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O braço de Jô e as pressões que nós criamos

A despeito de jogar em casa e de ter mais domínio da bola, o líder Corinthians sofria contra o Vasco, que se defendia bem e até construiu boa chance no primeiro tempo. Aos 28min da etapa final, Marquinhos Gabriel fez lance individual pela esquerda e cruzou na direção da segunda trave. Martín Silva não cortou e Jô, que vinha atrás, usou o braço direito para empurrar para as redes e produzir o lance mais importante da 24ª rodada do Campeonato Brasileiro.

Depois da vitória por 1 a 0, ainda em campo, Jô foi interpelado por um repórter do canal fechado Premiere FC. Questionado sobre o lance do gol, tergiversou e evitou admitir que havia usado o braço: “Me joguei na bola e não vi se tocou ou não. Se tivesse tocado, eu ia falar”.

O comportamento de Jô é especialmente relevante porque o centroavante do Corinthians esteve envolvido em um lance polêmico no Campeonato Paulista. Quando o time do Parque São Jorge venceu o São Paulo por 2 a 0, disputou uma bola com o zagueiro Rodrigo Caio e foi advertido pelo árbitro, que viu um pisão do atacante na coxa de Renan Ribeiro. Assim que viu o cartão amarelo, que tiraria o rival da partida seguinte, o defensor tricolor interferiu e disse que era dele o pé que havia atingido o goleiro.

Naquela ocasião, Rodrigo Caio foi aplaudido em campo pelo próprio Jô. Depois da partida, o atacante do Corinthians classificou a atitude como “exemplar” e disse que o comportamento do defensor tricolor era um modelo a ser seguido no futuro. Que pretendia alterar sua conduta em campo após aquela demonstração de caráter e fair play.

A conduta de Rodrigo Caio foi extremamente elogiada, mas é bom lembrar que o zagueiro não foi unanimidade nem no próprio São Paulo. O zagueiro Maicon, então no time do Morumbi, chegou uma dizer a célebre frase: “Antes a mãe dele chorando do que a minha”. Rogério Ceni, técnico da equipe na época, também condenou o que considerou excesso de honestidade.

Jô acompanhou toda a repercussão que o lance de Rodrigo Caio teve. Quando ficou diante de uma oportunidade de escolher um caminho, contudo, mostrou que não é simples funcionar como o são-paulino. Tornou ainda maior a atitude do zagueiro no Campeonato Paulista e optou pelo caminho mais fácil: em vez de acusar-se ou de admitir o erro, omitiu-se.

Porque é isso, também: Jô não apenas infringiu a regra para vencer, mas não admitiu ter feito isso. Ignorou ao menos essas duas grandes chances de se comportar como o rival que elogiou meses antes.

Não seria justo exigir que Jô fosse Rodrigo Caio, mas o atacante do Corinthians perdeu no último domingo (17) uma chance de mostrar que boas ações podem dar frutos. Por já ter estado do outro lado, o jogador alvinegro vivenciou de perto as implicações de um comportamento honesto e viu o quanto isso pode influenciar o ambiente como um todo.

No entanto, o Campeonato Brasileiro tem diversos “Jôs” por rodada. Em praticamente todos os jogos há lances discutíveis em que o rumo tomado pela arbitragem poderia ser alterado por um comportamento mais honesto dos envolvidos. O que aumenta a proporção do que aconteceu em Corinthians x Vasco é a atitude prévia do atacante: quando enalteceu Rodrigo Caio e prometeu alterar o próprio comportamento, o jogador do time do Parque São Jorge criou para si uma pressão com a qual não estava preparado para lidar.

O comportamento de Jô contra o Vasco significa muita coisa, portanto. Engrandece o feito de Rodrigo Caio, coloca em dúvida o discurso que o corintiano adotou há cinco meses (bem como a capacidade que ele tem de admitir um erro) e serve como demonstração prática da pressão que podemos nos impor quando nos posicionamos sobre determinado tema.

No fim, o caso Jô é uma boa metáfora de tudo que tem acontecido no Brasil em outras esferas. Somos um país de pessoas que repelem a corrupção e que se posicionam publicamente contra qualquer malfeito, mas que não perdem oportunidades de tirar vantagem. É uma hipocrisia que serviria para explicar o que tem acontecido em várias outras searas.

E não, ninguém aqui está dizendo que a decisão de Jô é tão relevante quanto a de um político que se vê diante de uma possibilidade de corromper/ser corrompido. A questão é que os dois casos podem oferecer exemplos. O futebol pode ser um mundo à parte, mas o atacante do Corinthians teve uma oportunidade de tomar um caminho que extrapolaria muito os limites do esporte. Era para ser um elemento de esperança, mas virou uma constatação do quanto é difícil quebrar um paradigma.

Por tudo isso, uma das lições mais valiosas que o episódio oferece em termos de comunicação é que assumir compromissos públicos gera cobranças/pressão. Jô tinha obrigação de agir de forma diferente, mas essa obrigação tornou-se ainda maior e mais evidente depois do episódio Rodrigo Caio.

O que nos leva a outra história que repercutiu muito no fim de semana. O uruguaio Cavani bateu (e perdeu) um pênalti em jogo do Paris Saint-Germain, o que deflagrou uma crise de relacionamento com Neymar. Contratação mais cara da história do futebol, o camisa 10 chegou na última janela de transferências e quer ser o batedor oficial da equipe francesa.

Segundo o jornal francês “L’Équipe”, a crise de Neymar e Cavani foi além. Os dois também teriam discutido por uma cobrança de falta no primeiro tempo – o brasileiro assumiu o lance, bateu colocado e parou nas mãos do goleiro.

Toda a situação entre Neymar e Cavani é um problema para os superiores do PSG. Se a questão foi discutida internamente e ainda assim os dois jogadores externaram a discussão, há um caso a ser discutido pelo desrespeito à hierarquia. Se não foi, há um erro de gestão de grupo.

Se o PSG definiu que Cavani é o batedor de faltas e pênaltis e Neymar tentou se intrometer, o brasileiro vai ser punido? Se não definiu, alguém vai se intrometer nessa discussão? A omissão do clube pode criar uma situação insustentável entre os jogadores – se é que já não criou.

