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Princípios Pedagógicos – Por que sua aula ou treino é assim?

Crédito imagem – Jogos estudantis da Bahia/Divulgação

Nesta série de Princípios Pedagógicos temos refletido sobre importantes temas até agora, como a importância de a formação esportiva ensinar o gosto pela prática e pela modalidade, bem como a necessidade de o(a) professor(a) ou treinador(a) ser capaz de acolher e estimular o desenvolvimento pleno de todos e todas do seu grupo de alunos(as) ou atletas. Esses ensinamentos partem dos princípios pedagógicos de “Ensinar a gostar de futebol” e “Ensinar futebol a todos”. Qual é a sua opinião sobre eles? Já os conhecia? Fazem parte da sua prática também?

Nesta semana venho abordar outro tema fundamental à prática pedagógica, seja ela contextualizada à iniciação, especialização ou alto rendimento. Se caminharmos pelas escolas e clubes de futebol nos depararemos com aulas e treinos bastante singulares. Cada professor(a) ou treinador(a) possui a sua essência, suas verdades e seus métodos de aplicar o conhecimento adquirido ao longo de sua carreira. A forma de falar com os alunos para explicar uma atividade, a maneira de orientar uma atleta à beira do campo, a escolha dos conteúdos planejados para serem aperfeiçoados em determinada sessão de treino, são todas intervenções construídas consciente ou inconscientemente na nossa forma de trabalhar.

O treino ou a aula é um dos momentos mais especiais do exercício da nossa função, enquanto profissionais da formação e treinamento esportivo. Sabemos que cada segundo é valioso e pode ser bem ou mal aproveitado para favorecer a aprendizagem ou os comportamentos que desejamos despertar no nosso grupo. O tempo é tão escasso para fazermos tudo que queremos fazer, não é mesmo? Isso ocorre tanto para a nossa turma ou equipe quanto para a nossa vida. Precisamos saber o que fazer com o tempo que temos. O que pudermos intervir para melhorarmos individual ou coletivamente aqueles e aquelas sob nossa liderança, é nosso trabalho não deixar passar a oportunidade.

É triste andar pelas escolas e clubes e ver profissionais gastarem o tempo que têm de aula ou treino com qualquer coisa, sem terem pensado bem sobre o que poderiam ter feito de melhor naquele momento. Por outro lado, é louvável ver profissionais da nossa área procurarem meios e métodos cada vez mais eficazes de transformarem o ambiente de aprendizagem que lideram em algo cada vez mais poderoso sobre o que desejam ensinar. Ninguém nasce sabendo dar uma boa aula ou um bom treino, mas podemos aprender. Pois caso alguém nos pergunte: por que sua aula (ou seu treino) é assim? Devemos responder com tranquilidade e consciência das razões do que estamos fazendo. Se a pessoa tiver uma ideia diferente, que nos convença com argumentos melhores que os nossos. Não teremos problema em mudar, já que o que queremos é “ensinar bem futebol a todos”.

“Ensinar bem futebol a todos (e todas)” é o princípio pedagógico mestre deste artigo. Como já ouvi algumas vezes do Professor João Batista Freire: “não basta fazer com que todos participem plenamente da aula, é preciso ensinar bem o futebol!”. De fato, as crianças, adolescentes ou adultos que estiverem sob a minha liderança, precisam melhorar no futebol a partir do que eu escolho fazer com o tempo de intervenção que tenho com eles ou elas. Se alguém perguntar: por que você faz o aquecimento dessa forma e não de outra? Por que você treina fundamento com esse tipo de exercício e não com esse? Por que você para o treino para conversar? Por que você usa o jogo com essas regras e não com outras? A pessoa que se prepara para dar um treino ou uma aula terá que saber responder. Novos métodos de treino podem surgir e superar os meus. Eu preciso estar atento para perceber isso também. Contudo, jamais posso ir para uma aula ou treino sem ter claras as razões sobre como vou ensinar o que me propus a ensinar. O desafio é saber cada vez mais, para ensinar cada vez melhor.

Sobre este tema, poderíamos ir para um caminho de reflexão relacionado às diferentes abordagens pedagógicas ou metodologias de treino. Eu tenho bem claras quais são as linhas que eu sigo. Busco fundamentar minha prática a partir da Pedagogia da Rua e a Pedagogia do Jogo, utilizando uma metodologia mais próxima da sistêmica possível, fundamentadas nas minhas experiências e estudos. Se me perguntarem sobre qualquer atividade do meu treino ou cada intervenção minha, eu terei como explicar e a resposta deverá ser coerente com essa linha de pensamento. Pode ser que eu erre, que eu tenha pensado errado nessa parte, ou até agido de maneira automática. Somos serem falíveis, e não tem problema com isso. Devemos reconhecer que erramos e, em especial, porque erramos. Mas a reflexão interna para não repetir o erro faz parte fundamental deste princípio pedagógico.

Poderia me alongar sobre o porquê escolhi essa abordagem pedagógica e metodologia e não outra, mas não é o foco deste texto. Em outra oportunidade, podemos falar sobre esse tema. Eu gosto muito dele, inclusive. No entanto, o foco aqui é despertar a importância de professores(as) e treinadores(as) perceberem que cada segundo da sua aula ou treino pode ser melhorado, e é sua responsabilidade torná-lo mais eficaz do ponto de vista da aprendizagem. Aquilo que decidimos ensinar precisa ser ensinado. Sabemos que alunos e atletas aprendem de formas diferentes, em tempos diferentes. Precisamos entender esse processo e tornar o nosso trabalho efetivo. Só assim nos valorizaremos como profissionais, asseguraremos o direito daquela pessoa a ter uma educação esportiva competente, e poderemos dormir com a consciência tranquila de, como disse certa vez Mario Sergio Cortella, estarmos fazendo o melhor que podemos, até termos condições de fazer melhor ainda.  

