui treinador em categoria de base, especializado em leitura do jogo e comportamentos das equipes, com facilidades em editar, analisar e apresentar resultados. Contudo, é importante ter bom conhecimento de informática, banco de dados, etc.


Analista de desempenho não é igual a editor de vídeo, pondera Rafael Vieira, que observou atuação do time B do Barcelona, antes de jogo-treino  

 

Universidade do Futebol – Você poderia explicar de maneira conceitual como é realizado o processo de anotação, avaliação, interpretação e apresentação dos resultados?

Rafael Vieira – De forma conceitual e também prática, esse processo de anotar, avaliar, interpretar e apresentar resultados são funções e atribuições do analista. O analista deve apresentar os dados sempre de forma pontual e objetiva, facilitando a leitura dos mesmos pelo técnico e demais membros da comissão técnica. Lembrando que isso pode ser feito com qualquer ferramenta, desde a mais sofisticada, até de maneira mais simples, anotando em um papel e apresentando uma informação que ajudará no crescimento da equipe.

Universidade do Futebol – Você cita que se os treinadores vierem a avaliar o jogo de uma forma subjetiva, acaba-se inevitavelmente construindo os treinamentos de uma forma subjetiva. Como se dá sua relação com o Mano Menezes e os demais profissionais da comissão técnica para a montagem de treinamentos?

Rafael Vieira – Bom, na verdade essa citação é do Thiago Duarte (analista do Grêmio) e eu uso no meu blog. Isso porque escrevemos muitas coisas juntos, temos alguns artigos publicados. Essa citação é um reforço à leitura do jogo, à análise de jogo de uma forma geral.

Temos a certeza que construímos nosso jogo a partir daquilo que treinamos e também treinamos de acordo como jogamos (Garganta). Essa citação do professor Garganta explica a necessidade de sermos objetivos na leitura do jogo para formatar um bom treino. A montagem dos treinamentos do Mano segue aquilo que ele tem como modelo de jogo, ou seja, de acordo com as necessidades da equipe. Cabe ao analista organizar os controles e fazer as avaliações dos treinamentos, facilitando o feedback do técnico para equipe.


 

Especial: Mano Menezes, o treinador da seleção brasileira 
 

 

Universidade do Futebol – Para a realização da análise tática, alguns conceitos, princípios e procedimentos são bem determinados. De que modo são cruzadas as informações estratégicas e o modelo de jogo treinado e como são criados “padrões de análise”?

Rafael Vieira – Ótima pergunta. Acho que aqui que está a grande construção da análise e como isso tudo pode ajudar os técnicos a desenvolverem seus modelos. Evidentemente existem alguns padrões de observação que servem de parâmetros para análise, o cruzamento e a repetição das informações geram padrões táticos nas equipes.

Acredito que aqui está a objetividade do analista em apontar uma “ideia de jogo”, que seria um comportamento tático que a equipe emprega, que a explica como um todo. Nessa ideia ou modelo estão presentes conceitos, princípios e características individuais e coletivas. Dessa forma, existe uma síntese de informação criando padrões e desenvolvendo mais o modelo de jogo.


“Alguns padrões de observação que servem de parâmetros para análise, o cruzamento e a repetição das informações geram padrões táticos nas equipes” 

 

Universidade do Futebol – A tecnologia esportiva para auxílio da comissão técnica ainda é vista de forma limitada pelos clubes nacionais? Como avançar nessa questão?

Rafael Vieira – Acho que melhorou muito nos últimos anos. Praticamente o mundo inteiro depende de tecnologia para funcionar, e não seria diferente no futebol. Acredito que pessoas que não aceitam a tecnologia têm dificuldades de gerenciar seus trabalhos.

O jogador de futebol também evoluiu muito nos últimos anos, praticamente todos se utilizam de ferramentas sociais de comunicação, então por que não oferecer ferramentas para o seu trabalho? A fase do futebol romântico já acabou há muito tempo, está tudo mais dinâmico e rápido. Portanto, as pessoas que trabalham com futebol têm a necessidade de se reciclar constantemente.

Universidade do Futebol – No Brasil, ainda não há cursos de formação de analistas de desempenhos, ou na área de alta tecnologia esportiva. Qual é o reflexo disso? De que forma podem ser moldados e capacitados profissionais interessados em atuar nessa função sem uma base acadêmica?

Rafael Vieira – Acho que o Brasil precisa evoluir muito nas questões de formação de seus profissionais do futebol. A demanda é muito grande, e a formação está muito atrasada em relação a outros centros. Há poucos anos temos a EBF (Escola Brasileira de Futebol); já na Europa, há muitos anos a Uefa forma seus profissionais.

Como disse anteriormente, o analista é um profissional do campo especializado, portanto se molda nas universidades e na prática dos clubes. Espero que esta função se difunda por muitas agremiações.

Para formar um analista é necessário ser um bom observador, assistir muitos jogos e criar seus parâmetros de análise. Também acho que esse profissional deve ter na sua experiência prática de futebol, seja o nível que for, mas o contato com o esporte favorece a leitura do jogo. Ressalto também que em qualquer profissão é necessário preparo e talento para realizá-la de forma a alcançar a excelência.


Rafael Vieira analisa plataforma de jogo do Liverpool, durante viagem à Inglaterra para busca de novas tecnologias  

 

Universidade do Futebol – Como se dá a interação entre você e a preparação física e comissão técnica, departamentos médico e de fisiologia, e com o próprio trabalho realizado nas categorias de base da seleção brasileira?

Rafael Vieira – A interação é total. Hoje é praticamente impossível ver o futebol por partes separadas, isso é muito complicado, uma área faz a sua e a outra também. Não acredito nisso: acredito, sim, em um trabalho global e sistêmico, concebido a partir de uma ideia de jogo do técnico.

O trabalho na seleção de base é responsabilidade do coordenador Ney Franco e está em construção.

Universidade do Futebol – O Mourinho defende um modelo de treino integrado, em que não há separação entre o que é físico, técnico, tático e psicológico. O que você pensa a respeito disso? Essa filosofia de trabalho já era aplicada no futebol português por outros treinadores?

Rafael Vieira – Acho que o Mourinho defende o treino sistêmico, e não integrado – vejo diferença nisso. Penso que o melhor modelo é aquele que é coerente com suas ideias. Há muitos caminhos para chegar à vitória, alguns são maiores que os outros, alguns são mais complicados que outros, alguns chegam mais rápido aos seus objetivos: o importante é ter suas ideias bem claras e ser coerente a elas.

