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Messi, Flow e a arte de permanecer no presente

Por: Nicolau Trevisani

Próximo dos 40 anos e vivendo os capítulos finais de uma das maiores carreiras da história do futebol, Lionel Messi abriu a Copa do Mundo de 2026 com uma atuação que chamou atenção não apenas pelo hat-trick diante da Argélia, mas principalmente pela forma como participou do jogo.

Os três gols naturalmente ocuparam as manchetes. Mas, ao observar a partida com mais atenção, talvez o aspecto mais interessante não tenha sido a quantidade de gols marcados, e sim a maneira como Messi parecia se relacionar com tudo o que acontecia ao seu redor.

Em reflexões anteriores publicadas na Universidade do Futebol, procurei discutir como a performance esportiva não pode ser compreendida apenas a partir de variáveis físicas, técnicas ou táticas. O rendimento emerge da interação constante entre percepção, tomada de decisão, emoção e comportamento dentro de um contexto específico.

Sob essa perspectiva, a atuação de Lionel Messi diante da Argélia oferece uma oportunidade interessante para refletirmos sobre um conceito amplamente estudado na psicologia da performance: o estado de Flow.

Desenvolvido por Mihaly Csikszentmihalyi, o conceito descreve um estado de profunda imersão na tarefa, no qual atenção, ação e percepção parecem funcionar de maneira altamente integrada. Nesses momentos, o atleta tende a apresentar elevada concentração, sensação de controle, clareza sobre os objetivos da tarefa e uma relação quase total com as demandas do presente.

Para o autor, o Flow tende a emergir quando existe um equilíbrio adequado entre o desafio apresentado pela atividade e a capacidade percebida pelo indivíduo para enfrentá-lo. Quando isso acontece, a atenção deixa de estar voltada para fatores externos e passa a concentrar-se integralmente na execução.

Ao observar Messi durante a partida, é difícil não enxergar diversos elementos compatíveis com esse estado.

Enquanto milhões de pessoas assistiam ao jogo pensando no peso histórico daquela Copa do Mundo, Messi parecia preocupado apenas com a próxima ação.

Enquanto torcedores e jornalistas discutiam legado, títulos e recordes, ele parecia concentrado apenas nas informações produzidas pelo próprio jogo.

Essa talvez tenha sido a principal impressão transmitida por sua atuação.

Messi parecia completamente conectado ao presente.

Seus deslocamentos surgiam no momento adequado. Suas decisões aconteciam com naturalidade. Seus movimentos pareciam econômicos, precisos e funcionais. Em diversos momentos, a sensação era de que ele antecipava situações antes mesmo que elas se tornassem evidentes para os demais jogadores em campo.

Sob a ótica da teoria do Flow, isso faz bastante sentido.

Uma das características mais marcantes desse estado é justamente a redução da interferência de estímulos externos na execução da tarefa. O atleta deixa de direcionar sua atenção para consequências futuras e passa a concentrar seus recursos atencionais naquilo que está acontecendo naquele instante.

O foco deixa de ser o resultado, a crítica, a repercussão ou a classificação. O foco passa a ser a próxima decisão, o próximo espaço e a próxima ação.

E talvez seja exatamente isso que observamos em muitos dos grandes momentos da carreira de Messi.

Ao longo da partida contra a Argélia, não parecia existir qualquer conflito entre percepção e ação. As respostas surgiam rapidamente, os comportamentos pareciam fluidos e a relação entre o jogador e o contexto do jogo acontecia de maneira quase orgânica.

É justamente essa fluidez que levou Csikszentmihalyi a utilizar a palavra “Flow”. A experiência subjetiva de estar tão conectado à tarefa que a ação parece simplesmente fluir.

Talvez o grande desafio de uma Copa do Mundo não seja apenas técnico, físico ou tático.

Talvez seja atencional.

A Copa do Mundo produz um ambiente capaz de retirar constantemente o atleta do presente. A responsabilidade de representar um país, a pressão da torcida, a cobertura da imprensa e a importância histórica de cada partida empurram o jogador para aquilo que pode acontecer.