E o que isso tem a ver com o lance de Jô? Assim como aconteceu no caso do corintiano, Neymar adotou uma postura que vai jogar pressão sobre ele mesmo. Brigou publicamente para assumir faltas e pênaltis. Ele tem todo direito de querer isso e possui até aproveitamento que justifique o pleito, mas fazer isso dessa forma vai apenas criar um ambiente desfavorável para todos.

O que Jô poderia ensinar para Neymar: que chances de provar maturidade são raras e devem ser aproveitadas, mas que a pressão para reconhecê-las e tomar o caminho adequado é sempre maior quando suas palavras chegam antes de suas ações. O mundo todo poderia aprender com isso.

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O “todo poderoso” futebol

“Milhares bradando hinos a plenos pulmões, bandeiras hasteadas e flamulando ao vento, tambores ritmicamente sendo tocados, rostos (quando não, também corpos) pintados, todos fardados por uniformes de idêntica coloração, uma massa, uma turbe, unida em função de um mesmo propósito…”

Essa poderia facilmente ser a descrição de uma tropa militar ou um exército medieval, marchando em direção ao combate, assim como de jovens estudantes em manifestação contrária a alguma forma de poder dominante e, também, se encaixa facilmente, na descrição de uma torcida organizada que se desloca em direção ao estádio para mais um jogo de seu time…

Seja com o presente, certamente com o passado e muito provavelmente com o futuro, o futebol se confunde e se mistura com a vida, suas mazelas e benignidades. Se, no passado, essa cena descreveria tropas medievais indo para batalha, em defesa de suas terras e ideais, no presente, vimos esta cena quase que todos os finais de semana em estádios de futebol ao redor do mundo.

Porém, em alguns casos, as questões territoriais e/ou ideológicas também se fazem presentes, seja no clássico escocês da cidade de Glasgow, o “OldFirm” entre Rangers e Celtics, onde a questão religiosa está fortemente presente, tendo Celtic sido fundado pelo Padre Walfrid, um sacerdote Católico que buscava ocupar o tempo ocioso dos jovens para não deixá-los à mercê das investidas dos protestantes. Estes por sua vez, vendo a repentina ascensão do time Católico, passaram por adotar o Rangers como sua equipe, dando início a uma rivalidade religiosa que invadiu as quatro linhas. Ou no jogo entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha, em 13 de maio de 1990, que na época ainda pertenciam a antiga Iugoslávia (que posteriormente foi dividida em 6 novos Estados independentes, Kosovo é o 7º, porém não tem sua independência reconhecida por todos os países da ONU) , partida que aconteceu no estádio do Dinamo, o Maksimir, que foi palco de uma verdadeira batalha campal entre os Bad Blue Boys, torcedores do Dinamo, e os Delije, torcedores do Estrela Vermelha, batalha que aconteceu num cenário do futebol, mas que a motivação partiu das questões nacionalistas entre os Croatas do Dinamo e os Sérvios do Estrela Vermelha. Muitos historiados atribuem a este fatídico dia o estopim para a dissolução da Iugoslávia, pouco mais de um ano depois a Croácia declarava sua independência.

Continuamente os times de futebol são usados por seus torcedores como símbolos de suas ideologias. É oportuno também lembrar do Athletic Bilbao que possui restrições para admitir jogadores que não sejam oriundos do País Basco (região que compreende parte do extremo norte espanhol e extremo sudoeste francês).

Mas não é somente de episódios violentos que o futebol extrapola os gramados, por vezes uma partida de futebol foi utilizada como pretexto para cessar fogo de guerras. O Santos de Pelé, em 1969, realizou uma excursão pela África, paralisando guerras no Congo e Nigéria para que as partidas fossem disputadas. O atacante Didier Drogba teve papel fundamental no fim dos conflitos armados que atingiram seu país, a Costa do Marfim, em meados dos anos 2000, o jogador ainda construiu diversos hospitais infantis no país. Todos os anos jogos beneficentes são disputados para angariação de fundos em função de causas humanitárias, tendo como um dos ícones, o “Jogo da Paz” que é organizado pelo Papa e reúne renomados jogadores do futebol mundial.

Não são poucos os exemplos de como o futebol, o jogo de bola com os pés, dá espaço a causas que transcendem seu papel de “simples esporte”, até porque, mesmo que se excluam todos estes fatos históricos, o jogo por si só, permite que se enxergue uma parte daquilo que cada um traz dentro si. Quando na faculdade ouvi o Prof. Dr. Alcides Scaglia dizer que “no jogo as máscaras caem”, uma grande confusão tomou conta de meus pensamentos, de início não consegui compreender plenamente o que tal afirmação significava, até então, minha percepção do jogo era ainda um tanto quanto egoísta, simplista, da perspectiva apenas de um jogador. Mas seguindo os anos da faculdade e, principalmente, no ambiente de estágio onde tive que sair da perspectiva individual de um jogador para a global (e posteriormente sistêmica) de um professor, passei a compreender que enquanto jogam, os jogadores, as pessoas, revelam seu egoísmo e vaidade ao não passar a bola ou não voltar para ajudar na marcação, sua falta de coragem e atitude ao não arriscarem nenhum tipo de jogada que possa representar o mínimo risco a sua equipe, assim como, a liderança daquele que encoraja e coordena os companheiros em campo, a superação e consciência coletiva de um time com menor competência técnica que ultrapassa seus limites individuais através do trabalho em equipe, a honestidade e lealdade de um jogador que admite uma infração, etc. Assim como na vida, o jogo exige muitas tomadas de decisão, que são diretamente influenciadas por nossas crenças, aspirações, caráter, pelo modo como lemos o jogo/entendemos a vida.