Sobre o futebol português, não tenho muita propriedade, só conheço aquilo que leio e assisto na televisão, e isso é pouco para emitir opinião.
 

“Preparação Física” vs “Periodização Tática”: os erros de um combate!
 

 

Universidade do Futebol – O filósofo Manuel Sérgio diz que Mourinho tem como diferencial o apoio de seu trabalho nas ciências humanas. Mesmo com o sucesso dele, porém, ainda são poucos os treinadores que usam esse modelo de trabalho como referência. O que falta para esse modelo ser mais aceito e o pensamento acadêmico ganhar mais espaço no meio esportivo?

Rafael Vieira – O que se é como pessoa reflete no que a pessoa é no trabalho. Então, valores humanos vêm junto com o comando e o trabalho do técnico. Depende do seu modelo e da sua formação.

Acredito que já temos muitos técnicos com bons valores pessoais. Dos técnicos com quem trabalhei, todos utilizavam bases humanas nas suas intervenções (Mano Menezes, Vagner Mancini, Celso Roth, Marcelo Rospide, Paulo Autuori).

Existe uma grande diferença nos trabalhos da Europa para o Brasil, é preciso entender e respeitar isso. Acho que a formação de novos técnicos está ligada à formação acadêmica, e digo isso porque sei que nos bancos das universidades têm pessoas que podem auxiliar e muito o técnico brasileiro.

É preciso acabar com as diferenças de ex-jogadores e profissionais de Educação Física, tem espaço para todos. É preciso, sim, que todos se preparem melhor, é preciso criar cursos específicos de formação de técnicos nas universidades. Vejo que assim vamos aproveitar muito melhor o que temos de especial: o talento do jogador de futebol brasileiro. Isso não tem em nenhum outro lugar do mundo.


Os dois “Rafas”: Vieira se encontra com Benítez, à época em que o treinador espanhol, adepto da tecnologia esportiva, comandava os Reds  

 

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Estádios em São Paulo

Caros amigos da Universidade do Futebol,

aproveitando a onda que começa a se formar de verdade em torno da Copa do Mundo Fifa de 2014, é hora de colocar ordem na casa. Temos que, definitivamente, utilizar esse momento para modernizar a organização do nosso futebol doméstico, de modo a torná-lo um produto internacional de alta qualidade.

No Estado de São Paulo, modernização já está ocorrendo há algum tempo.
No início do ano passado, a Federação Paulista de Futebol (FPF) publicou um esboço de manual de licenciamento de clubes, inspirado nas normas genéricas editadas pela Fifa. Evidentemente, esse manual não pôde ser implementado na prática, uma vez que essa é uma competência regulatória da Conmebol e da CBF. Mas foi uma iniciativa que merece o comentário.

Tenho certeza de que o Estado de São Paulo já reúne um grande número de estádios e centros de treinamento de primeira qualidade. Diversos projetos também já foram desenhados para modernizar essas estruturas esportivas (o que já é fruto do momento da Copa; esses projetos visam, em última análise, receber seleções internacionais durante o evento).

Nesta linha, a FPF procura, com profissionalismo, autorizar que jogos do Campeonato Paulista sejam realizados em estádios que, além de modernos, contem com todas as licenças exigidas pelo poder público e pela legislação em vigor. Não é um trabalho fácil, mas tem surtido efeito.

O Ministério Público também observa esse movimento e, em colaboração com a FPF, atua na fiscalização do cumprimento da Lei.

Acho que o Estado de São Paulo está no caminho certo. Clubes, unidos pela Federação, modernizando suas gestões e infraestrutura. A esperança é que essa modernização reflita no torcedor, que também tem que fazer sua parte e respeitar normas de organização e higiene. Isso sem mencionar na violência entre torcidas, que não pode mais ter espaço na nossa sociedade.


Estádios interditados

Nessa linha, interessante notar o empenho da FPF, que, tendo o Ministério Público em sua sombra, foi obrigada a interditar uma série de estádios que provavelmente não reuniram as licenças necessárias nos prazos correspondentes.

Acho perfeitamente correto que estádios não sejam liberados sem as licenças exigidas. Só gostaria de ver o MP tão rigoroso com relação a outros eventos. Será que do show do Paul McCartney para cá o Morumbi deixou de ter condições de uso? Ou realmente as licenças que eram válidas durante o show perderam ou estão prestes a perder sua validade?

Fica a questão.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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História em jogo – Liga dos Campeões – Final 1963 – Milan 2 x 1 Benfica

Você já viu na série “História em jogo” as cinco conquistas do Real Madrid, de 1956 a 1960.

Você já viu o Benfica ganhar do Barcelona na decisão das traves quadradas.

A sensacional vitória de um ainda melhor Benfica, agora com Eusébio e Simões, contra o Real Madrid, em 1962.

Seria a hora do tri português. Na primeira decisão de Liga sem um clube espanhol.

Cesare Maldini e Coluna antes do clássico em Wembley
 

Mas havia pela frente, em Londres, o primeiro italiano campeão da Liga dos Campeões. Não por acaso, ainda o maior vencedor entre os italianos na Europa.

Um time de ótima qualidade técnica. Recheado de estrangeiros como os brasileiros Altafini e Dino Sani. Mas com um espírito italianíssimo. Competitivo. Por vezes viril. Até violento. Mas merecidamente vencedor.

Ficou, porém, uma marca profunda e doída na alma encarnada. Aos 14 do segundo tempo, empate por um gol, o médio-esquerdo rossonero Trapattoni atingiu maldosamente e por trás Coluna. O craque português ficou três minutos fora. Voltou, mas se retirou depois de sete minutos com dores no tornozelo. Recebeu tratamento no vestiário e retornou em oito minutos. Mal andou. Mal jogou. E assistiu à justa vitória que independia daquela absurda pancada.

“Sem o nosso grande capitão, não tivemos como conseguir a vitória”, ainda se lamenta Eusébio.

As dores ficaram por muito tempo. Não apenas no tornozelo ferido de Coluna. Fala o Monstro de Inhaca, cidade em Moçambique onde nasceu o grande condutor do Benfica, em trecho do blog “Planeta Benfica”:

– O treinador italiano Nereo Rocco considerava-me um dos jogadores mais temidos. Quando o Trapattoni me lesionou, estive 15 minutos a receber assistência junto à linha mas não dava para continuar a jogar. Apenas estive a fazer figura de corpo presente.

