Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

O crescimento do mercado de jogos eletrônicos no Brasil

Crédito imagem – Thais Magalhães/CBF

O mercado mundial de esportes eletrônicos, segundo a empresa de consultoria Newzoo, movimenta anualmente mais de 150 Bilhões de dólares e conta com o investimento de grandes nomes como adidas, Nike, Claro, Outback, Burguer King JBL e Red Bull.

Com crescimento acelerado do mercado de jogos eletrônicos no Brasil, mesmo em meio a uma economia estagnada, a Universidade do Futebol, no intuito de propiciar o aprofundamento no tema, entrevista o consultor Diego Guapo, que atua na agência NPN Gaming e trabalha há 5 anos exclusivamente no mercado de eSports.

Guapo teve seu primeiro contato profissional com o mundo dos games em 2016, quando a empresa na qual trabalhava criou o primeiro e-Brasileirão. 

O desafio de implantar o torneio pioneiro foi de Diego Guapo e sua equipe. Identificando uma boa repercussão e com o vislumbre de crescimento exponencial deste novo esporte, o consultor desbravou um mundo novo de possibilidades e passou a se dedicar inteiramente aos games. Participou da elaboração de grandes campeonatos de FIFA e PES, realizou eventos de League Of Legends, Counter Strike, entre outros. 

Ainda na EA, agência na qual trabalhava, trouxe para o Brasil um torneio universitário de eSports e profissionalizou este mercado, inclusive produzindo conteúdo através da página oficial do FIFA, gerida pela EA.

Diego, já no primeiro ano do E-Brasileirão, houve participação dos 20 clubes da Série A?

Sim. Muito em virtude do apoio da CBF e a força que a entidade tem junto aos clubes. 

A presença massiva dos clubes não ocorreu apenas no ano de estréia do torneio, mas em todos os demais e reitero que tanto a CBF quanto às federações estaduais, principalmente a Federação Paulista de Futebol, foram fundamentais para essa participação. 

Sem dúvida, tanto Federações quanto os clubes enxergaram o potencial deste mercado e foram estimulados a quebrar qualquer tipo de barreira ou preconceito a ele. Pesquisas revelam que o crescimento do eSportes  é superior a 20% e este se tornou um grande concorrente ao futebol, não com relação a torcida, mas ao consumo do esporte e conseqüentemente de produtos.

Fale um pouco sobre sua trajetória nos games.

Eu considero que não foi eu quem escolheu o eSports, mas ele me escolheu. Meu conhecimento sobre o segmento era bem limitado e dentro daquele cenário novo e embrionário, tive que fazer um pouco de tudo. Até técnico da Seleção Brasileira de FIFA em Londres eu já fui.

O mercado tem uma infinidade de possibilidades e está crescendo de forma acelerada criando muitas oportunidades de  investimento e trabalho, apesar de ainda estar engatinhando, possui uma fanbase de aproximadamente sete milhões de pessoas e também conta com jogadores mundialmente reconhecidos.

Atualmente eu estou a frente do trabalho de eSports com alguns clubes de Futebol e permaneço com o E-Brasileirão que ocorre em todos os anos desde a sua criação e é regido pela Confederação Brasileira de Futebol.

Como é a aproximação do eSports com os clubes de futebol?

A maioria dos clubes tem ciência de que precisa se aproximar mais dos jovens para rejuvenescer suas marcas. O game é uma excelente plataforma para alcançar esse objetivo. Dois a cada três jovens entre 10 a 20 anos prefere jogos eletrônicos a ir jogar bola na rua. E o jovem contemporâneo é extremamente “on demand” , ele acessa o que quer, onde quer, tem suas próprias escolhas e vontades, enfim, não adianta forçar a escolha de um esporte ou de um time, é preciso estar inserido no universo deles para fazer parte disso.

Mesmo nesse contexto, ainda há resistência por parte de muitos gestores que tem a mentalidade mais conservadora. 

Para auxiliar nessa quebra de paradigma, nossa agência tem trabalhado com o modelo revenue share que é uma espécie de compartilhamento de ganhos onde não há investimento inicial por parte do Clube. Isso faz com que a agremiação se sinta mais segura com a parceria.

Nossa estratégia para conseguir atrair o público e gerar retorno célere foi iniciar com o PES (Pro Evolution Soccer) que além de ser a plataforma de disputa do E-Brasileirão, patrocina alguns clubes e tem um Campeonato com participação da Rede Globo e da Konami. Isso tende a facilitar a comunicação com o público, já que quem participa desse tipo de game conhece as regras básicas do Futebol.

Fora do Brasil há um intenso movimento de clubes europeus formando grandes equipes, tal como o Paris Saint Germain com League Of Legends, Shalke 04 que possui ampla atuação nessa área, o Real Madrid que na reforma do Santiago Bernabéu está criando uma área exclusiva de eSports, entre vários outros clubes que podemos citar como exemplo de inovação. Eu acredito que essa tendência no Brasil ainda é incipiente, mas será inevitável!

Fora do futebol, nos times de eSports mesmo, o mercado é relativamente, mas ainda não conta com muitos eventos profissionais, nem com um calendário tão completo e organizado como em outros países e isso demanda mais empenho dos atletas que buscam se destacar; eles se esgotam e chegam ao limite para dar qualidade ao jogo. Destoando completamente do contexto do futebol que, principalmente nesta temporada atípica com pandemia, vem sofrendo com excesso de jogos e falta de qualidade técnica.

Você pode nos dar alguns exemplos de formas de monetização e ativação de empresas no mercado dos games?

Esse é um mercado de muita potência, então as empresas devem ter cautela. Como as interações não têm barreiras geográficas, a marca deve saber como se posicionar sem gerar nenhum tipo de desconforto, caso contrário pode ter um efeito de rejeição ao invés de propagação positiva.

Há poucos dias, o Brasil bateu um recorde de transmissão da LOUD com 506.797 mil pessoas simultâneas assistindo um jogo beneficente. Destaco que sequer era uma partida oficial. 

O Brasil é a décima terceira potência no mercado de games e a terceira maior em visualizações na TwitchStrike. Esse, sem dúvida é um grande atrativo para as empresas.

Mas diferente do que ocorre no futebol, as maiores cifras investidas não se concentram em times, e sim nos streamers, porque para quem acompanha e torce, os jogadores tem muito mais valor do que a entidade que ele representa. Se acontecer do streamers mudar de time ele leva consigo uma fanbase muito grande e é o que desperta o interesse das marcas.

Quanto as ativações, posso citar o exemplo da Bhrama, que criou um Bar Temático dentro do GTA Holi Play, que é um formato de GTA online onde você tem que viver o seu personagem ou pode até ser expulso do jogo. Essa ativação teve uma repercussão gigante e propiciou um vínculo maior do fã com a marca cervejeira.

Vale mencionar também, uma publicidade espontânea gerada por Shevii, um dos grandes streamers do Brasil que acabou por promover a marca Fisk por conta de seu inglês peculiar. Tudo começou em um jogo do LOL, onde o streamer brasileiro interagia com estrangeiros, mas não dominava o idioma inglês. Ele levou a falta de habilidade de um jeito descontraído, mesclando as poucas palavras que sabia pronunciar em inglês com o português, resultando em frases como “Oh My God, you cego?” (risos). Ele mesmo citou que precisava “fazer um Fisk”. A repercussão foi tamanha que gerou uma mídia espontânea. Em qualquer transmissão de um campeonato “gringo” relevante que houver algum brasileiro no chat, a marca aparece. 

Esses tipos de ações são fundamentais para reforçar a marca, mas cabe a empresa transformar isso em captação.

Há vastas possibilidades de investimento nos eSportes e os espectadores acolhem bastante as marcas que investem no segmento.

A NPN Gaming, antes de apresentar um projeto para uma empresa, primeiro estuda seu público. Ainda que a maior parte dos consumidores esteja entre 16 e 25 anos, há uma segmentação por jogos. No Counter Strike, por exemplo, o público é em sua maioria composto por pessoas acima dos 25 anos, já o League Of Legends abrange mais o público abaixo dessa fixa etária. Para haver assertividade é necessário conhecer o alvo, senão a experiência de investimento se torna traumática.

Você acha que o mercado eletrônico interage melhor com seu público do que o futebol?

Ah, sem dúvida. 

Nos eSportes há um bom volume de streamers com milhões de seguidores que conversam com os fãs através dos chats e de suas lives. 

Os grandes streamers são remunerados através das plataformas de transmissão dos jogos e estas por sua vez, recebem investimentos das marcas. É similar ao direito de arena no Futebol, onde as emissoras pagam para ter o direito de transmitir os jogos.

Essas interações dos streamers com os fãs, além de gerar fidelização, ajudam a despertar o interesse das marcas em investir, gerando um círculo virtuoso. 

A pandemia impactou o setor?

Positivamente.

A Itália, por exemplo, registrou aproximadamente 70% de aumento no número de banda larga para eSports. Segundo Luigi Gubitosi, diretor executivo da Telecom Itália, houve um aumento de mais de 70% do tráfego de internet na rede italiana de telefonia fixa, com uma grande contribuição de jogos online como Fortnite.

O número de adeptos cresceu tal como o investimento e a geração de empregos neste mercado, refletindo até em elevação no número de apostas em jogos eletrônicos.

Em abril de 2020, um dos streamers, Alexandre Gaules, doou 156 mil reais para a Central Única das Favelas de São Paulo, para ajudar no combate a disseminação do novo coronavírus. O número é uma homenagem ao recorde batido por ele na semana anterior. No confronto entre MIBR e FURIA, pela primeira fase da ESL Pro League, mais de 156 mil espectadores simultâneos acompanharam o duelo.

Um fator que contribuiu para o alargamento econômico dos eSports em meio a uma grande crise é a possibilidade de realizar eventos inteiramente online. A arrecadação com bilheteria já não era umas das receitas mais significativas, mesmo com a possibilidade de eventos presenciais, então não podemos considerar uma perda tão impactante.

O Dota 2, por exemplo, que é um jogo de muita expressão tem parte da sua premiação, que totaliza em torno de 25 milhões de dólares, é proveniente de um percentual da comercialização de roupinhas dentro do jogo, nós chamamos de skins. As empresas que estão sabendo explorar esse mercado com criatividade têm obtido um ótimo retorno de marca e de vendas.

Tem alguma mensagem final que você queira deixar para o leitor da Universidade do Futebol?

Só ratificar a importância de dissociar o “gamer” do torcedor de um clube de futebol. É um público que tem suas especificidades, suas particularidades e a priorização do atleta em detrimento do clube. 

Partindo desta premissa, há um grande mercado a ser explorado.

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas Sem categoria

Os impactos da covid no desempenho esportivo

Crédito da imagem – Bruno Ulivieri/AGIF/CBF

A covid-19 mudou os rumos da história da humanidade em 2020, e com o futebol não foi diferente. Paralisação das competições, jogos realizados sem público e uma mudança radical na rotina de jogadores, jogadoras e todos os envolvidos diretamente com o jogo, foram algumas das mudanças que testemunhamos após o espalhamento do vírus. Os protocolos de segurança adotados para tentar diminuir a taxa de contaminação entre os atletas contribuíram, mas não foram capazes de evitar que muitos deles fossem acometidos pela doença. Além do necessário afastamento dos contaminados, que traz um óbvio prejuízo esportivo para suas respectivas equipes, a própria doença é uma preocupação, pois seus sintomas, principalmente os acometimentos respiratórios, podem impactar diretamente no desempenho em campo, mesmo após o fim da infecção.

Para entender melhor como a covid-19 afeta o desempenho dos jogadores e jogadoras e conversamos com Páblius Staduto, médico do esporte, que compartilhou com a Universidade do Futebol um pouco sobre o que já se conhece sobre essa doença que ainda é uma novidade do ponto de vista da cronologia científica.

Universidade do Futebol – Quais são as principais exigências do futebol em relação ao corpo de um jogador ou de uma jogadora?

Páblius Staduto – Como existe um tempo determinado de jogo e a intenção de atingir os seus objetivos do jogo que é marcar gols e não sofrê-los, a distância percorrida ao longo desses 90 minutos costuma ser muito grande. Apesar de existirem as distintas posições com diferentes demandas, é importante para qualquer jogador ter bem trabalhada a resistência para suportar o período do jogo, que geralmente dura 90 minutos, mas às vezes extrapola esse período, com acréscimos e prorrogações em competições de mata-mata. Essa resistência é demandada também ao longo da semana, o que acontece no jogo é resultado do que foi trabalhado durante a semana e na pré-temporada.

Então podemos dizer que existe no futebol um misto de demanda da resistência cardio-respiratória e da força. O trabalho de força é feito sempre durante toda a temporada, para que além de aumentar a resistência, sejam prevenidas as lesões. Esse equilíbrio entre força e resistência também varia de acordo com a posição na qual o jogador ou jogadora atua. Pegando como exemplo os goleiros, eles têm uma semana muito forte de treinamentos, é exigido muita velocidade, respostas rápidas, que é o contexto do jogo. Se no caso dos goleiros o gasto de energia no jogo é aparentemente menor, durante os treinamentos da semana ele é bastante grande.

Agora quando falamos dos jogadores e jogadoras que correm o jogo todo, aqueles que atuam na chamada “linha”, alguns vão precisar de mais velocidade, mais explosão, outros vão precisar de um pouco mais de resistência para se manter o tempo todo correndo. Veja como a gente acabou falando de um misto de demandas que em alguns casos são comuns, e em outros são mais específicas, tanto é que temos grupos que treinam separados em muitas ocasiões, mas o trabalho de força e o trabalho cardiorrespiratório, vão estar sempre presentes ao longo da atividade.

Uma das características importantes da questão cardiorrespiratória é que quanto melhor se encontra essa capacidade melhor é a retomada. Por exemplo, se é realizado um esforço muito intenso durante uma jogada que pode ter um desfecho decisivo, um lance de gol ou de grande perigo, a recuperação desse esforço deve ser tão rápida quanto possível, para que esse jogador ou jogadora possa voltar ou jogo de novo na plenitude de seu desempenho. Quanto melhor a capacidade cardiorrespiratória ela, melhor essa resposta do atleta, não é difícil reconhecer aquele jogador que dá um pique e que não aguenta voltar. A pré-temporada é feita para dar esse start e depois se passa a fazer a evolução física até o atingimento de um pico em um momento importante da temporada, dependendo da estratégia de treino elaborada por cada comissão. A exigência tanto cardiorrespiratória, quanto muscular, é realmente bastante grande no futebol ao longo de todo o ano.

UdoF – Quais são os principais sintomas e sequelas que a COVID pode causar no corpo humano, pensando principalmente no desempenho exigido na prática do futebol no alto rendimento?

Páblius – O primeiro ponto são as diferentes intensidades que essa doença pode manifestar no corpo humano. O atleta, como qualquer outra pessoa, pode ter se contaminado e ser absolutamente assintomático, ou pode apresentar sintomas leves, como um quadro gripal, por exemplo, uma indisposição, algo que não vá gerar repercussão nos pulmões ou no sistema respiratório de maneira geral. A partir daí você pode ter algo mais moderado e até os casos mais intensos, com a falta de ar e a hospitalização. A parte respiratória ainda chama bastante atenção, pois essa falta de ar, essa menor resposta respiratória ao esforço, pode acontecer com intensidades variadas afetando o desempenho esportivo. São inúmeros os cenários possíveis.