O jogo de futebol proporciona situações (principalmente pelo estado de jogo) que obrigam a pessoa a se revelar, a mostrar quem realmente ela é, expõe comportamentos que talvez ela busque esconder ou mascarar em sua vida, mas que durante o jogo, dificilmente o conseguirá fazer. Pode parecer um pouco radical, mas pela experiência de vida e de futebol, uma pessoa que apresenta índole de mau-caratismo no jogo, dificilmente apresentará postura diferente na vida fora de campo (e vice-versa). Não se iluda meu amigo, simular uma falta na pelada ou usar o gatonet, são atos corruptos como desviar dinheiro público. O que claro, ao meu ver, não impede uma reeducação da pessoa. E podemos ver questões como estas também no comportamento das torcidas, seja no pai que busca passar o amor pelo clube ao filho, no baderneiro disfarçado de torcedor ou ainda naquele torcedor que reclama do “futebol moderno” (muito em função da postura ética que muitas vezes este exige também do torcedor), mas louva e deseja acompanhar do estádio uma final de Champions League, que é um dos principais produtos que o futebol moderno pode proporcionar em todos os sentidos.

Não somente o futebol, mas o esporte em si, ilustra e traduz situações do cotidiano de nossas vidas, ou um atleta que se empenha nos treinos para alcançar um índice olímpico tem mais valoroso esforço do que um estudante que se debruça sobre os livros antes de uma prova? Um jogador voluntarioso, que se doa plenamente pelo time, joga com garra, vigor, não pode servir de inspiração para um pai de família que levanta cedo para o trabalho, abdica muitas vezes de desejos pessoais, a fim de trazer o sustento necessário para a família? O jogo, além de proporcionar prazer e regozijo, tem um descomunal poder de transformar realidades, de educar, incitar ou enfraquecer guerras, desigualdades e tantas outras realidades da nossa sociedade. Tudo vai depender da capacidade, interesses e motivações daqueles que fazem uso dele, seja para promoção de benefícios egoístas ou coletivos.

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Este futebol será desporto?

Já há 40 anos, no meu livrinho A Prática e a Educação Física, eu escrevia: “Como não poderia deixar de ser, o desporto, que já de si pressupõe competição e agonismo, foi enredado naturalmente no clima conflituante que é a essência do fluir do tempo em que vivemos. A situação de violência do desporto decorre dum processo de violência em que o mundo todo (…) se encontra envolvido (…).  O desporto é competição? Mas a competição não é encontro, não é intenção e presença de fraternidade: tudo nela é perfeita incubação de ódio e de guerra, de perplexidades e de angústias” (p. 106). Em opúsculo, também da minha autoria, editado em 1999 e que dá pelo nome de Algumas Teses sobre o Desporto, eu tentava esclarecer: “Desde a esquerda à direita, as soluções políticas são as mesmas. E as desigualdades mantêm-se, sem solução à vista. Ora, não se realenta o optimismo dos povos com chavões comicieiros e com sonoras vitórias desportivas.

Demais, o desporto de alta competição (ou de altos rendimentos) é tão classista e excludente como o neoliberalismo que o governa. Num ponto havemos de convir: ao invés do que parece dizer uma insistência verbal exaltadora, mormente de alguns políticos, ele adormece os marginalizados à recusa da sociedade injusta estabelecida” (p. 128). E, neste mesmo livrinho, eu deixava uma proposta aos desportistas: “O desporto é, na realidade, um meio de catársis. Por ele, deves purgar-te do homem que foste antes do que és, isto é, do primarismo e do selvagismo que ainda te habita. O desporto de alta competição é uma aliança do maravilhoso e do dramático, onde os mitos e os deuses pululam e se afirmam.

Mas os mitos e os deuses, no seu eterno presente (M. Eliade) estão aí com um flagrante primitivismo, embora a exemplaridade de muitos deles, embora o sentido e a religiosidade que lhes é inerente. Assim, não confundas combatividade com agressividade, não faças do árbitro o réu dos inêxitos do teu clube; aprende a ritualizar, humanizando o drama e a festa, típicos da alta competição. No desporto, ninguém joga contra ninguém, porque se joga com todos (pp. 38/39).

Que o desporto progrediu, tecnológica e tecnocientificamente, é indubitável. Com os meus 84 anos de uma vida, próxima de atletas e de treinadores desportivos, principalmente de treinadores de futebol, tendo feito mesmo amizade com alguns deles; com o estudo e a investigação, no âmbito da filosofia e da epistemologia do desporto, em que fui, com as minhas inúmeras limitações, um dos pioneiros, no nosso País – julgo poder adiantar, sem receio, que o progresso do desporto português é evidente. Só que o progresso científico, quando o invocamos, nem sempre o referimos ao desenvolvimento humano que dele resulta, mas antes ao progresso da ciência como progresso do conhecimento. E, aí ficamos!

Por outro lado, o nascimento da educação física e do desporto é, digamos assim: o prolongamento, neste âmbito, da ciência clássica e da visão cartesiana de corpo. A educação física nasce no século XVIII e o desporto no dealbar do século XIX. Informa-os, por isso, o dualismo antropológico racionalista, a quantificação da natureza (Galileu) e o determinismo e a inexistência do acaso, que ninguém então punha em dúvida. Aliás, em 1887, o diretor do gabinete de patentes de Nova Iorque demitiu-se, alegando nada mais haver para inventar. A ciência, segundo ele, atingira o fim da sua história. Cito, agora, um trecho de O Princepezinho, de Antoine de Saint-Exupéry: “As pessoas grandes gostam de números. Quando vocês lhes falam de um amigo novo, as suas perguntas nunca vão ao essencial. Nunca vos perguntam: “Como é a voz dele? De que brincadeiras é que ele gosta mais? Ele faz coleção de borboletas?”. Mas perguntam-vos: “Que idade é que ele tem? Quantos irmãos têm? Quanto é que ele pesa? Quanto ganha o pai dele?”. É só com números que eles julgam que ficarão a conhecê-lo”.

