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Como articular filosofias de treinadores? – Parte I

Não é preciso ir muito longe para ouvirmos profissionais, das mais diversas áreas, falando sobre o que chamam de filosofia de trabalho, do quão importante é construir uma filosofia de trabalho, ou mesmo de como a filosofia de trabalho precisa estar conectada, de alguma forma, à filosofia do ambiente – seja ele qual for. No futebol não é diferente, e de fato vira e mexe ouvimos falar da filosofia de um clube (às vezes confundida com a cultura do clube, com a identidade do clube e etc) ou, por arrastamento, da filosofia de treinadores e treinadoras.

Como alguns de vocês sabem, foi exatamente este o tema da minha pesquisa de mestrado, na qual estudei isso que se chama, na literatura estrangeira, de Coaching Philosophy. Tendo em vista os estudos presentes, ao lado de algumas das minhas próprias experiências e percepções como treinador, gostaria de apresentar um pouco melhor alguns dos caminhos a partir dos quais podemos pensar a articulação das nossas filosofias.

Neste texto, que dividirei em algumas partes, gostaria de compartilhar um pequeno retrato do que encontramos – professor Alcides Scaglia e eu – durante a pesquisa. Para abrir a série, vamos enfatizar uma tensão bastante importante nesse debate, embora também bastante sutil: a tensão entre o singular e o plural no processo de articulação de filosofias.

***

Uma rápida passada de olhos no início deste texto, e você verá que, no título, usei o termo filosofias de treinadores, no plural, enquanto que, no primeiro parágrafo, usei o termo filosofia, no singular. Isso acontece por um motivo principal: filosofia, no singular, é o termo estabelecido na literatura até agora. Só que uma das minhas desconfianças, encorpada com o tempo, é que a palavra filosofia, no singular, não dá conta da grandeza do que fazemos na prática. Afinal, de uma maneira bastante discreta, a busca por uma única filosofia, no singular, imutável e definitiva, parece causar um certo tipo de pressão, uma ansiedade que, ao invés de auxiliar, se mostra pequena e contraproducente no processo de articulação das filosofias de um treinador ou treinadora. Vamos pensar um pouco melhor sobre essas coisas.

Embora seja um tema razoavelmente discutido e, em certa medida, razoavelmente desejado, uma das barreiras que me parecem claras quando falamos da articulação das filosofias de treinadores é a seguinte: nós gostaríamos de fazer mais do que fazemos. E é uma barreira compreensível, pois ainda que queiramos articular filosofias que digam quem somos, de fato, enquanto treinadores, treinadoras e profissionais do futebol em geral, ainda não estão exatamente claros os caminhos a partir dos quais isso pode ser feito. Trocando em miúdos: nos gostaríamos de articular as nossas filosofias – mas nós não sabemos ao certo como fazer isso.

Bom, como dissemos anteriormente, é comum falar das filosofias no singular, numa linguagem do singular, de um modo tal que fica subentendido que articular uma filosofia significa fazer um processo de reflexão tão grandioso, um raio-X de si mesmo tão profundo e tão perfeito, que só pode ter como resultado uma espécie de iluminação igualmente perfeita – seja por uma palavra, por um conjunto de palavras ou uma oração (nos dois sentidos do termo) – capaz de descrever inteiramente quem somos na nossa prática profissional (e na vida vivida), mas também de denunciar, de alguma forma, que aquela filosofia já estava ali, adormecida, hibernando, como se fizesse parte da gente e devesse apenas ser encontrada em algum outro lugar de nós mesmos.

Mas veja bem, se seguirmos esse raciocínio, teremos pelo menos dois problemas: em primeiro lugar, a margem de erro nesse processo é muito baixa – afinal, existe uma e somente uma filosofia capaz de dar conta da nossa prática. Ao mesmo tempo, são de alguma forma subestimados os movimentos que a vida faz com a gente, enquanto treinadores e na vida vivida. Se você preferir, é como se articular uma única filosofia, clara e definitiva, não considerasse suficientemente o fato de vivermos num mundo, de estarmos num mundo, de estarmos em movimento e, portanto, de sermos continuamente outras versões de nós mesmos, de um jeito que uma única filosofia, ainda que articulada com extremo cuidado, pode até dar conta de quem somos hoje, mas provavelmente não será capaz de descrever quem somos amanhã ou depois. Nem todo cálculo de vida é um cálculo de exatidão – é preciso dar espaço para o incerto.

Não por acaso, é tão importante considerar o papel da experiência nos nossos processos formativos. Para não nos estendermos muito na grandeza da palavra experiência, considere apenas que a experiência pode ser mais do que o tempo de prática sistemática em uma determinada atividade – pode ser, por exemplo, um acontecimento, um deslocamento tão forte da vida na nossa direção, que nos deixa uma espécie de marca, de ferida que faz com que simplesmente não sejamos mais os mesmos que éramos antes. A experiência nos leva justamente ao encontro daquilo de que falei acima: ela quer o movimento, ela nos faz diferentes, alheios, separados de nós mesmos, em formação contínua, em aprendizado contínuo, em ecdise constante. Pela experiência, uma única frase, por mais clara e definitiva que pareça, não é capaz de captar a diversidade do viver. Sabendo disso, e considerando que o plural, neste caso, é mais potente do que o singular, sugiro fazermos filosofias – ao invés de uma única filosofia.

