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Sobre a ecologia da ação no futebol – e outras ideias

Crédito imagens: Redes Sociais Fiorentina

Na última semana, vocês vão se lembrar, falávamos aqui sobre uma certa transição no nosso pensamento sobre futebol: se houve um tempo em que o jogo era bem mais pertencente aos jogadores, por uma série de razões, hoje parece claro que o jogo pertence, na sua maioria, aos treinadores. Não por acaso, tomou-se como imperativo que o rendimento de uma equipe num campo de futebol é especialmente reflexo da qualidade de um certo sistema de ideias. Sobre isso, meus argumentos são dois: I) embora as ideias sejam importantes, elas ainda são secundárias dentro da cadeia de forças do jogo e II) a crença inquestionável nas ideias, ainda que sem querer, patrocina o sistema doentio de demissão de treinadores no futebol profissional – afinal, numa análise simplista, se uma equipe não tem performance, deve ser pela falta de ideias do treinador. Bom, vamos falar um pouquinho mais disso.

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Numa entrevista dada à Folha de São Paulo, em 1994, o Edgar Morin – muito citado, nem sempre lido – foi perguntado sobre um conceito importante da sua obra, chamado ecologia da ação. Ele respondeu o seguinte:

“Desde que você começa uma ação, política por exemplo, ela vai escapar progressivamente ao seu controle para entrar num jogo de interação e retroação no meio em que ela se produz. (…) Ninguém pode determinar as consequências futuras da ação. Há um princípio de incerteza fundamental.“ 

Não há uma linha sequer da resposta que fale diretamente sobre futebol – mas para o bom entendedor, um pingo é letra. O escape progressivo ao nosso controle e a consequente entrada num jogo de interações e retroações é precisamente o que se passa no jogo de futebol, e podemos sentir isso num único exercício de uma única sessão de treino. De um ponto de vista do jogo – não apenas do jogo de futebol, mas do jogo (sobre o qual o professor Alcides Scaglia escreve tão bem), que antecede ao jogo de futebol – é imperativo considerarmos que um determinado sistema de ideias, que baseia uma série de comportamentos individuais e coletivos, é uma variável significativa, mas num sistema de inúmeras outras variáveis. Se de fato quisermos lançar mão de um pensamento complexo, em que tudo está tecido junto, num sistema de profundas interações e retroações, entre onze companheiros e onze adversários, sendo cada um dos vinte e dois sujeitos absolutamentes diferentes, então é preciso localizarmos bem as ideias – não porque não sejam importantes, é óbvio que são, pois porque há outras forças, para além das ideias, se afirmando e se negando continuamente no campo de jogo. Embora todos nós, como sujeitos humanos, tenhamos nossas ideias (por isso, aliás, não há quem seja ‘deserto de ideias’) é preciso considerarmos que o jogo, inclusive enquanto antecessor da cultura (Huizinga) também tem um sistema de ideias próprio, absolutamente alheio à razão humana. É bem verdade que sim, o jogo pode ser sensível às nossas respostas, mas isso não significa que a narrativa do jogo está exclusivamente sob nosso controle.     

Como a boa ciência e a boa filosofia dos séculos XIX e XX nos mostraram (Bachelard, Popper, Nietzsche…), o funcionamento das coisas pode não ser exatamente fruto de causalidades – como disse o Morin ali em cima, há um princípio de incerteza fundamental. Não é por acaso que tenta-se impor uma certa ordem humana à profunda incerteza do mundo – inclusive como reconhecimento sutil da nossa mais profunda fragilidade. E para saber disso, vejam bem, não é preciso termos lido ninguém: por que raios quando éramos crianças e jogávamos bola na rua, criávamos tantas jogadas ensaiadas, de tudo quanto é jeito, e nenhuma delas dava certo? Por que, quando mudávamos de casa ou de escola, e jogávamos pela primeira vez com um grupo novo, éramos capazes de jogar tão, mas tão bem futebol, como se conhecêssemos aquelas pessoas de vidas passadas? E por que depois, quando já conhecíamos de fato, quando estamos cheios de conhecimentos, em um time cheio de ideias, que atrai-fixa-liberta, que ocupa espaços entrelinhas ao mesmo tempo em que oferece amplitude máxima com os extremos no segundo terço do campo, que treina as mais impressionantes sequências ofensivas, com tudo quanto é tipo de apoio, mobilidade, ultrapassagem, segundo homem, terceiro homem, quarto homem, superioridades numéricas, posicionais, qualitativas etc etc – porque mesmo assim somos perfeitamente capazes de entrar em campo e não jogar absolutamente nada?  Porque o controle do jogo jogado não é apenas nosso – é do jogo. Quando defendo, como vários outros colegas, que o jogo seja visto como um microcosmo da vida que se vive, quero dizer exatamente isso: da mesma forma como a vida vivida não depende apenas da qualidade das nossas ideias – muito pelo contrário, há um mundo de forças agindo e retroagindo sobre nós, basta olharmos o nosso tamaninho sanitário -, o jogo jogado também não é reflexo exclusivo das ideias. Não por acaso, aliás, considere-se que a qualidade do jogo que se joga, individual e coletivamente, possa sim ter relação muito importante com o sentido que se dá à vida que se vive.

Mas não nos esqueçamos que mesmo o sistema de ideias é dependente de uma certa harmonia do sujeito. Sabendo disso, não me surpreende nem um pouco, embora me sensibilize bastante, a carta do Cesare Prandelli, que se demitiu da Fiorentina na última terça-feira. Embora ele não seja suficientemente claro sobre os problemas que enfrenta, deixa nas entrelinhas se tratar de algo emocional, razoavelmente profundo e eventualmente grave. Enquanto isso, a Fiorentina amargava apenas o décimo quarto lugar na Serie A italiana. De um ponto de vista simplista, não seria difícil atribuir uma suposta falta de ideias ao Prandelli – mas considerando o todo, será mesmo que uma análise dos comportamentos tático-técnicos da equipe, por mais minuciosa que fosse, daria conta da complexidade do problema? Não me parece.

Este é um terreno importante, que tangenciei na semana passada, que é o terreno da humanização do treino e do jogo de futebol. Vejam bem, o futebol não é um mundo à parte do mundo da vida, é parte inseparável da vida que se vive. E especialmente a partir do final do último século, foi se criando com ainda mais força essa noção de que nós, pessoas humanas em movimento, devemos ser sujeitos de performance: vejam, por exemplo, a facilidade com que se reproduz esse discurso da produtividade doentia – com seus rituais mirabolantes – assim como a facilidade com que naturalizamos, de alguma forma, a noção de que somos empresas de nós mesmos, cuja finalidade última é nos garimparmos cada vez mais.

Numa sociedade de performance, tudo aquilo que não é performático não será apenas questionado, mas será excluído – ou, numa linguagem moderna, convidado a se reciclar, como se recicla um resíduo qualquer. É precisamente aqui que se encontra a importância da humanização, não apenas porque as circunstâncias do mundo estão nos fazendo esquecer de como se trata gente como gente (e vocês sabem muito bem as coisas que se passam no futebol) mas também porque grande parte do jogo que joga e da vida que vive, como estávamos dizendo, estão para além do controle humano. Tendo em conta que um dos braços desse sistema é o individualismo, a partir de uma profunda convicção de que as vontades individuais são capazes de controlar as vontades do mundo, não surpreende que, diretamente ou não, façamos leituras tão individuais no futebol: se um dado jogador não rende, talvez seja porque não quer. Se uma dada equipe não rende, num futebol tão demasiadamente marcado pelas ideias (como faziam os cartesianos, diga-se), é porque elas eventualmente estão em falta.

Mas, lembrem-se, talvez não seja exatamente isso.

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Sobre o controle do jogo jogado e o papel da intuição

Crédito imagem: Redes sociais/Marco Van Basten

Há poucos dias, o diário El País publicou uma entrevista bastante agradável com o holandês Marco van Basten, um dos grandes jogadores da sua geração e de todos os tempos, na qual ele comenta, com alguma nostalgia, sobre o futebol da sua época de jogador e particularmente da lesão que o levou à breve retirada dos gramados, ainda jovem. Na mesma entrevista, van Basten faz alguns comentários muito interessantes, embora não exatamente populares, sobre a sua visão do futebol que se pratica hoje em dia – mais especificamente sobre o papel da intuição nos jogadores de elite e sobre a real influência dos treinadores no desenvolvimento de atletas e na organização de equipes competitivas. Vamos conversar um pouco mais sobre isso.