Mas um conhecimento, só com números, esquece esta realidade insofismável: sempre que se encontra um ser humano, encontram-se também a crença e inúmeras manifestações do sagrado. O ser humano precisa do agasalho e do apoio doutros valores, para além dos científicos, para que a vida passe a ter o mínimo de sentido, para que a vida mereça, finalmente, ser vivida. É conhecida a frase de Rabelais: “ciência, sem consciência, é a ruína da alma”. A ciência, por si só, não pode dizer-nos o que é justo, ou o que é falso, ou o que é belo. E, assim, o ser humano se deixa aprisionar pelos múltiplos circuitos pulsionais do prazer e da vaidade e do poder e do consumo e da vingança e da inveja. Não poderei esquecer jamais o extraordinário livro de George Steiner, Nostalgia for the Absolute, que li em tradução castelhana das Ediciones Siruela, onde este crítico literário e filósofo nos revela o vazio deixado, no homem hodierno, pelas religiões tradicionais, substituídas por inúmeras “ideologias de reposição”, onde cabem perfeitamente um clubismo faccioso e o populismo de certos dirigentes desportivos.

Atento à exclamação de Ivan Karamazov, “Se Deus não existe, tudo é permitido”, Nietzsche aconselhou os homens sem Deus a um comportamento “para além do bem e do mal” e, portanto a sentarem-se no trono que outrora pertencia a Deus Uno e Trino. No nosso futebol, a atitude permanentemente amuada e puerilmente orgulhosa de alguns dirigentes, o gáudio interesseiro doutras pessoas que os servem e o púlpito de baboseiras em que se transformou certa comunicação social – de tudo isto se infere que também essas pessoas se julgam “para além do bem e do mal” e que, portanto, esperar delas uma esmerada correcção, um pouco de equilíbrio e discernimento é pedir-lhes o que não sabem ou o que não podem dar…

Tony Judt, um historiador notável e um indómito intelectual, diz-nos, no seu Pensar o século XX (Edições 70, Lisboa, 2012) que Hannah Arendt tem razão quando sublinha que “o significado do Holocausto não está provincianamente confinado às vítimas judías e aos criminosos alemães, pois que só pode ser compreendido em termos universais e éticos (…). Isso leva à questão da despreocupação relativa de Sartre com a responsabilidade francesa, no Holocausto” (p. 53). E lá volto eu a Hegel: “A Verdade é o Todo”. E o Todo deste vendaval de paixões, desta atmosfera malsã, que sacodem o nosso futebol, não se resume a alguns dirigentes e jornalistas e comentaristas, ainda que pareçam estes os principais responsáveis, porque nele encontramos muita outra gente que parece não ser talhada também para uma convivência salutar. Se as audiências crescem, quando um jorro de suspeitas e de ressentimentos desaba sobre os “écrans” da televisão, não vale a pena andarmos a atirar as culpas uns para cima dos outros. As razões dos acontecimentos são bem mais fundas do que as culpas deste ou daquele cidadão.

Os panegiristas devotos de um clubismo cego, os trampolineiros disfarçados de quixotes ou de catões são, unicamente, os que melhor corporizam a cultura desportiva que distingue muitos, muitíssimos portugueses! Converter o desporto num espaço indispensável à formação, mormente dos mais jovens, nos valores da solidariedade, da justiça, da coragem, da disciplina, da coopetição (ou seja, de uma competição que seja também cooperação com os nossos colegas de equipa e com os nossos adversários), do respeito pelos outros e por nós próprios, da transcendência simultaneamente física, intelectual e moral; integrar uma disciplina de ética, nas licenciaturas em desporto e nos cursos de treinadores desportivos; potenciar, na escola e nos clubes e nas famílias, um desporto que seja, sempre e em todas as circunstâncias, jogo, humor, festa, solidariedade (designadamente com os nossos adversários) e coopetição – nada disto, que radica no que de mais autêntico o Desporto é e tem, se confunde com o espetáculo da mediocridade, da parva demagogia de certos “agentes do futebol”. Por isso, pergunto eu: será Desporto o futebol mais publicitado e propagandeado?

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Ataxia tática: falta de coordenação por falta/falha de comunicação

Para que haja interação, é necessário comunicação. Não propriamente dita uma comunicação verbal, mas, também, uma comunicação corporal e situacional. Na qual o coletivo (vários jogadores) identifica uma situação e já sabe qual providência tomar. Não em pensar as mesmas coisas ao mesmo tempo, mas sim, pensar sobre um mesmo referencial ao mesmo tempo. A partir disso, cada jogador executa a ação conforme bem entender (ou bem souber), porém tendo em vista as mesmas orientações para alcançar o objetivo (coletivo/individual) que se pretende na partida e/ou na competição. Trago para exemplificar uma pequena edição que fiz do Leipzig (2˚ colocado do Campeonato Alemão de 2016/17):

Ataxia é uma doença da desordem de movimento. Perda da coordenação física que conduzem à dificuldade no movimento. Dificuldade na sinergia muscular, interação intra e inter-muscular. Os músculos são fortes e suficientemente sadios, mas incapazes de organizar suas ações. Denominada uma doença de “feedback”. Falta ou falha de comunicação entre órgãos sensoriais, estruturais e mecânicos. Um exemplo seria a doença de Parkinson, tremores e não controle de alguns movimentos. O resultado do movimento é uma combinação consequente de todas as comunicações musculares juntas. No qual um único feedback não estabiliza um sistema tão complexo, necessita o amparo de outros feedbacks.

Para que a interação dos jogadores e suas execuções (pensar e agir) seja organizada, é necessário um constante e controlado “programa” de feedbacks sobre essas comunicações e ações. Podendo causar, sem isso, uma “Ataxia” Tática, uma descoordenação dos movimentos individuais contrariando/dificultando a movimentação do coletivo para o alcance do objetivo na partida. A equipe, como “Organização Complexa”, necessita uma permanente avaliação do desempenho individual/coletivo. Tendo em vista um referencial individual/coletivo para aquilo que se pretende fazer no jogo, como também, resolver os problemas do Jogo. Jogo com “J” maiúsculo, pois, cada jogo é um Jogo específico. No qual, como falei (em algum texto atrás), esses problemas poderão ser diversos e diferentes a cada partida.

Vemos assim que, para uma ação efetiva sobre os problemas da equipe e do jogo, não é apenas essencial que tenhamos bons jogadores mas que o desempenho destes sejam devidamente retro-monitorado pelo controle/comando coletivo (treinador). E que esse comando técnico/tático tenha uma leitura apropriada desses problemas e coerentes com a informação passada (sendo ela prévia e/ou após as partidas). Só assim, se produzirá um comportamento individual e coletivo devidamente proporcional para com os problemas da equipe e do jogo.

