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Formação de jogadores de futebol: as ações e as consequências

Recentemente estive com um treinador de categorias de base de um clube argentino. Ele passou 15 dias no Brasil acompanhando jogos e treinos de categorias menores, desde o sub-11 até o sub-20.

Ele considerou muito proveitosa a experiência e falou-me um pouco sobre o trabalho que realizava na Argentina.

Em uma das conversas, apontou-me algo sobre a dinâmica de jogo, que (segundo ele) caracterizava bem a diferença do futebol praticado em seu país (pelos jogadores em formação) e do praticado pelos jovens jogadores no Brasil.

O que mais lhe chamou a atenção foi o fato de que, enquanto na Argentina, as equipes procuravam circular mais a bola, até encontrar situações de 2 vs 1 ofensivo, no Brasil, jogadores desfilavam um jogo de progressão ao ataque quase que constante, buscando invariavelmente situações de 1 vs 1.

Pois bem.

É de certa forma aceitável dizer que, tanto ao senso comum quanto aos profissionais especializados em futebol, o “talento individual” dos jogadores (chavão futebolístico) é o que decide os jogos.

Eu não quero, aqui, discordar. Não, não é o caso. O que pretendo é chamar a atenção para o fato de que há implicações importantes para o processo (principalmente para o final dele), que estão diretamente relacionadas com o tipo de dinâmica de jogo, propostas para (e por) equipes e jogadores nas categorias de base.

Em outras palavras, estou dizendo que um jogo de progressão ao ataque, com busca pelo 1 vs 1, ao longo dos anos, formará jogadores adaptados a responder de determinada maneira aos problemas que venham surgir no jogo.

Essa maneira, é um resultado final diferente daquele encontrado, após anos de jogo de circulação de posse da bola na busca de situações de 2 vs 1 ofensivo.

Quais serão as respostas finais mais particulares aos jogadores imersos nesta, ou naquela dinâmica, é difícil saber com exatidão.

O fato é que precisamos entender quais as implicações para a formação de um jogador que vai se tornar profissional, de determinada organização, modelo, filosofia ou cultura de jogo.

E se o “talento individual” resolve jogos, poderá ele, estar a se referir, por exemplo, a habilidade de um jogador de individualmente, “partir para dentro”, driblar e resolver o problema do jogo (fazer o gol); ou poderá, talvez, remeter-nos à ideia de que se refere a sua excepcional leitura de jogo para conseguir colocar seu companheiro de time em uma condição altamente favorável (por exemplo de 2 vs 1 ofensivo).

Independente do que seja o “talento individual que decide o jogo”, se não entendermos bem qual tipo de jogador queremos formar e qual a identidade do nosso brasileiro futebol, como poderemos propor dinâmicas de treino e de jogo que sejam favoráveis para isso no curto, no médio e no longo prazo?

Olhemos, por exemplo, para o basquetebol. Enquanto por anos o mundo jogava um jogo de marcação à zona, o que fazia a NBA (Associação Nacional de Basquetebol dos Estados Unidos)?
A NBA exigia, de maneira regulamentada, marcação individual. E o que isso trouxe para a dinâmica de jogo e para as ações dos jogadores?

Ofensivamente, trouxe desmarques, fintas espetaculares, dribles de corpo e belas “enterradas”. Defensivamente, ataques agressivos a bola e “tocos”.

O basquete jogado nos EUA desenhou-se então de maneira bem diferente daquele praticado pelos outros países no mundo (e da mesma forma aconteceu com o tipo de jogador presente nas equipes norte-americanas).

No futebol de base no Brasil, por alguns anos, a grande “moda” foi o jogo dos chutões. Depois, os “chutões” no 1-3-5-2. Mais à frente a marcação à zona, e mais recentemente as linhas de 4 (com o 1-4-2-3-1 prevalecendo).

Nada contra qualquer uma das “modas”.

Mais uma vez saliento que precisamos entender as implicações finais daquilo que hoje é proposto na dinâmica (na organização, no modelo, na filosofia, etc.) de jogo, para a formação do jogador que queremos ter representando o futebol brasileiro (nas equipes profissionais e consequentemente na seleção nacional).

“Planejar errado, é planejar o fracasso” (José Mourinho).

O “processo” é um caminho que, se for errado, nos faz, mesmo andando para frente, ficarmos mais distantes do horizonte almejado.

Desconhecer a força resultante de nossas ações é fortalecer a inércia!

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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A culpa é sua, treinador!

Caros treinadores,

é bastante comum no futebol brasileiro que os motivos para suas derrotas sejam os mais variados possíveis que não as suas próprias falhas.

Ao adotarem este comportamento, nas coletivas e entrevistas pós-jogo (no caso daqueles com maior visibilidade, é claro), utilizam como desculpa a falta de reforços, os erros de arbitragem, a falta que fizeram os lesionados, o pouco tempo no cargo, o cansaço devido ao acúmulo de jogos ou até uma inexplicável má fase.

São poucos os que focam nos reais problemas de sua equipe (RPE). Os que o fazem, geralmente, limitam-se a questões mais superficiais.

Ao atribuir o “peso” principal do resultado negativo aos fatores externos, os RPEs passam despercebidos. Logo, no dinâmico mundo atual, o jogo seguinte, após uma vitória ou demissão, acaba por encerrar o tema que permitiria horas de enriquecedoras discussões sobre futebol.

A sorte de vocês, caros treinadores, é que a mídia especializada ainda não está preparada para ser um dos vértices da evolução do futebol brasileiro. Com isso, jogo a jogo, coletiva a coletiva, limitam-se a induzir as respostas prontas dos jogadores e treinadores. Afinal, respostas prontas são as soluções para perguntas repetitivas.

O movimento necessário de evolução do futebol brasileiro passa, indispensavelmente, por uma maior compreensão do jogo de futebol por parte dos formadores de opinião. Com melhor capacitação, seriam mais exigentes e inteligentes em suas perguntas e, consequentemente, “forçariam” respostas mais complexas.