Bom, acho que estamos de acordo que o plural desce melhor do que singular. Mas repare, por favor, que essa não é uma proposta para complicar as coisas – mas para facilitá-las. Isso significa que não necessariamente devemos pensar nas filosofias como a articulação de dezenas de frases ou orações que deem conta de quem somos a cada momento – não é disso que se trata. O que eu quero dizer é que as nossas filosofias podem sim caber em uma palavra, em algumas palavras ou em uma frase, mas de uma forma que estejam sempre em aberto, sempre em movimento, não são claras e definitivas, mas impuras e transitórias e – mais do que isso – são infinitas dentro delas mesmas, de um modo que seja possível não só admitirmos a diversidade das nossas filosofias, mas também admitirmos a diversidade que nos faz humanos, a pluralidade da arte de viver, de onde tiramos precisamente a matéria-prima das filosofias que somos capazes de fazer. Para além das nossas modalidades, existe a vida que se vive.

Sobre isso, me permitam citar três versos simples, mas muito bonitos, atribuídos ao escritor americano Walt Whitman. Eles dão conta de dizer o que eu gostaria por enquanto. Reparem, aliás, como a contradição não é necessariamente um problema:

Contradigo a mim mesmo porque sou vasto

Eu sou contraditório, eu sou imenso

Há multidões dentro de mim

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Portanto, como um primeiro passo nesse processo de articulação de filosofias, sugiro esse deslocamento, não mais comprometido com uma filosofia, uma frase singular, clara e definitiva, mas pelo contrário, um compromisso com as filosofias, plurais, transitórias e abertas, em movimento de acordo com a vida, em um constante renascer, decorrente do aprendizado da prática, da relação com os nossos atletas, dos ensinamentos do jogo, das plenitudes das nossas vidas. Filosofias entregues ao mundo, ao mesmo tempo em que conscientes da força de sermos outros e outras além de nós mesmos.

Seguimos em breve.

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Sobre as relações humanas como técnicas de vida

Não faz muito tempo, pouco antes do jogo entre Red Bull Leipzig x Atletico de Madrid, pelas quartas-de-final da UEFA Champions League, em que Julian Nagelsmann deu mais uma ótima entrevista, dessas que viralizam facilmente, na qual falou um bocado sobre o jeito de jogar da sua equipe e algumas ideias particulares sobre liderança. Me chamou a atenção um trecho, em particular, que transcrevo livremente abaixo:

Você não pode ir para o campo e ganhar o jogo sozinho. Precisa dos seus jogadores e de ter os soft skills, os social skills, que são os mais importantes quando você é o treinador e tem 26 ou 27 jogadores. Acho que uma mistura entre habilidades táticas e sociais fazem de você um dos melhores treinadores na Europa, ou do mundo. Se for um cérebro tático, mas as suas capacidades sociais forem baixas e não muito bem desenvolvidas, não terá sucesso. Se você não conseguir reconhecer detalhes táticos, então é importante que crie um bom staff técnico, que te ajude e complemente, mas, se as tuas aptidões sociais forem muito elevadas, pode ter muito sucesso. Mas, se só tiver a tática, é muito complicado.

Bom, há pelo menos duas questões importantes aqui. A primeira tem a ver com o início da resposta, quando Nagelsmann se refere ao que ele chama de soft skills. Não é a primeira vez que o vejo falando disso – eu mesmo já escrevi um outro texto comentando uma entrevista de teor semelhante. Basicamente, quando ele fala dessas soft skills, fala de algo como habilidades sociais que, segundo ele próprio, são 70% do sucesso de um treinador.

O número em si não me interessa tanto, mas a primazia das relações, sim. Sendo um jogo praticado por humanos, é claro que o futebol será tanto mais fértil quanto mais estiver atravessado por essa grande dimensão de humanidade, pela capacidade cada vez mais rara de tratar gente como gente, nas coerências e nas contradições do outro – e não apenas gente como coisa. Ao mesmo tempo, ainda mora na fala do próprio Nagelsmann uma referência ao que ele entende por habilidades que, a meu ver, merece alguma atenção.

Nessa vertigem pela aquisição de habilidades, percebo que alguns colegas fazem apostas realmente altas nisso que podemos chamar de conhecimentos, via tentativas mais ou menos sistematizadas de consumo de informações não apenas futebol, como sobre a vida. Afinal, não faltam páginas nas redes sociais, assim como não faltam textos e livros e cursos de gente supostamente ensinando conhecimentos e habilidades para liderança, habilidades para empatia, habilidades para respeito (geralmente mais para ser respeitado pelos outros do que para respeitar), ou mesmo habilidades de comunicação – talvez as mais famosas na ordem do dia. Existe uma ansiedade bastante razoável pela ideia de consumir e adquirir ‘conhecimentos’ – ainda que isso nos leve a consumir mais do que somos capazes de processar – e neste momento histórico, esse tipo de busca está bastante atrelada à chancela de supostos experts, que vendem técnicas e mais técnicas que supostamente formariam outros experts. E uma das consequências práticas disso é as habilidades sociais, que num passado não muito recente nos eram ensinadas pela vida que se vivia, estão se tornando de fato cada vez mais técnicas, são reflexo de esforços técnicos, de modo que o respeito, a empatia, a comunicação e a própria liderança viram apenas a reprodução pasteurizada de uma ou várias técnicas – e não qualidades humanas propriamente ditas.

Não por acaso, não surpreende a quantidade realmente impressionante de líderes cada vez mais técnicos, retratos de técnicas e mais técnicas que, em cada gesto que fazem e em cada passo que dão, estão cada vez mais nos dizendo que são produto de um conjunto de técnicas, máquinas de si mesmos, que às vezes formam uma mistura tão mirabolante, que o resultado acaba sendo um certo tipo de teatro, sujeitos tão dominados pelas técnicas que eles próprios julgavam dominar, que agora tornam-se apenas atores ou atrizes de si mesmos, donos de papeis cuja aparência nem sempre condiz com a realidade. E todos vocês, que conhecem bem um vestiário, sabem que no vestiário as máscaras caem muito rápido. A mentira de fato tem pernas curtas.

