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A Contabilidade Criativa na Gestão de Clubes de Futebol Amador: Estratégias para Sustentabilidade Financeira

Resumo 

A gestão de clubes de futebol amador constitui um domínio particularmente  exigente no contexto desportivo atual e à escala global, marcado por limitações  estruturais, escassez de recursos financeiros e humanos e dependência de dinâmicas comunitárias. Neste enquadramento, o conceito de “contabilidade criativa” assume uma relevância acrescida, podendo ser reinterpretado como um  conjunto de práticas estratégicas e inovadoras orientadas para a maximização de  recursos e para a sustentabilidade organizacional, sem comprometer os princípios éticos e legais. O presente artigo propõe uma análise aprofundada deste conceito aplicado ao futebol amador, articulando uma abordagem teórica, evidenciando os seus limites e potencialidades na gestão quotidiana dos clubes. 

1. Introdução 

O futebol amador desempenha um papel central no desenvolvimento social, cultural e desportivo das comunidades locais, constituindo frequentemente o primeiro espaço de socialização desportiva de crianças e jovens, bem como um elemento identitário das regiões onde se insere. Em Portugal, esta realidade assume particular expressão, com centenas de clubes a operarem em contextos marcados pela forte proximidade comunitária e reduzida capacidade financeira, humana e estrutural. 

Apesar da sua relevância social, a gestão dos clubes amadores é  frequentemente caracterizada por uma estrutura organizacional pouco formal, dependente da “boa vontade” e do voluntariado das suas direções/staff/sócios e adeptos dos clubes de futebol, com reduzido acesso a competências técnicas  especializadas, nomeadamente nas áreas da gestão e da contabilidade. Este cenário cria um ambiente onde a sobrevivência do clube amador depende, em  grande medida, da capacidade dos seus dirigentes de encontrar soluções criativas que permitam fazer face a constrangimentos financeiros constantes ao longo das épocas desportivas. 

É neste contexto que se insere a noção de contabilidade criativa, que em  termos tradicionais, o conceito esteja associado a práticas de manipulação  contabilística, a sua reinterpretação no âmbito do futebol amador permite  enquadrá-lo como um conjunto de estratégias legítimas de gestão inovadora de recursos. Importa analisar de que forma a criatividade contabilísticas dos gestores desportivos no futebol amador pode ser mobilizada de forma ética e eficaz, contribuindo para a sustentabilidade e desenvolvimento dos clubes. 

2. Reinterpretação da contabilidade criativa no contexto amador 

A contabilidade criativa tem sido amplamente debatida, sendo frequentemente  associada a práticas que exploram lacunas normativas para apresentar uma imagem financeira mais favorável de uma organização desportiva. Contudo, esta visão negativa não esgota o potencial do conceito, especialmente quando transposto para contextos de pequena escala, como é o caso dos clubes de futebol amador à escala global. 

A contabilidade criativa pode ser entendida como a capacidade de  reorganizar, adaptar e maximizar recursos existentes, respeitando os  enquadramentos legais e fiscais. Trata-se, portanto, da necessidade da criatividade  aplicada à gestão financeira, que não visa ocultar informação, mas sim potenciar a eficiência organizacional dos clubes de futebol amador. Os acordos com empresas locais para fornecimento de serviços e equipamentos em troca de visibilidade  publicitária está, na prática, a utilizar uma forma de contabilidade criativa assente em permutas diretas. Da mesma forma, a utilização de instalações municipais mediante protocolos de cooperação permite reduzir custos operacionais, traduzindo-se numa gestão mais eficiente dos recursos disponíveis. 

Esta reinterpretação exige, contudo, uma mudança de paradigma: a  criatividade contabilística deve ser encarada como uma competência estratégica e não como um mecanismo de evasão ou manipulação. A sua aplicação deve ser  sustentada por princípios de transparência, responsabilidade e rigor.

3. Estrutura financeira dos clubes de futebol amador 

A análise da estrutura financeira dos clubes de futebol amadores revela um padrão  comum de fragilidade e dependência externa, sendo que as receitas são, em  grande medida, limitadas e voláteis e frequentemente insuficientes para cobrir os  custos operacionais dos clubes ao longo das épocas desportivas. 

Entre as principais fontes de receita, destacam-se as quotas dos sócios,  que, embora importantes, tendem a ser reduzidas e irregulares, muito pelo  contexto local, pela diversificação da oferta e pela instabilidade financeira global. A base associativa de muitos clubes é envelhecida, o que limita a capacidade de crescimento desta fonte de financiamento.  

Os apoios das autarquias locais representam outra fonte relevante, muitas  vezes determinante para a sobrevivência dos clubes. Estes apoios estão sujeitos a constrangimentos orçamentais e a alterações políticas, o que introduz um elevado grau de incerteza e implica capacidade de adaptação por parte dos gestores desportivos. Os patrocínios de empresas locais, por sua vez, dependem da  dinâmica económica da região, sendo frequentemente modestos a nível financeiro,  e mais elevados a nível de serviços/equipamentos. 

A nível de despesas fixas e variáveis, os clubes enfrentam encargos  significativos, nomeadamente com inscrições em competições, organizações de jogos, policiamento, arbitragem, deslocações para a competição, manutenção de infraestruturas, custos com staff e planteis, aquisição de equipamentos desportivos, arrendamento de espaço e equipamento e licenças para serviços administrativos para um bom funcionamento. Mesmo em contextos amadores, a exigência competitiva implica custos que não podem ser negligenciados, a par dos  acima referidos, existem custos fixos mensais com os recursos humanos na componente desportiva, nomeadamente com planteis, técnicos, staff. 

Perante este cenário, torna-se evidente a necessidade de uma gestão  financeira rigorosa e, simultaneamente, criativa, capaz de equilibrar receitas e  despesas de forma sustentável.

Tabela 1 – Comparação entre clubes profissionais e amadores 

A comparação apresentada na Tabela 1 permite compreender que, embora a contabilidade criativa exista em ambos os contextos, a sua natureza difere substancialmente. Nos clubes profissionais, está frequentemente associada a engenharia financeira complexa, enquanto nos clubes amadores assume uma dimensão mais operacional e pragmática. 