No entanto, quantos profissionais da imprensa estão preparados para questionar a opção de um treinador marcar por zona ou individualmente em bolas paradas?

Quantos seriam capazes de perguntar por que o goleiro não participa ativamente do modelo de jogo quando a equipe sobe o bloco e ele deixa de se posicionar caso seja necessário uma cobertura defensiva?

Quem será o primeiro a questionar uma resposta superficial de um treinador que em determinado jogo afirma não ter conseguido manter a posse de bola mesmo que apresente como transição ofensiva predominante uma retirada vertical do setor de recuperação com passes longos que inviabilizam a posterior circulação?

Ou então, quem irá instigar os treinadores que há tempos os meias dos grandes clubes europeus têm a ocupação do espaço como referência para marcação e não somente a bola e o adversário mais próximo (como ainda fazem muitas das nossas equipes)?

Pois é, enquanto boa parcela da mídia contribuir para a estagnação do futebol brasileiro, questões como as más leituras de jogo com ações coletivas distintas para o mesmo problema, limitações setoriais que impedem o cumprimento da lógica do jogo, substituições não condizentes com as necessidades do sistema-equipe, deficiências circunstanciais da unidade complexa (e não somatória de onze jogadores) que têm ocorrido frequentemente ou quaisquer outras questões mais abrangentes envolvendo o jogo não serão abordadas e os RPEs ficarão guardados para resolução nos treinamentos.

Resolução possível somente se os treinadores souberem quais são os RPEs. Você sabe quais são os seus?

E para a palavra “treinadores”, leia-se também todo e qualquer assistente envolvido na comissão técnica. Preparadores físicos costumam olhar somente se sua equipe está suportando fisicamente o jogo, treinadores de goleiros, se houve falha individual do seu jogador no(s) gol(s) sofrido(s) e o auxiliar, muitas vezes, se isenta de culpa (mesmo que internamente), pois não é o treinador principal.

Saibam que a culpa também é de vocês! A expressão (e a ação) “treinador adjunto” é a ideal para modificar a atrasada configuração das comissões técnicas brasileiras.

Independentemente da evolução da mídia, que poderia ampliar a visão dos milhões de brasileiros apaixonados por futebol que clamam por um bom espetáculo, os treinadores que conseguirem gerenciar os RPEs tenderão a se aproximar das vitórias.

E, se no caso das derrotas a culpa é exclusivamente do treinador e de sua comissão, no caso das vitórias o mérito deve ser, também exclusivamente, dos jogadores.

Coisas da dura profissão de treinador de futebol!

Obs: Por enquanto, os RPEs têm passado despercebidos inclusive para os dirigentes. Outro vértice da evolução do nosso futebol e tema para uma outra coluna.

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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A violência nos estádios e o projeto de lei 3462/12

Tramita na Câmara o projeto de lei 3462/12, do deputado André Moura (PSC-SE), que obriga as torcidas organizadas a realizarem o recadastramento de seus integrantes duas vezes por ano (janeiro e agosto), sob pena de não poderem utilizar camisas, faixas, instrumentos musicais e outros adereços em dias de eventos esportivos e nas imediações dos estádios. A referida proposta altera o Estatuto do Torcedor (lei 10.671/2003) que exige o cadastramento dos integrantes.

A proposta traz outras mudanças como criar área específica reservada para portadores de deficiência ou com mobilidade reduzida, equivalente a 0,5% da capacidade total do estádio ou ginásio esportivo; disponibilização de ambulância e técnico de enfermagem para eventos com menos de 10 mil expectadores; manutenção de central técnica com monitoramento por câmaras do público presente em todos os estádios e a abertura de portões para acesso do público por no mínimo duas horas antes do evento.

Observa-se que se buscam medidas já superadas em outros países. Destarte, no final da década de 80, após o Relatório Taylor, a Inglaterra constatou que o cadastramento de torcedores não constituiria medida eficaz contra a violência nos estádios de futebol.

No que tange à área para deficientes, ambulâncias e monitoramento por câmeras para estádios com qualquer capacidade, há de se analisar o risco destas medidas inflacionarem os eventos esportivos e inviabilizarem a existência de clubes menores.

Ademais, há de se aplicar o princípio da proporcionalidade, ou seja, trata-se de exigência exagerada, tendo-se em vista os pouquíssimos casos de violência em estádios com menos de 10 mil torcedores. Ressalte-se que, quanto menor o número de espectadores, menor a violência e mais fácil controlá-la.

Por fim, com relação aos deficientes, há uma lei federal conhecida como Lei de Acessibilidade que regulamenta o acesso aos locais de eventos públicos.

Destarte, conforme já aferido pelo Relatório Taylor em 1989, o caminho a ser seguido é de se dividir responsabilidades, humanizar e respeitar o torcedor.

Neste sentido, medidas como melhora da infraestrutura dos estádios, criação de unidades policiais especializadas, investimentos em programas sociais, educacionais e pedagógicos surtiriam mais efeito e poderiam ceifar definitivamente a violência dos nossos estádios de futebol.

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Preocupação pós-Copa

Muito já se foi discutido sobre os possíveis elefantes brancos, mas acredito que não sejam somente os estádios novos a serem esquecidos após o evento.

Pelo contrário, acredito que estes terão mais visibilidade, mais interesse de empresas. Já alguns estádios, como o Pacaembu, podem sofrer com a falta de jogos, já que os grandes times já terão as suas casas.

Especificamente sobre o Pacaembu, penso o que será dele após a Copa. O Corinthians terá sua casa em Itaquera, assim como Palmeiras, Portuguesa e São Paulo já têm. Santos, Bragantino jogam em suas cidades. Em termos de partidas de Série A, o que podemos considerar? Nada.