E, cabe ao treinador liderar o processo de interação entre os jogadores dentro de uma organização complexa. Uma organização que se pretende, que se sabe (pelo menos se espera que o treinador saiba) exatamente qual é. E deve existir de forma clara e objetiva, para que todos possam entender o que se pretende. Havendo, assim, comunicação e interação entre todas as partes envolvidas. Habituando todas essas partes envolvidas a uma determinada interação (o ideal seria de forma deliberada, porém, o contexto não favorece a isso) e colocando uma boa “pitada” de tempo, poderemos ver equipes mais organizadas e com a dita “identidade” de jogo. Na intenção de pensar melhor sobre isso, seria interessante analisar o video abaixo:

Quando a equipe está “devidamente” ou “minimamente” organizada as coisas boas aparecem mais vezes do que quando a equipe não está “organizada” a certo nível. Isso não descarta o aparecimento de oscilação na equipe. Outra diferença bastante significativa entre uma equipe “organizada” e outra não “organizada”, é que no primeiro caso a amplitude de oscilação da equipe independe (quase que inteiramente) do grau de problema enfrentado no jogo; enquanto, no último, a magnitude e a variabilidade de oscilações é maior e mais diversa devido a falta/falha de orientações e comando inicial, principalmente do “o que fazer quando…”.

A teoria da cibernética (ciência que estuda o controle e comunicação no animal e na máquina) fala muito em controle por feedback informativo. Constantemente alimentar a equipe e o atleta com feedbacks que sejam possíveis de proporcionar estabilidade a todos os tipos de problemas enfrentados durante o jogo. Contudo, esse fornecimento de feedback é um processo que se constrói e que tem efeito retardado, ou seja, somente após muitos treinos, e não treino, vê-se o resultado. Algo erguido com o tempo.

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Sobre Cueva, Rodrigo Caio e a comunicação na crise

Penúltimo colocado, o São Paulo já bateu nesta temporada o recorde de rodadas na zona de rebaixamento em Campeonatos Brasileiros disputados no sistema de pontos corridos. Foram apenas 24 pontos somados em 23 rodadas, com seis vitórias, seis empates e 11 derrotas, além da segunda defesa mais vazada do certame nacional (35 gols sofridos). A crise é profunda, permeia diversos setores do clube e oferece cada vez menos perspectiva de recuperação em curto prazo. Mas se é difícil melhorar a situação, dois jogadores mostraram no último fim de semana que erros no processo de comunicação podem aumentar – e muito – o buraco em que o clube se enfiou.

A celeuma começou, na verdade, na quinta-feira (07). Zagueiro revelado pelo clube, Rodrigo Caio deu entrevista coletiva e foi questionado sobre a queda de desempenho do meia peruano Cueva, dono da camisa 10. Respondeu com elogios ao companheiro, ressaltou sua capacidade técnica, mas lembrou que o futebol moderno não admite times que tenham jogadores menos participativos. Encerrou a tese com a frase que marcou a conversa com jornalistas: “Ele precisa se ajudar”.

No sábado (09), Cueva foi reserva do São Paulo que empatou por 2 a 2 com a Ponte Preta no Morumbi e perdeu uma chance de deixar momentaneamente a zona de descenso. Entrou no segundo tempo e participou pouco do duelo, mas foi interpelado por jornalistas assim que passou pela zona mista do estádio. Cenho fechado, respondeu apenas um “fala com o Rodrigo Caio”.

Discutir quem tem razão é uma boa dose de oportunismo, ainda que a crítica de Rodrigo Caio coubesse mais em um ambiente fechado. Entre um e outro, o melhor comentário partiu do meio-campista Hernanes, autor de sete gols em sete jogos desde que voltou ao São Paulo. O jogador tem sido a grande referência técnica da equipe nesta temporada, mas também se destaca pelo comportamento. Questionado sobre a crise de relacionamento, tentou colocar panos quentes: “Um bateu, outro apanhou: é um empate”.

Desentendimentos e diferenças de perspectiva entre atletas são comuns, assim como acontece em qualquer ambiente profissional. Qualquer um que já tenha vivenciado o dia a dia de uma empresa, independentemente da proporção do negócio, tem histórias a contar sobre pessoas que não se davam bem ou erros internos de avaliação.

Há dois aspectos a serem considerados na discussão Cueva/Rodrigo Caio, portanto: 1) como a sociedade se sente confortável para exigir de jogadores de futebol um comportamento que não consegue impor nem para si e 2) como os jogadores do São Paulo, a despeito de conviverem há anos com essa patrulha, agiram de uma forma que contribuiu sobremaneira para a pressão externa. Graças às frases de um e de outro, criou-se no clube uma agenda sobre o comportamento do elenco. A situação chegou a ponto de dirigentes terem comparecido ao treino de segunda-feira (11) a fim de discutir com atletas o que tem acontecido com o ambiente tricolor.

O principal legado da discussão entre Rodrigo Caio e Cueva, portanto, é que o São Paulo passou a conviver com pressões externas para que a roupa suja fosse lavada. Isso expôs uma cobrança irreal que existe sobre jogadores de futebol e também mostrou como um simples problema de comunicação pode colocar todo um trabalho em direção errada.

É nesse sentido que a discussão sobre o que aconteceu no São Paulo remete a um episódio protagonizado por jornalistas do canal fechado Sportv. Tudo começou quando Tim Vickery, britânico que é comentarista habitual da emissora, criticou a relação de profissionais de imprensa no país com jogadores de futebol. Segundo ele, existe um fator social que fomenta alguma dose de desrespeito da mídia com os atletas, algo que não existia na Premier League até bem pouco tempo e que tem começado a surgir também por lá.

Quando formulou o raciocínio, Vickery usou um bordão do narrador Daniel Pereira, que costuma dizer algo como “presta atenção no serviço”, como exemplo de profissional de imprensa que se sente habilitado a cobrar publicamente o jogador de futebol. O locutor respondeu na rede social Twitter, disse que não passa de uma brincadeira e lembrou que também usa a expressão quando comete erros. Luiz Ademar, comentarista que também trabalha na casa, respondeu a essa postagem lamentando o tom usado por Vickery e as críticas recorrentes que ele faz, na visão do companheiro, sobre o conteúdo produzido pelo canal.