Daqui vem outra coisa que me chama a atenção no discurso do Nagelsmann, essa mais sutil: o fato de defender as habilidades sociais e o fato de haver tanta gente querendo adquirir habilidades sociais da mesma forma como se adquire um produto qualquer no supermercado não significa que ele próprio tenha se formado assim. Quando olho para um sujeito como ele, que parece fluente na habilidade de lidar com pessoas, penso que parte muito significativa dessa personalidade não vem de processos formais de aprendizagem, mas sim de uma articulação das próprias experiências de vida – e da intuição. Quando tecnificamos excessivamente os processos de aprendizagem, geralmente deixamos em segundo plano as nossas próprias experiências, os acontecimentos que preenchem a nossa vida, e ignorando as experiências, também ignoramos a capacidade de dar sentido às coisas que nos acontecem. Existem outras formas de aprender, outras formas de posicionar-se no mundo, que estão para além das formalidades ou dos conhecimentos dos experts, que por vezes residem na capacidade de experienciar e/ou de intuir. Embora as técnicas sejam um apoio importante, relacionar-se com os outros não é algo que se aprende pelos livros, mas depende de um outro tipo de saber, depende de um saber da vida, depende de olhar para dentro, depende de uma forma muito particular de estar no mundo – e, portanto, depende da tentativa incansável de tornar-se quem se é.

E aqui chegamos numa característica final, que gostaria de comentar com vocês, que está justamente na capacidade cada vez mais rara de ser quem se é. O sujeito recheado de técnicas pode sentir-se preenchido, mas também pode ficar tão entupido, tão constipado, de um modo que não sabe mais esvaziar-se e relaxar para ser apenas quem é, sem muitas performances, sem as maquiagens da vida social. Por outro lado, o sujeito que se sente bem sendo quem é, com o que há de bom e de ruim nisso, provavelmente terá ainda mais recursos para mediar as relações humanas de que falamos aqui. E portanto, talvez as habilidades sociais não sejam exatamente um conjunto de técnicas ou procedimentos que nós usamos para estar no mundo, mas muito mais um conforto, um aceite, e em grande medida uma busca de nós mesmos, das experiências e mesmo das contradições que nos fazem humanos.

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Quanto foi o jogo? Um olhar sobre a cultura do resultadismo

Certo dia, ainda sob os cuidados de um desses grandes professores que temos por aqui, alguém me fez pensar que cultura é uma forma de cultivo. ‘Do alemão kultur!’, ele dizia. Cultivo de qualquer coisa – inclusive no futebol. Ainda que não seja, nem de longe, a única forma de pensar a cultura, isso não saiu da minha cabeça desde então. 

Na última segunda-feira, no programa Bem Amigos!, do Sportv, Fernando Diniz deu mais uma excelente entrevista, na qual, basicamente, falou muitas das coisas que fala há bastante tempo, sobre a cultura do futebol brasileiro – mas que são mais ouvidas em certas ocasiões do que em outras. Embora tenha comentado sobre assuntos diversos, o que viralizou um pouco mais foram as falas sobre o que ele chamou de resultadismo – e o quanto isso pode ser problemático dentro de uma cultura de futebol. É claro que isso causou um certo ruído, pois há quem diga que não há outra forma de avaliar o trabalho de um treinador que não pelos resultados esportivos. Bom, não deixa de ser um argumento razoável. Mas acho que não é exatamente disso que se trata.

Fernando Diniz em ação pelo São Paulo FC. Imagem: Redes Sociais Fernando Diniz/Divulgação

Quando falamos de treinadores esportivos, no Brasil ou em qualquer outro lugar, é importante termos claro que as mensuráveis de sucesso variam de acordo com o contexto. Por exemplo, para um treinador ou treinadora que trabalha na iniciação esportiva, o simples fato de ter a criança de volta no outro dia é um indicador de sucesso – afinal, mantê-la diariamente na prática é um desafio. Por outro lado, para quem trabalha na fase de especialização esportiva, o refinamento humano do atleta (em todas as dimensões, além do jogo jogado), é uma mensurável de sucesso – o treinador que não acumula títulos, mas que é capaz de formar pessoas melhores, capazes de tornarem-se quem são, seguramente atinge um lugar de muito respeito. 

No caso do rendimento, a conversa é um pouco diferente: fazer com que os atletas se sintam bem e fazê-los mais refinados do ponto de vista humano – inclusive pensando em performance – são sim mensuráveis de sucesso (que muita gente diz que adora, muita gente fala com entusiasmo, mas não é tanta gente assim que valoriza, de fato). Mas no rendimento, a mensurável-mor é o que se entende por ~resultado~. E quando enfatizo o ~resultado~, faço isso porque me fica muito claro o seguinte: para quem está dentro do processo de treino, a interpretação de um resultado é muito diferente de quem está fora do processo. E isso, veja bem, não é uma forma de contar vantagem, mas uma forma de entender algumas das camadas que estão bem abaixo do resultado.  