4. Estratégias de contabilidade criativa na prática 

Uma das principais formas de contabilidade criativa nos clubes amadores reside na valorização do capital social, nomeadamente através do voluntariado da sua massa adepta. Dirigentes, gestores desportivos e colaboradores desempenham frequentemente funções sem remuneração, contribuindo de forma decisiva para a redução de custos. 

Um clube que mobiliza ex-atletas para desempenharem funções técnicas ou administrativas está a transformar capital humano em valor económico indireto. Esta prática, embora comum, exige uma gestão cuidadosa, de modo a evitar sobrecarga e garantir a continuidade do compromisso dos voluntários ao longo das  diferentes épocas desportivas. São inúmeros os casos em que o esforço e dedicação não reconhecidos pela direção dos clubes, o que leva à desistência destes recursos humanos dedicados ao funcionamento do clube amador.

As parcerias com entidades locais constituem uma ferramenta fundamental  de gestão criativa, podendo assumir diversas formas, desde acordos de patrocínio até permutas de serviços. Estabelecer parcerias locais entre o clube e as entidades  privadas locais com intuito de auferir de serviços – por exemplo refeições aos  atletas em dias de jogo, equipamentos de treino e jogos, merchandising,  transportes – em troca de publicidade nas instalações do clube, nos dias de jogo e nas redes sociais. Esta solução permite reduzir custos e, simultaneamente, reforçar a ligação à comunidade. A colaboração entre clubes e escolas, que pode  permitir a utilização de instalações desportivas em horários específicos, reduzindo a necessidade de investimento em infraestruturas próprias. 

A contabilidade criativa, no contexto do futebol amador, deve ser entendida como um processo de adaptação estratégica, orientado para a maximização da eficiência na utilização de recursos escassos. Esta abordagem implica uma  mudança de paradigma, onde a gestão financeira deixa de ser meramente contabilística e passa a assumir uma dimensão estratégica e inovadora. 

A criatividade manifesta-se na capacidade de: 

i. Reconfigurar recursos existentes; 

ii. Identificar oportunidades de colaboração; 

iii. Desenvolver soluções alternativas de financiamento; 

iv. Reduzir custos sem comprometer a qualidade. 

A organização de eventos constitui uma estratégia frequentemente utilizada para  gerar receitas adicionais nas épocas desportivas. A realização e/ou participação  nos torneios infantis e campanhas de angariação de fundos são exemplos de iniciativas que, para além do retorno financeiro, contribuem para o reforço do espírito comunitário e ligação com o seu clube de futebol. Organizar torneios de futebol infantis que envolvam equipas locais e visitantes pode gerar receitas através de inscrições, venda de alimentos e bebidas, merchandising e patrocínios associados ao evento. Esta abordagem, embora exigente em termos organizacionais, pode ter um impacto significativo na sustentabilidade financeira do clube de futebol amador.

A contabilidade criativa não dispensa o rigor, pelo contrário, exige um  planeamento financeiro estruturado, baseado em orçamentos realistas e na  monitorização contínua das contas. A capacidade de antecipar despesas,  identificar oportunidades de poupança e ajustar estratégias em função da evolução financeira constitui um elemento central da gestão eficaz. Neste contexto, a criatividade manifesta-se na forma como os recursos são alocados e otimizados, e não na manipulação de dados. 

Tabela 2 – Estrutura típica de receitas dos clubes de futebol amador 

A análise da Tabela 2 permite concluir que os clubes amadores de futebol  apresentam uma forte dependência de financiamento externo, particularmente de  entidades públicas. Esta realidade reforça a necessidade de diversificação de receitas e de implementação de estratégias inovadoras, enquadráveis na lógica da contabilidade criativa. 

Os clubes conseguem reduzir a dependência de subsídios através da  dinamização de eventos ou da criação de redes de parceiros locais, tendem a  apresentar maior resiliência financeira. Um aspecto relevante no futebol amador, a par da dedicação das direções e estruturas amadores, é o elevado impacto do voluntariado, que constitui um dos pilares estruturais do funcionamento dos clubes amadores. Contudo, a sua sustentabilidade depende da motivação e do reconhecimento dos indivíduos envolvidos. 

Tabela 3 – Estratégias de contabilidade criativa e impacto financeiro

A Tabela 3 evidencia que a contabilidade criativa não se limita à redução de custos, mas inclui de igual forma estratégias que permitem gerar receitas e de otimização fiscal. Importa sublinhar que estas práticas são legítimas quando enquadradas no respeito pelas normas legais e contabilísticas aplicáveis em cada país/região. 

Apesar das vantagens associadas à contabilidade criativa, é fundamental  reconhecer os seus limites legais e financeiros. A adoção de práticas que  ultrapassem o enquadramento legal ou que comprometam a transparência  financeira pode ter consequências graves, incluindo sanções legais e perda de credibilidade. A tentativa de ocultar dívidas, atrasar pagamentos ou apresentar  contas distorcidas constitui um risco real, especialmente em contextos de pressão financeira. No entanto, estas práticas não só são ilegais como comprometem a sustentabilidade do clube de futebol a longo prazo. A gestão criativa deve ser orientada por princípios éticos claros, incluindo a prestação de contas aos sócios, através de relatórios de contas e o cumprimento das obrigações fiscais e a transparência na gestão de recursos. A implementação de mecanismos de controlo  interno e a imperativa colaboração com profissionais de contabilidade certificados ajudam a mitigar riscos. 

A eficácia da contabilidade criativa depende, em larga medida, da qualidade da liderança de dirigentes com visão estratégica, capacidade de inovação e  sensibilidade ética, sendo essenciais para implementar soluções sustentáveis nos  clubes. No futebol amador, a existência de uma gestão rigorosa e séria, torna-se mais complexa do que no futebol profissional e carece de conhecimento/formação por parte dos dirigentes. Direções com experiência no futebol profissional, acabam por gerir os clubes amadores de forma mais transparente, séria e servindo de exemplo para outros clubes amadores. Um bom  exemplo são os clubes fénix – Rangers, Fiorentina, Wimbledon, União da Bola – clubes que renasceram, crescem de forma sustentada e fruto é uma gestão  contabilística exemplar. 

