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Táticas – Restringem ou potencializam as tomadas de decisão?

Crédito imagem: Joedson Moura/Retrô FC

Você já deve ter lido ou ouvido que o atleta brasileiro perdeu a criatividade e a alegria de jogar futebol. No meio acadêmico, preocupados com o desenvolvimento dos jogadores, incluindo sua capacidade de decisão, estudos têm sido feitos acerca dos processos relacionados à pedagogia dos esportes (1, 2). Enquanto isso, para muitos envolvidos diretamente no futebol, ou simplesmente amantes da modalidade, os métodos de treinamento e o excesso de “tática” são possíveis causas da perda da identidade brasileira. Nessa perspectiva, proponho a seguinte pergunta: As táticas restringem ou potencializam a capacidade de decisão dos jogadores?

Nesta série de textos, apresentarei argumentos sobre esse tema, no qual abordarei os detalhes da tática com o objetivo de fornecer informações que possam ajudar a todos os envolvidos no esporte a refletirem com mais clareza sobre o assunto e suas consequências no processo de formação de jogadores.

O futebol tático

Todos os aspectos do futebol evoluíram com o avanço de diversas áreas, mas impulsionada pela expansão dos recursos tecnológicos como softwares para análise de desempenho e mídias sociais que ajudam na divulgação de conteúdos audiovisuais, a evolução tática talvez seja aquela que tenha atraído cada vez mais holofotes na última década.

Livros, cursos e vídeos têm sido produzidos a fim de explorar os meandros da tática (3, 4). Inclusive, chegamos a ouvir várias vezes que “o futebol era técnico, hoje é tático” (5). Essa frase se faz presente principalmente no contexto brasileiro, pois os jogadores das gerações passadas se destacavam pela condição técnica altamente desenvolvida, os quais levaram o Brasil ao topo do futebol mundial, enquanto que na Europa prenominava a força física e a aplicação tática.

Nas últimas décadas teria acontecido mudanças no estilo de jogo brasileiro, que supostamente teria abandonado suas raízes históricas, aproximando-se cada vez mais dos padrões europeus. Com o insucesso brasileiro e dos países sul-americanos em mundiais adultos masculinos desde 2002, e o constante aumento dos estudos e conteúdos “táticos” no futebol, muitos passaram a questionar se os avanços táticos e dos métodos de treinamento tornaram os jogadores menos criativos, mais controlados e com baixo poder de decisão. Precisamos também analisar se as táticas estão afetando negativamente o desenvolvimento dos jovens das categorias de base.

É importante ressaltar que essa discussão transcende o Brasil. Por exemplo, Marijn Beuker, diretor técnico de um dos clubes holandeses que tem sido considerado como referência na base, o AZ Alkmaar, afirmou ter abolido “a tática” no clube para os jogadores abaixo de 16 anos (Training Ground Guru) (6). Massimiliano Allegri, que recentemente guiou a Juventus de Turim a cinco títulos consecutivos na Itália, afirmou que “as táticas e os esquemas estão destruindo o futebol” (7).

Nos Estados Unidos, a federação americana de futebol (US Soccer) ensina durante seus cursos para treinadores de base, o método “Play Practice Play” (Jogue, treine, jogue), no qual mesmo durante o treino todas as atividades devem ser baseadas em jogos, visando evitar treinadores que passam muito tempo dando treinos analíticos técnicos ou explicando “táticas”.

Responder à pergunta norteadora desse texto é uma tarefa complexa e polêmica, pois existem muitos pontos de vista. Consideramos que o primeiro passo seja discutir o termo “tática” para uma melhor compreensão do tema e atribuição de limites. Portanto, convido você a se questionar o que entende por tática e se acredita que ela pode restringir ou ampliar as tomadas de decisão dos jogadores. Pense nisso e nos encontramos no próximo texto. Até breve.

Referências

1.         Galatti LR, Reverdito RS, Scaglia AJ, Paes RR, Seoane AM. Pedagogia do esporte: tensão na ciência e o ensino dos jogos esportivos coletivos. Revista da Educação Física/UEM. 2014;25(1):153-62.

2.         Greco PJ. Metodologia do ensino dos esportes coletivos: iniciação esportiva universal, aprendizado incidental-ensino intencional. Revista Mineira de Educação Física. 2012;20(1):145-74.

3.         Wilson J. The Barcelona Inheritance: The Evolution of Winning Soccer Tactics from Cruyff to Guardiola: Hachette UK; 2018.

4.         Mesoudi A. Cultural evolution of football tactics: strategic social learning in managers’ choice of formation. Evolutionary Human Sciences. 2020;2.

5.         Parreira CA. Evolução tática e estratégias de jogo. Brasília: Ed EBF. 2005.

6.         Schneider-Weiler J, Austin S. Marijn Beuker: Thinking differently with AZ Alkmaar. 2021. Disponível em: https://trainingground.guru/articles/marijn-beuker-thinking-differently-with-az-alkmaar.

7.         Team FN. Massimiliano Allegri: Tactics Ruining The Art Of Football 2019 Disponível em: https://goodforfans.com/read-blog/1282_massimiliano-allegri-tactics-ruining-the-art-of-football.html.