Por exemplo, algo que não me parece muito claro no debate está na relação entre o treino e o jogo. Embora não seja algo precisamente admitido, há quem acredite que a relação entre uma coisa e outra é uma relação de causa e consequência: ou seja, se uma equipe não joga bem – ou joga bem uma vez ou outra, ou então não joga bem como o analista gostaria que jogasse, é porque o treinador ou a comissão não trabalham bem, ponto final. Em outras situações, de menor imprevisibilidade, talvez nós até pudéssemos falar em algo do tipo, mas no futebol pode ser exatamente o contrário. Porque o futebol é tudo menos linear, e as ondas do jogo ficam ainda mais pronunciadas quando simplesmente pensamos que o futebol é um jogo coletivo de invasão: existem onze do lado de cá, mas também existem onze do lado de lá, vinte e dois jogadores em relação constante, todos eles buscando chegar ao alvo adversário ao mesmo tempo em que impedem que o adversário chegue ao próprio alvo – podendo fazer tudo isso não apenas no próprio campo, mas também no campo adversário. Tudo isso – que é diferente do vôlei, do basquete, do handebol, do tênis e etc – faz do futebol um jogo cuja complexidade é elevada à enésima potência. Isso quer dizer que o futebol é tudo menos linear, e que portanto existem milhões de outros fatores que afetam o rendimento de uma equipe do que apenas o trabalho ou as ~ideias~ de um treinador ou da comissão. É perfeitamente possível que um trabalho de mediano para bom consiga resultados expressivos, ao mesmo tempo em que é perfeitamente possível que um trabalho de ótimo nível, com excelentes profissionais, com as práticas mais ~modernas~ que se possa imaginar, num ambiente de grandes relações humanas… não apresente resultado algum.

Ao mesmo tempo, é preciso nos perguntarmos sobre o que falamos quando falamos de resultados. Porque, ao contrário de uma empresa – para usar um exemplo muito caro ao futebol de hoje em dia, onde os resultados são medidos dentro de intervalos razoáveis, no futebol os intervalos não existem, a meia-vida no futebol é mais meia do que vida, e tudo o que resta é sobreviver: quem não ganha não serve. E não interessa se jogou bem, não interessa a qualidade dos treinamentos – quando se consegue treinar, não interessa quais são as teorias e as metodologias que sustentam um certo trabalho, não interessa o nível de formação de vários dos nossos profissionais do futebol, se os profissionais do clube estão com algum tipo de problema particular, não interessa se os salários estão atrasados, não interessa se vivemos num país de dimensões continentais, com biomas absolutamente distintos, o que, de cara, já inviabilizaria qualquer comparação com qualquer uma das grandes ligas europeias, não interessa que o nosso pé-de-obra seja vendido, muitas vezes a preço de banana, o que faz com que de fato vários dos nossos melhores jogadores sequer conheçam os campeonatos locais, não interessa que os árbitros não sejam profissionalizados, ainda que sejam bizarramente cobrados por um rendimento profissional – não interessa nada disso. Ainda persiste a ideia que humanizar o futebol é perfumaria. O que interessa é o seguinte: quanto foi o jogo?  

Aqui está o calcanhar de aquiles do resultadismo. Não é bem o fato de se basear no resultado para dar uma certa opinião, mas o fato de ignorar, consistentemente, toda e qualquer outra variável que não o resultado para dar uma certa opinião. Das encruzilhadas do nosso futebol, essa é uma das mais graves, porque tudo o que o analista vê é o resultado, ou o que ele entende como resultado, especialmente quando se pensa no que significa ‘jogar bem’ e etc, enquanto o profissional do futebol vê tudo o que está antes e além do resultado – e obviamente não há como não haver ruídos. Assim como há todo um universo sob a consciência humana – não é preciso ter lido o Freud para sabermos disso – há mundos e mais mundos antes e além do resultado esportivo, e quanto menos soubermos deles, ou menos nos interessarmos por eles, piores serão as nossas interpretações, mais frágeis serão os nossos diálogos – e o nosso debate sobre futebol, ainda que se venda profundo, vai afogar na superfície.

Cultura, como alguém me ensinou certa vez, é cultivo – e fico pensando sobre o que cultivamos hoje em dia mas, especialmente, sobre tudo aquilo que ainda podemos cultivar.

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Sobre o jogador inteligente como um leitor atento

No ano passado, escrevi neste mesmo espaço um artigo pensando um pouquinho sobre o que entendo ser o jogador inteligente. Foi uma minhas tentativas de tratar deste assunto que, a meu ver, é um dos temas no coração do debate que se avizinha nos próximos tempos: quanto mais avançamos nos conhecimentos táticos, técnicos, físicos e mentais do jogo, mais próximos ficamos do tema do humano – que não é sinônimo daqueles outros temas porque, na verdade, é anterior e maior do que eles todos. Não acho que seja possível pensar sobre a inteligência sem pensar sobre a humanização no futebol.

Isto dito, gostaria de sugerir algumas características mais específicas para a formação desse jogador inteligente. São apenas algumas sugestões, sem nenhuma pretensão de fechamento. Com o tempo, retomamos e refinamos esses temas.

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No texto a que me referi acima, defendi que o jogador inteligente é aquele capaz de ler nas entrelinhas. Talvez pareça uma ideia um pouco incômoda, porque geralmente temos expectativas muito concretas: gostamos que as pessoas nos digam o que e como devemos fazer determinadas coisas. A mim, sinceramente, isso não me agrada muito: não apenas não acho que sou capaz de dizer o que uma outra pessoa deve fazer como, além disso, acho uma certa violência dizer o que um terceiro deve fazer – não por acaso, sugerimos. Quando pensamos que o jogador inteligente é aquele capaz de ler nas entrelinhas, pensamos portanto em algo que não é exatamente concreto, mas que pode se tornar um concreto ainda melhor dependendo do que fazemos com ele.