A profissionalização parcial da gestão profissional no futebol, através da  formação dos dirigentes ou da colaboração com especialistas, pode representar um investimento estratégico a longo prazo. Mesmo em contextos amadores, a  adoção de práticas de gestão modernas contribui para a credibilidade e eficiência do clube. A liderança deve também promover uma cultura organizacional baseada na transparência, na responsabilidade e na participação, envolvendo sócios/adeptos, atletas e comunidade local nas decisões estratégicas. 

Conclusão 

A gestão de clubes de futebol amador revela-se um domínio particularmente complexo, exigindo uma articulação constante entre recursos escassos – humanos, financeiros e estruturais – exigências competitivas e responsabilidades sociais. Neste artigo procurou-se demonstrar que a contabilidade criativa, quando reinterpretada à luz de uma abordagem ética e estratégica, pode constituir um instrumento fundamental para a sustentabilidade destas organizações. 

Importa sublinhar que a fragilidade estrutural dos clubes amadores de  futebol não decorre exclusivamente da limitação de recursos financeiros, mas também da ausência de modelos de gestão profissionais e da dependência  excessiva de fontes externas de financiamento, nomeadamente de entidades  públicas. Esta realidade obriga os dirigentes a desenvolverem soluções adaptativas, muitas vezes baseadas na criatividade e na capacidade de mobilização de recursos não convencionais. Neste sentido, a contabilidade criativa  emerge não como um mecanismo de distorção da realidade financeira, mas como uma competência estratégica orientada para a sobrevivência organizacional, de forma ética e legal, sempre devidamente acompanhada por um profissional de contabilidade certificado. 

A análise desenvolvida permite concluir que as práticas de contabilidade  criativa mais eficazes são aquelas que assentam na valorização do capital social,  na construção de redes de parceiros e na diversificação de fontes de receita. O  voluntariado, as permutas e os acordos institucionais assumem, assim, um papel central, permitindo reduzir custos e potenciar sinergias locais.  

A criatividade no futebol amador não está isenta de riscos, sendo que a ausência de mecanismos de controlo e de competências técnicas adequadas poderá conduzir a práticas menos transparentes ou mesmo ilegais, comprometendo a credibilidade e a sustentabilidade a longo prazo dos clubes, das competições e das associações/federações de futebol. Torna-se, portanto, essencial estabelecer um equilíbrio entre inovação e rigor, garantindo que todas as  práticas de gestão respeitam os enquadramentos legais e os princípios éticos  fundamentais. 

A liderança de um clube de futebol amador assume uma importância  decisiva, dado que os dirigentes com visão estratégica, capacidade de  planeamento e sensibilidade ética são determinantes para a implementação eficaz  de práticas de contabilidade criativa. A formação contínua e a abertura à profissionalização parcial da gestão surgem como fatores críticos para reforçar a capacidade organizacional dos clubes. 

Importa reconhecer o papel das políticas públicas e das entidades  reguladoras na criação de um ambiente mais favorável à sustentabilidade do futebol amador. O desenvolvimento de programas de apoio estruturados, a simplificação de processos administrativos e o incentivo à formação em gestão desportiva podem contribuir significativamente para a melhoria das práticas organizacionais. 

A contabilidade criativa no futebol amador, quando entendida como uma  prática legítima de inovação na gestão, constitui uma ferramenta indispensável  para os clubes, pois a sua eficácia depende, contudo, da capacidade de integrar  criatividade, responsabilidade e rigor, num equilíbrio que assegure não apenas a  sobrevivência, mas também o desenvolvimento sustentável destas organizações. 

Gerir um clube de futebol amador não é apenas um ato de amor/dedicação ao clube e um exercício de administração financeira, mas um processo contínuo de adaptação, liderança e compromisso com a comunidade. É neste equilíbrio entre paixão e racionalidade que reside o verdadeiro desafio — e também a principal  oportunidade — da gestão no futebol amador contemporâneo.



Ricardo André Encarnação é Diretor Desportivo do União da Bola Futebol Clube. Possui formação em Turismo, com mestrado na área e doutorando pela Universidad de Málaga, além de especializações em gestão desportiva e direção técnica no futebol. Atua na gestão esportiva e organizacional de clubes, com experiência em projetos ligados ao futebol e ao turismo.
LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/randreencarnacao/

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Estamos olhando para o lugar errado no futebol brasileiro

Uma reflexão sobre governança, estrutura e responsabilidade institucional no esporte.

Durante muitos anos, o futebol brasileiro se acostumou a olhar para o lugar errado.

Quando os resultados não vêm, a análise quase sempre recai sobre treinador, elenco, esquema tático ou desempenho dentro de campo. Mas, para quem vive os bastidores, a realidade é outra: na maioria das vezes, o problema não começa no campo. Começa muito antes. Começa na forma como o clube é estruturado e gerido.

Escrevo essa reflexão também como forma de me apresentar e de iniciar minha contribuição junto à Universidade do Futebol, instituição que sempre acompanhei e onde busquei conhecimento ao longo da minha trajetória no esporte.

Sou profissional com mais de duas décadas de atuação no esporte e no terceiro setor, com formação na área contábil e tributária, e experiência na estruturação de processos, governança e gestão institucional.

Venho de uma família simples, do interior de Minas Gerais, onde aprendi, ainda em casa, valores que carrego até hoje: responsabilidade, honestidade, acolhimento e respeito ao próximo. Meus pais não tiveram acesso à formação acadêmica, mas foram meus maiores mentores. Foi com eles que aprendi que fazer o certo não depende de cargo ou visibilidade, mas da forma como enxergamos o mundo e dos princípios que escolhemos sustentar.

Minha trajetória profissional também não começou no futebol profissional. Começou no trabalho de base, na observação atenta e no compromisso com o que precisava ser feito.