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Aqueles que acompanham há mais tempo a produção do professor Alcides Scaglia, provavelmente já se depararam com uma observação, que já foi pauta de algumas das nossas conversas, na qual ele defende a importância de devolver o jogo ao jogador. Se levarmos em conta que pelo menos as duas últimas décadas trouxeram uma grande mudança na natureza do nosso entendimento sobre o futebol de elite – mudança talvez sintetizada numa transição mais consistente do centro do debate, dos talentos individuais para a organização coletiva -, não surpreende que hoje nos seja normal dar cada vez mais peso ao nosso ofício de treinadores e treinadoras. Deliberadamente ou não, fazemos isso de um modo que os jogadores passem, de fato, a serem vistos como secundários, dependentes das decisões dos treinadores. Sobre isso, van Basten disse uma coisa interessante, que cito em tradução livre:

“Hoje se uma equipe joga bem ou mal, atribuímos ao treinador. E realmente não sei qual é a influência do treinador. Pouco a pouco, temos esquecido do verdadeiro papel que têm os jogadores. O LIverpool é Klopp, o Madrid é Zidane, o City é Guardiola…”

No dia anterior à publicação deste texto, Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, deu uma excelente entrevista ao Seleção Sportv. Num determinado momento, disse algo como ‘vocês atribuem tudo ao treinador’ – fazendo evidentemente uma observação à imprensa, mas não apenas – o que não deixa de ser verdade, nós de fato nos acostumamos a atribuir tudo ao treinador, e não deixa de sê-lo, também, por um efeito colateral daquele deslocamento de que falávamos acima: se, por um lado, é muito importante pensarmos o coletivo, por outro é razoável não tropeçarmos na curvatura da vara, de um modo que a capacidade decisória dos jogadores seja completamente escanteada, enquanto as decisões de treinadores e treinadoras passem a carregar um peso (inclusive emocional) cujas repercussões são altamente prejudiciais. Apenas como exemplo, um discurso que transfere todo o peso da performance ao treinador talvez seja patrocinador oficial da cultura de demissões em massa no Brasil.

Curiosamente, o próprio van Basten faz uma referência parecida, quando diz tacitamente que não sentia prazer trabalhando como treinador porque tinha muitas dificuldades em ter o real controle das situações, da mesma forma como não sabia (e diz ainda não saber) qual a real influência de um treinador no rendimento de uma equipe. Não deixa de ser um momento oportuno para se falar disso, porque embora estejamos cada vez mais animados por uma suposta evolução do pensamento e da prática do futebol, tenho a sensação de que estamos nos deixando levar por um tipo de discurso que não é exatamente moderno. Vejam, por exemplo, como tornou-se comum dizer que uma determinada equipe, que por algum motivo não alcança um nível ótimo de performance, é um ‘deserto de ideias’. Aquela transição do individual para o coletivo, cuja repercussão é um sobrepeso da real influência de um treinador, chegou a um ponto em que passamos a realmente acreditar que a performance, seja ela aguda ou crônica, é um reflexo único e exclusivo da qualidade das ideias que a antecedem – logo, se uma equipe não joga bem, só pode ser pobre de ideias.

Não deixa de ser um contrassenso bastante significativo, especialmente num momento em que dizemos valorizar tanto o pensamento sistêmico – e, justamente por isso, nos dizemos defensores do jogo. Ora, a premissa básica do jogo (e isso está em autores basilares da área, como Johan Huizinga e Roger Caillois) é a imprevisibilidade. O jogo tem regras e tem um espaço previamente definido, o jogo é uma espécie de suspensão temporária da realidade (razão pela qual podemos falar num estado de jogo – inclusive como parte importante de um ambiente de jogo e de um ambiente de aprendizagem) mas, junto disso tudo, o jogo é imprevisível. Não bastasse isso, o jogo de futebol ainda se constitui num ambiente de violentíssima complexidade, não apenas pelo alto número de atores envolvidos (e portanto de interações), mas por ser um jogo coletivo de invasão do campo adversário, por ser jogado com os pés ao invés das mãos, por ter uma regra absolutamente genial, como o impedimento, que pode restringir conscientemente o espaço efetivo de jogo – e são todos fatores que deveriam nos levar ao seguinte ponto: embora um determinado conjunto de ideias seja, de fato, importante na articulação da identidade de uma equipe, a complexidade do jogo é tão demasiadamente grande que não apenas não me parece possível atribuir às ideias a responsabilidade por um certo nível de performance (seria uma inferência reducionista de causa/consequência), como também me parece uma certa armadilha cognitiva sobre o real controle que exercemos sobre o jogo jogado e sobre a vida que se vive. Imaginem vocês, por exemplo, o que significa dizer que um sujeito em situação de miséria extrema está onde está por falta de ideias – ou porque ‘não se esforçou o suficiente’. Não parece muito adequado.

Por isso, não deixa de ser importante considerar a fala do van Basten sobre não se sentir no controle – porque o controle é de fato mais uma sensação do que qualquer outra coisa. Aqueles de nós que trabalham com metodologias baseadas em jogos, sejam eles grandes ou pequenos, conceituais ou contextuais, sabem perfeitamente que o jogo, ainda que planejado, não é um experimento meticulosamente controlável. Pelo contrário, nós até podemos definir uma série de condições iniciais, que chamamos carinhosamente de regras, mas depois de submetidas ao jogo, as nossas expectativas se reduzem à uma espécie de aposta. Falei disso algumas vezes e mantenho: é muito provável que o jogo jogue conosco mais do que jogamos com ele, de um modo que o que nos cabe, como treinadores e treinadoras, não é tentar controlar o jogo, mas sim refinar a capacidade de resposta individual, grupal e coletiva aos problemas que ele nos apresenta. Pelo mesmo raciocínio, acho imperativo termos claro que o processo de treino, por mais cuidadoso e sistematizado que o seja (inclusive considerando os riscos da hipersistematização, como escrevi aqui), não deve ser visto como uma espécie de coleira que domestica o jogo – pensamento que, na minha modesta opinião, vai nos levar para o buraco -, mas como uma espécie de aposta, da mesma forma como fazemos diversas apostas (ora intuitivas, ora metódicas) na vida cotidiana. Nosso controle, sabemos bem, tem limites.

Não surpreende, aliás, que cause espanto quando se fala elogiosamente sobre a intuição, como fez o van Basten na entrevista: nós chegamos num ponto tal em que tudo aquilo que fuja de uma certa noção de racionalidade é imediatamente escanteado. Mas será mesmo que a tomada de decisão de um jogador ou mesmo de nós, treinadores e treinadoras à beira do campo, é fruto de extensas deliberações racionais, do chamado sistema descendente (Daniel Goleman), ou é fruto de um caminho mais curto, profundamente intuitivo, inclusive fruto de séculos e mais séculos de evolução antropológica? Em tempos de crenças muito grandes na razão, talvez seja preciso repensarmos o lugar da intuição: a questão é de que modo vamos interpretá-la nos nossos processos formativos. Superestimar a intuição (por exemplo, se a confundirmos com um dom divino – podemos falar disso num outro momento) já se mostrou um caminho inadequado, mas subestimar o papel da intuição na tomada de decisão, especialmente se considerarmos a importância da experiência no seu refinamento, também não me parece um caminho muito fértil para o futebol de hoje e de amanhã.

Seguimos em breve.

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Sobre os desafios do conhecimento e as armadilhas do complexo

Crédito imagem – Site Manchester United/Divulgação

Nos últimos quinze ou vinte anos, mais precisamente depois do surgimento e das extensas publicações sobre um sujeito tão particular como José Mourinho, houve de fato uma mudança significativa no perfil das novas gerações de profissionais do futebol. Me lembro do professor Manuel Sergio – de quem Mourinho foi aluno, diga-se – escrevendo que Rene Descartes, patrocinador oficial do racionalismo, promoveu uma espécie de corte epistemológico no pensamento moderno, e me parece que o Mourinho, obviamente guardadas as devidas proporções, também marca uma espécie de corte, menos epistemológico e mais geracional. De forma bastante sucinta, acho que a ascensão do Mourinho trouxe consigo ao menos duas grandes mudanças: I) passou-se a acreditar, de maneira mais concreta, que formar-se profissional do futebol não dependia especialmente da empiria, da experiência adquirida (como atleta, por exemplo) ao longo do tempo, mas tem uma variável importantíssima de episteme, conhecimento adquirido a partir do estudo diligente do jogo de futebol; e II) passou-se a acreditar, de maneira muito mais concreta, que era possível tornar-se um treinador de excelência, em nível internacional, ainda muito jovem. A rápida ascensão de Pep Guardiola, poucos anos depois, inclusive como uma espécie de contraponto ideológico do próprio Mourinho, reforçaria este ponto.

A literatura que se produziu desde então – vejam as biografias do próprio Mourinho, por exemplo – traz para o debate, de um ponto de vista bastante prático, isso que chamamos de complexidade: qualidade daquilo que é tecido junto. O pensamento complexo não é exatamente uma novidade na história do pensamento, mas não deixa de representar uma ruptura importante no pensamento e na prática do futebol: seja a partir das metodologias de treinamento (e aqui, acho particularmente importante citar os microciclos estruturados, via Paco Seirul-lo, que são um contraponto velocíssimo à periodização dos russos, bastante voltadas para as modalidades individuais/olímpicas), seja pelo entendimento inseparável das fases do jogo de futebol, ou mesmo pelas tentativas de estruturação multi/inter/transdisciplinar de determinados clubes – com todas as dificuldades que isso implica e também com toda a distância que existe entre o falar e o fazer. São pelo menos alguns dos exemplos concretos disso que chamamos, especialmente por herança do Thomas Kuhn, de mudança de paradigma. 

Mas repare também nas armadilhas deste processo: por exemplo, é bastante difícil articularmos um pensamento e uma prática complexas se não cuidarmos, muito atentamente, das relações todo-partes. No livro Cabeça Bem-Feita, que inclusive indico como uma introdução ao tema, o Edgar Morin apresenta sete princípios para uma reforma do pensamento ou, como ele mesmo escreve, “sete diretivas para um pensamento que une; (…) princípios complementares e interdependentes”. A título de curiosidade, falamos do princípio sistêmico, princípio hologrâmico, princípio do circuito retroativo, princípio do circuito recursivo, princípio da autonomia/dependência, princípio dialógico e, por fim, o princípio da reintrodução do conhecimento em todo o conhecimento. Não vamos nos estender em cada um dos princípios aqui, mas me permitam citar novamente uma passagem absolutamente fundamental do Blaise Pascal, nas suas Meditações, que ilustra muito precisamente o ponto do Morin e de qualquer um de nós que deseje articular um tipo de pensamento e de prática vinculado a um outro paradigma:

“Como todas as coisas são causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e todas são sustentadas por um elo natural e imperceptível, que liga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes.”