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Fundamentos na leitura de jogo

Crédito imagem: Lucas Figueiredo/CBF

O fim de semana se aproxima, o momento mais aguardado para a prática do futebol se apresenta e a rotina de acompanhamento quase que de forma inconsciente se repete dentro e fora de campo. Testemunhamos o futebol no modo ativo (jogando) ou passivo (assistindo presencialmente e pela mídia) ao mesmo tempo que trocamos informações quase automáticas em campo, na arquibancada ou no conforto de casa (entretidos com as distrações de uma narração aliada a comentários subjetivos).

Mas, afinal, se buscarmos uma orientação consciente, como seria possível ler e interpretar o que de fato acontece ao longo de uma partida nessa modalidade coletiva e de contato, sobretudo no alto rendimento?

Nomenclaturas, terminologias ou preferências à parte, a leitura em um jogo de futebol ainda pode privilegiar uma orientação inicial essencialmente simples, sem saudosismo, antes de discutir análises que destaquem a sua complexidade. Isto porque, independente do país em que o esporte seja observado, os fundamentos da sua prática permanecem os mesmos. E é justamente ao ressaltar conceitos básicos que podemos facilitar interpretações realistas a cada contexto apresentado em campo, seja em uma construção de jogada, em uma repetição de padrões ou em eventualidades que também compõem a dinâmica do jogo.

Partindo pelos fundamentos, toda e qualquer leitura de jogo (ou jogada) demanda consideração a três variáveis essenciais: a bola, o tempo e o espaço.

A bola, sendo o principal instrumento do jogo, tende a prender a atenção do acompanhamento externo de torcedores, jornalistas e espectadores, enquanto norteia apenas uma óptica nas tomadas de decisão dentro de campo por parte de jogadores e árbitros. Já o tempo, balizado pelas oscilações de intensidade com aceleração, pausa e velocidade, tende a informar o ritmo do jogo e da combinação de jogadas. O espaço, por sua vez, segmentado ainda que de forma imaginária em todo o terreno do jogo, possibilita oportunidades de posicionamento, deslocamento e distanciamento em um esporte marcado por constantes mudanças de direção na prática.

Com base nesse raciocínio, as ações dos jogadores (os reais protagonistas em campo) refletem fundamentalmente três movimentos inter-relacionados: o movimento da bola, o movimento dos companheiros de equipe e o movimento dos adversários. Embora nem sempre testemunhados de forma simultânea, tão logo um desses três movimentos seja ativado, desencadeia-se uma influência imediata sobre os outros dois. A não ser que ninguém em campo queira jogar com a bola.

A eficácia numa troca de passes, por exemplo, depende não apenas da qualidade técnica, equilíbrio e percepção do executor em contato direto com a bola, mas também do deslocamento adequado do receptor, aliado a ausência de interceptação por parte dos seus adversários. Note como a bola, o tempo e o espaço estão sempre em sinergia conforme os atores se movimentam em campo (mesmo aqueles que não participam diretamente onde a bola transita).

Como segundo exemplo, um contra-ataque cuja execução pode ser testemunhada com superioridade numérica ofensiva (espaço) ainda depende da velocidade na jogada (tempo) e da precisão ao circular ou conduzir a bola contra o deslocamento dos adversários até a eventual oportunidade de finalização. Perceba como o movimento na transição defensiva responde à intensidade do movimento de quem ataca (novamente com e sem o principal instrumento do jogo), ilustrando a conexão dinâmica entre a bola, o tempo e o espaço. E se levantarmos outras alternativas que remetam a situações reais de jogo, torna-se possível evidenciar variações em fases de organização, transição e até mesmo bola parada.

No entanto, vale ressaltar que a leitura de jogo é diretamente influenciada pelo ângulo em que se encontra o leitor. Dependendo do campo de visão disponível, a interpretação dos leitores pode apresentar perspectivas distintas sobre uma mesma situação de jogo. Parece confuso? Vamos aos exemplos.

Posicione-se como um treinador (ou membro de comissão técnica) à beira do gramado, por exemplo, e sua leitura sobre os movimentos da bola, dos comandados e dos adversários estará comprometida a um campo de visão horizontal e à mesma altura em que o jogo acontece. E lembre-se que, na função de treinador (ou auxiliar, preparador físico, médico), sua leitura torna viável informar, orientar e até esbravejar, mas não a executar o que de fato se discorre dentro do jogo.

Leitor com campo de visão horizontal (e na mesma altura do jogo)

Agora imagine que você esteja dentro de campo, onde jogadores e árbitros interpretam as variações de jogadas conforme o deslocamento momentâneo de cada indivíduo. Desse modo, a percepção, a antecipação, a tomada de decisão e a execução de cada manobra em campo será influenciada pela dinâmica dos seus movimentos como jogador. Enquanto goleiros e defensores enxergam a maior parte do jogo com um campo de visão vertical e diagonal, por exemplo, meio-campistas e atacantes trabalham exaustivamente com a visão periférica, sobretudo para prever ou antecipar ações durante os deslocamentos, possibilitando oportunidades de ataque.