Ao longo do caminho, atuei em instituições que me permitiram compreender o esporte a partir de sua estrutura fiscal, contábil, tributária, financeira e institucional. No Minas Tênis Clube, participei da construção de áreas fundamentais, como processos tributários, convênios, licitações e a estruturação do departamento ligado à Lei de Incentivo ao Esporte.

Mais tarde, no Cruzeiro, vivi diferentes fases de um grande clube: momentos de conquista, reconhecimento e excelência, mas também momentos de crise profunda, perda de credibilidade e fragilidade institucional.

Foi vivendo esses extremos que entendi algo que hoje considero central:

O futebol brasileiro sofre menos por falta de talento e mais por ausência de estrutura.

Temos talento de sobra. Temos atletas brilhantes, torcidas apaixonadas, força cultural e enorme capacidade de mobilização social. O que muitas vezes falta é base para sustentar tudo isso de forma responsável e duradoura.

Ainda convivemos com problemas que se repetem em diferentes níveis do futebol brasileiro:

• ausência de governança formal

• concentração de decisões

• falta de processos claros

• fragilidade de controles

• baixa maturidade institucional

• conflitos de interesse

• desorganização financeira e documental

• pouca cultura de transparência

Em muitos casos, o clube cresce esportivamente antes de estar preparado para sustentar esse crescimento administrativamente. E, quando isso acontece, o preço chega, quase sempre alto demais.

O futebol é apaixonante, mas paixão não substitui gestão.

Durante muito tempo, o ambiente esportivo naturalizou estruturas frágeis, informalidade e decisões personalistas. Esse modelo pode até sobreviver por algum tempo, especialmente quando há resultado esportivo ou aporte financeiro. Mas dificilmente constrói longevidade.

Sem governança, o clube depende de pessoas.

Com governança, o clube constrói instituição.

Essa talvez seja uma das discussões mais urgentes do esporte brasileiro.

Quando falamos em governança, não estamos falando de burocracia. Estamos falando de clareza, responsabilidade, transparência, controle, planejamento e capacidade de tomar decisões com base em critérios, e não apenas sob pressão.

Ao longo da minha trajetória, também tive a oportunidade de atuar em espaços institucionais do esporte, incluindo a prestação de contas no Ministério do Esporte, participação em grupos técnicos do terceiro setor e atuação como relatora em comitê desportivo ligado à lei de incentivo estadual em Minas Gerais.

Essas experiências ampliaram ainda mais a minha convicção de que o esporte brasileiro não precisa apenas de investimento.

Precisa de maturidade institucional.

Investimento sem estrutura pode gerar crescimento.

Mas não garante sustentabilidade.

Por isso, tenho defendido cada vez mais uma mudança de mentalidade.

Gestão não é acessório.

Gestão é condição de continuidade.

É o que permite que o clube sobreviva às mudanças, às crises, às trocas de liderança e aos ciclos esportivos.

Mais do que formar atletas, o futebol precisa formar instituições.

Antes de atrair recursos, precisa aprender a organizar recursos.

Precisa desenvolver capacidade de prevenir, planejar e construir legado e não ter que reagir a crises.

Essa discussão se torna ainda mais relevante quando olhamos para o papel do esporte na sociedade.

Um clube não é apenas um time.

Ele pode ser uma plataforma de desenvolvimento humano, formação cidadã, pertencimento e impacto social real. Mas, para cumprir esse papel com responsabilidade, precisa ser sustentado por gestão.

Não há impacto consistente sem estrutura, nem confiança sem transparência e somente com governança uma organização terá futuro sustentável 

Talvez o grande desafio do futebol brasileiro hoje seja esse:

Parar de olhar apenas para o campo e começar a olhar para aquilo que sustenta o jogo.



Deis Chaves é executiva do futebol e atual CEO do Nova Venécia SAF, com mais de 20 anos de experiência na área. Foi diretora de projetos do Cruzeiro EC por 13 anos, liderando iniciativas estratégicas e captação de recursos. É formada em Ciências Contábeis, com especializações em Direito Tributário e gestão do futebol, além de atuar como professora e palestrante na área esportiva.
LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/deis-chaves-projetos/

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O resgate da confiança da seleção brasileira

Por: Marcel Capretz

O jogo de futebol é técnico, tático, físico e mental. Tudo junto e ao mesmo tempo. Um drible, por exemplo: tem o gesto técnico da finta, a tática para saber se é uma ação ou para frente ou para trás, a questão física do arranque para superar o adversário e a coragem emocional de realizar o drible. É assim o jogo todo. Individual e coletivamente.

E mesmo não podendo separar o jogo em fragmentos e entendendo que o todo é maior que a soma das partes, há áreas que se potencializadas melhoram todo o conjunto. É o que chamamos de área de alavanca.

Na seleção brasileira hoje o que pode fazer a diferença e catapultar todo o projeto de campo é a parte emocional. Há claramente uma falta de confiança no grupo de jogadores. Os recentes insucessos e até os desmandos fora de campo em um ciclo de quatro anos marcado por uma instabilidade política enorme da Confederação Brasileira de Futebol fizeram com o que o moral de todos baixasse muito.

Pressão sempre houve e sempre vai existir. E o atleta que chega em um nível tão alto como esse sabe lidar muito bem com as cobranças. Mas saber lidar com derrotas é diferente. Exige um trabalho diferente e mais elaborado. E é aí que o currículo extremamente vencedor do técnico Carlo Ancelotti pode ser decisivo e fazer a diferença.

Não temos a melhor geração de todos os tempos, mas temos excelentes jogadores. O plano tático pode ser aprimorado com o período de treinamentos pré-Copa. A questão física, principalmente de alguns jogadores vindos de lesão, pode ser restabelecida. A cereja do bolo precisa ser o resgate da confiança e da auto estima. Não que isso fará do Brasil o grande favorito na Copa. Mas vai ajudar a aumentar nossas chances.

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Avaliação do Erro no Futebol

Por: Bruno Loureiro

Olá a todos, hoje falaremos sobre a análise de uma das questões mais importantes do futebol, ou seja, o ERRO, afinal como dizem: “se ninguém errasse, o jogo terminaria zero a zero!”  Tentar analisar o erro pode ser algo extremamente objetivo e de fácil definição, mas a sua origem na maioria das vezes se torna algo subjetivo, não calculável, dependente do contexto, identidade e estratégia de jogo.