Shows costumam ser a alternativa mais comum para estádios que precisam de receita para se sustentar. Mas, o Pacaembu está inserido em um bairro exclusivamente residencial, o que complicaria muito contar com esta fonte de receita. Muitos eventos já tiveram reclamações dos moradores, pelo excesso de barulho em certos horários e isso inclui grandes eventos como até a vinda do Papa que hoje são puro espetáculo musical com orações entremeadas.

Mas temos o Museu do Futebol! Pena que ele é independente do estádio. Ele pertence à Fundação Roberto Marinho, tem seus gastos independentes, inclusive geradores, energia, etc. É, então, uma opção a menos para se aproveitar no estádio. Contudo, qual é a solução?

Talvez a reforma do estádio, com a colocação de uma cobertura (como já foi estudado para um possível Pacaembu na Copa 2014), abra algumas possibilidades, já que ajudaria na proteção sonora para a vizinhança.

Talvez até mudanças paisagísticas pudessem suavizar o entorno dos ruídos de eventos. Embora a região já seja arborizada, novas vegetações e estudos podem trazer certa melhora no conforto.

Série B? É possível, assim como uso público do estádio, eventos de futebol com ações solidárias com maior frequência. Ainda é possível tentar trazer eventos como os jogos de Zinedine Zidane, com vários atletas jogando por diversão com verba revertida a um instituto de caridade.


Acima, proposta de cobertura para o Pacaembu para a Copa antes da escolha de Itaquera

Assim como qualquer outro estádio, é preciso desenvolver um estudo do que é necessário para a região, para o futebol brasileiro. O que falta? Centro de treinamento, treinamento de base? Escola de futebol? Como um campo, com tanta história, pode ser usado e por quem? Pelo governo?

Pode ser repassado a algum clube para descobrir novos talentos?
Precisamos do uso frequente, o que pode complementar? Uso acadêmico? Temos uma faculdade conhecida e de alto padrão nas suas proximidades com muitas exposições sendo realizadas sempre.

Podemos estender essas exposições? Trabalhar em parceria? Permitir que a universidade utilizasse o estádio para treinos dos alunos?

É complexo, é demorado, mas tem de ser feito.

Para interagir com o autor: lilian@universidadedofutebol.com.br

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Protetores bucais individualizados: por que utilizá-los?

O trauma é recorrente nas práticas desportivas, principalmente dos esportes de contato. A National Youth Sports Foundation (NYSSF), uma fundação sem fins lucrativos dos EUA que se dedica a reduzir o número e a gravidade das lesões de jovens em atividades desportivas, afirma que cerca de cinco milhões de dentes foram perdidos em 2006 durante práticas do esporte. Já de acordo com a American Dental Association (2008), 200 mil traumas podem ser evitados com o uso de protetores bucais.

Barberini (2002) em um estudo realizado no Brasil sobre esportes de contato, nos quais atletas de várias modalidades esportivas (boxe, handebol, basquete, kung fu, jiu-jítsu, kickboxing, karatê e futebol) foram entrevistados, concluiu-se que 73% sofreram lesões orofaciais, sendo que 60% em tecidos moles, 16% correspondendo a traumatismos dentários, 9% a fraturas maxilares e mandibulares e 15% a lesões combinadas.

Levin (2003) realizou um estudo sobre o uso de protetores bucais durante atividades esportivas em Israel e relatou que os traumas acontecem mais frequentemente no basquete, futebol, hóquei e boxe, sendo que 70% dos entrevistados não possuíam conhecimento do protetor bucal.

Segundo o autor, esses traumas, além das lesões físicas, também apresentaram outras consequências como a interrupção repentina de um jogo, algumas vezes de um time inteiro. Levin (2003) também destaca que uma lesão de recuperação a curto ou longo prazo pode representar uma preocupação econômica para seus clubes e patrocinadores, além do comprometimento psicológico do atleta e de seus colegas.

Canto (1999) concorda com Levin (2003) neste aspecto, ressaltando que o uso de protetores vai além da garantia de saúde dos atletas uma vez que garante uma economia significativa em relação a tratamentos odontológicos para os clubes esportivos.

Já Andreasen (2000) lembra que, com o aumento da competitividade e do número de participantes, a tendência é que aconteça um aumento substancial de acidentes traumáticos no esporte. O mesmo autor afirma que todas as atividades esportivas estão associadas com riscos de lesões orofaciais devido a quedas, colisões e contato com superfícies duras, destacando-se os esportes de maior contato.

Segundo a NYSSF, os atletas que praticam esportes de contato têm cerca de 10% a mais possibilidade de sofrer lesões orofaciais durante uma competição esportiva, sendo de 33% a 56% durante toda a sua carreira.

Ainda de acordo com o autor, o pico da incidência do trauma em meninos situa-se entre nove e dez anos, por motivo de brincadeiras ou atividades esportivas, também afirmando que as lesões mais comuns na dentição surgem de quedas, seguidas por acidentes de trânsito, atos de violência e prática de esportes.

Para Montovani (2006), a etiologia do trauma facial é heterogênea e o predomínio maior ou menor de um fator etiológico se relaciona com algumas características da população estudada como idade, sexo, classificação social, local, urbana e residencial.

Em certas regiões do país e em países europeus, o uso da bicicleta como lazer, esporte ou meio de transporte, é muito difundido, o que aumenta a possibilidade de acidentes.

Em crianças e idosos, as fraturas faciais estão associadas com quedas dentro de casa ou com jogos e brincadeiras infantis. Em adultos jovens, até a quarta década, as causas mais comuns, além dos acidentes automobilísticos, são as agressões e traumas decorrentes de práticas esportivas.

Este autor realizou um estudo sobre a etiologia e incidência das fraturas faciais em adultos e crianças, avaliando 513 casos diagnosticados com fratura facial, atendidos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu pela Disciplina de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, durante um período de 13 anos (1991 a 2004).