Leitor com campo de visão periférica (e na mesma altura do jogo)

Por fim, retorne à condição de espectador apoiado por um campo de visão panorâmica, que facilita a leitura das três variáveis essenciais (bola, tempo, espaço) e dos três movimentos inter-relacionados (bola, jogadores da equipe mandante, jogadores da equipe visitante).

Caso o seu ângulo como leitor seja privilegiado pela posição no local da partida ou pela câmera de análise de desempenho, sua interpretação terá a vantagem de uma perspectiva efetivamente panorâmica (enxergando o movimento coordenado de todas as peças no terreno), porém ela ainda sofrerá limitações com relação à dinâmica real dos deslocamentos que acontecem em campo (devido à distância das ações).

Não obstante, caso a sua leitura de jogo dependa de uma transmissão midiática, suas interpretações serão influenciadas pela manipulação das câmeras escolhidas pelo veículo responsável na captação e edição das imagens que chegam ao seu campo de visão (além das distrações provenientes de narradores e comentaristas, que emitem juízo de valor durante a partida, interferindo na sua leitura de jogo).

Leitor com campo de visão panorâmica
Leitor com campo de visão focado na ação com a bola

Portanto, quando as próximas oportunidades surgirem, pratique a sua leitura de jogo independente (ausentando-se de distrações, narrações e comentários). Questione a inter-relação do movimento da bola, junto ao movimento dos jogadores da equipe que ataca e o movimento dos jogadores da equipe que defende. Oriente-se pelas três variáveis essenciais, contextualizando as ações que ocorrem em campo dependendo de onde a bola transita, como o tempo se modifica e qual o espaço disponível de acordo com a execução das jogadas.

Raciocinemos sempre a dinâmica do futebol. Um esporte coletivo e de contato, praticado por seres humanos.

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O futebol é o esporte mais praticado do mundo

O futebol é o jogo mais praticado do mundo, uma paixão inconfundível e irremediável, que transcende nossa razão e nos deixa como crianças atrás de uma bola, no entanto, existe um “grande vilão” a ser combatido que vem crescendo também com essa prática.

A especialização precoce pode ser um grande adversário na formação do jovem atleta se não for bem conduzido, pois a criança precisa (e deve) brincar, se divertir e principalmente, ser criança.

Como encontrar o equilíbrio para que a prática do jogo não se torne em trabalho?

Como não tirar a alegria e o prazer do jogar?

São perguntas como essas que precisamos nos fazer constantemente, pois, se em algum momento perdemos essa rotina, de nos questionar sempre a respeito disso, podermos nos afastar do real sentido do jogo, da prática e do esporte.

Ouvir e ler o grande mestre João Batista Freire é sem dúvida, enriquecedor e desafiante em cada palavra, ponto e vírgula. Nessa frase ele deixa claro na sua visão que o jogo e a ludicidade são as mesmas coisas.

“O futebol é um jogo. Não é por outro motivo que dizemos “jogar futebol”. Como todo jogo, ele guarda elementos de risco, imprevisibilidade, complexidade. O jogo é sempre uma simulação. Simulação do quê? Simulação de aspectos de nossas vidas. Porém, o jogo não tem elementos de ludicidade; ele é a ludicidade. Jogo e lúdico querem dizer a mesma coisa.” João Batista Freire

Jogo e lúdico sendo as mesmas coisas, certamente eles não  combinam em nada com algumas regras que vem sendo impostas na formação de atletas. Será que já ouviram algumas dessas frases?

  • Não brinque ai;
  • Futebol é coisa séria;
  • Para de rir;
  • Faça isso e não faça aquilo.

“Futebol não é um esporte, é um jogo. E todo mundo que joga um jogo começou a fazê-lo criança por diversão. E devemos alimentar a criança que temos dentro. Não devemos perder de vista o jogo e que a criança interior do jogador esteja disfrutando.” Maurizio Sarri

No final de tudo, perceberemos que a criança nunca irá crescer, mesmo jogando final de Libertadores ou de Champions League, ela continuará sendo a criança sonhadora  que corre atrás de uma bola.

Pensem Nisso!

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A importância do arremesso lateral

A jogada realizada pela equipe do São Paulo na quinta-feira dia 03/12/2020, que originou o segundo gol da vitória contra o Goiás, em partida válida pela 1ª rodada do Campeonato Brasielrio viralizou nas redes sociais, uma jogada ensaiada e treinada que resultou no gol do Brenner.

A jogada se inicia de um arremesso lateral, que aliás é o momento de bola parada que mais acontece no jogo.

Qual a importância que você dá para o arremesso lateral nos treinos que realiza?

Há detalhes no arremesso lateral que são pouco explorados e discutidos em relação a esse momento. Sendo um momento peculiar por conta da bola partir da mão do jogador que realiza a cobrança, sendo o resto do jogo praticado com os pés.

O arremesso lateral deve ser colocado em disputa ou para controle?

Em 2016, o lateral arremessado na área foi uma jogada muito importante para o Palmeiras, ajudando também na conquista do Campeonato Brasileiro. Uma jogada onde a equipe arremessava o lateral na área e os jogadores estavam sempre prontos e ajustados para a disputa de primeira e segunda bola.