Mas o desempenho acontece no agora.

E talvez seja justamente por isso que o conceito de Flow seja tão relevante para compreender performances excepcionais.

Os grandes jogadores não necessariamente são aqueles que ignoram a pressão.

Muitas vezes são aqueles que conseguem permanecer conectados à tarefa apesar dela.

Ao observar Messi contra a Argélia, a sensação era justamente essa.

Não parecia um jogador tentando construir um legado.

Não parecia um jogador preocupado com a repercussão do jogo.

Parecia apenas um jogador completamente conectado ao futebol.

E talvez seja exatamente nesse ponto que algumas das maiores performances esportivas conseguem emergir.

Porque, no fim, o futebol continua sendo um jogo de percepção, decisão e ação. E quando essas três dimensões conseguem funcionar em perfeita sintonia, aquilo que chamamos de performance muitas vezes passa a parecer algo simples.

Mesmo quando está sendo realizado por um dos maiores jogadores da história em uma Copa do Mundo.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
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Sem pensão, sem Copa: o que a medida da Argentina ensina sobre Compliance e Responsabilidade Social

Messi entra em campo hoje. Já para milhares de argentinos devedores de pensão, a Copa termina na catraca.

Hoje à noite, enquanto a Argentina estreia contra a Argélia na Copa do Mundo de 2026, uma medida adotada pelo país vizinho está chamando atenção muito além das quatro linhas.

Isso porque o governo argentino compartilhou com as autoridades dos Estados Unidos uma base contendo aproximadamente 13 mil pessoas inscritas no registro de devedores de pensão alimentícia.

O compartilhamento dessas informações faz parte do programa Tribuna Segura e alcança os responsáveis que tiveram o inadimplemento da obrigação alimentar formalmente reconhecido pela Justiça argentina e foram incluídos no denominado Registro de Deudores Alimentarios Morosos (RDAM).

Como consequência, os inscritos no RDAM estão impedidos de ingressar nos estádios da competição, incluindo o Arrowhead Stadium (Kansas City Stadium) e os demais palcos da Copa em solo americano.

Não é novidade que, ao longo dos anos, os estádios fecharam suas portas para torcedores violentos e pessoas consideradas ameaça à ordem pública.

Contudo, a Argentina amplia esse conceito e transfere a discussão da segurança pública para outro campo: o da responsabilidade familiar e social.

Por certo, a iniciativa procura combater uma aparente contradição, já que cidadãos alegam incapacidade financeira para cumprir suas obrigações alimentares, mas dispõem de recursos para viajar ao exterior e assistir à Copa do Mundo.

Como alguém não consegue pagar a pensão alimentícia, mas consegue viajar para acompanhar o maior evento do futebol mundial?

Sem adentrar nas potenciais discussões jurídicas quanto a esta restrição, sob a ótica de Compliance o caso é bastante interessante.

Afinal, compliance, em sua essência, está relacionado à conformidade com regras, deveres e expectativas legítimas estabelecidas por uma organização ou pela própria sociedade.

Aqui, o acesso a um dos maiores eventos esportivos do planeta foi condicionado ao cumprimento de uma obrigação legal considerada fundamental: o dever de sustento dos filhos.

Portanto, na prática, estamos diante da utilização de mecanismos de controle de acesso para fins de indução de comportamento, aproximando conceitos de integridade, responsabilidade social e accountability.

Nesse contexto, estar em compliance não se resume a controles, regras ou sanções.

Trata-se de alinhar comportamentos individuais às expectativas legítimas de uma coletividade.

A discussão deixa de ser apenas sobre quem pode entrar em um estádio e passa a refletir sobre quais deveres uma sociedade considera suficientemente relevantes para condicionar o exercício de determinados privilégios.

Até que ponto o acesso a experiências, benefícios e oportunidades pode ser utilizado como instrumento para incentivar comportamentos socialmente responsáveis?

Essa talvez seja a principal reflexão trazida pelo caso argentino.

E você, concorda com a medida?

O Brasil deveria adotar algo semelhante em futuras Copas do Mundo ou em outras competições internacionais?