Escrever sobre erros no futebol exige entender que o erro é a unidade básica do jogo. Para a análise de desempenho e também para as plataformas de análise IA, o desafio é transformar o “lance de azar” em um dado classificável.

Na formação de um jogador, o erro é parte integrante inevitável do processo. No profissional, o erro pode acarretar perda não apenas de uma partida, mas de uma temporada, de um ciclo ou de uma inteira trajetória. A importância de conhecer o erro permite corrigi-lo e, ao reconhecê-lo, poder evitar que aconteça novamente (“Conhecer para Reconhecer”).   

Na origem da palavra “errar” que vem do latim errāre significa “vagar”, “andar sem rumo” ou “desviar-se” do caminho. No futebol podemos fazer uma analogia que erro não significa apenas finalizar para fora do gol, mas a partir do êxito, mas ter a competência de reconhecer o porque da situação e como corrigir-lo. Ou seja o que fez ele “desviar-se” do seu objetivo.

Segundo o estudo sobre a análise sequencial, o gol raramente é fruto de um único erro isolado. Geralmente é o resultado de uma sequência de 3 a 5 microerros acumulados em um curto intervalo de tempo, geralmente menos de 20 segundos (Castellano; 2000).

Usaremos exemplo do gol sofrido pelo Brasil no amistoso contra a França.

No estudo os erros foram divididos em 3 tipologias de sequência

  1. Erros “Gatilho” (Trigger): Parecem inofensivos, mas quebram o equilíbrio tático
(ex: Nāo reação a bola perdida / recomposiçāo).

2. Erros “Amplificadores”: Reações erradas dos companheiros que tentam compensar o erro inicial, agravando a situação.

(Romper a marcação fora do tempo / Nāo temporizar)

3. Erros “Terminais”: A falha técnica final.

(ex: Inferioridade numérica nos últimos 20 metros / Leitura de fechamento de linha de passe)

As raízes de um erro possuem tantas variáveis que não podem ser contabilizadas de forma objetiva. Dada a dificuldade de determinar as origens de um erro devido à individualidade e características de cada sujeito, existem indicadores que podem ajudar a avaliar o desfecho negativo de uma ação em uma partida?  

Entender sobre as tipologias do erro, nos ajuda a reconhecê-los e corrigi-los. Para uma reflexão pratica, utilizaremos como referência uma situação de jogo de re-construção/saída de bola que não teve como êxito a progressão para o segundo terço do campo.

APROFUNDAMENTO

 Refletindo sobre a questão, existem algumas possibilidades de avaliação de um erro, que podem ser:  

  • Técnico
  • Tomada de Decisão (Escolha)
  • Ocupação de Espaço
  • Tática Individual  

TÉCNICO (Execução)

Provavelmente, entre as quatro possibilidades, esta é a mais evidente e reconhecível. Para exemplificar vamos imaginar os possíveis erros do defensor que tenta um passe para um meio-campista que podem ser:

  1. Transmissão que não chega do jogador A ao jogador B.
  2. Transmissão que chega ao destino, mas em condições inadequadas (muito forte, muito fraca, alta, etc.).
  3. Transmissão chega ao destino, em condições corretas, mas no ponto errado (no pé mais perto da pressão adversária que pode retardar ou facilitar a pressão não dando sequência a jogada.
  4. Controle (domínio) que não permite a continuidade funcional da jogada.
  5. Controle com perda da posse de bola.  

TOMADA DE DECISÃO (ESCOLHA)

O erro de escolha, segundo a FIGC (Federazione Italiana Giuoco Calcio), seria um erro de tática individual visto que a execução técnica é a parte final do processo chamado de OODA (Observar, Orientar, Decidir e Agir). Exemplos na construção:

  • Não avaliação da condição numérica (superioridade/inferioridade), vantagem posicional ou qualitativa.
  • Desconhecimento do princípio tático.
  • Falta de vivência da situação específica.  

OCUPAÇÃO DE ESPAÇO

Com base no contexto (bola, meta, adversário, companheiro), existe uma distância de relação entre os jogadores. As distâncias permitem a interação e a ocupação do espaço conforme a estratégia. Devido a dinamicidade do jogo, essas distâncias podem não ser respeitadas:

  • Pouca distância entre jogadores, facilitando a pressão ultra ofensiva adversária.
  • Distância excessiva, diminuindo as linhas de passe para o portador.
  • Ocupação que não permite o aproveitamento da superioridade numérica do goleiro.  

TÁTICA INDIVIDUAL

Envolve a tomada de posição e marcação (fase defensiva) e o orientação do corpo e desmarcação (fase ofensiva). A orientação do corpo de quem recebe é determinante. Erros comuns:

  • Posicionamento “flat” (corpo plano/fechado).
  • Estar de costas, sem visualizar a bola ou o campo.
  • Calcanhares no chão, reduzindo a reatividade.  

ADVERSÁRIO 

–   o erro não pode ser considerado apenas um demérito coletivo ou individual, mas temos que levar em consideração os oponentes, segundo ainda o estudo de chain analyse, o adversário é um construtor de contexto (castellano;2000) que muitas vezes podem forçar o erro de tomada de decisão diminuindo o tempo-espaço através  de uma pressão organizada, que pode ser medido através do chamado ppda- passes por ação defensiva.
VARIAVEL OCULTA

– Os eventos de uma partida não são lineares; não seguem uma causa-efeito estreita. O desgaste físico, a leitura de jogo e a inteligência emocional influenciam diretamente no contexto de cada ação. 

Apesar da condição biopsicossocial do ser humano, eles são considerados variáveis que fogem estrutura lógica do futebol. O erro, para fins da análise, é definido exclusivamente por indicadores espaciais, temporais e relacionais, ou seja, que sejam mensuráveis, garantindo que a unidade de medida seja o comportamento dentro do contexto e não a condição do indivíduo que podem ser diferentes entre si. Afinal se uma equipe toma um gol pois está “cansada” ou porque faltou “concentração”, provavelmente tais estados já se traduziram em métricas objetivas de queda de performance. Apesar de reconhecer a importância da variável oculta, ao focar no dado, a análise ganha precisão ao tratar o erro como evento principal; fato é que o jogador certo estava no lugar errado, no tempo errado. 