No Brasileirão 2019 a equipe comandada por Jorge Jesus tinha uma jogada de arremesso lateral na área que resultou em dois gols no Castelão, contra Ceará e Fortaleza. Onde os ajustes eram para primeira bola ser ajeitada para o meio da área onde haviam jogadores para a segunda bola finalizar.

Como colocar o lateral em controle do time de posse?

Um detalhe, que é falado no vídeo do treinamento do São Paulo, é o Diniz pedindo para que a bola seja jogada em direção ao pé do atleta que irá receber. Acredito que isso seja um ponto muito importante para se pensar no lateral, a bola no pé facilita o controle do jogador e faz com que dê continuidade da jogada.

Outro ponto a se pensar é que o jogador que cobra o arremesso lateral, após o arremesso é um jogador livre, que pode ser apoio a continuidade da jogada.

A equipe do Liverpool tem um treinador específico para Arremessos Laterais, se chama Thomas Gronnemark, a equipe inglesa teve uma melhora em seu desempenho desde que o dinamarquês chegou a equipe na temporada 2018/19.

“Como jogador de futebol, é muito importante que você possa arremessar a bola com precisão, encontrando espaços por todo o campo. Eu trabalho com cerca de 20 princípios diferentes para efetuar as cobranças, e os jogadores podem encontrar outras diversas variações” (Thomas Gronnemark)

Quais outros detalhes você pensa ser importante para essa bola parada no jogo?

A mobilidade, desmarques e troca de posição acredito que seja muito importante para esse momento, fazendo com que se criem jogadas e espaços a partir do arremesso lateral. É possível colocar movimentos de bloqueio, como é feito no basquete, para que os jogadores saiam livres e possam controlar a bola para dar continuidade à jogada. Outra maneira de se arremessar a bola é no espaço – chão, para que o jogador consiga dominar a bola em movimento – para frente ou para trás.

Outro ponto que é importante ser refletido é sobre como colocar arremessos laterais nos treinamentos. Será que é necessário colocar os arremessos apenas nos jogos grandes? É possível criar treinos de rondo onde a bola se inicia em um arremesso lateral? Ou utilizá-los em trabalhos específicos com cabeceio também?

Quais outras formas possíveis de se treinar o arremesso lateral?

É importante se pensar na técnica específica de arremesso, onde movimentos de quadril podem ajudar a ganhar força e potência no arremesso. Outro ponto que acredito ser importante é o engano de quem está arremessando, movimentos rápidos de braço e perna para enganar e jogar para outro lugar a bola facilitam a continuidade da jogada.

Há outras técnicas importantes para esse arremesso?

Há várias formas de se utilizar e melhorar o arremesso lateral de sua equipe, um momento pouco valorizado mas necessário ser pensado e refletido. Terminamos esse texto com uma frase dita por Thomas Gronnemarck que auxilia na reflexão sobre o arremesso lateral: “Muitas das melhores equipes do mundo estão apenas arremessando a bola e não conseguindo mantê-la. Mas claro, por não saberem ainda o que melhorar, no que trabalhar, quais as melhores soluções”.

Pense e analise o jogo e coloque em prática.

REFERÊNCIA:

https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2020/06/liverpool-tem-ate-tecnico-de-arremesso-lateral-em-campanha-historica.shtml (Frases Thomas Gronnemarck)

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Fatores que influenciam a participação de brasileiros na Champions League – Indicadores de tamanho corporal

Crédito imagem – Vitor Santos

Pelé, Garrincha, Rivellino, Zico, Sócrates, Romário, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Kaká, Neymar. São inúmeros os talentosos futebolistas brasileiros que nos encantaram e continuam a nos encantar com tamanha qualidade tático-técnica colocada em prática nos gramados mundo afora.

De fato, ao longo do tempo, o Brasil tem se caracterizado como um país formador de grandes jogadores para o futebol mundial. De norte a sul, todos os anos surgem novos talentos oriundos das categorias de base dos diversos clubes brasileiros. Além de oferecer uma carreira esportiva ao jovem futebolista, os clubes formadores buscam otimizar os processos de prospecção, detecção e formação de jogadores visando alimentar as suas equipes profissionais, bem como gerar receitas com a venda dos futebolistas talentosos formados “em casa” para os clubes europeus, asiáticos e até mesmo norte-americanos.

Um processo formativo virtuoso e capaz de revelar tais talentos ao futebol reclama aos profissionais envolvidos neste contexto a adoção de métodos de treinamento que trabalhem o ensino-treinamento das dimensões físicas, técnicas, táticas e psicológico-comportamentais.

Apesar do futebol ser reconhecidamente um esporte multifatorial, tem sido observada uma maior representatividade de futebolistas com maiores proporções corporais em equipes de futebol (MALINA et al., 2010), revelando um possível viés na prospecção de talentos. Isso vem ocorrendo porque os jogadores maiores e que amadurecem precocemente apresentam melhores resultados nos indicadores de tamanho e composição corporal (MALINA et al., 2000) e no desempenho físico (COELHO-E-SILVA et al., 2010), provocando uma aparente vantagem competitiva (GIL et al., 2007).