Dos 513 casos, apenas 5,3% foram relacionados ao esporte e 72,3% foram diagnosticados como fratura simples. Das fraturas classificadas como simples, somente 9% envolviam a prática de atividades esportivas, encontrando como fraturas mais comuns as nasais e zigomáticas, sendo a maioria delas resultado de esportes coletivos, principalmente o futebol.

Ele relata ainda que algumas das lesões faciais poderiam ser consideradas verdadeiras agressões, pois eram descritos socos, pontapés, cotoveladas, cabeçadas, etc., quase sempre intencionais.

Os resultados deste estudo podem ser comparados com outro, realizado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com 164 pacientes diagnosticados com trauma facial. Destes, 5,4% tiveram como etiologia atividades desportivas, sendo que homens e mulheres apresentaram a mesma incidência (5,5%). Nos homens, a idade média dos acometidos por trauma foi 17 anos, enquanto nas mulheres, 22 (Wulkan, 2005).

A literatura destaca o papel preventivo da odontologia no trauma buco-dental, diminuindo as chances de ocorrerem e preservando o bem-estar e bom rendimento do profissional. (Canto, 1999; Andrade, 2010).

Os tipos de protetores bucais podem ser divididos em protetores prontos, feitos de látex ou cloreto de polivinil, de baixo custo e tamanho padrão.

Possuem a desvantagem de impedir a fala e a respiração, já que só são mantidos no lugar pela oclusão, também não existindo evidências de que eles redistribuam o impacto. Os protetores feitos em boca, que se constituem de uma moldeira externa razoavelmente rígida e um material de preenchimento macio e resiliente, possuem melhor adaptação.

Os individualizados são considerados os melhores tipos de protetor, feitos sob medida por um cirurgião-dentista, porém são muito mais caros do que os anteriores, mas não atrapalham a fala, a respiração e são confortáveis (Andreasen, 2000).

Sizo e Silva (2009) destacam ainda a existência de um quarto tipo de protetor, semelhante ao terceiro modelo, confeccionado em várias camadas, que pode ser feito por um cirurgião-dentista também, com a diferença do exemplo anterior porque é feito com um equipamento pressurizado.

Segundo os autores há falta de conhecimento das universidades e clubes esportivos quanto à odontologia direcionada ao esporte, perdendo também o profissional cirurgião-dentista a oportunidade de reivindicar seu espaço para orientar seus pacientes e indicar o uso de tais protetores.

A Associação Atlética do Colegiado Nacional dos Estados Unidos começou a exigir o uso dos protetores na década de 70, sendo a partir desta data que os times profissionais manifestaram interesse por seu uso, espalhando-se para outros países, com o intuito de reduzir injúrias provocadas pelo futebol e boxe.

Para a Academia Americana de Odontologia Esporte (2009), o uso deste aparelho diminui em até 80% os riscos de trauma dental.

Bibliografia

ANDRADE, R. et al, Prevalence of dental trauma in Pan American games athletes, Dental Traumatology, Rio de Janeiro, vol. 26, 248-253, 2010

ANDREASEN, J.O et al, Manual de Traumatismo Dental, Porto Alegre: Artmed, 2000.

BARBERINI A. F.; AUN C.E.; CALDEIRA C. L. Incidência de injúrias orofaciais e utilização de protetores bucais em diversos esportes de contato. Revista de Odontologia – Unicid, v. 14, n° 1, jan/abr, 2002.

CANTO, G. L.; OLIVEIRA, J.; HAYASAKI, S. M.; CARDOSO, M. Protetores bucais: uma necessidade dos novos tempos. Revista Dental Press. Ortodontia e OrtopediaFacial, v. 4, n° 6, p. 20-26, nov/dez, 1999

LEVIN, L., FRIEDLANDER, D., GEIGER, S., Dental and oral trauma and mouthguard use during sports activities in Israel, Dental Traumatology, Tel Aviv, vol. 19, p. 237-242, fevereiro, 2003

MONTOVANI, J. et al, Etiologia e incidência das fraturas faciais em adultos e crianças: experiência em 513 casos, Rev. Bras. Otorrinolaringolia, vol.72, nº.2, São Paulo, março/abril, 2006. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-72992006000200014&script=sci_arttext> Acesso em 14/09/2020.

NYSSF – National Youth Sports Saf
ety Foundation, Página Oficial. Disponível em:

SIZO, S. R. ; SILVA, E. S. ; ROCHA, M. P. C. ; KLAUTAU, E.B. . Avaliação do conhecimento em odontologia e educação física acerca dos protetores bucais. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v.15, p. 282-286, 2009.

WULKAN, M., PARREIRA, J., BOTTER, D. Epidemiologia do Trauma Facial, Revista Assoc Med Bras, vol 51, nº 5, 2005

*Ana Clara Loch Padilha é cirurgiã-dentista

Leia mais:
Odontologia do Esporte no Brasil

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Otimismo, pessimismo e realidade

Conceitualmente, o significado de cada uma das palavras que formam o título da coluna desta semana está enraizado na percepção das pessoas sobre o seu modo de vida e o ambiente ao qual esta está envolvida, somado principalmente ao histórico de cada indivíduo, para assuntos de diversas naturezas.

Para a nossa “realidade”, do “país do futebol”, que receberá a Copa do Mundo daqui dois anos, temos dois caminhos muito claros: achar que tudo vai dar errado ou, obviamente, acreditar que muita coisa dará certo. Para os dois cenários, podemos contribuir decisivamente, bastando assumir uma das posições.

E é aí que leio e ouço constantemente comentários sobre uma suposta tragédia anunciada de o Brasil realizar megaeventos. E isso acontece com frequência no meio do esporte, de pessoas que minimamente deveriam se informar para simplesmente tentar defender o segmento de trabalho que escolheram… trabalhar.