“Conhecer para Reconhecer e Reconhecer para Corrigir”

Bruno Loureiro Batista é Treinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/

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A BOLHA

Por: Thiago Filla de Almeida

A rua não acabou, nós paramos de olhar para ela.

A rua segue viva pulsando nos cantos do Brasil, nos campinhos de terra, nas traves improvisadas, no gol feito de chinelo. Dizer que ela deixou de existir talvez seja mais confortável do que admitir que paramos de oportunizar: nós paramos de olhar para ela.

Trabalho no INSTITUTO FUTEBOL DE RUA e tenho a oportunidade de visitar diferentes e inúmeras cidades do nosso país, e em todas elas encontramos o mesmo cenário. As brincadeiras continuam acontecendo, “o ambiente da rua”, o jogo continua sendo criado. A bola continua rolando mesmo sem uniforme, sem estrutura e, muitas vezes, sem adulto por perto.

A rua ainda ensina.
Ensina a decidir;
Ensina a lidar com o diferente;
Ensina a negociar regras;
Ensina a perder, ganhar e continuar jogando.
dentre outros aprendizados.

Foi nesse ambiente que muitos dos grandes jogadores da nossa história foram formados. Não apenas tecnicamente, mas na sua essência como jogadores criativos, imprevisíveis e humanos. Mas, enquanto a rua resiste, o futebol parece ter seguido outro caminho.

Hoje, apenas uma parcela menor dos jovens inicia sua relação com o jogo nesses espaços. A maioria está nas escolinhas, nos projetos, nos ambientes formais. Isso não é, por si só, um problema. O problema está no afastamento simbólico que construímos, estrutural e metodológico.
Criamos uma bolha.

Uma bolha onde o acesso depende de condições financeiras.
Onde o deslocamento até o treino já é um filtro. Onde o uniforme, a mensalidade e a estrutura se tornam portas de entrada onde brincar não é considerado, muito menos praticado ou estimulado.

E, dentro dessa bolha, passamos a olhar pouco. Olha-se para o resultado imediato.
Para o tamanho.
Para a força.
Para quem está pronto agora.

Seleciona-se cedo.
Descarta-se rápido.

Enquanto isso, fora desse sistema, milhões de meninos seguem interagindo, brincando e se desenvolvendo sem oportunidades.
Aproximadamente 99% de uma geração inteira que o futebol simplesmente não enxerga, meninos que vivem o jogo todos os dias, mas que dificilmente terão a oportunidade de vestir a camisa de um grande clube.

Quantos deles poderiam? Qual o melhor momento para oportunizar? Que momento o DEPARTAMENTO CAPTAÇÃO E PROSPECÇÃO poderia ser efetivo?
Essa é uma pergunta que o futebol precisa ter coragem de fazer.

E, ao mesmo tempo, algo curioso vem acontecendo.

Enquanto nós, aqui dentro do País, passamos a buscar referências fora importando modelos, metodologias e formas de organizar o jogo, grupos internacionais têm feito o caminho inverso.

O City Football Group e a Red Bull, entre outros, têm investido no futebol brasileiro e em mercados semelhantes. Não apenas para implementar suas estruturas, mas para acessar algo que ainda é abundante por aqui: a rua, a
ginga, o modo brasileiro de jogar futebol.


E esse modo, historicamente, nasce onde?
Na rua.

Existe, então, uma contradição evidente. O mundo olha para o Brasil em busca daquilo que sempre nos caracterizou: a criatividade, a improvisação, a relação espontânea com o jogo, a ginga, a alegria e a ousadia.

E nós, por vezes, deixamos de valorizar exatamente isso.

Não se trata de negar a evolução do futebol, nem de rejeitar o conhecimento que vem de fora. O jogo mudou, e é fundamental acompanhar esse movimento. Mas evoluir não pode significar esquecer a própria identidade. O risco não está em aprender com o mundo e deixar de compartilhar o que somos, ele está em deixar de reconhecer o que o mundo vem aprender conosco.

A rua não é romantismo, ela é um ambiente de aprendizagem complexo, rico e profundamente formador, onde há riscos, mas o equilíbrio destas competências existentes na rua é potente. Um espaço onde o jogo se apresenta em sua forma mais livre, rica em diversidade e, por isso mesmo, mais desafiadora. Ignorá-la não é apenas perder uma referência cultural.

É, possivelmente, deixar de enxergar “potenciais”. Deixar de compreender processos. Deixar de formar melhor. Talvez a rua não tenha acabado, talvez o que esteja acabando seja a nossa capacidade de olhar para ela com atenção, respeito e intenção, estudando uma forma de torná-la possível aos esquecidos pelo futebol da bolha.

E se isso for verdade, a pergunta que fica não é apenas sobre quantos jogadores estamos formando… mas sobre quantos estamos deixando de formar sem nem perceber.

E isso hoje é o meu propósito, é pelos 99,999% que a bolha não oportuniza.

Inspirações e Referências

Alcides Scaglia
Danilo Augusto Ribeiro
João Batista Freire
Wilton Carlos de Santana

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

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Os desafios de um clube fénix: reconstrução institucional e desportiva após ruir no futebol

Por: André Encarnação

O futebol contemporâneo constitui um fenómeno social, cultural e económico de  grande relevância em diversas sociedades europeias. Os clubes de futebol  assumem frequentemente um papel central na identidade coletiva das  comunidades onde se inserem, funcionando como símbolos de pertença,  representação territorial e memória histórica. Para muitos adeptos, o clube local  não representa apenas uma organização desportiva, mas uma instituição com  significado emocional e cultural profundo que transita de geração em geração. 

