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Eco de samba

Um eco de cuíca com samba de surdo lento declamando a melancolia, e o cavaco chorando, ai que agonia!

Futebol cadenciado de surdo e de samba lento,
e um futebol do Barcelona de batida sofisticada, instigante de puro movimento.

Esse futebol de constante movimento, rebuscado, é também obra de arte.
pura poesia da coletividade;

O Barcelona joga bem com semântica, pura sinergia,
letras vivas mudando sempre de posição no papel-campo-poesia.

Joga bem com poesia concreta, letras vivas em movimento,
no campo-papel-tempo;

O Barcelona é escalado de acordo com a semântica,
numa preleção de Física Quântica.

Deita e rola… com ela no pé Messi parece até que
passou cola;
Messi realmente é um grande boleiro, mas a cereja do bolo dessa festa
é o pequeno e grande Iniesta.

Pura estética vai fazendo do campo-espaço- plano a sua tela
e com pinceladas suaves vai pintando sua aquarela;
só não sei como sairia sua pintura aqui no Brasil num espaço-campo- várzea, pois o piso- tela-campo aqui nem sempre é plano.

Como em duas rodas o Barcelona deita e rola, brincando de bobinho
vai deixando o adversário maluquinho;
Uma roda grande e aberta que se fecha,
outra roda pequena e fechada que se abre.

Na pequena roda o passe é curto, envolvimento fino e absoluto, enquanto que na grande roda a abertura se dá como o desabrochar de uma rosa;

Bobinho botão de rosa…
que quando quer ir ao gol amadurece e desabrocha,
Bobinho botão de rosa…
que quando o gol fica difícil murcha e se encolhe de volta;

Messi rumo aos espaços parece até que portas abre,
Mas é o time mesmo que quando o jogo se tranca
gira pacientemente no miolo a sua Xavi;

Numa tela,
semântica
Numa música,
Física Quântica
Numa rosa,
uma chave
Numa porta,
que se abre,

de partes que viram todo…
e do todo de novo em partes…
que no Barcelona é declamada com a mistura das infinitas artes,
e com o gol-Todo mostrando que é maior que a soma dessas artes.

[…]

Porém, esse ritmo arrojado e sofisticado
aqui no Brasil também é encontrado,
ouvir o músico MC Criolo nesses tempos de
futebol de surdo e de samba lento, é um acalento;
ele tem rap de batida sofisticada e
também samba de puro movimento!

*Marcos Marques dos Santos Júnior é formado em Educação Física pela Unicid e é integrante do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol). O texto foi publicado originalmente no site Ludopédio

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Só preconceito, não. Discriminação, pelo menos! Por que não se discute o racismo no futebol brasileiro?

A cada caso de racismo no futebol brasileiro, aparece sempre um advogado para dar a sentença final, dizendo que o ato praticado por algum jogador não se configura crime de racismo, de acordo com a legislação brasileira. No caso ocorrido há poucas semanas e que envolveu os jogadores do Cruzeiro, Elicarlos, e do Grêmio, Maxi López, isto ocorreu mais uma vez.

Rodrigo Barros Oliveira, em texto publicado no blog do jornalista Juca Kfouri, argumenta que:

“O crime cometido pelo jogador argentino, caso a alegação do jogador Elicarlos se confirme verdadeira, não é crime de racismo. A conduta praticada pelo atacante Maxi Lopes configura sim crime de injúria qualificada, previsto no Código Penal. O atleta ofendeu a dignidade do outro e de maneira alguma tal prática configura o crime de racismo. Os crimes de racismo, previstos na Lei 7.716/89, são condutas muito diversas da praticada pelo jogador argentino. Racismo é dar tratamento diverso a alguém em função de sua raça, cor, etnia, ou nacionalidade, em situações em que estes devam ser tratados igualmente aos outros“. (OLIVEIRA, 2009, grifos do autor).

Ao ler este tipo de argumentação, sempre fico com a impressão de que se minimiza o ato hostil praticado, a sua importância na sociedade e, neste caso, no futebol brasileiro, e a discussão pública em torno dele. Além disso, o eixo do debate é deslocado das práticas sociais e culturais – o que é pra mim a parte fundamental da discussão – para a terminologia jurídica mais apropriada. A despeito do que a nossa legislação entende por racismo, ou seja, qual ato pode ou não ser caracterizado como crime de racismo, o jogador Elicarlos fez um uso popular de tal conceito, qualificando de racismo a atitude ou o comportamento agressivo por parte de Maxi López pelo fato de o volante cruzeirense ser negro.

Se bem entendi as aulas que assisti e os textos que li do renomado antropólogo Kabengele Munanga, professor da FFLCH-USP, podemos distinguir os termos preconceito, discriminação e racismo da seguinte maneira. Preconceito é uma disposição afetiva imaginária, ligada aos estereótipos étnicos. Inconscientemente, a pessoa preconceituosa valoriza as diferenças entre o que se entende por “raças humanas”, as quais são baseadas principalmente pela cor da pele. Assim, esta pessoa, evita, sem exteriorizar seus pensamentos, determinados lugares onde a maioria é negra, por exemplo. Discriminação é um comportamento individual ou coletivo observável. Conscientemente, a pessoa que discrimina valoriza tais diferenças e estabelece uma hierarquia racial na qual o branco é, para ele, superior ao negro. Neste sentido, esta pessoa verbaliza ou assume em público, por exemplo, que não vai a determinado lugar porque lá tem maioria negra. Racismo é um discurso ou uma doutrina que tenta legitimar a crença na existência de raças naturalmente hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o intelecto, e o biológico e o cultural.  O racista registra de algum modo a sua crença ideológica quer para dominar, quer para inferiorizar negros, judeus ou pessoas de outras “raças”. Assim, o racista usa, por exemplo, uma camiseta com os escritos: “Não vou a determinado lugar porque lá tem negros!”.

Penso que mais importante do que a precisão jurídica ou mesmo conceitual para denominar o ato cometido por Maxi López é a discussão profunda na imprensa brasileira – não só a esportiva – das atitudes discriminatórias que vêm acontecendo de maneira recorrente no futebol nacional. Por que depois de Mario Filho houve um silenciamento por parte dos nossos jornalistas no tocante à questão? Será que depois da segunda edição de O negro no futebol brasileiro (1964) não há mais o que falar sobre as dificuldades enfrentadas pelos negros para a sua afirmação neste esporte (tanto no passado quanto no presente)? Será que depois de Pelé é besteira discutir atos discriminatórios no futebol brasileiro? Ou os negros deixaram de sofrer injúrias – se este é o termo correto – nas décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000?

Por que existem pouquíssimos árbitros, treinadores, jornalistas negros? E dirigentes negros? Se o nosso futebol é recheado de grandes craques negros, por que eles têm pouquíssimo espaço de atuação em outras profissões do universo do futebol? Seria impreciso entender a estrutura do nosso futebol como um racismo institucionalizado? O que acontece dentro de campo deve ficar dentro das quatro linhas? Ou o estádio é um espaço especial onde a legislação brasileira não deve ser aplicada? Chamar ou xingar um jogador negro de “negão”, “neguinho”, etc. é “normal” como pensam muitos brasileiros? É um xingamento igual a qualquer outro? Se um jogador negro “aceita” um apelido preconceituoso, então não há problema? Alguém perguntou a ele como se sente e se sentiu desde que começou a jogar bola? Até quando árbitros, treinadores, dirigentes, jornalistas, etc. e os próprios jogadores companheiros serão coniventes com atitudes discriminatórias que acontecem dentro e fora de campo? O que será que acontece nos vestiários, no dia-a-dia dos clubes? E o racismo velado através de indiretas, de “brincadeiras”, de ofensas comuns, de apelidos, de demissões com justificações outras que não a racial? Alguém já perguntou destas “sutilezas” aos negros do nosso futebol? O que falar, então, dos gritos das torcidas (“favela”, “pó-de-carvão”, “macacada”…)?