Existe uma patrulha exacerbada sobre comportamento de atletas e o ambiente que se cria em cada time, evidentemente. Existe uma falta de critério em análises comportamentais, com exigências que muitas vezes não são compatíveis com outros segmentos. A natureza dessa diferença pode ser algum tipo de preconceito, mas também é possível que contenha enorme dificuldade para assimilar algo além do lugar comum.

O São Paulo precisa de ajuda, mas essa ajuda não precisa ser necessariamente voltada a dirimir problemas entre os atletas. Em vez de discutir se os funcionários se gostam ou o que um diz sobre o outro publicamente, o clube deveria se preocupar com problemas como a montagem do elenco, a diretoria perdida, as comissões técnicas que pouco acrescentam e a possibilidade cada vez mais real de queda à Série B do Campeonato Brasileiro. Diante de um cenário de tantos problemas, preocupar-se com o que acontece entre duas peças da engrenagem é bem menor do que entender por que essas mesmas peças têm rendido aquém do esperado. A análise sobre o caso também poderia ser bem mais prolífica se considerasse esses aspectos.

Você pode dar razão a Rodrigo Caio, a Cueva ou a ambos, mas uma coisa é indiscutível: o São Paulo perde com essa história, e não porque dois de seus jogadores têm uma rusga. Ah, tem outra coisa indiscutível: não é apenas o clube que perde quando a imprensa se sente no direito de patrulhar. Há erros de comunicação de todos os lados, mas a discussão mais relevante do episódio é o quanto podemos ser bedéis de nós mesmos.

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O “fair-play” financeiro e a competitividade no futebol

Diante dos gastos exorbitantes de alguns clubes europeus neste início de temporada no hemisfério norte, combinados aos diversos interesses políticos e econômicos envolvidos em todas essas transações, a federação de futebol daquele continente (UEFA) resolveu intervir e instituiu o “fair-play financeiro” para os clubes sob sua esfera, que tem como princípios: não permitir o calote; o controle de gastos e incentivar o investimento sustentável dentro deles. Objetivos desta iniciativa: controlar e melhorar a saúde financeira das equipes.

Entretanto não é apenas isso. Os principais trabalhos conduzidos por uma entidade de administração do esporte (federação) são: proteger e difundir a modalidade. Dentro da proteção, enxergamos o “fair-play financeiro” citado acima, uma vez que os grandes gastos na contratação de alguns atletas por determinados clubes, fere um fator muito importante dentro do futebol: a competitividade. Isso significa em proporcionar equivalentes condições de competitividade entre as equipes, a fim de proporcionar equilíbrio. Quanto mais imprevisível for o resultado, mais atrativo ao público é o jogo. Nessa linha de pensamento, é por isso que os “clássicos” atraem mais torcida. Além da história e palmarés das equipes, o placar de um clássico é uma incógnita.

Há cerca de duas décadas, quando ainda não existiam os grandes volumes de dinheiro do mundo árabe, dos chineses, dos empresários do sudeste asiático, dos grandes conglomerados norte-americanos e dos magnatas do leste europeu, percebia-se mais equilíbrio em ligas europeias, sobretudo na alemã. O Kaiserslautern no fim dos anos 1990 fora promovido da segunda para a primeira divisão e de cara conquistou a competição. Já não se vê mais isso. Conta-se nos dedos de apenas uma mão qual clube pode ser o campeão ao final de uma temporada: na Alemanha, na Inglaterra, na Itália, na França e na Espanha (nem se fala!), por exemplo.

Kaiserslautern campeão alemão. Foto: Divulgação
Kaiserslautern campeão alemão. Foto: Divulgação

 

O futebol sul-americano e especificamente o brasileiro estão distantes deste investimento estrangeiro – que em um primeiro momento pode encantar muitos torcedores. Entretanto é preciso aplicar bons princípios de gestão do esporte a fim de tornar a modalidade sustentável e melhorar a saúde financeira das equipes. Bom, mas atenta-se neste texto a um aspecto positivo no futebol de clubes do Brasil: o fator equilíbrio. Basta vermos os campeões nacionais na última década e os classificados para os torneios continentais. Na vizinha Argentina, percebe-se o mesmo. Vai sempre haver um clube que tem mais investimentos, outros nem tanto, mas essa diferença é pequena perto dos clubes da primeira liga da França, em que uns poucos têm muito, e outros muitos têm bem pouco. Consequência disso? Desequilíbrio. Bom para o futebol? Não!

Com tudo isso, o trabalho para a igualdade de condições entre as equipes é fundamental para a competitividade de um torneio, que é um dos fatores que vai manter o interesse do público. Caso contrário, com o tempo os placares serão previsíveis, os estádios se esvaziarão e a audiência da TV, vai cair. Como foi dito, o Brasil está longe dessa realidade europeia. O “fair-play” a ser aplicado por estes lados é a boa gestão, em respeito ao atleta profissional e ao torcedor.

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Primeira Liga: Um ‘case’ de fracasso

Vamos inverter de propósito os termos da nossa análise, já apontando para a conclusão de que a Primeira Liga nasceu sob a égide do pecado original, que ‘transgenizou’ uma Copa de Nordeste que tinha um bom apelo de público e legitimidade histórica, e que era tida como um case de sucesso, mas que não se prestava para ser plagiada ipsis litteris.

À época da criação da Primeira Liga, já advertíamos que a Copa do Nordeste já enfrentava problemas, que a média de público declinava, e que mesmo as médias anteriores eram respaldadas e infladas por jogos finais com boa presença de público. Porém, também tínhamos jogos esvaziados, face às ausências de algumas das mais tradicionais equipes nordestinas, e que alguns clubes já começavam a reclamar das baixas cotas.

Como se não bastasse, o restabelecimento do critério geográfico, com as inclusões dos estados do Piauí e do Maranhão, em nada contribuiu para a manutenção da média de público. Ao contrário, fizeram-no decair.