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Princípios Pedagógicos – Como aprendi a gostar de futebol

Crédito imagem – Jogos estudantis da Bahia/Divulgação

O futebol é, desde cedo e para sempre, um momento esperado para mim. Quando criança, sempre buscava oportunidades para jogar bola. Enquanto adulto, da mesma forma, embora seja mais difícil incluí-lo na minha rotina. Contudo, também espero atentamente os jogos da semana para projetar naqueles jogadores e jogadoras o prazer que eu tinha – e ainda tenho – em jogar futebol. De onde será que veio essa paixão pelo futebol? O que tem nessa modalidade esportiva que me atrai tanto? Essas reflexões me ocorreram por algum tempo, por isso decidi escrever sobre este tema.

Você já se perguntou, se for esse o seu caso, como aprendeu a gostar de futebol? Como foram as suas experiências para que você tivesse o sentimento que tem, jogando ou assistindo a esse esporte? Vou contar um pouco sobre o que se passou comigo nesse sentido para depois refletirmos juntos.  

O futebol sempre esteve presente na minha vida. Meu pai, apaixonado por futebol, me incentivou desde cedo com experiências relacionadas a esse jogo, seja com nosso time do coração, seja brincando juntos, me levando a escolas de futebol etc. Desde que nasci o futebol foi uma constante para mim. De maneira tão forte que minha primeira palavra, segundo contam meus pais, foi o nome de um jogador do meu time daquela época. Entre tantas experiências, uma das primeiras e principais coisas que me encantaram no futebol, certamente, foi a bola. Ela foi meu primeiro e predileto brinquedo durante toda a minha infância e adolescência. A forma como ela me desafiava a controlá-la e o prazer que sentia quando eu conseguia realizar os movimentos que imaginava com ela, fez nascer uma forte relação de amizade e companheirismo entre nós. Mais para frente, quando eu a entendia melhor, parecia que ela me entendia também, e só ficava me esperando para brincarmos e sermos felizes juntos.

Essa relação de amizade e de intimidade que tinha com a bola era transportada para o jogo coletivo. Quando acontecia o momento mágico de juntar uma turma de amigos para jogar bola, e, enfim, o jogo acontecia, eu a queria sempre por perto, para colocar em prática tudo que brincávamos só nós dois. Todos os movimentos que conseguíamos realizar numa brincadeira somente entre nós dois, eu e a bola, queríamos que acontecesse com a mesma mística no jogo coletivo. Dribles, chutes, domínios, lançamentos eram alguns deles, que, dentro do imaginário infantil, estavam sendo praticados em um estádio lotado, com ídolos como companheiros e adversários, uniformizados para um grande clássico entre o meu time do coração e o seu maior rival, isso quando eu não vestia a camisa da seleção.

Muitas vezes esse imaginário estava presente nos jogos com os amigos também, como um imaginário coletivo em que todos estavam vivendo os seus sonhos naquela partida. Tem como essa experiência não ser memorável?

Havia situações em que eu e meus amigos jogávamos contra conhecidos que moravam por perto, mas não faziam parte da nossa turma. Nesses jogos, a competitividade era ainda maior. Queríamos ganhar de toda forma. Nossa existência se justificava toda ali, naquele momento. E essa entrega plena para o jogo nos fazia viver emoções diferentes daquelas habituais que vivíamos no nosso cotidiano. Entrávamos em estado de jogo. O jogo proporcionava vivenciarmos do êxtase à frustração profunda, por ter ganhado ou perdido; do alto prestígio à humilhação, por ter exibido grandes habilidades ou ter sofrido um drible desconcertante; do cair ao se levantar, por estar perdendo e conseguir reverter o placar a tempo; do companheirismo à rivalidade, por estarem, as relações de cooperação e oposição, acentuadas pelo desejo intenso da vitória; da sensação de ter dado tudo de si e saber que faria tudo de novo, pois aquilo fazia sentido. Todas essas emoções podem ser geradas em um jogo de 30 minutos, por exemplo.

Quanto tempo seria necessário viver a nossa vida cotidiana para vivê-las com tamanha intensidade? Teríamos que esperar uma promoção no emprego para viver um êxtase? Precisaríamos conquistar uma carreira sólida para sentirmos o sabor do prestígio social? Precisaríamos adoecer e depois vencer a doença para sentirmos o que é levantar-se de uma queda? Precisaríamos formar uma família para lutar juntos contra as adversidades da vida para percebermos o companheirismo? Precisaríamos sentir que valeu a pena todo o esforço só depois de uma longa e exitosa jornada? O jogo de futebol, para mim, apresentou todas essas emoções. Aprendi a lidar com elas a partir dele. O jogo de futebol é quase como uma máquina de condensação do tempo, que nos faz viver emoções tão intensas quanto os momentos mais marcantes da vida, só que em alguns minutos. Claro que essas emoções, para mim, são geradas mais intensamente com o futebol, mas outras pessoas, apaixonadas por outro esporte, podem senti-las também a partir dele. Essa é uma primeira razão de eu gostar tanto de futebol. Ele me faz viver emoções que, na vida cotidiana, são raras com tamanha intensidade.