Por que a imprensa esportiva costuma abordar o racismo de forma sensacionalista? Por que quando um brasileiro é hostilizado no exterior a discriminação ganha muito mais evidência do que quando ocorre dentro deste país? Por que a injúria é super-exposta quando a mesma parte de um argentino ou de outro estrangeiro? Alguma autoridade policial averiguou quem atirou a banana com as inscrições “Grafite macaco” naquele amistoso entre Brasil e Guatemala? Ou foi um torcedor guatemalteco que a lançou para dentro de campo? Por que neste episódio a imprensa não deu a mesma atenção? Por que ninguém fala mais do que aconteceu entre os jogadores Elias (Corinthians) e Felipe (Goiás) no dia 14 de junho? Ou entre Cris (Brasiliense) e Márcio Alemão (Guarani) no último dia 7 de julho? Há diferença entre o “macaquito” e o “macaco”? Quando vem de fora é racismo e quando vem de dentro é apenas um xingamento, uma injuriazinha? Ninguém toca na questão porque aqui todos têm, como se diz popular e pejorativamente, “um pé na cozinha”, sendo todos mestiços, e porque somos um país onde não há racismo? Somos o país da democracia racial? Este é o nosso legado para o mundo? Afinal, aqui é o “paraíso racial”, não é? Ou este é um assunto “tabu” ou “menor” que não deve ser tratado pela nossa imprensa? Ou a opinião deste leigo – no tocante às minúcias da legislação brasileira – não serve para refletirmos a questão?

Bibliografia

CORRÊA, Lúcia Helena. Racismo no futebol brasileiro. In: DIEGUEZ, Gilda Korff (Org.). Esporte e poder. Petrópolis: Vozes, 1985.

MUNANGA, Kabengele. Teorias sobre o racismo. In: HASENBALG, Carlos A.; MUNANGA, Kabengele; SCHWARCZ, Lília Moritz. Racismo: perspectivas para um estudo contextualizado da sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 1998.

_____. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: BRANDÃO, P. Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 2004.

OLIVEIRA, Rodrigo Barros. Injúria, talvez, racismo, não! 2009. Disponível em: http://blogdojuca.blog.uol.com.br/arch2009-06-21_2009-06-27.html#2009_06-26_11_41_49-9991446-0. Acesso em: 26/06/2009.

VIEIRA, José Jairo. Considerações sobre preconceito e discriminação racial no futebol brasileiro
. Teoria e Pesquisa, São Carlos, n. 42-43, p. 221-244, jan./jul. 2003.

*Cientista social (UNESP), mestrando em história social (USP) e membro do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol), do MEMOFUT (Grupo de Literatura e Memória do Futebol) e do NEHO (Núcleo de Estudos em História Oral-USP). Contato: marceldt@uol.com.br

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Vítimas da exploração

Seja na infância ou na idade adulta, a exploração do jogador de futebol se dá por diversas maneiras. A noção de liberdade é uma ilusão necessária no capitalismo e o jogador não tem autonomia da escolha. Dentro do sistema Fifa, se ele quiser atuar profissionalmente, terá de fazer sob contrato de algum clube regularizado. Por isso existe um mercado paralelo para viabilizar esse sonho.
 
O jovem M. (o nome será omitido a pedido do próprio entrevistado) revela como funciona um esquema para profissionalizar atletas. No caso específico de M., foi pago R$ 3.000,00 para um ex-jogador fazer o processo de profissionalização. “Eu dei cópia dos meus documentos, foto e assinei os contratos da CBF. Não precisei fazer exame médico, foi tudo arranjado. Quem deu a grana foi um amigo, que acha que eu tenho condições e investiu em mim. Mas fazendo testes nos clubes, alguns moleques me falaram que dava para fazer tudo por apenas R$ 1.500,00”, conta.
 
M. tinha 25 anos na época, 1,76m de altura e pesava 52 quilos. Além de não ter o porte atlético para um jogador profissional, tem uma idade já avançada para iniciar uma carreira nos campos de futebol. “Neste mundo em que tudo se dá um jeitinho, sempre fica um fundinho de esperança. A gente vê tanto jogador ruim na TV que acha que consegue. Mas pensando racionalmente, eu acho que não tenho condições. Como um amigo se dispôs a pagar para mim, aceitei. E é assim que funciona”, comenta.
 
Mas quando M. quis disputar competições amadoras, que envolvem milhares de pessoas em todos os lugares, os famosos jogos de várzea, descobriu que não podia mais: ele era profissional. “Agora, para poder atuar nestes campeonatos, preciso pagar R$ 100,00, para fazer o que eles chamam de reversão, ou seja, voltar a ser amador”, explica. O registro de M. foi feito em um clube do interior paulista e seu nome saiu no BID, o Boletim Informativo Diário da CBF. E M. até indica o caminho para aqueles que sonham em se consagrar nos gramados. “Muita gente que eu troquei idéia faz um DVD com seus melhores momentos. Isso ajuda muito e o cara pode até conseguir uma transferência para o exterior”, diz.
 
 
Quanto os capitalistas precisam pagar para obter os direitos relativos à força de trabalho, e o que, exatamente, esses direitos abrangem? As lutas sobre o índice salarial e sobre as condições de trabalho (a extensão do dia útil, a intensidade do trabalho, o controle sobre o processo laboral, a perpetuação das habilidades etc.) são, em conseqüência, endêmicas com respeito à circulação do capital (HARVEY, 2005, p. 132).
 
 
É inevitável que em plena sociedade do espetáculo muitas crianças tenham a ilusão de um dia tornarem-se atletas de futebol. Como foi exposto, existe um mercado voltado para suprir as demandas pelos craques, mas que dá as costas àqueles que não deram certo na profissão. Harvey aponta que a força de trabalho é uma mercadoria, e assim também é qualificada como uma forma de propriedade privada. Mas num mundo em que ninguém pode atentar contra a propriedade privada alheia, o jogador, seja ele criança ou adulto, não tem direitos exclusivos de venda de sua própria força de trabalho, como qualquer outro trabalhador, e ele mesmo já se tornou uma mercadoria para ser consumida.
 
Hoje, muitos desses jogadores são como as vedetes citadas por Guy Debord: eles têm um papel a desempenhar e vivem na aparência. São o contrário do indivíduo e preferem ficar com a personagem de si mesmo. Quando olham para o espelho, preferem ser a imagem refletida, como nos aponta Lefebvre[1]. É uma vida aparente sem profundidade, mas eles se satisfazem por receberem o “direito de imagem” que o clube paga. “As pessoas admiráveis em quem o sistema se personifica são conhecidas por aquilo que não são; tornaram-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida individual mínima. Todos sabem disso” (DEBORD, 2002, p. 41).
        
Na própria linguagem do futebol, os jogadores são considerados mercadoria: “(…) os demais agentes referem-se a eles, seguidamente, como mercadorias: ‘fulano custou x’, ‘com fulano o clube faturou x’, ‘fulano foi comprado por x, mas não vale y’ e assim por diante” (DAMO, 2005, p. 340). Até quando a sociedade irá olhar para isso como se nada estivesse acontecendo?
 
 
Bibliografia
 
DAMO, Arlei Sander. Do Dom à Profissão. Uma Etnografia do Futebol de Espetáculo a Partir da Formação de Jogadores no Brasil e na França. 2005. 435 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, 2005.
 
DEBORD, Guy. Sociedade do Espetáculo. Comentários Sobre a Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
 
HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
 
 
*Paulo Fávero é jornalista, geógrafo, mestrando em Geografia Humana na FFLCH-USP com apoio do CNPQe pesquisador do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol).


[1] Informação extraída de uma tradução não-oficial do capítulo O Espaço Contraditório, do livro A Produção do Espaço, de Henri Lefebvre.
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A prática futebolística nos espaços populares e os 'vazios' estatais

É possível observar uma pluralidade de espaços capitaneados pelo poder público na cidade de São Paulo, pautados por preocupações e objetivos dos mais diversos. Entre os muitos casos, é possível destacar os trabalhos realizados nos Clubes Desportivos Municipais (CDMs), unidades descentralizadas do Município de São Paulo, de administração indireta, geridas por duas ou mais entidades civis sem fins lucrativos, regularmente constituídas, com o objetivo primordial de desenvolver atividade desportiva em imóvel público, especialmente cedido a título precário para esse fim.
 
A administração é exercida por uma sociedade civil, regularmente constituída e registrada, integrada por membros das entidades administradoras, que compõem a Diretoria Gestora, o Conselho Fiscal e o Conselho Gestor, cujos membros são eleitos pelos sócios dessas entidades participantes e da população do entorno das instalações físicas dos CDMs. A manutenção dessas agremiações é de responsabilidade da diretoria eleita.
 