Se o jogador inteligente precisa ler, portanto falamos da visão. De fato a leitura de um jogo é bastante similar à leitura de um livro. O leitor distraído ou mesmo o leitor inexperiente geralmente deixam passar muitas coisas de um livro. Mas, além deles, há um outro tipo de leitor: aquele que acha que o sentido do texto está somente no texto. Só que pode não ser bem assim: o sentido de alguma coisa pode estar exatamente na coisa, mas está nas relações que fazemos com ela. Percebe? Porque se pensarmos assim, então o jogador inteligente será não apenas um leitor atento, um leitor por vezes ativo – ou seja, à procura de sentido, ao invés de à espera de sentido, mas um leitor também por vezes passivo – ou seja, que se deixa levar pelo jogo sem ser refém dele, e um leitor que sabe que o jogo, em si, diz muitas coisas, e não por acaso diz uma coisa diferente para cada um de nós.

Deixem-me dar um exemplo mais claro: na final da Eurocopa 2012, Espanha x Itália – cujo primeiro tempo, aliás, foi um atropelo espanhol, me parece haver ao menos um exemplo muito nítido do que entendo pela capacidade de ler as entrelinhas do jogo. Repare no print abaixo, que retirei do lance que dá origem ao segundo gol da Espanha, marcado por Jordi Alba.

Exato instante em que Fabregas passa a bola para Jordi Alba. Ali, já havia um clarão, mas era preciso ler bem… Imagem: Reprodução

A jogada parte de uma subida do bloco italiano, que resulta numa passe pelo alto de Iker Casillas, buscando Cesc Fàbregas no corredor esquerdo. É Fàbregas quem faz a parede para Jordi Alba, que recebe a bola ainda na intermediária defensiva. Neste instante, a linha-base da Itália, laterais e zagueiros, não apenas está desfeita – Abate havia deixado a linha para marcar Iniesta – como está bem adiantada, deixando cerca de 40 metros às suas costas. Aqui, me parece, está o claro exemplo da capacidade de ler nas entrelinhas: tenho a impressão de que Jordi Alba, logo após receber e passar a bola, leu o espaço que havia às costas da zaga e dali, leu o término da jogada: o jogador inteligente flutua no tempo e percebe o futuro antes de sê-lo. Assim que passa a bola, Alba inicia um sprint de cerca de 30 metros, que termina num passe magistral de Xavi, entre Barzagli e Abate, que por sua vez termina com a bola dentro do gol. Uma jogada admirável.

Um jogador desatento, ou um atleta cuja leitura é somente reativa, jamais teria visto o que Alba viu cinco ou dez segundos antes do gol. Quando penso nas entrelinhas, penso também nisso: existem informações que não estão explícitas, que não estão claramente dadas, mas que precisam de algum refinamento, de um certo esforço, de uma certa atividade mental que faz toda a diferença para quem joga o jogo. Para o leitor reativo poucos livros servem: ele sempre espera que o livro lhe diga alguma coisa.

Mas para o leitor ativo, por outro lado, todos os livros têm valor: ainda que o livro diga algumas coisas, a diferença está na relação desse leitor com o livro. Ali ele descobre algumas coisas, e olhando com atenção descobre outras, e olhando melhor mais outras, e quando junta tudo aquilo, de outras formas, surgem outras e outras e mais outras coisas. Agora imagine a potência disso não apenas no sujeito, mas no todo. Imagine a potência disso ao longo do tempo, no processo de formação das pessoas que jogam…

Sobre isso, seguimos em breve.

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Sobre os problemas do jogo ideal – e do treino perfeito

Vocês sabem que há um vídeo relativamente famoso do José Mourinho, que salvo engano meu data de 2010, no qual ele faz uma observação muito interessante sobre o planejamento de um treino, talvez até uma previsão, que transcrevo literalmente abaixo. Ali, ele defende que qualquer pessoa que quiser montar um treino de qualidade pode fazê-lo, com dois ou três cliques num computador. Ele diz o seguinte:

O conhecimento está ao alcance de todos. (…) Você é jornalista, mas se amanhã disserem que tem que dar um treino à uma equipe, você só não estrutura um bom treino (…) só não organiza, se não quiser. (…) Uma coisa é o conhecimento que está ao alcance de todos, outra é a capacidade de produzir o próprio conhecimento. O fato do conhecimento estar ao alcance de todos é uma contribuição enorme para a preguiça mental. 

Lembro de ter assistido a esse video em algumas aulas do Prof. Alcides Scaglia, há cerca de cinco anos, mas hoje, com outros olhos, também vejo a questão de uma outra forma. Mourinho, diretamente ou não, ataca um problema fundamental, especialmente no processo de organização dos nossos treinos, seja no microciclo semanal, ou mesmo no médio/longo prazo. Vamos chamá-lo de problema do jogo ideal.

Aqui, entenda jogo ideal da seguinte forma: um determinado jogo – ou exercício, aplicado dentro de um treinamento, a partir do qual o treinador espera um resultado ótimo – sendo que a expectativa pelo resultado está estritamente ligada ao jogo aplicado. Se você preferir, é uma expectativa estritamente ligada ao método  Por exemplo, um treinador viu um jogo de manutenção da posse do Jurgen Klopp, com 6×6+1 num espaço de 30x25m, ficou encantado com o resultado (eventualmente desconsiderando o nível dos jogadores que um clube do tamanho do Liverpool têm à disposição) e replicou exatamente a mesma coisa no seu próprio treino, numa equipe sub-15 do interior do Brasil. Só que, por algum motivo, o jogo não deu muito certo. Ou seja, no mundo das ideias era um jogo maravilhoso, mas na realidade não foi. A conta não fecha.