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional..
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Fair Play Financeiro: Transparência, Confidencialidade e o Papel do Compliance Officer

Uma das funções mais estratégicas do Compliance Officer no ambiente do Fair Play Financeiro da CBF é apoiar a Alta Direção do Clube no cumprimento de suas obrigações regulatórias, atribuição expressamente reconhecida pelo próprio Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (RSSF), que recomenda a designação formal desse profissional para tal fim (art. D.1.3, II).

Nesse contexto, o Compliance Officer atua como uma ponte entre o Clube e a ANRESF, conscientizando gestores e departamentos internos que determinadas informações não apenas podem ser compartilhadas, mas devem ser disponibilizadas ao regulador.

Afinal, o sistema foi concebido sobre os pilares de boa-fé, cooperação, transparência e responsabilidade regulatória.

Em que pese este racional, não é raro surgirem preocupações legítimas dentro dos Clubes: “esse documento é classificado como confidencial“, “esse contrato contém informações sensíveis“, “esse tema está sendo discutido judicialmente” ou “esse processo tramita sob sigilo“.

Muitas vezes surge a preocupação de que a entrega dessas informações possa representar exposição excessiva ou risco institucional para o Clube.

Entretanto, essa percepção desconsidera um aspecto fundamental do próprio modelo regulatório criado pelo SSF.

Com efeito, a pergunta que deve orientar a análise é outra: como o regulador poderá exercer adequadamente sua função fiscalizatória sem acesso aos elementos necessários para formar sua convicção?

Ora, a relevância dessa cooperação decorre diretamente da posição institucional da ANRESF dentro do sistema.

Vale lembrar que a Agência não é mera destinatária de documentos ou informações.

Dentro de seu papel como regulador, é a autoridade responsável por monitorar o cumprimento dos requisitos do Fair Play Financeiro e verificar se os Clubes permanecem aptos a manter a licença necessária para disputar as competições da CBF (arts. 7º, 8º e parágrafo único, RSSF).

Não por outro motivo, para participarem dos campeonatos, os Clubes assumem o dever de apresentar os documentos previstos no RSSF, com informações corretas, completas e tempestivas, bem como esclarecimentos adicionais sempre que solicitados (art. 5º).

Nesta mesma linha, o Regimento Interno da ANRESF (RI) reforça que as partes devem agir de boa-fé, expor a verdade dos fatos e cooperar prontamente com qualquer solicitação de informação, documento ou auditoria realizada pela Agência (art. 33, RI). Mais do que uma diretriz de conduta, trata-se de um dever regulatório, cuja violação pode caracterizar infração autônoma grave (art. 33, parágrafo único).

E isso inclui situações envolvendo passivos, contingências, acordos, arbitragens, processos judiciais e demais elementos que possam impactar a análise regulatória.

Esse ponto torna-se ainda mais evidente quando observamos o tratamento conferido às obrigações sob litígio formal.

Isto porque o RSSF prevê situações em que determinadas obrigações podem não ser consideradas vencidas em razão da existência de litígios formais perante o Poder Judiciário, centro arbitral ou órgão jurisdicional do futebol, ou ainda decisões que suspendam sua exigibilidade (art. 48, incisos e §1º).

Entretanto, para que a ANRESF possa avaliar se estão presentes os requisitos previstos na norma, como a existência de litígio formal, se a defesa do Clube não é meramente protelatória e a inexistência de decisão determinando o pagamento imediato, é indispensável que tenha acesso aos documentos processuais pertinentes (pex. petições, sentenças, acórdãos etc.).

Em outras palavras, não há como fiscalizar aquilo que não pode ser examinado.

Sob essa perspectiva, compartilhar informações, inclusive relacionadas a processos judiciais, arbitrais ou desportivos, não representa uma liberalidade do Clube e sim uma consequência natural do modelo regulatório adotado pelo SSF.

Até porque o órgão que possui a responsabilidade de avaliar a conformidade dos requisitos que sustentam a licença desportiva precisa necessariamente ter acesso aos fatos que fundamentam essa avaliação.