É fácil imaginar que se continuarmos repetindo um modelo arcaico de gestão do esporte e de discurso antiquado a respeito do fenômeno esportivo, o tsunami Copa do Mundo passará e deixará tudo como estava antes.

O pessimismo exagerado de algumas pessoas apenas tem reflexo em um antigo conceito de resistência à mudança, bastante comum em quem tem dificuldade em procurar algo novo.

Quando falamos de otimismo, devemos falar de realizações. De enfrentar o novo com novas ideias. De transformar velhos conceitos em conceitos inovadores, que possam gerar mais valias positivas para o segmento como um todo.

Acreditar, por exemplo, que as novas arenas podem ser o pilar para uma mudança radical em tudo aquilo que conhecemos hoje a respeito do marketing esportivo: partindo desde um tratamento diferenciado ao cliente (torcedor) até um melhor relacionamento com patrocinadores, passando por criar um cenário muito mais atraente para os veículos de mídia.

Enfim, o relato é uma reflexão para que passemos a olhar mais para o que há de bom por vir, sendo necessário que a gente trabalhe insistentemente para que perspectivas transformadoras contribuam para o desenvolvimento do futebol no país do futebol.

 

Obs.: o colunista Geraldo Campestrini fará uma breve pausa de três semanas. Nas próximas colunas, teremos a participação do Especialista em Gestão e Marketing Esportivo e Bacharel em Ciência do Esporte, Victor Lima, que apresentará novos temas e discussões para o ambiente da Universidade do Futebol.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br
 

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Carta Aberta ao presidente Luiz Álvaro De Oliveira Ribeiro

Caro presidente do Santos Futebol Clube, Luiz Álvaro de Oliveira Ribeiro, ou presidente LAOR,

sou grande admirador de seu trabalho como presidente do “Glorioso Alvi Negro Praiano”, apesar de ser torcedor de “outro tipo de ocupante do mar, parecido com um peixe”. Sua proficiência como gestor esportivo é comprovada, sua liderança é inata, sua capacidade de comunicação é notável, sua simpatia encanta, sua defesa do futebol brasileiro comove e inspira.

Perante sua auspiciosa gestão, o Santos voltou a ser o “Santos sempre Santos” que conhecemos – fato comprovado pela torrente de títulos conquistados. E, mais do que isso, o esforço que o sr. fez para manter nosso menino de ouro, Neymar, jogando em nosso país, é admirável!

É sobre esse esforço, para manter o menino-craque jogando aqui que gostaria de lhe falar, ou melhor, escrever.

O menino joga muito, é um assombro vê-lo com a bola. Qualquer um dos diversos cartolas tradicionais que há por aí faria o possível para vendê-lo, perpetuando o lamentável status quo de “vendedores de pé de obra” que nos persegue, e que o saudoso Dr. Sócrates tão amiúde denunciava.

Dr. Sócrates não só denunciava, como propunha: “temos que vender o espetáculo, não o artista”. Parece que o estou vendo em minha frente, pronunciando as inspiradoras palavras.

O Dr.propôs, o sr. viabilizou. Contra arcaicos e colonizados pensamentos, manteve o menino jogando aqui. Soube ser criativo para viabilizar sua permanência, seja com boa engenharia financeira, seja com bom plano de marketing, seja, ainda, com o inconformismo de quem não cede à mediocridade.

Parabéns por tê-lo feito!

Mas, presidente LAOR, imagino que tenha passado por malestar, recentemente: quando Neymar, e seu escudeiro Paulo Henrique Ganso, foram convocados para os Jogos Olímpicos, o sr. perdeu os meninos por um considerável número de jogos, algo próximo a dez partidas.

Deve ser uma sensação nada agradável, né? O sr. pagando uma fortuna para manter o astro no Brasil, e sendo impedido de utilizá-lo em cerca de dez compromissos… e lá se vai o Santos deixar de usufruir de receitas (com estádios com menos gente) e decair tecnicamento porque, em vários jogos, Neymar não esteve presente.

Presidente, se isso acontece, há um vilão, que tem nome e sobrenome: calendário do futebol brasileiro.

É esse calendário monstruoso, que não é adaptado ao calendário europeu, que lhe tira o Neymar por tanto tempo. Se a adaptação existisse, os clubes não estariam jogando no período das Olimpíadas, e o sr. poderia contar com o Neymar durante a temporada toda.

É esse calendário horripilante, presidente, que ainda irá lhe prejudicar mais! Quando a seleção for jogar amistosos, seu Santos também estará jogando, mas não poderá contar com Neymar, que estará convocado. Tudo porque não se usa a simples medida de seleções só jogarem quando clubes não jogam, e vice versa.

Mas isso não é tudo, presidente. O calendário tenebroso prevê que o Campeonato Brasileiro, principal competição, tenha rodadas em meios de semanas, quando poderia ser realizado somente aos fins de semanas – uma distribuição mais equilibrada das competições pelas datas poderia providenciar isso. Era fácil Neymar brilhar no Brasileirão com uma Vila Belmiro lotada aos sábados ou domingos, mas o sr. tem que se contentar com o menino brilhando em meios de semanas, mesmo, com a Vila muito mais vazia.

Bonito, né? O sr. se esforçando para o Santos “encher os cofres” contando com o talento de Neymar, e um calendário anacrônico obstando seu esforço! Não há a mínima graça nisso, não.

Se lhe escrevo, presidente, é porque vejo no sr. a pessoa apropriada para comandar um movimento para a melhoria do calendário de nosso futebol. Já lhe ouvi falar no assunto, já senti sua indignação e inconformismo com isso. O sr. é “o cara”, o cidadão que poderá mudar essa arcaica estrutura.

Não sei se seus colegas dirigentes de clubes estão tão interessados. Por exemplo: ao lançar meu livro “Futebol Brasileiro: Um Novo Projeto de Calendário”, em 2011, enviei-o para cerca de 100 personalidades do mundo do futebol, inclusive técnicos e dirigentes esportivos. Esperava, destes, algum retorno, seja para concordar, seja para discordar das propostas.