Coluna diz que a consciência de Trapattoni deve ter pesado por muito tempo. Num programa da RAI, muitos anos depois, Coluna esteve presente. Trap, não. “Ele não teve coragem de me encarar”, afirma o meio-campista português.

A mágoa é tamanha que Coluna afirmou que um dos dias mais tristes da vida dele foi quando Giovanni Trapattoni assumiu a direção do Benfica. Nem mesmo o título português de 2005, depois de 11 anos sem conquistas, serviu para amenizar a dor que já tem quase 50 anos. E não há o que cure Coluna.

LOCAL – Estádio de Wembley, Londres, Inglaterra. 22 de maio de 1963. 45.700 presentes.

LEIA COMO FOI A LIGA DOS CAMPEÕES 1962-1963 aqui.
 

Milan no WM clássico, com três na zaga, dois medianos defensivos, dois meias de imensa qualidade, dois pontas que se mexiam muito, e um senhor centroavante; Benfica foi o primeira finalista de Liga a atuar com uma linha de quatro na zaga, dois no meio, e quatro mais à frente. O típico 4-2-4. Mas não foi ele o determinante do sucesso italiano
 

AUSÊNCIAS – Por lesão, Barison (ponta-esquerda do Milan e da Squadra Azzurra na Copa-66) e Germano (zagueiro-central do Benfica). Entratam Pivatelli e Raul.

PRIMEIRO TEMPO

COMEÇOU – Milan, de branco, ataca à esquerda; Benfica, com o uniforme encarnado, à direita. Milan no WM básico (3-2-2-3), Benfica como primeiro finalista de Liga num 4-2-4. Os bandeirinhas estavam invertidos ao que se vê hoje no futebol. Corriam pelas pontas esquerdas.

1min – Marcação bem alta do Milan, pressionando o excelente ataque português. Time italiano mais ofensivo e, de cara, partida mais intensa, veloz e marcada que as decisões anteriores. Mas, para Cesare Maldini, pai de Paolo, zagueiro-central do Milan, a equipe entrou com muito respeito em campo. Para não dizer temor. “Porém, nós tínhamos grandes craques. Mais que todos, Rivera”. E o meia-esquerda tinha apenas 19 anos.

9min – Numa dividida com o centroavante brasileiro Altafini (o Mazola campeão do mundo em 1958), Costa Pereira sai da área e faz a falta na entrada da área. Goleiro português, ingenuamente, entrega a bola na mão de Altafini, que a coloca rapidamente no chão e bate em gol. Árbitro formava a barreira e não valida a cobrança. Meia-direita brasileiro Dino Sani (também campeão mundial em 1958) cobra à direita da meta portuguesa.

11min – Costa Pereira se atrapalhou sozinho com a bola e a perdeu pela linha de fundo. Foi o melhor goleiro português. Mas era atrapalhado e jeitoso.

12min – O excelente meia-esquerda Rivera chuta para boa defesa de Costa. Time italiano espeta bastante bolas longas. Benfica marca mal e não arma bem.

Gianni Rivera, o Golden Boy do Milan, o maior craque italiano do clube
 

15min – Parece nervoso o bicampeão europeu. Erra muitos passes e lançamentos. Eusébio, desequilibrante, mais à esquerda, é bem marcado (individualmente) pelo médio-direito peruano Benítez.

18min – Enfim o Benfica que se conhece. Grande lance do colossal Coluna para o centroavante Torres tocar de canhota para Eusébio desperdiçar a chance de abrir o placar. Time português equilibra em Wembley.

18min – GOL. 1 X 0 BENFICA. EUSÉBIO. PÉ DIREITO. DENTRO DA ÁREA. Espetacular arrancada da Pantera Negra Eusébio, que recebeu no meio-campo, em posição legal (dada pelo lateral-direito David), entre o zagueiro-central Cesare Maldini e o lateral-esquerdo Trebbi, e às costas do médio-esquerdo Trapattoni. Jogada de categoria de Coluna, e arrancada irresistível de Eusébio, que partiu e bateu cruzado, na rede lateral direita do goleiro Ghezzi. Para Rivera, ali parecia que não teria mais jogo, que os portugueses iriam vencer mais uma vez. “Mas, aos poucos, fomos retomando o controle do jogo, e eles não tiveram tantas chances”.

21min – Eusébio arrisca de longe, bem Ghezzi.

23min – O volante pela direita Santana (meia direita na decisão de 1961) se joga mais à frente, por vezes largando Rivera, encostando em Eusébio, que se atira mais ao ataque, e cai pelos dois lados. Milan, mesmo agora dominado e perdendo por um gol, só explora o contragolpe, o “contropiede” característico italiano. Facilitado pela marcação milanista. Forte, claro, mas um tanto distante do excelente meio e ataque português.

26min – Eusébio sente lesão na perna e é atendido pelos médicos.

27m
in – Costa dá um bico para o galalau do Torres fazer a perede e o telhado de cabeça, tocando para Simões bater de canhota para fora. Eusébio segue ao lado do gramado sendo atendido pelo médido benfiquista

28min – Eusébio enfim retorna. Mancando.

O ponta-de-lança Eusébio x o médio-esquerdo Trapattoni. Um dos grandes duelos do clássico
 

29min – Joga demais Bambino Rivera. Apenas 19 anos de idade, parece ter 29 anos de futebol em Wembley. Já deu dois rolinhos nos rivais. Saindo da esquerda para a direita. O ponta-esquerda Pivatelli (substituto do lesionado Barison) faz o mesmo corte em diagonal.

29min – Altafini cabeceou sozinho na pequena área, na rede lateral direita de Costa Pereira, depois de cruzamento da direita de Rivera. com a parte de fora do pé direito, com efeito absurdo. Como, anos depois, com ainda mais categoria, amava fazer Johan Cruyff. Rivera também batia escanteios assim. Um monstro.

30min – Entre Humberto e Raul, Rivera faz lançamento espetacular para Altafini matar mal no peito e perder a quarta chance de gol rossonera.

30min – Altafini cabeceou depois de cruzamento da direita de Dino Sani para boa defesa de Costa Pereira.

31min – Eusébio dribla dois e Ghezzi faz bela defesa. Virou jogaço em Londres.