Se nos propusermos a adotar pensamento e prática complexos, seja a partir da simultaneidade das variáveis táticas, técnicas, físicas e mentais no processo de treino, seja pela interpretação de padrões individuais, setoriais e coletivos a partir da união e não da separação, ou mesmo se adotarmos uma prática que reconheça os infinitos constituintes de cada uma das pessoas que compartilham conosco as rotinas de trabalho e de vida, sejam atletas, comissão, gestores e imprensa, que são um mundo de razão, paixões, crenças, hábitos e vontades absolutamente particulares, se nos propusermos de fato a um fazer complexo (ao invés de um mero falar complexo), então precisamos ter claras não apenas a impossibilidade de separação todo-partes como também o risco, cada vez maior, de nos afogarmos em discursos e práticas que percam a noção de falibilidade (ou seja, precisamos confrontar as nossas próprias certezas) mas especialmente discursos e práticas que nos façam confundir o saber das partes com a hiperespecialização.

Por exemplo, se me proponho a fazer a análise de um gol, desde o instante em que minha equipe recuperou a posse a da bola até o instante em que a bola ultrapassa a linha, será que é realmente prudente dizer que há uma ou duas causas específicas que determinam o gol? Será que é de fato possível afirmar que a causa do gol foi, digamos, a localização do nosso lateral-direito, que controlou a profundidade 1m abaixo do ‘ideal’, orientação corporal levemente imprecisa, flexão de joelhos cerca de 3° abaixo da ‘ideal’ (portanto, num centro de gravidade ligeiramente mais alto), de um modo que não lhe foi possível responder precisa e imediatamente ao movimento do ponta, disposto a 1m da linha lateral (para atrair o lateral e eventualmente criar uma lacuna entre lateral e zagueiro – dano intrasetorial na primeira linha de defesa), cuja recepção orientada, com o pé mais próximo do gol e no sentido oposto ao movimento do marcador, superou um oponente e atraiu mais uma vez, por um breve instante, a atenção do zagueiro central e também de um dos volantes – será que é de fato prudente afirmarmos que foi aquela primeira ação do lateral, um metro distante do ‘ideal’, que justifica um gol ocorrido dez ou quinze segundos depois, portanto antes da ocorrência de pelo menos mais de uma centena de ações individuais, setoriais e coletivas? A meu ver, é justamente esse o desafio do conhecimento, especialmente quando se propõe a ser complexo: é claro que os pormenores do jogo de futebol são absolutamente importantes e não deixam de ser basilares para todos nós que trabalhamos na área, cada um no seu contexto. Mas também considere, inclusive da forma como descrevi o exemplo acima, que o particular não existe dissociado do geral (ou, se você preferir, que os sub-princípios não existem dissociados dos princípios) e que a fronteira que separa o pensamento complexo de um pensamento especializado, ainda que sob nova roupagem, pode ser muito mais tênue do que pensamos. Sobre isso, aliás, me permitam citar novamente o Morin, no mesmo livro a que me referi anteriormente, agora sobre os riscos de um pensamento hiperespecializado:

A fronteira disciplinar, sua linguagem e seus conceitos próprios vão isolar a disciplina em relação às outras e em relação aos problemas que se sobrepõem às disciplinas. A mentalidade hiperdisciplinar vai tornar-se uma mentalidade de proprietário que proíbe qualquer incursão estranha em sua parcela de saber. Sabemos que, originalmente, a palavra “disciplina” designava um pequeno chicote utilizado no autoflagelamento e permitia, portanto, a autocrítica; em seu sentido degradado, a disciplina torna-se um meio de flagelar aquele que se aventura no domínio das ideias que o especialista considera de sua propriedade. (p.106)

Por isso, o cultivo de um outro pensamento e de uma outra prática no futebol serão tanto melhores quanto menos perdermos de vista que as partes só são possíveis em relação com o todo, assim como o todo só é possível em profunda relação com as partes (que também são relação, e não mera soma). De um ponto de vista do falar, não parece tão difícil. Mas, de um ponto de vista do fazer, me parece que ainda precisamos nos cuidar muito, não apenas para não cairmos nos mais diversos tipos de armadilhas cognitivas, que estão sempre à espreita, mas especialmente para reconhecermos que ainda sabemos muito pouco, e que portanto há um enorme caminho pela frente caso queiramos, de fato, falar e fazer do futebol e da vida que se vive uma obra de união – e não mais de separação.

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Qual o lugar da experiência na formação de treinadores e atletas?

Crédito da imagem: FC Bayern/Divulgação

Não faz muito tempo, nós começamos aqui uma série sobre o processo de articulação de filosofias de treinadores – de futebol, mas não apenas. Ali, apresentei um pouquinho do meu entendimento sobre as filosofias, porque elas devem ser pensadas no plural, ao invés do singular, e de que forma isso pode se converter em práticas mais refinadas.

No texto de hoje, gostaria de falar um pouco mais disso, mas agora tratando de um outro ponto, não apenas importante na articulação de filosofias, mas na própria formação de treinadores e de atletas de futebol: a experiência. Mais precisamente, gostaria de apresentar uma outra forma de pensar e de sentir a experiência e de que modo essa outra forma de pensar e de sentir pode ser decisiva nos nossos processos formativos.

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O termo experiência não é novo, muito pelo contrário: é uma palavra relativamente batida não apenas na literatura mais científica de formação de treinadores, mas também nas nossas práticas cotidianas. Outro dia mesmo, assistindo a um comentário do Jamie Carragher, ex-zagueiro do Liverpool e da seleção inglesa, o via dizer que grandes treinadores do futebol internacional só chegam ao mais alto nível pelo elevado grau de experiência acumulado. Não deixa de ser um pensamento com o qual todos nós simpatizamos de alguma forma: pessoas experientes teriam um grau de conhecimento que pessoas menos experientes, por sua vez, não têm.

Este sentido de experiência, a que o Carragher se refere, está muito claramente associado à uma noção mais clássica de experiência: perícia adquirida a partir da prática sistemática de uma certa atividade ao longo do tempo. O sujeito experiente, via de regra, é aquele que acumulou horas e horas e horas de prática em uma atividade bastante específica, e são as horas de prática naquela atividade que o fazem chegar aos mais altos degraus de performance. Um pianista, como repetimos naquele exemplo já batido, não se faz pianista correndo em volta do piano, mas tocando piano por milhares de horas. Na literatura científica, especialmente a partir do trabalho do sueco Anders Ericsson, é isso que se chama de prática deliberada, cujo grau de especificidade é bastante razoável. Um livro que populariza bem esse conceito é o Fora de Série, do Malcolm Gladwell – onde aparece, com exemplos famosos, a hipótese das dez mil horas de prática para se chegar à excelência.

É bem verdade que certas atividades exigem um grau de especificidade maior do que outras. Muito bem, qual seria o grau de especificidade do futebol? No bom livro Range (traduzido no Brasil como ‘Por que os generalistas vencem num mundo de especialistas’), o também jornalista David Epstein nos dá uma pista interessante: segundo ele, citando um psicólogo chamado Robin Hogarth, haveria basicamente dois tipos de ambientes: ambientes generosos e ambientes perversos. Os ambientes generosos seriam aqueles nos quais a experiência, de um ponto de vista clássico, pode ser suficiente: a prática hiperespecializada permite o reconhecimento intuitivo de um determinado número de padrões repetitivos (pense no jogo de xadrez, por exemplo). Por outro lado, nos ambientes perversos, o nível de complexidade parece tão demasiadamente elevado que a prática especializada, ao invés de facilitar, limita a aprendizagem. Segundo o próprio Epstein:

“Quando conhecemos as regras e as respostas, e elas não mudam com o tempo – xadrez, golfe, música clássica -, podemos defender a prática hiperespecializada ao estilo de gênio desde o primeiro dia. Mas esses são modelos pobres para a maioria das coisas que os humanos querem aprender.”

Quando pensamos num autor como Claude Bayer, muito importante no nosso entendimento pedagógico dos Jogos Esportivos Coletivos, e mais especificamente na noção de habilidades fechadas e habilidades abertas – sendo as abertas aquelas que florescem em ambientes de elevado grau de incerteza e complexidade – fica mais ou menos claro em que ambiente se encontra o futebol e onde nós, profissionais do futebol, devemos nos encontrar.

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Embora a experiência possa sim ser a perícia adquirida pela prática sistemática, pode ser que não seja apenas isso. Na verdade, de um ponto de vista histórico, a palavra experiência foi sendo modelada e mesmo banalizada pelo uso constante. No mestrado, buscando referências que me ajudassem a pensar o futebol de outras formas, encontrei um autor maravilhoso, chamado Jorge Larrosa, que apresenta uma outra interpretação para a experiência: ao invés de prática sistemática, a experiência seria ‘isso que me passa’. A experiência, em primeiro lugar, não seria exatamente uma consequência das escolhas do indivíduo, mas sim um acontecimento externo, alheio à nossa vontade e aos nossos saberes e, mais especificamente, um tipo de acontecimento que não pode ser produzido ou fabricado por nenhum de nós – essa, diga-se, é a diferença entre experiência e experimento. Em segundo lugar, a experiência tem uma dimensão de ida e de vinda, um certo caráter reflexivo: embora venha de fora, ela só pode se fazer em nós, enquanto sujeitos. Por fim, repare que o corpo seria uma espécie de território de passagem da experiência, daí que a experiência tenha um viés pedagógico, não exatamente pelo número de supostas experiências que se têm, mas pelo sentido que somos capazes de dar às experiências, porque elas nos deixam uma espécie de marca, de cicatriz. No mestrado, aliás, estudei exatamente a importância dessas cicatrizes nos nossos processos de articulação de filosofias de treinadores de futebol.