Trata-se de um importante equipamento esportivo e de lazer devido à carência de espaços na metrópole para o exercício de tais práticas. Frente à expansão urbana e estruturação de serviços públicos, as áreas para a prática esportiva, parte delas não regulamentada para o seu uso, teriam sido os principais alvos de desapropriação e ocupação. Área pública gerenciada por um conselho local, os CDMs foram criados para oferecer atividades, equipamentos e estrutura esportiva; uma resposta, assim, à crescente diminuição de áreas públicas destinadas ao esporte e lazer.
 
É permitida a entrada da população e o livre acesso às áreas comuns, sendo que o espaço não é cedido diretamente para uma liga ou um clube, mas sim para um conjunto de entidades que formam uma diretoria eleita de forma bienal. Em várias regiões da cidade, tal como ocorre na Cidade Líder, parte dos jogos e torneios de futebol de várzea, disputados majoritariamente aos fins de semana, ocorre nos campos de futebol (gramados ou de terra) dos CDMs.
 
Para além das iniciativas elaboradas pelo poder público, outros projetos idealizados por diferentes segmentos da sociedade ganharam força nos últimos anos, tal como a Fundação Gol de Letra, comandada pelos ex-jogadores Raí e Leonardo. Outra iniciativa, porém, vem chamando a atenção da opinião pública e de diversos atores da sociedade civil: a Escola Comunitária de Futebol, organizada pelo Grêmio Botafogo F.C., clube de futebol varzeano do bairro de Guaianazes, na zona leste paulistana.
 
Fundado pelo carioca Admardo Armond, em 5 de abril de 1955, o Grêmio Botafogo é, hoje, um dos clubes varzeanos mais conhecidos em São Paulo. Ao longo de sua trajetória, diversos títulos e conquistas ajudaram a construir a fama do Botafogo de Guaianazes no futebol varzeano paulistano,[1] desde o primeiro título em 1974, quando foi campeão do Torneio da Primavera da Copa Guaianazes. Hoje, sob a batuta de diferentes personagens, entres eles o presidente Itamar, o diretor das categorias de base Severo Ramos e o coordenador da escolinha de futebol Jurandir, o Botafogo vem ampliando seu espaço de atuação na região.
 
De janeiro até junho de 2008, quase 1.000 crianças e jovens haviam se inscrito na Escola Comunitária de Futebol do time, todos entre 7 e 17 anos. Na proposta do Botafogo, a escolinha é um veículo de promoção da cidadania, educação e do esporte, com ênfase nos aspectos lúdicos. Novamente, o esporte aparece como um instrumento pedagógico privilegiado no plano educacional, voltado à transmissão de regras e valores para crianças e adolescentes, e como ampliação do acesso das camadas sociais excluídas às atividades educativas.
 
A concepção da escolinha como um espaço de socialização e de sociabilidade para crianças e jovens é defendida pelos diretores, para quem a escolinha do Botafogo é um importante espaço promotor de sociabilidade comunitária, que supera, inclusive, as diferenças socioeconômicas entre os diversos frequentadores. A escolinha proporciona um espaço para práticas sistemáticas e cotidianas do que se poderia chamar de convívio comunitário, onde são desenvolvidas uma pluralidade de usos coletivos para além das partidas de futebol: festas e reuniões de associações, recepção de políticos que visitam o bairro, etc. Não há dúvida, portanto, de que o futebol é um dos principais meios de fortalecimento dos laços de solidariedade entre os moradores do bairro.
 
Trata-se, ainda, de um projeto social que almeja também a formação de atletas. Se nas propostas dos projetos públicos a possibilidade de carreira é tida como exceção, na escolinha do Botafogo de Guaianazes um dos objetivos é a formação de jogadores. O que foi possível observar não somente na observação do cotidiano da escolinha, como também em alguns eventos que pude acompanhar. No contato com os pais, a possibilidade de profissionalização é o principal elemento destacado. Há, assim, uma preocupação com a promoção de oportunidades profissionais às crianças e adolescentes de Guaianazes e bairros próximos, nesse sentido, pautadas por princípios de competitividade.
 
O Botafogo participa de campeonatos e torneios municipais, espaços importantes, pois permitem a visibilidade do trabalho dos alunos para um público específico: empresários, agentes, olheiros e dirigentes de clubes. O Botafogo foi campeão na categoria infantil em 2006 da Taça Cidade de São Paulo, organizada pela Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação (SEME), para categorias de base das equipes de futebol amador,torneio no qual a disputa se dá em diferentes categorias: a mais recente, criada em 2009,Pré-Mirim (sub-10), Mirim (sub-12), Infantil (sub-14) e Juvenil (sub-16).
 
Projetos como esse, elaborado pelo Botafogo de Guaianazes, evidenciam a necessidade da ampliação do recorte de mapeamento dos projetos sociais esportivos existentes no Brasil. São iniciativas que procuram ocupar os espaços que deveriam ser contemplados pelo poder público, mas que o mesmo não consegue alcançar. Além disso, e o que acredito ser o principal, os trabalhos realizados nas centenas de associações esportivas espalhadas pela malha paulistana permitem problematizar alguns dos desígnios utilizados por formuladores das políticas públicas para justificar sua importância.
 
Nesse sentido, é importante refletir sobre as contribuições e valores disseminados nestes projetos, porém, valorizando o ponto de vista infantil, visto que os beneficiados por esses projetos, as crianças e jovens, não são consultados para os debates sobre este tema.
  
*Enrico Spaggiari é  mestrando em Antropologia Social-USP e membro do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol)

[1]No inicio da década de 1980, participou pela primeira vez do Desafio ao Galo, campeonato organizado e transmitido pela Rede Record. Em 1990, participou como convidado do 1º Campeonato Sulamericano de Futebol Amador. No ano de 1997, conquistou o título da 3ª Copa Kaiser/Seme de Futebol Amador, considerada a maior competição amadora no Brasil. Entre outros títulos, destacam-se ainda a Copa Ermelino Matarazzo de 1982, Copa Nelson Guerra de 1989, Campeão Varzeano de São Paulo – F.P.F em 1989 e 1990, Copa Black Power de 1990 e 1991, Copa A Gazeta Esportiva/Kaiser de 1993, Copa Botafogo/Kaiser de 1997, III Copa Metropolitana em 2006.
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Uma leitura do futebol moderno a partir de José Lins do Rego

*A proposta deste artigo é fazer uma análise do futebol moderno a partir de José Lins do Rego. Antes de iniciarmos essa proposta, é preciso esclarecer algumas questões importantes.
 
A minha motivação para fazer essa relação foi fruto das discussões ocorridas junto ao Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol) sobre dois livros que discutem o futebol e a literatura. A base da minha argumentação centra-se nos livros de Fátima Antunes e Bernardo Buarque de Hollanda. Ambos tiveram contato com a obra de José Lins do Rego, carinhosamente chamado de Zé Lins.
 
Sei que é sempre fundamental recorrer à fonte original para que se possa fazer a sua própria interpretação, isto é, fazer uma interpretação de primeira mão (GEERTZ, 1989). Se a minha leitura pode ser enquadrada como sendo de segunda ou terceira mão, fruto das primeiras análises e impressões manifestadas pelos autores que interpretaram a obra de Zé Lins. Esse artigo pretende avançar em alguns pontos a partir de relações com o futebol moderno, algo que os autores lidos não pensaram em fazer, mas que foram estimuladas a partir deles.
 
Zé Lins não viveu o bastante para que ele mesmo pudesse fazer suas análises sobre o futebol moderno – para se ter uma idéia, não chegou a conhecer o Brasil campeão do mundo em 1958 porque faleceu um ano antes. Mesmo sem saber, suas crônicas esportivas falam muito sobre o futebol moderno.
 
Para compreender sua relação com o futebol atual apresentarei alguns trechos de suas crônicas para visualizarmos que o futebol atual mantém semelhanças com o futebol de antigamente. O que mudou foram apenas os nomes de certos conflitos, mas que os dilemas ainda estão presentes, só que agora com outra nomenclatura.
 
No Sul-Americano de Lima disputado em 1953, Zé Lins apresenta um conflito que duraria por muito tempo quando o assunto era a seleção brasileira: ela deveria ser formada por cariocas ou por paulistas? Quem possuía o melhor futebol?
 