E aqui existe ainda outro aspecto que não pode ser negligenciado. A cooperação plena não é apenas uma obrigação regulatória, mas também produz efeitos concretos em favor do próprio Clube.

Sim, o RSSF estabelece que a cooperação plena, caracterizada pela colaboração proativa e integral com a Agência, inclusive mediante entrega voluntária de informações, constitui circunstância atenuante na eventual aplicação de sanções (art. 105, II).

Por outro lado, a ocultação de documentos, a prestação de informações falsas ou qualquer conduta destinada a dificultar ou obstruir a atuação fiscalizatória da ANRESF podem ser consideradas circunstâncias agravantes (art. 104, III), além de poderem configurar infrações autônomas graves (art. 33, parágrafo único, RI).

E toda essa transparência possui uma contrapartida igualmente importante: a confidencialidade.

O mesmo sistema que exige transparência dos Clubes também impõe rigorosos deveres de confidencialidade ao regulador. O sistema foi cuidadosamente estruturado para assegurar que as informações compartilhadas pelos clubes sejam protegidas.

Nos termos do RSSF, a própria CBF possui o dever de zelar pelo sigilo das informações não públicas prestadas pelos Clubes (art. 4º, VI), sendo também objeto de proteção as informações comerciais sensíveis (art. 6º).

É imposto ainda o dever de sigilo absoluto aos membros da ANRESF mesmo após o fim do mandato ou desligamento (art. 27, RSSF e art. 13, parágrafo único, RI).

Outrossim, as reuniões da ANRESF são privadas e seus procedimentos e audiências confidenciais (art. 30, RSSF e art. 21, §4º, RI), bem como são assegurados o tratamento confidencial aos documentos orçamentários (art. 78, RSSF) e a observância integral da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) no tratamento dos dados pessoais submetidos pelos Clubes (art. 122, RSSF).

Logo, no Fair Play Financeiro, o desafio não é escolher entre transparência e confidencialidade.

O desafio é compreender que ambas caminham juntas.

Cooperar com o acesso da ANRESF às informações necessárias para o exercício de suas competências não representa uma renúncia à confidencialidade.

O compartilhamento de informações ou documentos com o regulador não significa exposição pública.

Ao contrário, significa cumprir um dever regulatório dentro de um ambiente institucional cercado por garantias de sigilo, proteção de dados, independência técnica e devido processo legal.

No SSF, a transparência perante o regulador fortalece a credibilidade do sistema, enquanto a confidencialidade protege os interesses legítimos dos clubes, retroalimentando um círculo virtuoso.

Nesse contexto, o Compliance Officer deve auxiliar na construção da confiança institucional, orientar os departamentos internos, esclarecer os limites e deveres regulatórios e assegurar que o Clube exerça seus direitos sem descuidar de suas obrigações regulatórias.

No fim das contas, a sustentabilidade financeira do futebol depende não apenas de números, indicadores e demonstrações financeiras, mas também da existência de uma cultura de transparência responsável, cooperação regulatória e confiança institucional.

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional..
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O menino Jesus do futebol

Por: João Batista Freire

Ninguém joga futebol só pelo salário. E se alguém o faz, já não é um jogador, é um tarefeiro, nada lhes resta a fazer em campo a não ser aguardar melancolicamente o final de carreira. Não é pelo salário que, após os gols, os jogadores se abraçam, beijam-se, rolam pelo gramado, choram, dão cambalhotas, numa explosão louca de alegria. Nenhum trabalho obrigatório provoca tanta alegria. Não se vê funcionários de empresas chorando, rolando pelo chão da sala, se abraçando ou se beijando ao final de uma tarefa, embora até possam comemorar suas boas realizações; só nos gramados e nas quadras, só no universo encantado do esporte isso acontece. Jogar futebol – eu poderia falar também de outros esportes – é um privilégio, uma maneira de viver intensamente a vida, um jeito de viver em estado de graça, de ser como o menino Jesus que Fernando Pessoa, o grande poeta português, descreveu no poema O Guardador de Rebanhos:

 “Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.”