Por outro lado, diversas investigações têm apontado para a limitada contribuição do tamanho corporal e da maturidade precoce sobre o desempenho técnico (MALINA et al., 2005; GOUVÊA et al., 2017) e tático dos futebolistas (BORGES et al., 2018).

Diante de informações contraditórias acerca do impacto do tamanho corporal sobre o desempenho nas dimensões físicas, técnicas e táticas, surge a questão: os futebolistas brasileiros corporalmente maiores são aqueles que jogam nas melhores equipes europeias?

Para tentar responder a esta questão, buscamos no artigo de Mendes e colaboradores (2021) identificar os efeitos do tamanho corporal sobre a ascensão profissional de futebolistas brasileiros atuando na Europa. Foram coletadas informações provenientes de 309 jogadores brasileiros que atuam nas dez principais ligas europeias – Espanha, Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Rússia, Portugal, Ucrânia, Bélgica e Turquia, conforme ranking de coeficientes de clubes da UEFA.

A partir de análises estatísticas, identificamos que o aumento de 1 cm em estatura amplia em 7% as chances de o jogador atuar em um escalão inferior (P=0,03), diminuindo, consequentemente, as chances de atuar em uma equipe de escalão superior, participante da Liga dos Campeões da UEFA. Por sua vez, a massa corporal não foi capaz de predizer a atuação dos jogadores brasileiros em diferentes escalões competitivos.

Importante fazermos uma ressalva: esta análise não considerou a posição de jogo do futebolista. Acreditamos que as diferentes posições trazem consigo diferentes características morfofuncionais aos jogadores, o que não nos permite estender essa informação para todas as posições de jogo, sendo apenas uma análise generalista.

Considerando os dados previamente publicados na literatura, conjugados aos achados da nossa investigação, observamos que as estratégias de prospecção de talentos que buscam selecionar majoritariamente jovens futebolistas altos e fortes em detrimento daqueles que apresentam qualidades tático-técnicas pode diminuir as chances destes futebolistas participarem de elencos de grandes clubes.

Em síntese, recomendamos aos profissionais que trabalham com jovens futebolistas a adoção de uma visão integrada e multifatorial do desempenho esportivo, pois enviesar os processos de prospecção e seleção de talentos apenas pela dimensão morfofuncional pode trazer resultados imediatos dentro de campo a partir das momentâneas vantagens competitivas que o tamanho corporal ocasiona, mas ao longo do tempo o tamanho corporal sozinho parece não favorecer a um maior sucesso esportivo, tampouco ser um preditor de desempenho em campo.

Link para o artigo completo

Referências consultadas

BORGES, P.H.; CUMMING, S.; RONQUE, E.R.V.; CARDOSO, F.; AVELAR, A.; RECHENCHOSKY, L.; TEOLDO, I.; RINALDI, W. Relationship Between Tactical Performance, Somatic Maturity and Functional Capabilities in Young Soccer Players. Journal of Human Kinetics, v. 64, n. 1, p. 160-169, 2018.

COELHO-E-SILVA, M.J.; FIGUEIREDO, A.J.; SEABRA, A.; NATAL, A.; VAEYENS, R.; PHILIPPAERTS, R.; CUMMING, S.; MALINA, R.M. Discrimination of U-14 soccer players by level and position. International Journal of Sports Medicine, v. 31, n. 1, p. 790-796, 2010.

GIL, S.; RUIZ, F.; IRAZUSTA, A.; GIL, J.; IRAZUSTA, J. Selection of young soccer players in terms of anthropometric and physiological factors. The Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, v. 47, n. 1, p. 25-32, 2007.

GOUVEA, M.; CYRINO, E.S.; VALENTE-DOS-SANTOS, J.; RIBEIRO, A.S.; SILVA, D.R.P.; OHARA, D.; COELHO-E-SILVA, M.J.; RONQUE, E.R.V. Comparison of skillful vs. less skilled young soccer players on anthropometric, maturation, physical fitness and time of practice. International Journal of Sports Medicine, v. 38, n. 5, p. 384-395, 2017.

MALINA, R.M.; CUMMING, S.; KONTOS, A.P.; EISENMANN, J.; RIBEIRO, B.; AROSO, J. Maturity-associated variation in sport-specific skills of youth soccer players aged 13–15 years. Journal of Sports Sciences, v. 23, n. 5, p. 515-522, 2005.

MALINA, R.M.; REYES, M.P.; EISENMANN, J.; HORTA, L.; RODRIGUES, J.; MILLER, R. Height, mass and skeletal maturity of elite Portuguese soccer players aged 11–16 years. Journal of Sports Sciences, n. 18, v. 9, p. 685-693, 2000.

MALINA, R.M.; REYES, M.P.; FIGUEIREDO, A.J.; COELHO-E-SILVA, M.J.; HORTA, L.; MILLER, R.; CHAMORRO, M.; SERRATOSA, L.; MORATE, F. Skeletal age in youth soccer player: implication for age verification. Clinical Journal of Sport Medicine, v. 20, n. 6, p. 469-474, 2010.