Basicamente, é um dilema pelo qual todos nós, envolvidos com o processo de treino, já passamos por diversas vezes. De fato, Mourinho tem razão quando denuncia um certo comodismo, que nos atinge às vezes, que faz com que pensemos que um certo jogo ou um certo exercício tem propriedades quase que mágicas, sendo essas propriedades coisas do próprio jogo, como se fosse um jogo universal, de modo que aquele mesmo jogo, se aplicado em qualquer outro lugar, com quaisquer outros atletas, teria rigorosamente os mesmos resultados. Só que aqui, talvez nos escapem pelo menos duas coisas importantes: vamos chamar a primeira de movimento, e vamos chamar a segunda de sentido

Quando me refiro ao movimento, penso da seguinte forma: as coisas, como as vemos, não são – elas estão. Portanto, não existe apenas um caráter de transitoriedade nas coisas – que faz com que elas possam estar de um jeito, depois de outro, como também existe um certo caráter de não-essência, o que significa que se um determinado jogo deu muito certo em um determinado treinamento, não é que a causa tenha sido o jogo em si, mas seja, talvez, a qualidade das relações que se criam dentro do próprio jogo. É disso, afinal, que falamos quando falamos de complexidade: as qualidades daquilo que é tecido junto. Se jogarmos dois jogos de 6×6+1 em 30x25m, com os mesmíssimos jogadores, a mesmíssima comissão técnica, em dois dias seguidos, vocês sabem tanto quanto eu que serão dois jogos completamente diferentes. Um jogo nunca será igual ao outro – e para isso basta lembrarmos da básica premissa da imprevisibilidade, que está no coração do jogo. 

Por isso é tão importante a segunda variável que apresento, que é a variável do sentido. Um jogo será tanto melhor – o que não significa que seja mais legal, são coisas muito diferentes – quanto mais refinadas forem as nossas capacidades de atribuir sentido ao que nos acontece. Ou seja, é preciso que tanto nós, treinadores e profissionais do futebol em geral, quanto os próprios atletas envolvidos no processo – que se alimentam da nossa capacidade pedagógica, que todos tenhamos sempre a mente a importância de refinar a nossa capacidade de dar sentido às coisas – justamente porque, como dissemos acima, as coisas não são, elas estão. O que faz com que uma jogo deixe de ser uma coisa e  passe a ser outra não é o jogo em si, mas exatamente o sentido que damos a ele. Se meu modelo de jogo está baseado na retração do meu bloco defensivo  em busca de contra-ataques, será que um jogo manutenção da posse de 6v6+1 em 30x25m, como vimos numa sessão qualquer do Klopp, pode, de fato, fazer sentido no meu processo? Veja bem, talvez até possa, mas isso está diretamente relacionado com a nossa capacidade de dar sentido – e de fazer, sutilmente ou não, com que nossos atletas deem sentido – ao processo de treino.

Assim, gostaria de propor a vocês que saíssemos um pouco, nos nossos processos de treino, dessa ideia de jogos ideais, ou mesmo dos treinos perfeitos, de modo que nós não nos demos muito ao direito de apenas reproduzir um determinado jogo ou exercício que chegou até nós, como se o segredo estivesse no jogo em si. Qual é o seu modelo de jogo? Quais são as suas filosofias enquanto treinador? Quais são os princípios e/ou os conteúdos que você gostaria de trabalhar naquela semana e naquela sessão? Para muito além do seu método, quais são as suas didáticas? Qual é, honestamente, a nossa capacidade atual de dar sentido aquilo que nos acontece? 

Pois este é um ponto realmente decisivo, sem o qual ficamos muito limitados – assim como podem ficar nossos treinamentos.

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Sobre o fazer do futebol no distanciamento social

Vocês sabem que o distanciamento social, por razões óbvias, acabou se tornando um enorme desafio para todos nós, que somos diretamente dependentes do campo do futebol para o nosso trabalho. A despeito disso, tivemos que encontrar algumas soluções nesse período, seja para manter os atletas conosco, do ponto de vista afetivo mesmo, seja para mantê-los consigo mesmos de outras formas – a partir de outros olhares sobre o jogo, por exemplo.

Neste texto, gostaria de apresentar a vocês algumas das atividades que fizemos com nossos atletas na Elleven Futebol Studio – academia de formação de atletas onde trabalho, em Campinas. Em condições normais, antes do distanciamento, fazíamos quatro treinos semanais. Nossos garotos têm em média 16 anos de idade, e a partir dos treinos e das competições que disputamos, se preparam ou para ingressar nas categorias de base de clubes em âmbito estadual/nacional, ou então para realizarem intercâmbio esportivo. No distanciamento, optamos por fazer trabalhos físicos diários (via treinamento funcional planejado e aplicado por nós mesmos, acompanhado ao vivo), ao mesmo tempo em que mantivemos um encontro semanal, para falarmos de questões relativas ao jogo. É sobre esses encontros que gostaria de falar com vocês.

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Em linhas gerais, acredito que um encontro não começa nem termina nele mesmo. O que isso significa? Significa que são melhores os encontros que começam muito antes do próprio encontro e que terminam muito depois do próprio encontro – como se o tempo pudesse ser alargado de alguma forma. Como os nossos encontros aconteciam às quintas-feiras à tarde, basicamente a minha ideia era, sutilmente, sempre adiantar o início e atrasar o término. Fizemos isso a partir da noção de materiais complementares: geralmente na quarta-feira de manhã (portanto, cerca de 30 horas antes do encontro) os atletas recebiam um ou dois conteúdos já diretamente relacionados com o tema da nossa conversa. Considere como exemplos de conteúdos a carta escrita por Romelu Lukaku para o Player’s Tribune, um artigo analisando a evolução posicional de Kevin de Bruyne ou os melhores momentos de Espanha x Itália, na final da Euro 2012.  Os conteúdos sempre eram escolhidos a partir de uma conjunção entre linguagem acessível e material de qualidade. Para uniformizar o material, inclusive do ponto de vista estético, recorremos algumas vezes ao Outline, cujo serviço é de bom nível.