Falando primeiro dos assintomáticos, apesar de eles não sentirem nada, para um atleta de alta performance sempre vai existir uma preocupação, nesses casos tem chamado muito a atenção as alterações cardíacas decorrentes da covid. Logo, o afastamento dos 14 dias, um retorno paulatino aos treinos, uma observação dos exames e uma análise da resposta deles no campo, são muito importantes para prevenir que eles não desenvolvam uma patologia cardíaca no futuro. Existem muitas perguntas ainda a serem respondidas sobre a doença, mas pelo que a gente tem visto, não vem ocorrendo grandes alterações nos assintomáticos. São muitos os exemplos de atletas que estavam positivos, fizeram o período de quarentena e conseguiram retomar paulatinamente suas atividades sem maiores problemas.

Aqueles que apresentam sintomas têm uma alteração no desempenho respiratório, e consequentemente cardíaco, pois quando você tem uma dificuldade respiratória, vai puxar o oxigênio para dentro e eliminar o gás carbônico com menos eficiência, comprometendo o corpo do ponto de vista circulatório e a própria função cardíaca, que pode estar normal, mas não vai conseguir promover as trocas da maneira ideal. Para esses casos a recuperação não vai ser só de 14 dias, sendo importante que não exista nenhum sintoma seja ele a perda de olfato, paladar, que são sinais muito claros da presença da doença, ou qualquer outro antes do retorno às atividades. Para isso existem os testes de esforço, os testes físicos, que vão mostrar se a queda de desempenho foi muito grande, nesses casos a recuperação tem que ser lenta, devendo ser realizadas uma série de avaliações como eletrocardiograma e exames mais aprofundados tanto de coração como de pulmão.

Se houver uma alteração pulmonar, lesões que aparecem com certa frequência em tomografias, que deixam o paciente bastante debilitado, o jogador ou jogadora só vai poder voltar ao esporte assim que se tiver a certeza de que não apresenta nenhum sintoma que limite sua capacidade física. Isso não é empírico, não é apenas um chute, fazemos muitas avaliações de esforço etenho recebido muitas queixas desse tipo, não só de atletas, “a única coisa que não melhorou ainda é a fadiga”, escuto. Então imagine expor um atleta, que apesar de estar já negativo ainda está com a fadiga, a parte respiratória ainda está respondendo com um pouco mais de dificuldade, e colocá-lo em um ritmo de treinamento intenso. Apesar do risco que eu tenho dele perder a massa muscular, da resistência que ele tinha, é uma segurança que a gente dá para eles de fazer uma volta mais cautelosa, mas realmente saudável.

A outra questão também que tem chamado bastante a atenção são as alterações cardíacas, a literatura está descrevendo muito em atletas que tiveram covid e que tiveram problemas respiratórios, alterações no músculo cardíaco que a gente chama de miocardite, por exemplo. Não vou entrar em muito detalhe técnico, mas é importante saber que já existe uma atenção maior para isso, pois no esporte de alta performance, seja ele qual for, você mantém um grau de exigência do corpo muito intenso durante a semana toda. Então colocar o corpo sob um stress a mais, a partir de uma virose desse tipo, da qual não temos ainda todas as respostas e reações do corpo, é bastante temerário.

Então esses atletas que têm sintomas precisam ser muito bem avaliados, se existiu algum dano, ou até mesmo sequela, se existem limitações que ele não tinha e passou a ter depois da infecção e como é que vai ser essa curva de recuperação. Tudo isso precisa ter indicadores, avaliações, exames, que possam mostrar essa recuperação, mesmo que ela seja lenta. Senão a gente vai expor esses atletas de maneira desnecessária.

UdoF – Jogadores e jogadoras estão mais ou menos propensos a serem contaminados por conta de seu preparo físico e idade? Quando contaminados, eles estão menos propensos a desenvolverem sintomas mais graves do que a média da população?

Páblius – A atividade física é um fator protetor sim, existe descrição disso, e um condicionamento melhor não é só que você vai fortalecer a imunidade, mas deixa o corpo mais atento à essa resposta quanto aos agentes externos que o cercam que podem ser potencialmente infecciosos. O grande problema é exatamente o treino em excesso, pois, no esporte de alta performance, o limiar entre estar bem de saúde ou com o próprio sistema de defesa comprometido é muito estreito.

Por exemplo, não é incomum que atletas profissionais, dependendo da modalidade, quando a intensidade das atividades se intensificam próximo de uma competição importante, comecem a desenvolver alguns sintomas como resfriados, sinusites, rinites, quadros gripais. O que ocorre nesses casos é uma queda da primeira defesa do organismo dada a intensidade dos treinos nesse momento específico de sua temporada. É aqui que nós médicos questionamos quanto um treinamento de alta intensidade, sem períodos de recuperação suficientes, é bom ou não para a saúde.

No futebol a gente tem notado algumas medidas que ajudam e diminuir essa sobrecarga, como o aumento do número de substituições, o uso de máscaras nos arredores dos gramados, o que de certo modo deu um pouco mais de segurança para os competidores, e também o afastamento dos que são detectados como positivos nos testes, medida bastante positiva.

O fato de você isolar esses atletas os 14 dias, de ter um decréscimo da presença do vírus e da posterior negativação permite que esses jogadores e jogadoras afastadas possam seguir a vida normalmente após esse período. Temos essa preocupação com o alto rendimento quando o treinamento é extremamente intenso, com pouco tempo de recuperação isso pode levar a um problema de ordem de defesa do organismo, que é o que a gente chama de imunidade.

Em relação ao desenvolvimento dos sintomas os atletas estão tão propensos a eles como qualquer pessoa. Evidências de sintomas como dor no corpo, dores musculares, indisposição, febre, dores articulares foram e tem sido relatados por atletas. Em situações mais graves, falta de ar – a dispneia, comprometimento de pulmões. Outra situação importante, é a volta ao esporte pós covid. Estudos mostram pequenas, mas significativas alterações cardíacas com pericardite e miocardite, principalmente se o retorno ao esporte for intenso e repentino após cessados os sintomas. 

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

Marcelo Paz – Presidente do Fortaleza Esporte Clube

“Futebol não pode ser tratado de forma amadora”

 
Sentado na cadeira da presidência do Fortaleza Esporte Clube há quase um ano, Marcelo Paz, de 35 anos, sonha alto. Não à toa, contratou Rogério Ceni para comandar o Tricolor no ano do centenário – comemorado neste 18 de outubro – e disputa o título da Série B do Campeonato Brasileiro, conquista nacional que seria inédita para o clube. Fora de campo, o dirigente também optou pela ousadia: aposta na profissionalização do clube para melhorar a gestão e obter mais receitas para, no fim, investir mais no futebol e ter sucesso nas quatro linhas.
Para movimentar as finanças do Leão do Pici, o mandatário aposta em dois setores: marketing e licenciamento da marca. O primeiro, para divulgar a imagem do clube; o segundo, para capitalizar a imagem do clube e a marca própria, a Leão 1918 – os produtos oficiais vão de picolé, cerveja e vinho aos próprios uniformes da equipe. Com dinheiro em caixa, segundo Paz, é possível formar um time competitivo, que terá resultados positivos, incentivará o torcedor a comprar mais produtos, ir aos jogos e se associar e possibilitará novas receitas, o que viabilizará novos investimentos na equipe e no clube. Mas, inicialmente, é necessário ter ousadia para montar um elenco qualificado para depois o torcedor dar a resposta, na visão do presidente.
No Tricolor desde 2015, Marcelo Paz já foi diretor de futebol e vice-presidente. Em novembro do ano passado, assumiu o comando do clube. Adotou medidas por uma gestão mais moderna e profissional, como a contratação de uma empresa de consultoria – o dirigente é formado em Administração e proprietário de uma escola na capital cearense, da qual se licenciou para se dedicar ao novo cargo. Com as finanças em dia, o presidente aponta as dificuldades, como dívidas antigas, mas destaca a autossustentabilidade do clube e ressalta a necessidade de responsabilidade na administração.
No departamento de futebol, priorizou a montagem de um elenco com condições para disputar o acesso à Série A, após oito anos na Terceira Divisão nacional. Exalta o perfil vitorioso do ex-goleiro e agora técnico Rogério Ceni, mas admite a pressão pela mudança no comando em momentos de turbulência na temporada, algo corriqueiro no futebol brasileiro, e diz que é preciso ter convicção no momento de escolher o treinador.
Graduado em Gestão Técnica no Futebol pela Universidade do Futebol, Marcelo Paz enxerga avanços na gestão do futebol brasileiro, mas reconhece que é necessário avançar e cobra mais oportunidades para qualificação dos dirigentes, também por meio das Federações e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Marcelo Paz e Muricy Ramalho. (Créditos: Divulgação/Fortaleza EC)

 
Confira a entrevista completa:
Universidade do Futebol: Qual a importância da profissionalização da gestão das diversas áreas do clube?
Marcelo Paz – Eu entendo que a profissionalização é uma obrigação, uma necessidade. Quando você trata o futebol como um “negócio, que movimenta milhões e paixões, ele não pode ser tratado de forma amadora, apenas com o tempo disponível da pessoa, quando der. A necessidade de profissionalização de um clube de futebol de massa é premente porque só vai funcionar assim. E mesmo se estiver tudo profissionalizado, ainda é difícil ganhar, porque futebol é difícil. Um clube de futebol é uma grande empresa, que emprega pessoas, paga impostos, tem um serviço social com a comunidade, está sujeito à legislação e penalidades esportivas e fiscais, então os diversos setores precisam estar profissionalizados, não só o futebol, mas também a administração, a contabilidade, o marketing, para fazer bom uso da imagem para captar recursos, o jurídico, porque muitos clubes sucumbem por contratos mal feitos, distratos mal feitos, passivos trabalhistas… Então tudo isso tem que ser olhado com muito profissionalismo. Se isso funcionar, vai ajudar a bola entrar.
Universidade do Futebol: O Fortaleza pensa em profissionalizar e remunerar os cargos de diretoria ou presidência e vice-presidência?
Marcelo Paz – Eu acho que tem que atingir essa condição, porque não é justo que as pessoas saiam dos seus trabalhos, das suas empresas, do seu dia a dia, dediquem-se ao clube e não sejam remuneradas. E o estatuto do Fortaleza já permite isso, porém tem que ser aprovado junto ao Conselho (Deliberativo) quando você vai lançar o orçamento anual. E eu acho que no dia em que isso for lançado, vai ter alguma rejeição de algumas pessoas mais conservadoras que entendem que quem está como dirigente tem só que servir e não pode ser remunerado. Mas é um contrassenso, né? Você pede profissionalismo, mas não remunera quem se dedica ao clube. É algo que tem que ser avançado politicamente. Alguns clubes já partiram na frente, fazem a gestão assim e têm tido sucesso.
Universidade do Futebol: Algum dos dirigentes atuais é remunerado?
Marcelo Paz – Não. Dirigente estatutário, presidente e vice-presidentes eleitos, ninguém é remunerado.
Universidade do Futebol: No início da sua gestão, o clube contratou uma empresa de consultoria para definir diretrizes de gestão. O que já foi realizado até agora e o que já há planejado para o seu próximo mandato?
Marcelo Paz – Muito foi realizado com a ajuda deles, porque a gente traçou um planejamento estratégico e faz um acompanhamento dele. Nós temos reuniões periódicas, já tivemos quatro, em que nós vemos o planejamento e fazemos a checagem do andamento desses pontos. Não vou lembrar de cabeça, mas foram 32 itens, alguns foram concluídos, outros vão estar sempre em andamento e alguns não andaram. Por exemplo, nós tínhamos a ideia de fazer aqui, no Pici, uma visita guiada, que seria uma forma de gerar receita. O clube está em reforma, talvez ainda não esteja tão atrativo e ainda não foi feito, mas foi definido no planejamento estratégico e a gente não executou. É um exemplo do que pode vir a ser feito, assim como muitas outras coisas já foram executadas.
Universidade do Futebol: Já é possível ver avanços e resultados em algumas áreas profissionalizadas do clube, como marketing e licenciamento da marca?
Marcelo Paz – O marketing do Fortaleza, hoje, é uma referência até a nível nacional, com números crescentes de seguidores em redes sociais, estando entre os principais do Brasil, em termos de engajamento estamos entre os principais da América, já tivemos comercial premiado até fora do país. Então, está a olhos vistos que o caminho da profissionalização gerou resultado para o clube como um todo. No licenciamento, hoje temos mais de 10 mil produtos licenciados e todos geram receita para o clube de alguma forma, nem que seja um pouquinho em cada. E nós temos que caminhar mais, porque licenciamento é um mundo. Todos os produtos que existem podem ser licenciados. Uma geladeira, por exemplo, pode ter a marca do Fortaleza. Um copo, um lápis, até um carro, se for o caso. O que não pode é usarem a marca do Fortaleza sem a nossa autorização. E nós temos combatido isso, não necessariamente brigando, mas trazendo para dentro, fazendo o licenciamento para realizar a venda de forma legal. São dois setores que já estão trazendo resultados e bons exemplos de que a profissionalização vale a pena.

Universidade do Futebol: Como o Fortaleza cuida da marca própria, a Leão 1918?
Marcelo Paz – Eu digo que o Fortaleza produz futebol e paixão. Isso é o que a gente produz. Na parte de camisas, a gente até tem um controle maior, porque nós compramos toda a produção da fábrica para revender aos lojistas para que o clube tenha um lucro maior. Nós desenvolvemos o layout da camisa e quem produz é a fábrica. Nós não temos uma fábrica de camisas aqui dentro, porque não é o nosso foco, nosso core business. Dos demais produtos, a empresa traz o produto no padrão que irá vender com a marca do Fortaleza, nós aprovamos e ela inicia a venda autorizada, tendo o nosso controle através dos selos que certificam que o produto é oficial. O cuidado que nós temos é de formalizar em contrato, muitos com garantia mínima de produção e retorno financeiro, e o controle através do selo. O Fortaleza não produz, mas licencia a marca, que é o principal ativo e é o que as pessoas amam. Se em um supermercado tiver um vinho sem a marca do Fortaleza e outro com a marca do Fortaleza, eu tenho certeza que o nosso torcedor vai preferir comprar com a marca, pelo menos a primeira vez, para provar. Se for bom, ele vai comprar mais vezes.
Universidade do Futebol: Quais as dificuldades de fazer futebol com finanças menores que os grandes clubes do Brasil, mas com despesas altas para a realidade do clube?
Marcelo Paz – A primeira forma de encontrar esse equilíbrio é não assumir despesas tão altas. É preciso ter cuidado com o que vai assumir. Por outro lado, se você for extremamente conservador, sem ousadia, você não vai formar um time competitivo, não vai ter uma comissão técnica competitiva. Tem que achar esse equilíbrio entre a hora que é preciso realmente investir e a hora em que tem que dar uma segurada. Por exemplo, nesse ano mesmo, na Série B, chegou um momento em que nós vimos que tínhamos chances de subir, e eu disse: ‘A hora de investir é agora. Vamos contratar mais para não faltar peças lá na frente’, aí trouxemos mais quatro jogadores para dar ao Rogério (Ceni) toda a condição. E aí é um investimento, porque você arrisca. Se o time conseguir subir, o dinheiro volta. O gestor tem que ter a coragem e a habilidade de fazer essa aposta e trabalhar para que dê certo. É o tempo todo nesse limite, mas a bola entrando facilita muito. Mas a bola só vai entrar se tiver um time bom e só vai ter time bom se apostar antes. Então, primeiro, você acredita e aposta, o time passa a ser competitivo – não é uma regra, mas é o ideal que seja – e depois o dinheiro passa a entrar, com venda de camisas, sócio-torcedor, estádio cheio, e isso faz o círculo ser virtuoso.
Universidade do Futebol: Esse é o melhor caminho?
Marcelo Paz – Esse é o caminho. Você pode ter a melhor gestão do mundo, o maior profissionalismo, todo mundo remunerado, um bom trabalho no marketing, administrativo, em todos os setores…mas se a bola não entrar, o dinheiro vai ficar mais escasso. O torcedor não vibra com o balanço (financeiro) do clube, ele vibra com o balanço da rede. Quando a bola entra na rede, aí ele vibra, consome, participa. Nós temos que ter muita responsabilidade com as finanças do clube, mas a bola tem que estar entrando. Isso é um fator determinante. Quando ela não está entrando e você tem um clube organizado, demora mais para a coisa ficar complicada. Então, o clube tem que estar organizado sempre. E quando está entrando e o clube é organizado, o dinheiro também vai entrar, porque as pessoas têm o que e como consumir.
Universidade do Futebol: Hoje, o Fortaleza é autossustentável com as próprias receitas?
Marcelo Paz – Hoje, o Fortaleza funciona só com as receitas próprias. Uma vez ou outra, a gente precisa fazer uma antecipação do sócio-torcedor, que é receita do clube, para um mês que teve um custo a mais, mas sempre com receitas próprias. Temos algumas doações ainda? Temos. Pequenas, dentro do todo que já foi, mas muito úteis. Às vezes não são valores, mas um equipamento. Você precisava daquilo, mas a prioridade era pagar a folha, aí alguém dá o equipamento. Que bom, porque senão só seria comprado daqui a dois ou três meses. São coisas que fazem parte de um clube de futebol, porque o torcedor também tem o prazer de poder ajudar. Mas hoje, com muita dificuldade, o Fortaleza é autossustentável, e a gente precisa avançar mais nisso.
Universidade do Futebol: O Fortaleza está com as finanças equilibradas? 
Marcelo Paz – As finanças estão equilibradas e em dia. Pagamos alguns débitos anteriores existentes, mas é no aperto. Eu preciso muito que nos próximos quatro jogos (em casa, pela Série B) entre um bom dinheiro no clube, para equilibrar as contas do final do ano.
Marcelo Paz (Créditos: Divulgação/Fortaleza EC)