Zezé Moreira, que dirigira a seleção brasileira no Pan-Americano realizado no ano anterior, decidira afastar-se do cargo de técnico, cansado das críticas perversas da imprensa. Mas convenceu a CBD a colocar em seu lugar o irmão Aymoré que tinha sido o técnico do São Paulo, campeão do torneio brasileiro entre seleções estaduais de 1952. Tudo parecia correr bem, até que a equipe se dividiu entre cariocas e paulistas. Era a antiga rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo colocando em risco o sucesso da seleção brasileira. A imprensa de São Paulo defendia a escalação de jogadores paulistas e os apoiava na disputa contra os cariocas (ANTUNES, 2004, p. 101-102).
        
Essas discussões sobre o privilégio ora de cariocas ora de paulistas foi o mote de calorosos debates. Se durante, principalmente, as décadas de 50, 60 e 70 as conversas giravam em torno de qual time teria mais jogadores na seleção brasileira, atualmente a questão é saber se algum time brasileiro terá algum jogador convocado para a seleção brasileira. Onde estaria a relação de Zé Lins com o futebol moderno?
 
Basta trocar cariocas x paulistas por brasileiros-estrangeiros x brasileiros. Muitas críticas foram feitas aos últimos (e ao atual) treinadores da seleção por privilegiarem, principalmente, os jogadores que atuam no exterior. Os atletas que atuam no país já não fariam mais parte das opções para integrar a seleção brasileira. Com base nisso, muitos críticos da imprensa, geralmente, questionam a falta de identidade quando o Brasil está em campo. Os jogadores que atuam no exterior perderiam e, por isso, não conseguiriam jogar de acordo com o estilo, aqui conhecido como futebol-arte?        
 
Uma outra prática bastante comum dos times brasileiros, nas décadas já mencionadas, era a realização de excursões para o exterior. Zé Lins questionava essa prática.
 
Em maio de 1957, Zé Lins criticava as constantes excursões de clubes brasileiros ao exterior, promovidas por empresários que haviam se especializado nessa atividade. O que ele mesmo incentivara e valorizara tempos antes, como instrumento de representação diplomática ou simplesmente como um produto de exportação, tornara-se, segundo seu próprio julgamento, um mal para o futebol brasileiro. Os clubes expunham seus jogadores a viagens extremamente longas, a mudanças alimentares e a um cansaço físico acentuado, em razão das disputas de muitas partidas em um curto espaço de tempo (ANTUNES, 2004, p. 114).
 
Se os clubes brasileiros perderam esse mercado, times como o Real Madrid ou o Barcelona (podemos pensar em inúmeros outros clubes europeus) conquistaram a Ásia e, consequentemente, um grande mercado para vender seus produtos e a sua grife. Ao fazerem a pré-temporada para arrecadar muito dinheiro, os clubes expõem seus atletas ao que Zé Lins considerava um mal, isto é, viagens desgastantes, mudanças alimentares e cansaço provocado pelo grande número de jogos em pouco tempo só acabavam por atrapalhar mais do que ajudar. Essa lógica do desgaste dos jogadores parece que foi incorporada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que agenda os amistosos da seleção para o exterior. As atuações da seleção no Brasil têm se resumido aos jogos das eliminatórias.
 
Nesse futebol moderno os embates continuam, porém, assumiram outra roupagem. Sai de cena a discussão regional entre cariocas e paulista para entrar uma discussão mais global (seria culpa da globalização?). Brasileiros-estrangeiros ou brasileiros “legítimos” devem ser os responsáveis por representar o verdadeiro estilo de jogo do Brasil? As excursões dos times brasileiros praticamente deixaram de existir, mas a seleção brasileira tornou-se uma grande marca que se apresenta mais no exterior do que no próprio país. A desculpa centra-se no fato de que os jogadores convocados atuam no exterior e, por isso, as viagens se tornam menos desgastantes, já que a maioria atua na Europa. Portanto, pode-se perceber que as indagações de Zé Lins ainda continuam atuais, mesmo sendo escritas há muito tempo
 
Bibliografia

ANTUNES, Fátima M. R. F. “Com brasileiro, não há quem possa!”: futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: Editora da Unesp, 2004.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1989.

HOLLANDA, Bernardo B. B. de. O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2004.


*Sérgio Settani Gi
glio é
mestre em educação física pela Unicamp e integrante do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol); do Gepefic (Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Física e Cultura) e do Memofut (Grupo de Literatura e Memória do Futebol Brasileiro).

Contato: ssgiglio@gmail.com  

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O futebol: "veneno remédio" do Brasil

Se compararmos o cenário editorial atual ao de vinte anos atrás, podemos dizer sem grandes riscos de equívoco que são cada vez mais recorrentes, quantitativa e qualitativamente, as publicações que se apresentam para ter o futebol como seu principal mote. Contudo, grande parte dessas obras contém, como sendo sua razão de ser, uma interpretação de questões, digamos, adjacentes ao futebol ou à sociedade brasileira, sendo raros os que, com o devido vigor que o tema exige, abarcam tanto questões contextuais quanto análises referentes às especificidades dos modos de se jogar futebol.
 
Pois é essa a proposta do ensaio “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, de autoria de José Miguel Wisnik, publicado pela Companhia das Letras (2008). O autor, conhecido musicista e linguista, envereda pelo universo do futebol sem abandonar o campo que lhe consagrou, estabelecendo uma relação entre futebol, música e literatura com a propriedade e o sucesso de poucos. Assim, mantendo constante interação com as perspectivas metodológicas e interpretativas que são recorrentes na música e nas letras, sem, contudo, limitar-se a elas, Wisnik relaciona Machado de Assis com Pelé, envereda em elucubrações acerca das primeiras práticas do “esporte-bretão” em terras brasileiras, trata da propagação da prática do esporte nas primeiras décadas do século XX, e das várias participações brasileiras em Copas.
 
Ao tratar do trauma da Copa de 50, por exemplo, realizando o esmiúce da letra de “Touradas em Madri” (“delírio eufórico absoluto (p. 254)”, entoado na sonora vitória sobre a Espanha, por 6 a 1, por sinal última vitória antes da derrota para o Uruguai na final), e tratando dos elementos simbólicos, de dimensões psicológicas inclusive, que estavam postos nos jogos e na relação que a torcida brasileira estabeleceu com aquela equipe (digo eu, aqui, “torcida brasileira de um modo genérico”), Wisnik nos aponta que:
 
Esse fato [o empate do Uruguai na final], que garantia ainda ao Brasil um resultado favorável, é vivido, no entanto, como um desabamento surdo que desvela o inacreditável: o Outro existe. A situação é um momento emblemático de uma vicissitude do veneno remédio brasileiro: o outro, que subsiste tão naturalmente quando objeto de apropriação e paródia – vide as “Touradas em Madri” – existe com dificuldade quando reverte como limite (p. 261).
 
O mesmo apuro no discurso se faz presente em outros tantos relatos sobre as participações do Brasil em Copas: a redenção que a Copa de 58 veio a ser, o apogeu do estilo “poético” do time de 1970, as outras singularidades de outros títulos e de outras derrotas, e como estiveram envolvidos nessas tantas histórias jogadores, técnicos, torcida, imprensa, e nação brasileira como unidade.
 
Pois bem, até aqui, nada de muito diferente dos outros ensaios que foram feitos, fosse numa perspectiva sociológica ou não, com a pretensão de discutir as repercussões do futebol na sociedade brasileira, ou ainda sobre o jeito de se do povo brasileiro. O título do livro, por exemplo, remete-nos ao homem cordial que nos foi apresentado por Sérgio Buarque de Holanda, aquele que estabelecia uma relação entre público e privado sem separações rígidas, atrelando méritos e deméritos ao homem brasileiro, assim, sem uma escala precisa de medição sobre o começo de um e o término de outro. O que surge como diferencial nesse ensaio de Wisnik é a disposição em, mais do que discutir o racismo no futebol, as questões de gênero, a violência nos estádios, as nuances dos que operam nas instâncias superiores do poder, mais do que apresentar versões categóricas do porque o futebol ter se constituído e permanecer como um importante elo de identificação do brasileiro para com sua nação, seu diferencial consiste em propor uma discussão rara em grupos acadêmicos que se dispõem, de um modo mais ou menos intenso, em recorrer ao futebol em suas analises: tratar dos elementos técnicos próprios do jogo, que além de serem passíveis de análise (diferente, que fique claro, daquelas que nos são apresentadas por alguns veículos de comunicação antes, no intervalo ou após os jogos), são um dos grandes responsáveis pelo elevado grau de popularidade que a prática do futebol tem no mundo.
 