Outro ponto importante que me faz ver o futebol como um fenômeno apaixonante, é a sua capacidade de incluir pessoas de maneira funcional. Se pensarmos no jogo de futebol de maneira funcional, isto é, pensando em vencê-lo, vamos dar de frente com a lógica do jogo. Isto é, os meios necessários para se construir as soluções para os problemas que emergem no jogo. Vamos utilizar como referência, Claude Bayer (1994) e os seus princípios operacionais para denotar os grandes problemas a serem resolvidos no jogo de futebol. São eles:

Fonte: Adaptado de Bayer (1994, p.46)*

Esses são os grandes problemas a serem resolvidos no jogo de futebol para vencê-lo. Como cada equipe e cada jogador(a) irá resolvê-los? Depende de uma série de fatores, inclusive as características individuais de quem joga! O fato é que existem inúmeras soluções possíveis. E o interessante é que, no futebol profissional, que constitui um grupo seleto de pessoas – por consequência, excludente – não conseguimos encontrar um perfil muito bem definido de jogadores e jogadoras. Ao olhar para as características individuais de cada atleta, encontraremos pessoas altas, baixas, mais leves ou mais pesadas, mais rápidas e mais lentas, mais resistentes e menos resistentes, irreverentes e sérias, que gostam de ações mais arriscadas e outras que preferem ações mais seguras, mais habilidosas com a bola e outras menos. Enfim, no futebol profissional temos exemplos de pessoas de diferentes perfis. Isso quer dizer que é possível cumprir bem a lógica do jogo de diferentes formas, com diferentes características individuais. Se transportarmos isso para o futebol como lazer, encontremos ainda mais diversidade. Isso é uma característica sensacional do futebol, que tem o poder de fazer as pessoas se sentirem funcionais em relação a um grupo. Quem não tem aquele amigo ruim de bola, mas que faz parte da turma de amigos e sempre joga junto? Seja no gol, na defesa ou no ataque, ele arruma um jeito de ajudar, ser funcional para a equipe e se divertir com isso. Esse aspecto inclusivo do futebol agrega pessoas e o torna ainda mais apaixonante. Todos podem ser felizes jogando futebol.

Essa última mensagem eu tenho muito presente em mim, e busco sempre passar para as turmas de alunos ou grupo de atletas que trabalho. É um princípio pedagógico que aprendi com o Professor João Batista Freire (2006)**. A paixão pelo futebol é algo que faz parte de mim. Portanto, tento despertar em todas as pessoas com as quais eu me relaciono, especialmente enquanto professor ou treinador de futebol, a beleza e o fascínio que vejo nesse jogo.

Muitas crianças e adolescentes de hoje não tiveram a mesma experiência positiva e constante relacionada ao futebol que eu tive. Por isso, uma mensagem aos professores e treinadores de futebol: antes de se preocuparem em passar muitos conteúdos técnico-táticos para seus alunos e atletas, eu indicaria, se me permitem, incluir nas suas aulas ou treinos a paixão que vocês têm por este esporte.

Referências Bibliográficas:

* BAYER, C. O ensino dos desportos colectivos. Lisboa: Donalivro, 1994.

** Freire, João Batista. Pedagogia do futebol. 2ª ed. Campinas: Autores Associados, 2006.

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Afinal, torcer pela Argentina faz de nós não-patriotas?

Crédito imagem – Amanda Perobelli/Reuters

Não torcemos pela Argentina contra o Brasil na final da Copa América. Também não torcemos pelo Brasil. Aliás, nem mesmo acompanhamos a Copa América, pois nos faltou interesse, mas não posicionamento crítico. De fato, não sentimos essa seleção como a nossa. Ela não nos representa. Colômbia e Argentina negaram-se a sediar esse evento esportivo, pelo risco de agravamento da pandemia do novo Coronavírus. A CBF decidiu correr o risco. Os atletas decidiram correr o risco. E o governo federal decidiu correr o risco, certamente, dentre outros motivos, por acreditar na festa do presidente da república com a taça de campeão. Fomos alertados do risco e, além dos inúmeros novos infectados, já há indícios de que uma nova cepa do vírus chegou ao nosso país em decorrência da realização da Copa América de Futebol, talvez, da Colômbia ou do Equador.

Milhões de brasileiros torceram contra a seleção e festejaram a vitória da Argentina. Acreditamos que a bronca não era exatamente contra a seleção brasileira, mas com sua identificação com o momento político atual, mais exatamente com Jair Bolsonaro, dado seu empenho por trazer a Copa América para o Brasil. Talvez esses milhões de brasileiros tivessem postura diferente caso os famosíssimos e milionários jogadores brasileiros tivessem um gesto de empatia e solidariedade com a tragédia que se abate sobre nosso povo. Mais de 500 mil mortes talvez merecessem, pelo menos, uma palavra de nossos craques. Quem sabe, fruto de nossa ingenuidade, continuaremos aguardando alguma manifestação sobre a política insana e genocida de Bolsonaro vinda de algum jogador mais crítico e esclarecido. Com exceção de Richarlison, o único explicitamente sensível ao que vivemos atualmente, nada, nem um gesto, nem uma palavra.

Há quem lembre que em 1970 vivíamos situação política até pior que esta que enfrentamos hoje; pessoas sendo presas, torturadas e mortas pela ditadura e, ainda assim, torcemos como loucos pela seleção brasileira de Pelé, Gerson e companhia. Porém, havia enorme identificação entre os jogadores e o povo brasileiro; todos os jogadores atuavam no Brasil e os acompanhávamos no dia a dia, eram nossos ídolos em nossos clubes do coração. Entre os atuais jogadores da seleção, somente três atuam no Brasil e sequer disputaram o jogo final. Não convivemos com eles, alguns torcedores nem os conhecem, porque não acompanham os campeonatos de outros países.

Portanto, torcer contra o Brasil ou ser indiferente à Copa América não é falta de patriotismo, mas sim, falta de identificação do povo com essa seleção que não demonstrou a mínima empatia conosco. Ser patriota, não é só torcer pela seleção brasileira, mas também, e principalmente, solidarizar-se com as centenas de milhares de mortos em decorrência do Covid, com todos que perderam seus familiares e amigos pelo boicote sistemático à vacina e aos cuidados básicos de prevenção à doença, com os profissionais de saúde que se arriscaram e sacrificaram suas vidas para salvar as nossas, com os que voltaram ao patamar da miséria (vítimas do desemprego e da fome), com os que sofrem abusos morais e sexuais, com os que sofrem preconceitos. Não basta vestir a camisa da CBF, colocar a mão no peito e cantar o hino nacional para ser patriota.      