Independentemente do conteúdo que enviássemos, sempre havia um formulário a ser preenchido pelos atletas – ainda antes do encontro. Neste preenchimento, a ideia não era exatamente fazer perguntas binárias, que terminassem no certo/errado, mas trazer à tona perguntas abertas, que lhes fizessem pensar em como articular em palavras o próprio pensamento – também como uma forma de fazê-los perceber que era possível, naquele espaço, ser quem são e dizer o que desejavam.

Basicamente, gostaria que os atletas tivessem voz e que se sentissem responsáveis, ainda que implicitamente, pela articulação dos encontros. Quando penso no processo de humanização, sobre o qual já falamos aqui diversas vezes, penso muito nessa capacidade de dar voz, de dar ouvidos, de dar nossa atenção mas, especialmente, de darmos aos atletas e às pessoas a faculdade de simplesmente serem quem são, evitando ao máximo quaisquer tipos de julgamentos ou represálias. Quanto mais sinceros os atletas forem consigo mesmos e com o mundo, a meu ver melhores jogadores serão, uma vez que as máscaras que os defendem do mundo também existem para, de alguma forma, defendê-los de si mesmos. Sair dessa armadilha é uma tarefa inegociável.

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O encontro presencial durava cerca de 90 minutos. Como vários de vocês, usamos para os encontros o Zoom, aplicativo de reuniões online. Também como vários de vocês, usamos o Zoom na versão gratuita, o que significa que tinhamos um limite de 40 minutos na utilização da sala. Do ponto de vista de organização, isso basicamente nos trouxe duas consequências básicas: em primeiro lugar, precisaríamos fazer algo como dois ‘tempos’ de 40 minutos, com uma pausa entre eles para fechamento e reabertura da sala. Em segundo lugar (e isso envolve um certo detalhismo da minha parte), decidi abrir a sala precisamente às 17h28, dois minutos antes do início do encontro. Se abrisse às 17h25, como gostaria de fazer, perderia três minutos de debate que talvez fossem a fronteira exata entre uma certa possibilidade de expressão dos garotos ou mesmo o momento de alguma fala nossa que pudesse fazer alguma diferença na formação deles. Repare que esses pontos parecem se tratar de detalhes muito pequenos, mas que não podem ser ignorados.

Em linhas gerais, uma estrutura básica de encontro seria a seguinte: meus colegas de comissão – João Torniziello Rodrigues, Giovanna Morandim, Matheus Figo, Marcelo Matsuguma, Luiz Claudio Matsuguma – e eu fazíamos uma introdução de cerca de cinco a dez minutos, dando informes, fazendo perguntas mais genéricas e etc. Depois, avançávamos para o conteúdo propriamente dito, dividido em duas partes, pelos motivos que citei acima. Nas duas partes, invariavelmente, gostaria que todas as pessoas da sala pudessem falar – portanto, num encontro ideal, todos na sala tinham pelo menos dois espaços de fala. Em uma das partes, normalmente recorríamos a um vídeo, de algum jogo determinado (preferencialmente de 2015 para trás – gostaria de fazê-los pensar que havia futebol antes do que que existe hoje), com cerca de seis a oito minutos de duração. Não raro, trazíamos um vídeo de um jogo, propriamente dito, seguido de um outro vídeo sem relação aparente com o futebol (mas cuja relação era articulada a partir da nossa própria conversa), como esse brilhante TED conduzido pelo Apollo Robbins, a partir do qual discutimos a ideia do futebol como um jogo de atenção. 

Embora fossem muito claras as separações entre as duas partes do encontro, acho importante observar que não havia uma hierarquia entre elas, assim como não havia uma hierarquia entre os encontros – basicamente, a ideia era que os encontros estivessem sempre encadeados, mas que esse encadeamento ficasse implícito, subentendido, pois a própria capacidade de interpretar o que está nas entrelinhas é parte do processo pedagógico. Este, aliás, me parece um benefício da distância de uma semana entre um encontro e outro – com isso, havia tempo suficiente para digerir os encontros anteriores e preparar o terreno para o próximo , sem nos esquecermos daquele alargamento do tempo, a que me referi anteriormente.

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Como disse, gostaria apenas de fazer uma introdução às nossas atividades, como compartilhamento de experiências mesmo. Em breve, trago o relato de um encontro inteiro, deixando mais claras algumas escolhas pedagógicas que fizemos ao longo do tempo e apresentando alguns dos acertos e mesmo dos equívocos que eventualmente cometemos nesse período.

Continuamos em breve.

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O treino (não) precisa ser legal – uma reflexão

Crédito: Marcello Casal Jr/ABr

Bom, já conversamos algumas vezes sobre o quanto o processo de treino caminha junto do processo de ensino e do processo de aprendizagem. Ou seja, de fato há muitas semelhanças entre treinadores/treinadoras e professores/professoras. Isso me parece bastante positivo, uma vez que não apenas nos ajuda a pensar sobre as pontes que inevitavelmente existem entre diferentes profissões, como também nos faz perceber que, para ser treinador ou treinadora, é preciso um certo tipo de saber, do ponto de vista pedagógico – seja ele intuitivo ou não.