Universidade do Futebol: Há muitas pendências de gestões passadas? 
Marcelo Paz – Têm algumas. O Fortaleza não é um clube que tem tantas dívidas, não, mas tem algumas. Se não tivesse seria melhor, porque esse dinheiro sobraria para agora. Mas faz parte, não cabe aqui criticar. Todo mundo que esteve aqui deu o seu melhor e buscou contribuir. Não é algo que chega a assustar. Quando aparece (dívida antiga), atrapalha, mas não chega a assustar.
Universidade do Futebol: Quais os critérios do clube para a contratação de um técnico de futebol?
Marcelo Paz – Primeiro de tudo, honestidade. No futebol, a gente consegue colher informações. Tem que ser honesto. É fundamental ser trabalhador. Não gosto muito daquele treinador espetaculoso, nem daquele perfil enérgico demais, porque isso tem prazo de validade e depois não tem tanto resultado. Eu gosto de quem estuda adversário, estuda o seu time, usa dados e estatísticas, e isso é importante porque te mostram algumas coisas. Eu gosto do perfil mais moderno de treinador de futebol. Aí, sim, eu declaro essa preferência por treinador mais jovem, que estudou, entende a importância de dados da fisiologia e preparação física, a importância da logística de viagem, da alimentação. São fatores que fazem a diferença. E, sobretudo, tem que ter o perfil vencedor. O Fortaleza é um clube que sempre entra para brigar para ganhar, então o perfil tem que ser vencedor, e esse foi um dos grandes pontos para trazer o Rogério Ceni. Embora como treinador ainda não tivesse uma carreira vitoriosa, ele foi tão vitorioso como jogador que não se permite ser diferente como treinador. E esse perfil tem sido interessante para o clube.

 
Universidade do Futebol: Em uma cultura resultadista como a brasileira, quais os desafios para se manter o técnico e a comissão técnica ao longo da temporada, principalmente nos momentos adversos?
Marcelo Paz – É difícil. Uma vez, eu estava conversando com uma psicóloga, e ela me disse que futebol é um drama. Todo drama tem um mocinho e um vilão. Eu já fui vilão no Fortaleza há um tempo. Às vezes, o vilão é o treinador. Como é um drama, o público quer uma cabeça e é a do treinador, mas não é o melhor a se fazer naquele momento. Como dirigente, você tem que tomar a frente, levar porrada. Eles vão bater no treinador, mas se o dirigente não tomar atitude, eles passam a bater em você. Aí, você tem que ter convicção de que está fazendo o melhor pelo clube e que o melhor é a continuidade. A troca de comando técnico mexe muito com o clube. Quando chega um novo treinador, se tiver tempo para contratar, ele vai querer contratar; alguns atletas que estão lá, talvez ele vá querer dispensar; o prepador físico que chega vai fazer um trabalho diferente do anterior, e o corpo do atleta é um só. Muda muita coisa. Então, o ideal é que se faça uma escolha muito bem feita para que não precise trocar no meio do caminho. Mas, às vezes, a troca também é necessária. Eu já tive, como diretor de futebol, situações em que foi necessário trocar e a mudança fez bem ao clube. Mas o ideal é você pensar bem e escolher bem para ter uma continuidade
Universidade do Futebol: O que você pensa sobre os atuais dirigentes do futebol brasileiro, tanto em termos de CBF quanto de clubes?
Marcelo Paz – Eu acho que a gente está evoluindo. O futebol brasileiro, em linhas gerais, tem tido clubes com melhores gestões. Em um passado muito recente, você via clubes com três, quatro meses de salário atrasado. Hoje, eu ouço muito pouco isso. Ainda tem um ou outro, mas diminuiu demais. Antes, era quase uma regra, hoje é uma exceção. Vejo os presidentes mais preocupados com orçamento, muitos com boas ideias. Não vou aqui criar um choque de gerações. O Grêmio, por exemplo, é um clube muito bem administrado, pelo que tenho de conhecimento, e o presidente (Romildo Bolzan Júnior) é um cara mais velho. O que existe é capacidade de gestão no futebol. Às vezes, você tem um grande gestor em outra área e ele assume um clube de futebol, mas não consegue fazer uma grande gestão. Acho que os clubes, hoje, estão bem geridos, porém tem muito o que se avançar ainda e acredito que falta capacitação, através da CBF e das Federações, porque aí ganha o futebol como um todo.
Universidade do Futebol: Algum deles serve como referência para você?
Marcelo Paz – Eu gosto muito do modelo do Flamengo, porque é um gigante que durante muito tempo teve problemas de gestão, com dívidas, e o modelo implantado pelo Bandeira (Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo) foi espetacular, porque hoje o clube é altamente superavitário, entendeu o tamanho da sua marca, capitalizou a marca, entendeu o peso da camisa e capitalizou isso, entendeu a importância da categoria de base, investiu, revelou talentos e vendeu jogadores, entendeu a importância de estrutura física e fez um CT maravilhoso. Então, são muitos avanços no Flamengo. E o futebol foi muito beneficiado pelos avanços dessa gestão, porque desde que essa gestão entrou, o clube pode até não ter tido conquistas espetaculares, mas nunca mais foi motivo de vergonha para o seu torcedor, porque está sempre brigando lá em cima nas competições.
Universidade do Futebol: Qual a importância do presidente ou gestor de um clube se capacitar e realizar cursos?
Marcelo Paz – A importância é máxima. Isso é formação continuada e serve para qualquer setor. Todos são diferentes. Se eu for administrar uma padaria, eu vou ter dificuldade, porque eu não entendo de padaria, qual o ponto do pão, que horas o padeiro chega, qual horário o cliente prefere comprar, quais produtos precisa ter, a localização… Todo segmento é diferente. A confecção é de um jeito, a escola é de outro, a padaria, a borracharia, o shopping… E o futebol também. Então, para estar no futebol, você tem que ter vivência esportiva, o traquejo, a lida dos problemas do futebol, e aí a capacitação é fundamental, porque é como você pode aprender muito, trocar experiências, fazer networking. É algo que eu acho muito necessário. Fiz curso na Universidade do Futebol, de Gestão Técnica do Futebol, e sempre que tem palestra ou algo parecido eu procuro estar presente para estar aprendendo.
 