Pois, entre técnicos e dirigentes, só tive feedback de duas pessoas: O sr. Rodrigo Caetano, brilhante diretor de futebol do Fluminense, e ex diretor do clube parecido com o peixe, também habitante do mar; e de seu técnico, o competente professor Muricy Ramalho. Ambos para elogiar o livro – tanto a iniciativa, como as propostas.

Acho que o povo que dirige o futebol brasileiro, que deveria ser o maior interessado em mudar algo, não está preocupado com isso. Mas sei que o sr. está! Então, lhe faço um apelo: conduza as mudanças, se inconforme com a precariedade atual, faça acontecer, como é de seu feitio.

Será bom para o Santos, porque poderá melhor usufruir do Neymar que tanto esforço o sr. fez para continuar aqui. E será bom para o futebol brasileiro como um todo!

A bola está com o sr., presidente! Como diz o hino, “agora quem dá a bola é o Santos”!


*Luis Filipe Chateaubriand é Mestre em Administração Pública pela EBAPE / FGV, Analista de Logística e Suprimento da DATAPREV e Autor do Livro “Futebol Brasileiro: Um Novo Projeto de Calendário”.

Leia mais:
O calendário do futebol brasileiro em 2013
 

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Ferran Soriano, um reforço que diz muito sobre o futuro do Manchester City

Fundada em 2004, a Penya Barcelonista de São Paulo é uma entidade criada para reunir adeptos e simpatizantes do FC Barcelona. Reconhecido oficialmente pelo clube catalão, o local é o primeiro território oficial da equipe em solo brasileiro. Foi ali que o espanhol Ferran Soriano escolheu para fazer uma entrevista em 2011.

Não é incomum que entrevistados escolham o local em que vão conversar com a imprensa. Aliás, para que fiquem mais confortáveis e tenham mais liberdade, essa prática é até aconselhável. No caso de Soriano, porém, a definição diz muito sobre ele. O executivo é detalhista, preocupa-se com o ambiente e valoriza a história.

Todos esses requisitos alicerçaram o trabalho de Soriano no período em que ele esteve no FC Barcelona. Ele foi contratado pelo clube catalão em 2003, exerceu várias funções nos departamentos de marketing e finanças e saiu apenas em 2008.

A experiência de Soriano no Barcelona é relatada no livro “A bola não entra por acaso”. Na obra, o executivo conta o que viveu no clube e relaciona isso com o dia a dia de uma empresa. Assim como a escolha do local da entrevista, isso diz muito sobre ele. Soriano é extremamente analítico e didático.

Mas que relevância têm a trajetória e a personalidade de Soriano para um portal que fala sobre futebol? Ele foi anunciado neste mês como novo diretor-executivo do Manchester City, time que venceu a Premier League na última temporada. E isso diz muito sobre os planos da equipe.

Nascido em 1967, Soriano é oriundo de Barcelona. O executivo tem formação em administração pela Esade, na Espanha, e MBAs na Bélgica e nos Estados Unidos. Além disso, trabalhou durante muitos anos em empresas de grande porte – ele chegou a morar no Brasil na época em que atuou na Telesp.

Soriano foi um dos principais dirigentes do Barcelona no período em que o clube foi presidido por Joan Laporta, mandatário da equipe catalã de 2003 a 2010. Essa fase marcou mudanças significativas no time, e não apenas dentro das quatro linhas.

A diretoria de Laporta e Soriano contratou o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, que estava no Paris Saint-Germain. A mesma cúpula montou um elenco com nomes como Xavi, Iniesta, Piqué e Messi, que balizam até hoje um dos times mais marcantes da história do futebol.

As marcas da passagem de Soriano pelo Barcelona, contudo, são muito maiores do que jogadores e títulos. Ele contribuiu para montar um plano de gestão baseado em dívidas equacionadas, valorização de história, criação de conteúdo e aposta nas categorias de base.

A diretoria também colocou no planejamento uma ênfase maior no slogan “mais que um clube”, que o Barcelona já usava desde a ditadura de Franco. E incutiu nos funcionários uma série de ideias obtidas no dia a dia corporativo – a maior delas é “não tomamos decisões às segundas-feiras”, frase que resume a importância de a emoção ser alijada do processo de condução de um clube.

Em outubro de 2007, o plano de Soriano e do Barcelona foi apresentado a um grupo de apaixonados pelo Corinthians. Os adeptos alvinegros fariam parte da diretoria que assumiria o clube paulista meses depois, em gestão que começou com o rebaixamento para a Série B do Campeonato Brasileiro.

O Corinthians do “eu nunca vou te abandonar” tem muito a ver com o Barcelona do “mais que um clube”. O Corinthians de Ronaldo tem muito a ver com o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho. Nos dois casos, a bola deixou de entrar por acaso.

As dúvidas em torno das gestões e dos dirigentes também marcam as duas gestões. Os torcedores do Barcelona criticaram Laporta no início da fase dele no clube porque ele não cumpriu promessa de campanha de contratar David Beckham – sobretudo porque o inglês acabou no arquirrival Real Madrid.

Até hoje, torcedores também criticam a gestão de Soriano no departamento financeiro por mascarar dívidas e números. Outro argumento contra o executivo é o insucesso da Spanair, companhia aérea que ele comandava e quebrou no início de 2012.

Ainda que conviva com insucessos, porém, é inegável que Soriano estabeleceu conceitos indeléveis para a gestão do Barcelona. A transformação que a gestão dele provocou no clube tem muito da própria personalidade do executivo, que ficou muito clara na entrevista de 2011.