Sobre o componente bola, por exemplo, nos diz Wisnik:
 
O poder de irradiação do futebol é impensável sem uma fenomenologia da bola: esse objeto distinto de todos os outros (…), que rola e quiçá como se animado por uma força interna, projetável e abraçável como nenhum. A bola é redonda – não há como recuar diante da mais rotunda das obviedades. Ao contrário, é preciso redescobrir esse fato espantoso, que a distingue de todo o resto (pp. 57-58).
 
As considerações de ordem técnica se dão, também, no que tange às especificidades do futebol em contraste com outros esportes. Para exemplificar, surge-nos como justificativa a tal perspectiva a relação tempo-espacial que seria própria do futebol: as ações que não são absolutamente objetivas não decorrem necessariamente em prejuízo ao seu executor – caso do drible, por exemplo, que pode inclusive ser um importante elemento para desestabilização, senão explícita, implícita do adversário – enquanto que em outros esportes coletivos, uma prática “sem objetividade” como o drible decorre, necessariamente, perdas à equipe.
 
Outro exemplo, dos muitos do livro, sobre peculiaridades do futebol, seria o alto teor subjetivo concedido aos juízes, a quem cabe o veredicto se a bola ultrapassou toda a linha do gol ou não, se tal jogador tocou com a mão na bola intencionalmente ou não, se houve intenção de falta do zagueiro ou o mesmo apenas “foi na bola”.
 
Evocações a Pasolini, a Gilberto Freyre e às letras de música e textos de Chico Buarque também são feitas. Esse livro não deixa de ser uma declaração apaixonada de um torcedor de futebol – e não embuto nenhuma carga pejorativa quando faço tal constatação. Talvez um ponto não muito interessante seja que a classificação ensaio permita uma postura perigosamente conveniente para que o autor se esquive de discussões mais ardilosas (caso da presença dos negros no futebol, por exemplo, que é elogiada em boa parte da obra, mas quando emerge a possibilidade de uma perspectiva racialista ser problematizada, ela não o é).
 
Para encerrar, digo que um dos méritos do autor foi apresentar um pequeno memorial seu, logo ao início do livro, declarando sua relação visceral com o futebol, e explicitando ao leitor sobre onde é o ponto em que ele se situa para fazer suas observações.
 
É digna de reverência tal atitude, pois não escamoteia a parcialidade que é própria de alguns que se dispõem sobre seus objetos de análise e que, não percebendo – ou não querendo declarar – a parcialidade que é inalienável da condição humana, evocam o verniz da imparcialidade científica, fazendo com que esta se torne, em vez de vantagem, um calcanhar-de-aquiles de insuficientes análises. “Veneno remédio” esta à margem disso; os interessados por futebol e por discursos sofisticados agradecem.

 
Bibliografia
 
WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
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Que ginga é essa?

Quando se fala do futebol brasileiro, tanto entre nós como no exterior, diversos estereótipos veem à tona: o mais famoso deles é a ginga comum ao jogador do Brasil, o que torna o país o detentor legítimo do futebol-arte. Muitos outros conceitos para abordar essas categorias foram adotados ao longo do desenvolvimento do esporte exemplo – o futebol-poesia de Pasolini, a bossa de Wisnik, a existência de donos da bola, para Chico Buarque -, mas, ao mostrarmos as diferenciações desses termos, rapidamente será perceptível como todos eles mantêm um núcleo comum de significados e intenções, que é o que nos interessa debater.
 
De forma mais impactante que qualquer escritor anterior, Mário Filho[1] tornou o gingado brasileiro um discurso comum, tanto entre quem estuda o futebol, como entre quem simplesmente o debata no seu cotidiano. Em seu livro O negro no futebol brasileiro, o autor mostra as relações dessa ginga com a miscigenação entre negros, índios e brancos; a capoeiragem e o samba – conceituação essa plenamente defendida pelo sociólogo Gilberto Freyre[2], que identifica várias proximidades entre seu trabalho e a obra do jornalista carioca.
 
Diante dessas características singularmente brasileiras, pode-se chegar à constatação de que ter ginga seja algo só possível aqui: um dom ou uma habilidade inerente ao nosso povo.
 
A habilidade e a destreza acumuladas pela prática da capoeira e pela dança do samba preparam os corpos dos jogadores de futebol, vindos em sua imensa maioria das fileiras do proletariado urbano, para remodelarem o jogo duro e ensaiado dos bretões. O esporte que emana das descrições de Mário Filho, a partir da inserção do negro no futebol, é um jogo insinuante, de dribles, sortilégios e surpresas, onde a chegada ao gol se dá, não pelos meios já instituídos, mas por inovações genuinamente nacionais, um saber brasileiro.
 
Chico Buarque[3], em crônica sobre o futebol, chega à constatação de que o modo de agir dos jogadores sul-americanos os faz parecerem os donos da bola, em oposição aos europeus, donos do campo. A relação desses futebolistas, principalmente brasileiros, com a bola, é de posse, passionalidade e egoísmo: com o domínio dela, eles são capazes de desenvolverem seu jogo cheio de fintas e dribles, que impressiona a todos pela destreza corporal. Enquanto os donos do campo são pródigos em jogar sem a bola, num modo que prima pela troca rápida de passes e pela ocupação de todos os espaços do campo, agindo de forma muito mais coletiva.
 
Essas diferenças entre os modos de jogo aparecem novamente em Pier Paolo Pasolini, que é brilhantemente pensado por José Miguel Wisnik[4]. O cineasta italiano vê o futebol enquanto poesia – uma técnica muito utilizada pelos sul-americanos, principalmente os brasileiros – e o futebol-prosa, uma escola mais européia, em que os principais países do continente têm suas peculiaridades: a prosa estetizante italiana, o pragmatismo alemão e inglês. Contudo, ao contrário de muitos outros autores, para Pasolini a prosa e a poesia se mesclam durante a partida.
 
O que Pasolini considerava o futebol-prosa evidenciava-se pela ênfase defensiva, troca de passes triangulados, contra-ataques fulminantes, cruzamentos e finalizações. O futebol-poesia quebra essa linearidade do jogo, torna-o imprevisível, cria os espaços vazios e brechas do campo, dá autonomia ao drible e motiva o ataque. O autor italiano não exerce juízo de valor sobre as práticas em si, mas sabiamente afirma que, como na literatura, o estilo em que se escreve não serve de pré-requisito para a sua qualidade.
 
Mais do que prosa, poesia ou uma mistura de ambos, o futebol é, na visão do cineasta, um esporte de múltiplos registros, estilos diferentes e até opostos. Estilo e identidade esses que o futebol brasileiro soube afirmar para o restante do mundo com um impacto avassalador na Copa de 1970, torneio esse que inspirou Pasolini nos seus escritos.
 
Outro autor que acrescenta um viés pertinente a essa discussão é o gaúcho João Saldanha: as crônicas do jornalista partem em muitos momentos da disputa central entre o futebol-força e o futebol-arte e muitos dos elementos que perpassam suas discussões só serão entendidos nessa contradição.
 
Saldanha[5] acredita na qualidade técnica e até mesmo na habilidade de qualquer nação para o futebol, sendo um bem acessível a todos por meio dos treinos. Contudo, a criatividade, o artístico e o “futebol-arte” são os elementos de desequilíbrio únicos e exclusivos do brasileiro. Assim, conforme argumenta o antropólogo Luiz Henrique de Toledo, o estilo no Brasil é visto como um dom, a exuberância e a capacidade de fazer o belo e o definidor em alguns segundos, já a técnica é mostrada como um conjunto de atividades em que o jogador deve aprender o “instrumental físico” para a prática do esporte, as regras do futebol e a preparação e preservação do corpo para o jogo.
 
A ginga e o futebol-arte, que são vistos como consenso de qualidade, criatividade e, principalmente, identidade brasileira entre esses diversos autores das mais diferentes áreas, não pode ser visto apenas de maneira apologética, mas sim inseridos em um projeto muito maior: moldar o que é o Brasil do século XX.
 
Num país cindido por regionalismos – durante a segunda metade do século XIX e o início do XX -, a necessidade de forjar um caráter nacional e seus respectivos símbolos era fator primordial para a formação de uma nação. Assim, a figura do mulato e a miscigenação, formando um povo orgulhoso de si mesmo, vem ocupar um espaço de formação de identidade. Como discurso vencedor sobre o valor desse povo, a ginga dos capoeiras, dos sambistas e dos jogadores de futebol salta como qualidade inequívoca e uma afirmação do que é ser brasileiro.
 