*Colaboração especial

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

João Batista Freire – colaborador da Universidade do Futebol

João Batista Freire não é apenas um dos pesquisadores mais respeitados do Brasil quando o assunto é futebol. Professor aposentado da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), consultor do IEE (Instituto Esporte Educação) e colaborador da Universidade do Futebol, ele é hoje uma referência em temas relacionados à pedagogia do futebol e à “pedagogia da rua”, investigando as origens do esporte enquanto jogo e tenta estender à formação do atleta a ludicidade presente na abordagem infantil.
Apesar de sua origem oficial elitizada, a gênese do futebol no Brasil tem muito a ver com a informalidade e com o jogo praticado pela população mais pobre, seja nas ruas, nos terrenos baldios, nas praias ou várzeas. A identidade do país no esporte foi construída a partir disso. A defesa desse modelo como alicerce cultural, portanto, faz de Freire um representante da própria brasilidade futebolística.
A carreira de Freire no esporte começou, na verdade, no atletismo. Durante quase mais de uma década trabalhou como professor e técnico de crianças e jovens na modalidade. Nas próximas décadas, além de seu trabalho na universidade, desenvolveu vários trabalhos na Educação Física Escolar e em esportes como Voleibol, Basquetebol e Hóquei sobre patins. Porém, seus trabalhos práticos e estudos foram dirigidos, mais especialmente, ao esporte educacional, focado, acima de tudo, no futebol como elemento lúdico e no jogo como pilar da formação para a vida além do esporte. Deu aula em faculdades de educação física e em escolas públicas e escreveu diversos livros – o mais conhecido deles é “Educação de corpo inteiro”, da editoria Scipione.
O bate-papo a seguir, portanto, não é apenas um registro do que Freire tem estudado durante décadas; é uma conversa que deslinda aspectos fundamentais do futebol como fenômeno cultural no Brasil e mostra caminhos para que o país não perca elementos que foram tão importantes para a construção de sua identidade.
Leia os principais trechos da entrevista:
Universidade do Futebol – Que avaliação o senhor faz do futebol brasileiro enquanto patrimônio cultural na segunda década do século 21?
João Batista Freire – Um patrimônio cultural é construído ao longo de um tempo que pode ser contado em décadas ou séculos. No caso do futebol brasileiro, essa construção já dura mais de um século. Quando ele chegou ao Brasil, alguns tentaram praticá-lo como o praticavam seus criadores, os ingleses. Mas o povo brasileiro, que não tinha acesso aos grandes clubes ou aos estádios, não fez isso. Ao conhecer suas bases, praticou-o à sua maneira, nas ruas, nos espaços de terra, nas praias, nas várzeas dos rios. Foi um futebol, inicialmente, mais a base de construções de habilidades individuais que coletivas. Tratou-se de uma espécie de reinvenção do futebol. Na década de 1930, quando esse futebol reinventado chegou aos clubes e se tornou coletivo, foi um assombro. De tal maneira esse patrimônio erarico que as pessoas mais ricas de nossa sociedade se apoderaram dele e o transformaram em inesgotável fonte de lucros. O futebol de mais alto rendimento hoje tem donos, e esses donos sabem quanto lucro ele ainda pode gerar. Eles não se importam se por aqui o futebol recebe poucos investimentos; o que mais lhes importa é que, no Brasil, o futebol continuará revelando os meninos que são, para eles, verdadeiras minas de ouro. Essa riqueza produzida por esses meninos escoa para cofres internacionais, que possui seus agentes nas federações e clubes brasileiros. Por enquanto, esse é o cenário do futebol brasileiro nas duas primeiras décadas do século 21. Como será daqui por diante, pouco sabemos. Não somos profetas. Sabemos que os donos do poder tentarão manter as coisas como estão. Mas revelam-se, aqui e ali, novas atitudes, novas ideias. Estamos começando a descobrir, por exemplo, o valor da formação de bons técnicos. Estamos redescobrindo o valor da cultura do “futebol de rua” e, com ela, uma “pedagogia da rua” que pode ser levada às escolas, aos clubes. Como essas coisas se desenvolverão daqui por diante não podemos prever.
Universidade do Futebol – A profissionalização e a consequente mercantilização do futebol comprometem em que medida o ambiente lúdico inerente ao jogo?
João Batista Freire – Tudo que chamamos de jogo só pode ser chamado assim porque é jogo. O mais importante jogador do mundo não é pago para rir ou chorar a cada gol, a cada conquista. Não é pago para abraçar e rolar no chão com seus colegas por causa da alegria do gol, não é pago para chorar com as decepções das derrotas. A cada instante os melhores jogadores do mundo revelam o lúdico que ninguém paga. Os donos de seus contratos querem que eles sejam craques para vender os produtos que rendem bilhões de dólares e que alimentam a indústria do esporte, mas não podem evitar que o futebol seja lúdico. E se evitassem, o futebol perderia a graça e seu valor comercial. A mercantilização do futebol mantém craques como Messi e Neymar expostos diariamente ao público. Acredito que eles vão além do esporte, praticam arte, e isso é o lúdico em seu mais elevado grau de refinamento. O problema do lúdico, para mim, não está no alto nível de desempenho, mas na formação das bases do futebol, na formação dos jovens. Profissionais despreparados empenham-se para evitar que seus jogadores joguem, que brinquem, que se divirtam com a bola. Isso é mal, é perigoso, pois é isso que mata, no nascedouro, os Messis, os Cristianos Ronaldos, os Philippes Coutinhos.
Universidade do Futebol – O senhor é reconhecido como um dos maiores estudiosos sobre as questões do jogo ou do lúdico, relacionadas ao desenvolvimento da criança. Qual é a importância de se conhecer esse fenômeno sociocultural para professores e demais profissionais que trabalham ou desejam trabalhar com o futebol?
João Batista Freire – O futebol é um jogo. Não é por outro motivo que dizemos “jogar futebol”. Como todo jogo, ele guarda elementos de risco, imprevisibilidade, complexidade. O jogo é sempre uma simulação. Simulação do quê? Simulação de aspectos de nossas vidas. Porém, o jogo não tem elementos de ludicidade; ele é a ludicidade. Jogo e lúdico querem dizer a mesma coisa. Portanto, aqueles que lidam com o futebol, ou seja, com o jogo, deveriam ter conhecimento sobre o jogo ou o lúdico. Esse conhecimento é raro em nossa formação, mesmo nas faculdades de educação física. Alguns profissionais do futebol, mesmo não tendo essa formação, são capazes de lidar, até intuitivamente, com o jogo. São pessoas que correm riscos, que criam, que enfrentam o novo. Porém, isso poderia ser melhor feito se tivéssemos formação adequada. Ao contrário do que pensam alguns profissionais do futebol, estudar faz bem, desde que estudemos as coisas certas e com motivação. Técnicos de futebol são professores, e professor é profissão de quem estuda. Bons técnicos que não estudam poderiam ser técnicos melhores se estudassem. Mas se estudarem bobagens, coisas inúteis, não vai adiantar nada. Precisam estudar conteúdos contextualizados com seu mundo do futebol, coisas que tenham significado para eles. E é preciso respeitar o nível de cada um, a partir do qual cada técnico poderá evoluir. Compreender, por exemplo, como se desenvolve uma criança é decisivo para quem pretende ser técnico e preparar jovens e adultos.
Universidade do Futebol – Arrigo Sacchi, ex-treinador da seleção da Itália, disse que “o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes”. Essa lógica está diretamente ligada às críticas sobre a relevância atribuída ao esporte, que para muitos pode ser até um elemento de alienação. O senhor acredita no papel transformador do futebol? Como o futebol pode transformar o Brasil e como o Brasil pode ajudar o futebol?
João Batista Freire – Se não fosse o futebol seria outro esporte. Na Idade Média um grande atleta dos Torneios, o esporte preferido na época, chamado Guilherme Marechal, ao encerrar sua carreira tinha um patrimônio muitomaior que qualquer jogador de futebol atual. Os grandes esportistas sempre foram glorificados e bem pagos. E isso ocorre pelo que o esporte representa. Basta lembrar do quanto uma brincadeira de nossa infância representava para nós. Levávamos aquilo mais a sério que qualquer outra coisa. E aquilo era só um faz de conta, uma simulação. Porém, trata-se de uma simulação de coisas decisivas de nossa vida, que não necessariamente estão na nossa consciência. Nossa vida está em jogo no jogo. Quando jogamos trazemos os elementos de nossa vida para o jogo e podemos, fazendo isso, superar obstáculos, aperfeiçoar conhecimentos, resolver conflitos, criar nossas possibilidades. Quando jogamos, acima de tudo, podemos viver nossa vida livre de impedimentos e correr todos os riscos, até porque, quando o jogo não dá certo, podemos começar tudo de novo. O poder do jogo reside nesse poder que ele tem de representar tudo que vivemos. Jogar é uma maneira de apenas viver, sem outros compromissos que não seja esse. E, dado tal poder, claro que sua relevância para a educação, formal ou informal, é enorme. Em nossa educação informal, desde o nascimento, ele é responsável por boa parte do que aprendemos e, consequentemente, somos. A educação formal tem recusado o jogo; a escola ainda acredita que brincar é algo sem consequência, sem importância para a educação. Se dependesse de mim o Brasil teria um grande projeto de educação esportiva. Não somente para termos atletas de destaque internacional, mas para que todos pudessem aprender a praticar esporte e a fazer do esporte um recurso de acesso a uma vida ética e digna. Como disse Sócrates, “com uma bola nos pés a gente muda um país”. Eu acrescentaria: “com uma bola nos pés e bons professores a gente muda um país”. Por que não tornar o futebol, nosso patrimônio cultural mais rico, um mote para a educação? Ou, talvez, um grande tema gerador? Podemos, perfeitamente, numa quadra, num campo, ou em qualquer pedaço de chão, enquanto ensinamos futebol, servir-se dele para também ensinar a ler e escrever. Brincadeiras de futebol ensinam a ler o mundo, como podem também ensinar a ler livros.
Universidade do Futebol – Na sua opinião, as universidades brasileiras têm problemas em produzir conhecimento aplicado ao futebol? Que análise o senhor faz do papel dessas instituições de ensino, pesquisa e extensão? Tem sugestões a fazer em relação à atual produção e ao seu futuro próximo?
João Batista Freire – Afastei-me da universidade por dois motivos básicos: o primeiro é que me aposentei na Unicamp e lá não existe um programa para aproveitar os aposentados, por mais que ainda tenham energia para produzir como professores e pesquisadores. O segundo é que a universidade criou um mundo, especialmente na pós-graduação, onde não posso habitar. Cobraram-me que eu me tornasse um publicador de artigos. Muitos artigos, aos montes, não importando o conteúdo e sua qualidade. Números são necessários para provar que a universidade é produtiva. Creio que a sociedade brasileira precisa de mais do que isso. Sinto-me ainda com muita energia e disposição para trabalhar para meu país e preciso estar em lugares em que isso seja possível. Infelizmente não encontro esse espaço na universidade (embora talvez volte a ter). Depois de décadas falando de ciência do esporte, montando laboratórios, desenvolvendo pesquisas, o que isso resultou na melhora do nível de desempenho do esporte brasileiro? Pelo contrário, em modalidadescomo o atletismo nós pioramos. Qual a relação entre a produção científica na área da educação física e o desempenho dos atletas no esporte brasileiro? O mundo da produção não depende só da universidade. Há muita gente produzindo em outras instituições. Não por acaso sirvo, com muito orgulho, ao Instituto Esporte Educação e à Universidade do Futebol.
Universidade do Futebol – O senhor visitou recentemente a China e teve a oportunidade de conhecer como o futebol está sendo introduzido nas escolas do ensino fundamental (dos 6/7 aos 12/13 anos) naquele país. Que paralelo faz com a prática do esporte e particularmente do futebol nas escolas brasileiras, de forma geral?
João Batista Freire – Fomos à China conversar com empresários e autoridades do governo chinês. Eu gostaria de ter sido chamado por autoridades do governo brasileiro, mas isso não aconteceu. Talvez a China queira de nós aquilo que nenhum governo brasileiro se interessa em ter. Na Universidade do Futebol estamos transformando em pedagogia as práticas que, por décadas, nossas crianças e jovens realizaram em ruas e outros espaços, sem nenhum método sistemático. Porém, se não havia sistematização na rua, havia sabedoria, havia criatividade. As habilidades individuais foram excepcionalmente bem desenvolvidas. Nossas crianças e jovens mostraram até onde podem ir sem professores. A partir de certo ponto precisariam de professores e não tiveram – exceto aqueles jovens que foram absorvidos por clubes importantes e geraram o melhor futebol do mundo. Estamos, portanto, formulando uma “pedagogia da rua”, porém, sistematicamente, e nos norteando por princípios que garantam essa rica aprendizagem a todos. Esses princípios são: ensinar futebol a todos, ensinar bem o futebol a todos, ensinar mais que futebol a todos. Os chineses gostaram disso e mostraram a intenção de levar essa pedagogia, assessorados por nós, a todas as crianças e jovens escolares da China.
Universidade do Futebol – Por diferentes razões, são cada vez mais escassos os espaços e ambientes para a prática do chamado “futebol de rua” no Brasil – espaços em que era possível, de fato, brincar, jogar bola, inventar, errar sem tantas cobranças ou punições. De que forma podemos resgatar ou desenvolver a criatividade e a inteligência coletiva dos jovens através da prática do futebol em um mundo cada vez mais utilitarista e consumista?
João Batista Freire – Podemos replicar isso em diversas instituições públicas e particulares, realizando aquilo que chamei na questão anterior de “pedagogia da rua”. Nunca mais teremos aquelas ruas que nos davam liberdade para construir, livremente, a arte de jogar futebol. Mas nada nos impede de fazer isso fora das ruas: a pedagogia da rua revela a sabedoria de ensinar não só para o futebol, mas para qualquer coisa. Trata-se de um conjunto de ações que podem constituir uma pedagogia fantástica – para as escolas, inclusive. Nosso papel na Universidade do Futebol será convencer aqueles que trabalham com futebol de que temos que voltar a ensinar brincando, não importa se com equipes sub-20, sub-17 ou qualquer outra. Na formação só atingiremos o nível da arte de jogar futebol brincando. Não vejo outro caminho.
Universidade do Futebol – Qual é a importância de termos bons professores e educadores trabalhando com futebol? É possível ter esperança de que o nível educacional das escolas melhore e o esporte (ou especificamente o futebol) possa fazer parte de uma evolução ou revolução nessa atividade humana fundamental para o desenvolvimento enquanto sociedade?
João Batista Freire –O futebol é importante demais para ficar na mão de gente inescrupulosa. Porém, por sua riqueza, é justamente essa gente inescrupulosa que mais se apropria dele, para que vire inesgotável fonte de lucros. Se considerarmos todas as coisas produzidas no Brasil que nos destacaram no cenário internacional, talvez seja o futebol o caso mais bem-sucedido. Isso é para virar programa de governos. O futebol não pode ser visto só como prática de alto rendimento esportivo. Futebol, além de fim, deve ser meio de educação. O futebol, por seu alcance e encantamento, serviria maravilhosamente como veículo de educação para a cidadania, para a formação de pessoas dignas, para a conscientização sobre as questões da vida, para a democracia. O futebol é muito mais do que aquele espetáculo que nos encanta quando ligamos a televisão ou vamos a um estádio, embora esse espetáculo seja um dos mais maravilhosos que já presenciei em minha vida.
 
Revisão: Guilherme Costa

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

Daniel Destro, ex-árbitro e autor do livro “Grandes árbitros do futebol brasileiro – o desenvolvimento do futebol pelo olhar da arbitragem”

O advento do VAR (sigla em inglês para árbitro auxiliar de vídeo) é uma das grandes novidades da Copa do Mundo de 2018, disputada na Rússia. A tecnologia, contudo, não encerrou as polêmicas em torno da participação dos mediadores do jogo. Ainda que dúvidas tenham sido dirimidas, as decisões finais continuam nas mãos de pessoas que sofrem com uma pressão muito maior do que o nível de preparação ou as condições de trabalho.
O uso da tecnologia é uma evolução considerável para o dia a dia da arbitragem, mas não encerra algumas das principais questões do segmento: os profissionais seguem precisando dividir o cotidiano com outras áreas de atuação, fazem uma preparação que depende mais de seus esforços do que de entes externos e sofrem com a falta de um protocolo de feedback.
“Esse, creio, é o ponto crucial para a maioria dos árbitros: ter que se dividir entre sua atividade profissional e a arbitragem. Quem tem mais rotina treina de manhã ou à noite. Outros treinam quando dá. Eu tinha que planejar minha semana de treinos e estudos e com muita dedicação e usar meu tempo livre para me preparar. Ser árbitro demanda parte do descanso ou hora livre. É preciso abdicar de parte de sua vida pessoal, familiar e profissional”, relatou o ex-árbitro Daniel Destro em entrevista à Universidade do Futebol.
Formado em ciências da computação, Destro já tinha carreira em tecnologia em 2004, quando foi convencido por um amigo a estudar para atuar como árbitro. Integrou o quadro da FPF (Federação Paulista de Futebol) de 2005 a 2016.
Neste ano, o ex-árbitro lançou um livro chamado “Grandes árbitros do futebol brasileiro – o desenvolvimento do futebol pelo olhar da arbitragem”. A proposta da obra é fazer um apanhado sobre a evolução do esporte nacional a partir de um olhar para os profissionais da arbitragem. A conclusão: ainda que a categoria tenha evoluído, há muito a caminhar.
“Corremos o risco de ter uma geração de árbitros que será esquecida no futuro. Acho que há toda uma conjuntura que nos fez chegar a este ponto. Entendo que o futebol mudou e, consequentemente, a cobrança sobre os árbitros também mudou. Tudo evoluiu no meio, mas a arbitragem evoluiu em um ritmo menor, com preparação e investimentos aquém do que o esporte demanda hoje em dia. Além disso, o árbitro perdeu espaço e respeito no futebol, e não foi por culpa dele. Antigamente eles tinham voz, mais autonomia e valorização. Vejo que é reflexo de um futebol que se esqueceu da importância dessa categoria”, completou Destro.