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É preciso ouvir os protagonistas do futebol! Ou não

Crédito imagem: reprodução/TV

Junho ou julho de 2020. Tínhamos, então, milhares de vítimas fatais do Covid no Brasil, quando escrevemos sobre a absurda decisão de retomar os campeonatos de futebol profissional. Mais recentemente, escrevemos sobre as lamentáveis aglomerações presenciadas na final da Copa Libertadores da América, ruas e bares lotados.

Na semana passada terminou o campeonato brasileiro de futebol. Flamengo campeão. Mas o sabor da conquista não foi o mesmo; estádios vazios, semblantes e discursos de atletas e dirigentes o confirmam. Óbvio! Como festejar um título no mesmo dia em que chegávamos a novo recorde… de mortes por Covid: 250.000 perdas.

Um campeonato que nada ajudou ao futebol. Mas ajudou ao vírus, disseminando-o. Centenas de atletas, integrantes de comissões técnicas, dirigentes, árbitros, repórteres, todos contaminados e levando o vírus para milhares de pessoas, que desenvolveram ou não a doença, mas tornaram-se transmissores em potencial. Não há como saber quantos ficaram doentes, quantos morreram, quantos guardarão sequelas.

Ontem, quatro de março de 2021, pior momento desde o início da pandemia. Mais uma meta macabra foi alcançada: 1840 mortes em 24 horas. Ouvimos o desabafo de uma pessoa do futebol, o atual treinador do América Mineiro, Lisca. Desabafo desesperado! Ele disse, e concordamos, ser um absurdo a realização da primeira fase da Copa do Brasil. Nessa fase, clubes dos mais diversos pontos do Brasil se deslocarão para outros totalmente diferentes; clubes do interior do Pará poderão jogar no interior do Rio Grande do Sul, outros do Mato Grosso poderão jogar no Rio de Janeiro, um leva e traz de vírus descontrolado. Enquanto discutimos as possibilidade de lockdowns, a CBF divulga a tabela da Copa do Brasil. Suponhamos times infectados pelo vírus, sem sintomas ainda, deslocando-se por todo o território nacional, potencializando a tragédia.

Em seguida, Renato Portaluppi, atual treinador do Grêmio, questionado sobre a opinião do colega, diz ser admirador de Lisca, mas não concordar com seu desabafo. Para Renato Gaúcho, o “futebol é o local mais seguro”, durante a pandemia.  O treinador do Grêmio afirmou que, quando os times jogam, as pessoas ficam em casa, isoladas, sem aglomerações. O futebol ofereceria segurança contra o vírus, portanto, por manter as pessoas em casa, longe do contágio.

O futebol é pedagógico, inevitavelmente, para o bem ou para o mal. E profundamente didático. Educa nos momentos em que as pessoas estão abertas, apaixonadas, disponíveis. Lisca e Renato, cada qual à sua maneira, educam um grande público, assim como outros técnicos, jogadores, dirigentes, jornalistas. O futebol tem sido uma escola de brasilidade, contribuindo para formar o que temos de melhor e o que temos de pior.

No caso do pronunciamento de Lisca, porém, Renato não entendeu a mensagem, ou fez que não entendeu. O argumento de Lisca é irretocável: o futebol não pode se tornar o transportador oficial do Covid-19. E nunca isso será tão verdadeiro quanto na primeira fase de disputas de jogos da Copa do Brasil; em nenhum outro campeonato, maior diversidade de grupos brasileiros realizarão trocas, de cultura ao vírus. Ao dizer isso, Lisca é didático, educa as pessoas para o gravíssimo problema da pandemia. O argumento de Renato Gaúcho é frágil, tosco, sem sustentação lógica ou científica: o futebol garante o isolamento social das pessoas, diz ele. E completa: durante os jogos as pessoas ficam em casa. Os fatos não confirmam Renato; durante alguns jogos, as pessoas se juntam, abertamente ou clandestinamente, em bares, restaurantes, ruas, portas de estádios, quase sempre sem qualquer dos cuidados necessários para evitar o vírus. Os jogadores, durante a Copa do Brasil, terão contato com pessoas dos mais diferentes pontos do Brasil. Antes que saibam, por exemplo, que estão contaminados pelo vírus, o terão transmitido para um número incalculável de pessoas. O argumento de Renato reforça a tese de não praticar o isolamento social.

Se Lisca e Renato são didáticos em sua, consciente ou não, prática educacional, Renato tem alcance muito maior; mais famoso, técnico de um dos mais poderosos times da América do Sul, muito mais frequente nas telas de tv, redes sociais e rádios do país. A palavra de Lisca marcará durante algum tempo, ele teve boa oportunidade. Já a palavra de Renato marcará por muito mais tempo, ele terá muito mais oportunidades de passar sua mensagem.

Lisca e Renato demarcam com bastante nitidez uma linha que divide hoje o Brasil entre os que se posicionam a favor da vida e os que se posicionam contra ela ou demonstram indiferença. Vivemos um momento em que todos nos vemos pressionados a tomar posição em relação ao tema da vida. Vida ou morte? Vida ou falência da empresa? Vida ou lucro?

Retomando o título deste texto, é preciso ouvir os protagonistas do futebol, e eles são, em nossa opinião, os atletas e integrantes das comissões técnicas. Mas é preciso ouvi-los com certa dose de criticidade, consciência, sabedoria e empatia. Que possamos ouvir mais vozes como a do Lisca, ou do Abel Ferreira, treinador do Palmeiras. Que o futebol nos eduque para o bem!

Que vidas sejam preservadas!

*As opiniões dos nossos autores parceiros não refletem, necessariamente, a visão da Universidade do Futebol  

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Meninas na rua, Meninas da rua, Meninas: pra rua!

“Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração,

 Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão…”

(Milton Nascimento)

Você pode estar se perguntando: mas por que utilizar um título tão feminino e sustentar a ideia inicial com um texto no masculino?

Pois é, ser menina desde sempre, nos remete a anulações em determinadas circunstâncias da vida… isso não tira o brilhantismo dessa canção do Milton, jamais seria nossa intenção.

Tanto que ela servirá de pano de fundo para esse atrevimento de escrever sobre meninas e a rua.

Ah, a rua!

Um espaço tão democrático e por vezes tão fechado às meninas.

Não que a gente se intimide – ou se intimidasse – com essa sensação de falta de pertencimento, por ser menina e estar na rua.

Minha infância teve muitas ruas!

A rua da igrejinha, a rua do “campão”, o “descidão”, a rua da ponte, a rua “de trás”, a rua de cima e por ai se segue uma lista de momentos e vivências que tive o privilégio de viver na rua!

E como fui feliz na rua!

“Há um passado no meu presente

Um sol bem quente lá no meu quintal

Toda vez que a bruxa me assombra

O menino me dá a mão

Mas estar na rua nos anos 80, sendo menina, não era algo simples…

Para nós, era um espaço a ser conquistado! Por vezes, na raça.

Pra se ter o direito de ser uma menina da rua precisávamos sempre ser melhores que os meninos, em todas as suas demandas.

A melhor na “Bolinha de gude”, melhor no “Carrinho de rolemã”, melhor “empinadora de pipas”, melhor em rodar o “Aro de bicicleta”, melhor na “Unha na mula” e por ai afora.

Modéstia à parte, consegui ser melhor que os meninos, na maioria das vezes, em todos esses quesitos, exceto no futebol… uma frustração pessoal, por isso conquistei meu espaço na rua.

E como eu valorizava essas conquistas!

Exibia com orgulho minha caixinha com as mais bonitas bolinhas de gude, todas seriadas a partir de suas pontuações: as leitosas e transparentes valiam mais que as verde musgo…

Minha coleção de pipas…com rabiola, sem rabiola, capuchetas, de jornal, de seda, de sacolinha de supermercado. Ah, como eram infinitas as possibilidades de se colorir o céu e fazer sorrir no chão, da rua.

Assim como guardei com carinho cada cicatriz, cada arranhão, cada ponto “conquistado” na rua, alguns que podem ser vistos ainda hoje!

Me orgulho de cada um deles, pois a rua me ensinou muito além do que aprendi na escola.

Aprendi valores, aprendi sobre convivência, sobre repartir, sobre ser justa, sobre ser honesta, sobre ser feliz! E sempre que a vida nos coloca numa corda bamba, são esses conhecimentos que fazem toda diferença.

“E me fala de coisas bonitas

Que eu acredito

Que não deixarão de existir

Amizade, palavra, respeito

Caráter, bondade alegria e amor”

E quanto ao ser menina, na rua, os dilemas existem desde sempre. Aos poucos esses espaços vão sendo conquistados, a passos lentos e nem tão largados como gostaríamos.

Mas as histórias das meninas que viveram a rua no mesmo tempo histórico que vivi, se assemelham. Nas alegrias e nas tristezas, nas conquistas e nas anulações vividas.

“Pois não posso

Não devo

Não quero

Viver como toda essa gente

Insiste em viver

E não posso aceitar sossegado

Qualquer sacanagem ser coisa normal”

A luta é para que possamos deixar uma rua “diferente” para as meninas do futuro. Diferente no sentido de ser menos machista, mas com todas as características e aprendizados que me fizeram a mulher que sou hoje.

Por isso, meninas: pra rua!

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A rua nos ensina muito mais do que driblar, passar e fazer gols

Em nosso último texto, abordamos a diferença entre driblar ou fintar um cone e uma pessoa, buscando destacar a importância de levarmos para os espaços de ensino e treinamento do futebol – escolas, escolas de futebol e clubes – todos os ensinamentos da pedagogia da rua. Ao abordar as diferenças entre driblar um cone e uma pessoa, do ponto de vista da aprendizagem das habilidades para o jogo de bola e do desenvolvimento das coordenações motoras que estão na base dessas habilidades, deixamos em aberto algumas questões, entre elas, duas que trataremos neste texto: a importância de trazer para as aulas e treinos o aspecto lúdico, sobretudo por seu caráter de diversão, de alegria e de prazer, e as questões afetivas que permeiam toda e qualquer prática social, neste caso, o futebol.       

O prazer e a alegria de jogar futebol não estão presentes somente em crianças e jovens. Sim, está certo que é nesses períodos de vida que mais podemos brincar e nos divertir, mas não é porque crescemos e nos tornamos adultos que o futebol precisa se tornar algo maçante, chato, repetitivo e desprovido de alegria e divertimento. O que mais diverte crianças e jovens na prática do futebol: aguardar numa fila seu raro momento para dar um chute na bola ou brincar de rebatida? Driblar cones em direção ao outro lado do campo ou brincar de driblinho/golzinho na rua? E os adultos – e aqui vale considerar até mesmo os(as) atletas profissionais: quando correm em volta do campo para aquecer ou quando brincam de bobinho?

Vale ressaltar que o foco deste texto não é discutir se nos aquecemos melhor correndo em volta do campo ou jogando bobinho. Ou se aprendemos a driblar melhor passando por um cone ou jogando golzinho na rua, mas sim trazer para o debate a ideia de que tudo isso pode ser feito com alegria, diversão, prazer, ou seja, fazendo da prática do futebol uma experiência positiva, prazerosa e, consequentemente, duradoura.   