Esse processo de compreender o Brasil, afirmar identidades e promover grandes análises da realidade nacional e do legado histórico que toma corpo na década de 1930 vem tanto de escritores populares, como Mário Filho e José Lins do Rego[6], quanto de acadêmicos renomados do porte de Caio Prado Júnior[7], Sérgio Buarque de Hollanda[8] e o já citado Gilberto Freyre.
 
O país que posteriormente seria caracterizado de modo magistral por Nelson Rodrigues como sofredor do complexo de “vira-latas” achava em características ligadas ao lúdico um modo de afirmar-se no cenário mundial, tentar c
riar-se como nação e entender a si próprio.
 
“A malandragem como arte da sobrevivência, o jogo de cintura como estilo nacional, a capacidade de jogar com força e ‘arte’, sem, contudo, excluir o coração e a cabeça… Foi, portanto, só com o futebol que conseguimos no Brasil somar nação e sociedade.” (Roberto da Matta – Sem referência)
 
Bibliografia
 
COELHO, Eduardo (org.). Donos da bola. Editora Língua Geral. Rio de Janeiro. 2006.
 
FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Editora Mauad. Rio de Janeiro. 2004.
 
MANHÃES, Eduardo. João sem medo – futebol-arte e identidade nacional. Editora Pontes. Campinas. 2004.
 
TOLEDO, Luiz Henrique de. Lógicas no futebol. Editora Hucitec. São Paulo. 2002.
 
WISNIK, José Miguel. Veneno remédio – O futebol e o Brasil. Companhia das Letras. São Paulo. 2008.

* Vitor Canale é graduando em História pela Unicamp, membro-pesquisador do GEF (Grupo de Estudos e Pesquisas de Futebol – Unicamp) e membro do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol).



[1] FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Editora Mauad. Rio de Janeiro. 2004.
[2] FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. José Olympio Editora. São Paulo. 1933.
[3] COELHO, Eduardo (org.). Donos da bola. Editora Língua Geral. Rio de Janeiro. 2006.
 
[4] WISNIK, José Miguel. Veneno remédio – O futebol e o Brasil. Companhia das Letras. São Paulo. 2008.
[5] SALDANHA, João. Histórias do futebol. Editora Revan. Rio de Janeiro. 1994.
[6] HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. “O descobrimento do futebol”: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Editora da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. 2004.
[7] JUNIOR, Caio Prado. Formação do Brasil contemporâneo. Editora Brasiliense. São Paulo. 1965.
[8] HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Companhia das Letras. São Paulo. 2005.
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Futebol exportação

Quem já ouviu falar no Grêmio Esportivo Anápolis S/A, antigo Grêmio Esportivo Inhumense, de Goiás? A equipe, sem tradição nenhuma no futebol brasileiro, foi fundada em 1999 e atualmente está na segunda divisão do Campeonato Goiano. Seu maior feito foi ter disputado a Série C do Campeonato Brasileiro em 2005, sendo eliminada na primeira fase com apenas uma vitória – sobre o Ceilândia-DF. Mas ela alcançou uma marca expressiva de fazer inveja a muito clube grande: foi o clube que mais exportou jogadores para o exterior em 2007.

O Grêmio Anápolis mandou 17 atletas para o exterior em 2007(1) , número superior ao Cruzeiro e Internacional (15 jogadores), Atlético-PR (14) e Palmeiras, Corinthians e Corinthians-AL (13). Curiosamente, todos os jogadores do Grêmio Anápolis foram para Portugal. A tabela abaixo mostra os principais clubes exportadores de atletas no ano passado.

Juntos, os times da primeira divisão (Série A) do Campeonato Brasileiro (em 2007) mandaram 184 jogadores para o exterior. Os times da Série B enviaram 117 atletas. Os outros 784 jogadores saíram do país através de clubes que não estão nas duas principais divisões do futebol brasileiro. E os destinos dos nossos atletas são os mais diversos possíveis: entre os 89 países que algum brasileiro foi jogar em 2007 estão desde os mais comuns, como Portugal (227), Japão (57), Espanha (38), Itália (47) e Alemanha (44), até outros de menor expressão no futebol, como Albânia (1), Angola (6), Azerbaijão (2), China (27), El Salvador (3), Ilhas Faroe (3), Índia (5) e Vietnã (20).

Um outro dado interessante é o que mostra a divisão dos clubes exportadores por estado. A mesma concentração que ocorre na primeira divisão de clubes do Sul e Sudeste se reflete no momento da exportação. Só para se ter uma idéia, os times das duas regiões representam 74,7% do total exportado, ou seja, 801 jogadores saíram de clubes do Sul e Sudeste diretamente para o exterior. Assim, talvez exista uma relação entre os times de cada estado, mostrando que o sucesso de um clube de São Paulo ajuda a outros clubes do mesmo estado na hora de negociar atletas.

Só os clubes paulistas mandaram 284 atletas para fora, contra apenas um de Acre e Amapá, e dois do Tocantins. A lógica da concentração prevalece. O mapa abaixo mostra como é a divisão de jogadores exportados pelos clubes por estado:

Ilustração 7 – Exportação de jogadores brasileiros por estado da equipe que negociou

É cada vez mais comum ver times com nomenclaturas S/A ou Ltda. vendendo atletas para o exterior como commodities. Ganhar um título parece ser o que menos importa. O sucesso aparece na quantidade de atletas exportados e no dinheiro que entra nos cofres, que nem sempre vai para os clubes, pois os jogadores já quase não pertencem mais aos times. São propriedade de empresários, ex-jogadores e atravessadores. Quem tem mais, pode mais.
 

“Como em quase todas as suas relações econômicas, o Brasil, no disputado mercado do futebol, é um fornecedor de commodities. Produzimos craques ou bons jogadores aos borbotões. Eles brotam País afora como cana e soja. E até o caminho do estrelato – ou da desilusão – são tratados assim, feito commodities, como frangos desossados ou partes de um belo corte bovino prontos a serem exportados” (2).

O ano de 2008 já registra um novo recorde de transferências para o exterior. Mais times entram na festa das transações internacionais e o futebol brasileiro se consagra como produto tipo exportação. Para a imagem do país, isso acaba sendo positivo, ainda mais se os jogadores fazem sucesso lá fora. E para o futebol disputado em território nacional, será que esse êxodo de atletas é benéfico? Que venha a próxima safra…

—————–
1 – Informação extraída do site oficial da Confederação Brasileira de Futebol (www.cbfnews.com.br), baseada em tabulação do próprio autor.

2 – Reportagem intitulada Vida de Gado, de Gilberto Nascimento, na revista Carta Capital, em 11/11/2008, às 13h39. Veja em http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=2617.
 
*Jornalista, geógrafo, mestrando em Geografia Humana na FFLCH-USP com apoio do CNPQ e participante do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol).

Contato: paulofavero2003@yahoo.com.br

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Alguns aspectos da imprensa esportiva no Brasil

A imprensa esportiva é quem faz o “choro”, cria rivalidades e às vezes ódios, mesmo porque o “choro” não é mais do que um desabafo da paixão bairrista, e que quanto mais se alimenta, mais cega fica.
Thomaz Mazzoni

Quem acompanha minimamente o futebol, seja através da imprensa escrita, seja através da imprensa falada, deve ter lido ou ouvido, em algum momento, comentários contra ou a favor de algum grande clube ou mesmo da seleção brasileira que são mais efusivos e apaixonados. Um bom exemplo disso tem sido a cobertura dos jogos do Corinthians na Série B do Campeonato Brasileiro de 2008. Uma ligeira percepção é suficiente para constatar que as atenções se voltam quase que exclusivamente para este clube: as notícias antes, durante e depois das partidas; as narrações (independentemente de o time alvinegro estar atacando ou defendendo); as entonações ou mesmo vibrações dos narradores e comentaristas.

É claro que o apreço do jornalista com este ou aquele clube pode não ser o único motivo pelo qual o leva a tomar tais atitudes. Uma série de fatores deve ser considerada: o tamanho do clube e da sua torcida, a publicidade, os interesses financeiros da imprensa, a demanda do público, os fatos que envolvem a situação momentânea do clube (se ele está para subir ou cair de divisão, se ele está para trocar de treinador, se enfrenta uma crise política, financeira…), entre tantos outros. Contudo, não é meu interesse neste breve texto explorar esse lado. Na verdade, estou mais preocupado em mostrar de maneira abrangente alguns aspectos da imprensa esportiva brasileira, tais como clubismo, bairrismo, regionalismo e ufanismo.