Divulgação: Arquivo Pessoal

 
Confira a seguir os principais trechos da entrevista:
Universidade do Futebol – Quando e por que você decidiu trabalhar com arbitragem?
Daniel Destro – Sempre gostei de futebol, mas nunca imaginei ser árbitro. Um amigo apitava pela FPF (Federação Paulista de Futebol) e eu, curioso, sempre perguntava a respeito. Ele então me incentivou a fazer o curso e tentar a carreira, pois ele dizia que eu gostava de futebol e tinha um bom perfil para ser árbitro. Dois anos depois resolvi fazer o curso e me apaixonei pelo ofício.
Universidade do Futebol – Como foi sua capacitação para a área? Você fez apenas uma formação inicial ou continuou estudando?
Daniel Destro – Em 2004, o curso de árbitros da FPF tinha duração de um ano, uma vez por semana, incluindo sala de aula, algumas aulas práticas em campo e orientação de preparo físico. Após formado, a FPF sempre manteve encontros bimestrais ou trimestrais para ajudar no desenvolvimento dos árbitros, discutindo pontos da regra, orientações de conduta e atuação em campo, interpretação das regras e acompanhamento físico. Mas, basicamente, o árbitro também deve estudar e se desenvolver sozinho, uma busca constante pelo aperfeiçoamento profissional.
Universidade do Futebol – O que você achou dessa formação? Na sua opinião, que tipo de conteúdo deveria ter sido valorizado e não foi?
Daniel Destro – O curso que fiz foi muito bom, completo em muitos aspectos. Na época deu-se pouca atenção a questões psicológicas e da nutrição (alimentação). Porém, creio que o curso atual cubra a formação do árbitro de maneira mais integral, em diversos pilares do árbitro e do ser humano, incluindo orientações no plano financeiro pessoal (eu mesmo dei aulas para algumas turmas da FPF). Mas ainda assim, entendo que o árbitro precisa de um acompanhamento mais próximo durante sua carreira, com o intuito de desenvolver e preparar melhor o profissional para os desafios, e corrigir eventuais falhas. Algo como uma tutoria ou mentoria.
Universidade do Futebol – Você seguiu trabalhando com tecnologia após ter iniciado carreira como árbitro. Por quê?
Daniel Destro – Nunca deixei minha profissão no mundo corporativo de lado, que era minha atividade principal. Por alguns motivos. O árbitro nunca sabe quando será escalado, principalmente por causa da lei que impõe sorteio, e também não há garantias que será escalado frequentemente. Se o árbitro erra ou se lesiona, fica fora das escalas de jogos. Não há garantia mínima de ganhos financeiros. Ou seja, o árbitro vive quase que à mercê da sorte. Outro ponto é que uma carreira sólida em tecnologia me dava ganhos financeiros muito maiores e eu tinha uma projeção de futuro melhor.
Universidade do Futebol – Como a dupla jornada afetou sua carreira na arbitragem? Em que momentos você treinava, estudava e se concentrava?
Daniel Destro – Esse, creio, é o ponto crucial para a maioria dos árbitros: ter que se dividir entre sua atividade profissional e a arbitragem. Quem tem mais rotina treina de manhã ou à noite. Outros treinam quando dá. Eu tinha que planejar minha semana de treinos e estudos e com muita dedicação e usar meu tempo livre para me preparar. Ser árbitro demanda parte do descanso ou hora livre. É preciso abdicar de parte de sua vida pessoal, familiar e profissional.
Universidade do Futebol – No período em que você atuou como árbitro, que tipo de feedback recebeu de dirigentes de clubes, federações e confederação? Qual é sua opinião sobre esse modelo de retorno?
Daniel Destro – Esse, para mim, foi e é o ponto mais falho na relação entre as federações (FPF ou CBF) e os árbitros. Eles deveriam ser acompanhados mais de perto, ter feedback frequente e mais claro, além de um trabalho específico e individualizado de desenvolvimento e aperfeiçoamento. Cansei de ir a jogos, inclusive televisionados, e nunca ter recebido um feedback sequer sobre minha atuação ou pontos de melhoria. Você fica cego e não sabe se está na direção certa. Os árbitros de jogos da primeira divisão até têm certo acompanhamento hoje, com tutores e assessores na avaliação da partida, mas os árbitros da base têm pouco ou quase nenhum acompanhamento. Se você não trabalha bem o árbitro desde a base, não terá árbitros bem preparados no futuro e nas principais competições. Quanto aos clubes, a única coisa que chega até os árbitros são a reclamações.
Universidade do Futebol – Por que você decidiu se afastar da arbitragem? Sua mudança para a Europa teve alguma coisa a ver com isso?
Daniel Destro – Com a alteração na direção da arbitragem em São Paulo, que entrou em 2016, com a chefia do diretor Dionísio Domingos, as coisas mudaram muito lá dentro. Muitos árbitros acima dos 32 anos foram deixados de lado por causa da idade e acabaram desistindo da carreira. Seus métodos e a maneira que gerencia a arbitragem não são bem vistos pelos próprios árbitros, que estão descontentes em sua maioria. As mulheres foram esquecidas, infelizmente. Com esse cenário todo, vi que perdi espaço e seria mais difícil evoluir na carreira. Coincidentemente, recebi um convite de uma multinacional para me mudar para a Europa e decidi ir. Felizmente, sempre privilegiei minha atividade profissional principal. Muitos árbitros se esquecem disso e terminam a carreira sem opções.
Universidade do Futebol – Como você iniciou o projeto de estatística e informação para árbitros? Em que estágio está isso?
Daniel Destro – Comecei em 2005 reunindo dados para acompanhar minha própria carreira. Pela facilidade com tecnologia, decidi criar um sistema e acabei fazendo a análise de todos os jogos da FPF desde 2007. Com o tempo, inclui também dados da CBF. Hoje possuo um sistema, o Progols, com mais de 50 mil partidas, das categorias de base até o Brasileirão, que apresenta estatísticas e perfis dos árbitros de futebol. Ele dá uma visão de informações aos clubes, aos árbitros e à gestão da arbitragem. Ainda não está sendo comercializado, mas pretendo em breve.
Universidade do Futebol – Que avaliação você faz da arbitragem no Brasil atualmente? Que comparação é possível fazer com o restante do planeta?
Daniel Destro – Temos bons árbitros, mas acredito que não temos tantos nomes de peso como antigamente. Corremos o risco de ter uma geração de árbitros que será esquecida no futuro. Acho que há toda uma conjuntura que nos fez chegar a este ponto. Entendo que o futebol mudou e, consequentemente, a cobrança sobre os árbitros também mudou. Tudo evoluiu no meio, mas a arbitragem evoluiu em um ritmo menor, com preparação e investimentos aquém do que o esporte demanda hoje em dia. Além disso, o árbitro perdeu espaço e respeito no futebol, e não foi por culpa dele. Antigamente eles tinham voz, mais autonomia e valorização. Vejo que é reflexo de um futebol que se esqueceu da importância dessa categoria.
Comparando ao restante do planeta, acredito que a diferença está fora das quatro linhas. Claro que em alguns países há maior investimento nos árbitros, mas me chama atenção a questão cultural das diferentes sociedades. Na Europa há um senso maior de esportividade e um respeito maior com as pessoas. Aqui no Brasil isso é diferente. Por isso vejo tanto agressividade no discurso e nos estádios.
Universidade do Futebol – Você escreveu um livro sobre os grandes nomes da arbitragem. Olhando para o passado, quais foram as maiores evoluções que o segmento teve e a que elas se devem?
Daniel Destro – A arbitragem como ciência evoluiu, sem dúvida. Hoje existem métodos, procedimentos, conhecimento e estudo sobre a atuação do árbitro em prol do futebol. Fisicamente os árbitros são atletas em campo, pois correm de 11 a 12 quilômetros por jogo. Essa evolução do árbitro foi para acompanhar o futebol de hoje, que está em uma velocidade alucinante. Porém, há um risco aí: o de se criar árbitros “robotizados”, que acabam tão preocupados com toda essa parafernália de procedimentos, pois são avaliados por isso também, que ficam sobrecarregados e acabam dando menos atenção ao que importa, que é apitar o jogo. Não há base estatística para dizer se os árbitros de hoje erram mais ou menos que os de antigamente, mas hoje existem mais maneiras de você comprovar o erro, com as inúmeras câmeras, replays, imagem congelada em três dimensões, etc. Somente a tecnologia vai proporcionar ao árbitro a chance de poder acertar mais no jogo. Caso contrário, será humanamente cada vez mais difícil.
Universidade do Futebol – Quais árbitros de futebol no Brasil tiveram mais impacto para a profissão no país? Por quê?
Daniel Destro – Na minha investigação, vi que alguns nomes tiveram de fato um impacto enorme na arbitragem e no futebol no Brasil. Armando Marques talvez tenha sido aquele que mais se destacou nesse ponto. Ele marcou uma era e revolucionou a arbitragem, não apenas pela maneira que apitava e pelos importantes jogos em que atuou, mas ele ajudou a valorizar a arbitragem, inclusive no aspecto financeiro. Apesar de polêmico, ele conseguiu ser um árbitro respeitado e de grande projeção nacional e internacional. Um profundo conhecedor do ofício. Arnaldo Cezar Coelho e Romualdo Arppi Filho são outros, sem dúvida, pelas grandes carreiras e por terem apitado finais de Copa do Mundo. Temos muitos outros nomes que contribuíram e muito na história. No livro eu biografei apenas 50 deles.
Universidade do Futebol – Olhando para a profissão hoje, pensando no quanto os árbitros são massacrados pela mídia e sofrem com problemas de preparação e remuneração, por que um garoto se animaria em seguir na área?
Daniel Destro – Independentemente de todos os problemas que o futebol e a arbitragem possam sofrer, há um denominador comum nessa equação: a paixão pelo esporte. Se fosse pensar apenas na questão financeira ou de carreira, eu incentivaria um garoto a ser engenheiro, médico ou ir para o mercado corporativo. Mas acredito que nenhum desses segmentos traz mais satisfação do que pisar no campo de jogo e poder sentir a emoção de fazer parte do futebol. Seja em que nível for, aquela atmosfera é inebriante. Adrenalina pura. E o árbitro gosta mesmo é de ver o estádio cheio, sentir o barulho da torcida, ouvir grito de gol e saber que no fim fez um bom trabalho. Não é só um jogo!
Universidade do Futebol – Quais são seus planos para o futuro?
Daniel Destro – Agora, de volta ao Brasil, continuo minha carreira em tecnologia e pretendo em breve disponibilizar o sistema de estatísticas para a arbitragem. Porém, não descarto a possibilidade de atuar na arbitragem em outra esfera, seja no seu desenvolvimento ou mesmo como especialista para clubes e na mídia.
 

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

André Jardine – auxiliar-técnico do São Paulo

“Ele representa um projeto. Faz parte da minha ideia de ter uma comissão permanente e uma política de carreira para quem tem competência e talento”.
No início de março, quando anunciou a promoção de André Jardine à comissão técnica fixa do time profissional, Raí fez mais do que corroborar um discurso que já ganhava corpo entre torcedores do São Paulo. Naquele momento, o ídolo e diretor-executivo de futebol da equipe tricolor dava uma chancela sobre o trabalho do treinador gaúcho de 37 anos, egresso do sub-20 e responsável por uma lista considerável de trabalhos vencedores na base dos paulistas.
Natural de Porto Alegre (RS), Jardine foge do perfil boleiro. Jogou futebol, futsal e vôlei até os 17 anos, mas depois enveredou para o mundo acadêmico. Chegou a cursar dois anos de engenharia civil até receber um convite para se tornar sócio em uma escolinha de futsal. Migrou então para um curso de educação física.
Jardine passou por praticamente todas as equipes de base do Internacional, do sub-10 ao sub-20, entre 2004 e 2014. Migrou então para o Grêmio, time em que acumulou trabalhos no sub-17 e no sub-20. De lá, transferiu-se para o sub-20 do São Paulo, que rendeu um lugar como auxiliar na recém-formada comissão técnica fixa de futebol tricolor.
Neste bate-papo com a Universidade do Futebol, o treinador falou um pouco mais sobre as referências teóricas de seu trabalho, os modelos de jogo que aprecia mais e como estrutura seus treinos.
 
Confira a seguir os principais trechos da entrevista:
Universidade do Futebol – De acordo com sua visão de mundo, o que é o jogo de futebol?
André Jardine – O jogo de futebol é acima de tudo um entretenimento. Talvez seja o preferido hoje de uma maioria da população e aquele que ganhou uma relevância maior, que desperta maior interesse e mexe um pouquinho com a paixão. Por isso, acabou se tornando muito sério e profissional e evolvendo muito dinheiro e interesse, mas na raiz eu vejo como entretenimento para a população. Apesar de ser nosso meio de sobrevivência, é uma forma de espetáculo para alegrar os outros e proporcionar prazer ao público.
Universidade do Futebol – Você se inspira em outros profissionais da sua área? Quais?
André Jardine – Como primeira grande inspiração eu citaria a seleção espanhola de futsal, que foi campeã em cima do Brasil e naquele momento mostrou um jogo que estava muito à frente de seu tempo. Aquele foi o primeiro momento em que me vi encantado, já trabalhando como professor e treinador, pela maneira como a equipe se comunicava em quadra. Era um jogo ofensivo, envolvente, criativo e que estava taticamente muito acima dos outros. Foi talvez a equipe que eu mais tenha estudado, e eu evoluí como profissional porque ela me fez refinar o gosto pelo esporte. Graças a ela eu acreditei que era possível ser ofensivo falando de altíssimo nível.
Depois foi o Barcelona, que me marcou bastante pelo futebol que desenvolvia. A equipe do Guardiola era algo que eu fazia questão de ver sempre, e quando não podia assistir aos jogos eu botava para gravar. Posteriormente, a seleção espanhola que acabou sendo campeã europeia e do mundo também me chamou bastante atenção. Estudei muito esse time.
O Bayern de Munique, também do Guardiola, de uma maneira diferente, com um jogo mais agressivo e mais direto, foi outro que me impressionou. Então, considero também como uma equipe que influenciou minha maneira atual de trabalhar.
Há os times mais antigos, também, como a seleção brasileira de 1982, a Holanda de 1974 e o São Paulo do Telê Santana, mas eu não tinha um discernimento tão grande do jogo. É exatamente por isso que eu não cito com tanta ênfase outras equipes que me marcaram. Não são exemplos que me influenciaram tanto quanto os outros que eu citei porque eu ainda tinha uma maturidade menor para olhar para o jogo.
Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas do seu trabalho?
André Jardine – Eu me considero um pouco autodidata. No futsal eu tive que aprender um pouco sozinho a dar treino, num primeiro momento em escolinhas e depois já em equipes de competição. E tive através do futsal a oportunidade de desenvolver meu método de trabalho, os meus treinos, a minha metodologia. Obviamente que inspirados em alguns cursos que eu fiz e em alguns treinadores de futsal. Eu poderia citar aqui dois que influenciaram bastante: PC, treinador campeão mundial com o Brasil, e o Morruga, que também é treinador e foi meu professor na universidade. São dois profissionais que eu respeito muito e aprendi muito com eles. Influenciaram bastante a maneira de enxergar o treinamento e a maneira de conduzir o grupo aos objetivos que eu traço.
Algumas leituras foram importantes, mas praticamente as mesmas que todos fazem. Então, fui um profissional que buscou estar sempre atualizado, que sempre procurou os conteúdos mais mencionados na área. Fui atrás de muita literatura também sobre liderança, e acho que isso melhorou bastante minha maneira de conduzir os grupos. Mas falando de metodologia mesmo, eu me considero um autodidata, uma pessoa que foi através da tentativa e erro buscando desenvolver uma maneira de chegar aos objetivos dos treinos. Então, eu não conseguiria mesmo elencar uma referência teórica como base porque nesse caso acho que a prática que acabou me ensinando mais, sem dúvida nenhuma. Obviamente que a faculdade e todas as cadeiras referentes aos assuntos ajudaram, mas eu acho que o trabalho no futsal foi realmente para mim decisivo para desenvolver uma ideia de trabalho, uma metodologia. Fazer uma equipe jogar futsal é um desafio sempre muito grande e acho que foi realmente uma faculdade para mim o período todo que fiquei no futsal.
Universidade do Futebol – Existe no clube em que você trabalha um documento que sirva como orientador metodológico?
André Jardine – Sim, ainda que eu não saiba se ele está extremamente atualizado com o que a gente tem feito aqui. Quando eu cheguei já existia algo previamente feito, havia dois anos e meio, e depois uma mudança foi estabelecida em muitas coisas dentro do clube, inclusive na metodologia de trabalho. Posso falar a partir daí porque acompanhei essa linha e vi uma ideia que a maioria dos profissionais tem conseguido seguir – nem todos, é verdade, porque acho que demanda tempo e capacidade também. Hoje vejo o São Paulo como exemplo porque a gente já consegue perceber um padrão e uma ideia por trás de todas as equipes, e a gente tem tentado evoluir ainda mais nisso.
O São Paulo escolheu esse método e esse modelo de jogo em que entra em 99% dos jogos como o time que agride, que joga no campo do adversário e que tem marcação pressão como referência. É um estilo de posse de bola, de abertura de espaços e de jogo posicional como modelo para o controle, com transições e retomadas rápidas. É um time que tende a ser muito propositivo.