MENDES, C.; MENEGASSI, V.; JAIME, M.; COSTA, L.C.A.; MARQUES, P.G.; RECHENCHOSKY, L.; RINALDI, W.; BORGES, P.H. Impacto do tamanho corporal, da idade relativa e do índice de desenvolvimento humano sobre a participação de futebolistas brasileiros na Liga dos Campeões da UEFA. Retos, v. 39, n.1, p. 271-275, 2021.

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O duelo brasileiro na final da Libertadores

Após 13 edições, a Copa Libertadores da América novamente terá uma final entre duas equipes brasileiras. A última vez que isso havia ocorrido foi em 2006, quando o Internacional sagrou-se campeão ao vencer o São Paulo.

Teremos duas equipes brasileiras, mas apenas um treinador do país. Pelo segundo ano consecutivo um português pode ser o campeão da principal competição de clubes da América do Sul. Outro dado a se destacar é que após 3 finais consecutivas – 2017, 18 e 19, desta vez não haverá ao menos um treinador argentino decidindo o título.

Nesta final destacamos o poderio ofensivo das equipes, ambas chegam empatadas como a 3º equipe que mais finaliza a gol na competição, o Palmeiras ainda é a 2º em expectativa de gols, o xG, enquanto o Santos é a 4º. 

E quando se fala em ataque, pensamos logo nos jogadores de frente, mas em nossa análise ressaltaremos dois jogadores que tem contribuído muito para o sucesso ofensivo de suas equipes e que atuam no meio-campo. Gabriel Menino e Alisson, são dois jogadores que com a versatilidade entre as fases do jogo, dada a média de recuperações de bola e de passes progressivos, têm sido fundamentais para “empurrar” suas equipes até a meta adversária.

Prognóstico de uma final com equipes buscando o gol a todo momento!

Desfrutem do JOGO!

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O ataque do River de Marcelo Gallardo – A transição defensiva e uma análise quantitativa

Nas últimas três semanas abordamos as fases de iniciação, criação e finalização das jogadas ofensivas do River Plante de Marcelo Gallado e hoje chegamos ao último texto da série de artigos que destrinchou o ataque millonario. Nas próximas linhas iremos abordar a transição defensiva da equipe argentina e trazer alguns números que vão ajudar a ilustrar suas principais características ofensivas.

A fase de transição defensiva do River é marcada não somente pela pressão pós perda agressiva que dá pouco tempo para o adversário ficar com a bola, mas também pelas interações grupais que permitem criar estruturas de pressão e contenção para recuperar a bola e permitir um novo ataque, chamaremos esse comportamento de atacar marcando. Ponzio, Enzo Pérez e Palacios se destacam bastante nesses momentos pela alta capacidade de pressionar com agressividade, antecipar os passes e recuperar a bola para promover uma nova jogada de ataque.

Pressão pós perda

Imagens: Jonathan Silva/Reprodução

Importante perceber nas três imagens que os jogadores mais próximos do adversário com a bola tem a função de pressionar, enquanto os demais que estão ao redor da jogada buscam eliminar opções de passes interiores.

A participação dos médios nessa fase é muito importante para proteger a região central e intensificar a pressão. Ponzio, Palacios e Enzo Pérez buscam uma posição para realizar coberturas ou dobras de marcação.

Atacar marcando

Nas imagens acima temos um bom exemplo da importância dos médios de Gallardo. O River tem uma tentativa de ataque mas perde a bola na zona de finalização, o adversário é desarmado por Ponzio que consegue recuperar a bola e passar para Mora que finaliza de fora da área.

Imagens: Jonathan Silva/Reprodução

Nesses exemplos temos na figura 42 o momento em que o River Plate já estava sem a bola após realizar um ataque e percebemos como Ponzio e Palacios estão se projetando para conter o ataque adversário pelo centro.

Imagens: Jonathan Silva/Reprodução

Na figura 43, temos mais uma bola recuperada por Ponzio com a ajuda do lateral esquerdo Montiel.

Imagens: Jonathan Silva/Reprodução

As imagens acima reforçam como o atacar marcando organizado do River sobreviveu ao tempo, dessa vez quem tem o papel de garantir a contenção do adversário e recuperação da bola é Enzo Perez. Na figura 41 ele está protegendo a região central após uma tentativa de ataque, na figura 42 o médio já está em controle da bola e atacando o espaço vazio em condução, na figura 43 o médio tem algumas opções de conexão, escolhe Nacho Fernandez que vai ao fundo e passa para trás para Borré fazer o gol. Enzo Pérez acompanha de perto a bela conclusão da jogada iniciada por ele.

Análise quantitativa

Cruzamentos

Vimos anteriormente nas fases de disposição posicional e finalização que um dos espaços que o River busca alcançar para terminar suas jogadas de ataque são as zonas de linha de fundo pelos corredores laterais, são espaços que possuem uma boa localização para cruzamentos com passes no alto ou rasteiro, característicos da equipe argentina.

Na Sulamericana de 2015, o River foi a 3ª equipe que mais realizou cruzamentos para área, ficando atrás somente do campeão Santa Fé em porcentagem de acertos nessas ações.