Desde os anos 1930, pelo menos, é comum vermos na imprensa esportiva matérias criticando a postura de jogadores e de clubes ao tentarem, respectivamente, mudar de agremiação e contratar atletas de times rivais ou de outras regiões. O antropólogo Luiz Henrique de Toledo cita em seu livro, Lógicas no futebol, um caso que causou profunda celeuma entre alguns cronistas paulistas. Tratava-se da tentativa de transferência do goleiro King do São Paulo para o Flamengo. A Gazeta Esportiva explicitava sua posição a respeito com o seguinte título: “Uma chantage a damno do São Paulo F.C.” (2002, p. 166).

Já na década seguinte, com o maior prestígio dos clubes paulistas (talvez, principalmente, em virtude do grande investimento são-paulino para a formação do seu grande time dos anos 1940 que foi chamado de “Rolo Compressor”), inverteram-se as reclamações. Agora, quem se queixava da conivência da imprensa com as atitudes dos clubes era crônica carioca. Tal como sugere o pesquisador, esses acontecimentos revelavam a precariedade do profissionalismo a pouco instaurado e o “amadorismo” envolvendo aqueles que se diziam “especialistas”. Afinal, as censuras de ambos os lados tinham um teor passional próprio dos torcedores, o que minimizava a reivindicação feita por eles em prol de um jornalismo mais específico e legítimo.

Se voltarmos os olhos para o presente, veremos que uma parcela deste mesmo jornalismo e uma grande parte dos clubes continuam fazendo as mesmas críticas. Todo final ou meio de temporada são inúmeras as notícias veiculadas a respeito das transferências de jogadores entre clubes. Por causa de muitos atletas profissionais estarem vinculados a empresários (ou a um grupo deles), muitos clubes em má situação financeira ou sem condições de concorrer com o mercado mundial ficam à mercê das decisões tomadas por essas pessoas e, quando chega a época das transações ou mesmo antes de terminar as principais competições, começam a acusar esta ou aquela agremiação de tentar contratar um dos seus proeminentes jogadores.

No futebol nacional, os grandes clubes paulistas, com destaque para o São Paulo, são sempre alvo dessas reclamações, como podemos ver nas seguintes manchetes: “Lusa acusa Verdão de aliciamento e vai à justiça” (http://200.150.147.211/noticias/07-07-06/121833.stm), “Atlético PR acusa São Paulo de aliciar atletas da base” (http://esportes.terra.com.br/futebol/estaduais2007/interna/0,,OI1530402-EI8022,00.html), “Time da Força Sindical põe jovens no Brasileirão e acusa o São Paulo de ‘roubo'” (http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u64939.shtml).

Interessante notar que os próprios dirigentes do tricolor paulista, que a cada polêmica vivem se defendendo e argumentando a favor do profissionalismo e do planejamento, acusaram os alemães do Bayern de Munique de aliciamento frente ao zagueiro Breno, no final de 2007 (ver notícia em: http://www.lancenet.com.br/noticias/07-11-21/195756.stm). Na mesma época, Bebeto de Freitas, famoso por seu (des)temperamento, convocou até uma coletiva para expressar a sua indignação, inclusive com relação à uma suposta omissão da imprensa. Vejamos um trecho: “O São Paulo alicia nossos jogadores durante a competição, e ninguém fala nada. O Palmeiras está aliciando o Cuca, e ninguém fala nada.” (http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/0,,MUL210169-4274,00-BEBETO+CRITICA+SAO+PAULO+E+PALMEIRAS.html).

Seguindo Toledo, com o passar do tempo, um conjunto de transformações gerenciais e técnicas no nosso futebol fez com que muitos jornalistas não revelassem suas preferências clubísticas e elaborassem um discurso mais tecnicista e menos encantado. Aquela conduta mais carnavalizada, subjetiva e próxima do universo torcedor, presente até os anos 1970 aproximadamente (lembremos de Zé Italiano da Rádio Gazeta de São Paulo), foi cedendo lugar para uma postura mais competitiva, objetiva e profissional. Foi uma tentativa de afirmar a posição dos “especialistas”, graduados em cursos de jornalismo, comunicação e afins, frente aos “amadores”, que sempre marcaram presença na imprensa esportiva (lembremos de Chico Buarque nas crônicas d’O Estado de São Paulo durante a Copa do Mundo de 1998).

Embora, ainda hoje, a grande maioria dos jornalistas tenta esconder o clube para o qual torce, qualquer pessoa que acompanha semanalmente as partidas, com os mesmos narradores, comentaristas e repórteres, é capaz de perceber aos poucos as paixões “domesticadas”. Algo que deve ser até compreendido, pois, sobretudo no “calor” do jogo ou em lances polêmicos, é difícil separar o lado torcedor do profissional, momento em que a neutralidade arrogada fica em segundo plano. Reprovável mesmo é a postura daqueles “especialistas” que mantêm relações escusas com dirigentes, empresários, treinadores e jogadores, formando um sistema de trocas mútuas de favores e que envolvem informações, privilégios, acordos, valorização de imagem, muitos interesses políticos e econômicos, além de tantas outras coisas que, certamente, deixam os princípios éticos de lado.

Um exemplo disso foi o veto de Dunga às entrevistas exclusivas, entre outros privilégios concedidos à Rede Globo, e, como conseqüência, as críticas e ironias dos funcionários da emissora ao trabalho do treinador no comando da seleção brasileira. Fatos mais claros e pontuais sobre esse tipo de relação entre imprensa e dirigentes ou outras pessoas que compõem o mundo do futebol são conhecidos, porém pouco revelados publicamente por conta da dificuldade de prová-los. Com este intuito, seria extremamente interessante coletar relatos de assessores de imprensa dos clubes; membros de redação e de comissão técnica; familiares de jornalistas, dirigentes, treinadores e jogadores; ou mesmo quartos-árbitros, que acompanham de perto o trabalho dos jornalistas e dos treinadores e auxiliares técnicos. Certamente, muitos casos viriam à tona e poderíamos identificar fatores e personagens que impedem o crescimento do nosso futebol. Uma saída muito mais produtiva seria o desenvolvimento da nossa tênue tradição investigativa no jornalismo esportivo.

Muitos dos “especialistas” que cob
ram abertamente das federações, clubes e dirigentes uma postura mais transparente e profissional são aqueles mesmos que se sujeitam a fazer parte de programas que, diária ou semanalmente, acirram rivalidades e incitam indiretamente brigas entre torcidas. Basta citar o programa Debate Bola da Rede Record, que colocava caixões com insígnias dos clubes que estavam em crise ou que perdiam partidas importantes. Refiro-me aqui ao que vejo no estado de São Paulo (seja no interior – Araraquara, São José do Rio Preto ou Campinas -, seja na capital), apesar de imaginar que o mesmo ocorre em outros locais, haja vista a disputa entre regiões (não só entre sudeste e nordeste) que envolveu a final da Copa do Brasil, deste ano, entre Corinthians e Sport.

Por outro lado, há aqueles jornalistas – e os da Rede Globo são o maior exemplo disso – que exageram no ufanismo que provavelmente muitos deles não acreditam, mas que o fazem por serem politicamente corretos e por construírem e expressarem uma imagem do país via futebol. É comum vermos nas coberturas dos campeonatos sulamericanos a seguinte frase: “O Internacional – que poderia ser trocado por qualquer outro clube brasileiro que restou em um torneio – é o Brasil na Libertadores!”. Não sejamos hipócritas, eu duvido que o torcedor gremista vai aflorar o seu lado patriota em detrimento da sua paixão clubística. Somos o “país do futebol” independentemente de torcermos por qualquer que seja o clube brasileiro em uma competição internacional.

Ainda que leve em consideração que a imprensa esportiva tenha de “criar” acontecimentos, explorar polêmicas, exagerar na voz e na tinta para garantir ou mesmo elevar o consumo do público torcedor, penso que ela deve ter a mesma consciência de responsabilidade que têm os árbitros de futebol, os quais sabem que, por menor que seja a sua decisão dentro de campo, afetam a vida dos torcedores. Afinal, uma das funções dos jornalistas não é comunicar, informar, esclarecer a população sobre algum acontecimento ou abrir os olhos dela para determinado fato? Mas para tanto, não devem usar meios ilícitos ou abandonarem a ética. O que, de maneira alguma, implica na falta da realidade ou da emoção na crônica esportiva. É só lermos Nélson Rodrigues.