André Jardine, ex-técnico do São Paulo FC sub-20, durante treino no CT Laudo Natel, em Cotia (SP). | Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Universidade do Futebol – Você tem um modelo de jogo favorito ou um exemplo com o qual você se identifica mais? É o mesmo que você aplica?
André Jardine – O modelo com o qual mais me identifico é esse do São Paulo, mesmo. Hoje me vejo no lugar certo para trabalhar porque acredito demais nessa ideia propositiva em que jogar com a bola passa a ser prioridade. Temos uma média de 60% ou 70% de posse na maioria das partidas, e eu gosto de trabalhar dessa maneira. Fico satisfeito por estar em um clube que acredita nessa filosofia.
Universidade do Futebol – Em linhas gerais, como você estrutura seu treino?
André Jardine – Essa resposta poderia ser bem complexa, mas de uma maneira resumida eu inicio o treino sempre com um aquecimento, que nem sempre é com bola – o preparador físico muitas vezes desenvolve um exercício ou algum circuito para trabalhar valências que ele julga pertinentes para o momento. Em outras vezes a gente consegue trabalhar com o que eu chamo de jogos conceituais, que têm aplicado o nosso modelo de jogo mas não servem para trabalhar a estrutura da equipe. Em vez disso, pensamos em conceitos e comportamentos que vamos cobrar normalmente na parte seguinte.
Mesmo quando o aquecimento tem um caráter mais físico, entra um jogo conceitual para esquentar os comportamentos e trabalhar de maneira reduzida para correções serem feitas com mais facilidade. A segunda e a terceira parte do treino são transferências desses comportamentos aplicados à estrutura tática que a gente vai executar no jogo, com tudo junto (ataque, defesa e transição) e ligado, mas com ênfases diferentes a cada treino.
Normalmente, alguns treinos ainda têm partes complementares com caráter mais técnico, mais voltado para execução dentro da ideia de jogo, trabalhando acabamentos e ações individuais.
Universidade do Futebol – Que conteúdos você oferece aos jogadores com quem trabalha?
André Jardine – Eu trabalho muito com conceitos, e dentro dos treinamentos sempre pensei assim: muito mais importante do que entender a regra é realmente o conceito que está sendo pedido e executado. Então, os conteúdos são justamente esses pequenos conceitos de jogo que vão dando um contorno para a equipe, vão dando uma margem em que a criatividade deles flui e a individualidade corre, mas é importante que isso exista porque é o que vai dar um caráter coletivo e aumentar a produção da equipe. Então, os princípios de jogo e os subprincípios como a periodização tática a gente também identifica assim, e os nomes não são tão importantes – são princípios e são conceitos.
Universidade do Futebol – Na sua opinião, quais são suas responsabilidades como professor/treinador?
André Jardine – A responsabilidade na formação, não só do atleta mas da pessoa, do homem que vai ser no futuro, do caráter, da disciplina, dos limites. Tudo isso, principalmente na base, eu acho fundamental a gente entender que é responsável e extrair todo o potencial dos atletas ou corrigir suas deficiências. É fundamental os meninos terem excelentes treinadores em sua formação, assim como professores e orientadores, para que eles possam atingir todo o potencial que têm.
Universidade do Futebol – Qual é o perfil do atleta que você almeja formar?
André Jardine – Nós aqui do São Paulo tentamos formar um atleta de nível de excelência ou mais perto disso em todos os quesitos: tecnicamente, com um repertório grande; cognitivamente, com alta capacidade de solucionar problemas no jogo; fisicamente, com força e potência suficientes para o alto nível; emocionalmente, jogadores fortes de cabeça, capazes de suportar a pressão e tudo que o futebol exige; e até de uma maneira espiritual: ter paz de espírito, tranquilidade para desenvolver e acima de tudo aprender a trabalhar em equipe. Acho que tudo isso, quando a gente consegue em um mesmo jogador, compõe um profissional de excelência, o que é muito difícil. Geralmente eles têm dificuldade em uma ou mais áreas dessas, o que dificulta para o jogador ascender.
Universidade do Futebol – Quais são as maiores dificuldades no exercício do seu trabalho?
André Jardine – No sub-20, a ansiedade que a maioria dos meninos tem é o grande desafio porque eles sabem que estão no último degrau de categoria de base, que precisam evoluir e precisam de espaço suficiente para chegar ao profissional. Isso gera uma expectativa muito grande, e a gente trabalha com todos. Ao mesmo tempo, é preciso formar uma equipe e entrosar os garotos para ter bom rendimento nos torneios. A gestão do grupo como um todo é um desafio muito importante hoje em dia por causa dessa ansiedade e da pressão de empresários / agentes / pais.
Universidade do Futebol – Por falar nessas pessoas que orbitam em torno do jogador, quais são os pontos positivos e negativos oferecidos pela influência de agentes externos no processo de formação?
André Jardine – Minha experiência diz que na maioria das vezes os pontos são negativos. A influência dos pais, principalmente dos menores, acaba gerando pressão muito grande e expectativa desproporcional. Alguns meninos até desistem do esporte por causa disso, do medo de frustrar os pais. Acho que entre os empresários há os que ajudam, mas uma parte atrapalha por não orientar a cabeça dos meninos de maneira correta, infelizmente. Mas a gente não pode generalizar: existem pais que fazem bem ao processo e empresários que sabem orientar os meninos. Eu tento conversar com os jogadores e orientá-los. Mostro que eles têm de escutar muito e também ter capacidade de filtrar.
Universidade do Futebol – No âmbito da capacitação profissional, você está satisfeito com o que já conseguiu?
André Jardine – Tenho muita tranquilidade sobre minha carreira e estou muito feliz no São Paulo, que é um grande clube. Tenho procurado me aprimorar cada vez mais, evoluir e amadurecer. Acho que os próximos passos a gente tem de deixar que aconteçam de forma natural e que a nossa preocupação tem de ser evoluir em todos os dias e estar cada vez mais preparado.
Universidade do Futebol – Quais são seus sonhos?
André Jardine – Conseguir implantar numa equipe profissional, em algum momento, tudo que eu acredito no futebol. Ver um time jogando em altíssimo nível, ofensivo, e não o que 95% das equipes brasileiras fazem, que é um jogo de defesa e contra-ataque. Tento ir por outro caminho e fazer com que a equipe tenha competência de jogar com a bola no pé e furar times que se defendam com muita gente. Acho que a gente já conseguiu ter sucesso na base com esse tipo de estratégia, e meu maior sonho é levar isso ao profissional. Além disso, trabalhar com os atletas que eu ajudei a formar, que já passaram por mim, e oferecer espaço para que eles tenham sucesso também no time de cima.

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

Phelipe Leal – treinador da equipe sub-17 do Flamengo

Phelipe Leal tem 30 anos, mas está longe de ser um novato no mundo do futebol. Desde a época em que trabalhava como estagiário, o técnico do time sub-17 do Clube de Regatas do Flamengo já acumulou 11 temporadas trabalhando na área. Por isso, o profissional é um bom retrato de um perfil que tem conquistado espaço nos grandes clubes do país: tem rodagem de campo, mas é formado em educação física e possui licença A da CBF (Confederação Brasileira de Futebol); entende a necessidade de resultados para a cultura imediatista vigente no país, mas sonha com a formação de jovens com senso crítico e com o impacto positivo que isso pode ter na sociedade como um todo.
Leal também é um retrato dos caminhos que nortearam a evolução no campo técnico durante a última década. O treinador acompanha trabalhos desenvolvidos por psicólogos, pedagogos e preparadores físicos, e essa base teórica alicerça uma concepção de jogo extremamente alinhada com o que tem sido feito em equipes profissionais de ponta.
Em bate-papo com a Universidade do Futebol, o técnico do sub-17 rubro-negra explicou alguns desses conceitos e mostrou um pouco do que tem norteado o trabalho com os garotos da equipe carioca.
Veja a seguir os principais trechos da conversa:
Universidade do Futebol – Quais são os principais conteúdos que você oferece a seus jogadores?
Phelipe Leal – Considero como conteúdo essencial no desenvolvimento: a capacidade de cooperar e competir, sempre de forma leal e ética, independentemente das circunstâncias; a resiliência; além de técnicas e táticas individuais, de grupo e coletivas.
Universidade do Futebol – Na sua opinião, quais são suas responsabilidades como professor/treinador de futebol?
Phelipe Leal – Vejo o treinador como instrumento do clube e acredito que a função tem inúmeras responsabilidades que devem ser compartilhadas. Enquanto líder de processos, considero como as principais responsabilidades a gestão do bom ambiente de trabalho, a transparência e a coerência nas ações e decisões do dia a dia; potencializar as virtudes individuais de todos em prol do todo; seguir o princípio da isonomia e dar condição de igualdade a todos; organizar, alinhar e direcionar o plano estratégico individual e coletivo da equipe de trabalho (atletas e comissão técnica); estimular a construção coletiva.
Universidade do Futebol – Existe algum documento orientador ou alguma diretriz metodológica no clube em que você trabalha?
Phelipe Leal – Existe. O documento orientador norteia todo o processo de formação, deixando claros pontos como a filosofia do clube, os princípios e valores que devem reger as ações do dia a dia e os objetivos, metas e particularidades de cada fase do desenvolvimento. Nele está definida a ideia de jogo central que deve ser construída por todas as categorias, considerando os atletas e suas características para a modelação do jogar e o perfil que o clube busca desenvolver.
Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas de seu trabalho?
Phelipe Leal – Busco fundamentação na filosofia e na pedagogia, assim como tenho procurador na literatura – em especial de Brasil, Portugal, Itália e Alemanha – sobre comportamentos táticos, organização, estruturação e operacionalização do treinamento. Porém, considero mais os casos construídos no Brasil, já que as experiências e vivências práticas contextualizadas com a cultura do nosso povo me aproximam da realidade que o mercado exige.
Universidade do Futebol – Você se inspira em profissionais de outras áreas? Se sim, quais?
Phelipe Leal – Sim. Psicólogos, em especial, o pedagogo Alcides Scaglia, preparadores físicos e analistas de desempenho.
Universidade do Futebol – Existe algum modelo de jogo com o qual você se identifique? É o mesmo que você aplica em seus times?
Phelipe Leal – Eu me identifico com um jogar organizado em todas as fases do jogo, no qual a individualidade potencialize todo o repertório e os recursos dos atletas. Busco desenvolver um jogar ofensivo, com capacidade de criar e de aproveitar espaços de forma consciente, objetiva e equilibrada. Defensivamente, sou apreciador das equipes com comportamentos ativos (agir e não reagir) e harmônicos, com capacidade de reduzir e induzir ações dos adversários, mas, sobretudo, com sinergia para atacar e defender por meio de mudanças imediatas de atitude.
Universidade do Futebol – Em linhas gerais, como você estrutura os treinamentos?
Phelipe Leal – São quatro diretrizes: ativação técnica geral, que contempla dinâmicas voltadas a estimular predominantemente a orientação corporal, o controle orientado, o passe ou a finalização, preferencialmente em ações de tabela ou triangulação; dinâmicas conceituais, que variam de acordo com o dia de aquisição semanal, mas têm relações predominantemente setoriais e/ou intersetoriais; dinâmicas contextuais, que consideram determinado problema ou características dos adversários; e técnico/específico, programa de técnica e tática aplicada com concepções individuais ou setoriais.

Foto: Gregório Fernandes/CBF (Site CBF)

Universidade do Futebol – Qual é a importância do resultado em competições da faixa etária com a qual você trabalha?
Phelipe Leal – Considero o sub-17 como uma categoria de transição para o sub-20 no que diz respeito a cobrança competitiva. Entendo que por ser a categoria com possibilidade da assinatura do primeiro contrato profissional naturalmente as exigências são gradativas e a busca pelo resultado acaba sendo mais latente. Importante ressaltar que o modo como se constrói o resultado deve prevalecer sempre e até ser o principal parâmetro de avaliação do trabalho. Não desconsidero a validade das conquistas, principalmente na sociedade imediatista em que estamos inseridos, mas acredito que o sucesso está no caminho percorrido e não no destino.
Universidade do Futebol – Que peso a instituição em que você trabalha atribui aos resultados?
Phelipe Leal – Trabalho em um clube com mentalidade vencedora, e isso por si só faz com que todos busquem os bons resultados (partidas e desempenho). Contudo, todas as análises de desempenho são feitas sabiamente pelo corpo executivo, considerando virtudes e fraquezas, oportunidades e riscos (equipe, adversário e competição). Sendo assim, direcionamos os possíveis ajustes e os planos de ação necessários para a evolução do processo.
Universidade do Futebol – Qual é o perfil do atleta que você deseja formar?
Phelipe Leal – Espero contribuir para a formação de pessoas com senso crítico para avaliar e distinguir o certo e o errado, com capacidade para cooperar com quem está a seu redor, capazes de respeitar as diferenças e de ter a resiliência necessária para se adaptar sem perder sua essência. Mas acima de tudo, pessoas prontas para se dedicar intensamente na busca, construção e realização de seus objetivos.
Universidade do Futebol – Quais são as maiores dificuldades que você vivencia no exercício de seu trabalho?
Phelipe Leal – A fluidez da comunicação dentro do processo pedagógico, a estrutura e os materiais defasados ou inadequados, a logística e o tempo efetivo para os treinamentos, os recursos tecnológicos no auxílio de controle de carga e a remuneração que impossibilita atuação exclusiva.
Universidade do Futebol – E quais são os pontos que você mais gosta em seu trabalho?
Phelipe Leal – O convívio com jovens e profissionais de realidades e objetivos distintos, que alimentam um sonho diariamente, além da sensação de prazer e da certeza de que o hoje forja o amanhã.
Foto: Gregório Fernandes/CBF (Site CBF)

 
 

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

Marina Vidual – psicóloga na Associação Atlética Ponte Preta

A psicóloga Marina Vidual, 26, costuma dizer que o futebol ajuda a desenvolver no mínimo a resiliência. Afinal, é difícil sobreviver num meio que ainda vê com ressalvas o trabalho de uma série de profissionais – o dela, por exemplo – e que tem peculiaridades em quase todas as relações pessoais – como a permissividade com o machismo ou as portas fechadas para mulheres.
Há dois anos, contudo, Vidual sobrevive. Trabalha como psicóloga das categorias de base da Ponte Preta, time de Campinas (SP) – lida diretamente com atletas dos times sub-13, sub-14, sub-15 e sub-17. Adepta de análises de comportamento, tenta lidar com a resistência do meio e participar de intervenções que não sejam apenas focadas na evolução de desempenho dos jogadores.
“Queremos um atleta vencedor no esporte, mas principalmente na vida. Além da formação esportiva, um atleta que seja um cidadão de bem e um agente de transformação social. Com valores, hábitos saudáveis, formação educacional e esportiva adequada, desenvolvidas de forma integral”, disse a psicóloga em entrevista à Universidade do Futebol.
O caminho até os objetivos de Vidual tem uma série de intempéries. Ela precisa superar, por exemplo, a desconfiança sobre o trabalho de sua área, a falta de investimento nessa seara em times de base e a própria relação de jogadores com agentes externos (famílias, agentes e relacionamentos amorosos, por exemplo). No bate-papo a seguir, a psicóloga explica um pouco as diretrizes do que está sendo construído na Ponte Preta e as dificuldades que o departamento tem encontrado.
 
Leia a seguir os principais trechos da conversa:
Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas de seu trabalho?
Marina Vidual – Sou analista do comportamento. Temos alguns importantes teóricos da psicologia do esporte, como Weinberg e Gould e Garry Martin, que trabalha na vertente comportamental.
Universidade do Futebol – E no futebol, quais são suas referências?
Marina Vidual – No Brasil temos algumas referências de psicólogos do esporte – tanto aqueles que estão mais relacionados com a pesquisa, como Brandão, Machado, Rubio e Samulski, quanto alguns profissionais da prática (Samia Hallage, Eduardo Cillo e Carla de Pierro, por exemplo). Tenho bastante contato com outros psicólogos que também trabalham com futebol de base, e sempre que podemos conversamos e trocamos algumas experiências. Outra fonte de inspiração é minha orientadora, Paula Fernandes, professora vinculada a FEF-Unicamp, que coordena o GEPEN (Grupo de Estudos em Psicologia do Esporte e Neurociências). Realizamos encontros semanais e diversos profissionais relacionados ao esporte participam. As discussões são muito ricas.
Universidade do Futebol – Quais são os conteúdos/temas discutidos com atletas que trabalham com você?
Marina Vidual – O trabalho do departamento de psicologia no clube tem como objetivo a melhora do desempenho esportivo, sendo que o principal foco está no auxílio para o desenvolvimento integral do atleta/indivíduo. Em todo ano realizamos uma avaliação psicológica com os atletas que é pautada em diferentes métodos: aplicação de instrumentos; observação em treinos e competições; entrevistas individuais. O principal objetivo dessa análise é o levantamento de dados e aspectos particulares dos atletas, o desenvolvimento das habilidades psicológicas e a obtenção de uma avaliação global, compreendendo o desenvolvimento, capacidades e habilidades dos atletas. Durante a observação de treinos e competições buscam-se dados referentes a alguns aspectos importantes: comunicação, emoções, comportamentos alvos e atitudes, persistência, intensidade, áreas de conflito. É na entrevista individual do atleta que aplicamos uma espécie de anamnese, buscando informações referentes a seu percurso no futebol, história de vida, questões familiares, de saúde, escolar. Com relação às intervenções, ocorrem atividades em grupo, que podem ser conversas informativas e reflexivas, dinâmicas de grupo e algumas intervenções com vídeos e filmes. Também realizamos o acompanhamento da rotina dos atletas em treinamentos e competições. Ocorre o treinamento de habilidades psicológicas com os atletas (através de intervenções com práticas e ensino de técnicas), buscando desenvolver os aspectos psicológicos que estão diretamente relacionados ao seu desempenho, além de psicoeducação de temas importantes, intervenções individuais e atendimentos pontuais. Afora o trabalho direto com os atletas, temos ações em conjunto com as comissões técnicas, prestando orientação e assessoria e ao mesmo tempo discutindo alguns casos.
Também temos estruturado no clube o “Projeto Valores na Macaca”. Trata-se de um projeto interdisciplinar que envolve as áreas de serviço social, pedagogia e psicologia. Os encontros ocorrem quinzenalmente e são realizadas palestras com temas diversos como sexualidade, respeito e convivência, prevenção de drogas, doping, regras do futebol e também algumas atividades práticas como a vivência de entrevistas esportivas, nas quais os atletas assumem papel de entrevistador e entrevistado, e encontros, conversas e trocas de experiências com atletas profissionais e ex-atletas.