31min – Altafini passa por 4 e manda bomba no ângulo de Costa Pereira, que faz grande defesa para escanteio.

32min – Melê na área portuguesa, David quase empata. Pressão rossonera.

33min – Altafini estica a perna e não empata, chegando um pouco tarde. Melhora demais o Milan nos últimos 10 minutos, também porque o Benfica ficou travado demais no 4-2-4, com Coluna muito preso no meio-campo, deixando os pontas e Eusébio e Torres muito isolados. Todo o Benfica mexe e se joga bem menos.

40min – Empate seria mais justo, agora. Benfica recuou demais e não consegue acerta um contra-ataque. Bem aberto pela direita, Rivera organiza todo o jogo milanista.

41min – Coluna enfia a bomba para boa defesa de Ghezzi.

45min – Altafini cabeceou no canto para grande defesa de Costa Pereira.

INTERVALO – Milan começou melhor, Benfica dominou depois do gol, mas, nos 20 finais, não fosse Costa Pereira, time italiano, mais dinâmico, teria virado contra um bicampeão europeu engessado e com os compartimentos estanques.

Humberto, Raul, Cruz, Cavém, Coluna e Costa Pereira; José Augusto, Santana, Torres, Eusébio e Simões. O time que levou a virada em Wembley
 

PLACAR VIRTUAL 1O. TEMPO – MILAN 8 X 5 BENFICA

SEGUNDO TEMPO

1min – Dino Sani pega torto de canhota, à esquerda. Primeira chance rossonera.

Dino Sani, o armador pela direita do campeão europeu de 1963
 

3min – Altafini impedido. Milan recomeça bem melhor que um recuado e acuado Benfica.

4min – Costa Pereira, mais ou menos como o grande argentino Carrizo (muito melhor que o português), atuava bastante adiantado para a época. Mas não adiantava muita coisa. Ele era mais atrapalhado que qualquer outra coisa. Em vez de pegar uma bola que sobrou com as mãos dentro da área, deu um bico de graça para Pivatelli pegar sem-pulo de prima, da meia esquerda, mas à direita da meta encarnada. Segunda chance italiana, depois de bela troca de bola. Milan já merecia melhor sorte.

5min – Torres escapa pela esquerda e chuta (mais uma vez) mal de canhota, depois de bobagem de Maldini, o lento central italiano.

11min – Grande arrancada de Eusébio, mas Simões foi ser solidário, de cabeça, quando deveria finalizar direto. Desatenção milanista no contragolpe português.

12min – GOL. 1 X 1 MILAN. ALTAFINI. PÉ DIREITO. Da entrada da área, depois de belo lance de Rivera, o centroavante ítalo-brasileiro fez na raça o merecido gol de empate, aproveitando um rebote da zaga. Mal celebrou e caiu no gramado: cãimbras. O médico do Milan correu para atendê-lo. Foi o 13o. gol na competição, superando a marca anterior que era de 12, do genial Puskás, do Real Madrid.

14min – Seria cartão vermelho para Trapattoni. Perdeu um passe e mandou um pontapé por trás em Coluna, que partia para o ataque. Uma lástima. Coluna sai de campo para tratar o tornozelo direito. Altafini aproveita e também sai do gramado para ser atendido na lateral.

16min – Primeira real chance portuguesa no segundo tempo. Uma bomba de José Augusto para baita defesa de Ghezzi, para escanteio, depois de grande lance de Simões, pela esquerda.

17min – Resposta milanista com Rivera, da meia esquerda, mas ele bate à direita de Costa. Bela trama com Altafini e Mora, começando por Rivera, que chegou driblando meio Benfica.

17min – Coluna retorna mancando. Sempre lembrando que as alterações não eram ainda permitidas.

Eusébio, Costa Pereira e Coluna. O trio moçambicano do Benfica
 

17min – Altafini recebe por dentro e bate para grande defesa de Costa Pereira. Bonita jogada de Mora cortando em diagonal, a partir da direita. Ótima movimentação dos pontas do Milan.

19min – Simões passa pelo lateral-direito David como quer, cruza e Ghezzi soca a bola; no rebote, Santana enche o pé e Ghezzi faz das mais impressionantes defesas que já vi, mandando a escanteio. Todo o Milan aplaude o goleiro, juntamente com Wembley.

20min – GOL. 2 X 1 MILAN. ALTAFINI. PÉ DIREITO. DENTRO DA ÁREA. Bobagem total no meio-campo, Raul toca na fogueira para Humberto se atrapalhar com a bola. Pivatelli toma da atrapalhada zaga benfiquista (saudosa do grande Germano), lança Altafini em posição legal, partindo do próprio campo. Ele avança e toca para Costa espalmar. Mas, no rebote, o atacante vira o placar, mesmo ainda arrastando a perna direita. Tanto que passa a atuar mais à direita, quase fazendo número. Como Coluna, maldosamente atingido por Trap.

Eusébio e Trapattoni, o zilionésimo encontro de gigantes, em Wembley

21min – Um membro da comissão técnica italiana desmaia de emoção.

25min – Praticamente sem mais tocar na bola, enfim Coluna vai para o vestiário. Benfica fica com um a menos. Jogador que deu a pancada segue em campo. Impressionante como ainda iria demorar o International Board para mudar essa excrescência da regra do jogo.

28min – Rivera da meia esquerda chuta para boa defesa de Costa Pereira. Mas o Milan, ainda que com a vantagem no placar e numérica em campo, recua e apenas especula no contragolpe, o tradicional “contropiede” italiano.

32min – Wembley aplaude o retorno do guerreiro Coluna a campo. Sem poder mexer nas equipes, não era inusitado um atleta lesionado dar um tempo e depois voltar a campo, depois de ter passado pelo vestiário.

35min – Ghezzi era um grande goleiro. Mas não batia os tiros de meta do clube rossonero.

38min – O Benfica não reage. Mesmo com 11 x 11, o Milan era melhor. Mas, para Rivera, eram “11 x 10 e meio. Porque Coluna jogava demais, mesmo assim”.

43min – Altafini desperdiça para fora a sétima chance milanista na segunda etapa.

FIM DE JOGO – Ganhou o melhor time, o que mais buscou o jo
go, o que teve maios chances e, também, o que mais bateu.