            Dentro de cada jogador ainda vive esse menino Jesus, como vive em todos nós. Muitos de nós tivemos a graça de ser esse Jesus que roubava a fruta dos pomares, que se divertia jogando bola nas ruas, nos campinhos de terra, ralando os joelhos, rindo ao conduzir a bola e chorando quando os pés sangravam. E se ele vive, pode reviver. Talvez isso exija mais coragem que a habitual, mas é possível. Lembram como era divertido dar chapéus, meter a bola no meio das pernas do adversário, fazer gols de letra? Lembram como era gostoso inventar jogadas diferentes, realizar um passe perfeito, o gol da vitória? Era só uma brincadeira, um lindo sonho acordado, do qual não se acorda nunca quando a coragem não termina. Tudo isso não morreu, continua vivo dentro de cada jogador, talvez um pouco adormecido pelas regras, pelas proibições, pelos esquemas, pelo medo de errar. Mas esse menino Jesus dentro de cada jogador sempre pode acordar, a depender do que gritem os torcedores nas arquibancadas, a depender do que diz o professor durante os treinamentos e nos vestiários, a depender da conversa do jogador consigo mesmo. O jogo chama para brincar; não deveríamos resistir ao seu chamado.

            Antes de contar as histórias dos homens ao seu menino Jesus, o poeta brincava com ele, e o menino fazia da brincadeira a coisa mais importante do mundo. Era assim:

“Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.”

            E é assim que deve ser cada vez que o jogador entra em campo para jogar seu jogo de bola. Que ele jogue bola como o Jesus de Fernando Pessoa jogava as cinco pedrinhas. Porque esse Jesus não é aquele pregado na cruz, triste, cheio de sangue. É o jogador menino do poeta Fernando Pessoa, alegre e brincalhão, que se diverte enganando o adversário, nos campinhos de terra e nos mais importantes estádios.

            Quando entrarem em campo, que os jogadores sejam as crianças que tanto souberam se divertir com uma bola entre seus pés descalços. Que tanto surpreenderam o adversário, deixando-os de olhos arregalados de susto. Quem se diverte jogando não tem medo de errar, não tem medo de fazer coisas diferentes. Não tem medo de ser feliz. E, se porventura, errar, terá valido a pena tentar!

*João Batista Freire é educador, pesquisador e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), livre-docente em Pedagogia do Movimento e atua como consultor do Instituto Esporte Educação (IEE), além de ser consultor educacional da Universidade do Futebol. É referência na área de Educação Física escolar, jogo e pedagogia do esporte, com diversas e renomadas publicações sobre ludicidade, prática corporal e pedagogia do futebol.
Mais informações: https://cev.org.br/qq/joao-freire/

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A Bola que Decide: por que a segunda bola é o grande diferencial do futebol moderno

Por: Douglas Bazolli

Há um consenso tático no futebol contemporâneo: vencer duelos é condição essencial para controlar  o jogo. Fala-se muito da primeira bola, o cabeceio do zagueiro, o desarme do volante, o rebote do  goleiro. Mas é no instante seguinte que o jogo, de fato, se define. A segunda bola é, na nossa  realidade competitiva, a bola que decide. 

Ela emerge em contextos distintos, um tiro de meta longo, um lançamento dos zagueiros, um  escanteio ou qualquer bola parada e carrega consigo um princípio tático que muitos negligenciam: a desorganização momentânea do adversário. 

A Complexidade do Caos e a Desorganização Momentânea 

Quando duas equipes disputam a primeira bola, há um deslocamento natural de estruturas. Jogadores saltam, avançam, recuam e, por uma fração de segundo, perdem a referência espacial e a compactação. É nesse milésimo de segundo que a segunda bola aparece. E quem a conquista, ganha o direito de acelerar o jogo contra um adversário que ainda busca se reorganizar. 

Na literatura científica, o futebol é amplamente definido como um sistema complexo. Júlio  Garganta (1997), uma das maiores referências em modelação tática, aponta que o jogo é gerido por  fluxos de comportamentos de contornos variáveis. A segunda bola representa exatamente o ápice  dessa imprevisibilidade: o momento em que a estrutura tática pré-definida colapsa e a capacidade de auto-organização imediata da equipe é testada. 