Diante dessa realidade que os criadores da Primeira Liga pareciam desconhecer, eis que surge uma competição sem o devido planejamento, sem um estudo de viabilidade de público, sem uma conexão sistêmica com um calendário que já se mostrava de difícil execução e de pouco atrativo para um público cada vez mais globalizado e exigente.

Ademais, as competições não devem ser pensadas a partir de um viés predominante político. A motivação deve ser mais diversificada e os ideais que a orientam devem basear-se em racionalidade e alguma inovação.

Também creio que deve haver coerência no eixo geográfico que a inspire, a fim de que sua logística se opere com menos dificuldade e que sua rivalidade se legitime com mais facilidade.

As bases geográficas da Primeira Liga não foram trabalhadas nem do ponto de vista histórico nem suficientemente do prisma político. Ela já nasceu deficiente, amputada, enfraquecida e está para morrer por inanição. É mais uma competição que só se presta para mostrar a fragilidade de uma gestão compartilhada pelos clubes, evidenciando ainda os porquês da CBF ainda controlar sem oposição séria e consistente o futebol brasileiro.

A nosso juízo, a Primeira Liga tem conseguido frustrar rotundamente a já malfadada experiência do Clube dos Treze, que indubitavelmente foi bem ‘menos pior’ que essa experiência e do que o ‘Kalilismo’.

Sem livres pensadores e sem executivos independentes, dificilmente teremos algo verdadeiramente novo e inovador em nosso futebol.

Aliás, continuamos a ser um futebol em que os gestores não sabem primeiro dividir para depois multiplicar. Tanto que a Primeira Liga cometeu o velho equívoco de continuar dando aos ricos de modo a os deixar mais ricos.

Benê LimaCronista Esportivo, Rosacruz, Humanista, Membro do Conselho do Desporto do Estado do Ceará.

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Primeira Liga: Um 'case' de fracasso

Vamos inverter de propósito os termos da nossa análise, já apontando para a conclusão de que a Primeira Liga nasceu sob a égide do pecado original, que ‘transgenizou’ uma Copa de Nordeste que tinha um bom apelo de público e legitimidade histórica, e que era tida como um case de sucesso, mas que não se prestava para ser plagiada ipsis litteris.

À época da criação da Primeira Liga, já advertíamos que a Copa do Nordeste já enfrentava problemas, que a média de público declinava, e que mesmo as médias anteriores eram respaldadas e infladas por jogos finais com boa presença de público. Porém, também tínhamos jogos esvaziados, face às ausências de algumas das mais tradicionais equipes nordestinas, e que alguns clubes já começavam a reclamar das baixas cotas.

Como se não bastasse, o restabelecimento do critério geográfico, com as inclusões dos estados do Piauí e do Maranhão, em nada contribuiu para a manutenção da média de público. Ao contrário, fizeram-no decair.

Diante dessa realidade que os criadores da Primeira Liga pareciam desconhecer, eis que surge uma competição sem o devido planejamento, sem um estudo de viabilidade de público, sem uma conexão sistêmica com um calendário que já se mostrava de difícil execução e de pouco atrativo para um público cada vez mais globalizado e exigente.

Ademais, as competições não devem ser pensadas a partir de um viés predominante político. A motivação deve ser mais diversificada e os ideais que a orientam devem basear-se em racionalidade e alguma inovação.

Também creio que deve haver coerência no eixo geográfico que a inspire, a fim de que sua logística se opere com menos dificuldade e que sua rivalidade se legitime com mais facilidade.

As bases geográficas da Primeira Liga não foram trabalhadas nem do ponto de vista histórico nem suficientemente do prisma político. Ela já nasceu deficiente, amputada, enfraquecida e está para morrer por inanição. É mais uma competição que só se presta para mostrar a fragilidade de uma gestão compartilhada pelos clubes, evidenciando ainda os porquês da CBF ainda controlar sem oposição séria e consistente o futebol brasileiro.

A nosso juízo, a Primeira Liga tem conseguido frustrar rotundamente a já malfadada experiência do Clube dos Treze, que indubitavelmente foi bem ‘menos pior’ que essa experiência e do que o ‘Kalilismo’.

Sem livres pensadores e sem executivos independentes, dificilmente teremos algo verdadeiramente novo e inovador em nosso futebol.

Aliás, continuamos a ser um futebol em que os gestores não sabem primeiro dividir para depois multiplicar. Tanto que a Primeira Liga cometeu o velho equívoco de continuar dando aos ricos de modo a os deixar mais ricos.

Benê LimaCronista Esportivo, Rosacruz, Humanista, Membro do Conselho do Desporto do Estado do Ceará.

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Justiça pode vetar estádio novo do Atlético-MG?

A torcida do Atlético-MG está na expectativa da reunião do conselho do clube que decidirá pela construção do estádio em operação que envolveria a venda de 50,1% do shopping Diamond Mall. Como todo debate e toda reunião importante, existem opiniões diversas.

Um dos conselheiros contrários à operação que pode culminar na construção do estádio do clube alvinegro, Edison Simão, propôs Ação contra o Atlético com pedido de tutela antecipada satisfativa em caráter antecedente para suspender a reunião e decretar a nulidade do edital de convocação.

A referida ação possui, principalmente, os seguintes fundamentos:

                 a). o regimento do Atlético limita o tempo da reunião a 3 horas (o edital prevê duração de 08h30min às 21h);

                 b). o regimento determina que o edital deverá mencionar com clareza a data, o horário e o lugar onde se realizará a reunião e indicará, com precisão, a pauta.

A ação foi distribuída por sorteio para a 1ª Vara Cível de Belo Horizonte que no despacho inicial não analisou o mérito do pedido, mas, determinou que se alterasse a petição inicial para que o valor da causa seja o valor do edital.

Importante esclarecer que, segundo a legislação, toda ação judicial tem que ter um valor de causa. Este valor será indicado pelo advogado (“conferido” pelo juiz ou pela parte contrária) e deverá obedecer o conteúdo patrimonial em discussão ou o proveito econômico perseguido.

Este valor da causa indicará as taxas a serem pagas para ingressar com a ação e o valor a ser pago a título de sucumbência em caso de derrota.