FALA, RIVERA: “Foi uma grande partida de duas grandes equipes. Mas acredito que tenhamos criados mais chances de gols. Apenas por isso vencemos um jogo que poderíamos perfeitamente ter perdido”.

PLACAR VIRTUAL 2o. TEMPO – MILAN 7 X 2 BENFICA

PLACAR VIRTUAL – MILAN 15 X 7 BENFICA

Maldini, Benítez, Rivera, Altafini, Mora e Pivatelli (os atacantes em pé); Ghezzi, Trebbi, David, Trapattoni e Dino Sani (agachados), em Wembley
 

ATUAÇÕES

MILAN – Escalado num WM (3-2-2-3) clássico, o time rossonero criou mais chances nas duas etapas, e, com a lesão de Coluna, com 60 minutos de jogo, teve meia hora para virar a partida. Forte na defesa (nem tanto nas laterais), criativo no meio-campo, dinâmico à frente, e com um centroavante inspirado (14 gols em todo o campeonato). NOTA 8

GHEZZI – 32 anos à época, 7 de seleção, foi Inter de 1951 a 1958, Milan de 1959 até se aposentar, em 1965. Um ano ele passou (1958) no Genoa até ser trocado por Buffon, tio-avô do grande goleiro italiano deste século, campeão mundial em 2006. A rivalidade entre os dois grandes goleiros passava até pela mulher de Buffon, que havia sido namorada de Ghezzi. Também conhecido como Kamikaze pelo arrojo na meta, tinha reflexos impressionantes e saltos espetaculares – quando não dispensáveis. Ao menos uma defesa de cinema, das mais impressionantes da história. NOTA 8

DAVID – O lateral-direito era muito forte fisicamente. Mas teve a inglória tarefa de marcar o excelente Simões. Mais perdeu que venceu o duelo. Jogou cinco anos pelo Milan, e 4 pela Squadra Azzurra (mas disputou apenas 3 jogos). Inclusive na célebre Batalha de Santiago, derrota da Itália para o Chile, na Copa-62, quando acertou feio o chileno Sánchez e foi expulso. NOTA 5.

MALDINI – O capitão Cesare era o zagueiro-central rossonero. O stopper. Alto para a época (1m82), um tanto lento, mas de espírito rochoso e capacidade de antecipação exemplar. Jogou de 1954 a 1966 no Milan, depois de começar a carreira na Triestina, clube de sua terra natal. Cinco anos pela Seleção Italiana que iria dirigir na Copa-98. Treinou o Paraguai no Mundial de 2002. Mas foi como auxiliar-técnico de Enzo Bearzot que conquistou seu maior trunfo, ganhando aCopa-82. Pai de Paolo Maldini, milanista de 1985 a 2008. NOTA 7.

TREBBI – O lateral-esquerdo passou 8 anos no Milan. Por dois anos atuou na Itália. Como a maioria da época, era um zagueiro-lateral, preocupado apenas em marcar o ponta-direita rival. Como José Augusto saía muito para o meio, teve dificuldades para acompanhá-lo. Lento, pouco técnico, outro que também virou treinador. NOTA 5.

BENÍTEZ – “El Conejo” (coelho) era um médio-direito e zagueiro peruano. Jogou três anos no Boca Juniors até ser levado para passar mais três temporadas no Milan. Atuaria até 1970 na Itália, em mais cinco clubes, antes de encerrar a carreira no Peru. Onze partidas pela seleção nacional. Boa marcação e velocidade, gostava mesmo de atuar como cabeça de área. Teve de marcar Eusébio, quando ele caía mais à esquerda. Com a bola, também jogava. Fazia dupla pétrea com Trapattoni na contenção. Mas batia bem menos que o companheiro. NOTA 6

TRAPATTONI – O médio-esquerdo italiano foi essencial para tirar Coluna do jogo e garantir a vitória milanista. Batia demais, como, naquele mesmo ano, anulou Pelé (com dor de barriga), atuando pela Squadra Azzurra (onde só jogou 4 anos, e, na Copa-62, lesionado, só assistiu à pífia campanha italiana). Como volante e homem de marcação, como zagueiro ou até lateral, como campeoníssimo treinador, virou sinônimo de futebol objetivo e pragmático, nem sempe agradável de ver, poucas vezes um gentleman do fair-play. Atuou pelo Milan de 1957 a 1972. Como treinador, o período de glória foi pela Juventus, de 1976 a 1986. Mas foi vencedor na Internazionale, Bayern de Munique, Benfica. Para resumir, ganhou um Mundial e uma Liga dos Campeões pela Juve, em 1985; 3 Recopas da Europa; uma Copa da Uefa; uma Supercopa europeia; 10 títulos nacionais (em quatro países diferentes, um recorde mundial, ao lado do austríaco Ernst Happel); mais outras copas nacionais. Por quatro anos dirigiu a Squadra Azzurra. Na Copa-02, foi eliminado nas quartas-de-final pela Coreia do Sul, também beneficiada pela arbitragem. Não é das mais simpáticas figuras do futebol mundial. Mas merece respeito. NOTA 5


 

DINO SANI – O meia-direita brasileiro foi um senhor volante com pés de armador. Ou um meia com inteligência tática para armar. Enfim, um todocampista. E, depois, um baita treinador, que começou a montar o grande Internacional dos anos 70. Técnico que poderia ter assumido o Brasil antes de Zagallo, em março de 1970. Não quis, pela amizade com o demitido João Saldanha. Como atleta, foi revelado pelo Palmeiras, em 1950. XV de Jaú, Comercial paulitano, São Paulo (1954 a 1959), Boca Juniors (1959 a 1961), Milan (1961 a 1964) e Corinthians (1965 a 1968). Começou como titular a Copa-58, onde terminaria reserva de Zito. Em 1962, atuando na Itália, foi substituído no Brasil bicampeão por Zequinha. Em Wembley, tanto dava um pé atrás e tinha de seguir (e ser seguido) por Coluna, quanto também armava e finalizava ao lado de Rivera. NOTA 7.