Imagem: Arquivo Pessoal

 
Universidade do Futebol – Do ponto de vista da sua área de atuação, o que você considera necessário desenvolver em jovens atletas de futebol?
Marina Vidual – O principal objetivo do psicólogo do esporte é entender como os fatores psicológicos influenciam o desempenho físico e também compreender a via oposta (como o esporte pode influenciar e desenvolver os aspectos psicológicos). Quando nos referimos aos aspectos psicológicos estamos falando de habilidades que são cognitivas – atenção, raciocínio, tomada de decisão, processamento de informação – e emocionais – ansiedade, estresse, agressividade.  O primeiro ponto importante é que não podemos e não temos como separar o indivíduo do atleta. Se o indivíduo se desenvolve pessoalmente, com certeza isso também terá influência no atleta. No trabalho com as categorias de base precisamos ter um olhar especial para a formação desses jovens, com foco na formação global e integral do ser humano como um cidadão de bem e agente de transformação social. A partir do momento em que se investe numa formação sólida (valores, hábitos saudáveis, autoconhecimento, educação, obviamente aliados ao desenvolvimento esportivo), é maior a probabilidade de sucesso esportivo alicerçado no benefício pessoal. Precisamos entender o atleta de forma integral, levando em consideração emocional, cognitivo, social, fisiológico, comportamental. Acredito muito que com o desenvolvimento global o desenvolvimento esportivo é otimizado, proporcionando assim que o atleta alcance seu rendimento máximo.
A psicologia aplicada desde a base aumenta a qualidade de habilidades psicológicas na vida do jovem que está se formando como atleta, mas principalmente como pessoa. Proporciona também desenvolver seu autoconhecimento – existe uma relação direta entre o papel do atleta e a formação de sua identidade.
Universidade do Futebol – Como é a relação entre seu trabalho e as outras áreas que lidam com os atletas?
Marina Vidual – De um modo geral essa relação é boa. A psicologia ainda é vista com certa resistência por alguns profissionais e pessoas relacionadas ao futebol (alguns técnicos, dirigentes, atletas). Acredito que essa resistência está relacionada, principalmente, com a falta de conhecimento e de informações referentes à área e ao trabalho que é realizado. Ainda é bastante comum a confusão entre prática clínica e prática da psicologia do esporte. Em outras modalidades, vejo que a psicologia do esporte já está um pouco mais consolidada em comparação com o futebol. Percebo também que nas categorias de base essa cultura e essa visão estão em transformação: os profissionais com os quais trabalho sempre buscam informações comigo, perguntam sobre alguns atletas, e algumas vezes até os encaminham (quando percebem algum tipo de mudança de comportamento, queda de desempenho). Podemos perceber que os atletas, quando têm esse tipo de acompanhamento durante a formação, chegam ao sub-20 ou à equipe profissional mais críticos com relação ao trabalho e com menos preconceitos com relação à psicologia no futebol.
Imagem: Arquivo Pessoal

 
Universidade do Futebol – E a relação com os pais de atletas? Quais diretrizes norteiam esse contato?
Marina Vidual – É uma relação muito boa. O departamento que possui maior interação com os pais é o departamento psicossocial, e esse primeiro contato ocorre através da entrevista de admissão do atleta. Nesse momento, acontece uma conversa com os pais/responsáveis pelo atleta explicando como será a rotina no clube, apresentamos o CT e realizamos uma entrevista psicossocial abordando alguns temas que consideramos importantes, como relação familiar, gestação e desenvolvimento do atleta, questões relacionadas à saúde, questões escolares, condições financeiras da família. Esse primeiro contato estabelece um importante vínculo entre clube e família. Alguns atletas vão muito cedo morar em um alojamento (a partir de 14 anos), e esse contato com as famílias é muito importante. A família precisa ter confiança no clube e nos profissionais envolvidos com a formação de seu filho.
Na reapresentação dos atletas neste ano, tivemos o I Encontro Família e Escola: “Base para Ponte”, no qual convidamos pais e responsáveis, além de diretores e coordenadores das escolas parceiras, para apresentar o projeto de trabalho do ano.

 
Universidade do Futebol – De acordo com sua experiência, quais são os pontos positivos e negativos da influência de agentes externos (pais, empresários, amigos, cônjuges etc.) no processo de formação dos jogadores? Como você atua nesse contexto?
Marina Vidual – Nas categorias em que trabalho, a presença, participação e apoio da família são fundamentais. Nesse caso, um ponto negativo é quando a família deposita todas as suas esperanças de ascensão financeira no atleta ou quando cobra excessivamente por resultado e desempenho. Tivemos um problema com o comportamento de torcer dos pais na estreia do Campeonato Paulista sub-13: fizemos uma reunião educativa e a construção de uma cartilha “Como torcer para meu filho?”. Na maioria dos casos, as relações com amigos e namoradas são bem estabelecidas e não apresentam muitos pontos negativos. Com relação aos empresários, por orientação do clube não temos nenhum tipo de interação. Nessa relação entre atleta e empresário, percebo que muitos empresários estão interessados apenas no desempenho do atleta, oferecendo ajuda de material esportivo, viagens para casa de final de semana e em alguns casos auxílio financeiro a atleta ou família. Poucos são os empresários que estão preocupados em investir na formação desse atleta como pessoa.
Universidade do Futebol – Existe algum documento orientador/diretriz metodológica no clube em que você trabalha?
Marina Vidual – Sim, é um documento que contém informações referentes à reestruturação da base a partir do método Ponte Preta de formação de jogadores. Esse documento aborda principalmente as questões técnicas e de treinamento, bem como o foco do trabalho a ser realizado com cada categoria. Estamos em fase de discussão para criar um documento orientador específico para o departamento de psicologia, algo estruturado do que é importante desenvolver e abordar com cada categoria.
Universidade do Futebol – Quais são as maiores dificuldades no exercício do seu trabalho?
Marina Vidual – Os maiores obstáculos encontrados acontecem pelas dificuldades de compreensão do trabalho. Muitas vezes tentam encontrar apenas um motivo determinante para uma derrota (por exemplo, “não estavam psicologicamente preparados” ou “não estavam fisicamente preparados”) em vez de ter uma visão mais sistêmica. Diferentemente dos atletas profissionais, com os atletas da base é mais fácil trabalhar a desconstrução de preconceitos relacionados à psicologia (“psicólogo é para louco ou para quem tem problema”). Outro grande desafio da prática profissional é saber interpretar um ambiente tão peculiar como o futebol, que além de ser exclusivamente masculino – muitas vezes passamos por situações machistas – funciona como um sistema vivo, possuindo um conjunto de relações que são fundamentais para entender as questões e relações de poder.
Imagem: Arquivo Pessoal

 
Universidade do Futebol – Do que você mais gosta no exercício do seu trabalho?
Marina Vidual – Sou muito realizada e tenho muito prazer de trabalhar com formação no futebol. É um aprendizado diário – brinco que no mínimo o futebol está desenvolvendo nossa resiliência e assertividade a todo momento. Como comentei anteriormente, o futebol possui um ambiente peculiar e por vezes é complicado, mas proporciona aprendizado e desenvolvimento pessoal e profissional enorme. Estou no clube há dois anos, mas parece muito mais por todo o aprendizado e experiências vivenciadas. É gratificante trabalhar com futebol de base.
Universidade do Futebol – Que perfil de atleta você pretende formar?
Marina Vidual – Queremos um atleta vencedor no esporte, mas principalmente na vida. Além da formação esportiva, um atleta que seja um cidadão de bem e um agente de transformação social. Com valores, hábitos saudáveis, formação educacional e esportiva adequada, desenvolvidas de forma integral. O processo de formação de atletas deve respeitar as fases de desenvolvimento global em uma visão ampla e de abordagem sistêmica.

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

Lucas Khodor Silvestre – Auxiliar Técnico do São Paulo F.C

Não é raro escutar de jogadores que trabalharam com o técnico Dorival Júnior, 55, relatos de pequenas confusões em treinamentos. Muitos atletas, quando ouvem a voz ou veem de longe o auxiliar Lucas Khodor Silvestre, 29, acham que estão lidando com o comandante. Afinal, o membro do estafe é o filho mais velho do treinador e ex-jogador.

As semelhanças entre Lucas e Dorival vão muito além do físico ou do tom de voz. O auxiliar é parte preponderante na construção do trabalho do técnico, a quem acompanha há pelo menos três anos. Formado em educação física pela Unisul, tem vários cursos de aprimoramento e um alto grau de entrosamento com o técnico. Prova disso é que Lucas jamais usa a primeira pessoa do singular quando se refere ao trabalho da comissão. Quando expõe opiniões sobre o que acontece nos clubes ou conta detalhes sobre o que o pai pensa, sempre troca o “eu” pelo “nós”.

Essa simbiose, contudo, pode não ser longeva. Lucas pensa em trilhar um caminho próprio e pretende trabalhar como treinador. Em um espaço de dez ou 15 anos, espera ter chances para liderar sua própria comissão e construir uma carreira que o leve até o futebol europeu. Para isso, pensa também em estudar e tirar licença que seja aceita na Uefa, entidade que gerencia a modalidade no Velho Continente.

Enquanto espera, Lucas trabalha prioritariamente com jovens e se espelha em nomes como Guardiola, Simeone, Carlo Ancelotti, Tite e José Mourinho. Também tenta se adequar à cultura imediatista que ainda está colocada no cenário nacional.

Universidade do Futebol – Existe algum profissional que sirva como inspiração para você em sua área? Qual?

Lucas Khodor Silvestre – Treinadores como Guardiola, Simeone, Carlo Ancelotti, Tite e José Mourinho. Procuro observar o que cada um tem de melhor (nas minhas modestas visão e opinião) e o que consigo adequar ao meu dia a dia de trabalho.

Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas do seu trabalho?

Lucas Khodor Silvestre – Periodização tática, treinamento estruturado, neurociência e pedagogia do esporte. Tiramos o que mais se adequa de cada autor, que são as referências para montarmos nossa metodologia.

Universidade do Futebol – Há algum modelo de jogo com o qual você se identifica mais? É o mesmo que você aplica?

Lucas Khodor Silvestre – Existem alguns modelos que nos agradam, e nós buscamos tirar o melhor de cada um deles para criar nossa maneira de jogar. O que mais nos identificamos é com ataque posicional com troca de passes dinâmica. Buscamos adaptar diversas situações para a nossa equipe.

Universidade do Futebol – Que avaliação você faz sobre o nível de jogo do futebol brasileiro atualmente?

Lucas Khodor Silvestre – Após a Copa do Mundo, os brasileiros se viram na necessidade de buscar conhecimento. Os treinadores procuraram esse aprimoramento, e hoje vejo que os jogos melhoraram bastante taticamente – principalmente de três anos para cá. Mas nossos melhores jogadores ainda estão fora do país, e a cultura de resultado imediatista ainda pesa muito na qualidade. Um treinador na Europa dificilmente deixa de encerrar o ano em seu clube, fazendo com que tenha segurança para colocar seu modelo de jogo durante a temporada. Aqui muitas vezes o medo de perder acaba mudando algumas convicções.

Outro problema que vejo é o número de jogos de cada atleta. Isso faz com que dificilmente estejam em sua capacidade máxima nas partidas.

Universidade do Futebol – Qual é o perfil de atleta que mais agrada a você?

Lucas Khodor Silvestre – Jovens com vontade de aprender, que gostem de saber o que estão fazendo e por que estão fazendo. Assim o entendimento fica mais fácil.

Universidade do Futebol – Como você avalia a disponibilidade de talentos no futebol brasileiro atual?

Lucas Khodor Silvestre – O Brasil continua sendo um grande produtor no quesito qualidade de talentos. Apesar de não viver o dia a dia de categorias de base, nos dois últimos clubes em que eu trabalhei, que foram Santos e São Paulo, ambos possuem uma grande quantidade de atletas com potencial absurdo. O Brasil continua colocando um número enorme de jogadores em diversos clubes do mundo, e a cada ano surgem novos talentos por aqui. Porém, trabalhando no profissional e muitas vezes distante do que acontece nas categorias de base, vejo que muitos ascendem com muitas deficiências técnicas e táticas. Devido à cultura brasileira de resultados imediatos, instalada até nas equipes amadoras, algumas etapas do processo de formação estão sendo negligenciadas.

Universidade do Futebol – Como você lida com essas limitações dos jogadores por deficiências no trabalho de formação?

Lucas Khodor Silvestre – Os atletas acabam subindo com diversas dificuldades de compreensão tática e de parte técnica. Quando detectamos isso, buscamos ensinar e corrigir em trabalhos individuais e coletivos. Mesmo sabendo que devido à cultura brasileira de resultados imediatos você talvez não consiga utilizar esse atleta, damos uma atenção especial para isso, já que o mais gratificante é você ver o crescimento profissional desses garotos.

Universidade do Futebol – Na sua opinião, quais são as responsabilidades de um treinador de futebol?

Lucas Khodor Silvestre – Desenvolver os atletas individualmente e coletivamente para que se tornem não apenas melhores no esporte, mas seres humanos melhores. E também deixar para o clube algo melhor do que encontramos na nossa chegada.

Universidade do Futebol – Qual é a relação que você tem com categorias de base nos clubes em que trabalha?

Lucas Khodor Silvestre – Muito próxima. Tenho a preferência de trabalhar com jovens devido à vontade de ensinar e a vontade que eles têm de aprender. Busco conhecer todos os jogadores por nomes, assistindo a treinamentos e jogos da base e chamando atletas para treinamentos esporádicos do profissional. Para isso é necessário ter proximidade entre as comissões técnicas, buscando informações diárias sobre os atletas.

Universidade do Futebol – Na sua concepção, existe um modelo ideal para a transição de jogadores da base para o profissional?

Lucas Khodor Silvestre – Para não queimar etapas, é importante que o atleta vivencie o profissional sem deixar de ser da base. Treinamentos no time de cima são importantes, mas também é importante ele atuar em sua categoria. Assim ele pode vivenciar questões do dia a dia e colocá-las em prática nos jogos.

Universidade do Futebol – A criação de times sub-23 pode ajudar nesse processo de afirmação dos jogadores?

Lucas Khodor Silvestre – Há discordâncias sobre isso até dentro dos clubes. Vejo equipes sub-23 como algo muito importante, mas só se tiverem duas finalidades: terminar a maturação e a formação de atletas e segundamente, no caso de surgir um possível talento em um clube de menor expressão que chame atenção da comissão técnica, terminar sua formação. Foi assim no caso do Vitor Bueno, que jogou conosco no Santos. O São Paulo não possui ainda essa categoria, mas há possibilidade de iniciar.