Reparem que são de fato duas visões muito diferentes da experiência, e que as diferenças entre elas residem num ponto muito simbólico: se, de um lado, a experiência é vista de um ponto de vista quantitativo (horas de prática) do outro ela é vista de um ponto de vista qualitativo (sentido). É simbólico porque vai no coração de vários dos temas que são tão importantes em ambientes como a própria Universidade do Futebol: para citar dois exemplos, o pensamento complexo nos mostra que não basta saber mais – é preciso saber melhor, religar os saberes (Morin). Do treinamento, sabemos que a carga não é mais apenas física, é também tático-técnica e mental, ao mesmo tempo, e que tão ou mais importante do que o volume é a intensidade: a qualidade dos estímulos, de um ponto de vista individual e coletivo.

Mas para se fazer experiência, desse outro ponto de vista, mais qualitativo, é preciso fazer uma outra inversão: se a experiência, enquanto prática sistemática, presume uma afirmação das nossas próprias vontades, dos nossos saberes e poderes, por outro lado a experiência enquanto isso que me passa só pode acontecer se estivermos abertos: o sujeito demasiadamente fechado, seguro de si, que se sente poderoso e até mais forte do que a própria vida, dificilmente será capaz de fazer experiência, porque a experiência presume exatamente o contrário – um razoável grau de modéstia (especialmente de um ponto de vista do conhecimento, saber que não se sabe de tudo) e especialmente um reconhecimento das próprias fraquezas e limitações. Se você preferir: o sujeito da experiência é, necessariamente, frágil. E de um modo que é da fraqueza que nascem as suas próprias forças.

Afirmações como a do Carragher, que citei acima, não estão de todo equivocadas: em certas atividades, é de fato preciso ter muitas horas de prática para apresentarmos um certo grau de perícia. Mas, no caso de ambientes como o do futebol, o tipo de habilidades que nos são requeridas são outras, muito mais abertas do que fechadas, o que significa que é perfeitamente possível tornar-se experiente sem um elevado número de horas de prática num determinado contexto: veja, por exemplo, o que fizeram nos últimos vinte anos sujeitos como José Mourinho, Pep Guardiola (ambos absolutamente inovadores ainda muito jovens), André Villas-Boas, Julian Nagelsmann e mesmo um sujeito como Hans-Dieter Flick – não exatamente jovem de um ponto de vista clássico, e mesmo assim supostamente inexperiente como treinador principal num gigante como o Bayern de Munique. E vejam o exímio e corajoso trabalho (o que dizer do comportamento agressivo da linha de quatro na fase defensiva?) feito por ele até agora. Embora inexperiente de um ponto de vista tradicional, quantitativo, Flick provavelmente soube dar um sentido muito refinado ao que se passou na sua vida – e talvez fosse muito ‘experiente’ como treinador principal sem sabê-lo.

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Algumas das possíveis relações entre a experiência, enquanto isso que me passa, e a formação de treinadores e treinadoras estão apresentadas neste artigo, em que faço uma introdução ao tema. O curioso é que esse tipo de inquietação veio menos de curiosidades teóricas do que das minhas próprias experiências como treinador, a partir das apostas que vamos fazendo na prática. E isso, na verdade, tem um caráter duplo: ao mesmo tempo que foi me ficando visível que a experiência não era necessariamente a prática sistemática e hiperespecializada, também vai me ficando visível que pensar a experiência de uma outra forma tem repercussões fundamentais no processo de formação de atletas.

Por exemplo, um processo pedagógico que considere o saber da experiência precisa ter claro que a experiência nunca é universal – mas sempre subjetiva. Ou seja, ainda que tenhamos os mais refinados processos pedagógicos e metodológicos, não podemos perder de vista que, numa mesma situação, para dois jogadores diferentes, pode ser que nenhum dos dois faça experiência ou que, então, ambos façam experiências absolutamente diferentes. Um mesmo jogo, de 6×6+2, num espaço de 30x20m, será absolutamente diferente para cada um dos 14 jogadores envolvidos. Ter em conta esse grau de subjetividade de experiência – que não deixa de se relacionar, de alguma forma, com o princípio da individualidade biológica – e fazer dele concreto, a partir do ensino e aprendizagem de estratégias mais refinadas para se dar sentido às experiências que se faz (e vejam que aqui me atenho apenas às experiências no ambiente de treino, ainda não falamos das experiências de vida) é um problema absolutamente importante a ser solucionado no planejamento, aplicação e avaliação das nossas sessões de treino e no desenho dos nossos processos pedagógicos. Aqui também aparecem, por exemplo, as relações todo/partes, de que tanto falamos a partir das consultas do Edgar Morin.

Pensar a experiência de uma outra forma não nos fará campeões de nada de um dia para o outro. Mas provavelmente nos fará pensar melhor. E são esses movimentos, como bem sabemos, que refinam o pensamento, o sentimento e especialmente a prática do futebol – de hoje e de amanhã.

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Sobre a cultura da competitividade nos ambientes de treino

Crédito imagem – Rodrigo Coca/Agência Corinthians

Não há muitas dúvidas de que o processo de treino tem (e precisa ter) relações diretas com o jogo formal de futebol. É bem verdade que ainda não está claro que essas relações, ainda que diretas, ocorrem em diversos graus: por exemplo, para dois microciclos idênticos, inclusive dentro de uma mesma metodologia, os resultados podem ser completamente diferentes. Dentre outros motivos, isso acontece pela subjetividade do humano – cuja significância é inquestionável -, pelo caráter sistêmico do jogo de futebol – a partir do qual não cabem simples relações de causa/consequência – mas especialmente pelo ambiente no qual se desenvolve o processo de treino: em ambientes saudáveis, e digo isso de um ponto de vista humano, não raro o treino tende a ser melhor do que em ambientes doentios, nos quais a qualidade das relações não se sustenta.

Dentre as características que fazem dessas relações mais leves ou tensas, me permitam tratar de uma delas, em particular: a competitividade. Não sei vocês, mas a experiência tem me mostrado que a criação de determinados hábitos individuais e coletivos será tanto melhor quanto mais alto for o nível de competitividade de um dado processo de treino – especialmente durante a fase de especialização esportiva (entre cerca de 15 a 20 anos). Isso significa, inclusive, que pode haver uma relação hierárquica entre as duas coisas: de nada adianta sabermos dos mais elaborados conteúdos de jogo se, antes disso, não soubermos criar ambientes nos quais apareçam repetidamente os conteúdos macro e micro que nos interessam, mas também ambientes que sejam tão ou até mais competitivos do que a própria competição que se sucede no jogo (lembrando, evidentemente, do treino como jogo e do jogo como treino).

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Bom, para cultivar ambientes competitivos de um ponto de vista do treino, acho importante citarmos o lugar da pedagogia. O cultivo de ambientes competitivos pode perfeitamente ser incidental, mas caso deseje ser intencional, precisa caminhar junto da didática e do método. Isso não significa que a criação de ambientes competitivos aconteça a partir da decoração pura e simples de determinadas metodologias de treinamento, como um ator decora um texto, ou pela mera reprodução de determinadas estratégias didáticas, mas sim que o nível de competitividade do processo de treino depende da aplicação particular e subjetiva dessas duas variáveis pedagógicas na constante relação com o ambiente. O método, como nos revela a origem da palavra (do grego méthodos), é o caminho, o percurso a partir do qual um certo objeto é e será tratado ao longo do tempo. A didática, como escreve a respeitabilíssima Selma Pimenta neste artigo, tem como objeto a prática social do ensinar – o que vai absolutamente ao encontro das exigências do futebol, notadamente pela profunda complexidade do ato de ensinar, que está para muito além de qualquer tipo de mecanicismo.

Portanto, reparem que a criação de um ambiente competitivo não está unicamente sob o domínio da incerteza – embora esteja claramente permeada por ela, como ocorre em todos os sistemas complexos. Uma rápida lembrança da obra do professor Alcides Scaglia e veremos que há pelo menos dois objetivos que o pedagogo (leia-se, o treinador) deve perseguir: o surgimento de um ambiente de jogo e de um ambiente de aprendizagem – este artigo trata bem de ambos. Mas também considerem a importância disso que chamamos de estado de jogo – onde me parece estar, de alguma forma, a gênese pedagógica de um estado competitivo. Sobre isso, vale uma citação do próprio Alcides (no livro O jogo dentro de fora da escola, de 2005), sobre a diferença do jogador que alcança o estado de jogo, enquanto liberação da potência humana:

“(…) Ou seja, aquele que jogando não cumpre apenas um papel formal do jogo como atividade (ataque e defesa), mas realiza uma experiência de estado de jogo – jogar plenamente, engendrando formas particulares de interação entre o organismo e o ambiente, em uma dimensão de tempo histórico, evidenciando um caráter paradoxal de entrega e inutilidade aparente.”