Como já antecipamos, o outro aspecto que gostaríamos de destacar, também ligado ao plano afetivo, refere-se aos desafios, medos, situações de sucesso e fracasso, que costumeiramente a rua nos ensina. Certamente, realizar um drible em um adversário é muito mais instigante do que em um cone, ou em um adversário invisível. Executar uma finalização ou desarme com a cabeça a partir de uma bola cruzada da lateral e com a presença de um adversário é muito mais desafiador do que lançar a bola com as mãos para o próprio cabeceio. Marcar ou enfrentar a marcação de um jogador mais rápido, mais alto ou mais forte que você, lhe ensinará muito mais a lidar com o medo do que ser marcado por um cone. Ou seja, é certamente no contato com o outro, em situação real ou simulada de jogo, que esses aprendizados se dão de modo mais intenso e permanente.

Isso não significa que, automaticamente, tal tipo de aprendizagem se transfere para outras situações de vida. A rua não tem esse compromisso. Num primeiro momento, aquilo que uma criança aprende jogando bola, superando medos, fracassando ou sendo bem-sucedida, vivenciando o êxito ou a frustração, restringe-se ao plano imediato das ações práticas do jogo. A repercussão dessas aprendizagens na vida fora do jogo e ao longo da vida, mantém-se como mistério; muito do que sabemos, especialmente no plano afetivo, não sabemos de onde veio. Porém, a rua não tem compromisso pedagógico.

A aprendizagem da rua é uma aprendizagem ligada ao que se vive; na rua, aprende-se a viver vivendo. Porém, quando compreendemos o que se passa na rua e transpomos esses ensinamentos para as escolas, começamos uma outra história. A escola sim, tem compromisso com ensinar tecnicamente, de imediato, e também com a formação para a vida. Aquilo que a rua faz tão bem, a escola tem que fazer, pelo menos, razoavelmente. E aquilo que a rua não faz, a escola tem que fazer. O que os conhecimentos de cada prática transcendem a própria prática e se estendem a outros campos do conhecimento – por exemplo, a superação de desafios, a definição de estratégias se transferindo ao conhecimento matemático, são, em boa parte, componentes de nosso inconsciente. Podem chegar a outros campos do conhecimento, mas não saberemos como, nem quando. Porém, essa educação da rua transformada em pedagogia nas escolas pode alimentar uma metodologia que produza tomadas de consciência. Aí sim, os conhecimentos tornados, ao menos parcialmente, conscientes, podem ser orientados para potencializar conhecimentos em outras áreas.  

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Maradona, um homem imperfeito

Ensinaram-me quando menino: “Homem não chora”. Eu teria que aprender a não chorar, para ser homem. Hoje chorei, chorei por Maradona. Por Maradona deixei de ser homem. Em compensação, com Maradona aprendi a ser outro tipo de homem: o homem que ri e que chora, o homem que tem inveja e que tem modéstia, o homem que é grande e que é pequeno, o homem que tem medo e que tem coragem, o homem que é político e que é solitário. Tudo isso Maradona me ensinou? Não, tudo isso ele encarnou, entre muitas outras coisas. Não tentou ser Deus, e foi, não tentou ser herói, e foi, não tentou ser bondoso, e foi, não tentou ser genial, e foi. Fez parte daquele grupo de pessoas que nos ensinam a viver, mesmo não tendo a menor intenção de fazer isso. Aquele homem que me ensinaram a ser, que não podia chorar, me fazia infeliz. O homem imperfeito, que só os como Maradona ensinam a ser, me faz feliz.

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A aprendizagem inevitável e incontrolável da rua

Imaginemos um grupo de quatro crianças, dois meninos e duas meninas, entre quatro e cinco anos de idade brincando de casinha na sala da casa de uma delas. Vamos chamar esse espaço de rua, porque não é convencional, não há adultos ensinando crianças, tampouco há um currículo, livros didáticos, aprendizagem institucionalizada e outras características típicas da educação formal que se desenvolve no ambiente escolar.  Portanto, vale ressaltar que a rua, tal como a abordamos neste texto, não se restringe a um espaço público, limitado por calçadas, onde circulam pessoas, automóveis, bicicletas…

No espaço das crianças de nosso exemplo, há bonecas, bolas, caixas de papelão, uma caixa de peças de madeira, mesinha, cadeirinhas e outros objetos. Todas falam aqui e ali, a mais velha fala mais, pegam objetos, colocam em lugares combinados, tiram, colocam de novo, sentam-se nas cadeiras, colocam a mesa, fingem que comem, levantam-se, passeiam com o carrinho etc. Difícil acompanhar e entender o que fazem; é tudo muito criativo e diversificado. Aparentemente, imitam o que é feito pelos adultos nas casas deles, mas não é igual. Tudo tem uma conotação mágica, os problemas são resolvidos rapidamente, as brigas, que ocorrem com frequência, dissipam-se, não restam mágoas, a brincadeira prossegue. Há algumas aprendizagens visíveis pela diminuição das dificuldades para transportar um objeto, encaixá-lo, pelo entendimento das sugestões da criança mais velha, pelas imitações etc. Mas isso não é tudo. Numa avaliação convencional, somente essas coisas visíveis poderiam ser solicitadas. Se deixarmos de lado hipóteses de avaliação, podemos aventar inúmeras outras aprendizagens não perceptíveis superficialmente, portanto, impossíveis de provas convencionais.