Diversos clubes com presença histórica em campeonatos profissionais  enfrentaram dificuldades financeiras graves que culminaram em processos de  insolvência, dissolução administrativa ou desaparecimento jurídico. A crescente  profissionalização do futebol, associada à intensificação das exigências  económicas da competição, contribuiu para aumentar os riscos de instabilidade  financeira em várias organizações desportivas. Quando um clube desaparece, a  comunidade de adeptos enfrenta uma perda que ultrapassa o plano competitivo. A  extinção de uma instituição com décadas de história representa frequentemente  uma rutura simbólica com o passado. Como reação a estas perdas, surgem  frequentemente iniciativas destinadas a preservar a herança desportiva e  identitária do clube original, sendo que uma dessas respostas consiste na criação  de um novo clube, habitualmente designado por “clube fénix”. 

O conceito de clube fénix refere-se a uma organização fundada após o  colapso de um clube anterior, procurando recuperar a sua identidade histórica, os  seus símbolos e a ligação com os adeptos. Tal processo implica um percurso  complexo de reconstrução institucional, marcado por desafios económicos,  sociais, desportivos e organizacionais. O presente artigo analisa os principais  desafios enfrentados pelos clubes fénix no contexto do futebol europeu,  recorrendo igualmente a alguns exemplos concretos que ilustram diferentes  trajetórias de reconstrução institucional. 

Contexto de Colapso Institucional 

A falência dos clubes de futebol resulta frequentemente de processos prolongados  de fragilidade económica e de modelos de gestão insustentáveis. O aumento das despesas associadas à atividade profissional, especialmente em salários de  jogadores, infraestruturas e encargos operacionais, tem colocado diversas organizações perante pressões financeiras significativas. Em muitos casos, a  tentativa de alcançar sucesso desportivo imediato conduz a investimentos que  ultrapassam a capacidade financeira real dos clubes. A dependência de  investidores externos, a acumulação de dívidas fiscais e a falta de mecanismos de  controlo financeiro contribuem para agravar situações de desequilíbrio  orçamental. Quando as dificuldades atingem níveis críticos, os clubes podem  entrar em processos de insolvência que culminam na perda da personalidade jurídica ou na dissolução administrativa.  

O desaparecimento de um clube provoca frequentemente uma reação  mobilizadora por parte dos adeptos e das comunidades locais. A criação de um clube fénix surge como tentativa de preservar a continuidade simbólica da instituição desaparecida, ainda que juridicamente se trate de uma nova entidade  completamente distinta. 

Sustentabilidade Económica e Reconstrução Financeira 

A sustentabilidade financeira constitui um dos maiores desafios enfrentados por clubes fénix, sendo que inicia a sua atividade sem grande parte dos recursos materiais e financeiros que sustentavam o clube anterior. Infraestruturas, contratos  comerciais e património podem ter sido alienados ou perdidos durante o processo  de insolvência. A participação nas divisões inferiores do sistema competitivo  implica receitas muito reduzidas ou muitas vezes inexistentes. Os direitos  televisivos tornam-se inexistentes, existe uma menor visibilidade mediática e  reduzida capacidade de atração comercial que por sua vez limitam as fontes de financiamento disponíveis. Perante esta realidade, muitos clubes adotam modelos  de financiamento baseados numa forte participação dos sócios e adeptos do  anterior clube insolvente. Através de campanhas de adesão associativa, iniciativas  comunitárias e parcerias com pequenas empresas locais e de anteriores  sócios/adeptos, que se tornam elementos fundamentais para assegurar a  sustentabilidade financeira inicial. 

A experiência do colapso institucional anterior tende a influenciar  profundamente a cultura organizacional destes clubes. A prudência financeira e o equilíbrio e rigor orçamental passam a assumir prioridade estratégica. A  construção de um modelo económico sustentável baseia-se frequentemente em  princípios de transparência, responsabilidade financeira e controlo rigoroso das  despesas. A componente social desempenha um papel determinante na  consolidação de um clube fénix, dado que a ligação emocional entre clube e  adeptos constitui frequentemente o principal motor do processo de reconstrução  institucional. Os adeptos não são apenas consumidores de um espetáculo  desportivo, pois representam uma comunidade de pertença que se identifica com 

os valores, símbolos e história do clube. O desaparecimento de uma instituição  desportiva provoca, por isso, um impacto significativo na identidade coletiva de  muitas comunidades. 

O clube fénix surge como um projeto de reconstrução social que procura  preservar essa identidade. A participação ativa dos adeptos no processo  fundacional contribui para reforçar a legitimidade do novo clube. Em diversos casos  europeus, os adeptos desempenharam um papel central na criação ou  recuperação destas organizações. Um exemplo particularmente relevante pode ser  observado em Inglaterra com a fundação do AFC Wimbledon. Após a transferência  do antigo Wimbledon FC para a cidade de Milton Keynes em 2002, um grupo de  adeptos decidiu criar um clube que preservasse a identidade histórica da  instituição original. O projeto iniciou-se nos escalões inferiores do futebol inglês e,  ao longo dos anos, conseguiu alcançar as divisões profissionais, tornando-se um  dos exemplos mais emblemáticos de reconstrução baseada na mobilização dos  adeptos. 

Desafios Desportivos e Progressão Competitiva 

A dimensão desportiva representa uma das faces mais visíveis da reconstrução de  um clube fénix., sendo que a maioria destas organizações inicia a sua atividade nas  divisões inferiores dos campeonatos nacionais, independentemente do historial  competitivo do clube anterior. Implica um percurso de progressão gradual, que  pode prolongar-se durante vários anos ou mesmo décadas. A construção de  equipas competitivas com recursos financeiros extremamente limitados exige uma  estratégia desportiva muito bem estruturada. 

A aposta na formação de jogadores jovens constitui uma das abordagens  mais frequentes, com vista à valorização de atletas locais que por sua vez permite  reduzir custos e reforçar simultaneamente a ligação entre a equipa e a comunidade. A estabilidade técnica desempenha igualmente um papel importante, a continuidade das equipas técnicas facilita a consolidação de modelos de jogo e de  processos de desenvolvimento desportivo. 