Portanto, aqui traçamos uma linha importante do ponto de vista metodológico: há sim uma relação importante entre o cultivo de estímulos competitivos com a metodologia de treinamento adotada. O treino que parte especialmente da técnica como fundamento pode perfeitamente criar situações de competitividade, mas talvez não consiga fazê-lo com a mesma largura e profundidade do que as metodologias nascidas e criadas no jogo – dentre outros motivos, pela natureza complexa do ato de jogar. 

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De um ponto de vista mais micro, uma estratégia que tenho adotado há algum tempo na Elleven Academy – e sei que é do agrado de outros colegas – é o que o colega Eduardo Barros apresentou, em coluna nessa mesma UdoF, como Planilha de Aproveitamento. Basicamente, trata-se do seguinte: cada um dos jogos realizados ao longo da semana de treino vale um determinado número de pontos. Esses pontos podem variar de acordo com a importância do jogo dentro do microciclo, tanto de um ponto de vista fisiológico quanto de um ponto de vista tático-técnico. Os pontos vão se somando, de um modo que geram uma espécie de classificação – sempre tornada pública para os atletas. Com isso, é possível observar padrões de rendimento tanto de um ponto de vista semanal ou mensal, mas também o aproveitamento dos atletas ao longo de vários meses, o que passa a ter maior valor estatístico. No meu caso, ainda proponho que a equipe que somar mais pontos naquela sessão de treino vai direto para o descanso, enquanto que a equipe derrotada (ou as equipes, no caso de três ou mais times) ainda cumpre mais uma tarefa física previamente estipulada.  

Por um lado, de fato a adoção de um controle pedagógico do aproveitamento dos atletas em cada jogo aumenta substancialmente a intensidade do treino. Me arrisco a dizer que um estudo com dois grupos diferentes, um deles sob intervenção dessa estratégia e outro não, provavelmente traria indicadores fisiológicos favoráveis ao primeiro. Mas além de um ponto de vista fisiológico, minha sensação é que a profundidade do estado de jogo decorrente dessa estratégia pedagógica é um grande facilitador na implementação de comportamentos de jogo. Por exemplo, se percebo uma certa morosidade na mudança de atitude em transição defensiva, a adoção de jogos que estimulem a mudança de comportamentos em transição, nesse tipo de ambiente, me parece mais profunda do que a mesmíssima intencionalidade num ambiente distinto. Também noto um envolvimento muito maior dos garotos, especialmente dos que estão descansando num determinado momento (num jogo conceitual qualquer, com número reduzido de atletas), o que permite outra capacidade importante, que é a do jogador externo ao jogo manter-se envolvido ainda que não como jogador – avaliando o que se passa no jogo, especialmente de um ponto de vista tático, podendo depois relatar a mim e à comissão o que viu. 

Como uma ressalva, observo o seguinte: embora a adoção desse tipo de estratégia possa de fato aumentar substancialmente o nível de competitividade de um determinado grupo, especialmente naqueles onde parece haver um certo grau de conformismo e relaxamento, é importante cuidar do ambiente para que a competitividade não se transforme em agressividade crônica. Embora me pareça muito importante, de um ponto de vista humano, que o treino seja um espaço de liberação de tensões emocionais, é importante cuidar da linha tênue que separa uma coisa da outra, pois quanto maior o nível de agressividade, menor me parece a capacidade de absorção daqueles conteúdos de jogo de que falávamos. Dai que seja preciso encontrar um estado ótimo de competitividade – o que não acontece por fórmulas objetivamente inventadas, mas sim pela sensibilidade pedagógica do treinador ou treinadora.

Seguimos em breve.

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Sobre as relações entre a coragem e o rendimento

Ainda durante o jogo entre Palmeiras x Tigres, pela semi-final do Mundial de Clubes da FIFA, por mais de uma vez ouvi uma afirmação que me parece bastante perigosa e que, de alguma forma, pode ser discutida: algo próximo de que o Palmeiras não jogaria bem por uma suposta falta de coragem, que a falta de coragem teria contribuído para uma suposta falta de ‘ideias’ e que a falta de coragem seria uma das características presentes em diversas equipes, especialmente as brasileiras, quando em jogos decisivos. Bom, vamos conversar um pouco sobre isso.

Em primeiro lugar, não custa nada pensarmos sobre o que falamos quando falamos de coragem. Vocês sabem que coragem é uma palavra que vem do francês courage, que por sua vez tem origem no latim cor – faz referência ao coração. Assim, podemos pensar no sujeito corajoso como aquele que atende espirituosamente aos próprios sentimentos (o que, no futebol, não deixa de ser algo extremamente interessante, uma vez que está cada vez mais capilarizada a ideia da razão, a partir, por exemplo, de uma ocupação racional dos espaços, noção que trabalhei neste texto). Muito embora, no nosso imaginário, o sujeito corajoso seja aquele que enfrenta todos os desafios, sem qualquer traço de temor, há outras variáveis a se considerar: o próprio Aristóteles, cuja ética se apoiava na justa medida, entendia que a coragem, ao contrário do que se pensa, não é o extremo oposto da covardia – a coragem seria o meio-termo entre a covardia e a temeridade. Embora não seja covarde, o sujeito corajoso também não é imbecil, sabe das forças que têm, mas também sabe muito bem das forças que lhe escapam.

Se a coragem não é tão simples quanto parece para um sujeito apenas, o que dizer de uma equipe de futebol? Já não é mais propriedade privada a noção de que as relações de uma equipe de futebol estão muito próximas das de um sistema aberto, cuja comunicação não acontece exatamente por princípios de causalidade (relações de causa/efeito), mas talvez por princípios de complexidade – da qualidade daquilo que é tecido junto. Para que uma equipe não fosse corajosa, pelo menos num sentido mais pragmático do termo, seria preciso uma enorme dose de reducionismo (como se os jogadores todos tivessem uma mesmíssima capacidade de interpretação de uma determinada instrução), mas também e especialmente uma enorme capacidade de persuasão do treinador, como se treinadores fossem sofistas, cuja oratória é tão violentamente magnética que praticamente hipnotiza o vestiário inteiro – elevando à enésima potência aquelas habilidades sociais da qual o Julian Nagelsmann tanto fala.

Além disso, não deixa de ser um erro importante achar que a coragem (ou a falta dela) tem relação direta com determinadas estratégias ou mesmo com determinados modelos de jogo. Por exemplo, existe uma noção de que equipes que tendem à defesa são quase que automaticamente covardes. Só que de um ponto de vista prático isso não se sustenta. Vamos pensar, por exemplo, no Atlético de Madrid, comandado nos últimos dez anos pelo Diego Simeone: todos sabemos que o modelo de jogo do Atletico passa por um sistema defensivo muito forte, por muitas vezes baseado em bloco médio/baixo, oscilando entre oito, nove ou até mesmo dez jogadores atrás da linha da bola – mas mesmo assim uma equipe muito agressiva, muito ativa de um ponto de vista defensivo (inclusive elevando as qualidades defensivas de vários jogadores que nasceram mais vocacionados para o ataque, como Saúl Ñiguez e Koke), que certamente jamais, em nenhuma hipótese, poderia seria chamada de covarde mesmo pelo mais relapso espectador de futebol. Pelo contrário, eu até diria que equipes mais especulativas, que nitidamente se defendem a partir da posse da bola (e não abrindo mão dela), possam ser tidas como covardes pelo simples fato de não cederem instantaneamente aos impulsos de ataque.

O problema é que esse tipo de relação direta entre o rendimento pontual em um determinado jogo e uma determinada postura ética (de coragem, covardia ou qualquer outra coisa) não dá conta da complexidade do jogo de futebol, de que falávamos acima. Conversamos sobre isso diversas vezes, mas nunca é pouco lembrar que o jogo de futebol é, antes de tudo, um jogo, é um espaço de incerteza e de imprevisibilidade, norteado por regras muito bem definidas, por um espaço próprio e por um tempo próprio – que é diferente do tempo cronológico. Sendo o jogo de futebol um jogo coletivo e um jogo coletivo de invasão, o nível de complexidade aumenta violentamente – inclusive de um modo em que talvez a nossa capacidade de compreender o jogo na sua plenitude seja muito menor do que imaginamos, porque o que se consegue ver no jogo de futebol é apenas um fragmento de tantas outras forças sutis e implícitas que vão se relacionando no campo de jogo. Há um campo de forças do jogo de futebol que é visível, que pode ser capturado pelos olhos, mas há um outro campo de forças, um campo de relações entre companheiros, entre companheiros e adversários, entre companheiros, adversários e a bola, enfim… há um campo de forças que escapa completamente das nossas percepções, e que muitas vezes, curiosamente, só pode ser captado pelo coração, só pode ser sentido (por isso, defendo que a nossa formação como profissionais do futebol não seja única e exclusivamente racional, muito pelo contrário, seja também uma educação dos afetos, uma educação de corpo inteiro, como tanto diz o Professor João Batista Freire) e estando na morada dos sentimentos, que é o coração, só pode ser sinônimo de coragem, ao invés do seu contrário.

Embora tenhamos a necessidade e mesmo a tentação de encontrar justificativas que nos permitam dar sentido ao jogo de futebol (e à vida que se vive), é muito importante evitarmos ao máximo os reducionismos de qualquer natureza. Embora seja um elemento muito importante, inclusive enquanto conteúdo de processos de treino, me parece que o que se entende por coragem ainda esteja muito distante de dar conta do resultado pontual de um jogo de futebol.