No caso em questão, o autor conferiu à causa o valor de R$ 1.000,00 e pagou R$ 215,90 de custas. Caso perca a ação, a sucumbência giraria em torno de 20% de R$ 1.000,00.

Com a determinação do Juiz da 1ª Vara Cível de Belo Horizonte, a causa deverá ter o valor do edital, ou seja, 250 milhões de reais. Consequentemente, as custas iniciais passarão a ser de R$ 11.591,24 e, caso perca a ação, o autor poderá ser condenado a pagar aos advogados do Atlético, o valor de 50 milhões de reais.

Diante dessa nova realidade, do dispêndio financeiro e dos riscos envolvidos, talvez o conselheiro desista da demanda.

Havendo a adequação do valor da causa e o pagamento da diferença das custas de mais ou menos onze mil reais, o juiz analisará o pedido de tutela antecedente, comumente conhecido como liminar.

Ainda assim, o pleito do conselheiro, salvo melhor juízo, tende a não obter sucesso.

Inicialmente, imprescindível destacar que inexiste qualquer urgência e/ou risco que justifique o cancelamento da reunião, uma vez que a operação não ocorrerá durante a reunião. Ou seja, ainda que haja irregularidade, basta anular a deliberação e impedir a venda do shopping.

No que diz respeito ao tempo de duração da reunião, além de se tratar de prática habitual no clube (usos e costumes são fonte do direito), a dilação do período de duração parece ter se dado justamente para que os conselheiros tenham todo o dia para analisar o projeto que está à disposição deles na sede do clube.

Aliás, a clareza da pauta está na disponibilidade do projeto desde 21 de agosto. Ou seja, há tempo hábil para se inteirar sobre o tema e, ainda, todo o dia da reunião para debatê-lo.

Por fim, imprescindível destacar que há um aparente conflito entre o período de 3 horas previsto no regimento e a exigência de amplos debates e análise previstos no mesmo texto normativo. Aparente porque o conflito é sanável no caso concreto e, por óbvio, diante da importância e da magnitude do projeto, sempre deve-se primar pelo debate e pelo conhecimento.

Assim, a reunião tende a ocorrer normalmente e a decisão sobre o futuro do shopping e do estádio do Atlético estará no voto de seus conselheiros.

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Dar importância ao que é importante (ou pelo menos deveria ser)

Talvez seja perceptível, através da leitura dos textos que produzo, o meu modo de pensar futebol e até mesmo a minha afinidade metodológica. Mas antes de tudo defendo um futebol pensado como um “todo”. Algo “minimamente complexo”. Um jogo que mescla, “divinamente”, a Arte com a Ciência. Arte no sentido de ver o que é “bonito”, a tal criatividade, admirada na “mágica beleza” da resolução dos problemas que o jogo te oferece (individual e coletivamente).

Por outro lado, a defesa que faço da minha forma de pensar não obriga, de forma alguma, a afinidade (completa ou não) por aqueles que leem. A cada um se reserva sua crença, e é necessário a discórdia para que haja discussão e, assim, desenvolvimento do pensamento e, posteriormente, aprimoramento da prática, do dia a dia. Isto, na verdade, é o que mais interessa, fazer e não somente falar. Aliás, para chegarmos em resultados diferentes, precisamos pensar e agir de forma diferente. Precisamos mudar nosso comportamento para obter resultados diferentes. Se por ventura fizermos as mesmas coisas, não podemos esperar resultados diferentes (Albert Einstein). E muito disso passa pelo treino.

Entre os jogos existe(m) o(s) treino(s). E, inevitavelmente, há uma quantidade maior de treinos do que jogos. Uma porcentagem bem maior que fundamenta a importância crucial de se estruturar e arquitetar (periodizar) as sessões de treinamento. Precisamos nos importar mais e melhor com o período de treinos. Saber organizar o tempo que se tem para construir uma forma de jogar. Por isso, pode ser considerado, um processo de ensino-aprendizagem, tanto individual como coletivo, da maneira como se pretende jogar. Este processo de ensino-treino tem como objetivo aperfeiçoar as diferentes capacidades e competências dos atletas e da equipe. Porém, ainda algumas práticas vêm limitando e coibindo o desenvolvimento individual e coletivo.

Um treino analítico, por exemplo, é configurado em uma dinâmica onde dificilmente os jogadores podem expressar as suas aptidões criativas, através do gesto técnico ou da ação em movimento. O que infelizmente reflete em uma característica constantemente observada no nosso futebol, uma inoperância da criatividade decisional nas soluções de algumas dificuldades que o jogo apresenta.

Aprender futebol a base de repetições debilita as possibilidades criativas dos jogadores. Este tipo de treino onde se propõe, ou impõe o mesmo, um treino analítico. Onde se observam tarefas fechadas e práticas físicas dirigidas todas elas a um único aspecto (geralmente físico ou técnico). Deste processo resultam jogadores que passam anos se exercitando, onde a sua técnica melhora, mas eles não jogam (individual e coletivamente) necessariamente melhor (o que podemos observar atualmente). Isto porque as tarefas que estimulam a repetição mecanizada e “cega” das ações são nefastas para o desenvolvimento dos jogadores, hipotecando a sua inteligência, criatividade e adaptabilidade. Treinamos jogadores para executarem melhor. E para pensarem melhor o jogo? E para resolver melhor os problemas do jogo (como ter a posse de bola, por exemplo)? Quando iremos nos importar com o pensar? Quando iremos treinar mais o cognitivo?

Treinar os jogadores para fazer o que deve ser feito em determinada situação do jogo. Nas mais variadas e distintas situações do jogo, termos no mínimo 7/8 atletas pensando sobre o mesmo referencial coletivo. Não fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo, mas sim, pensar sobre o mesmo referencial ao mesmo tempo. O principio é começo e não o fim, o ponto de partida. Caso contrário, o desempenho da equipe e o atleta ficam a mercê apenas da vontade e motivação. Só não podemos cair no erro de esquecer que esta “vontade” e “motivação” é para fazer algo. Algo específico. Motivação: motivo + ação. Objetivo da ação. Qual o propósito do seu desempenho?