Nas Libertadores de 2018 e 2019 a equipe foi a que mais cruzou bolas para área, tendo menos acertos apenas em 2019. Esses dados comprovam que os millos possuem mecanismos ofensivos que permitem chegar em zonas que favorecem as características dos seus laterais que sempre foram muito bons nos duelos defensivos, mas também nos apoios a ações ofensivas em último terço, como vimos anteriormente.

Fonte: WyScout

Passes para o terço final

Na Sul-americana de 2015 apesar de ser a 3ª equipe que mais realizou passes para o terço final, nesse quesito o River teve uma porcentagem de acerto maior que o campeão Santa Fé.

Nas Libertadores de 2018 e 2019 os Milos lideraram o ranking, tendo uma porcentagem de acerto menor que seu maior rival Boca Juniors em 2018 e do campeão Flamengo em 2019.

Esses dados mostram primeiramente a verticalidade do River e justificam as ações dos centrais e laterais que realizam muitos passes longos na fase de iniciação. Esses passes também são frequentes quando a equipe argentina está em disposição posicional e os atacantes de Gallardo realizando constantes movimentos de ruptura nas costas dos adversários.

Fonte: WyScout

Remates ao gol

Na Libertadores de 2018, o River ficou atrás somente do Grêmio, equipe eliminada pelos comandados de Gallardo na semifinal.

Em de 2019 tiveram maior número de chutes a gol do torneio, porém com pouca porcentagem de acerto ao alvo em relação ao rival Boca Juniors que foi mais eficiente.

Assim, esses números confirmam a importante propensão do 3º comportamento tático da fase de finalização – finalização de média distância – apresentado na semana passada.

Fonte: WyScout

Sabemos que El Muñeco Gallardo não abre mão da competitividade e da mentalidade vencedora independente das circunstâncias, sendo melhor ou pior em determinados aspectos, tendo os melhores jogadores ou não. O River demonstra em campo que sempre é possível estar próximo da vitória quando se tem uma mentalidade forte e vencedora. O treinador que chegou a 3 finais de libertadores nos últimos 5 anos confirma isso na declaração que se segue.

“Se você está mentalmente forte, é muito difícil que alguém te supere” – Marcelo Gallardo

Assim finalizamos essa análise apresentando um pouco da grandeza dessa equipe que vem sendo protagonista nos últimos anos em competições nacionais e internacionais e que conta com a ajuda de um treinador que consegue colocar sua marca autoral na obra que compõe com seus jogadores. Não é por acaso que Marcelo Gallardo se tornou o treinador mais vitorioso da história do River Plate, somando 10 títulos em 13 finais nos últimos 6 anos.

Gallardo demonstra ter a principal característica dos grandes treinadores do futebol. Não treina sua equipe para vencer, mas sim, para ser invencível!

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O ataque do River de Marcelo Gallardo – a finalização

No terceiro texto da série de artigos sobre o ataque do River Plate de Marcelo Gallardo vamos explorar a fase de finalização das jogadas da equipe, que tem se mantido nos últimos anos como uma das melhores do continente.

Nessa fase a equipe argentina possui comportamentos coletivos que ficaram enraizados de 2014 a 2019, ao longo do texto vamos explorar três desses comportamentos

O ataque pelo centro sempre com 2 opções de apoio de progressão e ruptura ao 1º homem

O ataque pelos lados com variação de qual jogador realiza ruptura para cruzar – atacantes ou laterais

A finalização de média distância quando o 1º homem se identifica como homem livre para chutar

Comecemos pelo primeiro comportamento tático presente nas imagens abaixo.

Nas figuras 26 e 27, Pity Martinez é o 1º homem aquele que tem a opção de conectar com Borré que tem a função de apoio de progressão e também atrai a atenção de um dos centrais rivais e Pratto que está como apoio de ruptura se projeta para o espaço nas costas da linha defensiva do Boca e faz um dos gol que fortaleceu o River no primeiro jogo da final da Libertadores 2018.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas figuras 28 e 29, Nacho Fernandez está como 1º homem da jogada e tem duas boas opções de profundidade, Borré que está como apoio de progressão em vantagem posicional sobre Rodrigo Caio e também Suarez como apoio de ruptura e em vantagem cinética sobre Pablo Marí. Na sequência da jogada o atacante está localizado mais próximo da linha de fundo e busca um passe pra trás para conectar com os companheiros que invadem a área.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Já nas duas imagens abaixo (30 e 31) podemos ver como o médio Pisculichi possui opções de conexão com apoios de progressão e também de ruptura, mas percebe que tem tempo e espaço para finalizar.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Já nas imagens seguintes (32 e 33), Juan Quintero é quem se aproveita do posicionamento mais avançado dos atacantes que estão como apoio de progressão e fixação, permitindo que o talentoso médio colombiano tenha tempo e espaço para finalizar e fazer um dos gols mais importantes na conquista da Libertadores da América de 2018.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Na semana que vem vamos para a última parte de nossa série na qual será discutido o momento de transição e o conceito do “atacar marcando”, executado pelo River nos últimos anos, além de uma análise quantitativa do ataque da equipe millonaria.