Em todo processo de formação de conhecimento, ou de aprendizagem, há uma maneira de formar o conhecimento ou de aprender. Na família, de modo geral, há imposições de comportamentos feitas pelos adultos em relação às crianças: “Não”, “Isso está errado”, “É melhor fazer assim”, “Você vai se machucar” etc. Na escola convencional, o processo é orientado por professores com autoridade para transmitir conhecimentos, seja pelo cargo que ocupam, seja pela formação acadêmica que possuem. Esses conhecimentos são previamente preparados, desde um currículo nacional até um plano de aula, e impostos aos alunos. Senão com a mesma severidade que ocorre em família, pelo menos com advertências igualmente rigorosas em relação às consequências da recusa ou do fracasso quanto à aprendizagem. Na rua é outra coisa. Embora no grupo aqui considerado haja uma criança mais velha sugerindo, e até dando ordens, não há a mesma seriedade quanto a isso, nem da parte de quem sugere, nem dos mais novos. É um faz-de-conta, um tipo de jogo, onde tudo é de mentirinha. Portanto, a pressão do compromisso, típico da família, da escola e de qualquer tarefa obrigatória, não existe. Até porque, no ambiente lúdico, o descompromisso com algo exterior aos jogadores é o fundamento. Na brincadeira dessas crianças, nada parece ser sério – na visão dos adultos, nada parece ter utilidade. Portanto, é um jogo. Se não é útil, então, é jogo. Claro que estamos considerando o termo utilidade somente do ponto de vista da visão adulta utilitária. As consequências dessas brincadeiras para a formação de vida dessas crianças ainda estão longe de ser compreendidas por nossos pesquisadores.

Os riscos imaginários de tentar o novo e de criar em ambientes institucionais, como a família ou a escola, fazem as pessoas, boa parte das vezes, relutar, recuar, evitar enfrentar as novidades ou apresentar alguma criação. Mas no ambiente lúdico, até o medo é de mentirinha, até o medo surge como desafio a ser enfrentado. No caso das crianças brincando de casinha, elas inventam um ambiente onde muitas situações podem ser criadas, dando margem ao enfrentamento de novidades e mesmo à provocação de novidades. São apenas quatro crianças, mas elas criam um ambiente que, além de lúdico, é fora das instituições reconhecidas pela sociedade como responsáveis pela educação das crianças, como a família e a escola. De certa maneira, trata-se de outro grupo social; um grupo que agora habita um espaço público, o que é bem diferente da família e da escola, embora com as restrições do insipiente desenvolvimento de crianças muito novas.

Mesmo considerando que o desenvolvimento moral e social dessas crianças é insuficiente, elas estão começando a habitar um mundo que não é mais o mundo privado. A literatura costuma descrever a entrada da criança no mundo público a partir do momento em que, segundo determinadas teorias, ela está madura, por volta dos seis a sete anos de idade. Mas isso não procede, porque não é algo que um dia começa, afinal, sempre esteve lá na criança, potencialmente. Apenas que, enquanto amadurecem funções como a imaginação, a motricidade, as relações afetivas, a própria ampliação da motricidade e do pensamento, com a consequente ampliação do espaço de atuação, a criança entra em relação com outros que não os da vida privada. É o caso das crianças aqui descritas. Claro que estamos falando da sociedade de hoje; no mundo antigo, as relações, tanto em casa como fora dela, eram bastante distintas das atuais. Também não nos referimos à vida privada e pública, familiar e social ou política dos adultos. Nosso interesse, neste momento, é exclusivamente em relação às crianças e sua passagem do espaço privado para o espaço público.

Essa passagem para a vida pública, que no grupo das crianças aqui descritas, não distingue as meninas dos meninos, daí por diante ganha diferenças notáveis. Especialmente quando nossa atenção volta-se, acima de tudo, para a educação da rua e, como decorrência, a Pedagogia da Rua, manda a tradição de nossa sociedade, que os meninos terão acesso menos limitado à rua que as meninas. E isso terá consequências dramáticas e, possivelmente, devastadoras. Entre elas uma sociedade definida e dirigida, por vezes, desastrosamente, pelos homens.

Há um mundo a ser descoberto, porque negligenciado historicamente por nossas pesquisas. Um mundo habitado por crianças, em um espaço público que escapa à educação familiar e escolar, que ainda não foi compreendido. Possivelmente os grupos infantis constituem a sociedade mais precoce de nossas vidas. A formação para a vida pública deve começar nesses grupos, essas pequenas sociedades infantis, que ainda não compreendemos porque não as estudamos.

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O ensino do futebol nas aulas de educação física

Um dos mais importantes filósofos gregos, Sócrates, acreditava que o reconhecimento da própria ignorância como ponto de partida é parte da abertura para o ato de conhecer, com sua famosa frase; “Só sei que nada sei”! O seu pensar remete para outras reflexões sobre as aulas de Educação Física na escola, como por exemplo, o conteúdo do esporte “futebol”, fenômeno na sociedade brasileira, carregado de características sociais e culturais. Conforme o pensamento do filósofo e estudioso da motricidade humana Prof. Manuel Sérgio: “Se o futebol é uma atividade humana e não só uma atividade física, tudo o que é humano lhe diz respeito. E não só o que é especificamente do futebol. No esporte, quem só sabe de esporte nada sabe de esporte”.

O encontro com essas reflexões abre portas para a compreensão das aulas de Educação Física e amplia a perspectiva das propostas de aulas nessa disciplina. Uma delas é a presença do futebol como conteúdo educacional, que embora seja um tema discutido há anos, ainda é visto com preconceito e restrição por muitos professores. É um tema debatido e as opiniões freqüentemente se polarizaram entre aqueles que são contra e os que são a favor desse conteúdo nas práticas escolares para todos alunos. Contudo, se por um lado a polarização pode fortalecer o preconceito, por outro, felizmente, é possível desfazê-lo por meio de discussões e leituras que possibilitem considerar o “jogar futebol” como um meio de ensino capaz de favorecer aprendizagem integral.  

Quando falamos a respeito das possibilidades do conteúdo do futebol favorecer aprendizagens significativas aos alunos, é porque,  ao mesmo que podem aprender a “jogar futebol”, logo, chutar a bola, a ter controle sobre seus movimentos, a fim de alcançar um determinado objetivo, também podem aprender a se relacionar com as seguintes qualidades: conhecimento sobre a identidade cultural brasileira, a copa do mundo, times europeus, a mídia, valorização do outro, participação, respeito à diversidade, regras, valores, atitudes.