Mas, isto dito, sinto que nós ainda temos alguns palpites perigosos quando pensamos no tipo de sentimento que os nossos processos de treino devem despertar. Inclusive, porque hoje se reproduz velozmente este discurso próximo do que se entende por educação centrada no aluno ou, no caso do futebol, da educação centrada no atleta. Não raro, este mesmo discurso transita para uma outra coisa, próxima disso que se tem chamado de desenvolvimento positivo, algo razoavelmente difundido nos círculos acadêmicos – mas que não é exatamente o que me interessa aqui. O que me interessa é o seguinte: por que raios o treino, centrado no atleta, precisa ser legal? Quem disse que a educação ou o treino, para que sejam bons, precisam ser legais?

Este é um problema muito importante, porque não se separa de um debate fundamental, que é o das metodologias de treinamento. Pois, veja bem, talvez você concorde comigo que um processo de treino essencialmente técnico, baseado na técnica, principalmente na iniciação esportiva, parece ter outras preocupações que não o prazer. Na verdade, um processo essencialmente técnico tem, como uma das suas premissas, a noção de que a performance de um atleta depende especialmente do domínio de certas qualidades técnicas – geralmente chamadas de fundamentos. Embora também não seja o ponto deste texto, indico aos amigos um vídeo do amigo Lucas Leonardo, que discute muito bem os problemas de se pensar o treino de fundamentos – no futebol e em outras modalidades.

O que me interessa aqui é que existe, mesmo nos colegas que preferem metodologias mais próximas dos jogos (ou mais próximas da complexidade, daquilo que é tecido junto) uma ideia de que um dos motivos porque treinamos a partir de jogos, sejam eles pequenos ou grandes jogos, é porque é algo mais prazeroso, ou mais agradável, ou mais legal, ou qualquer outra coisa neste sentido – como se o processo de treino, ou como se própria educação, existisse apenas para ser prazerosa, agradável ou legal e, mais do que isso, como se o processo de treino e a educação existissem para gerar uma felicidade imediata, instantânea. Embora seja um pensamento corrente, talvez seja um pensamento muito problemático. A educação, veja bem, não deve ser um fardo, não existe para deixar a vida pior e mais triste, nós sabemos disso, mas isso também não significa que a educação (e o processo de treino) deva existir como ração de prazeres pequenos e imediatos, muito menos que deva existir somente para fazer aquilo que o aluno/atleta quer que seja feito: pelo contrário, a educação existe para fazer o que deve ser feito. E quem decide o que deve ser feito, pensando na formação do aluno ou do atleta no longo prazo, não é o aluno ou o atleta (que, se soubesse disso, não seria aluno): são justamente treinadores/treinadoras e professores/professoras. Repare como faz ainda mais sentido pensar nos treinadores como professores.

Jorge Larrosa, um filósofo que tenho lido bastante nos últimos tempos, tem um ótimo texto sobre isso, num livro intitulado El Profesor Artesano. Ali, ele defende a importância de uma educação livre, que não esteja presa a supostas obrigações de agradar o educando (especialmente quando a educação é paga – repare aqui nas escolinhas de futebol), mas sim de ensinar o que deve ser ensinado. Quando fazemos educação apenas de um ponto de vista utilitário, quando alunos/atletas são apenas clientes, a consequência imediata é que os alunos/atletas vão encarnar a noção de que a educação serve para agradá-los, que o mundo serve para agradá-los, e que portanto tudo aquilo que não os agrade na hora, de imediato, tudo aquilo que não seja prazeroso, agradável ou legal, deve ser imediatamente descartado. Basicamente, saem da sala de aula ou do treino entediados ou mesmo irritados, ainda que não verbalizem, porque não faz sentido quando o mundo não gira ao seu redor e não faz deles felizes no instante. Não é preciso ir muito longe para sabermos o quão absurdo isso pode ser.

Ao mesmo tempo, não perca de vista o que eu disse acima: o processo de treino não tem que ser monótono, chato, entediante. E, se me permite, não perca de vista que o processo de ensino e aprendizagem de um atleta não se resume ao treino. A nossa relação, enquanto treinadores e treinadoras (ou profissionais do futebol em geral) com os atletas precisa ser uma relação de desafio. A nossa função é causar um tremor, causar um incômodo, causar um certo tipo de fissura, algo parecido com o que sentimos quando lemos um livro muito bom, ou quando assistimos um filme ou uma série que nos tira o chão, ou quando conhecemos alguém muito interessante, que faz de nós outra pessoa além de nós mesmos. O atleta precisa se sentir estremecido, inquieto, desafiado. Por muitas vezes, isso vai sim significar repetição (contextualizada, mas repetição), disciplina, desconfortos físicos e emocionais, conflitos com os outros e consigo mesmo – e assim sucessivamente. A educação precisa ser desconfortável. Ao mesmo tempo, é justamente o desconforto do instante que permite um certo tipo de florescimento, que permite que se crie um outro mundo no médio prazo. Se quisermos nos sentir bons treinadores, pelo menos é como eu vejo as coisas hoje, não temos que nos preocupar em ficar fazendo coisas legais e agradáveis, como inclusive somos induzidos a fazer, mas temos que fazer o que tem de ser feito, dentro dos conteúdos que julgamos importantes (e não me refiro apenas aos conteúdos tático-técnicos), com as dúvidas que achamos pertinentes, com os desconfortos que achamos pertinentes, fazendo a roda rodar. E isso também significa, se me permitem, que podemos não ser tão queridos, pelo menos não de cara. Se queremos ser queridos por todos e por todas, aliás, talvez tenhamos aqui um problema razoável.

Vamos retomar este assunto num outro momento. Por ora, gostaria apenas de sugerir o quão prejudicial pode ser pensar no processo de treino como algo obrigatoriamente legal. Talvez isso não seja tão legal assim.

Seguimos em breve.