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O ataque do River de Marcelo Gallardo – A criação das jogadas

Na semana passada, iniciamos a nossa série sobre o ataque do River Plate do técnico Marcelo Gallardo discutindo a fase da construção das jogadas ofensivas da equipe. No texto de hoje vamos explorar o momento da criação das jogadas, nas zonas intermediárias onde as ações são realizadas com o intuito de propiciar as situações mais vantajosas na fase de finalização das jogadas ofensivas, que discutiremos na próxima semana.

Nessa fase a equipe do River preferencialmente inicia suas interações a partir de uma estrutura de segurança e circulação da bola utilizando três jogadores por trás, variando entre: médio + centrais (maior freqüência em 2018/2019) ou centrais + um dos laterais mais utilizado em 2014/2015. Essa estrutura favorece o avanço dos laterais em amplitude e permite a interação deles com os médios e atacantes para combinar jogadas pelos lados do campo. Veja alguns exemplos a seguir

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

A equipe argentina variou os jogadores que compunham a estrutura de segurança e circulação de bola nos três jogos analisados. Em 2014 ao alternar o lado do campo para atacar um dos laterais fechava pelo centro para liberar o lateral oposto, na figura 11 podemos ver Mercado fechando o corredor central e Casco avançando pela esquerda.

Já em 2018 a variação na utilização do médio “guardião” da região central Enzo Pérez que na figura 12 se posiciona entre os centrais e os laterais Casco e Montiel avançam, essa disposição oferece liberdade posicional para os médios Quintero e Palacios para flutuar pelos lados do campo e receber a bola de frente para o gol adversário.

Na figura 13, Enzo Pérez se posiciona ao lado de Maidana também permitindo o avanço de Montiel e Casco ao mesmo tempo pelos corredores laterais com mais segurança.

Organizando-se em 3 para iniciar seu ataque o River consegue não somente permitir o avanço dos seus laterais, mas também construir uma vantagem numérica diante de adversários que se organizam com atacantes numa estrutura de pressão.

Grêmio e Boca Juniors, foram equipes que escolheram essa alternativa e tiveram muitas dificuldades para recuperar a bola nessa zona do campo.

Ao estruturar-se com 3 apoios de segurança e circulação, os médios de Gallardo ficam livres para flutuar em diferentes espaços e permitindo interagir com os laterais que ganham profundidade. Outro benefício é que os médios controlam a bola de frente para a defesa adversária e conseguem ter uma visão de como está a situação dos atacantes que oferecem opções pelo centro; além de servir de apoios de segurança e circulação aos laterais para mudar o ponto de ataque com passes curtos ou longos em diagonal. Vejam dois exemplos dessas relações em jogos de 2014 E 2015

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas figuras 14 e 15 podemos ver o médio Pisculichi localizado nas regiões laterais pelo lado direito para pode ter conexões de amplitude e profundidade.

Nas imagens abaixo de 2018 os médios se oferecem como apoio de segurança aos laterais caso não haja a progressão pelo lado. Ao serem acionados podem mudar o ponto de ataque com passes curtos (Figuras 16 e 17) ou longos em diagonal (Figura 18).

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Essa estruturação posicional permite a equipe de Gallardo manter uma boa interação dos laterais com os atacantes para combinar jogadas pelo lado e garantir profundidade para atingir espaços nas costas da última linha defensiva do rival. Outro benefício, é que exige que o adversário recue para manter uma contenção e proteção segura, o que permite mais controle a equipe argentina e mais espaços livres para agredir e chegar ao gol adversário.

Imagem: Reprodução/Jonathan Silva

Na figura 19 de 2019 temos uma visão ampla dessa fase de disposição posicional. As opções de amplitude são estabelecidas com jogadores de características diferentes. O lateral Montiel está aberto pela direita como opção para progredir por fora e interagir com Nacho Fernandez.

Nas figuras 20 e 21 vemos o contrário, o lateral esquerdo Vangioni está por dentro e o atacante Cavenaghi está por fora, uma relação clara de alternância de largura. O cruzamento de Vangioni encontra Alario dentro da área que faz o primeiro gol da primeira conquista de Libertadores de Gallardo.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas figuras 22 e 23 o lateral Mercado se posiciona em amplitude enquanto Sanchez se projeta para o espaço de fundo do corredor lateral, atacando o intervalo entre o lateral e zagueiros da equipe colombiana, ao ser perseguido pelo zagueiro um espaço valioso é aberto na linha defensiva do Atlético Nacional. Ao mesmo tempo Alario e Mora se colocam como apoios de fixação pelo interior aguardando um cruzamento futuro para dentro da área.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Nas imagens 24 e 25 temos a variação da posição de amplitude, desta vez Sanchez está localizado mais aberto, enquanto o lateral Mercado se projeta pelo por dentro buscando o espaço nas costas da linha defensiva do LDU e novamente os atacantes Mora e Alario pelo centro invadem a área aguardando um cruzamento do lateral. Com essas combinações a equipe argentina vai ganhando profundidade e atacando espaços valiosos para concluir as jogadas.

Imagens: Reprodução/Jonathan Silva

Na próxima parte da série, que será publicada no próximo domingo, serão analisados os comportamentos do River Plate na fase de finalização do ataque.