RIVERA – Gianni, o “Ragazzo D’Oro”, o “Golden Boy”, o garoto de ouro do Milan, foi o craque da decisão com apenas 19 anos. Para não dizer que foi o maior jogador da rica história rossonera. Contra tantos estrangeiros de imensa qualidade, no mínimo foi o melhor italiano a atuar pelo clube – capitão por 12 anos. Foi o primeiro do país a ganhar o “Bola de Ouro” da France Football, em 1969. Está na lista de 2004 de Pelé dos 125 maiores do centenário da Fifa. Revelado pela Alessandria, em 1958, atuou pelo Milan de 1960 a 1979 (658 jogos, 164 gols). Chegou com 16 anos pelas mãos do grande meia-esquerda uruguaio do Milan – Schiaffino. Era tanto um mezzala (um meia-esquerda ou direita, quase um ponta-de-lança) quanto um regista (o organizador da equipe, um armador puro por todo o campo). Foi tudo na decisão em Wembley. Das mais notáveis partidas de um jovem jogar, pela qualidade, intensidade, técnica, tática, maturidade. Por tudo. Não era muito chegado ao gol, embora tenha sido um dos artilheiros do Italiano de 1973. Atuou em quatro Copas, de 1962 a 1974. Mas absurdamente era reserva do não menos imenso Mazzola, em 1970. Quanto o treinador Ferrucio Valcareggi inventou de só colocar (quando colocava) Rivera no segundo tempo dos jogos, sacando o meia-atacante interista. Havia como atuarem juntos. Mas o treinador criou a célebre staffetta que só prejudicou a Squadra Azzurra em 1970. NOTA 9

MORA – Seis anos de seleção, 7 de Milan, Mora jogou com a 11. Mas era 7. Ponta-direita. Só que também corria para outro lado, entrava em facão por dentro. Fazia muita coisa, como a maioria dos bons pontas italianos. Jogou a Copa-62. A de 1966, não, por conta de uma fratura exposta na tíbia e na fíbula, que acabou abreviando sua carreira. Ótima movimentação. NOTA 7

ALTAFINI – No XV de Piracicaba e no Palmeiras, no Brasil onde foi titular no início da Copa-58, José Altafini era Mazola. Como Valentino Mazzola, pai do interista Sandro, senhor craque do grande Torino dos anos 40, tragicamente morto num acidente aéreo, em 1949. Tinham certa semelhança física. Logo depois do Mundial conquistado pelo Brasil, Mazola foi vendido para o Milan, onde atuou até 1965. Napoli até 1972, Juventus até 1976, e encerrou a carreira na Suíça, em 1980. Virou um ótimo apresentador e comentarista na Itália, onde
atuou pela Squadra Azzura por dois anos. Também na Copa-62. Mais tarde, afirmou ter sido um erro ter atuado pela Itália, o que o deixou sem condição de lutar por um lugar no grupo brasileiro que seria bi mundial, no Chile. Forte, velocíssimo, raçudo, boa técnica, excelente presença de área, sabia jogar fora da área. No fim de carreira, pela Juve, atuava aberto até como ponta. Em Wembley, sentiu a perna no primeiro gol. No segundo, saiu desde o próprio campo, mesmo puxando a perna direita. Um monstro. É o quarto maior artilheiro do calcio. Desde 2009, é o comentarista em italiano do Pro Evolution Soccer. Ao menos alguma coisa em comum ele tem com este que vos tecla. NOTA 8

Altafini, o Mazola, em outra partida pelo Milan
 

PIVATELLI – Era centroavante quando começou na base da Inter. Rodou a Itália no ataque. Esteve no grupo que disputou a Copa-54. Os últimos dois anos de carreira foram no Milan, onde parou de jogar pouco depois de Wembley, com 30 anos. Com o treinador Nereo Rocco, até de zagueiro atuou. Na decisão, a partir da ponta esquerda, rodou todo o ataque, e ainda ajudou no meio. Mas sem muito brilho. Foi o substituto do lesionado Barison. NOTA 5.

NEREO ROCCO – El Parón jogou como meia a partida que classificou a Itália para ganhar a Copa-34. Mas não participou do Mundial. Como treinador foi mais feliz. Neto de austríacos, tinha rígida disciplina, e, por vezes, problemas com seus atletas. Ainda como atleta, se encantou com o ferrolho suíço e com a figura do líbero atrás dos zagueiros. Foi assim que acabou criando o catenaccio, o “cadeado” nas zaga italianas, célebre desde a Triestina por ele dirigida, em 1946. Ele colocava mais um zagueiro atrás da linha de três defensores, sacando um dos meias. A equipe atuava basicamente num 1-3-3-3. Time mais fechado e baseado no contropiede, o contragolpe italiano. Mas o Milan de Wembley era mesmo um WM clássico, um 3-2-2-3. Em Milão, nessa primeira passagem gloriosa, de 1961 a 1963, Rocco soltou mais o time bastante talentoso. Foi a melhor das tantas equipes vencedoras dele. Voltaria a ganhar o título europeu em 1969, pelo Milan.

BENFICA – Bicampeão, aproveitou um contragolpe e abriu o placar. Recuou demais, e sentiu a ausência de Germano, na zaga. Com um Coluna a menos a partir dos 14 minutos, definhou. Ninguém jogou tudo que pôde. Ainda assim, pela fibra e qualidade, se superaram. Atuou no 4-2-4. Foi o primeiro finalista de Liga a jogar dentro desse esquema. O que não pareeceu determinar a sorte do jogo. Era apenas mais um esquema para um futrebol que enfim começava a mudar taticamente. NOTA 7

COSTA PEREIRA – (Ver o perfil dele no texto da decisão de 1961 e 1962). Grandes defesas de puro reflexo e intuição com grandes falhas no posicionamento, em fundamentos básicos mal trabalhados, numa certa presunção na meta. Um goleiro muito irregular. A falha fatal na decisão de 1965, contra a Internazionale, em Milão, o levou a voltar a Portugal numa cadeira de rodas para amenizar as críticas da torcida (embora, de fato, estivesse machucado). Não por acaso o apelido que o magoava: “Costa dos Frangos”. Em Wembley, cometeu bobagens ao jogar mais adiantado que o bom senso recomendava. Mas fez grandes defesas, como no lance do gol da virada rossonera. NOTA 6

Costa Pereira, o melhor e mais controvertido goleiro português
 

CAVÉM (Ver o perfil dele no texto da decisão de 1961 e 1962). Ponta-esquerda em 1961, médio-direito em 1962, agora lateral-direito. Bom duelo com Pivatelli. NOTA 6

HUMBERTO – O zagueiro-direito foi outro que bobeou no gol fatal do Milan. Mas era zagueiro de boa técnica e presença. Toda a carreira foi encarnada. Foi titular na derrota na primeira partida da final do Mundial de 1962, vencida pelo Santos, no Maracanã, por 3 x 2. NOTA 5