Universidade do Futebol – Qual é a importância de os times de base terem modelos similares ao que é usado no profissional? Você acredita na unificação de sistemas de jogo, por exemplo?

Lucas Khodor Silvestre – Primeiramente devemos questionar o que é o modelo de jogo do profissional. No Brasil, se o Guardiola for contratado por um time e demitido dois meses depois, o nome mais cotado para assumir no lugar dele pode ser o do José Mourinho. Dois modelos totalmente diferentes, e os clubes não avaliam o que querem – pensam apenas no nome mais badalado entre os que estão desempregados. Na minha opinião, mais importante do que o modelo do profissional é o atleta vivenciar diversas situações e entender o porquê de cada uma.

Universidade do Futebol – Quais são seus objetivos profissionais?

Lucas Khodor Silvestre – Quero fazer um curso que seja válido na Uefa. Vejo que no Brasil o preço cobrado está fora dos padrões, além de os certificados não serem válidos por lá. Quero ser treinador e um dia trabalhar na Europa.

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas

Estevam Soares – treinador de futebol

Estevam Soares, 61, é um excelente exemplo da instabilidade que acompanha a trajetória de treinadores de futebol no Brasil. O profissional trabalha nessa seara desde 1993, quando encerrou trajetória como atleta – havia sido anteriormente um zagueiro marcado pela virilidade e pelo estilo sério. Prestes a completar 25 anos desde que realizou a transição dos campos para as pranchetas, já inseriu pelo menos 38 trabalhos em seu currículo (acumulou três passagens pela Portuguesa e outras três pelo Grêmio Barueri, por exemplo). Jamais emplacou duas temporadas completas no comando de uma mesma equipe.

Apenas em 2016, por exemplo, Estevam trabalhou na Portuguesa, no Tupi-MG e no Bragantino. Voltou ao Canindé em março de 2017, mas foi demitido após dois meses – está desempregado atualmente. A passagem mais longeva do treinador aconteceu no Palmeiras, time que ele comandou por 47 partidas entre 2004 e 2005.

No entanto, Estevam não está resignado. Ao contrário: ainda sonha com chances para deixar de ser um treinador que tem um currículo com mais clubes do que títulos. Para isso, busca inspiração até na trajetória de Telê Santana.

“Ele montou grandes times, foi à Copa de 82 com aquela seleção fantástica e perdeu, montou a seleção de 86 e perdeu, foi para um lado e para outro e acabou sendo premiado na década de 1990 com aquele São Paulo campeão da Libertadores e do Mundial”, disse Estevam em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

No bate-papo, o treinador falou sobre as aspirações profissionais que ainda mantém e a avaliação que faz sobre o atual estágio do futebol brasileiro. Também explicou sua relação com categorias de base e os perigos que identifica para que elencos profissionais assimilem os atletas mais novos.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas do seu trabalho?

Estevam Soares – As referências do meu trabalho estão calcadas em coisas importantes. Comecei como técnico em 1993, quando encerrei minha carreira de atleta no Primavera-SP, mas já vinha me preparando havia algum tempo. O que mais procurei fazer no fim da carreira foi observar treinadores, prestar atenção em tudo que eles faziam, identificar coisas que podiam ser copiadas e ver outras que eu não queria repetir. Tive o privilégio de trabalhar com excelentes pessoas durante minha carreira, e acho que esses técnicos foram minha maior escola. Alguns comportamentos horríveis, que eu abominava, eu procurei tirar da minha forma de trabalhar. Alguns exemplos em termos técnicos, táticos ou de liderança, sempre procurando aperfeiçoar.

Universidade do Futebol – Você se inspira em outros profissionais da sua área? Quais?

Estevam Soares – Como disse antes, ao longo de 21 anos como atleta eu procurei observar meus treinadores e tentar pegar o máximo deles – o bom e o ruim. Hoje é difícil você se inspirar em um técnico A, B ou C porque você não acompanha o trabalho – você apenas observa a equipe adversária ou o time dele jogar. Não dá para ver treinamento, acompanhar o dia a dia ou saber sobre o comportamento como acontecia quando eu era atleta. E no Brasil, nos últimos anos, vimos poucas coisas diferentes. Nós reconhecidamente não temos aqui essa coisa de treinadores criadores na parte tática. Tivemos algumas mudanças, e talvez a maior tenha sido o 4-3-3 que se criou em 1958, mas ainda assim foi circunstancial: Pepe era o titular, mas se machucou na última hora e deu lugar ao Zagallo, transformando num 4-3-3 o que era um 4-2-4.

Nos últimos anos, acho que a grande coisa que tivemos no Brasil foi o Cruzeiro do Marcelo Oliveira, que jogava num 4-2-3-1 que nós trouxemos da Europa. É o 4-2-3-1 que o Mano trouxe, talvez como pioneiro, no Corinthians de 2007/2008. A diferença é que aquele time tinha dois extremos e um meia, e o Marcelo Oliveira montou um time com três meias que rodavam o tempo todo. Era muito difícil de marcar. Talvez não tenha visto muita gente da imprensa falando sobre isso, mas foi uma mudança importantíssima.

Agora, a grande diferença dos últimos anos ou décadas foi o Fernando [Diniz, ex-técnico do Audax-SP] com aquele futebol total – maluco, até. É uma coisa difícil de fazer igual, a não ser que você observe treinamentos ou coisa parecida. Talvez não seja uma fonte de inspiração, mas de admiração.

Universidade do Futebol – Existe um modelo de jogo com o qual você se identifica? É o mesmo que você aplica nos times que comanda?

Estevam Soares – Nós, treinadores do Brasil, somos copiadores da Europa. O futebol foi inventado lá desde o anárquico, piramidal, clássico. Eu até tenho uma palestra sobre isso, mas faz tempo que não faço. As criações táticas, as variações, o próprio 4-2-3-1 de agora… Tudo veio da Europa. Até por causa da instabilidade, treinadores brasileiros não conseguem aplicar o que pensam. Eu, particularmente, gosto muito do 4-2-3-1. Acho muito importante porque você pode transformar rapidamente num 4-1-4-1. Mas acima de tudo, independentemente do sistema, acho importantíssimo trabalhar em cima dos triângulos. O Barcelona deu um exemplo para nós alguns anos atrás, principalmente pelas beiradas, de como as triangulações são importantes. É uma possibilidade muito grande de atacar o contra-ataque, que é usar os dois jogadores da base do triângulo para a retomada quando o que está no vértice perde a posse.

Universidade do Futebol – E um perfil de jogador? Existe um estilo que você prefira ou com o qual você goste mais de trabalhar?

Estevam Soares – Eu seria tolo se respondesse. Acho que diferentemente da maioria dos treinadores o que nós queríamos, o que sonhávamos, é um atleta de porte físico maravilhoso, tecnicamente perfeito, taticamente exuberante, um cara com uma liderança muito boa e que seja respeitador do grupo. Mas é difícil você alcançar ou conseguir reunir tudo isso dentro de um elenco. Em um trabalho com 28 ou 30 atletas, sempre vai ter aquele que você não queria que estivesse ali ou um que te agrade em uma parte X e seja completamente fora do que você pensa na parte Y. Daí acho que é preciso ter uma sensibilidade muito grande, pensar muito e procurar, até certo ponto, relevar algumas coisas. Acima de tudo, são seres humanos e não são completos. Nós não conseguimos ter tudo que queremos. Então, é preciso ter paciência em determinados momentos e ser firme. Se o comandante for firme e mostrar confiança para seus comandados, fatalmente os que têm algum problema vão se enquadrar e você poderá tirar o melhor deles.

Universidade do Futebol – Na sua opinião, quais são as responsabilidades de um treinador de futebol?

Estevam Soares – Totais. Se você falar em termos de resultados finais de jogo, sem demagogia, o treinador tem de assumir vitórias, empates e principalmente as derrotas. Apesar de, como eu falei anteriormente, a situação para o treinador ser muito difícil no Brasil. São poucos que conseguem chegar a um time e montar um elenco a seu gosto. Você pede um atleta X, mas ele traz o Y. “Ah, não deu, não acertou, não foi atrás”. Ele acaba trazendo um que é do interesse dele ou do empresário. Isso diminui um pouco a responsabilidade do técnico, mas só internamente. Na opinião da grande torcida e da imprensa, você acaba pagando por isso.

Agora, no meu íntimo a minha grande responsabilidade dentro de um clube é uma coisa importantíssima, que eu procuro fazer a qualquer custo: tratar todos os atletas com igualdade de condição em todos os aspectos de treinamento, oportunidade, elogio e até na hora de chamar atenção.

E acima de tudo, o que eu não abro mão é de me preocupar com o lado social. Em todas as reuniões, pelo menos uma vez por semana, procuro citar exemplos bons, coisas boas, alertar para possíveis armadilhas que a carreira e a vida sempre pregam. Acho que é essa a função do treinador: mais do que professor, amigo, irmão ou pai, até pela vivência, é uma coisa de se colocar naquela situação para poder ajudar os atletas.

dsc04904
Estevam Soares no Tupi-MG /Foto: Marina Proton

Universidade do Futebol – No futebol, o que é talento para você?

Estevam Soares – Para mim, talento é uma questão muito complexa nesse contexto. Consigo encarar aquele jogador diferente, ou aquele talento, como alguém que consegue juntar vários fatores importantes: técnica, tática, e principalmente a parte comportamental. Acho que isso é o mais importante. Em determinados momentos, você tem um talento acima da média, mas o comportamento dele ou o empenho em campo não são o desejado. Então, acho importante esses fatores ou um agrupamento de coisas. É preciso reunir a parte técnica, a leitura tática e a parte física, o que é possível adquirir com o trabalho, mas acima de tudo é importante ter caráter.

Universidade do Futebol – Como você avalia o nível de talento existente no futebol brasileiro atual?

Estevam Soares – Tenho uma visão sobre futebol que é um pouco diferente do que é dito pela maioria dos ex-atletas e da mídia, pessoas que dizem que antigamente não se ganhava dinheiro e que hoje é só isso. Proporcionalmente para a época, o futebol sempre pagou bem. Outra coisa que se fala muito é que hoje não há mais talentos e que antigamente tínhamos craques, o que é outra mentira. Hoje tem muito cabeça de bagre, mas antigamente, mesmo com talentos, também eram muitos cabeças de bagre. O Corinthians da década de 1950 ou 1960 teve um time que foi apelidado de “faz me rir” em alusão a uma música famosa, uma chacota direcionada a um time que era muito ruim. Então, claro que os tempos mudaram, que a parte física tomou conta, que a evolução depois da Copa de 1974 foi estrondosa, mas eu acredito que ainda tem talento no Brasil. Só que o futebol é outro e não se espera mais aquele romantismo que pegava, dominava, girava e pensava. O Brasil ainda é o maior celeiro de craques, mas a diferença para os europeus diminuiu. Antigamente era absurdo. Os próprios times da América do Sul eram horríveis. Só tinha Uruguai e Argentina.

Universidade do Futebol – E a qualidade do jogo, como um todo? Qual é sua avaliação sobre o futebol praticado no Brasil atualmente?

Estevam Soares – Particularmente, tenho visto uma evolução muito boa. Ainda estamos distantes daquilo que pensávamos e do que queríamos, mas volto a frisar uma situação interessante: nosso calendário, por mais que tenha melhorado e que nós tenhamos um mês de janeiro de preparação, ainda é muito ruim. Sou completamente contra os campeonatos regionais e acho que deveríamos ter sete ou oito divisões de Campeonato Brasileiro. Nós já temos A, B e C, uma realidade muito grande, mas poderíamos criar outras, regionalizadas. Talvez quatro divisões jogando de fevereiro ou março até dezembro e outras jogando de fevereiro até outubro, com mata-mata nas finais para economizar. Acho que com isso teríamos mais qualidade e até um aproveitamento maior dos jovens.

Vejo uma evolução, sim. O país está muito mais preocupado com a tática, os treinadores estão se preparando cada vez mais, estudando mais, proporcionando ou propondo um jogo melhor. Mas ainda estamos um pouco longe do que imaginávamos. Acho que a questão disciplinar dos atletas dentro do próprio jogo é um quesito que tem de ser estudado e mudado por completo. As reclamações, bolos em cima dos juízes, quedas em campo. Também acho que deveria existir árbitro de vídeo pós-partida. Todo jogo deveria ser avaliado pela federação, e o jogador que fizer uma simulação tem de ser punido.

Universidade do Futebol – Como você lida com limitações técnicas ou táticas de jogadores que poderiam ter sido corrigidas nas categorias de base?

Estevam Soares – Lido com naturalidade porque não se pode fazer nada. O que teria de existir é uma conscientização de nossos dirigentes, do tratamento deles com os atletas, com menos paparicação e mais firmeza. Eu até procuro orientar para trabalhar isso ou aquilo e falo para os atletas fazerem atividades específicas quando termina o treino, porque eu sei que essas limitações não são culpa deles: o que o atleta mais quer é aprender. Acho que é nesse quesito que eu trabalho. Não adianta você criticar porque ele foi mal orientado, não foi corrigido. Você tem de dar moral e orientá-lo de uma maneira sutil para que o jogador melhore. Com trabalho ele pode diminuir a margem de erro.

Universidade do Futebol – De acordo com sua experiência, quais são os pontos positivos e negativos da influência provocada por agentes externos, como empresários, amigos e cônjuges, no desempenho do jogador? Como você atua nesse contexto?

Estevam Soares – Acho que a influência é muito grande em todos os aspectos. Hoje nós temos empresários para todos os lados, de todos os tipos, e poucos são os que realmente contribuem para o bem-estar do atleta a não ser apenas por interesse. Temos famílias que conhecemos que atrapalharam seus filhos, endeusaram demais. Temos amigos aproveitadores, familiares e principalmente mulheres. Os atletas estão sempre saindo de um lugar para outro, e quando se chega a uma cidade nova a aproximação acontece por causa da fama e do sucesso. Temos visto jogadores com casamentos errôneos, o que prejudica toda a carreira, tendo separação, divisão de bens e coisas parecidas. Isso virou um pouco uma bola de neve. Talvez antigamente fosse mais fácil ter alguma ascendência sobre os jogadores. Hoje eles estão muito blindados. Por mais que você tente orientar, sempre rola um “mas eu falei com meu empresário”.

Universidade do Futebol – No âmbito da capacitação profissional, você está satisfeito ou planeja próximos passos?

Estevam Soares – Não, satisfeitos nós nunca devemos estar. Tenho orgulho por tudo que conquistei em 45 anos no futebol e tive a felicidade de trabalhar em grandes clubes, grandes centros, com uma frustração por nunca ter conquistado um título de maior expressão. Apesar de ter feito trabalhos excelentes e de ter lançado jogadores de muito bom nível, ainda planejo muito para mim. Acho que nunca é tarde para conseguir aquele objetivo que você tem, e eu cito sempre o exemplo do Telê Santana: foi campeão brasileiro com o Atlético-MG em 1971, montou grandes times como a seleção de 1982 e acabou sendo campeão da Libertadores e do mundo com o São Paulo na década de 1990. Acho que nunca é tarde, e eu estou sempre ligado em tudo de novo que acontece no futebol.

Divulgação/Agência Estado
Divulgação/Agência Estado

Universidade do Futebol – Quais são seus sonhos?

Estevam Soares – Acho que o sonho ainda maior é ser reconhecido nacionalmente. Tive boas passagens por Palmeiras e Botafogo, citando os dois de maior expressão, mas ainda acho que isso pode vir através de um grande trabalho ou de uma grande conquista de nível nacional.