O técnico Dorival Júnior, conhecido por estruturar equipes equilibradas e de rápida transição, sintetiza a importância de reagir a esses momentos de indefinição: 

O futebol hoje não te dá tempo para pensar depois que a bola viaja. Ou você se  posiciona para o rebote e para a segunda bola antes do duelo acontecer, ou você estará  sempre atrasado para defender e sem ângulo para atacar.” (Dorival Júnior) 

A Segunda Bola como Ferramenta de Ataque ao Espaço 

A equipe que treina a leitura, o posicionamento e a agressividade sobre a segunda bola compreende  um princípio fundamental: ganhar a segunda bola não é apenas recuperar a posse é atacar o espaço deixado pelo adversário que disputou a primeira bola. 

Dentro dessa “desorganização”, a opção mais inteligente quase sempre será colocar a bola no espaço vazio. Forçar o adversário a correr para trás enquanto seu time ataca a profundidade. O  duelista da primeira bola está fora de posição; o setor que ele deveria proteger está exposto. O  espaço que ele deixou é o seu atalho para o gol. 

Jorge Castelo (2003), ao estudar as transições defesa-ataque, corrobora essa visão ao afirmar que a velocidade e a eficácia na transição dependem diretamente da exploração do desequilíbrio espacial do oponente nos primeiros segundos após a recuperação da posse. É o que Jürgen Klopp  transformou em identidade global com o seu Gegenpressing:

“O melhor criador de jogadas do mundo é a pressão pós-perda (Gegenpressing).  Quando você ganha a segunda bola no alto do campo, o adversário está aberto,  procurando o passe. É o momento em que eles estão mais vulneráveis.” (Jürgen Klopp) 

O Fator Mental e a Compactação em Bolas Paradas 

Nas bolas paradas defensivas, o fenômeno da segunda bola é ainda mais crítico. É comum ver  equipes que vencem o primeiro duelo aéreo dentro da área, mas, no momento seguinte, perdem completamente a referência de marcação. A bola continua viva em zona perigosa, e os atletas se  desprendem de seus encaixes. É o momento em que se toma o gol. 

Sobre essa desconexão mental coletiva após o primeiro duelo, Fernando Diniz traz uma perspectiva valiosa sobre a concentração e a relação dos atletas com o espaço da bola: 

“O jogo de futebol é um fluxo contínuo. O erro de muitos sistemas defensivos é achar  que o perigo acaba quando a bola é rebatida. Se a bola continua na área, o lance não  terminou. A desatenção no segundo movimento é o que separa uma defesa sólida de  uma defesa vulnerável.” (Fernando Diniz) 

Esse nível de exigência mental reflete diretamente o princípio do “Cabeça fria e coração quente” popularizado por Abel Ferreira no Brasil. A disputa da primeira bola exige o “coração quente”  (agressividade, imposição física), mas a leitura e a tomada de decisão para a segunda bola exigem a  “cabeça fria” (posicionamento, antecipação, leitura de espaço). 

A Identidade Global: Pressão e Sincronismo 

Há também o fator físico-tático da marcação pressão, hoje uma identidade global. Se o seu time é pressionado, a bola longa será inevitável. Se o seu time pressiona, forçará o oponente ao lançamento. Em ambos os cenários, o jogo será decidido por quem controlar a segunda bola após o duelo físico inicial. 