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Sobre a beleza e a transcendência de uma final

Outro dia, assistindo alguns videos antigos, encontrei um comentário maravilhoso deste grande sujeito que foi o Armando Nogueira, no programa Apito Final da noite que antecede a decisão da Copa do Mundo de 1994, entre Brasil e Itália. Em um minuto de fala, ele diz basicamente o seguinte:

“… uma final é uma transcendência, uma final é uma comunhão. Ela transcende todos esses limites extremamente humanos da técnica, da tática, da física. Essa equipe não é a melhor equipe que no Brasil se poderia formar, do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista físico, do ponto de vista mental (…) me infundem uma confiança muito grande, e sobretudo um jogador, que eu considero estar ungido, que é o Romário.”

Para quem tem um coração em ordem, é muito difícil não se sensibilizar com uma fala dessas, pelo menos por dois motivos. Primeiro, porque não é uma análise puramente objetiva, não é uma espécie de anatomia do jogo de futebol, como agora estamos nos acostumando a fazer: pelo contrário, é uma impressão absolutamente subjetiva, muito mais empírica do que teórica, e justamente por isso é quase que inteiramente poética – é uma compreensão mais do que lúcida sobre o funcionamento de um evento esportivo decisivo. Depois, é uma fala tão importante porque, passados 26 anos, ela praticamente não envelheceu. Além de ter acertado que Romário sairia daquela Copa do Mundo canonizado – sem que tenha sido o astro daquela final, o que nos leva a crer que Romário já estivesse canonizado quando Armando Nogueira disse o que disse, praticamente todas as palavras continuam valendo, para várias equipes diferentes, e uma final continua sendo uma transcendência, uma comunhão, que vai para muito além dos limites extremamente humanos da tática e da técnica e do físico e da mente.

Bom, foi com esse trecho em mente que recebi várias das críticas ao jogo entre Palmeiras x Santos, no último sábado, pela decisão da Conmebol Libertadores. Particularmente, achei muito interessantes as críticas que denunciaram uma certa falta de qualidade estética no jogo, como se uma final precisasse ser um espetáculo surrealista – ou mesmo como se várias das finais recentes de campeonatos importantes tivessem sido jogos inquestionáveis. Onde estávamos em Brasil x Itália em 1994, Espanha x Holanda em 2010, Argentina x Alemanha em 2014 – onde estávamos em Liverpool x Tottenham, em 2019, para citar um exemplo mais recente? Entendo que um jogo dessas proporções cause uma certa expectativa, mas acho curioso como as expectativas que criamos, a partir dos torcedores, da imprensa, e às vezes de nós mesmos, profissionais do futebol, são tão demasiadamente afastadas do real, de um jeito que não seja possível qualquer outro sentimento que não o da decepção – daí a importância da gestão de expectativas, como dizem alguns colegas.

Ao contrário de algumas das denúncias que li, não me parece que o problema estético de um jogo decisivo esteja no fato de ser jogo único. Não é disso que se trata. O ponto mais importante, anterior ao fato de ser jogo único ou não, é o fato de que quando falamos de futebol, falamos de jogo: falamos de um terreno em que reina a imprevisibilidade, a incerteza, falamos de uma espécie de suspensão temporária do real, que cria uma outra realidade (é por isso que, quando jogamos, o tempo passa de uma forma diferente). Quando falamos de jogo, acho que ainda precisamos nos educar no sentido de que as forças do jogo são maiores do que as nossas forças, o jogo não existe para atender as nossas próprias vontades enquanto sujeitos, mas existe para fazer valer as suas próprias vontades enquanto jogo. Quando nos dedicamos ao planejamento, à aplicação e à avaliação de processos de treino, nós precisamos ter em mente que não fazemos isso para controlar, de alguma forma, o jogo que se joga, porque essa é uma batalha perdida na origem: todas as tentativas de controlar o jogo deslizam pelos nossos dedos sem que tenhamos a mínima condição de segurá-lo, de fato. O que podemos fazer, ao menos da forma como eu vejo o treino/jogo, é refinar as nossas capacidades de resposta aos problemas que o jogo nos apresenta. Ou seja, ao invés de treinarmos para controlar o jogo, treinamos para responder, cada vez melhor – individual, grupal e coletivamente – ao jogo que se joga, evitando ao máximo nos apegarmos a qualquer delírio de controle, pois me parece que quanto mais confrontamos a força do jogo, mais ela se impõe sobre nós. É com esse tipo de pensamento que acho que deveríamos encarar, com a mais absoluta naturalidade, que duas equipes bem treinadas – ou equipes ‘ricas de ideias’, para usar um dos clichês da moda – possam fazer um jogo decisivo abaixo da expectativa do público médio.

Como eu mesmo falei em algum outro lugar, existe um texto muito bonito do Nietzsche – que falava de futebol sem saber, diga-se, salvo engano meu no Zaratustra mesmo, em que ele defende que o sentido de um texto não está no texto em si: está na capacidade do leitor em relacionar-se ativamente com o texto que se lê, porque as possibilidades de interpretação de um texto são infinitas – quanto mais refinado e insistente for o leitor, talvez mais amplas sejam as possibilidades de leitura. Digo isso porque, a meu ver, é justamente o que acontece num jogo de futebol. Se olharmos para um jogo de futebol esperando apenas e tão somente analisá-lo, como se ele tivesse um sentido único, universal, inquestionável, sinto que perderemos aquela que talvez seja a grande potência do jogo de futebol, que é a potência do infinito, dos vários jogos dentro de um único jogo, da admissão de todos os olhares possíveis e da importância de fazer com que nosso entendimento sobre o jogo de futebol não seja necessariamente melhor apenas de acordo com a quantidade de conhecimentos que – supostamente- temos sobre o jogo – mas sim de acordo com a nossa capacidade de refinamento dos sentidos que damos ao jogo que se joga.

E é também com essas lentes que acho que poderíamos ler o jogo de sábado, pois o mesmíssimo jogo que pode ter induzido ao sono um ou outro espectador, também pode ter inquietado vários outros, e machucado vários outros, e alegrado vários outros e permitido todo e qualquer tipo de análise, inclusive de um ponto de vista tático – e com esse tipo de olhar, que lê o jogo de corpo inteiro, é que acho que podemos avançar no sentido de uma outra prática, de um outro futebol e de uma outra vida.

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Sobre o processo de treino como poesia e método

Crédito imagem – Lucas Figueiredo/CBF

Muito embora todos nós, treinadores e treinadoras e profissionais do futebol em geral, estejamos nos preparando cada vez mais, muito embora nossas formações sejam cada vez mais recheadas, cada vez mais repletas de informações, eventualmente de conhecimentos (nem sempre de saberes), é claro que nos restam várias dúvidas, vários tipos de questionamentos sobre as nossas próprias práticas. Nós não sabemos de tudo, não saberemos, e as coisas de quem não sabemos nem sempre virão de um livro ou de um amontoado de livros, mas da vida que se vive, da maneira como vamos respondendo à vida que se vive – e portanto do sentido que somos capazes de dar à vida que vivemos todos os dias.

Sobre isso, tem me chamado muito a atenção, na minha própria prática como treinador, o caráter poético que de vez em sempre aparece no processo de treino. Neste momento histórico, em que estamos (ou pelo menos parecemos estar) cada vez mais submetidos ao método e cada vez mais distantes da arte, como se o fato de sentir, ao invés de apenas racionalizar, e o fato de fazer arte, ao invés de apenas e tão somente fazer o que nos diz o método, como se essas coisas fossem um erro, uma bizarrice – mais do que isso, como se pensar o futebol também a partir da arte fosse um retrocesso, como se o cultivar a arte, inclusive pela ampliação dos próprios limites humanos, fosse um delírio, ao mesmo tempo em que a obsessão pelo controle, em todas as suas manifestações, dentro e fora do processo de treino, fosse, essa sim, uma postura sóbria e elogiável. Curiosamente, às vezes sentimos que os delírios de controle da vida cotidiana parecem nos fazer menores e mais cansados, como se tudo o que a vida nos pedisse, para que de fato possamos nos sentir mais vivos, fosse um pouco mais de abertura, de des-controle – de uma forma que novas ordens fossem surgindo naturalmente.

No caso do treino, particularmente me chama a atenção o seguinte: por algum motivo, temos a tendência de acreditar, explicitamente ou não, que um determinado treinamento será tanto melhor quanto mais planejadas, organizadas e sistematizadas estiverem as suas variáveis, sejam as de um microciclo semanal, de um mesociclo, seja de uma sessão de treino, seja de um determinado exercício dentro de uma determinada sessão. Não raro, eu mesmo (e imagino que vários de vocês) me vejo numa espiral de rabiscos e observações que me permitam antever o máximo de possibilidades sobre as coisas que gostaria de propor, ou então que me permitam não apenas tirar o máximo de uma dada atividade, ou de uma dada sessão, tirar tudo aquilo que for possível, como também – e aqui está um ponto fundamental – que permitam que os atletas saiam da atividade mudados, de preferência nitidamente mudados, de um modo que as suas próprias maneiras de sentir e jogar o jogo passem a ser diferentes daquele instante em diante, cristalizando o aprendizado que me sinto na obrigação de estimular numa dada sessão ou ao longo do processo.