“Parece uma coisa muito complicada, mas não é. No Brasil, o nível de sofisticação e de profissionalismo das empresas é de primeira linha. Os bancos, as indústrias, as empresas de alimentação… Por que os clubes precisam ser diferentes? Não é uma boa ideia contratar os melhores profissionais?”, questionou Soriano durante a entrevista. “O que fizemos foi aprender com os melhores: ir lá, ver o que o Manchester United fazia de bom e copiar. Quando você está na liderança e não pode copiar ninguém, precisa inovar. Mas se estiver abaixo, precisa entender o que há de bom em outros lugares”, completou o executivo.

As análises de Soriano, até pelo tom didático, parecem extremamente lógicas. Mas em um ambiente como o futebol, que ainda valoriza a paixão e o empirismo, conceitos básicos de gestão profissional fazem toda diferença.

Aproveitando o mês de centenário de nascimento do escritor Nelson Rodrigues, uma das mais famosas crônicas esportivas do autor tenta explicar por que Garrincha era tão eficiente. Entre os adjetivos de louvação ao atacante, o texto diz que ele não pensava antes de executar um lance, e que nenhum zagueiro poderia ser mais rápido do que o instinto.

A digressão é necessária para estabelecer uma comparação com o esporte de alto rendimento atual. O sucesso hoje em dia exige que as pessoas sejam mais rápidas do que o instinto. E isso, ao contrário do que dizia Nelson Rodrigues, é extremamente possível. Como Soriano ensina, basta saber planejar.

PS: Em duas respostas da entrevista de 2011, Soriano abordou o tema Chelsea. O executivo criticou o comportamento de Roman Abramovich por investir no clube sem ter expectativa de retorno, o que criaria uma concorrência desleal. Outra análise que parece lógica, mas que pode criar um problema para quem terá a missão de comandar o novo rico Manchester City…

*Guilherme Costa é jornalista e editor da Máquina do Esporte – www.maquinadoesporte.com.br
 

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On the Road pelo futebol brasileiro

Percorri 2.200 km em quatro dias nesta semana que passou.

Objetivo: mais do que vistoriar ou fiscalizar, conhecer as lideranças locais e a realidade das instalações esportivas do Estado do Paraná que sediarão os Jogos Escolares Bom de Bola e documentar através de imagens e relatórios.

Os Jogos Bom de Bola fazem parte de uma iniciativa da empresa Parati Alimentos que, há 20 anos em Santa Catarina e há 15 anos no Rio Grande do Sul, realiza esta competição de futebol em âmbito escolar para meninos e meninas, com a chancela oficial das Secretarias Estaduais de Esporte e Educação.

A intenção é lançar mão do futebol como meio de formação e desenvolvimento humano dos jovens.

Por tal razão, não se permite a participação de seleções municipais ou equipes desvinculadas de escolas públicas ou particulares.

Neste ano, quase 18 mil serão os participantes na competição.

A equipe da escola começa e termina o campeonato. Naturalmente, todo um conjunto de valores vivenciados pelos jovens ao longo dos quatro meses de disputa traz como legado positivo para toda a vida dos participantes.

O legado almejado pelo Bom de Bola é integrar esporte, educação e cultura e transformar a realidade dos participantes de maneira positiva e duradoura.

Como efeito colateral positivo do projeto, alguns deles se tornaram jogadores profissionais de futebol e atuam em grandes clubes do Brasil e do exterior.

Embora a viagem tenha sido bastante proveitosa, também pelas belíssimas paisagens dos Campos Gerais, bem como pela acolhida calorosa das pessoas envolvidas nos Jogos em cada uma das cidades visitadas, algumas reflexões foram trazidas na bagagem.

Pude testemunhar certo mau uso da infraestrutura dedicada ao futebol. Aqui me refiro às instalações que não pertencem às escolas, mas aos municípios.

Os relatos dos profissionais com quem conversei também confirmam a articulação abaixo do esperado entre Estado, Munícipio, Escolas e Professores.

Refiro-me, principalmente, à falta de programas continuados dedicados ao esporte.

Obviamente, quem sucumbe são os jovens que já estão engajados na prática esportiva e, também, muitos outros que estão à margem e suscetíveis dos riscos sociais relativos à violência, desocupação e consumo de drogas.

Muito bom poder ver de perto a realidade e tentar contribuir para a evolução do cenário esportivo-educacional do Paraná.

O diálogo com toda a cadeia de envolvidos nos Jogos Bom de Bola resta qualificado – Poder Público Estadual e Municipal, professores, atletas-estudantes, familiares, parceiros estratégicos – e essa foi a intenção de coletar dados e impressões.

O potencial de transformação social por meio do esporte começa na escola.

Porém, enquanto não se considerar essa visão como algo politicamente institucionalizado na gestão pública – e fazer com que o esporte deixe de ser entendido como algo opcional, acessório – será um árduo caminho.

Os Jogos Escolares Bom de Bola pretendem ser um dos exemplos de integração público-privada na promoção e desenvolvimento social pelo esporte.

Longo e sinuoso caminho.

Maior que os 2.200 km percorridos.

Mas com belíssimas paisagens e histórias pra contar quando se chegar ao destino.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Reflexões: as faltas de jogo (táticas!?), o Campeonato Brasileiro e novamente o Barcelona da “era” Guardiola

Nas últimas duas semanas, assisti a programas esportivos da TV a cabo, debates interessantes a respeito do elevado número de faltas cometidas, nos jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Na 19º rodada da competição, por exemplo, segundo texto de Mauro Cezar Pereira, (publicado em http://espn.estadao.com.br), foram 395 faltas em 10 partidas.

A média elevada não é privilégio do Campeonato Brasileiro de 2012. Conforme publicou o ex-árbitro Leonardo Gaciba em seu blog (disponível no www.sportv.globo.com), a média de faltas por jogo vem sendo alta, pelo menos, desde 2008. Os números realmente impressionam:

– Em 2008 = 38,76 faltas por jogo (uma falta a cada 2,32 minutos);
– Em 2009 = 37,22 faltas por jogo (uma falta a cada 2,42 minutos);
– Em 2010 = 35,42 faltas por jogo (uma falta a cada 2,54 minutos);
– Em 2011 = 35,93 faltas por jogo (uma falta a cada 2,50 minutos).