Pep Guardiola, mestre do Jogo de Posição, adapta essa necessidade à sua estrutura ofensiva: 

“Nós não jogamos com passes curtos apenas por estética. Jogamos assim para viajar  juntos. Se perdemos a bola ou se há um duelo aéreo, estamos todos próximos para  ganhar a segunda bola imediatamente.” (Pep Guardiola) 

Tite, um dos treinadores brasileiros mais detalhistas no aspecto de organização e compactação defensiva, sempre enfatizou que o equilíbrio de uma equipe passa diretamente pelo controle dessas zonas de rebote: 

“Não adianta ter uma defesa que rebate todas as bolas se o seu meio-campo não está  posicionado para ganhar a segunda bola. Vencer o primeiro duelo é duelo individual;  ganhar a segunda bola é organização coletiva e sincronismo.” (Tite) 

Conclusão: Treinando para o Jogo Real 

Treinar a segunda bola não é um detalhe acessório ou circunstancial. É uma diretriz metodológica essencial do dia a dia. É definir comportamentos claros para o momento em que o jogo se torna caótico, transformando a desorganização adversária em vantagem ofensiva imediata.

Talvez essa seja a essência da segunda bola: antecipar o caos. Saber onde o jogo estará antes de a bola sequer tocar o chão. 

A provocação para quem trabalha no dia a dia do futebol é simples: se o seu treino de transição ou organização ofensiva e defensiva termina no primeiro duelo, você está preparando a sua equipe para o cenário ideal, não para o jogo real. 

No futebol de alta exigência, o caos é a regra. Se a sua comissão técnica não estabelece diretrizes  metodológicas claras para o milésimo de segundo seguinte à primeira disputa física, você não está controlando o jogo está apenas torcendo para que o acaso decida a seu favor. 

O que você tem feito no dia a dia para que a sua equipe domine a bola que realmente decide as partidas? 

Referências Bibliográficas 

1. GARGANTA, J. (1997). Modelação táctica do jogo de futebol: estudo da organização da  fase ofensiva em equipas de alto rendimento. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências do  Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto.  

2. CASTELO, J. (2003). Futebol: Guia prático de exercícios de treino. Lisboa: Visão e  Contextos. (Obra fundamental para a compreensão da velocidade nas transições defesa ataque). 

3. AQUINO, R., et al. (2020). Influence of Situational Variables, Team Formation, and Playing  Position on Match Running Performance and Social Network Analysis in Brazilian  Professional Soccer Players. Journal of Strength and Conditioning Research, 34(3), 808- 817.  4. BARREIRA, D., et al. (2014). Padrão sequencial da transição defesa-ataque em jogos de  Futebol. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. (Estudo que mapeia a importância da  rápida reorganização ofensiva após a recuperação da posse de bola).

Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
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Identidade de jogo

Por: Marcel Capretz

A originalidade e a convicção no próprio trabalho devem ser sempre aplaudidas. O futebol brasileiro é controverso: clamamos por novidades, mas taxamos quem inova.

Tudo com base no resultado. Nunca no processo. Infelizmente. Se quem faz diferente ganha, é gênio; se perde, é ‘professor pardal’. Fernando Diniz está tendo um início arrasador no Corinthians. Todos estão encantados com o trabalho. Mas sabemos que isso é consequência das vitórias iniciais. 

É claro que Diniz está acostumado com isso. Ele foi jogador. E de alto nível. Conhece o meio há décadas. Como treinador, quando o Brasil o conheceu há dez anos, com o revolucionário Audax, a lápide já estava pré-escrita pelos críticos: jogar desse jeito (diferente) é fácil em um time como o Audax. Quero ver fazer isso em clube grande’, diziam. E Diniz está fazendo a mesma coisa, claro, se adaptando, ajustando, entendendo cada circunstância, porém sempre com a mesma ideia mestra.

Fez isso no São Paulo, Athlético-PR, Vasco, Fluminense, Santos, etc. E aqui não se trata de jogo ofensivo ou defensivo. O meu ponto é identificar o trabalho de um treinador sem precisar olhar o uniforme: apenas observando os padrões de comportamento da equipe saber que ela é treinada por determinado profissional.

Isso é identidade. Isso é convicção. Ganhando ou perdendo, não se joga tudo pro alto de acordo com a maré. Que os mesmos que aplaudem hoje Fernando Diniz no Corinthians o deem apoio quando as derrotas acontecerem – e elas acontecerão, faz parte. O foco tem que ser no processo. E não só no resultado. Para fugirmos do famigerado, ‘ganhou é bom, perdeu não serve’.