Sendo assim, não se trata de excluir o esporte futebol das aulas de educação física, mas sim de sair do entendimento superficial e considerá-lo como um meio capaz de auxiliar no processo de formação integral do aluno. Contudo, o enfoque da técnica acabou por considerá-lo como um fim para essas aulas, selecionando os “mais habilidosos” como destaque.  Dessa forma, retomando a frase de Sócrates e o Prof. Prof. Manuel Sérgio, quando diz que “no esporte, quem só sabe de esporte nada sabe de esporte”, cabe perguntar: O que é saber jogar?

A pergunta é um bom convite para  entendermos que não existirá o conteúdo do futebol  nas aulas de educação física sem vivenciar o movimento de chutar a bola, porém, o objetivo desse conteúdo não termina na ação motora, afinal, antes de pensar na prática, é fundamental saber o que se pode aprender por meio dela.

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Desenvolvimento motor e o espaço da liberdade – é um risco não deixar as crianças se arriscarem

O desenvolvimento motor deve ser entendido como uma mudança contínua no comportamento motor ao longo da vida e que é provocado pela interação entre as exigências da tarefa motora, a biologia do indivíduo e as condições ambientais[1]. Esse conceito reforça a tese de que o movimento nada mais é do que vida.

Modelos clássicos discorrem sobre a existência de fases e estágios do desenvolvimento motor, que vão desde o movimento reflexo, passando pelos movimentos rudimentares, fundamentais, chegando à fase denominada especializada; em cada estágio descrito, há características próprias associadas aos movimentos esperados em determinadas faixas etárias.

Essas sequências não consideram aspectos culturais e sociais no desenvolvimento do indivíduo, salvaguardando marcadores padronizados de movimento. Em sua obra Educação de corpo inteiro: teoria e prática da Educação Física[2], o Professor João Batista Freire entende que, ao considerar padrões do movimento, o mundo deveria ser padronizado da mesma forma. Assim como não podemos controlar a imprevisibilidade ou os perigos presentes no mundo, em vez de padrões, deveríamos considerar a manifestação de esquemas motores, onde os movimentos são construídos pelos sujeitos, em cada situação e que levam em conta a subjetividade biológica e psicológica de cada um, além das condições ambientais.  

Quanto aos perigos do mundo, que é o tema deste artigo, dá para proteger as crianças de todos eles? Elas devem ou não correr riscos? Para responder tais questões, é interessante pontuar a diferença entre perigo e risco: enquanto o primeiro está relacionado ao agente causador, o segundo se refere à possibilidade de ocorrência do fato e depende do nível de exposição ao perigo, por exemplo: uma piscina oferece perigo para quem não sabe nadar e o risco é o afogamento. Levando em conta que tais conceitos caminham juntos e que fazem parte de todo e qualquer ambiente, não é razoável tentar eliminá-los totalmente do desenvolvimento da criança[3]

Na contramão dessa ideia, e a partir da concepção de que o risco é um fator adverso, pesquisadores da área têm estudado sobre uma cultura de aversão ao risco, ou seja, cada vez mais o ambiente que a criança brinca é controlado e, consequentemente, previsível; no ímpeto de eliminar qualquer tipo de proximidade aos perigos e riscos do mundo, estabelecendo diversas restrições, o desenvolvimento da criança acaba sendo limitado. As tentativas de controlar totalmente os aspectos ambientais – sendo uma missão (praticamente) impossível -, resultam em um repertorio motor pobre; isso porque é a interação entre os fatores ambientais, individuais e da tarefa, que balizam e influenciam diretamente o desenvolvimento humano.  

Falas como: “cuidado para não se sujar” ou “atenção para não se machucar”, ou até mesmo orientações que limitam a exploração do ambiente por parte da criança, como por exemplo, repreendê-las ao tentar subir o escorregador – sendo que essencialmente a função do brinquedo é descer -, podem parecer insignificantes, mas elas exprimem essa tentativa de moderar as ações das crianças e a de limitar o brincar. Há também a influência dos aspectos sociais, que tornou raro o jogo de rua, que foi substituído por uma “cultura de telas”, resultando num tempo livre considerado passivo e que arrebatou experiências ricas – em todos os sentidos – que a brincadeira de rua proporciona ao indivíduo. Restrições excessivas, ambientes e brinquedos previsíveis, que oferecem poucas oportunidades de interações sociais, são pouco desafiantes e não lidam com o risco, e refletem um desenvolvimento motor aquém do esperado. 

Convido-os a refletir sobre um ponto: se a essência do movimento é a vida, brincar com o risco e se desafiar é necessário, e é isso que vai trazer vitalidade no decorrer do nosso desenvolvimento. É inegável que, biologicamente, temos uma predisposição à proteção e, talvez, isso explique os comportamentos dos adultos que tentam de todas as maneiras controlar os ambientes e proteger as crianças. Mas devemos atentar para os excessos. Nossas experiências não são todas iguais e, por isso, temos que olhar para o nosso ambiente e perceber a potência que ele carrega e a influência que ele exerce sob o nosso desenvolvimento e aprendizagem. Afinal, aprendemos e nos desenvolvemos a partir da liberdade e não do controle do risco.


[1] GALLAHUE, D.L.; OZMUN, J.C.; GOODWAY, J.D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. Tradução: Denise Regina de Sales; revisão técnica: Ricardo D. S. Petersen. – 7. ed. – Porto Alegre: AMGH, 2013.

[2] FREIRE, JB. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da educação física. São Paulo: Scipione, 2009.

[3] Seminário apresentado pela Professora Doutora Rita Cordovil, no III Encontro Mineiro de Comportamento Motor, disponível no link: < https://www.youtube.com/watch?v=kl3iCmMxi5M> Acesso em: 11 de setembro de 2020.