Pois bem. Com números tão marcantes, muitas das discussões sobre o assunto passaram a permear comparações entre o futebol brasileiro e o europeu (no qual, em tese, e de fato, o número de faltas por partida tem sido menor).

Postura e qualidade da arbitragem, conduta e ética dos jogadores, cultura de jogo, formação dos treinadores, atuação da mídia e perfil dos torcedores foram algumas das “variáveis” mais presentes nos debates sobre essas comparações.

Em geral, dados sobre o futebol da Inglaterra, Espanha, Portugal e França, mostraram que a principal competição de clubes profissionais do Brasil tem uma média superior de faltas por jogo quando comparada aos campeonatos nacionais destes países – e também, quando os jogos comparados são os da UEFA Champions League (Liga dos Campeões).

O FC Barcelona, por exemplo, vem apresentando uma média baixíssima de faltas. Na “era” Guardiola então, nem se fale (para que se tenha uma ideia, nas últimas seis partidas disputadas pela equipe na Liga dos Campeões 2011/12, a sua média de faltas por jogo foi de 8,67).

Parece realmente muito baixa certo? (principalmente se comparada com as 39,5 faltas por jogo cometidas na 19º rodada do Campeonato Brasileiro deste ano).

Uma falta a cada 2,28 minutos de jogo, como tem acontecido no campeonato nacional, é muita coisa para um esporte disputado em terreno de área tão grande (aproximadamente de 7000 m2 – 318 m2 por jogador).

Pois bem, voltemos então ao FC Barcelona e façamos agora, antes de prosseguir, um exercício de imaginação.

A equipe catalã, na “era” Guardiola teve no tempo de posse de bola (sempre superior aos dos adversários), uma marca mais do que registrada. Nas últimas seis partidas que disputou na Champions League 2011/12, por exemplo, teve em média, impressionantes 73,5%.

Imaginemos que em um jogo a maior parte das faltas cometidas por uma equipe sejam faltas de defesa e não de ataque. Ou seja, as equipes fazem mais faltas (senão, quase todas) quando estão se defendendo.

Para efeito didático, tentemos aceitar, que aproximadamente 100% das faltas cometidas por um time, ocorrem quando esse time está tentando se defender (protegendo o gol, impedindo progressão do adversário, ou tentando recuperar a bola).

Para efeito didático também, imaginemos que quando é contabilizada a porcentagem de tempo, que se refere à posse de bola de uma equipe em um jogo, estará contido nele, tanto, o tempo que a equipe tem a posse da bola efetivamente com ela em jogo, quanto o tempo, quando a tem (a bola) fora dele (do jogo) em reposições e/ou reinícios.

Isso quer dizer em outras palavras, que devemos imaginar o tempo total de posse de bola de uma equipe, como a soma do tempo de posse, com a bola em jogo e com a bola fora de jogo (em arremessos laterais, tiros de meta, escanteios, faltas, etc.).

Aceitemos ainda, que quanto mais tempo com a posse da bola, menos chances uma equipe tem de cometer faltas (e menos tempo para isso).

E é aí que emerge um dado bem interessante. Se o FC Barcelona teve em média 73,5% de posse de bola nos jogos eliminatórios da Liga dos Campeões 11/12 (como mencionado anteriormente), então esteve com ela em seu domínio por 66,1 minutos, em média, por partida.

Com esse tempo, deu aos seus adversários 23,9 minutos, também em média, de posse da bola.

Então, por jogo, o FC Barcelona teve aproximadamente 23,9 minutos para fazer faltas (contra 66,1 minutos dos adversários).

Com uma média de 8,67 faltas cometidas nessas mesmas partidas, podemos dizer que a equipe catalã, fez, nos seus seis últimos jogos da Liga dos Campeões 11/12, uma falta a cada 2,75 minutos (no último jogo, por exemplo, contra o Chelsea, chegou a uma falta a cada 1,91 minutos).

Impressionante o elevado número de faltas por minuto do time catalão, não?

Mais impressionante ainda, saber que seus adversários nesses jogos cometeram uma falta a cada 5,27 minutos (ou seja, bem menos faltas que o FC Barcelona).

Não quero com esses números, defender as faltas. Claro que não!
O que estou tentando mostrar é que a taxa de faltas da equipe sensação do futebol mundial dos últimos dois ou três anos é bastante alta (é comparável a do Campeonato Brasileiro).

Porém, o fato de ficar muito tempo com a bola sob seu domínio acabou por mascarar essa característica.

Claro, com a bola por muito tempo nos pés, com um grande número de jogadores no campo de ataque, e com muita agressividade nas suas transições defensivas, o FC Barcelona de Guardiola sempre administrou bem os riscos de sofrer contra-ataques, utilizando-se inclusive de faltas.

Mas faltas são faltas, seja no nosso atual “brigado” futebol brasileiro, seja no vistoso futebol catalão.

Não quero com isso, comparar a forma de jogar do time espanhol, com as equipes brasileiras (especialmente tendo a “falta” como variável dependente); e nem tão pouco, justificar as faltas – principalmente porque, excetuando-se a “taxa de faltas”, uma infinidade de outras variáveis pesará a favor da dinâmica de jogo dos catalães.

O que precisamos fazer, efetivamente, nós todos do futebol, independente da área de atuação, é entender pontualmente o que esse número elevado de falta realmente significa para a dinâmica do nosso jogo, para nossa cultura futebolística, para nossa escola, e finalmente, seu significado dentro da nossa história.

Para interagir com o autor: rodrigo@149.28.100.147