Um jornalista que expõe de antemão sua opção clubística não será menos profissional por isso. Ao contrário, sendo honesto com o leitor ou o ouvinte, coloca à prova a isenção do que escreve ou fala, abrindo espaço para o público decidir se foi ou não parcial em seu comentário ou análise. Assim como vários de seus colegas, Juca Kfouri é um exemplo disso. Pois é capaz de expressar-se nos programas que participa e nos textos que escreve contra o seu clube de coração, o que para alguns corinthianos pode ser motivo de “traição”. Sem medo de dizer o que muitos pensam, escreve em seu blog mensagens como “Todos contra o Grêmio/São Paulo/Corinthians”, nessa era do campeonato brasileiro de pontos corridos. Disse, ele, ter recebido inúmeras críticas por parte dos torcedores, porém não irá mudar de postura e nem quer agradar esta ou aquela torcida. Preocupado com a realidade, escreve o que pensa e tenta controlar sua subjetividade, como todos nós… A propósito, sou corinthiano.

*Cientista social (UNESP), mestrando em história social (USP) e membro do GIEF (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol), do MEMOFUT (Grupo de Literatura e Memória do Futebol) e do NEHO (Núcleo de Estudos em História Oral-USP).

Contato: marceldt@uol.com.br

Bibliografia
COELHO, Paulo Vinicius. Jornalismo esportivo. São Paulo: Contexto, 2003.
RODRIGUES, Nélson. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
TOLEDO, Luiz Henrique de. Lógicas no futebol. São Paulo: Hucitec/FAPESP, 2002.

Sites
http://200.150.147.211/noticias/07-07-06/121833.stm
http://esportes.terra.com.br/futebol/estaduais2007/interna/0,,OI1530402-EI8022,00.html
http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u64939.shtml
http://www.lancenet.com.br/noticias/07-11-21/195756.stm
http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/0,,MUL210169-4274,00-BEBETO+CRITICA+SAO+PAULO+E+PALMEIRAS.html

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O torcedor passional

Considero Sérgio Buarque do Holanda um dos mais significativos intelectuais brasileiros de nossa recente história de pensadores que se propuseram a pensar o Brasil, a brasilidade, o jeito de ser do brasileiro. Em uma de suas mais célebres construções, presente em “Raízes do Brasil”, Holanda cunhou o termo “homem cordial” para se referir ao comportamento do brasileiro que, quando comparado ao jeito de ser do europeu ou do anglo-saxão, (principalmente quando se trata do modo de ser destes indivíduos na coisa pública), não raro demonstra ter como peculiaridade uma evocação de práticas personalistas.

Isso, aliado ao nosso histórico patriarcal, rural e colonial, foi como que um “adubo” para a germinação deste novo homem que emergia em um Brasil também novo, da industrialização, das teorias higienistas, da metrópole:

Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será a de cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.

Já nos anos 50 (pouco mais de uma década depois da primeira publicação de “Raízes…”, que data de 1936), com o futebol já consagrado como principal esporte do país, e com um razoável histórico de participações internacionais do selecionado brasileiro, Nelson Rodrigues, famoso por sua disposição em polemizar as características que, segundo o próprio, eram simultaneamente sobressalentes e ocultadas, cunhou a expressão “síndrome de vira-latas”.

Este termo, por sua vez, ganharia notoriedade por tratar de como este Brasil que emergia no século XX se apresentava ante outras nações, outros povos mais desenvolvidos que o brasileiro: de modo receoso, inibidor, covarde. Rodrigues, ao que me parece, procurou, com seu modo peculiar de enxergar o mundo, detectou uma “excessiva e deprimente humildade” no brasileiro quando confrontado com o estrangeiro; e estas elaborações eram feitas não raro tendo o futebol como objeto de análise.

Pois bem, depois de Sérgio Buarque e de Nelson Rodrigues, vieram os títulos da Copa do Mundo tão desejados pelos brasileiros. Hoje, o futebol, de um modo geral, e a seleção brasileira, sendo mais específico, ocupam um espaço indiscutível como assunto da mais alta importância a ser tratado em nosso país. E de fato o é, em várias instâncias (as cifras milionárias que circulam no universo do futebol profissional espetacularizado , a importância dada à educação física na formação educacional dos jovens, o espaço significativo que o futebol ocupa na mídia ou a mobilização da sociedade brasileira em épocas de Copa do Mundo são apenas alguns dos vários exemplos que podem ser dados). E quero aqui fazer algumas observações sobre impressões que tive nas recentes repercussões que as últimas apresentações da seleção brasileira de futebol geraram. Ao que me parece, a imprensa e a opinião pública brasileiras podem ser caracterizadas por um movimento pendular em que estas gostam de se localizar, partindo velozmente da euforia ao pessimismo exagerados. Relembremos então alguns episódios.

Logo depois da pouco comemorada medalha de bronze nos Jogos Olímpicos, o compromisso seguinte do Brasil foi pelas eliminatórias da Copa do Mundo, contra o Chile. Muita desconfiança por parte dos torcedores, cobranças dos que opinam via imprensa esportiva, e discursos de que a equipe, após o fracasso que se apresentava como eminente, sofreria alterações e sua comissão técnica – a começar, claro, por Dunga. Resultado do jogo: 3 a 0 para o Brasil. Repercussão do dia seguinte: manchetes eufóricas nos jornais (nos mesmos que no dia anterior previam a derrocada da equipe brasileira e preconizavam sobre o que poderia ser feito depois da tragédia). Euforia esta que contagiou as análises para a partida seguinte, e foi mantida até o empate sem gols contra a Bolívia.

Rapidamente, tanto a opinião pública, quanto a imprensa nossa de cada dia, nos deram mais uma demonstração de pouca paciência e se apressaram em classificar como o que supostamente seria falta de “qualidade”, “vergonha”, “empenho”, “amor à camisa”, prova clara de que o futebol “de hoje” não é mais como “o de antes”, e adjetivos equivalentes que fundamentaram suas observações apocalípticas sobre o futebol brasileiro. E o que me chamou a atenção foi este movimento pendular ter se repetido, de modo bastante parecido, na rodada do mês seguinte: vitória do Brasil por incontestáveis 4 a 0 sobre a Venezuela, comemorada euforicamente, seguida de novo empate sem gols contra a Colômbia, tratada mais uma vez sob uma perspectiva de pessimismo quanto ao que se vira e ao por vir.

Creio ser difícil pensar no futebol como uma entidade amorfa e independente de outras forças que atuam na sociedade. Logo, acredito que características facilmente detectáveis na sociedade brasileira, tais como a desigualdade social, a relação que o povo estabelece com os políticos por ele eleitos, ou o espaço que este povo confere aos ritos de ordem religiosa, repercutem, sim, em um dos fenômenos mais populares – quiçá o mais popular – desta sociedade. E por mais batida que possa parecer esta hipótese, acredito, sim, que estas tensões presentes na sociedade, associadas à valoração da seleção brasileira como um campo indelével do que há de melhor em nosso jeito de ser, despertam no torcedor uma perspectiva passional, tal qual a psicanálise aborda o assunto entre os amantes: criar no outro um objeto para contemplar o seu próprio desejo, que no final das contas tem mais a ver com a imaginação daquele que deseja do que com o modo como o outro desejado se apresenta para o mundo, para os outros e para este que o deseja.

Na terra do homem cordial e do complexo de vira-latas, essa tensa relação passional do torcedor brasileiro com sua seleção é evocada. Assim, ao que me parece, esse torcedor passional lida com a inconstância e imprevisibilidade do futebol, que são tão característicos desse esporte, com uma histeria parecida à do namorado ciumento e possessivo, impedindo que sua amada faça outra coisa da vida que não seja corresponder ao desejo dele.

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1 – HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. 4ª ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963, p. 137.
2 – RODRIGUES, N. A pátria em chuteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
3 – DAMO, A. S. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Ed., Anpocs, 2007, pp. 42-45.

*Paulo Nascimento, bacharel e licenciado pela Unesp-Franca, é membro do Gief. Pesquisou na graduação as repercussões que a Copa do Mundo de 1938 tiveram à época de sua realização na sociedade brasileira

Bibliografia

DAMO, A. S. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo & Rothschild Ed., Anpocs, 2007.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. 4ª ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963.

RODRIGUES, N. A pátria em chuteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.