Por outro lado, não é possível pensarmos a educação (e portanto, o processo de treino) apenas e tão somente a partir dos nossos desejos de controle. Vocês sabem que uma das variáveis inequívocas da aprendizagem é a subjetividade do aprendiz, o que significa que a apreensão de um determinado jogo, por mais detalhado e meticulosamente planejado que seja, não depende das nossas vontades, como treinadores e treinadoras, mas depende das relações que cada atleta, na imensidão da sua particularidade, é capaz de criar com o jogo que se joga. E mesmo as relações do atleta com o jogo que se joga, mesmo esse tipo de relação aparentemente deliberada, dependente do próprio atleta, na verdade também sofre influência de todo um mundo interno, dos infinitos todos que residem em cada um, de um modo que a constituição de um saber depende sim, em parte, das nossas próprias vontades, enquanto mestres e aprendizes, mas depende também (e talvez especialmente) de um campo de variáveis que estão para muito além do que podemos ver – por isso a importância da **sensibilidade pedagógica**, porque há coisas que nos aparecem mais ao coração do que aos olhos – e, justamente por isso, muito além do que podem agir – são variáveis que carregam uma vida própria.

Por isso, penso comigo até que ponto, principalmente de um ponto de vista pedagógico, o melhor treino seja aquele mais criterioso, meticuloso, absolutamente detalhado, destrinchado, ‘limpo’, ou então se além do critério, do método e da limpeza também não é preciso, dentro do processo de treino, separar uma parte para a incerteza, o descontrole, o improviso, um certo grau de ‘sujeira’, num sentido informal do termo, como acontece exatamente no jogo que se joga: se o jogo é um espaço, por natureza, de descontrole, de imprevisibilidade, de equilíbrios dinâmicos (para usar o termo do Capra), se o jogo é um espaço de caos sobre ordem sobre caos, talvez também seja necessário que os nossos processos de treino, cada vez mais metódicos, mais rígidos, mais inflexíveis, se abram a um certo grau de impureza e de poesia. Como fazer isso? Não sei, não posso dar respostas universais. Ao menos na minha prática, tenho sentido o seguinte: alguns dos melhores treinamentos não são necessariamente os mais regulados e obsessivamente controlados, mas justamente aqueles a partir do quais, por vontade minha, ou por algum elemento do acaso, é preciso ter um grau de improviso (uma mudança de regra, um ou mais atletas lesionados, uma solução inesperada etc etc). Quanto mais nos abrimos ao jogo, me parece que mais ele nos responde.

E talvez por isso valha a pena considerarmos, de uma forma bem subjetiva, de acordo com quem somos e quem gostaríamos de ser, como podemos dar um verniz de poesia ao processo de treino, como podemos acrescentar uma camada de arte ao método, e de que forma isso pode nos fazer não apenas melhores treinadores, treinadoras e profissionais do futebol, como também pode atingir precisamente aquelas camadas de aprendizagem, às vezes tão duras e monótonas, de que falávamos no começo deste texto.

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Como podemos religar os saberes no futebol?

Crédito imagem – Redes sociais Corinthians Feminino/Divulgação

Vocês sabem que um dos temas mais particularmente interessantes do debate, quando pensamos na formação de treinadores e profissionais do futebol em geral, é precisamente o tema da superação do pensamento disciplinar – seja por isso que chamamos de multidisciplinaridade, de interdisciplinaridade, ou mesmo de transdisciplinaridade. Aliás, a Universidade do Futebol, especialmente a partir dos professores João Paulo Medina e Manuel Sergio, trouxe contribuições inestimáveis nesse sentido, numa época em que o simples fato de sugerir um assunto desses estava mais próximo da loucura do que da subversão.

De alguma forma, tratar da superação das disciplinas significa tratar disso que sujeitos como o Edgar Morin chamam de religação dos saberes. Fala-se muito do profissional do futuro, no futebol e fora dele, e vou me convencendo cada vez mais de que o profissional do futuro é meio como aqueles sujeitos do Renascentismo, curiosos e muito inquietos não apenas em um determinado assunto, não apenas numa parte, isolada do todo, mas interessados no todo, buscando ativamente articular as relações entre assuntos supostamente diferentes. Vamos conversar um pouco sobre isso.

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Rápida lembrança histórica: no século XVII, com a publicação da obra de Rene Descartes, particularmente de um livro chamado Discurso Sobre o Método, são fincadas as bases de boa parte do que entendemos hoje por ciência, ao mesmo em que são fincadas as bases de uma forma muito particular de pensamento: no segundo principio de Descartes, é preciso “(…) divisar cada uma das dificuldades, que examinarei em tantas parcelas quanto seja possível e requerido para melhor resolvê-las…”.* Ou seja, se quisermos saber de futebol, por exemplo, precisaríamos reduzir o futebol até à menor parte possível, para então, depois de entender a parte, buscar o entendimento do todo, ainda de uma forma gradativa, pois como segue o próprio Descartes, seria preciso “(…) conduzir meus pensamentos por ordem, começando pelos assuntos mais simples e mais fáceis de conhecer, para atingir, pouco a pouco, como que degrau por degrau, o conhecimento dos assuntos mais complexos…”.*

Para não nos arrastarmos muito, vocês sabem que uma das armadilhas desse tipo de pensamento (ainda que Descartes tenha sido um sujeito absolutamente transgressor para a sua época) é que ele, aos nos fazer transformar o todo em pequenas partes, faz não apenas com que as partes sejam diferentes do que eram antes (porque a perda das relações entre as partes faz com que elas, deixam de ser quem são), assim como o todo, quando religado, torne-se outra coisa, pois o todo não se faz pela simples soma das partes, mas se faz, precisamente, pelas profundas relações existentes entre elas. No todo estão as partes onde está o todo. Querem um exemplo nítido? Via de regra, qualquer substituição no jogo de futebol é tratada como uma mera troca de peças (atenção à palavra que coisifica o jogador, ao invés de humanizar): o problema é que uma substituição não é apenas uma troca de um jogador por outro, é uma mudança brusca em todo o sistema jogo, porque a qualidade das relações que o jogador substituído mantinha é completamente diferente da qualidade das relações do novo jogador, relações com companheiros, adversários e arbitragem, de uma forma que quando se substitui um jogador por outro, não se mexe apenas na parte, se mexe no todo (repare, por exemplo, no impacto violento da ausência de Luciano no atual rendimento do São Paulo).

Quatro séculos depois, à luz do caráter cíclico (e não linear) da história, nos vemos mais uma vez às voltas com o que o próprio Edgar Morin chama de caráter hologramático (em que a parte contém o todo) e complexo (qualidade daquilo que é tecido junto) do saber. Para religarmos os saberes no futebol, ao invés de olharmos apenas de um ponto de vista técnico, físico, tático, mental, objetivo, mensurável, antropocêntrico, ao invés de olharmos para o futebol por apenas uma lente, por uma lente dominante, talvez seja preciso olharmos à luz de uma prática complexa, sistêmica, na qual todos aqueles saberes não estejam des-ligados, separados entre si, mas estejam profundamente ligados, de um modo que não percam as qualidades que os constituem quando estão em relação. Mas como podemos fazer isso de um ponto de vista individual? Bom, talvez seja preciso adotarmos algumas posturas, que podem perfeitamente ter como ponto de partida aquela premissa do filósofo francês Blaise Pascal, que escreveu literalmente o seguinte: “Como todas as coisas são causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e todas são sustentadas por um elo natural e imperceptível, que liga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes.”. Muito bem, vamos citar pelo menos três posturas que nos ajudem a religar os saberes.

Uma postura certamente necessária é uma postura de abertura. O filósofo Gerd Bornheim, num belíssimo livro chamado Introdução ao Filosofar, trata logo de cara do lugar e da importância da abertura – que só pode ser possível a partir do que se chama de admiração, não num sentido abstrato da coisa, mas sim como uma postura prática de reconhecimento da própria ignorância: “No comportamento admirativo o homem toma consciência de sua própria ignorância; tal consciência leva-o a interrogar o que ignora, até atingir a supressão da ignorância, isto é, o conhecimento.” (p.24) Se quisermos de fato religar os saberes no futebol (o que significa religar nossos próprios saberes), se quisermos compreender mais do que meramente julgar, seja quando falarmos do controle da profundidade no momento defensivo ou da grandeza do ângulo Q no membro inferior direito de um determinado atleta, talvez seja importante adotarmos uma postura de admiração, de reconhecimento dos nossos próprios limites, de uma forma que, reconhecendo que nossas ações, por mais embasadas e metódicas que sejam, não deixam de estar no campo da aposta, podemos superarmos a nos mesmos ao longo do tempo.

Em segundo lugar, acho válido pensarmos naquela metáfora do Michel de Montaigne, que mais tarde viraria um título de livro do Edgar Morin: da cabeça bem-feita. Não vamos religar os saberes no futebol se apenas e tão somente nos empanturrarmos com todas as teorias possíveis, se formos leitores do tipo traças (como diz brlhantemente o Alberto Manguel, naquele livro ‘O Leitor como Metáfora’), se fizermos de nós mesmos almoxarifados de todas as informações do mundo – o que não deixa de ser uma armadilha em tempos de internet. A cabeça bem-feita não trabalha em quantidade, trabalha em articulação: ao invés de saber mais, a ponto de saturarmos e até explodirmos, vale mais articular os diferentes saberes a partir daquela abertura de que falamos acima, uma abertura para nós mesmos e para o mundo. Além disso, uma cabeça bem-feita trabalha de um ponto de vista complexo, que considera que tudo mantém algum grau de relação com tudo, de uma forma que ao invés de separar, a nossa postura seja a da união. A religação dos saberes não deixa de ser uma postura ativa de procura entre relações que parecem invisíveis.