Um exemplo relevante de reconstrução desportiva ocorreu em Itália com o  caso da Fiorentina, que após a falência do clube histórico em 2002, foi criada uma  entidade denominada inicialmente Florentia Viola, posteriormente renomeada  como ACF Fiorentina. O novo clube iniciou a sua atividade nas divisões inferiores  do futebol italiano e conseguiu regressar rapidamente aos escalões profissionais,  recuperando a presença na Serie A e reafirmando o seu papel no futebol italiano. Na Escócia, o Rangers FC, o histórico clube de Glasgow, enfrentou em 2012 um  processo de liquidação após graves problemas financeiros e fiscais. Uma nova entidade empresarial adquiriu os ativos desportivos do clube e permitiu a  continuidade da atividade competitiva. O Rangers foi reintegrado no sistema  competitivo escocês nos escalões inferiores e iniciou um processo de recuperação  progressiva, regressando posteriormente à principal divisão do futebol escocês. O  caso do Parma Calcio 1913 constitui também um exemplo significativo de  reconstrução desportiva. Após a falência do histórico Parma FC em 2015, um novo  clube foi criado e iniciou atividade na Serie D, o quarto escalão do futebol italiano.  Através de uma estratégia de crescimento gradual e de forte mobilização dos  adeptos, o clube conseguiu regressar às divisões profissionais em poucos anos. 

A criação de um clube fénix oferece também uma oportunidade para  reformular os modelos de governação institucional, pois muitos dos clubes que  entraram em colapso apresentavam fragilidades significativas em termos de gestão  administrativa e controlo financeiro. A nova organização pode adotar estruturas de  governação mais transparentes e participativas. Estatutos claros, mecanismos de  fiscalização financeira e participação ativa dos sócios contribuem para reforçar a  legitimidade institucional. 

A profissionalização gradual da gestão torna-se igualmente necessária à  medida que o clube cresce, adicionando funções relacionadas com administração  financeira, marketing, comunicação e planeamento desportivo exigem  competências técnicas especializadas. O acesso extremamente limitado a  infraestruturas adequadas constitui um dos principais desafios. Muitos clubes fénix  não dispõem inicialmente de estádio próprio ou centros de treino permanentes. A  utilização de instalações municipais ou a partilha de infraestruturas com outras  entidades desportivas representa uma solução comum nas fases iniciais, que por  sua vez atrasam o desenvolvimento desportivo dos clubes. 

O Caso do União da Madeira e o Surgimento do União da Bola Futebol Clube 

O contexto português oferece também exemplos relevantes de processos de  reconstrução institucional associados ao desaparecimento de clubes históricos.  Um caso particularmente significativo ocorreu na Região Autónoma da Madeira  com o declínio do histórico Clube de Futebol União da Madeira. Fundado em 1913,  o União da Madeira construiu ao longo de várias décadas uma presença relevante  no futebol português, incluindo participações na Primeira Liga. O clube  desempenhou um papel importante na vida desportiva da cidade do Funchal e na  formação de gerações de adeptos. As dificuldades financeiras acumuladas ao  longo dos anos conduziram gradualmente a uma situação de declínio institucional  que acabou por resultar na interrupção da atividade competitiva. A perda de  capacidade organizativa e os problemas económicos impediram a continuidade do  projeto desportivo nos moldes anteriormente existentes.

Perante esta realidade, surgiu em 2022 um novo projeto destinado a  preservar o espírito e a identidade associada ao universo unionista. Foi então fundado o União da Bola Futebol Clube, inspirado na herança histórica do União da Madeira. O novo clube iniciou a sua atividade nas competições organizadas pela  Associação de Futebol da Madeira, começando nos escalões inferiores do futebol  regional. O percurso competitivo inicial demonstrou uma evolução gradual. Na  época desportiva de 2024/25, o clube alcançou a subida da Primeira Divisão  Regional para a Divisão de Honra da Associação de Futebol da Madeira, escalão em  que atualmente compete. 

O caso do União da Bola Futebol Clube evidencia vários dos desafios  característicos dos clubes fénix, sendo que a reconstrução institucional exige  dedicação da estrutura existente, rigor e sacrifício, mobilização de adeptos, criação  de estruturas organizativas estáveis e consolidação de um projeto desportivo capaz  de crescer progressivamente no contexto competitivo regional. A preservação da  memória histórica do União da Madeira continua a desempenhar um papel  relevante na identidade simbólica do novo clube. A ligação emocional dos adeptos  à história unionista contribui para sustentar o projeto e reforçar o sentimento de  continuidade entre passado e presente. 

Conclusão 

Os clubes fénix representam um fenómeno significativo no panorama do futebol  contemporâneo, poisa sua emergência evidencia simultaneamente as fragilidades  estruturais de algumas organizações desportivas e a capacidade de mobilização  das comunidades que procuram preservar as suas instituições simbólicas. 

A reconstrução de um clube após um processo de colapso envolve desafios  complexos que abrangem múltiplas dimensões da vida organizacional, desde a sustentabilidade económica, a reconstrução da ligação social com os adeptos, o desenvolvimento de estruturas de governação transparentes e a consolidação da  competitividade desportiva constituem elementos fundamentais deste processo. Vários clubes demonstram que trajetórias de renascimento institucional são  possíveis quando existe uma base social mobilizada e uma estratégia de  desenvolvimento sustentável. O exemplo do União da Bola Futebol Clube na  Madeira evidencia igualmente a presença deste fenómeno no contexto português,  ilustrando o esforço de reconstrução associado à herança do União da Madeira. 

O percurso de um clube fénix raramente é imediato ou linear. A reconstrução  exige tempo, estabilidade organizacional, dedicação, empenho, muito rigor e forte  envolvimento comunitário. A persistência das direções, estruturas, dos adeptos e  a capacidade de desenvolvimento institucional podem transformar um episódio de 

colapso numa oportunidade de renovação estrutural, permitindo que o clube  renasça e recupere gradualmente o seu lugar no panorama desportivo.

Deis Chaves CEO do Nova Venécia SAF, atua na reestruturação do clube com foco em governança, responsabilidade e impacto social. Contadora e tributarista, possui mais de 20 anos de experiência na profissionalização e estruturação de projetos e organizações no esporte.
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