RAUL – Sete anos de Benfica, 11 jogos por Portugal. Mas bobeou no gol da virada e sofreu demais com Altafini. Substituiu o excelente Germano como zagueiro-esquerdo do 4-2-4 do Benfica. NOTA 5

CRUZ – (Ver o perfil dele no texto da decisão de 1961 e 1962). De médio-esquerdo a lateral-esquerdo não mudou muito o jogador taticamente utilíssimo. Mas sofreu com as incursões em diagonal de Mora. NOTA 5

SANTANA – Ver o perfil dele no texto da decisão de 1961). Meia-direita do WM da final de Berna, ele foi o volante pela direita do 4-2-4 de Wembley. Sofreu demais com Rivera. E não armou como sabia. Ainda assim, se virou por dois com a lesão de Coluna. Pela raça, NOTA 7

COLUNA – (Ver o perfil dele no texto da decisão de 1961 e 1962). Na garra, depois da entrada brutal de Trap, aos 14 do segundo tempo, ainda se segurou. Mais recuado no 4-2-4, jogou menos com o time. Mas jogou demais para a equipe, como sempre. O Monstro de Inhaca honrou o apelido. NOTA 7

JOSÉ AUGUSTO – (Ver o perfil dele no texto da decisão de 1961 e 1962). Menos dinâmico e brilhante que em outras decisões. NOTA 7

TORRES – Dez anos de Seleção, Benfica de 1959 a 1971, o alto (1m91) e forte centroavante tinha técnica apreciável, velocidade considerável para o tamanho, e imponente presença de área, sobretudo no cabeceio. Foi o treinador que levou Portugal ao Mundial do México, em 1986. Fazia parte de um ataque poderoso. E não fez feio. NOTA 6

EUSÉBIO – (Ver o perfil dele no texto da decisão de 1962). Um golaço, belas arrancadas contra Benítez e Trapattoni. Mas ainda pareceu faltar algo para alguém tão especial e qualificado. Não era e não foi o Novo Pelé. Mas a Pantera Negra de Moçambique, certamente, foi o maior jogador nascido na África, foi quem talvez mais pareceu Pelé, no estilo, na força, na técnica, na velocidade e, por que não, no faro pelo gol. NOTA 8

SIMÕES – Ver o perfil dele no texto da decisão de 1962). Outro que jogou muito. Mas poderia dar ainda mais. Dribles, velocidade, poder de fogo. Um senhor ponta. NOTA 8

FERNANDO RIERA – Nos anos 40, como atacante, defendeu a seleção do Chile, e jogou na França. Marcou um gol pelo time chileno na Copa-50. Mas se superou como treinador. Em 1962, levou a anfitriã à terceira colocação, eliminada apenas pelo Brasil bicampeão. O sucesso o levou ao Benfica. Em 1963, dirigiu a Seleção da Fifa que disputou amistoso contra a Inglaterra na celebração dos 100 anos do futebol. Treinou o Boca, o Nacional, o La Coruña, e os principais clubes chilenos. Foi o primeiro a adotar o 4-2-4 numa decisão de Liga dos Campeões. NOTA 7.

Raul, Humberto, Cruz, Cavém, Coluna e Costa Pereira; José Augusto, Santana, Torres, Eusébio e Simões em outra partida do Benfica em 1963

ARTHUR HOLLAND (Inglaterra) – O árbitro deixou Trapattoni tirar Coluna de campo. Mas era infeliz praxe de época não coibir o jogo tão violento. NOTA 4

A PARTIDA – NOTA 7. Um jogo que vai sinalizando a entrada em campo de equipes cada vez mais pragmáticas e trancadas.

OS NÚMEROS (COMPILADOS POR GUSTAVO ROMAN)

Milan – Benfica
Faltas cometidas 9 – 14
Faltas no ataque 2 – 6
Faltas na defesa 7 – 8
Desarmes 38 – 27
Desarmes ataque 6 – 7
Passes errados 56 - 43
Finalizações 23 – 14
Linha de Fundo 2 - 5
Impedimento 3 – 1

O Milan desarmou mais e finalizou mais. Mas errou mais passes, também.

A ideia desta série é de André Rocha e de Gustavo Roman, que providenciaram análises, informações e imagens.

Quer ver o jogo na íntegra?

Procure gugaroman@hotmail.com

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

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Lição

A derrota do Internacional para o Mazembe, o todo poderoso, é a aplicação prática de tudo aquilo que vem sido discutido nessa coluna ao longo dos últimos tempos.

Não há nada de incomum na derrota, muito pelo contrário. O que existe é um desarranjo de probabilidades. Ou melhor, a aplicação perfeita da probabilidade, uma vez que quando o improvável ocorre, ele apenas comprova a existência da variação estatística.

Não é dizer que o Mazembe é fraco, muito pelo contrário. Mas é fato que é mais provável que um time sul-americano vença um time africano do que o inverso. As razões pra isso são, essencialmente, as variáveis de mercado, uma vez que o talento interno africano é menos valorizado que o brasileiro e, portanto, mais suscetível a sair do país com antecedência, e o fato do Internacional contar com uma área de oferta de talento muito mais ampla do que o Mazembe. Simplificando, basta pensar que seria possível imaginar que um atleta do Mazembe viesse a jogar no Internacional como ponte para outro mercado mais desenvolvido. O oposto, porém, seria muito complicado.

A questão aqui é o que essa derrota significa, e a resposta é simples: nada. Perder para o Mazembe, como dito acima, é uma variação de probabilidades. Se uma coisa acontece uma vez a cada milhão de vezes, ela pode acontecer, por mais difícil que isso seja. E não é porque ela aconteceu que o cenário da probabilidade deve ser alterado. Acontecer uma vez não quer dizer que vai acontecer sempre. É bem possível que nunca mais volte a acontecer. Portanto, sem razões para mudanças ou desesperos.

Logicamente, isso é bastante complicado. Ainda mais para o Internacional e seu momento de recém alteração política. Mas essa é a pura natureza do jogo. Não só do futebol, mas de todo e qualquer jogo existente. Na maioria das vezes, ganha quem tem mais chances de ganhar. Mas, em algumas vezes, os que têm menos chances conseguem ser os vitoriosos. Um cassino não é diferente.