Da mesma forma, não podemos deixar de falar da importância da incerteza. Religar os saberes, de alguma forma, é uma estratégia sofisticada de lida com a incerteza do mundo. Especialmente hoje em dia, em que alguns dos delírios da tecnologia estão nos fazendo acreditar, cada vez mais, que é possível manter níveis elevados de controle sobre as nossas próprias vidas e sobre o mundo que nos cerca, como se cada um de nós fosse, de alguma forma, o centro do mundo (o que não se sustenta por um só instante, porque se todos estivermos no centro do mundo, como vez por outra pensamos, ninguém o está, de fato), é muito comum perdermos de vista o lugar da imprevisibilidade, da incerteza, da poesia de versos incertos, de que eu mesmo escrevi por aqui certa vez, que fazem o jogo de futebol e a vida que se vive precisem ser vistos não apenas pelo que são (ou parecem ser), mas pela sua potência, pelo vir a ser, sendo que o vir a ser de uma jogada ensaiada, ou de uma sessão de treino, ou de um jogo decisivo, ainda que depois da mais meticulosa preparação, é uma decisão do próprio jogo – não é nossa. O jogo é mais autotélico do que antropocêntrico: em outras palavras, as vontades do jogo são maiores do que as nossas próprias vontades (os colegas treinadores sabem bem do que estou falando). Os mais bem pensados delírios de controle se derretem quando submetidos à força do jogo.

É claro que não esgotamos o tema por aqui, mas acho que temos um bom caminho para pensarmos a religação dos saberes no futebol se o fizermos a partir da abertura, da articulação de uma cabeça bem-feita e da admissão da incerteza. Com isso, vamos aos poucos nos encontrando com uma outra forma de pensar – e uma reforma do pensamento é certamente um elemento fundamental na religação dos saberes do futebol e no entendimento da vida que vivemos todos os dias.

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Notas sobre Maradona – a vida e morte de um outro futebol

Não sei se vocês sentiram o mesmo, mas há cinquenta dias, com a passagem de Diego Armando Maradona, sinto que não se passou apenas o jogador, ou não se passou apenas a pessoa: foi também a passagem de um certo tipo de futebol, de um certo tipo de sujeito e de uma certa narrativa que também não existem mais: foram implodidos e são quase que impossíveis no nosso tempo. Deixem-me falar um pouco melhor disso.

Uma das coisas que sempre me assustaram no Maradona foi precisamente a sua forma de relação com a bola. Não era uma relação normal – nem entre os próprios jogadores de elite. Era uma relação diferente, como se a bola fosse mais do que uma extensão do corpo, mas como se ela fosse o próprio corpo, como se não fosse possível separar o corpo, enquanto sujeito, da bola, enquanto objeto. A minha aposta é que isso só foi possível porque a relação entre Diego, Maradona e a bola era uma relação de amizade e era uma relação de amor. Os três, juntos, eram de fato uma coisa só. Fruto de um determinado tempo, em que a bola era uma amiga, era uma confidente e também uma companheira no preenchimento da vida de um garoto ou garota qualquer. Mas hoje em dia, vejam bem, a hiperprofissionalização e a guinada do futebol como negócio fazem com que a relação com a bola também se altere: logo cedo, de afetiva, vira uma relação profissional, uma espécie de sociedade. Por isso, não surpreende que os dois maiores gênios da história da bola sejam fruto de povos tão próximos, e de povos em que o afeto tem o seu lugar – às vezes não muito claro, mas sempre sentido, presente. Em tempos de renúncia do afeto, a bola vai mesmo virando mais sócia do que amiga.

Escrevi algo próximo disso outro dia, neste mesmo espaço, quando argumentei que bobinho e rondo são coisas diferentes: o bobinho é um fim nele mesmo, é coisa autotélica, enquanto que o rondo parece mais um meio, uma forma mais metódica de se chegar em algum outro lugar – é teleológico. E talvez esses rondos, que fazemos hoje como herança mais do sucesso do que do método de uma cultura particular, fossem não apenas desconfortáveis, como fossem até a antítese da natureza de um jogador como Diego. Maradona – e reparem que é meio traiçoeiro o que escrevo na sequência – talvez tenha sido mais jogador de bola do que de futebol.

Com a passagem de Maradona, também se vai, de alguma forma, um tipo muito específico disso que se entende como camisa dez. Talvez agora o dez esteja mais número do que marca, talvez o dez seja mais um número entre muitos, e talvez seja um número em busca de si: o significado do dez no campo é um algo meio indefinido, amorfo. Bom, sabemos que esse é um dos produtos do assim chamado futebol moderno: no início do ano passado, aliás, publiquei alguma coisa sobre isso, argumentando que um dos traços desse outro futebol é precisamente o derretimento de diversas fronteiras do campo – dentre elas as fronteiras entre posição e função.

Muito bem, só que o ponto em si não está bem no camisa dez, mas num lugar anterior: é bem verdade que o futebol é coletivo por natureza, mas me pergunto em que medida, nos próximos anos, nós não inverteremos a vara com tanta convicção a ponto de criminalizar a genialidade. Aquela mesma hiperprofissionalização de que falamos antes trouxe mais dinheiro – mas não por caridade. O gênio moderno precisa de um quê de burocracia, de um quê de processualidade, ele precisa desobedecer a si mesmo, cerceado pelos limites do coletivo. O problema: é esse o habitat dos gênios?

Neymar está dizendo que sim, pode ser, mas não sei o que os próximos anos nos dirão. O fato é que, na mesma esteira, com a passagem de Maradona talvez tenha deixado de existir o jogador de futebol e passou a subsistir apenas o atleta, sujeito profissional e responsável, obstinado e abnegado, disposto inclusive a abrir mão de si pela saúde esportiva da equipe mas, principalmente, chamado a abrir mão de si pela saúde financeira dos investidores. Mais uma vez: ok, são as regras do jogo moderno, mas me pergunto, ao mesmo tempo, para onde irão os gênios, os rebeldes, os subversivos, esses sujeitos dominados por um outro tipo de vida, perseguidos por outros passados, os sujeitos que não têm outra alternativa a não ser quem são. Esses, me parece, talvez sejam e serão lançados num novo lugar, que só pode ser fruto deste tempo (moderno) que talvez seja o lugar dos subgênios – ou alguma bizarrice do tipo – que ou são sujeitos feridos pelo sistema (como um Adriano, por exemplo) ou são tão subversivos a ponto de causarem, com o tempo, uma certa negação e mesmo uma redução de quem foram (como Ronaldinho). Mas reparem ainda que entramos num tempo dominado pela objetividade, pelo big data, pelo xG, pela crítica ao que se entende por intuitivo, ou empírico, ou afetivo – mas isso, minha gente, só pode dar num samba da razão pura, cheio de notas cuidadosaamente escolhidas, mas doidas para serem engolidas pelo real que elas próprias julgam apreender.

Com isso posto, quem criará, no futuro, um termo como ‘la mano de Diós’? Quem serão os gênios capazes de denunciar o nosso complexo de vira-latas? Quem batizará os nossos dinamites, nossos santos, nossos animais e as nossas forças da natureza com a bola nos pés? Com a perda da narrativa (como nos mostrou o Walter Benjamin, naquele brilhante texto sobre o narrador), perde-se também uma parte da experiência, da capacidade de dar sentido, perde-se um ponto de encontro fundamental do futebol com a vida que se vive –  e eles não estão separados, afinal. O futebol, enquanto potência simbólica, vira perfumaria, o método vira maior do que o verso.

Veja bem, isso não significa uma negação da objetividade: significa dizer que ela, sozinha e manca, não dá conta, cai dura no chão. Assim como não podemos perder os nossos gênios da bola, dos quais falamos anteriormente, também não podemos perder nossos gênios narrativos, os nossos contadores de histórias, nossos proseadores, capazes de conversar – mas também de desconversar, quando preciso. Me lembro do Antero Greco, há muito tempo, no SportsCenter, da ESPN Brasil, dizendo que ‘é preciso ser sério sem ser sisudo’. Esse é, de fato, um desafio da nossa geração.

Da mesma forma, também é preciso sermos rigorosos, mas não moralistas. Livres de quaisquer juízos de valor, há um fato na mesa: aquele que talvez seja o gol mais subversivo da história do futebol (feito pelo próprio Maradona – de mão) é simplesmente impossível hoje em dia. Pois a passagem de Diego Maradona também é a passagem desse futebol ainda barroco, talvez visto como rude, mas também muito menos higiênico, muito menos limpo, um futebol ruidoso, de picardia e abertura – todos antíteses do moralismo. E de novo, não é necessariamente uma regressão, não é uma negação, é pura e simplesmente um sinal dos tempos. E o dever de quem vive num certo tempo é olhar para o seu tempo – além das superfícies – e pensar num outro tempo, de outra gente, um tempo eventualmente melhor, não exatamente livre de sofrimentos e carências, que são parte da nossa humanidade, mas um tempo pelo qual valha a pena se viver. 

Afinal, a passagem de Diego Maradona é a passagem do tempo, um sinal inconfundível da passagem do tempo, e não deixa de ser um prefácio do tempo que está por vir, do futebol e da vida que nos esperam, nos quais o prazer e a dor estão em lugares muito diferentes do que já estiveram um dia. Ao mesmo tempo, lugares que não ocultam a nossa obrigação de buscar a santidade em vida, de buscar que alguma coisa em nós que seja sagrada – ainda que não sejam as mãos – e de viver e literalmente morrer pelo coração, onde moram as mais profundas das nossas forças vitais.