Como bem citado no livro Moneyball (acredite: se você se preocupa em entender a natureza da indústria esportiva, a leitura desse livro é imprescindível), mudar toda a sua estrutura por causa de um resultado em uma partida eliminatória seria a mesma insensatez que um dono de cassino cometeria caso ele mudasse toda a estrutura do seu negócio a cada vez que alguém acertasse o jackpot em um caça níqueis. Afinal, é bastante improvável que alguém acertará o jackpot. Mas, eventualmente, alguém acertará. Nem por isso a banca deixará de ganhar.

Levando-se em conta o faturamento de um cassino, talvez seja uma boa lição.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Ambiente instável

Acompanhando o Mundial de Clubes e refletindo: como as entidades do futebol vivem um ambiente extremamente instável, em que algumas vezes a explicação está no inexplicável. E aí pergunto: como adotar um modelo de gestão sem que situações pontuais atrapalhem a sustentabilidade e os projetos no médio/longo prazo?

O caso em voga é o do Internacional de Porto Alegre, que foi eliminado prematuramente pelo Mazembe, do Congo, no Mundial de Clubes de 2010 realizado em Abu Dhabi, e foi do céu ao inferno em apenas 90 minutos – assim como os mais de cinco mil colorados que viajaram do Brasil para o Oriente Médio. Perder para a Inter de Milão, que seria a mais previsível final do torneio, não seria lá um grande desastre, é bom que se diga.

Falando objetivamente sobre gestão, é possível afirmar que são nesses momentos que podemos e devemos visualizar e mensurar a qualidade dos gestores à frente dos processos de trabalho. Saber filtrar aquilo que foi construído até então, sem que um fato contamine os próximos passos da organização, podem ser classificadas como as principais virtudes dentro do todo que foi construído.

O mais importante é fazer com que as pessoas que tomam decisões nas organizações de esporte passem a adotar um posicionamento mais racional e menos emocional sobre aspectos análogos. Precipitar-se, com base em um momento único, nem sempre é a melhor solução.

O Prof. Gustavo Pires (2007) nos ensina que “uma das mais significativas mudanças organizacionais da próxima década terá a ver com a atitude cultural das pessoas acerca da própria mudança. A responsabilidade, os processos de tomada de decisão, os sistemas de ligação. Nestes domínios esperam-se e desejam-se grandes mudanças no mundo das organizações desportivas que é um mundo tradicional e, muitas vezes, irresponsável”.

Assim, superar esse tipo de percalço com sabedoria, que ocorre com certa frequência em vários clubes, ano após ano, dentro de sua escala de atuação e abrangência, é o que diferencia as organizações de elevado sucesso no futebol daquelas medíocres, que respondem e reagem pelo momento e não pelo contexto. Que tentam explicar o inexplicável, olhando para trás, sem a devida reparação de seus erros e com um olhar profundo sobre o futuro.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Liverpool e gestão de conhecimento: um exemplo prático de como é simples

Neste fim de semana assistia à uma matéria na televisão com o jogador Lucas, do Liverpool. Na reportagem, o jornalista Décio Lopes acompanhou o volante até os vestiários dos atletas e demais bastidores do clube.

Muito mais do que a tecnologia propriamente dita, me chamou a atenção a relação de confiança que se estabelece com o atleta.

Num determinado momento, Lucas apresenta uma balança localizada de frente para um aparelho de TV. Lucas disse que ali os atletas se pesam e anotam na TV (touchscreen) a informação, e esta já fica registrada para todos os departamentos. Ainda nesse monitor, o atleta pode indicar se apresenta algum desconforto muscular, dor, mal estar, indicando de 0 a 10 o nível do incômodo. Esse indicativo fica, automaticamente, registrado para todos os departamentos: fisioterapia, médico, preparação física, etc.

Na conversa informal entre Lucas e Décio Lopes é possível identificarmos por trás uma rotina contada pelo atleta de forma simples, que denota aquilo que sempre discutimos sobre tecnologia não ser apenas recursos e equipamentos, mas sobretudo processos. Um pouco mais adiante na reportagem, Lucas aponta um quadro branco no qual os atletas podem declarar interesse e agendar se querem ou não receber massagens.

Qual a diferença entre a balança de frente para o monitor touchscreen e o quadro branco? Apenas os recursos tecnológicos empregados, mas o processo que rege o funcionamento de ambos é o mesmo. E é o que merece destaque. É um modelo simples e objetivo de como pode ser utilizada a gestão do conhecimento no futebol. É certo que estamos simplificando o que esse tipo de gestão pode agregar, mas já é uma mostra clara de como as coisas são muito mais simples do que muitos imaginam e acabam se tornando resistentes à adoção de novos modelos tecnológicos e gerências no futebol.


 

O primeiro aspecto desse processo que Lucas demonstrou e que deve ser destacado tem um vínculo cultural que é importante, porque não significa que o mesmo modelo daria certo no Brasil. Esse ponto é justamente a confiança que o departamento de futebol deposita no atleta, na auto-avaliação do jogador sobre suas condições físicas e do comprometimento do mesmo de seguir os procedimentos indicados. Provavelmente (e isso fica no campo da suposição, pois a entrevista não nos permitiu ter clareza do que pode ser tomada como ação) o atleta que mente ou faz o famoso “migué”, seja nas informações sobre condição física ou no cumprimento dos procedimentos, deve ser cobrado e punido por isso. Talvez esse cumprimento à regra seja uma parte que dificulte o processo no futebol nacional.

Mesmo que os valores culturais possam criar certa distância, é imprescindível que esse compartilhamento de informações, que no caso inglês começa com o atleta, seja de fato valorizado dentro do clube, que exista o diálogo entre os departamentos, e que esse diálogo não fique apenas no discurso para “inglês” ver (sem querer forçar o trocadilho).

A disponibilização das informações, o compartilhamento das mesmas, facilita o histórico e a intervenção sobre uma determinada situação. Para isso o próprio Liverpool nos dá o exemplo de que seja com o advento tecnológico ou com uma simples lousa, a gestão do conhecimento acontece por estar pautada em processo.

Nada muito complexo, mas pode ser que para o futebol brasileiro, que insiste em considerar o processo um retrocesso, isso tudo possa ser um paradoxo, e o que é pior, um paradoxo do avesso, à medida que as informações compartilhadas precisam ser assumidas como verdade, e aí…

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br